domingo, 24 de abril de 2011

A Cura pelo Perdão

Todas as religiões e tradições de busca interior e meditação, em todas as épocas, colocam o perdão como prática essencial para a evolução do espírito do ser humano.  Sempre me impressionou a doçura e compaixão da frase de Cristo sendo crucificado: “Perdoai-os Meu Pai, eles não sabem o que fazem”, em contraposição ao “Olho por olho, dente por dente” do Código Hamurabi da Babilônia, que é a matriz da Justiça atual no planeta, bem ao gosto dos fundamentalistas e do período turbulento do Kali Yuga. A prática da confissão, presente em muitas tradições, reafirma o perdão como instrumento de purificação interior de quem está à procura do Si Mesmo. Vimos o mesmo gesto nobre no perdão do Papa João Paulo II ao misterioso atirador turco Ali Agca que tentou assassiná-lo, e vemos agora florecer  o mesmo movimento em tradições como Oneness Deeksha, ou o Ho’oponopono  do xamanismo hawaiano, em que a marca registrada é “me perdoe, eu amo você, obrigado”. Mesmo um nagual e xamã tolteca curtido e duro como Don Juan e o próprio Castaneda agradeciam aos “pequenos tiranos” por ter uma oportunidade de através deles trabalhar o seu próprio ego e evoluir. As dicas estão aí...
A famosa vidente, psicoterapeuta, curadora e escritora (Mãos de Luz, e Luz Emergente), Barbara Ann Brennan, que tem passe livre no território das energias interiores, invisíveis ao comum dos mortais, apresenta um texto encantador sobre o perdão, de seu mestre e mentor Heyoan. Mãos de Luz é uma leitura obrigatória para quem quer se dedicar à cura e saúde (alô médicos), e uma inspiração para quem quer comprender a essência da natureza humana (alô buscadores).

Barbara diz:
“Gostaria de apresentar uma das meditações de cura mais poderosa de quantas recebi de Heyoan. É a "meditação de cura através do perdão." Ela irá induzir uma contemplação profunda que pode curar as feridas internas de relacionamentos passados. 
O fator mais importante na cicatrização de feridas antigas no relacionamento entre as pessoas é o perdão.
Em geral, estamos mais conscientes de não sermos capazes de perdoar uma outra pessoa, do que não poder perdoar a nós mesmos. Todos nós já vimos o efeito produzido pelo fato de nós perdoamos alguém que nos ofendeu. Na maioria das vezes, lembramos de situações dolorosas em que alguém nos feriu e culpamos o outro.
Nossa crítica é superficial, mas no fundo, muitas vezes há um sentimento de culpa doloroso que não admitimos.
Muitas vezes, a outra pessoa não experimentou a situação como nós, e não pode sequer saber que nos magoou. Em certas circunstâncias, porém, o outro acredita que devemos nos desculpar para que ele possa nos perdoar. Em todas essas situações, estamos presos na dualidade. O perdão nos permite superar esta dualidade e ter acesso ao amor.
Nesta meditação, Heyoan nos dá uma perspectiva mais ampla.
O perdão nos ajuda a superar as críticas de "ele (a) fez isso comigo", com sua aguda e profunda culpa, e nós leva a uma compreensão única de o porque funciona o perdão.
Antes de começar, sugiro que você faça uma lista de pessoas presentes em sua vida que às quais você tem sido incapaz de perdoar. Então faça a seguinte meditação sobre o perdão. Vale a pena ler ou ter alguém que leia as instruções de Heyoan, ou então tente  conseguir  a fita deste material canalizado de Barbara Brennan. Ou então leia em voz alta durante a gravação de sua voz. A fita gravada, é muito mais pessoal, e pode-se mais facilmente assimilar descansando confortavelmente na cama com os olhos fechados.
Heyoan diz:
"A cura através do perdão.
Sinta uma coluna de luz dentro de você. Sinta uma estrela de  luz em seu coração, um pouco acima do umbigo. Não é por acaso que você está aqui. Você trouxe esse momento especial em sua vida para seus próprios objetivos, decorrente do seu desejo profundo e sagrado que você carrega no seu coração.
Quanto mais satisfizer esse desejo, mais se encontrará diretamente no caminho de uma vida feliz, satisfatória e criativa.
Gostaria hoje que você escolhesse uma pessoa com quem você tem dificuldades em sua vida e começasse a trabalhar e rezar para se alinhar com o perdão e a cura. Isso requer o seu perdão e o dessa pessoa. Como você sabe, a cura engloba toda a vida - de fato, todas as vidas que tiveram - e que estão além desta vida. Você  existe em um domínio muito maior do que o físico que é definido pelo tempo e espaço. Para você, o tempo e o espaço não são nada mais que limitações introduzidas nessa escola que você criou para o aprendizado dentro dela. Você criou as suas lições, a escola, você criou seus professores nessa escola, e apesar disso você é o mestre de toda essa criação. Você veio a este mundo para cumprir os seus objetivos próprios, que estão contidos no seu desejo sagrado. Agora eu pergunto: em relação à pessoa que você escolheu, como você traiu seu desejo sagrado e, portanto, causou uma situação que requer o perdão para você mesmo? Pode não ser uma resposta fácil e imediata. Mas se você se concentrar sobre ela, meditar e se conectar com ela e seu trabalho de cura, começará a compreender. Através de sua experiência de vida, fluirá uma compreensão mais profunda do que é dito aqui, a partir da fonte da vida que está dentro de você.
Sim, é verdade que você cria a sua experiência de vida. Você a desenha a partir da suprema sabedoria que há em você. Se houver dor, mostre a você o que ela diz, porque a dor vem de esquecer quem você é. A dor provém da crença de que a realidade obscura é a verdadeira realidade. Realidade obscura é o resultado de esquecer quem você é, com base na crença de que está isolado ou separado de tudo o que o cerca.
Eu digo  queridos, que qualquer doença, qualquer que seja sua forma ou manifestação, é o resultado esquecimento. Você vem para cá, o plano da Terra, para lembrar. Não deixe se angustiar sobre o assunto. Oriente sua força de vida no sentido da recordação de Si Mesmo, e sua iluminação despertará as partes da sua psique que estão mergulhadas na escuridão e dor.
Quando iluminá-las com a luz do divino, que existe em cada célula do seu corpo, em cada célula do se ser, a luz brilha sobre a  escuridão e ele começa a se lembrar. Lembrar-se é equivalente a reintegrar suas partes. Através da iluminação, você reintegrará partes de você e de seu corpo que se dissociaram e, portanto, tornaram-se doentes. É um novo começo, sim, você vai experimentar um pouco de dor, mas é uma dor que cura. As lágrimas deixarão a sua alma clara e limpa como chuva recém caída. Seu choro irá liberá-lo. Foi contido por séculos, esperando a chance de escapar. Todos os bloqueios de que se falou se dissolverão e se encherão de vida renovada. Vai vê-los  preenchidos com muito mais energia. Vai ver que sua vida está se movendo em direção à criatividade e alegria. Você se preencherá de uma dança com todos os que estão ao seu redor, e com o Universo.
Mas isso requer o perdão: o perdão em primeiro lugar a si mesmo. O que você precisa perdoar? Se você dedicar cinco minutos - e eu vou lhe pedir para fazer isso depois do meu pequeno discurso, - para elaborar uma lista das coisas que você deve perdoar, seria extensa. Mas não é difícil. Se você considerar todos os aspectos e meditar sobre eles por alguns minutos várias vezes por dia, vai aliviar seu coração do peso suportado. O perdão vem da divindade que você tem no interior. Meditando, rezando, e vivendo o seu perdão, você se  conecta com o divino que você carrega dentro. (Nota do redator: Isso é pura Recapitulação, do xamanismo tolteca. Coisa para lavar a alma...)
As próximas perguntas são: Como se manifesta cada aspecto que você perdoa, em sua psique e seu corpo físico? Como se expressa em seu campo de energia? Siga-os através dos sete níveis de experiência em seu campo de energia.
Onde está a dor em seu corpo que está associada com a atitude implacável que você tomou para você, e por isso manteve uma relação negativa com um determinado indivíduo a quem você acha difícil perdoar? A cura começa sempre por si mesmo.
Em seu interior, a uns 4 ou 5 cm acima do umbigo, há uma bela estrela. A Estrela do Seu  Centro. É a essência da sua individualidade. Esta essência é a sua individualidade divina. É o centro de sua condição de Ser. É o centro de quem você é, em absoluta paz antes, durante e depois de todas as vidas que você tem experimentado em sua Mãe Terra. Sinta esse lugar dentro de você. Você já existia antes desta vida. Existia antes do caos, dor e conflito que existe neste mundo, e vai continuar existindo...
Este centro da sua condição de ser é o centro de sua divindade. A partir dele você é o centro de todo o universo. É a partir desse lugar que você pode curar
Lembre-se de quem você é, e você vai ajudar os outros a lembrar-se de quem eles são. Porque é do centro do seu ser que emanam de todas as suas ações. Assim como suas ações se desligaram do centro de seu ser, você vai deixar de se alinhar com o seu objetivo divino. A ação desvinculada do objetivo divino é a causa da dor e da doença. Então, concentrem-se em seu centro. É a partir desse centro que vem o perdão.
Gostaria de agora mostrar o primeiro aspecto que deve ser perdoado em seu núcleo.
Tudo o que você acredita que precisa de perdão, se originou de algo que foi desligado do seu centro. Quando você fez isso, se desconectou do centro do seu ser, e suas ações se desalinharam da Fonte e passaram pela escuridão e esquecimento. Assim, se você pega o que deve ser perdoado, e você traz para o núcleo da estrela e mantém lá, rodeado e impregnado de amor, você pode voltar à luz através desse amor. Escontrará o  seu objetivo original, que surgiu a partir do seu centro. Quando você encontrá-lo, você pode retomar a criação original. Porque ao encontrá-lo, envolvê-lo e permeá-lo de amor, você vai encontrar o perdão em seu interior. Agora eu vou lhe dar alguns breves momentos para induzir perdoar a si mesmo desta maneira.
Quando esse perdão fluir em  todo o seu ser, você vai encontrar-se automaticamente perdoando as outras pessoas que podem estar envolvidos nesta situação particular que reclama o perdão".

domingo, 17 de abril de 2011

O Contador de Histórias

As histórias, contos e lendas tradicionais tem a magia e o poder de transformação interior. A arte de contar histórias é uma arte antiga importante das culturas centradas na busca interior do Si Mesmo,  Elas formam o pano de fundo do inconsciente coletivo, necessário para que uma cultura forme naturalmente seres humanos que acreditem no Espírito, no Sagrado, no Invisível, no Mágico... desde crianças. Eu fiz assim com meus filhos, contando As Mil e Uma Noites antes de eles dormirem. Foi assim no Egito, Mesopotâmia, Índia, Pérsia, China, Japão, Américas, Austrália...Mas não é só para crianças, não. Nós que nascemos no Ocidente afastados disso podemos aproveitar porque a boa história não tem idade nem lugar, e toca algo insuspeitado, lá no fundo da gente, que aos poucos cria frutos, apesar de nós mesmos.
Consegui uma bem humorada, resgatada no fundo do baú da Patrícia. É das nossas lembranças, nos velhos tempos de um grupo “esotérico” que ficou no passado. E vamos contar para vocês, com sotaque caboclo e tudo.
(atenção Portugal: caboclo ou caipira é o brasileiro filho do cruzamento de português com índio... ocidente com xamanismo indígena). A singela história abaixo é algo digno das Mil e Uma Noites, mas é uma história cabocla, parida dos meandros mágicos da mente do meu amigo Junqueirinha.
Para ter a sorte de ter acesso a essa coisas, é preciso estar na hora certa, no lugar certo. E conhecer gente de qualidade interior como ele, médico e buscador, a Patrícia, bruxa taoista e buscadora séria, e Yolanda, da mesma escola. Ela foi lida numa festividade num grupo Gurdjeff e depois publicada por volta de 2003 na revista Meditação. A revista não mais existe, mas a história foi resgatada. Criação de Junqueirinha. Pura filosofia esotérica cabocla.
Vamos lá. É o Junqueirinha contando, com pompa e circunstância de caboclo, bem no jeitão do grande Guimarães Rosa :
“ - Um dos personagens mais incríveis que já conheci é o Mathias, um caboclo do sul de Minas Gerais. Um dia destes, refletindo sobre os caminhos e a vida, lembrei-me de uma conversa que ouvi dele com sua mulher, Yolanda, na varanda de seu sítio. Aqui está a lembrança dessa conversa simples e singela, que continha todo um ensinamento"

"- João Mathias, tem alguma coisa nos homens que preste"? - a mulher pergunta.
- Ôô...Tem sim, Yolanda. Tem nos homens um “tar” de brilho. E esse brilho é uma coisa tão rara que, por causa dele, muito deus já perdeu a pose.
- E os homens, Mathias, eles sabem que têm esse brilho?
- De quando em vez eles desconfiam! E quando isso acontece, a deusarada fica tiririca e não perdoa! E sabe por quê?
É porque os deuses usam esse mesmo brilho dos homens pra criar eles cercados neste pastão enorme que nóis chama de "mundo"!
- Os homens cercados num pasto? E onde tá a cerca, que eu nunca vi ela?
- Ocê nunca viu ela porque é uma cerca muito esperta, uai! É uma cerca feita de espelho!
- Cerca de espelho?
- Um montão deles! Os espelhos da cerca manda o brilho dos homens de volta pra eles. Só que tem um problema: o brilho volta falsificado! Os espelho? são bem diferente um do outro. Tem espelho que devolve o brilho dos homens de volta pra eles na forma de raiva; tem espelho que devolve esse brilho na forma de inveja. Tem até espelho que devolve alegria, mas é aquela alegria besta, de perceber que tem alguém por aí que tá ainda pior que nóis!
E os deus, que não são nada bobo, vão manejando os espelhos e jogando um contra os outros pra poder conduzir os homens de acordo com suas próprias necessidades!
E com o passar do tempo, os homens acabam pensando que o que eles vê nos espelhos da cerca é o que tá acontecendo de verdade!
Esquecem que o brilho tá é dentro  deles mesmo e que eles têm um direito sagrado de brilhar na escuridão!
- Tá dizendo que os deuses estão contra os homens, Mathias?
- Nem tanto, Yolanda. Se ocê pensar melhor, dá até pra entender um pouco da cabeça desses deus! Os caboclos que eles enganam com o truque dos espelhos, eles "traça", e tá acabado! Os que começa a perceber o golpe, eles "malha" bem, quase “inté matá”, que é pra vê se o caboclo forma opinião!
Então, se algum desses consegue “vará” a cerca, aí eles convida pra brincá de deus com eles!
E como toda cerca tem dois lado, o lado de fora dela é bem diferente do lado de dentro: em vez dos espelho de enganá gente, tem um sistema de uns estilingue bem grande “dipindurado” na cerca. Os deus, depois de dançá quadrilha com os caboclo que “varô” a cerca, põe eles no bojo dos estilingue e dá uma baita estilingada cum eles. Aí eles vão pará num lugar tão alto e tão cheio de sossego, que por lá nem o Tempo passa!
É aí nesse lugar que o brilho dos homens vai aumentando, vai aumentando, inté explodir numa boniteza que num termina nunca mais!
- Ô Mathias, e o que eu faço pra podê atravessá a cerca?
- Agora ocê fez a pergunta certa!
Primeiro: carece de percebê que ocê tá no pasto! Pode num parecê, mas essa é a parte mais difícil do caminho!
Depois: ocê tem de procurá as trilha deixada pelos furador de cerca! E olha que tem trilha pra tudo que é gosto! Tem trilha de andá descarço pisando em ponta de prego! Tem trilha de entrá fardado e onde só se pode andá de bando! Tem inté trilha, que pra entrá nela carece falá inglêis! Agora, vou contá pra ocê...tem uma que é mesmo bem ladina: ocê chega na ponta dela e “infinca” os pé firme no chão! Aí é só ficá quieto, bem quietinho mesmo, sem cismá cum nada... e a trilha anda sozinha!..”


domingo, 10 de abril de 2011

Dois hemisférios, duas mentes...

Esse artigo também poderia se chamar Derrame e Iluminação. É um relato, feito na primeira pessoa, da tocante e expressiva experiência de um derrame, ou AVC (acidente vascular cerebral) sofrido pela Drª Jill Bolte Taylor, neuro-anatomista americana em 96. Ela relata passo a passo a sua própria experiência como médica e paciente ao mesmo tempo, como especialista da área, que é. Sujeito e objeto. Ela consegue então tocar um dos segredos do Invisível que é: “como somos e funcionamos interiormente nas duas mentes que estão anatomicamente relacionadas com os lados direito e esquerdo do cérebro". Se quiser uma mostra disso, veja a conhecida imagem da bailarina girando para um lado ou outro, conforme o lado do cérebro que a está focalizando. Se quiser ver clique aqui.
Nestes tempos confusos de Kali Yuga em que estamos procurando a Verdade, o Centro, a Consciência, a Alquimia da nossa natureza e do mundo, o relato da Drª Jill é um achado para qualquer buscador, vidente ou nagual empenhado com impecabilidade na busca interior do "Si Mesmo", seja um xamã como Castaneda, um estudioso do xamanismo ou meditação, ou qualquer um de nós mortais.
Ela é um desses raros profissionais atuais empenhados em juntar a tecnologia de ponta da Medicina com o Espírito. Ela diz:
"Comecei a estudar o cérebro porque  tenho um irmão diagnosticado com uma disfunção cerebral, a doença chamada esquizofrenia. E como irmã e cientista,  queria entender como  faço para  os meus sonhos se conectarem com a realidade e se tornarem verdade – o que é  que acontece com o cérebro de meu irmão e sua esquizofrenia, que ele não consegue conectar sua imaginação com o mundo real, e então ele se torna um doente.
Eu dediquei minha carreira às pesquisas sobre doenças mentais graves. Mudei-me de minha casa em Indiana para Boston, onde trabalhava no laboratório do Dr. Francine Benes, no departamento de Psiquiatria de Harvard. E, no laboratório, nós nos perguntávamos uma questão: Quais são as diferenças biológicas entre os cérebros de indivíduos diagnosticados como normais em comparação com os que são diagnosticados com esquizofrenia, ou transtorno bipolar?
Estávamos mapeando os micro-circuitos do cérebro, quais células estão se comunicando com quais células, através de quais elementos químicos e em que quantidade. Então havia muito sentido nesse meu tipo de vida, porque estava fazendo esse tipo de pesquisa durante meu trabalho. Durante a noite e nos finais de semana eu viajava pela NAMI (National Alliance on Mental Illness)
Na manhã de dia 10 de Dezembro de 1996  acordei e descobri que  tinha um distúrbio no cérebro: um vaso sanguíneo explodiu no lado esquerdo do meu cérebro. E durante quatro horas observei meu cérebro se deteriorar completamente em suas habilidades em processar qualquer informação. Na manhã da hemorragia eu não conseguia andar, falar, ler, escrever ou me lembrar da minha vida. Eu me tornei um recém-nascido no corpo de uma mulher adulta.
Se você já viu um cérebro humano, fica óbvio que os dois hemisférios são completamente separados um do outro”. Ela mostra um cérebro humano e diz: “aqui é a frente do cérebro, a parte de trás com o cordão espinhal pendurado e assim é como está posicionado dentro da minha cabeça. "E quando você observa o cérebro, é óbvio que os dois hemisférios são completamente separados um do outro. Para quem entende de computadores, nosso lado direito funciona como um processo paralelo. Já o nosso lado esquerdo funciona como um processador serial. Os dois hemisférios se comunicam através do corpus callosum, que é constituído de 300 milhões de fibras. Mas sem contar isso, eles são completamente separados. Como eles processam informação de forma diferente, cada lado do cérebro pensa em coisas diferentes, se importa com coisas diferentes – e posso dizer que têm "personalidades" diferentes.
Nosso hemisfério direito é todo focado neste momento presente, sobre aqui e agora. Ele pensa em imagens e aprende cinestesicamente (consciência corporal) através dos movimentos do corpo. Informação em forma de energia corre simultaneamente por todo nosso sistema sensorial. E então explode nessa enorme imagem (colagem) sobre o que significa o momento presente. Quais os cheiros desse momento, os gostos, como é sentido e como é escutado. Eu sou um ser de energia conectado com toda a energia a minha volta por essa consciência do agora do lado direito do meu cérebro. Nós somos seres de energia conectados uns aos outros através da consciência do hemisfério direito como uma única família humana. E nesse momento, agora mesmo, todos somos irmãos e irmãs nesse planeta e estamos aqui para fazer o mundo melhor. E esse momento é perfeito. Nós estamos unidos. E somos maravilhosos.
Já o meu lado esquerdo é um lugar bem diferente. Nosso lado esquerdo pensa de forma linear e metódica. Ele pensa sobretudo em nosso passado, e também no futuro. O hemisfério esquerdo é desenhado para pegar essa enorme imagem desse exato momento e capturar mais detalhes e mais detalhes e ainda mais detalhes sobre os detalhes. Então ele classifica e organiza todas essas informações. Associa isso com tudo que aprendeu no passado e projeta todas as possibilidades disso para o futuro. E nosso lado esquerdo pensa na linguagem. É esse fluxo constante de informação do cérebro que conecta meu mundo interno com meu mundo externo. É aquela voz dentro da gente que me diz: "Você precisa se lembrar de comprar algumas bananas quando voltar para casa, e comê-las pela manhã". É essa inteligência calculista que me lembra que tenho de lavar minhas roupas. Mas, o mais importante, é que essa voz me diz: "Eu sou fulano (a). Eu sou fulano." E, no momento em que meu hemisfério esquerdo me diz "Eu sou eu" eu me torno separado do mundo. Eu me torno um indivíduo separado do fluxo de energia à minha volta e me separo de você.
E essa foi a parte do meu cérebro que eu perdi na manhã do meu derrame.
Nessa manhã, acordei com uma dor pulsante no meu olho esquerdo. E era uma dor do tipo causado por aquelas mordidas em sorvete. E a dor vinha e desaparecia, vinha e desaparecia e era muito estranho para mim, sentir qualquer tipo de dor e então eu pensei: OK. Vou simplesmente seguir com minha rotina normalmente. Então eu fui até meu aparelho de ginástica, que é uma máquina que exercita todo o meu corpo. E eu estava me exercitando nele quando me dei conta de que minhas mãos pareciam com garras primitivas segurando na barra do aparelho. Pensei: "Isso é muito incomum" e então olhei para  meu corpo todo e pensei "Nossa, eu sou um ser esquisito". Isso foi como se minha consciência tivesse mudado da minha percepção normal da realidade, em que sou uma pessoa em um equipamento tendo uma experiência, para algo esotérico, onde eu era um espectador de mim mesmo tendo essa experiência.
Isso tudo foi muito incomum e minha dor de cabeça estava piorando, então saí do equipamento de ginástica e fui andando pela minha sala e percebi que tudo dentro do meu corpo estava lento, cada passo era muito firme e deliberado. O meu passo não fluía normalmente e tinha esse aperto na área de minhas percepções e eu estava focada nos meus sistemas internos. Então estou dentro do meu banheiro começando a tomar banho e eu podia ouvir o diálogo dentro do meu corpo, eu ouvi aquela voz dizendo "Músculos, agora é hora de contrair, músculos, esse é o momento de relaxar"
Perdi meu equilíbrio e me apoiei na parede. Olhei para baixo na direção do meu braço e percebi que não conseguia mais definir os limites do meu corpo, onde eu começava e onde eu terminava; porque os átomos e moléculas do meu braço estavam misturados com os átomos e moléculas da parede e tudo o que eu conseguia perceber e notar era a energia. Energia. E me perguntei: "O que está acontecendo comigo?" e nesse momento toda a "conversa" (no sentido de informação) do meu cérebro, do hemisfério esquerdo do meu cérebro, entrou em profundo silêncio, como alguém que pega um controle remoto e aperta o botão mudo – silêncio interior total.
No primeiro momento me senti chocada ao me sentir com a mente em total silêncio. Mas imediatamente me senti atraída pela magnífica energia à minha volta. E porque eu não conseguia identificar as fronteiras do meu corpo me senti gigante e expansiva, me senti como toda a energia é – e era muito bonito aquilo.
De repente o meu hemisfério esquerdo acordou e me disse: "Ei, nós temos um problema, e precisamos buscar ajuda" e era como, OK, OK, eu tenho um problema, mas eu voltava a essa consciência que eu carinhosamente dei o nome de La La Land (a terra do lá lá lá), e era lindo lá. Imagine estar completamente desconectado das informações no seu cérebro que o conectam com o mundo exterior. Então aqui estou nesse espaço e não existe nenhuma preocupação comigo, com o meu trabalho, tudo sumiu e eu me senti mais leve no meu corpo e imagine todos as suas relações com o mundo exterior e as várias preocupações relacionadas com elas, tudo tinha desaparecido. Senti uma sensação de paz e imagine o que seria sentir perder 37 anos de bagagem emocional! Senti euforia. Euforia é maravilhoso – e então meu hemisfério esquerdo voltou e disse: "Ei, você precisa prestar atenção, precisamos encontrar ajuda" e pensei "Vou conseguir ajuda, vou focar nisso" Saí do chuveiro, me vesti e andando pelo meu apartamento estava pensando "Eu preciso ir trabalhar, preciso ir trabalhar. Eu consigo dirigir? Eu consigo dirigir?"
Foi nesse momento que meu braço direito ficou paralisado e pensei "Ó meu Deus! Estou tendo um derrame! Estou tendo um derrame!" e a próxima coisa que meu cérebro me disse foi "Nossa! Isso é legal, isso é legal. Quantos neurocientistas têm a oportunidade de estudar seu próprio cérebro do lado de dentro?"
Mas veio algo em minha mente: "Sou uma mulher ocupada. Não tenho tempo para um derrame!" e era como se eu me dissesse: "OK, eu não posso parar o derrame, então vou fazer isso por uma semana ou duas e voltar a minha rotina"
Eu tinha que chamar ajuda, precisava ligar para o meu trabalho. Não conseguia me lembrar do número do telefone, me lembrei que em meu escritório em casa tinha um cartão com o número. Fui ao meu escritório e encontrei vários cartões juntos e estava olhando para o primeiro cartão e,embora eu conseguisse ver em minha mente como meu cartão era, eu não conseguia dizer se aquele era meu cartão ou não, porque tudo que eu conseguia ver eram pontos (pixels). E os pontos das letras se misturavam com os pontos do fundo e dos símbolos e eu não entendia. Teria que esperar um momento de clareza e então eu poderia saber qual era o cartão. Demorou 45 minutos para isso acontecer.
Nesses 45 minutos a hemorragia foi crescendo no meu cérebro, eu não entendia números, não entendia o telefone, mas esse era o único plano que eu tinha. Peguei o teclado do telefone e coloquei  o cartão ali, coloquei ali e  estava tentando combinar as formas no cartão com as formas no telefone. Só que em breve eu voltaria para a La La Land e não me lembraria qual número eu tinha discado ou não.
Tive que usar meu braço paralisado para cobrir os números à medida que os apertava, dessa forma eu saberia qual número tinha discado ou não. Consegui em certo momento discar todos os números e estava escutando o telefone e um colega meu atendeu e me disse: "Whoo, woo, wooo woo woo" Então pensei comigo "Meu Deus, ele parece um cachorro!" Então eu pensei claramente na minha mente "Aqui é a Jill! Eu preciso de ajuda!" E o que saiu da minha voz foi "Whoo woo wooo woo woo" Pensei "Oh Meu Deus, eu que pareço um cachorro" Assim eu não podia saber se eu não conseguia falar ou entender a linguagem humana.
Então ele percebeu que eu precisava de ajuda e me ajudou. Pouco tempo depois eu estava em uma ambulância indo de um hospital para outro, então eu me senti em uma pequena bola fetal e como um balão com somente um resto de ar dentro, senti minha energia me abandonar e senti meu espírito se rendendo. E nesse momento eu percebi que não era mais o coreógrafo da minha vida e nem os médicos que me resgataram e me deram uma segunda chance ou esse era talvez um momento de transição.
Quando eu acordei no final da tarde, fiquei chocada em descobrir que ainda estava viva. Quando senti meu espírito se rendendo, disse adeus à minha vida, e a minha mente estava agora suspensa entre dois planos opostos da realidade. Os estímulos que me chegavam me causavam dor. A luz queimava o meu cérebro como fogo e os sons eram tão altos e caóticos que eu não conseguia separar uma voz do som de fundo e só queria sair dali. Porque eu não conseguia identificar a posição do meu corpo no espaço, me sentia enorme e expansiva, como um gênio que acabou de ser libertado de sua lâmpada. E meu espírito parecia livre como uma baleia, navegando pelo oceano do silêncio eufórico. Harmonioso. Me lembro de pensar que não haveria como eu espremer novamente esse meu Eu enorme dentro daquele pequeno corpo.
E percebi: "Eu ainda estou viva! Ainda estou viva e encontrei o Nirvana. Encontrei o Nirvana e ainda estou viva, então todos que estão vivos podem encontrar o Nirvana". Imaginei um mundo cheio de beleza, paz, compaixão e pessoas que sabem que podem ir para aquele espaço na hora que quiserem e que  podem escolher de forma proposital sair (mudar) do lado direito do cérebro para o esquerdo e encontrar a paz. E então percebi que tremendo presente essa experiência poderia ser, que um derrame poderia mudar o modo como vivemos nossas vidas e isso me motivou a me recuperar.
Duas semanas e meia após minha hemorragia, os cirurgiões removeram um coágulo do tamanho de uma bola de golf que estava pressionando o meu centro de linguagens no cérebro. Aqui estou eu com minha mãe, que é um verdadeiro anjo na minha vida. Demorou oito anos para eu me recuperar.
Então, quem somos nós? Nós somos a força de vida poderosa do Universo, com habilidades manuais e duas mentes. E nós temos o poder de escolher, a cada momento, quem e como nós queremos ser no mundo. Aqui e agora, nós podemos entrar no nosso lado direito do cérebro – Eu sou – a força de vida poderosa do Universo, e a força poderosa de 50 trilhões de belas moléculas que me dão forma. Como um em tudo que é. Ou eu posso escolher pular para o lado esquerdo do meu cérebro, onde eu me torno um único indivíduo, sólido, separado de todo o fluxo, separado de você. Eu sou a Drª Jill Bolte Taylor, intelectual, neuro-anatomista. Esses são o "nós" dentro de mim.
O que você vai escolher? E quando? Acredito que quanto mais tempo escolhermos entrar nos profundos e pacíficos circuitos do nosso lado direito do cérebro, mais paz nós vamos projetar para o mundo e mais pacífico nosso planeta será. E eu acho que é essa idéia que deveria ser espalhada."



Atenção: Embreve vanos publicar o vídeo da Drª Jill. Tocante e bem humorado. Aguardem

sábado, 2 de abril de 2011

Muitos eus, só um mestre - História Cherokee

O filósofo, escritor e buscador russo do Quarto Caminho, P. D. Ouspensky, só escreveu coisa séria e boa. ( Em Busca do Milagroso, Tertium Organum, Conversas com o Diabo, e por aí afora...). No pequeno livro Psicologia da Possível Evolução do Homem, (79 págs.) que dá para ler em menos de 2 horas, ele fala das 5 conferências que escreveu em 1934. Um tesouro para quem está na busca interior. Numa delas ele diz “O homem é uma máquina”  afirmando que o ser humano é um marionete (ele usa a palavra títere). Diz que o homem tem uma “ilusão de que é uma unidade, de que tem um Eu permanente", porque tem um corpo físico único, um nome pelo qual atende quando o chamam, e os hábitos mecânicos adquiridos pela “educação” e socialização. Mas na verdade “não há um centro de comando, nem um Eu permanente, pois cada sentimento, sensação, desejo, gosto ou aversão é um “eu” que nos comanda por um tempo (um instante ou uma vida). Eles não estão coordenados e dependem das circunstâncias exteriores e da mudança de impressões” sobre cujo mecanismo, como diz Joe Vitale na publicação Limite Zero, “você não tem a menor idéia do que está acontecendo”. (rsrs)
Gurdjieff, seu guru durante um período, fala da estória do ser humano como sendo um conjunto feito de carruagem, cavalo, cocheiro e o dono (citada na publicação O Medo) onde o dono que deveria comandá-la com os arreios, está ausente e deixa tudo a cargo do cocheiro, um subalterno ( a mente racional) sujeita exatamente a “essa multidão caleidoscópica de eus” que a confundem.
Então você, que está lendo,  pergunta: “Eu vim aqui para ler sobre os índios Cherokee. O que eles tem a ver com isso?”
Tem razão... Vamos falar dos Cherokee:

“Existe uma antiga história dos índios Cherokee sobre o cacique de uma grande aldeia. Um dia, o cacique decidiu que era hora de orientar o seu neto favorito sobre a vida. Ele o levou para o meio da floresta, fez com que se sentasse sob uma velha árvore e explicou:
"Filho, existe uma batalha sendo travada dentro da mente e do coração de todo ser humano que vive hoje. Embora eu seja um velho e sábio cacique, o líder da nossa tribo, essa mesma batalha é travada dentro de mim. Se você não souber dessa batalha, ela o fará perder o juízo. Você nunca saberá que direção tomar. Às vezes vencerá na vida e, depois, sem entender o porquê, perceberá que está perdido, confuso, com medo, arriscado a perder tudo o que trabalhou tanto para ganhar. Você muitas vezes achará que está fazendo a coisa certa e depois descobrirá que fez as escolhas erradas. Se você não entender as forças do bem e do mal, a vida individual e a vida coletiva, o verdadeiro eu e o falso eu, você viverá a vida todo num grande tumulto”.
"É como se existissem dois grandes lobos vivendo dentro de mim; um é branco e o outro é preto. O lobo branco é bom, gentil e não faz mal a ninguém. Ele vive em harmonia com tudo à sua volta e não se ofende se a intenção não era ofender. O lobo bom, sensato e certo de quem ele é e do que é capaz, briga apenas quando essa é a coisa certa a fazer e quando precisa se proteger ou à sua família, e mesmo então ele faz isso da maneira certa. Ele toma conta de todos os outros lobos da matilha e nunca se desvia da sua natureza”
."Mas existe o lobo preto também, que vive dentro de mim, e esse lobo é bem diferente. Ele é ruidoso, zangado, descontente, ciumento e medroso. Basta uma coisinha para que ele se encha de fúria. Ele briga com todo mundo, o tempo todo, sem nenhuma razão. Ele não consegue pensar com clareza, porque a sua ganância para ter sempre mais e a sua raiva e a sua ira são grandes demais. Mas trata-se de uma raiva infrutífera, filho, porque ela não muda nada. Esse lobo só procura confusão aonde quer que vá, e por isso sempre acaba achando. Ele não confia em ninguém, por isso não tem amigos de verdade”.
O velho cacique ficou sentado em silêncio durante alguns minutos, deixando que a história dos dois lobos penetrasse na mente do jovem neto. Então ele lentamente se curvou, olhou fixamente nos olhos do menino e confessou, "Às vezes, é difícil viver com esses dois lobos dentro de mim, pois eles brigam muito para dominar o meu espírito".
Cativado pela história do ancião sobre essa grande batalha interior, o menino puxou a tanga do avô e perguntou, ansioso, "Qual dos dois lobos vence, vovô?" E com um sorriso cheio de sabedoria e uma voz firme e forte, o cacique diz, "Os dois, filho. Veja, se eu escolho alimentar só o lobo branco, o preto ficará à espreita, esperando o momento em que eu sair do equilíbrio ou ficar ocupado demais para prestar atenção às minhas responsabilidades, e então atacará o lobo branco e causará muitos problemas para mim e nossa tribo. Ele viverá sempre com raiva e brigará para atrair a atenção pela qual tanto anseia. Mas, se eu prestar um pouquinho de atenção no lobo preto, compreendendo a sua natureza, se reconhecê-lo como a força poderosa que ele é e deixá-lo saber que eu o respeito pelo seu caráter e o usarei para me ajudar se um dia eu ou a tribo estivermos em apuros, ele ficará feliz, e o lobo branco ficará feliz também, e ambos vencerão. Todos venceremos".
Sem entender direito, o menino perguntou, "Não entendi, vovô. Como os dois lobos podem ganhar?"
O cacique continuou a explicação: "Veja, filho, o lobo preto tem muitas qualidades importantes de que eu posso precisar, dependendo das circunstâncias. Ele é feroz, determinado, e não se deixará subjugar nem por um segundo. Ele é inteligente, astuto e capaz dos pensamentos e estratégias mais tortuosos, o que é importante em tempos de guerra. Ele tem os sentidos aguçados e superiores que só aqueles que olham através da escuridão podem apreciar. Em meio a um ataque, ele poderia ser o nosso maior aliado".
O cacique então tirou da sua bolsa alguns pedaços de carne defumada e colocou-os no chão, um à direita e o outro à esquerda. Ele apontou para a carne e disse, "À minha esquerda está a comida para o lobo branco e à minha direita está a comida para o lobo preto. Se eu optar por alimentar os dois, eles não brigarão mais pela minha atenção, e eu poderei utilizar cada um deles como precisar. E como não haverá guerra entre eles, poderei ouvir a voz da minha sabedoria profunda e escolher qual dos dois pode me ajudar melhor em cada circunstância. Se a sua avó quer uma carne para fazer uma refeição especial e eu não cuidei disso como deve-ria, posso pedir para o lobo branco me emprestar a sua magia e consolar o lobo preto da sua avó, que estará zangada e faminta. O lobo branco sempre sabe o que dizer e me ajudará a ser mais sensível às necessidades dela”.
“Veja, filho, se você compreender que existem duas grandes forças dentro de você e respeitar a ambas igualmente, as duas sairão ganhando e haverá paz. A paz, meu filho, é a missão dos Cherokee — o propósito supremo da vida. Um homem que tem paz dentro de si tem tudo. Um homem dividido pela guerra em seu íntimo não tem nada. Você é um jovem que precisa escolher como vai lidar com as forças opostas que vivem no seu interior. A sua decisão determinará a qualidade do resto da sua vida. E quando um dos lobos precisar de atenção especial, o que acontecerá às vezes, você não terá do que se envergonhar; poderá simplesmente admitir isso para os anciãos e conseguirá a ajuda de que precisa. Quando isso for de conhecimento público, aqueles que já travaram essa mesma batalha podem oferecer-lhe a sua sabedoria".
 

Essa história simples e pungente explica como é a experiência humana. Cada um de nós está em meio a uma batalha contínua, em que as forças da luz e da escuridão competem pela nossa atenção e pela nossa submissão. Tanto a luz quanto a escuridão habitam dentro de nós ao mesmo tempo.
Verdade seja dita: existe uma matilha inteira de lobos dentro de nós - o lobo amoroso, o lobo bondoso, o lobo esperto, o lobo sensível, o lobo forte, o lobo altruísta, o lobo generoso e o lobo criativo. Junto com esses aspectos positivos existem o lobo insatisfeito, o lobo ingrato, o lobo autoritário, o lobo desagradável, o lobo egoísta, o lobo indecente, o lobo mentiroso e o lobo destrutivo. Todo dia temos a oportunidade de reconhecer todos esses lobos, todas essas partes de nós mesmos, e escolher como iremos nos relacionar com cada um deles. Será que continuaremos condenando alguns e fingindo que eles não existem ou vamos tomar posse de toda a matilha?
Por que sentimos a necessidade de negar a matilha de lobos que vive em nós? A resposta é fácil. Ou achamos que ela não existe ou que não deveria existir. Tememos que, se admitirmos todos os diferentes “eus” que ocupam espaço na .nossa psique, de algum modo seremos rotulados de esquisitos, diferentes, prejudiciais ou psicologicamente fragmentados. Achamos que devemos ser pessoas boas e "normais", dentro das quais só mora um único eu. Mas existem muitos eus e a recusa em entrar em acordo com eles é um grave erro - que nos levará a cometer atos estúpidos e temerários de auto sabotagem. Eis o grande segredo: existem muitos eus contidos dentro do nosso "eu", pois dentro de cada um de nós existem todas as qualidades possíveis. Não há nada que possamos ver e nada que possamos julgar que não exista dentro de nós. Todos somos luz e escuridão, santos e pecadores, pessoas adoráveis e abomináveis. Somos todos gentis e calorosos, mas também frios e cruéis.
Dentro de você e dentro de mim existem todas as qualidades e defeitos conhecidos pela espécie humana. Embora possamos não estar conscientes de todas as qualidades que possuímos, elas estão adormecidas dentro e nós e podem despertar a qualquer momento, em qualquer lugar. A compreensão disso nos permite entender por que todos nós, que somos "bons", somos também capazes de fazer coisas ruins e, mais importante, por que às vezes nos tornamos os nossos piores inimigos.
Agora sou eu quem pergunta: Será que o russo Ouspensky aprendeu sobre os “eus” com algum cacique Cherokee?

Baseado no livro “Como entender o efeito sombra em sua vida” de Debbie Ford.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Japão, Kokorô

Após o desastre no Japão, muitos leitores pediram para falar algo aos buscadores sobre o assunto, do ponto de vista da busca interior, da meditação. A melhor coisa que ví e lí sobre o assunto foi a palavra da Monja Coen, conhecida monja budista que mora em São Paulo no Templo Busshinji, da tradição Soto Shu do Zen budismo japonês. Ela explica porque os japoneses estão surpreendendo o mundo com seu modo de fazer face às dificuldades, com compaixão:

"Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.

Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.
Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar.  Educação para ser capaz  de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo  de duas maneiras. A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas. Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.
Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém.  Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área.  As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.
Não furaram as  filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos – mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica,  alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.
Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.
Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques.  Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam.  Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de "kansha no kokoro": coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave.  Desculpe, sinto muito, com licença.

Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver.  Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta.  Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo.  Sumimasem.
Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.
O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei.  Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.
Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico.  As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de  resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.
Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.
Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas.  Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.
Aprendemos com essa tragédia  o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória,  nada é seguro neste mundo,  tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.
Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo  está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra.  O planeta tem seu próprio movimento e vida.  Estamos na superfície, na casquinha mais fina.  Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos.  O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos.  E isso já é uma tarefa e tanto.
Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.
Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.
Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.
Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas.  Todas eram e são pessoas de meu conhecimento.  Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência.  Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem dos Budas.

Mãos em prece (gassho)
Monja Coen

domingo, 27 de março de 2011

O mundo mágico tolteca de Don Juan e Castaneda

Don Juan, o índio yaqui mexicano, nagual e xamã, dizia que o “fato energético”, era o alicerce do conhecimento dos xamãs do México Antigo, e significava que “cada nuance do cosmo é uma expressão de energia”. Nós vemos as coisas no mundo, mas atrás delas, no Invisível, elas são energia. Tudo é energia. A partir do seu nível de xamãs, de onde “viam a energia diretamente como ela flui no Universo”, eles chegaram à conclusão (que é também um fato energético) de que o cosmo inteiro é composto de duas forças gêmeas que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre elas. Eles chamavam essas duas forças de “energia animada e energia inanimada”. É o Ying e Yang do Taoismo.
Eles viram que a energia inanimada não tem consciência. Consciência, para os xamãs, é uma condição vibratória da energia animada. Don Juan dizia que os xamãs do México antigo foram “os primeiros a ver que todos os organismos da Terra são possuidores de energia vibratória”. Eles os chamavam de "seres orgânicos", e viram que os próprios organismos determinam o grau da força de coesão e os limites dessa energia. Eles também viram que existem conglomerados de energia vibratória, energia animada, que têm uma coesão própria, livres das amarras de um organismo. Eles os chamavam de "seres inorgânicos", e os descreviam como pedaços de energia com coesão própria,  que são invisíveis ao olho humano, "energias cônscias de si mesmas" e que possuem uma unidade determinada por uma força aglutinadora diferente da força aglutinadora de um organismo.
Os xamãs da linhagem de Don Juan viram que a condição essencial da energia animada, orgânica ou inorgânica, é "transformar a energia no universo como um todo, em dados sensoriais", ou seja, dados percebidos pelos 5 sentidos e depois transformadas em "informações úteis no mundo em que vivemos". Essa é a função dos seres orgânicos e inorgânicos. No caso de seres orgânicos, estes dados sensoriais “brutos” são então transformados em um sistema no qual “a energia como um todo é classificada”, e há um produto final designado e percebido, para cada classificação, qualquer que ela possa ser. Em resumo, o sistema transforma qualquer energia nova e impensável que chega do "mar escuro da consciência" para nós, em algo conhecido no nosso mundo rotineiro. Temos então uma “consciência de segunda mão”. Depois disso há ainda um filtro chamado “desnate” pelo qual eu elimino determinados aspectos de uma dada percepção, que então já chega a mim “interpretada”, graças ao filtro do aprendizado social, e fico com uma cópia barata e simplificada dela.
De acordo com a lógica dos xamãs, no caso de seres humanos, “o sistema de interpretação de dados sensoriais é o conhecimento deles sobre o mundo que os rodeia”. Eles sustentam que esse conhecimento humano pode ser temporariamente interrompido, já que ele é apenas um sistema classificatório no qual o produto final, ou “o que é o mundo” é gerado a partir da interpretação de dados sensoriais. Quando essa interrupção ocorre, os feiticeiros afirmam que “a energia pode ser percebida por nós diretamente enquanto flui no universo”, sem interpretação nenhuma. É um fato chocante que pode ser o êxtase que os místicos em busca da divindade experimentam. Os feiticeiros descrevem o ato de perceber a energia diretamente como um feito semelhante a “ver com os olhos”, embora estes estejam minimamente envolvidos no processo.
Perceber a energia diretamente permitiu aos feiticeiros da linhagem de Don Juan “ver” os seres humanos como “conglomerados de campos de energia que têm a aparência de bolas luminosas”. Esse é o “ver” dos feiticeiros videntes. Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas como dissemos nas postagens A Auto Importância e no Pássaro da Liberdade, quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que eles “são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras. O que os feiticeiros toltecas sabiam sobre os conceitos complexos da Consciência, Percepção e Atenção, as ciências atuais da Psicologia e Parapsicologia estão hoje apenas começando a arranhar”, com todo o respeito. Observar os seres humanos dessa maneira levou esses xamãs a conclusões energéticas extraordinárias. Eles notaram que “cada uma dessas bolas luminosas está individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo; uma massa que eles chamaram de o Mar Escuro da Consciência (ou A Águia)”. Eles observaram que cada bola individual está ligada ao mar escuro da consciência por um ponto que é ainda mais luminoso que a própria bola luminosa. Esses xamãs o chamaram de “ponto de aglutinação”, porque perceberam que “é neste local, fora do corpo, que a percepção é aglutinada, e acontece”. O fluxo de energia como um todo é transformado, nesse ponto, em dados sensoriais, e “esses dados são então interpretados e formam o mundo que chamamos de mundo, e que nos rodeia”.
Quando Castaneda pediu a Don Juan para explicar como esse processo de transformação do fluxo de energia em dados sensoriais ocorria, ele respondeu que a única coisa que os xamãs sabem a respeito disso é que a imensa massa de energia chamada mar escuro da consciência (ou A Águia) abastece os seres humanos com o que quer que lhes seja necessário para converter essa transformação de energia em dados sensoriais, e que tal processo não poderia jamais ser decifrado devido à imensidão da sua fonte original.
O que os xamãs do México antigo descobriram quando focalizaram seu “ver” no mar escuro da consciência foi a revelação de que “o cosmo inteiro é feito de filamentos luminosos que se estendem infinitamente”. Os xamãs os descrevem como "filamentos luminosos que vão em todas as direções sem jamais tocar uns nos outros". Eles viram que existem filamentos individuais, e que, ao mesmo tempo, esses filamentos se agrupam em massas inconcebivelmente colossais.
Outra dessas massas de filamentos, além do mar escuro da consciência que os xamãs observaram e apreciaram por causa de sua vibração, era algo que eles chamaram “Intento”. E chamaram de “intentar” o ato de xamãs individuais focalizarem sua atenção nessa massa. Eles viram que “o universo inteiro era um universo de intento, e intento, para eles, era o equivalente a Inteligência”. Uma outra forma de chamar a Consciência.
O universo, portanto, era para eles um universo de suprema inteligência. A conclusão, que se tornou parte do mundo de conhecimento deles, foi que a energia vibratória, consciente de si própria, era inteligente ao extremo. Eles viram que a massa de intento no cosmo era responsável por todas as mutações possíveis, todo tipo de variações que aconteciam no universo, “não por causa de circunstâncias cegas e arbitrárias, mas por causa do intentar feito pela energia vibratória, no nível do próprio fluxo de energia”.
Don Juan salientou que no mundo da vida cotidiana que vivemos, "os seres humanos realizam intento e intentar, através da maneira pela qual eles interpretam o mundo". Don Juan, por exemplo, alertou Castaneda para o fato que “meu mundo cotidiano não era regido pela minha percepção, mas pela interpretação da minha percepção”. Ele deu como exemplo o conceito corriqueiro de "universidade", que àquela época era um conceito de suprema importância para Castaneda. Ele disse a ele  que universidade não era algo que se podia perceber com os sentidos, porque nem minha visão, nem a audição, nem o paladar, nem os sentidos táteis ou olfativos forneciam alguma pista sobre universidade. "Universidade acontecia, e fazia sentido somente no meu intentar", e para que eu pudesse construí-la ali, precisava de tudo que sabia pelo aprendizado social como uma pessoa civilizada, de uma forma consciente ou subliminar.
O fato energético de o universo ser composto de filamentos luminosos deu origem à conclusão dos xamãs de que "cada um desses filamentos que se estendem infinitamente é um campo de energia". Eles observaram que os filamentos luminosos, ou melhor dizendo, os campos de energia de tal natureza, convergiam e passavam através do ponto de aglutinação. Já que o tamanho do ponto de aglutinação no ser humano foi determinado como sendo o equivalente a uma bola de tênis moderna, somente um número finito de campos de energia, mas ainda assim numa quantidade incalculável, convergiam e passavam através daquele ponto.
Quando os feiticeiros do México antigo viram o ponto de aglutinação, descobriram o fato energético de que “o impacto dos campos de energia que passavam através do ponto de aglutinação era transformado em dados sensoriais”; dados que eram então interpretados e transformados no mundo da vida cotidiana que vemos. Estes xamãs atribuíram a homogeneidade do conhecimento entre os seres humanos ao fato de que "o ponto de aglutinação de toda a raça humana está localizado no mesmo lugar nas respectivas esferas luminosas energéticas que nós somos: na altura das omoplatas, à distância de um braço por trás delas, nos limites da bola luminosa."
Suas observações sobre ver o ponto de aglutinação levaram os feiticeiros do México antigo a descobrirem que "o ponto de aglutinação mudava de posição sob condições de sono normal ou extrema fadiga, doença ou ingestão de plantas psicotrópicas". Esses feiticeiros viram que "quando o ponto de aglutinação estava numa nova posição, um feixe diferente de campos de energia passava através dele, forçando o ponto de aglomeração a transformar estes campos de energia em dados sensoriais e interpretá-los, trazendo como resultado um outro mundo novo e real para se perceber, mundo esse diferente do que usualmente conhecemos". Esses xamãs afirmavam que cada novo mundo que surgia dessa maneira era um mundo totalmente inclusivo, real e abrangente, diferente do mundo da vida cotidiana, mas absolutamente similar a ele no fato de que “se podia viver, ter filhos, e morrer nele”.
Para xamãs como Don Juan Matus, "o exercício mais importante de intentar, resulta no movimento voluntário do ponto de aglutinação", para que ele atinja áreas predeterminadas no conglomerado total de campos de energia que compõem um ser humano. Isso significa que depois de milhares de anos de investigação, os feiticeiros da linhagem de Don Juan descobriram que existem posições-chave no interior da bola luminosa total que é o ser humano, onde o ponto de aglutinação pode estar localizado e onde o bombardeio resultante dos campos de energia sobre  o ponto pode produzir um mundo totalmente novo e real.
Don Juan me assegurou que "isso é um fato energético e que a possibilidade de viajar para qualquer um desses mundos, ou para todos eles, é a herança de todos os seres humanos". Ele disse que "estes mundos estão lá à vontade, da mesma forma que as questões às vezes estão pedindo para serem perguntadas, e que tudo o que um feiticeiro ou um ser humano precisa para chegar até esses mundos é intentar o movimento do ponto de aglutinação".
Outro item relacionado ao intento, mas transposto para o nível do intentar universal, era, para os xamãs do México antigo, o fato energético de que estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles era um fato energético que "o universo em geral é predatório ao máximo, mas não predatório no sentido em que entendemos esse termo: o ato de saquear ou roubar, agredir ou explorar os outros em benefício próprio. Para os xamãs do México antigo, a condição predatória do universo significava que “o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência”. Eles viram que "o universo cria quantidades incalculáveis de seres orgânicos e de seres inorgânicos". Exercendo pressão sobre todos esses seres, o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma "o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio". No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, “a consciência é o resultado final”.
Don Juan Matus e os xamãs de sua linhagem consideram consciência como “o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem”, não apenas as possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros. Don Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor. A função, o propósito, nessas circunstâncias, se torna uma necessidade das mais prementes. Livre das idealidades e das falsas metas, o homem só tem a função como sua força guia. Os xamãs chamam isso de “impecabilidade”. Para eles, ser impecável significa “dar o seu melhor, e mais um pouco, mas sempre economizando energia”. Eles então obtinham a função ao "ver a energia diretamente, conforme ela flui do universo". Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional, pragmático. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo de conhecimento.
O exercício de todas as unidades de conhecimento dos feiticeiros permitia a Don Juan e a todos os xamãs de sua linhagem chegarem a conclusões energéticas estranhas que, à primeira vista, pareciam fazer sentido apenas a eles e às suas circunstâncias pessoais, mas que, se examinadas com cuidado, podiam ser aplicadas a qualquer um de nós. De acordo com Don Juan, a culminação da busca dos xamãs é algo que ele considerava como sendo o fato energético supremo, não apenas para os feiticeiros, mas para todos os seres humanos da Terra. Ele o chamava de “jornada definitiva”.
"A jornada definitiva é a possibilidade que a consciência individual, ampliada ao seu limite máximo pela adesão do indivíduo ao mundo de conhecimento dos xamãs, poderia ser sustentada além do ponto no qual o organismo é capaz de funcionar como uma unidade coesiva, o que quer dizer “além da morte”". Essa consciência transcendental era compreendida pelos xamãs do México antigo como sendo a possibilidade de que a consciência dos seres humanos ultrapassasse tudo que é conhecido, e chegasse, dessa forma, ao nível de energia que flui no universo. Xamãs como Don Juan Matus definiam sua busca como “a busca de se tomar, no final, um ser inorgânico”, significando que "essa energia cônscia de si mesma continuava após a morte, atuando como uma unidade viva, mas sem um organismo, um corpo como o conhecemos". Eles chamavam esse aspecto da cognição deles de liberdade total, um estado no qual a consciência existe livre das imposições de socialização e sintaxe".

domingo, 20 de março de 2011

Contemplar – 1 (a natureza da mente)

Para se falar de meditar, ou contemplar, é preciso entender um pouco da natureza da mente, e de alguns pontos iniciais que formam a paisagem necessária para a compreensão.
No início deste blog falamos da dádiva que é acreditar no invisível. A gente porém, ao contrário, só acredita nas impressões trazidas pelos 5 sentidos, arquivadas pela memória, e operadas por algo racional que chamamos erroneamente de mente. Essa limitação é algo como um computador simples com um software rudimentar.
Nós temos uma grande dificuldade em imaginar uma outra dimensão da realidade graças a essa construção limitada que produzimos   e operamos, e que achamos que é tudo, todo o universo.
O que é a mente?  O que é necessário para compreendê-la?
A tradição budista tibetana afirma há milhares de anos, que são necessárias 3 coisas para que a gente compreenda a verdadeira natureza da mente: um mestre autêntico, um discípulo autêntico, e também uma linhagem autêntica, ou seja uma corrente de transmissão do Ensinamento que não foi interrompida. Particularmente para mim isso faz todo o sentido, pois mesmo sem saber se tinha um mestre autêntico, passei como discípulo pelo processo de uma linhagem que cortou sua ligação com a corrente de transmissão no meio do caminho. Um desastre.
O discípulo precisa achar essa abertura, alimentá-la constantemente, aumentar a sua visão, disposição, entusiasmo e respeito. Isso vai mudar a atmosfera de sua mente e torná-lo aberto à sua apresentação a ele. Eles chamam isso de devoção. Sem ela o mestre mostra a natureza da mente, mas o discípulo não reconhece. Eles dois tem que formar uma dupla de corações e mentes, e o método utilizado por milhares de anos é o mesmo que formou o mestre no passado e possibilita agora que ele continue a corrente de transmissão.
O mestre simplesmente desperta o discípulo para a presença viva da iluminação que já está dentro de nós esperando ser despertada. É disso que trata a lenda da Bela Adormecida. O discípulo então reconhece a inseparatividade entre ele, o mestre, entre a mente de sabedoria do mestre e a natureza da mente do aluno. E os dois não mais se separam. Surge então uma imensa gratidão, respeito e assombro, que o mestre Dudjom Rinpoche chama de “a homenagem da visão”.
“A mente é a base universal da experiência” e a grande descoberta do Budismo, como diz Sogyal Rinpoche, é que “a vida e a morte estão na mente, e em nenhum outro lugar”. Há dois aspectos dela que se sobressaem: um é a mente ordinária, pensante, dualista, discursiva, que só funciona de fora para dentro, a partir de um ponto de referência ou estímulo externo.  Chama-se “sem”. É esperta como um político corrupto, desconfiada, cética e engenhosa nos jogos de engano. A outra é a verdadeira essência da mente, que é absoluta, intocada pela mudança e pela morte. É chamada “Rigpa” , a verdadeira raiz da compreensão, o conhecimento do conhecimento. É o que os santos e os padres do deserto do Cristianismo Esotérico tocaram em suas experiências de êxtase.
Nós, que vivemos essa era de ceticismo e descrédito de tudo, achamos que nunca chegaremos a isso, que  “isso é para o Buda”, mas ele trouxe, quando se iluminou, uma mensagem simples e inspiradora de que “a iluminação está ao alcance de todos”. A nossa natureza búdica está sempre presente, seja como for a nossa vida. É um céu, independente das nuvens passageiras que o estão cobrindo.
Mas por que é tão difícil perceber a natureza da mente? Os ensinamentos nos falam em 4 erros:
•    “Ela está próxima demais”, e muito rente a nós para ser reconhecida. Como o nosso próprio rosto.
•    “É profunda demais para ser sondada” pelos meios comuns de que dispomos.
•    “É fácil demais para acreditarmos nela”. O que precisamos fazer é “não fazer” (rsrs), somente repousar na consciência  pura da natureza da mente, que está sempre presente, à nossa disposição.
•    “É maravilhosa demais” e vasta demais para caber no nosso jeitão estreito de pensar.
Se isso é verdade e ensinado no Tibet, uma cultura tranqüila e centrada na busca da iluminação, o que se dirá da nossa civilização moderna, com as armadilhas dispersivas dessa cultura dedicada à busca da ilusão...
Não existem informações gerais sobre a natureza da mente na nossa cultura. Só vemos teorias centradas em estudos biológicos do corpo e cérebro, com uma parafernália de equipamentos de “última geração”, buscando a “rebimboca da parafuseta” para colocá-la na mídia como um trunfo da ciência. Os escritores, intelectuais e filósofos falam pouco e mal disso, e o assunto não faz parte da cultura popular com nas culturas orientais. A nossa crença é de que só é real o que percebemos com os 5 sentidos. Como foi apresentado na postagem O pânico, a cura, o mestre, quando foi que vimos no ocidente um garoto de 9 anos interessado e motivado pelos pais a meditar?
Temos alguns vislumbres da natureza da mente mas a nossa cultura não tem contexto para nos ajudar a entender. Vivemos fora do centro energético, na beirada de uma galáxia, num sistema solar minúsculo, num pequeno planeta, no lado ocidental não dedicado ao invisível, e como se não bastasse, em pleno Kali Yuga (mais rsrs). Nossa escolha foi essa. É por isso que temos que “fazer o máximo, o tempo todo”, como disse Don Juan a Castaneda. Esse blog é uma minúscula tentativa de ajudar nesse sentido.
Como fazer para mudar isso? É simples. Nossa mente tem um interruptor com duas posições: olhar para fora e olhar para dentro. Vamos olhar para dentro. Como? Só olhar, sem fazer nada. No máximo tentando como apoio a atenção sobre a respiração. Ainda tem muito assunto ainda neste blog sobre isso no futuro.  Aguardem...

sábado, 12 de março de 2011

A impermanência

A impermanência é um complô, ou uma dádiva. Depende de como se olha a coisa: complô, se não queremos mudanças, dádiva se buscamos a evolução através de todas as experiências possíveis ao humano, como sugere o carroussel mutável do zodíaco. É através das nossas experiências mais a de todos os seres orgânicos e inorgânicos, que O Mar Escuro da Consciência (ou A Águia), gera a si mesmo a todo instante, segundo os videntes do Antigo México. E todas as outras tradições concordam.
È uma palavra estranha: "não permanência". Para os budistas é familiar, mas para os ocidentais não muito, porque os ocidentais se consideram “imortais” e, portanto, mais permanentes, quase eternos.
O conteúdo por trás da palavra é “tudo muda, nada permanece”.
Aliás, curiosamente, só há no Universo apenas uma lei que não muda. É a lei de que tudo muda, nada é permanente. Daí a preocupação que todos nós temos com o futuro, ou seja o que vem por aí.
Nós porém, na contra mão, queremos tão desesperadamente que as coisas continuem iguais, que passamos a acreditar nesse faz-de-conta de que elas vão permanecer iguais. E quando muda, é um auê...muito "ai meu Deus", muito sofrimento.
O I Ching, o livro das mutações, considerado o mais antigo já escrito no planeta, só trata disso, e na esteira dele vem todas as técnicas e artes adivinhatórias de todas as culturas conhecidas: Astrologias, Tarô, bola de cristal, Cafeomancia, Cartomancia, Cruz Celta, Dadomancia, Eneagrama, Grafologia, Numerologia,  Kabalah, Quadrado Mágico, Quiromancia, Runas, borra de café, tripas de animais...o diabo. A quantidade delas já mostra o interesse das pessoas. O curioso é que todas essas técnicas tem duas vertentes: a mais nobre, do “conhecer a si mesmo”, e o subproduto menos nobre “prever o futuro”. Vocês já sabem qual é a mais procurada...
A rigor se nós conseguíssemos viver no Agora, não se precisaria saber o futuro, porque ele não existe como coisa concreta em si, determinada, é só uma conseqüência de o que fazemos no presente. Se pensarmos bem, a razão dessa angústia com o futuro é que a principal e mais assustadora conseqüência da Impermanência, é que “nós somos seres que vamos morrer”, como disse Don Juan. Todos, sem exceção. A receita para o sofrimento decorrente da idéia da morte é trabalhar o apego. A cada instante.
A idéia da morte é um tabu para os ocidentais em geral. Como dissemos na postagem A Morte Como Conselheira, inspirada na obra do xamanismo tolteca de Castaneda, “a morte é sempre a dos outros e não a minha”. Somos como crianças que fecham os olhos no jogo de esconde-esconde e pensamos que assim ninguém pode nos ver. E vivemos alegremente o samsara, esse mundo das ilusões. Hipnotizados por essa coisa ilusória mas convincente que é variedade de percepções, nós vagamos perdidos nesse círculo vicioso do samsara”.
Talvez a razão mais profunda de termos medo da morte é que não sabemos quem somos. Nossa “identidade individual” depende do nosso nome, documentos, biografia, amigos, família, lar, emprego, cartão de crédito, etc.. Nisso apoiamos nossa segurança. Se isso for retirado, quem somos? É por isso que queremos barulho, agitação e atividade para não ficarmos em silêncio frente a esse ser desconhecido e estranho que há em nós.
O que chamamos de personalidade é apenas um fluxo mental. Para onde foi o se sentir bem de ontem? As circunstâncias mudam, as influências também, e nós mudamos junto. Somos impermanentes como as influências. O grande problema é que nos achamos imortais, pela forma que agimos.
Montaigne disse que “não sabemos onde a morte nos espera: então vamos esperá-la em toda a parte. Praticar a morte é praticar a liberdade. Quem aprendeu a morrer, desaprendeu a ser escravo”.
A sociedade moderna é uma celebração de tudo que nos afasta da Verdade. É a promoção do samsara e de suas distrações. Ele se alimenta da ansiedade e depressão que ele mesmo produz, num círculo vicioso sutil, que só conseguimos perceber na meditação. Mas viver a sério não é só meditar como se vivêssemos no Himalaia. Temos que trabalhar e ganhar o pão, mas sem nos deixar dominar por esse moedor de carne que é o trabalho das 8 às 6, e portanto ter um significado mais profundo da vida. O segredo da vida equilibrada é a simplicidade e disciplina.
Disciplina é fazer o apropriado, ou seja numa época complexa, simplificar as nossas vidas, mesmo quando vivenciamos o êxtase das experiências interiores.
É preciso deixar as coisas irrelevantes, e buscarmos a simplicidade: trabalhar, consumir e desperdiçar menos. Em resumo, diminuir a bagagem, o que já é um exercício de morrer, por causa de nosso apego. Como disse Armando Torres no livro “Encontros com o Nagual,” estamos de passagem, somos viajantes temporários e estamos num mundo-prisão”. Vamos embora sem levar nada". Nem ao menos o corpo e a mente comum. Em tibetano, LÜ (corpo) significa “algo que se deixa para trás”. E ele continua cutucando: "Você sabia que a árvore de que será feito o seu caixão, provavelmente já foi cortada?"
O mundo é seguro até que a morte nos expulsa do abrigo. O que será que  acontece então conosco, se nada sabemos de uma realidade além do mundo? Ao perdermos o corpo, a mente permanece? (esse macaco louco onde pensamentos desconexos surgem de não-se-sabe-onde).  E podemos confiar nela? Se não, em quem confiar? O que é que sobrevive à morte? Você sabe? Não? Que fria hein, cumpadre (ou cumadre - rsrs)... Pense bem: você vai para um lugar desconhecido, sem bagagem, ninguém lhe deu instruções sobre quem ou o que vai encontrar, nem como agir, nem que língua falam, nunca foi a um seminário sobre o assunto, não sabe nem o que vai levar – corpo, mente, posses e dinheiro seguramente não – e você está aí nessa calma de senador da república? Como dizia o Gil, “se oriente, rapaz”...Uma dica: O Livro Tibetano do Viver e do Morrer do lama tibetano Sogyal Rinpoche, versão do “Bardo Thodol -  Livro Tibetano dos Mortos” adaptado à cultura ocidental. A impermanência é paradoxalmente a única coisa que podemos manter. O nosso último bem. Leve-a com você.
Se dedicarmos à meditação e à morte um décimo do tempo que dedicamos à energia sexual, preocupação, pressa e ganhar dinheiro, a iluminação virá em pouco tempo (rsrs)
Precisamos nos sacudir e perguntar de fato: E se eu morrer esta noite, o que vai ser? Pois nunca se sabe o que vem primeiro – amanhã ou a próxima vida. Alguns mestres tibetanos dormiam com os copos emborcados na cabeceira. Não sabiam se iriam usá-los novamente. Eles conviviam com a morte iminente.
Duas perguntas do lama tibetano:
•    Estou me lembrando a todo instante que eu e tudo à minha volta estamos morrendo e portanto trato a todos com compaixão?
•    Isso me faz a cada segundo buscar a compreensão, a iluminação?


Keneth Ring em seus livros conta uma frase dita por um homem numa experiência de quase morte: ”há coisas que cada pessoa foi enviada à Terra para realizar e aprender. Por exemplo, partilhar mais amor, ser mais amorosa com os outros. O que você fez em benefício da espécie humana, para mostrar que está quites com a vida?” Foi isso que uma luz perguntou a ele, quando estava do lado de lá... Então temos ainda muito trabalho do lado de cá...


Texto baseado em O Livro Tibetano do Viver e do Morrer - Sogyal Rinpoche 




domingo, 6 de março de 2011

O Timo, chave da Energia Vital

O timo, esse desconhecido, faz parte das 7 glândulas de secreção interna que temos. Elas são chamadas assim porque não tem um duto que joga o seu produto no organismo, o que é feito através do sangue diretamente, e/ou mesmo por transmissão de energia. As sete glândulas (Pineal, Pituitária, Tireóide, Timo, Pâncreas, Supra-Renais, e Sexuais) como não podia deixar de ser, tem correspondência estreita com outros conjuntos de sete elementos que permeiam a criação do nosso universo como, as 7 camadas da aura, os 7 chakras, as 7 cores do espectro de luz, as 7 notas musicais, as 7 epístolas às 7 igrejas (citadas no livro bíblico das Revelações ou Apocalipse), os 7 níveis do Raio de Criação ensinados por Gurdjieff, as 7 virtudes, os 7 pecados capitais, a Lei do 7 (também chamada de Lei da oitava) e por aí afora...
O timo tem uma estreita correspondência energética com o 4º chakra (Anahata) de 12 pétalas. É o chakra do coração, de cor verde, ligado ao elemento Ar, o Amor, relacionamentos, respiração, compaixão. Seu significado em sânscrito é “inatacável, ileso” ( vale a pena vê-lo clicando aqui: “Os Chakras Iluminados”). É o chakra que une céu e terra, mente e corpo, masculino e feminino e ao ser acionado pela energia da kundalini ao ser despertada, produz a ligação com o coração universal.
O timo, em termos médicos, é um dos pilares que sustenta o nosso sistema imunológico produzindo entre outras coisas um exército de agentes (linfócitos-T) que reconhecem e destroem as ameaças ao organismo e à integridade das células  sadias . É a inteligência que distingue o amigo do inimigo em nível celular, e portanto importantíssimo nesses tempos de Aids e doenças auto imunes.
Sonia Hirsch, escritora (que entre outros escreveu “O Manual do Herói”, um livro interessante e de bem com a vida), da qual sou fã de carteirinha, jornalista e batalhadora bem humorada na área de saúde alternativa, diz:
“No meio do peito, bem atrás do osso esterno, onde a gente toca quando diz Eu, fica essa pequena glândula. Seu nome em grego, thymos, significa energia vital. Precisa dizer mais? Precisa, porque o timo continua sendo um ilustre desconhecido.
Ele cresce quando estamos contentes, encolhe pela metade quando nos estressamos e mais ainda se adoecemos. Esta característica iludiu durante muito tempo a medicina, que só o conhecia através de autópsias e sempre o encontrava encolhidinho. Supunha-se que atrofiava e parava de trabalhar na adolescência, tanto que durante décadas os médicos americanos bombardeavam timos adultos perfeitamente saudáveis com mega doses de raios-x, achando que seu tamanho “anormal” poderia causar problemas.
Mais tarde a ciência demonstrou que, mesmo encolhendo após a infância, continua totalmente ativo: é um dos pilares do sistema imunológico, junto com as glândulas adrenais e a espinha dorsal, e está diretamente ligado aos sentidos, à consciência e à linguagem. Como uma central telefônica por onde passam todas as ligações, faz conexões para fora e para dentro. Se somos invadidos por micróbios ou toxinas, reage produzindo células de defesa na mesma hora.
Mas também é muito sensível a imagens, cores, luz, cheiros, sabores, gestos, toques, sons, palavras, pensamentos. Amor e ódio o afetam profundamente. Idéias negativas têm mais poder sobre ele do que vírus ou bactérias  já que não existem em forma concreta, o timo fica tentando reagir e enfraquece, abrindo brechas para sintomas de baixa imunidade como herpes, por exemplo. Em compensação, idéias positivas conseguem dele uma ativação geral de todos os poderes, lembrando a fé que remove montanhas.
Um teste simples pode demonstrar essa conexão. Feche os dedos polegar e indicador na posição de OK, aperte com força e peça para alguém tentar abri-los enquanto você pensa “estou feliz”. Depois repita pensando “estou infeliz”. A maioria das pessoas conserva a força nos dedos com a idéia feliz e enfraquece quando se pensa infeliz. (Substitua os pensamentos por uma bela sopa de legumes ou um lindo sorvete de chocolate para ver o que acontece...)
Este mesmo teste serve para lidar com situações bem mais complexas. Por exemplo, o médico precisa de um diagnóstico diferencial - seu paciente tem sintomas no fígado que tanto podem significar câncer quanto abscessos causados por amebas. Usando lâminas com amostras, ou mesmo representações gráficas de uma e outra hipótese, testa a força muscular do paciente quando em contato com elas e chega ao resultado. As reações são consideradas respostas do timo e o método, que tem sido demonstrado em congressos científicos ao redor do mundo, já é ensinado até na Universidade de São Paulo (USP), a médicos acupunturistas.
(Nota da redação: esse teste recebeu o nome de BDORT – “Bi-Digital O-Ring Test”, ou "teste do anel com dois dedos em forma de 'o' ". É muito usado na medicina alternativa como forma de diagnóstico quando a medicina alopática falha. Mais informações no Google, é claro. Ele funciona mesmo (Eu escriba aqui, já fiz para testar comidas e bebidas boas e ruins para mim).
O detalhe curioso é que o timo fica encostadinho no coração, que acaba ganhando todos os créditos em relação a sentimentos, emoções, decisões, jeito de falar, jeito de escutar, estado de espírito... “Fiquei de coração apertadinho”, por exemplo, revela uma situação real do timo, que só por reflexo envolve o coração. O próprio chakra cardíaco, fonte energética de união e compaixão, tem muito mais a ver com o timo do que com o coração – e é nesse chakra que, segundo os ensinamentos budistas, se dá a passagem do estágio animal para o estágio humano.
“Lindo!”, você pode estar pensando, “mas e daí?” Daí que, se você quiser, pode exercitar o timo para aumentar sua produção de bem-estar e felicidade.
Como? Pela manhã, ao levantar, ou à noite, antes de dormir.
Fique de pé, os joelhos levemente dobrados. A distância entre os pés deve ser a mesma dos ombros. Ponha o peso do corpo sobre os dedos e não sobre o calcanhar, e mantenha toda a musculatura bem relaxada.
Feche qualquer uma das mãos e comece a dar pancadinhas contínuas com os nós dos dedos no centro do peito, marcando o ritmo assim: uma forte e duas fracas. Continue por três a cinco minutos, respirando calmamente enquanto observa a vibração produzida em toda a região torácica.
O exercício estará atraindo sangue e energia para o timo, fazendo-o crescer em vitalidade e beneficiando também pulmões, coração, brônquios e garganta. Ou seja, enchendo o peito de algo que já era seu e só estava esperando um olhar de reconhecimento para se transformar em coragem, calma, nutrição emocional, abraço.
Ótimo. Íntimo. Cheio de estímulo. Bendito timo”.

O meu amigo Pepe (José Alvares Mosig), médico e pesquisador da USP, em um artigo brilhante, diz o seguinte sobre o Timo:
“Foi citado na Grécia por Platão, Sócrates e Aquiles. Para Platão, thymos é a parte da alma que denota o orgulho, a indignação, a vergonha e a necessidade de reconhecimento. É um atributo guerreiro, um aspecto da vida interior que dá significado à beligerância. Sem thymos o homem não é mais do que um animal muito inteligente, com cérebro e necessidades físicas, mas sem autonomia moral. Para Platão, thymos coexiste em nós com a razão e os desejos, sendo que, às vezes, nos leva a agir de uma maneira não razoável. Fechando com chave de ouro esta investigação sobre a etimologia de timo, fiquei estarrecido ao me deparar com o Livro 2 da “República”, e mais especificamente com o capítulo sobre “o Caráter e a Educação dos Guardiães”, em que Platão escreve: “A cidade luxuosa (nosso corpo) terá necessidade de um exército e portanto, de uma classe de especialistas, chamados ‘Guardiães’ (phylakes), os defensores da polis (cidade). A justiça será um dos seus objetivos mais importantes. Para realizarem bem o seu trabalho, os ‘Guardiães’ deverão ser dotados de vigor físico, de thymos, da capacidade de se comportar gentilmente com aqueles conhecidos e agressivamente com aqueles desconhecidos.” Uma bela descrição do thymos no nosso peito, tanto da entidade anímica, como do timo físico, berço e educador dos guardiães da identidade molecular do indivíduo”.
Como vocês vêem, o timo é como nós, um desconhecido mas importante (rsrs)



Essa postagem foi transcrita, com adaptações e acréscimos, de dois artigos. Um da escritora de saúde alternativa e jornalista Sonia Hirsch, (http://www.correcotia.com/) e outro do meu amigo Pepe, médico e pesquisador, ambos citados acima.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O pânico, a cura, o mestre

Nascido em 1975, em Nubri, Nepal, Yongey Mingyur Rinpoche é uma estrela em ascenção da nova geração de mestres do budismo tibetano treinados fora do Tibet.
Aos 3 anos, foi formalmente reconhecido pelo 6º Karmapa como a sétima encarnação de Yongey Mingyur Rinpoche, um estudioso e adepto da meditação do século XVII conhecido como o mestre de métodos avançados da prática budista.
(Nota: Os Karmapas, seres que podem olhar simultaneamente para tudo no passado, presente e futuro, da mesma forma como nós olhamos para algo na palma de nossa mão, são uma linhagem de encarnações de mestres da qual o 6º, Thongwa Donden, também músico, foi o responsável pela sistematização da prática litúrgica Karma Kagyu usada nos rituais)
Vale notar que a palavra Rinpoche - que pode ser traduzida do tibetano como “Precioso” – é um título vinculado ao nome de um grande mestre, similar à forma como o título PhD é agregado a um ocidental considerado especialista em várias áreas do conhecimento.


A entrevista

- O senhor praticava meditação antes de receber treinamento formal?

YMR – Sim. Eu tentava praticar embora não tivesse idéia do que era meditação. Às vezes eu entrava na gruta e fazia de conta que meditava, e minha avó ficou muito apreensiva, pois um dia achou que eu tinha me perdido. Ela pediu para as pessoas me procurarem, e finalmente ela me achou na gruta e disse “Uh! Não faça isso de novo!”, mas, (risos) eu fiz mesmo assim e então ela aceitou e disse: “Se você for para essa gruta, tudo bem”. Então eu tinha permissão da minha avó e da minha mãe. Um dia eu estava sentado lá e fingia meditar - eu não tinha idéia de o que era meditação – mas havia aquele mantra “Om Mani Padme Hum”, todos usam esse mantra em nossa aldeia. Nós os chamamos de mantra da compaixão, o mantra da sabedoria da compaixão. (Nota: esse mantra é muito reverenciado pelos seguidores do atual  14º Dalai Lama. Apesar de afirmarem que não tem uma tradução só, afirma-se que significa “Recebemos a jóia da consciência divina, no centro do nosso chakra da coroa”).
E pensei “talvez eu deva dizer isso mentalmente enquanto estiver na gruta.” E fiz isso. E me senti bem melhor . Quando eu tinha 9 anos, pedi a meu pai, que era um grande mestre de meditação - mas eu era tímido para pedir diretamente - pedi à minha mãe para me ajudar a pedir ao meu pai, para me ensinar meditação, e ele aceitou. E a minha primeira pergunta foi: “recitar Om Mani Padme Hum mentalmente é meditar ou não?”  Meu pai disse sim. E eu fiquei tão feliz. (risos)

- O senhor ficou feliz por agradar seu pai?

YMR – Fiquei feliz porque eu estava fazendo certo. Isso é uma meditação.


- E qual era a sua idade?
YMR – Eu tinha 9 anos, mas... mas embora eu idealizasse meditar - era curioso quanto à meditação – mas eu tinha ataques de pânico quando eu tinha por volta de 8 anos. Eu desenvolvi pânico, mesmo tendo uma família amorosa, um bom ambiente, mas...o pânico me seguia como uma sombra. Às vezes no inverno temos tempestade, tempestades de neve, e muitas coisas acontecem. Eu tinha medo de desastres naturais, medo de trovões, raios, muitos medos. Às vezes não conseguia dormir. Mas comecei a buscar uma solução para o meu pânico. Então aos 9 anos aprendi meditação com o meu pai, para lidar com o pânico. Recebi instruções maravilhosas, mas não praticava muito. Era um menino preguiçoso. Aos 11 anos mudei para o norte da Ìndia, um local chamado Sherab Ling, um local muito bonito perto de Dharamsala, a residência de S. S. Dalai Lama, a duas horas de Dharamsala, uma estrada esburacada, o que é muito bom para o corpo... exercício gratuito! Sabe aquela poltrona de massagem do aeroporto? Em que a gente coloca um pouco de dinheiro? A estrada esburacada é melhor, é de graça (risos). Então...eu estava em Sherab Ling, e quando tinha 13 anos, estava para começar lá um retiro de 3 anos. Um retiro de meditação. Eu quis muito participar do retiro... mas fiquei tímido para pedir, e pedi ao meu pai, para solicitar a Sua Eminência Tai Situ Rinpoche, o chefe do nosso monastério, para aceitar a minha adesão ao retiro, e meu pai escreveu uma carta solicitando. E Rinpoche me perguntou “você quer mesmo participar? Tem certeza?” E eu disse sim. E ele me aceitou, e tive a oportunidade de participar do retiro de 3 anos. E no primeiro ano de retiro meu pânico piorou. Ficou mais forte. Então eu pensei “Hmm”... Eu era muito infeliz naquele tempo, mas eu ainda tinha 2 anos pela frente. Pensei “Uau, ainda tenho 2 anos! Você quer mesmo passar 2 anos desse jeito? Ou você quer aplicar técnicas de meditação para os ataques de pânico?” E decidi aplicar técnicas de meditação para o meu pânico. E então eu disse para o meu pânico “Olá”, pois normalmente descobri que existem dois modos de o pânico piorar e ficar mais forte. Primeiro, você segue o seu pânico. Você só diz “Sim Senhor” e você acredita no pânico, e em qualquer mensagem que venha do pânico. Você apenas acredita que o mundo é terrível, cheio de problemas. Desse modo o pânico se torna seu chefe, e você se torna escravo do pânico. O segundo problema, é que você não gosta do pânico. Você odeia o pânico... “Êi pânico, saia daí!” E você tenta bloquear o pânico. Você tem pânico do pânico! Tem medo do pânico. Às vezes o medo do pânico é mais forte do que o pânico. E assim o pânico se torna seu inimigo. O que eu descobri é que podemos nos tornar amigos do pânico. E como? Diga “olá!" para ele. Então uso o meu pânico como objeto de meditação. E o pânico se transforma numa meditação. Quando olho para o pânico, ele parece uma bolha, como espuma de barba, sabe? Cheia de bolhas por dentro, mas quando se olha mais fundo, o pânico perde o sentido e se torna uma percepção consciente... espaços...experiência para além da palavra, além dos conceitos. E o pânico passou. Fiquei sentado em meu quarto durante 3 dias, para usar o pânico como objeto de meditação, e depois de 3 dias o pânico passou totalmente. Desde então nunca mais tive pânico. Mas ainda me sinto muito feliz em relação ao meu pânico. Penso que meu pânico é um de meus mestres importantes. Ainda sou agradecido ao meu pânico. Aprendi muita coisa a respeito do meu pânico. Por causa dele estou aqui, e escrevi dois livros: A Alegria de Viver, e o mais novo Joyful Wisdom (Sabedoria Alegre), e nesses livros compartilho a minha experiência com o pânico e como lidar com ele, como transformá-lo. E não somente o pânico. Você pode usar para qualquer outra emoção, depressão, perda de autoestima, raiva, e assim por diante...

Essa postagem foi transcrita, com algumas adaptações, de uma entrevista alegre e despretensiosa concedida pelo jovem mestre Yongey Mingyur Rinpoche e registrada em video, apresentado no site http://vimeo.com/19875915 por Helio Biesemeyer