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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Cura Xamânica Fora do Tempo e do Espaço

Olga Kharitidi, citada em pelo menos 3 postagens, é uma psiquiatra nascida na antiga União Soviética e que trabalhou em um hospital psiquiátrico público na Sibéria, região onde aliás foi cunhada a palavra xamã. Sua vida mudou radicalmente após o contato com Umai, xamã que foi sua mestra e amiga. Hoje Olga vive e trabalha nos EUA.
Em seu misterioso livro Circulo de Xamãs ela conta os fatos que mudaram a sua vida, na mística região russa de Altai onde se tornou também xamã.
O texto abaixo é uma experiência xamânica de uma cura fora do tempo e do espaço, citada no no livro. O texto em negrito na primeira pessoa, foi retirado de seus diários. Muito mistério.
Os mais atentos vão notar que a frase da xamã Umai no título da postagem acima fala claramente da Presença ocupando o corpo, como dizem Tolle, Castaneda e tantos outros. Os caminhos autênticos são parecidos.
Vamos lá:

"A chuva finalmente parou e as nuvens rapidamente abandonaram o céu, levadas por fortes ventos do leste. Havia um silêncio e uma escuridão quase total do lado de fora da minha janela. Através da porta aberta da sacada, a fresca brisa noturna trazia da rua um aroma agradável de folhas molhadas e asfalto úmido ao meu apartamento.
Apaguei a luz e caminhei até a sacada para uma última olhada no céu noturno. A cidade inteira estava diante de mim, lembrando um gigantesco navio de passageiros com luzes fortes brilhando das escotilhas. Porém, na realidade esta cidade aparentemente vasta e luminosa era só um pequeno fragmento terrestre, suas luzes insignificantes sob milhares de estrelas resplandecentes que piscavam sobre a noite límpida e pacífica.
Subitamente, enquanto eu estava no parapeito da minha estreita sacada, respirando o ar suave e fragrante, uma das estrelas pareceu crescer e brilhar mais do que as outras. Então foi como se o céu fosse rasgado, girando violentamente como se o cone de um gigantesco tornado estivesse se aproximando cada vez mais, preenchendo meu campo de visão.

Sinto um enorme poder desconhecido se aproximando, e sei que estou sendo chamada mais uma vez para outro lugar, para outra época. É tarde demais para escapar ou até mesmo para sentir medo, muito embora a essa altura eu esteja tão acostumada ao "extraordinário" que talvez não ficasse assustada mesmo se houvesse tempo para isso.
Num piscar de olhos, toda a cena muda. No lugar onde um momento antes havia apenas o límpido céu noturno, agora a brilhante luz diurna enche meus olhos. Estou flutuando muito acima do chão, num lugar que nunca vi antes. Minha mente está funcionando de uma maneira diferente agora, como se eu fosse uma nova pessoa, sem lembrança alguma do passado. Não estou com medo algum, apenas consciente e receptiva. Sei que fui trazida a este lugar com uma finalidade. Confio neste conhecimento e espero.
Enquanto me aproximo flutuando do chão, posso ver uma planície verdejante abaixo de mim. A grama tem o verde da primavera, é alta e cheia de vida recém-nascida, ondulando na brisa. Posso sentir a sua fragrância, e esta sensação puramente física me ajuda a deixar de lado outros pensamentos e me deixa centrada aqui.
Subitamente, barulhentas batidas de tambor vindas da minha direita chamam a minha atenção. Meu olfato já me enraizou neste novo lugar, e agora minha audição aprofunda minha conexão com ele. Meu corpo se move facilmente no ar, e me volto para a direita, na direção das batidas de tambor. Nunca poderia imaginar aquela cena diante de mim.
Dez homens, entre vinte e cinco e quarenta anos, cabelos presos em longos rabos-de-cavalo, estão dançando abaixo de mim num círculo. Suas roupas me parecem estranhas, com suaves tons castanhos decorados com padrões geométricos diferentes de qualquer coisa que eu já houvesse visto. O som do tambor é constante, e muito embora os movimentos dos homens sejam graciosos, existe uma inconfundível urgência na sua dança. À medida que me aproximo para olhá-los mais de perto, percebo que há uma mulher deitada no meio do círculo. Os homens se movem e giram dançando ao redor dela, com um ar de grande intensidade nos seus rostos. Não escuto som algum, a não ser as insistentes batidas do tambor.
De início não compreendo por que os homens pareciam tão estranhos para mim, mas à medida que noto mais e mais detalhes, percebo que seus rostos mostram uma consciência e ligação com sua cerimônia que as pessoas do nosso mundo moderno perderam. Compreendo que eles são seres antigos, e que estou experimentando algo que aconteceu há muitos milhares de anos.
Ainda estou flutuando acima do círculo de dança, descendo gradualmente rumo à finalidade da minha vinda. A mulher que é o ponto focal da dança e do batuque torna-se mais visível à medida que eu desço. Sua figura sem vida é incrivelmente bela. A simplicidade do seu vestido cinza-amarelado faz um forte contraste com as jóias elaboradas que enfeitam seu pescoço e corpete. Embora os colares sejam toscamente confeccionados, as jóias que brilham neles são belíssimas. Sei que ela acabou de morrer.
Olho ao meu redor numa tentativa de decifrar o que está acontecendo e o que estou fazendo aqui. Meus olhos são atraídos para uma velha. Ela está sentada numa pequena caixa de madeira próxima a uma estrutura semelhante a um yurt, uma tenda mongol, com um teto pontudo feito de grama trançada. Ela está fumando um cachimbo, movendo os olhos constantemente do círculo de dança para o céu, com sua presença em toda parte ao mesmo tempo. A sua idade física parece próxima a cem anos, mas a sua aparência não tem idade. Sua pele é escura e enrugada, como pergaminho pintado exposto ao sol constante durante muitas vidas. Seus olhos são estreitos, como os de muitos mongóis da atualidade. Eles se estreitam mais ainda enquanto ela traga a fumaça de seu cachimbo.
A sua participação na cerimônia não inclui a movimentação física dos outros. O ritmo de seu corpo é muito mais lento do que o dos dançarinos. Ela respira calmamente, e às vezes levanta a cabeça lentamente para o céu, como se estivesse esperando alguma coisa. No momento em que penso nisso, ela olha diretamente para mim e fico sabendo que me viu. Há um poder no fato de ser reconhecida por essa mulher; e ele cria uma estranha mistura de alegria e medo dentro de mim.
Continuo a flutuar levemente acima do chão. Uma questão se forma em minha mente enquanto sinto a mulher me focalizar e se concentrar em mim. "Quem sou eu, e o que estou fazendo aqui?" Então o ritmo do tambor pára abruptamente, e os homens param de dançar como se fossem um único corpo, eles olham para mim e começam a cantar. A linguagem deles me é desconhecida, mas de algum modo, entre as coisas que gritam reconheço as palavras, "Deusa Branca! A Deusa Branca está aqui!" Não é através de uma compreensão da linguagem deles que reconheço essas palavras. Elas são de algum modo embebidas no meu ser, junto com o olhar penetrante da mulher idosa, que me dá a sensação de ondas me atravessando sem parar.
Minha atenção é subitamente redirecionada para os homens, que se moveram num círculo maior ao redor da bela garota, abrindo espaço para eu descer com facilidade ao lado dela. As suas cabeças estão inclinadas para cima, olhando para mim, e sinto a expectativa deles diante do que está por vir. Nada me surpreende. Se a surpresa estiver por vir, será mais tarde, quando eu me encontrar de pé novamente na minha sacada.
O corpo em que estou flutuando é um enorme corpo feminino, dez vezes o tamanho normal. Branca e sem peso, sou como uma nuvem. Sei do fundo do meu ser que fui trazida aqui para trazer esta mulher morta de volta à vida.
Pouso no chão. Enquanto estendo o braço na direção do corpo dela, toco as espessas tranças negras que emolduram os dois lados do seu rosto moreno e de feições suaves. Posso sentir que, dentro do seu corpo, ela está flutuando em algum tipo de fronteira entre a vida e a morte, e sei que está em meu poder pender a balança para a vida. Tomo o seu tronco exânime nos meus braços e a levanto até que esteja sentada. De algum modo, sei que ela deve ser mantida nesta posição para que o fluxo da vida retorne ao seu corpo. Quando ela for capaz de sentar-se por conta própria, saberei que retornou totalmente.
Minhas mãos começam a se mover ao redor da sua cabeça e seios. Minhas mãos se movem por conta própria, na batida de um antigo ritual, e agora estou consciente de que esses mesmos movimentos e gestos foram feitos há milhares de anos por outros. Os movimentos estão restaurando e equilibrando a sua energia, e quando tudo parece completo, eu a solto. Agora ela retorna lentamente por conta própria, nadando temporariamente entre camadas de inconsciência e de consciência, o seu corpo se curando seguindo um caminho oferecido através de mim por alguma força desconhecida.
Com meu trabalho terminado, sou elevada por uma energia invisível e flutuo novamente acima da cena. Voo cada vez mais alto. No momento em que tudo abaixo de mim se dissolve na distância, vejo novamente os olhos da anciã. Ela ainda está olhando para mim, ainda está fumando o seu cachimbo, totalmente consciente da minha presença e de quem eu sou. Vejo gratidão em seu rosto. No momento de mudança em que tudo se dissolve, reconheço a velha como Umai, minha velha amiga e mestra, em ainda outra manifestação.

Então estou novamente de pé na minha sacada, o céu noturno ainda brilhando diante de mim. A transição entre a minha jornada e o retorno à "realidade", se de fato uma é mais real que a outra, é rápida e completa. Muito embora eu seja uma mulher que vive no moderno século XX, agora aprendi a aceitar essas experiências que já foram tão desconhecidas para mim.
Subitamente, escuto dentro da minha cabeça as palavras, "Essas pessoas viveram em um passado muito distante. Nos seus rituais e cerimônias, executados há muitos milhares de anos, elas sabiam precisamente como ultrapassar as barreiras do espaço e do tempo. Elas podiam alcançar a energia de pessoas vivendo no futuro, e sabiam como integrar essa energia as suas cerimônias."
Lembro-me de como o cone no céu parecia no início da minha jornada e como a minha experiência mudara quando me vi flutuando sobre aquela terra antiga. Ouvi a mesma voz dizer, "Eles sabiam como viajar nas naves de Belovodia", e vislumbro um pequeno ponto de luz movendo-se rapidamente pelo céu escuro. Ele desaparece depois de alguns segundos. Depois do sumiço, continuo a olhar para a miríade de estrelas, entre as quais oculta-se mais um mistério.
Agora a jornada está totalmente acabada, e estou mais uma vez no meu pequeno apartamento no meio da Sibéria. Tudo começou há mais de um ano, quando despertei numa manhã aparentemente normal de inverno e saí para trabalhar, sem saber que toda a minha vida estava prestes a mudar. Lembro-me daquele dia tão claramente como se fosse ontem."

Vale a pena ler o livro.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A KGB e os Ovnis

Ovni caído na Rússia
A Rússia sempre foi um país mais aberto aos assuntos metafísicos do que a Europa e os EUA. A própria palavra xamã é de origem siberiana e tornou-se universal. Nesse aspecto a Rússia  conseguiu influenciar os países satélites quando formou a U.R.S.S., ou União Soviética, nos 70 anos em que tentou viabilizar o comunismo como alternativa econômica mundial. Os meios científicos russos conseguiram aliar, mais que o resto do mundo, o “rigor científico” da ciência com os fatos, conhecimentos e eventos dessa área movediça e controvertida que é a paranormalidade. A própria guerra fria incentivou essas atividades, como foi o caso da telepatia que chegou a ser usada em experiências nas comunicações militares em tempos de guerra.
Há na Rússia muito mais cientistas da tecnologia de ponta, médicos, físicos, arqueólogos e outros que estabelecem a ponte com a área metafísica do que há no ocidente. Um desses casos é o da bela escritora, médica e xamã Olga Kharitidi que escreveu o incrível livro Circulo de Xamãs  e hoje vive nos EUA . Outro é o escritor russo Zecharia Sitchin, estudioso dedicado da civilização sumeriana. Mas existem uma infinidade de outras pessoas, ativas na Rússia, em um leque muito amplo de atividades metafísicas.
Esse traço russo de afinidade com o mistério induziu o próprio governo a dedicar mais recursos ao assunto dos objetos voadores não identificados -  Ovnis, apesar de que muito pouco desse assunto era repassado à mídia russa e ocidental devido à mão de ferro da KGB, a polícia política russa, ciosa da manutenção do segredo por sua própria natureza. Isso tem ocorrido da mesma forma em todos os países do mundo, com poucas exceções. É como se houvesse um acordo tácito entre os governantes, militares e organizações do mundo todo, de que "os civis não estão preparados para lidar com esses assuntos". Os civis somos nós, que sustentamos com os impostos toda a festa, mas não somos convidados. Isso me lembra um filme político, acho que do Glauber Rocha, em que na cabine de votação instalada na fazenda do coronel, os camponeses recebiam o voto já fechado num envelope e apenas o depositavam na urna. Um deles mais politizado reclamou que queria saber em quem estava votando. Após levar uma bronca do capataz, ouviu a resposta: "Seu burro. Você não sabe que o voto é secreto?"
Com o fim da guerra fria e o desmantelamento do poder russo houve um relaxamento no manuseio de informações secretas, desde as relativas ao progresso espacial russo até as informações sobre ovnis o que produziu um volume maior de documentos, fatos e informações que vieram à tona.
É o caso deste vídeo.


OVNIS - Arquivos Secretos da KGB - Dublado PtBR



domingo, 20 de outubro de 2013

O Ensonhar

Falamos do sonho em pelo menos 5 postagens :
O Sonhar, O Sonho, Portal da Consciência, O Sonho - Visão ToltecaO Sonho - Visão Budista, e finalmente O Sonho e o Rupigwara. Hoje vamos falar do "ensonho", na visão de Dom Juan no livro Passes Mágicos, de Carlos Castaneda:

"Dom Juan Matus definia sonhar como o ato de usar sonhos normais como uma autêntica entrada para a consciência nos outros domínios de percepção. Para ele, essa definição implicava que os sonhos comuns podiam ser usados como uma portinhola que conduzia a percepção para outras regiões de energia diferente da energia do mundo da vida cotidiana e, no entanto, absolutamente semelhante a ela em um núcleo básico. Para os feiticeiros, o resultado de uma tal entrada era a percepção de mundos verdadeiros nos quais eles podiam viver ou morrer, mundos que eram estarrecedoramente diferentes dos nossos e, no entanto, absolutamente semelhantes.
Pressionado por uma explicação linear sobre essa contradição, Dom Juan Matus reiterava a posição padrão dos feiticeiros: de que as respostas para todas essas perguntas estavam na prática e não na inquisição intelectual. Ele dizia que, para conversarmos sobre tais possibilidades, precisaríamos usar a sintaxe da linguagem, qualquer que fosse a linguagem que falássemos, e que aquela sintaxe, pela força da utilização, limita as possibilidades de expressão. A sintaxe de qualquer linguagem só se refere a possibilidades perceptivas encontradas no mundo em que vivemos.
Dom Juan fazia uma importante diferenciação entre dois verbos em espanhol: um era sonhar ( soñar) e o outro era ensonhar (ensoñar), que é “sonhar da maneira que os feiticeiros sonham”, ou seja, o sonho lúcido, consciente, uma abertura para outros mundos e uma área de atuação e evolução como é este.
De acordo com o que Dom Juan ensinava, a arte de sonhar se originou de uma observação muito casual que os feiticeiros do antigo México fizeram quando viam pessoas que estavam adormecidas. Eles notaram que durante o sono o "ponto de aglutinação" era deslocado, de uma maneira muito natural e simples, da sua posição habitual e que se movia para qualquer lugar ao longo da periferia da esfera luminosa ou para qualquer lugar no interior dela. 
(NR – o ponto de aglutinação é o ponto luminoso onde a percepção e interpretação dos dados sensoriais é agrupada no corpo energético dos seres) 
Correlacionando a sua visão com os relatos das pessoas que tinham observado dormindo, eles perceberam que, quanto maior o deslocamento observado do ponto de aglutinação, mais estarrecedores eram os relatos dos acontecimentos e cenas vivenciados em sonhos.
Após essa observação se apoderar deles, os feiticeiros começaram a procurar avidamente oportunidades para deslocarem os seus próprios pontos de aglutinação. Acabaram usando plantas psicotrópicas para conseguir isso. Muito rapidamente perceberam que o deslocamento ocasionado pelo uso dessas plantas era errático, forçado e fora de controle. Contudo, no meio desse fracasso, descobriram uma coisa de grande valor. Chamaram-na de atenção ao sonhar.
Dom Juan explicava esse fenômeno referindo-se primeiro à consciência diária dos seres humanos como a atenção colocada nos elementos do mundo da vida cotidiana. Ele salientava que os seres humanos só lançavam um olhar superficial e, contudo, sustentado para todas as coisas que os cercavam. Mais do que examinar as coisas, os seres humanos simplesmente estabeleciam a presença daqueles elementos através de um tipo especial de atenção, um aspecto específico da sua consciência geral. A sua 
legação era que o mesmo tipo de "olhar", por assim dizer, superficial mas sustentado podia ser aplicado aos elementos de um sonho comum. Ele chamava esse outro aspecto específico da consciência geral de atenção ao sonhar ou da capacidade que os praticantes adquirem de manter a consciência inflexivelmente fixada nos itens dos seus sonhos.
O cultivo da atenção ao sonhar deu aos feiticeiros da linhagem de Dom Juan uma classificação básica dos sonhos. Descobriram que a maior parte dos seus sonhos era imaginação, produtos da cognição do seu mundo diário. Entretanto havia alguns que escapavam a essa classificação. Tais sonhos eram estados verdadeiros de consciência intensificada nos quais os elementos do sonho não eram simples imaginação, mas ocorrências geradoras de energia. Para os xamãs, os sonhos que tinham elementos geradores de energia eram sonhos em que eles eram capazes de ver a energia como ela fluía no universo.
Esses xamãs eram capazes de focalizar sua atenção ao sonhar em qualquer elemento dos seus sonhos e, dessa forma, descobriram que existem dois tipos de sonhos. Um são os sonhos com os quais todos nós estamos familiarizados, nos quais elementos fantasmagóricos entram em ação, algo que poderíamos categorizar como produto da nossa mentalidade, da nossa psique; talvez algo que tenha a ver com a nossa constituição neurológica. O outro tipo de sonhos eles chamavam de sonhos geradores de energia. Dom Juan dizia que aqueles xamãs dos tempos antigos se descobriram em sonhos que não eram sonhos e sim verdadeiras visitas feitas, em um estado parecido com o sonho, a lugares autênticos que não eram deste mundo - lugares reais, exatamente como o mundo no qual vivemos; lugares onde os objetos do sonho geravam energia assim como, para um feiticeiro vidente, as árvores, os animais ou até mesmo as rochas geram energia no nosso mundo diário.
Entretanto, para os xamãs, suas visões de tais lugares eram efêmeras demais, temporárias demais para lhes serem de algum valor. Eles atribuíam essa falha ao fato de que os seus pontos de aglutinação não podiam ser mantidos fixos por qualquer tempo considerável na posição para a qual tinham sido deslocados. As suas tentativas de remediar a situação resultaram na outra arte magna da feitiçaria: a arte de hastear.
Um dia Dom Juan definiu as duas artes com muita clareza quando me disse que a arte de sonhar, consistia em deslocar propositadamente o ponto de aglutinação da sua posição habitual. A arte de hastear consistia em voluntariamente fazê-lo permanecer fixado na nova posição para a qual tinha sido deslocado.
Essa fixação permitia aos feiticeiros do antigo México a oportunidade de testemunharem outros mundos em toda a sua extensão. Dom Juan dizia que alguns desses feiticeiros nunca voltaram de suas viagens. Em outras palavras, optaram por permanecer lá, onde quer que "lá" possa ter sido.
- Quando os antigos feiticeiros acabaram de mapear os seres humanos como esferas luminosas - disse-me Dom Juan certa vez -, eles tinham descoberto nada menos que seiscentos locais na esfera luminosa total que eram locais de mundos genuínos. Isso queria dizer que, se o ponto de aglutinação se fixasse em qualquer um daqueles lugares, o resultado era a entrada do praticante em um mundo totalmente novo.
- Mas existem esses outros seiscentos mundos, Dom Juan? perguntei.
- A única resposta para essa pergunta é incompreensível - disse ele rindo. - Ela é a essência da feitiçaria, contudo não significa nada para a mente comum. Esses seiscentos mundos estão na posição do ponto de aglutinação. Para que tal resposta faça sentido, são necessárias incalculáveis quantidades de energia. Nós temos a energia. O que nos falta é a facilidade ou a disposição de usá-la.
Eu acrescentaria que nada poderia ser mais verdadeiro do que todas essas declarações e, no entanto, nada poderia fazer menos sentido.
Dom Juan explicava a percepção comum nos termos em que os feiticeiros da sua linhagem a entendiam: em sua localização habitual, o ponto de aglutinação recebe um influxo de campos de energia do universo como um todo na forma de filamentos luminosos, chegando ao número dos trilhões. Uma vez que sua posição é consistentemente a mesma, o raciocínio lógico dos feiticeiros era que os mesmos campos de energia, na forma de filamentos luminosos, convergem para o ponto de aglutinação e o atravessam proporcionando, como um resultado consistente, a percepção do mundo que conhecemos. Esses feiticeiros chegaram à inevitável conclusão de que, se o ponto de aglutinação fosse deslocado para uma outra posição, um outro conjunto de filamentos energéticos o atravessaria resultando na percepção de um mundo que, por definição, não era o mesmo do mundo da vida cotidiana.
Na opinião de Dom Juan, o que os seres humanos consideram normalmente como sendo perceber é mais o ato de interpretar dados sensoriais. Ele mantinha que, desde o momento do nascimento, todas as coisas ao nosso redor nos supriam com uma possibilidade de interpretação e que, com o tempo, essa possibilidade se transforma em um sistema completo através do qual conduzimos todas as nossas transações perceptivas no mundo.
Ele salientava que o ponto de aglutinação não era apenas o centro onde a percepção é agrupada, mas também o centro onde a interpretação de dados sensoriais é realizada. Sendo assim, se mudasse a localização, interpretaria o novo influxo de campos de energia nos mesmíssimos termos que interpreta o mundo da vida cotidiana. O resultado dessa nova interpretação é a percepção de um mundo estranhamente semelhante ao nosso e, no entanto, intrinsecamente diferente. Dom Juan dizia que, energeticamente, aqueles outros mundos são tão diferentes do nosso quanto poderiam ser. Só a interpretação do ponto de aglutinação é que é responsável pelas aparentes semelhanças:
Dom Juan sentia necessidade de uma nova sintaxe que pudesse ser usada para expressar essa assombrosa qualidade do ponto de aglutinação e as possibilidades de percepção ocasionadas pelo sonhar. No entanto ele admitia que, se essa experiência se tornasse disponível a qualquer um de nós e não simplesmente aos xamãs iniciados, a sintaxe atual da nossa linguagem talvez pudesse ser forçada a abrangê-la.
Uma coisa relacionada ao sonhar que era de tremendo interesse para mim, mas que me deixou completamente confuso até o final, era a afirmação de Dom Juan de que realmente não havia nenhum procedimento que ensinasse alguém como sonhar. Dizia que, mais do que qualquer outra coisa, sonhar era um esforço árduo por parte dos praticantes para se porem em contato com a indescritível força que a tudo permeia, que os feiticeiros do antigo México chamavam de intento. Uma vez que essa ligação estivesse estabelecida, sonhar também se estabeleceria misteriosamente. Dom Juan afirmava que essa ligação poderia ser realizada seguindo qualquer padrão que implicasse disciplina.
Quando lhe pedi que me desse uma explicação sucinta dos procedimentos envolvidos, ele riu de mim.
- Aventurar-se no mundo dos feiticeiros - disse ele - não é como aprender a dirigir um carro. Para dirigir um carro, você precisa de manuais e de instruções. Para sonhar, você precisa intentá-la.
- Mas como posso intentá-la? - insisti.
- A única maneira como você poderia intentá-la é intentando-o
- declarou ele. - Uma das coisas mais difíceis para um homem dos nossos dias aceitar é a falta de procedimentos. O homem moderno está nos paroxismos dos manuais, das praxes, dos métodos, dos passos que conduzem a alguma coisa. Está incessantemente tomando notas, fazendo diagramas, profundamente envolvido em saber como fazer. Porém, no mundo dos feiticeiros, os procedimentos e os rituais são meros esquemas para atrair e focalizar a atenção. São estratagemas usados para forçar uma concentração de interesse e determinação. Não têm nenhum outro valor.
Para sonhar, o que Dom Juan considerava ser de suprema importância é a execução rigorosa dos passes mágicos: o único estratagema que os feiticeiros da sua linhagem usavam para auxiliar o deslocamento do ponto de aglutinação. A execução dos passes mágicos dava àqueles feiticeiros a estabilidade e a energia necessárias para suscitar a sua atenção ao sonhar, sem o que, para eles, não havia nenhuma possibilidade de sonhar. Sem a emergência da atenção ao sonhar, o máximo que os praticantes poderiam aspirar era ter sonhos lúcidos sobre mundos fantasmagóricos. Talvez pudessem ter visões de mundos que geram energia, mas, para eles, elas não fariam nenhum sentido na ausência de um fundamento lógico abrangente que as categorizasse adequadamente.
Uma vez que os feiticeiros da linhagem de Dom Juan tinham desenvolvido a sua atenção ao sonhar, eles perceberam que tinham tocado nas portas do infinito. Tinham sido bem-sucedidos na ampliação dos parâmetros da sua percepção normal. Descobriram que o seu estado normal de consciência era infinitamente mais variado do que tinha sido antes do advento da sua atenção ao sonhar. Daquele ponto em diante, os feiticeiros poderiam verdadeiramente se aventurar no desconhecido.
- O aforismo "o céu é o limite" - disse Dom Juan - era mais aplicável aos feiticeiros dos tempos antigos. Certamente, eles se superaram.
- Para eles, era realmente verdade que o céu era o limite, Dom Juan? - perguntei.
- Essa pergunta só poderia ser respondida por cada um de nós individualmente - disse ele sorrindo efusivamente. - Eles nos deram as ferramentas. Depende de nós, individualmente, usá-las ou rejeitá-las. Em essência, estamos sozinhos diante do infinito e a questão de sermos ou não capazes de alcançarmos os nossos limites precisa ser respondida pessoalmente."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O “Não fazer” (Leitura Transversal)

As Atlantas em Tula - Imagens do não fazer
O Não fazer é um mistério. À primeira vista parece que é “não fazer nada”, ou “deixar de fazer algo” ou qualquer outra coisa nessa linha. Mas não é.
Sob esse nome disfarçado de não fazer, se esconde uma técnica e disciplina poderosa usada pelos xamãs toltecas do Antigo México para engendrar um estado que induz a entrada do aprendiz na chamada Segunda Atenção. Nela temos o poder de “ver” o mundo (do jeito que os videntes vêem) e cujo poder de ver/sentir engloba não só perceber o corpo e o mundo físicos, mas perceber o corpo e o mundo energéticos, ou seja, "ver" o ovo luminoso que todos nós somos e não percebemos habitualmente, "ver" os filamentos luminosos dotados de inteligência que permeiam todo o Universo e que ao serem sensibilizados pelo nosso “ponto de aglutinação” formam o mundo que vemos e onde vivemos, e mais uma pá de coisas...
Vamos falar disso hoje (o texto é longo – preparem-se para ler em partes), mas tem um formato didático e simples, algo como ler pelo avesso, batizado de Leitura Transversal, e inventado por um louquinho que anda por aí escrevendo blogs. Leitura Transversal é nada mais do que “ler apenas o tema  que interessa dentro de  uma obra qualquer”.  Quem já leu os índices remissivos da Bíblia, do Alcorão, da Torá, ou qualquer obra extensa, sabe o que é. Imaginem: eu quero saber na Bíblia tudo sobre o assunto "a Graça”, por exemplo. Vou ao índice e acho todas as passagens sobre “a graça”. Legal, não é? A Leitura Transversal é o não fazer de ler (rsrs).

A informática facilitou essa operação porque hoje no Word ou outro editor de texto onde estão as obras digitalizadas, pode-se selecionar pelo comando “localizar” todas as vezes que um palavra ou expressão está escrita. Então é só ler o texto indicado pelo “localizar”. Nós fizemos isso na obra completa de Castaneda e “cruzamos” transversalmente a obra obtendo um a um vários temas importantes que estavam dispersos nela. Um deles é o não fazer. Quem se interessar pode se aprofundar lendo os próprios livro inteiros.
Grande parte das citações do não fazer fazem parte do capítulo 15 inteiro do livro Viagem a Ixtlan que aborda exclusivamente o tema. Para os interessados  é muito interessante lê-lo inteiro de uma vez só, no livro. Muitas outras citações estão no livro O Presente da Águia.
Vamos lá:

CITAÇÕES

“- Já lhe disse que o segredo de um corpo forte não está no que você faz com ele, mas no que não lhe faz - falou, por fim.
- Agora, chegou a hora de você não fazer o que faz sempre. Fique aqui sentado até partirmos e não faça.
- Não estou entendendo, Dom Juan.
Pôs as mãos sobre meus apontamentos e os tirou de mim. Cuidadosamente, fechou as páginas de meu caderno, prendeu-o com seu elástico e depois atirou-o como um disco dentro do chaparral.
Fiquei chocado e comecei a protestar, mas ele tapou minha boca com a mão. Apontou para um arbusto grande e disse-me que fixasse a atenção não nas folhas, mas nas sombras das folhas. Disse que correr no escuro não precisava de ser provocado pelo temor, e podia ser uma reação muito natural de um corpo jubilante que sabia o que não fazer. Ficou repetindo em meu ouvido direito que não fazer o que eu sabia como fazer" era a chave do poder. No caso de olhar para uma árvore, o que eu sabia como fazer era focalizar imediatamente a folhagem. As sombras das folhas ou os espaços entre as folhas nunca me ocupavam. Suas últimas advertências foram para começar a focalizar as sombras das folhas de um único galho e depois, aos poucos, passar a toda a árvore e não deixar que meus olhos voltassem para as folhas, pois o primeiro passo propositado para armazenar o poder pessoal era permitir ao corpo não fazer.
Talvez fosse devido à minha fadiga ou excitação nervosa, mas fiquei tão absorto nas sombras das folhas que, quando Dom Juan se levantou, eu conseguia quase agrupar as massas escuras de folhagens tão bem como eu normalmente agrupava a folhagem. O efeito geral era espantoso. Eu disse a Dom Juan que gostaria de me demorar mais. Ele riu e deu um tapinha em meu chapéu.
- Já lhe disse - falou ele. - O corpo gosta de coisas como esta.
Depois, explicou que eu devia deixar que meu poder armazenado me guiasse pelas moitas até meu caderno. Empurrou-me delicadamente para o chaparral. Andei a esmo por um momento e depois encontrei-o. Pensei que, subconscientemente, eu devia estar lembrado da direção em que Dom Juan o atirara. Esclareceu o fato, dizendo que eu fora diretamente ao caderno porque meu corpo estivera mergulhado durante horas em não fazer.
Viagem a Ixtlan, pág. 172

“Eu estava escrevendo minhas impressões das vizinhanças quando Dom Juan, depois de um longo silêncio, falou num tom dramático.
- Eu o trouxe aqui para lhe ensinar uma coisa - disse ele. - Você vai aprender a não fazer. Mais vale falar a respeito porque não há outro meio de você prosseguir. Achei que você poderia pegar o não fazer sem eu ter de dizer nada. Mas enganei-me.
- Não sei de que está falando, Dom Juan.
- Não faz mal. Vou dizer-lhe uma coisa que é muito simples, mas muito difícil de fazer; vou falar-lhe sobre não fazer, a despeito do fato de não haver meio de falar sobre isso, pois é o corpo que o faz.
Olhou de relance e depois disse que eu tinha de prestar a maior atenção ao que ele ia falar. Fechei o caderno, mas, para assombro meu, ele insistiu para eu continuar a escrever
- Não fazer é tão difícil e tão possante que você nem deve mencioná-lo - continuou ele. - Só pode fazê-lo quando tiver parado o mundo; só então é que você pode falar a respeito livremente, se é isso que você quer”
Dom Juan olhou em volta e apontou para uma pedra grande. - Aquela pedra ali é uma pedra por causa de fazer – disse ele.
Nós nos olhamos e ele sorriu. Esperei uma explicação, mas ele ficou calado. Por fim, tive de falar que não havia entendido o que ele queria dizer
- Isso é fazer! - exclamou.
- Como?
- Isso também é fazer
- De que é que está falando, Dom Juan?
- Fazer é o que torna aquela pedra uma pedra e um arbusto um arbusto. Fazer é o que torna você você e eu eu.
Disse-lhe que a explicação dele não esclarecia coisa alguma. Ele riu e coçou as têmporas.
- É este o problema de se falar - disse ele. - Sempre faz a gente confundir as questões. Se a gente começa a falar a respeito de fazer, sempre se acaba abordando outro assunto. É melhor apenas agir
"Tome aquela pedra, por exemplo. Olhar para ela é fazer, mas vê-la é não fazer"
Tive de confessar que as palavras dele não estavam fazendo sentido para mim.
- Mas fazem, sim! - exclamou. - Mas você está convencido do contrário porque isso é você fazendo. É assim que você age em relação a mim e ao mundo. - Tornou a apontar para a pedra.
- Aquela pedra é uma pedra por causa de todas as coisas que você sabe fazer em relação a ela - continuou. - Chamo isso de fazer. Um homem de conhecimento, por exemplo, sabe que aquela pedra só é uma pedra por causa de fazer, de modo que, se não quiser que a pedra seja uma pedra, basta ele não fazer. Entende o que eu digo?
Eu não estava entendendo nada. Ele riu e fez uma nova tentativa para explicar
- O mundo é o mundo porque você conhece o fazer necessário para torná-lo o mundo - disse ele. - Se você não soubesse o seu fazer, o mundo seria diferente.
Examinou-me com curiosidade. Parei de escrever. Só queria escutá-lo. Continuou a explicar que, sem esse certo "fazer", não haveria nada de conhecido naquele ambiente.”
Viagem a Ixtlan, pág. 178

.”- Digo que você torna isto uma pedrinha porque conhece o fazer necessário para isso - falou. - Agora, para poder parar o mundo você tem de parar de fazer.
. Ele parecia saber que eu continuava sem entender e sorriu, sacudindo a cabeça. Depois, pegou um galhinho e apontou para a borda irregular da pedrinha.
- No caso desta pedrinha - continuou - a primeira coisa que fazer lhe faz é diminuí-la até este tamanho. Por isso, a coisa certa a fazer, o que um guerreiro faz quando quer para o mundo, é aumentar a pedrinha, ou qualquer outra coisa, não fazendo.
Levantou-se e colocou a pedrinha num rochedo e depois disse que eu me aproximasse para examiná-la. Recomendou que eu olhasse para os buracos e depressões da pedrinha e tentasse distinguir seus mínimos detalhes. Falou que, se eu conseguisse distinguir os detalhes, os buracos e depressões desapareceriam e eu entenderia o que significa não fazer.
- Esse raio de pedrinha ainda vai deixá-lo maluco hoje - disse ele.”
Viagem a Ixtlan, pág. 179

“- Fazer o leva a separar a pedrinha da pedra maior - continuou. - Se quiser aprender a não fazer, digamos que você tem de uni-las.
Apontou para a sombrinha que a pedrinha lançava na pedra grande e disse que não era uma sombra, e sim uma cola que ligava as duas. Depois, virou-se e afastou-se, dizendo que mais tarde me viria controlar.
Fiquei olhando para a pedrinha por muito tempo. Não conseguia focalizar minha atenção nos mínimos detalhes dos buracos e depressões, mas a pequena sombra que a pedrinha lançava sobre a pedra grande tornou-se um ponto muito interessante. Dom Juan tinha razão: era como uma cola. Movia-se e variava. Eu tinha a impressão de que estava sendo espremida de debaixo da pedrinha.
Quando Dom Juan voltou, eu lhe contei o que tinha observado sobre a sombra.
- É um bom começo - disse ele. - Um guerreiro pode descobrir uma porção de coisas através das sombras. - Depois, ele sugeriu que eu pegasse a pedrinha e a enterrasse em algum lugar
- Por quê? - perguntei.
- Está olhando para ela há muito tempo. Ela agora tem alguma coisa de você. Um guerreiro sempre tenta mudar a força de fazer transformando-o em não fazer. Fazer seria deixar a pedrinha por aí, pois não é mais do que uma pedrinha. Não fazer seria proceder com essa pedrinha como se fosse alguma coisa mais do que uma simples pedra. Nesse caso, aquela pedra o absorveu por muito tempo e agora é você, e, sendo assim, não a pode deixar por aí, e tem de enterrá-la.
Se quiser ter poder pessoal, porém, não fazer seria transformar aquela pedra em um objeto de poder
- Posso fazer isso agora?
- Sua vida não está bastante ajustada para fazer isso. Se você visse, saberia que sua preocupação transformou aquela pedrinha em uma coisa bem sem atrativo; e, portanto, a melhor coisa que você pode fazer é cavar um buraco e enterrá-la e deixar que a terra absorva seu peso.
- Tudo isso é verdade, Dom Juan?
- Dizer que sim ou que não seria fazer. Mas como você está aprendendo a não fazer, devo dizer-lhe que realmente não tem importância se tudo isso é verdade ou não. É aqui que o guerreiro leva vantagem sobre o homem comum. O homem, comum se, importa em saber se as coisas são verdadeiras ou falsas, mas um guerreiro não. Um homem comum procede de maneira específica com as coisas que ele sabe serem verdade e de maneira diversa com o que sabe não ser verdade. Se se supõe que as coisas são verdadeiras, ele age e acredita no que faz. Mas se as coisas são supostamente falsas, ele não quer agir, ou não crê no que faz. Um guerreiro, ao contrário, age em ambos os casos. Se se supõe que as coisas são verdadeiras, ele age a fim de estar fazendo. Se se supõe que as coisas são falsas, ele ainda assim age, a fim de não fazer. Entende o que digo?
- Não. Não estou entendendo nada - respondi.      “
Viagem a Ixtlan, pág. 180

“- Eu estava implicando um pouco com você - disse Dom Juan, quando voltei e tornei a me sentar - Mas sei que, se você não falar, não entende. Falar para você é fazer, mas falar não serve e, se você quiser entender o que eu quero dizer com não fazer, tem de executar um exercício simples. Como estamos interessados em não fazer, não importa que faça o exercício agora ou daqui a dez anos.
Mandou que eu me deitasse e pegou meu braço direito, dobrando-o no cotovelo. Depois, virou minha mão para a palma ficar voltada para a frente; curvou meus dedos, de modo que minha mão ficou na posição de quem está segurando uma maçaneta e depois começou a mover meu braço para a frente e para trás, num movimento circular que parecia o ato de empurrar e puxar uma alavanca presa a uma roda.
Dom Juan disse que um guerreiro executava esse "movimento cada vez que queria expulsar alguma coisa de seu corpo, como uma doença ou uma sensação desagradável. A intenção era empurrar e puxar uma força adversa imaginária até a pessoa sentir um objeto pesado, um corpo sólido, opondo-se aos movimentos livres da mão. No caso do exercício, não fazer consistia em repeti-lo até se sentir o corpo pesado com a mão, a despeito do fato de a pessoa não poder acreditar que fosse possível senti-lo.
Comecei a mover o braço e, dali a pouco, minha mão ficou gelada. Comecei a sentir uma espécie de polpa em volta dela. Era como se eu estivesse remando numa substância líquida, pesada e viscosa.
Dom Juan fez um movimento súbito e agarrou meu braço para parar o movimento. Meu corpo todo tremia como se abalado por alguma força oculta. Examinou-me quando me sentei e, depois, andou em volta de mim, antes de tornar a sentar-se onde estava antes.
- Já fez bastante - disse ele. - Pode executar esse exercício em outra ocasião, quando tiver mais poder pessoal.
- Fiz alguma coisa errada?
- Não. Não fazer é só para guerreiros muito fortes e você ainda não tem o poder de lidar com isso. Agora, só vai apanhar coisas horrendas com as mãos. Portanto, faça-o pouco a pouco, até sua mão não ficar mais fria. Quando ficar quente, você chega a poder sentir as linhas do mundo com ela.”
Viagem a Ixtlan, pág. 181

“Parou para me dar tempo de perguntar a respeito das linhas.
Mas antes de eu ter oportunidade, começou a explicar que havia um número infinito de linhas que nos ligavam às coisas. Disse que o exercício de não fazer que ele acabava de descrever ajudaria a qualquer pessoa a sentir uma linha que saísse da mão que se movia, uma linha que a pessoa poderia colocar ou lançar sempre que quisesse. Dom Juan disse que aquilo não passava de um exercício porque as linhas formadas pela mão não eram suficientemente duráveis para ter um valor real numa situação de fato.
- Um homem de conhecimento utiliza outras partes de seu corpo para produzir linhas duráveis - explicou.
- Que partes, Dom Juan?
- As linhas mais duráveis que o homem de conhecimento produz partem do meio do corpo. Mas ele também as pode fazer com os olhos.
- São linhas de verdade?
 - Por certo.
- Pode-se vê-las e tocá-las?
- Digamos que se pode senti-las. A parte mais difícil do modo de vida de um guerreiro é entender que o mundo é uma sensação.
Quando a pessoa está não fazendo, sente o mundo, e o consegue por meio dessas linhas.
Ele parou e me examinou com curiosidade. Ergueu as sobrancelhas, abriu os olhos e piscou. O efeito foi como os olhos de uma ave piscando. Quase imediatamente, senti uma sensação de desconforto e repugnância. Era como se alguma coisa estivesse fazendo pressão sobre minha barriga.
- Entende o que digo? - perguntou Dom Juan, desviando o olhar.
Falei que estava com náuseas e ele respondeu, displicentemente, que sabia disso e que estava tentando fazer com que eu sentisse as linhas do mundo com os olhos dele. Eu não podia admitir a idéia de que ele mesmo me estivesse fazendo sentir daquele jeito. Exprimi minhas dúvidas. Eu não podia conceber a idéia de que ele estava causando minha sensação de náusea, pois ele não tinha tido qualquer contato físico comigo.
- Não fazer é muito simples, mas muito difícil - disse ele. - Não é uma questão de entender, mas de dominar a coisa. “Ver”, naturalmente, é a realização final de um homem de conhecimento, e ver só é conseguido quando a pessoa parou o mundo pela técnica de não fazer
Sorri, sem querer. Não tinha entendido o que ele queria dizer
- Quando a gente faz alguma coisa com as pessoas - continuou - o interesse devia ser só de apresentar o caso aos corpos delas. E isso que tenho feito com você até agora, deixando que seu corpo saiba. Quem se importa se você entende ou não?
- Mas isso não é justo, Dom Juan. Quero entender tudo, pois, do contrário, vir aqui seria uma perda do meu tempo.
-. Uma perda do seu tempo! - exclamou, imitando meu tom de voz. - Você é mesmo convencido.”
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“A escalada foi um negócio terrível. Era um verdadeiro alpinismo, só que não tínhamos cordas para nos ajudar e proteger. Dom Juan me disse repetidamente que não olhasse para baixo; e teve de me puxar umas duas vezes, quando comecei a deslizar pela pedra. Eu estava muito vexado porque Dom Juan, tão velho, tinha de me ajudar. Disse-lhe que estava em má forma física porque tinha muita preguiça de fazer exercício. Respondeu que uma vez que a pessoa alcançasse um certo nível de poder pessoal, os exercícios ou qualquer treinamento desse tipo não eram necessários, pois a única coisa que se precisava, para estar numa forma impecável, era empenhar-se em não fazer
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Apontou para uma grande pedra bem diante de nós.
- Olhe para a sombra daquela pedra - falou. - A sombra é a pedra e, no entanto, não é. Observar a pedra a fim de saber o que é a pedra é fazer, mas observar a sombra é não fazer
"As sombras são como portas, as portas de não fazer. Um homem de conhecimento, por exemplo, sabe dos sentimentos mais íntimos dos homens observando suas sombras."
- Há movimento nelas? - perguntei.
- Pode-se dizer que há movimento nelas, ou pode-se dizer que as linhas do mundo aparecem nelas, ou pode-se dizer que os sentimentos vêm delas.
- Mas como é que os sentimentos podem vir de sombras, Dom Juan?
- Acreditar que as sombras são apenas sombras é fazer - explicou. - Essa idéia é um pouco burra. Pense nisso assim. Há tanto mais em tudo no mundo que, obviamente, deve haver mais nas sombras também. Afinal de contas, o que as torna sombras é apenas o nosso fazer
Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer
Viagem a Ixtlan, pág. 184
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Esclareceu suas instruções dizendo que, ao procurar um lugar de repouso, a pessoa tinha de olhar sem focalizar, mas, ao observar as sombras, era preciso olhar atravessado, conservando, porém, focalizada uma imagem nítida. A idéia era deixar que uma sombra se superpusesse à outra, atravessando-se os olhos. Explicou que, por este processo, a pessoa podia verificar uma certa sensação que emanava das sombras. Comentei que suas palavras eram vagas, mas ele garantiu que não havia realmente meio de descrever o que queria dizer
Minha tentativa de fazer o exercício foi vã. Esforcei-me até ficar com dor de cabeça. Dom Juan não ligou a mínima a meu fracasso.
Escalou um pico em forma de domo e gritou lá de cima para eu procurar duas pedras estreitas e compridas. Mostrou com as mãos o tamanho das pedras que queria..
Encontrei dois pedaços de pedra e dei-os a ele. Dom Juan colocou cada pedra em uma fenda, a uma distância de uns 30 centímetros, mandou que eu me postasse por cima delas, virado para o oeste, dizendo para eu fazer o mesmo exercício com as sombras delas.
Dessa vez, a coisa foi totalmente diferente. Quase imediatamente, consegui atravessar os olhos e percebi suas sombras individuais como se estivessem fundidas numa só. Reparei que o fato de olhar sem convergir as imagens dava à sombra única que eu tinha formado uma profundidade incrível e uma espécie de transparência. Fiquei olhando, sem poder acreditar. Cada buraco da pedra, na área em que meus olhos estavam focalizados, era nitidamente distinguível; e a sombra composta, superposta neles, era como uma película de uma transparência indescritível.
Eu não queria piscar, com medo de perder a imagem que estava mantendo tão precariamente. Por fim, meus olhos doloridos me obrigaram piscar mas não perdi em absoluto a visão do detalhe verdade, ao umedecer a córnea, a imagem ficou ainda mais nítida. Nessa altura, reparei que era como se eu estivesse olhando de uma altura imensa para um mundo que eu nunca vira. Também reparei que podia percorrer as vizinhanças da sombra sem perder o foco de minha percepção visual. Então, por um instante, perdi a noção de estar olhando para uma pedra. Senti que estava chegando a um mundo, vasto além de tudo o que jamais eu concebera. Essa percepção extraordinária só durou um segundo e depois tudo se desligou. Automaticamente, ergui os olhos e vi Dom Juan de pé, logo acima das pedras, olhando para mim. Ele tapara o Sol com o corpo.
Descrevi a sensação rara que tivera e ele explicou que fora obrigado a interrompê-la porque "viu" que eu ia me perder nela. Acrescentou que era uma tendência natural em todos nós termos caprichos quando ocorriam sentimentos daquela natureza, e que, cedendo a esse capricho, eu quase tinha transformado não fazer em meu velho conhecido fazer. Disse que o que eu devia ter feito era manter a vista sem sucumbir a ela, pois, de certo modo, fazer era uma maneira de sucumbir.”
Viagem a Ixtlan, pág. 185

“Tive de confessar que estava mais aturdido do que nunca com esse não fazer. Os comentários de Dom Juan foram que eu deveria estar satisfeito com o que tinha feito, pois uma vez na vida tinha agido corretamente, que reduzindo o mundo eu o aumentara, e que, embora estivesse longe de sentir as linhas do mundo, havia usado corretamente a sombra das pedras como uma porta para não fazer
A declaração de que eu aumentara o mundo reduzindo-o intrigou-me profundamente. O detalhe da rocha porosa, na pequena área em que meus olhos estavam focalizados, era tão vívido e tão precisamente definido que o topo do pico redondo se tornava um vasto mundo para mim; e, no entanto, era realmente uma visão reduzida da pedra. Quando Dom Juan tapou a luz e eu me encontrei olhando como faria normalmente, o detalhe preciso embaciou-se, os buraquinhos na pedra porosa tornaram-se maiores, a coloração marrom da lava seca tornou-se opaca e tudo perdeu a transparência brilhante que fazia da rocha um mundo verdadeiro.
Viagem a Ixtlan, pág. 186

“Ficamos calados por muito tempo. Depois, comemos, também em silêncio. Foi só depois que o Sol se pôs que ele, de repente, se virou e me perguntou sobre meus progressos em matéria de "sonhar".
Respondi que tinha sido fácil no princípio, mas que, no momento, eu tinha deixado completamente de encontrar minhas mãos
nos sonhos.
- Quando você começou a sonhar, estava usando meu poder pessoal, por isso era mais fácil - disse ele.
- Agora, você está vazio. Mas tem de continuar a tentar até ter suficiente poder seu. Entende, sonhar é o não fazer dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará não fazendo.
- Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar - continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas não fazer. Mas, se lidar com não fazer diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos no sonho é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
- Não sei, Dom Juan. Não confio em mim.
- Não é questão de confiar em ninguém. Tudo isso é assunto da luta de um guerreiro; e você continuará a lutar, se não sob seu próprio poder, então talvez, sob o impacto de um adversário valoroso, ou com o auxílio de alguns aliados, como o que já o está seguindo.
Fiz um movimento brusco e involuntário com o braço direito. Dom Juan disse que meu corpo sabia muito mais do que eu suspeitava, pois a força que nos estava seguindo estava à minha direita. Falou, em voz baixa e confidencial, que, por duas vezes naquele dia, o aliado tinha chegado tão junto de mim que ele tivera de intervir e detê-lo.
- Durante o dia as sombras são as portas de não fazer - disse ele. - Mas, à noite, como muito pouco fazer prevalece no escuro, tudo é sombra, inclusive os aliados. Já lhe falei sobre isso quando lhe ensinei o passo do poder
Ri alto e meu próprio riso me assustou.
"Tudo o que lhe ensinei até agora foi um aspecto de não fazer - continuou ele. - Um guerreiro aplica não fazer a tudo no fundo e, no entanto, não lhe posso dizer mais a respeito do que Já lhe falei hoje. Deve deixar que seu próprio corpo descubra o poder e a sensação de não fazer"
Tive outro acesso de cacarejar nervoso.
“É burrice sua escarnecer dos mistérios do mundo simplesmente porque conhece fazer o escárnio" - disse ele, com uma cara séria.
Falei que não estava escarnecendo de nada ou ninguém, mas que era mais nervoso e incompetente do que ele pensava.
- Sempre fui assim - disse eu. - E, no entanto, quero modificar-me e não sei como. Sou muito inadequado.
- Já sei que você acha que não presta - disse ele. – Isso é seu fazer. Agora, para afetar esse fazer, vou recomendar que você aprenda outro fazer. De hoje em diante, e por um período de oito dias, quero que você minta para si mesmo. Em vez de se dizer a verdade, que você é podre, feio e inadequado, você se dirá que é o oposto, sabendo que está mentindo e que é completamente sem esperança.
- Mas qual a finalidade de mentir assim, Dom Juan?
- Pode prendê-lo a outro fazer e então pode compreender que ambos os fazeres são mentiras, irreais, e que prendê-lo a qualquer deles é uma perda de tempo, pois a única coisa que é real é o ser em você, que vai morrer. Chegar a esse ser é o não fazer do eu.”
Viagem a Ixtlan, pág. 186

- Digamos que, quando cada um de nós nasce, traz consigo um circulozinho de poder. Esse pequeno círculo é posto em uso quase que imediatamente. Assim, cada um de nós já está preso desde que nasce e os nossos círculos de poder são ligados aos de todos os outros. Em outras palavras, os nossos círculos de poder são ligados ao fazer do mundo a fim de formar o mundo.
- Dê um exemplo que eu possa entender
- Por exemplo, nossos círculos de poder, o seu e o meu, estão ligados neste momento ao fazer esta sala. Estamos formando esta sala. Nossos círculos de poder estão girando e formando esta sala neste momento mesmo.
- Espere, espere - disse eu. - Esta sala está aqui sozinha. Não a estou criando. Não tenho nada a ver com ela.
Dom Juan não parecia estar interessado em meu protesto. Assegurou calmamente que a sala em que estávamos era criada e conservada no lugar por causa da força do círculo de poder de todos.
- Entende, - continuou - cada um de nós conhece o fazer de salas porque, de uma maneira ou de outra, já passamos grande parte de nossas vidas nas salas. Um homem de conhecimento, por outro lado, desenvolve outro círculo de poder. Eu o chamaria o círculo de não fazer, pois é ligado a não fazer. Com esse círculo, portanto, ele pode fazer girar outro mundo.
- O problema com você é que ainda não desenvolveu seu círculo de poder extra e seu corpo não conhece o não fazer - disse ele.
- Nós todos fomos ensinados a concordar sobre fazer – disse ele baixinho. - Você não tem idéia do poder que essa concordância acarreta. Mas, felizmente, não fazer é igualmente milagroso e poderoso.”
Viagem a Ixtlan, pág. 197

“- Você é muito esperto - disse ele por fim. - Volte para onde sempre esteve. Mas dessa vez você está liquidado. Não tem para onde voltar. Não lhe vou explicar mais nada. O que Genaro lhe fez ontem, fez a seu corpo, por isso deixe seu corpo resolver como são as coisas.
O tom de voz de Dom Juan era amistoso mas singularmente indiferente e aquilo me deu uma tremenda sensação de solidão. Exprimi minha tristeza. Ele sorriu. Seus dedos pegaram de leve a parte de cima de minha mão.
- Nós dois somos seres que vamos morrer - disse ele, baixinho. - Não há mais tempo para o que costumávamos fazer. Agora, tem de usar todo o não fazer que lhe ensinei e parar o mundo.
Tornou a pegar minha mão. Seu toque era firme e amistoso; era como uma reafirmação de que ele se interessava e tinha afeição por mim e, ao mesmo tempo, me dava a impressão de um propósito inabalável.
- Este é meu gesto por você - falou, conservando-se agarrado a minha mão por um instante. - Agora, tem de ir sozinho para aquelas montanhas amigas. - Apontou com o queixo para a cadeia de montanhas distante, para sudeste.
Disse que eu teria de ficar lá até meu corpo me mandar parar e então voltar para casa dele. Deixou-me saber que não queria que eu dissesse qualquer coisa, nem esperasse mais, empurrando-me delicadamente na direção de meu carro.
- O que devo fazer lá? - perguntei.
Ele não respondeu, e ficou olhando para mim, sacudindo a cabeça.
- Isso já acabou - disse ele por fim. Em seguida, apontou o dedo para sudeste. - Vá para lá - concluiu, com rispidez.”
Viagem a Ixtlan, pág. 229

- Depois que o aprendiz recebe sua tarefa de feitiçaria, está pronto para outro tipo de instrução - continuou ele. - Aí ele é um guerreiro. No seu caso, como você não era mais aprendiz, eu lhe ensinei as três técnicas que ajudam a sonhar: romper as rotinas da vida, o passo do poder, e não fazer. Você era muito constante, burro como aprendiz e burro como guerreiro. Anotava conscienciosamente tudo o que eu dizia e tudo o que lhe acontecia, mas não agia exatamente conforme eu mandava. De modo que eu ainda tinha de bombardeá-lo com plantas de poder.
Dom Juan então deu-me uma descrição detalhada de como desviar a minha atenção de sonhar, fazendo-me acreditar que o problema importante era uma atividade muito difícil que ele chamara de não fazer, que consistia de um jogo de percepção, de focalizar a atenção em coisas do mundo que normalmente são desprezadas, tais como as sombras das coisas. Dom Juan disse que a sua estratégia fora destacar o não-fazer, impondo a isso o maior segredo.
- Não fazer, como tudo o mais, é uma técnica muito importante, mas não era o ponto principal- disse ele. - Você foi atraído pelo segredo. Você, uma língua de trapo, ter de guardar um segredo.
Ele riu e disse que podia imaginar o trabalho que eu devia ter tido para ficar de boca calada.
Explicou que romper as rotinas, o passo do poder e não-fazer eram alamedas para aprender novos meios de perceber o mundo, e que davam ao guerreiro um vislumbre de incríveis possibilidades de ação. A idéia de Dom Juan era que o conhecimento de um mundo separado e pragmático de sonhar era possibilitado pelo uso dessas três técnicas.”
Porta para o Infinito, pág. 220

“- Dom Juan lhes contou mais algumas coisas sobre as pirâmides, Pablito? - perguntei.
Minha intenção era desviar a conversa sobre a questão específica das Atlantas e ao mesmo tempo ficar próximo dela.
- Disse que uma certa pirâmide lá em Tula era uma guia replicou Pablito ansiosamente.
Pelo tom da sua voz deduzi que ele realmente queria falar. E a atenção dos outros aprendizes me convenceu de que, dissimuladamente, todos queriam trocar opiniões.
- O nagual disse que era uma guia da segunda atenção - continuou Pablito - mas que foi explorada e que destruíram tudo. Ele me falou que algumas pirâmides eram gigantescos lugares de não fazer. Não eram moradas, mas lugares dos guerreiros desenvolverem seus sonhos e exercitarem sua segunda atenção. O que quer que fizessem era registrado em desenhos e figuras nas paredes.
Depois, uma nova espécie de guerreiro deve ter aparecido, uma espécie que não aprovava o que os feiticeiros da pirâmide tinham feito com a segunda atenção, e destruíram a pirâmide com tudo o que havia dentro.
"O nagual acreditava que os novos guerreiros deviam ser guerreiros da terceira atenção, como ele próprio era; guerreiros que ficavam horrorizados com o mal da fixação da segunda atenção. Os feiticeiros das pirâmides estavam ocupados demais com sua fixação para perceberem o que estava acontecendo. Quando perceberam, era tarde demais.”
Pablito tinha uma platéia. Todos na sala, inclusive eu, estavam fascinados com o que ele dizia. Compreendi as idéias que ele apresentava porque Dom Juan já as tinha explicado a mim.
Tinha dito que nosso ser total consiste em dois segmentos perceptíveis. O primeiro é o corpo físico conhecido que todos nós podemos perceber; o segundo é o corpo luminoso, um casulo que só os videntes conseguem perceber, um casulo que nos dá a aparência de ovos luminosos gigantescos. Tinha dito também que uma das metas mais importantes da feitiçaria é alcançar o casulo luminoso, uma meta que é conseguida pelo uso sofisticado do "sonho" e por um empreendimento rigoroso e sistemático a que ele dava o nome de não fazer. Definia o não fazer como um ato pouco familiar, que envolve todo o nosso ser ao forçá-lo a se tornar consciente do seu segmento luminoso.
O Presente da Águia, pág. 19

“Ele enfatizou que todas as ruínas arqueológicas do México, especialmente as pirâmides, eram nocivas ao homem moderno. Descreveu as pirâmides como expressões estranhas de pensamento e ação. Disse que todos os itens, todos os desenhos delas, eram um esforço calculado de recordar aspectos de atenção que eram completamente estranhos a nós. Para Dom Juan não só as ruínas das culturas do passado continham um elemento perigoso; qualquer coisa que fosse o objeto de uma preocupação obsessiva tinha um potencial nocivo.
Ele discutira isso detalhadamente uma vez. Foi uma reação que teve a uns comentários que eu fiz sobre não saber onde guardar minhas notas de campo com segurança. Eu as via de uma maneira muito obsessiva, e estava obcecado com a segurança delas.
- O que eu devo fazer? - tinha perguntado a ele.
- Genaro uma vez lhe deu uma solução - respondera ele.
-Você pensou, como sempre pensa, que ele estava brincando. Ele nunca brinca. Disse que você deveria escrever com a ponta dos dedos em vez de escrever a lápis. Você não o levou a sério sobre isso porque não pode imaginar que este seja o não fazer de tomar notas.
Eu argumentei
Dom Juan argumentou novamente. Disse que tomar notas era um modo de envolver a primeira atenção na tarefa de se lembrar, e que eu tomava notas a fim de me lembrar do que era dito e feito. A recomendação de Dom Genaro não era uma brincadeira, pois escrever com a ponta do meu dedo num pedaço de papel, como não fazer de tomar notas, forçaria minha segunda atenção, a focalizar a minha lembrança sem acumular folhas de papel. Dom Juan achava que o resultado final seria mais preciso e de mais valor que tomar notas. Nunca tinha sido feito, ao que ele soubesse, mas o princípio era sólido.
Pressionou-me a fazer isso por algum tempo. Eu fiquei perturbado. Tomar notas não só funcionava como um método mnemônico
 como também me acalmava. Era minha mania mais construtiva. Acumular folhas de papel me dava uma sensação de objetivo e equilíbrio.
- Quando você se preocupa com o que fazer com as suas folhas - explicou Dom Juan - está focalizando uma parte muito perigosa de você mesmo nelas. Todos nós temos esse lado perigoso, essa fixação. Quanto mais forte ficamos, mais perigosa essa parte se torna. A recomendação para os guerreiros é não ter nenhuma coisa material na qual focalizar seu poder, mas focalizá-lo no espírito, no verdadeiro vôo ao desconhecido, e não em campos triviais. No seu caso, suas notas são o seu escudo. Elas não o deixarão viver em paz.
Senti seriamente que não tinha nenhum modo possível de me dissociar das minhas notas. Dom Juan então concebeu uma tarefa para mim em lugar do não fazer característico. Disse que, para alguém tão altamente possessivo como eu, o modo mais apropriado de me libertar do meu caderno de notas seria desmantelá-lo, jogá-lo pelos ares e escrever um livro. Pensei, naquela época, que aquilo era uma brincadeira maior que a de tomar notas com a ponta dos dedos.
O Presente da Águia, pág. 22

“Don Juan tinha me descrito o sonho de várias maneiras. A mais obscura delas todas me parece agora ser aquela que o define do melhor modo. Ele disse que o sonho é intrinsecamente o não fazer de dormir.
Um não fazer básico designado a ajudar o sonho, era o não fazer de falar, chamado "parar o diálogo interno". Os dois se combinam no sentido de que parar o diálogo interno traz a paz necessária e descansa a mente dos praticantes, e isso por sua vez ajuda-os a controlar seus sonhos. Como o não fazer de dormir, o sonho dá aos praticantes a utilização daquela porção de suas vidas gastas no cochilo. É como se os sonhadores não mais dormissem. Mesmo assim não há mal nisso. Os sonhadores não sentem falta de sono, mas o efeito de sonhar parece ser o aumento do tempo através do uso de um pretenso corpo extra, o corpo sonhador.
Dom Juan explicou-me que o corpo sonhador é às vezes chamado de "o sósia" ou "o outro", porque é uma réplica perfeita do corpo do sonha o outro, dor. É basicamente a energia de um ser luminoso, um esbranquiçado, uma emanação fantasmagórica, que é projetada pela fixação da segunda atenção numa imagem tridimensional do corpo. Explicou que o corpo sonhador não é um fantasma; é tão real quanto qualquer coisa com que lidamos no mundo. Disse que a segunda atenção é inevitavelmente levada a focalizar sobre nosso ser total como um campo de energia, e que transforma essa energia em qualquer coisa apropriada. A coisa mais fácil é, naturalmente, a imagem do corpo físico com o qual já estamos perfeitamente familiarizados em nossa vida diária, através do uso da nossa primeira atenção. O que canaliza a energia do nosso ser total a produzir qualquer coisa que esteja dentro dos limites de possibilidades é conhecido como "vontade". Dom Juan não sabia dizer quais eram esses limites, a não ser que a nível dos seres luminosos os parâmetros são tão amplos que é bobagem tentar estabelecer limites; desta forma a energia de um ser luminoso pode ser transformada, através da vontade, em qualquer coisa.
- O nagual disse que o corpo sonhador se envolve e se prende a qualquer coisa - disse Benigno. - Ele não tem sentido. Disse-me que os homens são mais fracos que as mulheres porque o corpo sonhador do homem é mais possessivo.”
O Presente da Águia, pág. 24

“Uma noite sentamo-nos e muito casualmente começamos a discutir o que sabíamos sobre o sonho. Tornou-se óbvio para nós que havia alguns assuntos-chave aos quais Dom Juan dera ênfase especial.
Primeiro era o ato de sonhar. Na nossa opinião ele começava como um estado de consciência único, ao qual se chegava aprendendo a focalizar o resíduo de consciência que a pessoa ainda tem enquanto dorme, sobre os elementos ou os detalhes dos sonhos da pessoa.
O resíduo de consciência, a que Dom Juan chamava segunda atenção, era levado à ação, ou era aproveitado através de exercícios do não fazer. Achávamos que o não fazer essencial do sonho era um estado de quietude mental, ao qual Dom Juan chamava de "parar o diálogo interno", ou o não fazer de falar. A fim de me ensinar como manejá-lo ele costumava me fazer andar quilômetros com os olhos fixos e fora de foco a um nível logo ao fim da linha do horizonte, permitindo assim que eu tivesse uma visão periférica. Seu método era eficiente por dois motivos: permitia-me parar meu diálogo interno depois de ter tentado durante anos, e treinava minha atenção. Forçando-me a concentrar-me na minha visão periférica, Dom Juan reforçava minha capacidade de me concentrar por longo tempo em uma única atividade.
Mais tarde, quando eu tinha conseguido controlar minha atenção e podia trabalhar durante horas em qualquer tarefa a que me impunha sem me distrair - coisa que nunca antes fora capaz de fazer - ele me disse que o melhor modo de buscar um sonho era me concentrar na área próxima à ponta do esterno, na boca do estômago. Falou que a atenção que um homem necessita para sonhar deriva-se daquela área, mas que a energia a fim de se mover e procurar no sonho origina-se da área a uns três a seis centímetros abaixo do umbigo. Ele chamava a essa energia "vontade" ou poder de selecionar, de acumular. Numa mulher tanto a atenção quanto a energia para o sonho originam-se do ventre.
- O sonho de uma mulher tem de vir do seu ventre porque é esse o seu centro - disse La Gorda. - Para que eu comece a sonhar ou parar o sonho, tudo o que tenho a fazer é colocar minha atenção no ventre. Aprendi a sentir o seu interior. Vejo um brilho avermelhado por um instante e então se dá o seu início.”
O Presente da Águia, pág. 112

“La Gorda disse que Dom Juan lhe falou que qualquer coisa pode servir como um não fazer para ajudar o sonho, desde que force a atenção a permanecer fixa. Ele fazia com que ela e todos os outros aprendizes, por exemplo, olhassem para as folhas e pedras, e encorajava Pablito a formar seu próprio dispositivo de não fazer. Pablito começou com o não fazer de andar para trás. Para se movimentar dava olhadas rápidas para os lados a fim de saber para onde ia e evitar obstáculos no caminho. Dei-lhe a idéia de usar um espelho retrovisor, e ele desenvolveu essa idéia, construindo um capacete de madeira com uma parte que prendia dois espelhos pequenos, a uns doze centímetros do rosto e quatro centímetros abaixo do nível dos olhos. Os dois espelhos não interferiam com sua visão frontal, e, devido ao ângulo lateral no qual estavam presos, cobriam toda a área atrás dele. Pablito se gabava de ter uma visão periférica do mundo de 360º. Auxiliado pelo seu dispositivo podia andar para trás a qualquer distância, ou durante qualquer tempo.”
O Presente da Águia, pág. 114

“Para nosso primeiro não fazer, Silvio Manuel construiu um engradado de madeira grande o suficiente para acomodar La Gorda e eu, de modo a ficarmos sentados de costas um para o outro, com o joelho para o alto. O engradado tinha uma tampa de treliça para deixar passar o ar. La Gorda e eu tínhamos de entrar e sentar na escuridão, em silêncio total, sem dormir. Ele começou fazendo-nos entrar na caixa por breves períodos; depois aumentou o tempo à medida que nos acostumávamos com a coisa, até podermos passar toda uma noite dentro, sem nos mover ou dormir.
A mulher nagual ficou conosco para se certificar de que não mudaríamos nossos níveis de conscientização devido ao cansaço. Silvio Manuel disse que nossa tendência natural sob condições incomuns seria mudar do elevado estado de conscientização para o estado normal, e vice-versa.
O efeito geral do não fazer, toda vez que agíamos, era nos dar uma inigualável sensação de repouso, o que me deixava inteiramente intrigado, já que não podíamos dormir durante nossas longas noites de vigília. Atribuí a sensação de repouso ao fato de estarmos em estado de elevada conscientização, mas Silvio Manuel disse que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, que a sensação de repouso era resultado de sentarmos com os joelhos para cima.
O segundo não fazer consistia em nos fazer deitar no chão como se fôssemos cachorros enroscados, quase que em posição fetal, apoiados no lado esquerdo, na testa e nos braços dobrados. Silvio Manuel insistiu que fechássemos os olhos tanto quanto possível, abrindo-os apenas quando ele nos mandasse trocar de posição e virar para o lado direito. Disse-nos que o objetivo desse não fazer era forçar nosso sentido de audição a se separar da nossa visão. Como antes, aumentou gradualmente o tempo até que passássemos toda uma noite em vigília.
Silvio Manuel estava então pronto para nos passar para outra área de atividade. Explicou que nos primeiros dois não fazeres tínhamos quebrado uma certa barreira de percepção enquanto ficávamos presos ao chão. Por analogia, comparou os seres humanos às árvores. Somos como que árvores móveis, tendo de alguma forma raízes no chão, raízes essas que nos permitem mover mas que não nos separam do chão. Disse que a fim de estabelecermos equilíbrio tínhamos de desenvolver o terceiro não fazer pendurados no ar. Se tivéssemos êxito enquanto suspensos de uma árvore dentro de um arreio de couro, faríamos um triângulo com nossa intenção, triângulo com base no chão e no seu vértice no ar. Silvio Manuel achava que tínhamos reunido nossa atenção com os dois primeiros não fazeres a ponto de podermos realizar o terceiro perfeitamente, desde o início.”
O Presente da Águia, pág. 187

“Sua alegação era que a percepção sofre um choque profundo quando estamos colocados em estado de quietude no escuro. Nossa audição toma a frente então e os sinais de todas as entidades vivas e existentes à nossa volta podem ser detectados - não apenas com nossa audição, mas por uma combinação dos sentidos auditivos e visuais, nessa ordem. Disse que na escuridão, especialmente enquanto suspensos, os olhos se tornam secundários aos ouvidos.
Ele estava absolutamente certo, como La Gorda e eu descobrimos. Com o exercício do terceiro não fazer Silvio Manuel nos deu uma nova dimensão à nossa percepção do mundo que nos rodeia.
Ele então disse a La Gorda e a mim que o próximo conjunto de não fazer seria intrinsecamente diferente e mais complexo. Relacionava-se ao aprendizado de como lidar com o outro mundo. Era necessário maximizar o esforço, mudando nosso tempo de ação para o início da noite ou o início da madrugada. Disse-nos que o primeiro não fazer do segundo conjunto tinha dois estágios. No primeiro estágio tínhamos de atingir nosso estado mais alerta de elevada conscientização a fim de detectarmos a parede de névoa. Uma vez feito isso, o segundo estágio consistiria em fazer aquela parede parar de girar, a fim de nos aventurarmos no mundo entre as linhas paralelas.
A visou-nos que o que pretendia era nos colocar diretamente na segunda atenção, sem qualquer preparação intelectual. Queria que aprendêssemos os detalhes sem uma compreensão racional do que estávamos fazendo. Sua alegação era que um veado mágico ou um coiote mágico manipula a segunda atenção sem ter nenhum intelecto.
Através da prática forçada de passarmos para trás da parede de névoa, iríamos empreender, mais cedo ou mais tarde, uma permanente alteração no nosso ser total, alteração essa que nos faria aceitar que o mundo entre as linhas paralelas é real, pois é parte do mundo total, como nosso corpo luminoso é parte do nosso ser total.”
O Presente da Águia, pág. 189

“La Gorda e eu tínhamos estado tão envolvidos em nossas viagens por trás da parede de névoa que tínhamos nos esquecido que estava na hora da nossa próxima série de não fazer com Silvio Manuel. Ele nos disse que ela poderia ser devastadora e que consistia em atravessar as linhas paralelas com as três irmãzinhas e os três Genaros, diretamente para a entrada no mundo de total conscientização. Não incluiu Dona Soledad porque seus não fazeres eram destinados apenas a sonhadoras, e ela era espreitadora.
Silvio Manuel acrescentou que esperava que nós nos tornássemos familiarizados com a terceira atenção se nos colocássemos ao pé da Águia (O Mar Escuro da Consciência) diversas vezes. Ele nos preparou para o choque; explicou que as viagens de um guerreiro às dunas de areia desolados eram um passo preparatório para a verdadeira travessia das fronteiras. Aventurar-se para além da parede de névoa num estado de elevada conscientização ou durante um sonho implicava apenas uma porção muito pequena de nossa conscientização total, enquanto que atravessar corporalmente para o outro mundo implicava o comprometimento do nosso ser total.
Silvio Manuel concebera a idéia de usar uma ponte como símbolo de uma verdadeira travessia. Argumentou que a ponte era adjacente a um lugar de poder; e os lugares de poder eram aberturas, passagens para o outro mundo. Achava que seria possível que La Gorda e eu adquiríssemos força suficiente para enfrentar um vislumbre da Águia.”
O Presente da Águia, pág. 192

“- Desculpe - disse. - Você falou que vai me contar sobre sua vida pessoal?
- Por que não? - perguntou ela.
Respondi, usando a explicação que me fora dada por Dom Juan sobre a força negativa da história pessoal e da necessidade que o guerreiro tinha de apagá-la. Terminei dizendo que ele tinha me proibido de falar qualquer coisa sobre a minha vida.
Ela riu com uma voz alta de falsete. Parecia encantada.
- Isso só se aplica aos homens - disse. - O não fazer da sua vida pessoal é contar histórias sem fim, mas nenhuma sobre sua vida real. Como homem, você tem uma história sólida por trás. Uma família, amigos, conhecidos, e todos eles com uma idéia definida sua. Como homem você é responsável. Não pode desaparecer tão facilmente. Para se apagar teria de ter muito trabalho. Meu caso é diferente. Sou mulher, o que me traz muita vantagem. Não sou responsá-vel. Você não sabe que as mulheres não são responsáveis?
- Não entendo o que quer dizer com responsável - falei.
- Quero dizer que a mulher pode desaparecer facilmente replicou. - A mulher pode se casar, por exemplo. Ela pertence ao marido. Numa família com muitos filhos, as filhas são descartadas muito cedo. Ninguém conta com elas, e há possibilidade de umas desaparecerem, sem deixarem vestígio e esses desaparecimentos serem facilmente aceitos.
"O filho, ao contrário, é alguém com quem se conta. Não é fácil para o filho eclipsar-se e desaparecer. E mesmo se fizer isso, deixará vestígios. Ele sente-se culpado se desaparecer. A filha não.
"Quando o nagual o treinou a ficar de boca fechada em relação à sua vida pessoal, pretendia ajudá-lo a superar seu sentimento de ter cometido um erro com sua família e amigos, que contavam com você de uma forma ou de outra.
"Depois de toda uma vida de luta o guerreiro termina apagando-se, naturalmente, mas essa luta tem um preço para o homem. Ele se torna misterioso, sempre em guarda contra si próprio. A mulher já está preparada para se desintegrar no ar. Na verdade, espera-se isso dela.
Como mulher, não sou obrigada ao segredo. Não dou a mínima para isso. Segredo é o preço que vocês homens têm de pagar por serem importantes para a sociedade. A luta é só para os homens, porque eles se ressentem de terem de se apagar e encontrariam modos curiosos de surgirem em algum lugar, de alguma forma. Veja o seu exemplo; você vive fazendo conferências.”
O Presente da Águia, pág. 214

“Disse que seu benfeitor considerava as três técnicas básicas da espreita - o engradado, a lista de acontecimentos a serem recapitulados, e a respiração do espreitador - como sendo as tarefas talvez mais importantes de um guerreiro. Ele achava que uma recapitulação profunda era o meio mais eficiente para se perder a forma humana. Portanto, seria fácil para os espreitadores, depois de recapitularem suas vidas, fazer uso de todos os não fazeres do seu eu, tais como apagar sua história pessoal, perder a auto-importância, quebrar as rotinas, e assim por diante.”
O Presente da Águia, pág. 230

“Dom Juan disse que a função dos não fazeres é criar uma obstrução na focalização habitual da nossa primeira atenção. Os não fazeres são, nesse sentido, manobras designadas a preparar a primeira atenção para o bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Ele explicou que esse bloqueio funcional, o único método de utilizar sistematicamente a capacidade latente do primeiro anel de poder é uma interrupção temporária que o benfeitor cria na capacidade de desnatar dos seus discípulos. É uma intromissão artificial; uma invasão deliberada e forçada à primeira atenção, designada para empurrá-la além do verniz superficial dos vestígios familiares; uma intromissão atingida por meio da obstrução da intenção do primeiro anel de poder.”
O Presente da Águia, pág. 258

“Devo ter parecido cético a Don Juan, pois ele explicou que o mundo de nossa auto-reflexão ou de nossa mente era muito inconsistente e era mantido coeso por algumas poucas idéias-chave que serviam como sua ordem subjacente. Quando essas idéias falhavam, a ordem subjacente parava de funcionar.
- Quais são essas idéias-chave, Don Juan?
- Em seu caso, naquela instância em particular, como no caso da audiência daquela curandeira sobre a qual falamos, a continuidade era a idéia-chave.
- O que é continuidade?
- A idéia de que somos um bloco sólido. Em nossas mentes, o que sustenta o nosso mundo é a certeza de que somos imutáveis. Podemos aceitar que nosso comportamento pode ser modificado, que nossas reações e opiniões podem ser modificadas, mas a idéia de que somos maleáveis a ponto de mudar de aparência, a ponto de ser alguma outra pessoa, não é parte da ordem subjacente de nossa auto-reflexão. Sempre que um feiticeiro interrompe essa ordem, o mundo da razão pára.
Desejei perguntar-lhe se quebrar a continuidade de um indivíduo era suficiente para causar o movimento do ponto de aglutinação. Ele pareceu antecipar minha pergunta. Disse que essa quebra era apenas um suavizador. O que ajudava o ponto de aglutinação mover-se era a implacabilidade do nagual.
Comparou então os atos que executara naquela tarde em Guaymas com os atos da curandeira que havíamos discutido previamente. Explicou que a curandeira havia estraçalhado a auto-reflexão das pessoas de sua audiência com uma série de atos para os quais eles não tinham equivalentes em suas vidas diárias - a dramática possessão do espírito, mudança de vozes, abertura do corpo do paciente. Assim que a continuidade da idéia deles próprios foi quebrada, seus pontos de aglutinação estavam prontos para ser movidos.
Lembrou-me de que havia descrito para mim no passado o conceito de parar o mundo. Comentara que parar o mundo era tão necessário para os feiticeiros quanto ler e escrever o eram para mim. Consistia em introduzir um elemento dissonante no tecido do comportamento cotidiano para deter o fluxo de outro modo suave dos eventos ordinários - eventos que eram catalogados em nossas mentes por nossa razão.
O elemento dissonante era chamado não fazer, ou o oposto de fazer. "Fazer" era tudo que fosse parte de um todo para o qual tínhamos um valor cognitivo. Não fazer era um elemento que não pertencia àquele todo mapeado.
- Os feiticeiros, por serem espreitadores, compreendem bem o comportamento humano - disse ele. - Compreendem, por exemplo, que os seres humanos são criaturas de inventários. Saber os itens que entram ou não entram em um inventário em particular é o que torna o homem um estudioso ou especialista em seu campo.
"Os feiticeiros sabem que quando o inventário de uma pessoa comum falha, a pessoa ou aumenta seu inventário ou o mundo de sua auto-reflexão entra em colapso. A pessoa comum está disposta a incorporar novos itens em seu inventário se estes não contradisserem a ordem subjacente do inventário. Mas se os itens contradisserem essa ordem, a mente da pessoa entra em colapso. O inventário é a mente. Os feiticeiros contam com isso quando tentam quebrar o espelho da auto-reflexão.”
O Poder do Silêncio, pág. 165

“- Parece que não vamos conseguir nos livrar dele – disse num tom de resignação. - Vamos caminhar com calma, como se estivéssemos dando um belo passeio no parque, e você me contará a história de sua infância. Este é o momento e o cenário certos para isso. Um jaguar está atrás de nós com um apetite voraz, e você está se lembrando sobre o passado: o perfeito não fazer para estar sendo caçado por um jaguar.
Ele riu alto. Mas quando lhe falei que havia perdido completamente o interesse em contar a história, ele dobrou-se de risos.
- Está me punindo agora por não querer ouvi-lo, não é mesmo?
E eu, é claro, comecei a defender-me. Disse-lhe que sua acusação era definitivamente absurda. De fato perdi o fio da meada.
- Se um feiticeiro não tem auto-estima, não dá uma bosta por ter perdido o fio da história - disse ele com um brilho malicioso nos olhos. - Como você não tem mais qualquer auto-estima, deve contar sua história agora. Conte-a ao espírito, ao jaguar, e a mim, como se não tivesse perdido o fio em momento algum.”
O Poder do Silêncio, pág. 197

“O tópico inicial foi o que definiu como não fazer, uma atividade especialmente projetada para banir de nossas vidas todo o vestígio de cotidianidade. Afirmou que o não fazer é o exercício favorito dos aprendizes, porque os introduzem em um ambiente de maravilha e desconcerto muito refrescante para a energia, cujo efeito sobre a consciência eles chamam de "parar o mundo"
Respondendo a algumas questões, explicou que o não fazer não pode ser racionalizado. Qualquer esforço para tentar entendê-lo, é na realidade uma interpretação do ensino e cai automaticamente no campo de fazer.
"A premissa dos bruxos para tratar com este tipo de prática é o silêncio mental. E a qualidade de silêncio requerido para algo tão descomunal quanto parar o mundo, só pode vir de um contato direto com a grande verdade de nossa existência: que todos nós vamos morrer".
Ele nos aconselhou:
"Se vocês querem conhecer a si mesmos, sejam conscientes de sua morte pessoal. Ela não é negociável e é a única coisa que vocês realmente têm. Todo o resto poderá falhar, mas a morte não, a ela podem dar por certo. Aprendam a usá-la para produzir efeitos verdadeiros em suas vidas.
"Também, parem de acreditar em contos da carochinha, ninguém os quer lá fora. Nenhum de nós é tão importante para que hajam inventado algo tão fantástico como a imortalidade. Um bruxo que tem humildade sabe que o destino dele é o de qualquer outro ser vivo desta terra. Assim, em vez de se iludir com falsas esperanças, ele trabalha concreta e duramente para sair de sua condição humana e tomar a única saída que nós temos: a quebra de nossa barreira perceptual.
"Ao mesmo tempo em que escutam o conselho da morte, façam-se responsáveis por suas vidas, da totalidade das suas ações. Explorem-se, reconheçam-se e vivam intensamente, como vivem os bruxos. A intensidade é a única coisa que pode nos salvar do aborrecimento.
"Uma vez alinhados com a morte, estarão em condições de dar o seguinte passo: reduzir ao mínimo a bagagem. Este é um mundo prisão e é necessário sair como fugitivos, sem levar nada.
Os seres humanos são viajantes por natureza. Voar e conhecer outros horizontes é nosso destino. Por acaso você sai de viagem com sua cama ou com a mesa em que come? Sintetiza sua vida!".
Encontros com o Nagual, pág. 51

"Um método infalível para conseguir o silêncio é através do não fazer, uma atividade que nós programamos com nossa mente, mas que tem a virtude de silenciar os pensamentos uma vez que é começado. Don Juan chamava esse tipo de técnica de 'tirar um espinho com outro'".
Apresentou como exemplos de não fazer: escutar na escuridão, trocando a prioridade de nossos sentidos e o comando que nos força a dormir assim que nós fechamos os olhos. Também, conversar com as plantas, parar de ponta cabeça, caminhar para trás, observar as sombras, a distância ou os espaços entre as folhas das árvores.
"Todas essas atividades são das mais efetivas para silenciar nosso diálogo interno, mas elas têm um defeito: não as podemos sustentar durante muito tempo. Depois de um momento, somos forçados a recuperar nossas rotinas. Um não fazer que é exagerado, automaticamente perde o poder e cai dentro de fazer.
"Se o que nós queremos é acumular silêncio profundo, de efeitos duradouros, o melhor não fazer é a solidão. Junto com a economia da energia e o abandono desses que nos dão por feitos. Aprender a estar só é o terceiro princípio prático do caminho.
"O mundo do guerreiro é a coisa mais solitária que há. Até mesmo quando vários aprendizes se unem para viajar pelas rotas do poder, cada um sabe que está sozinho, que não pode esperar nada do outro nem depender de ninguém. O máximo que ele pode fazer é compartilhar o caminho com aqueles que o acompanham.
"Estar só requer um grande esforço, porque nós ainda não aprendemos a superar o comando genético da socialização. No princípio, o aprendiz deve ser forçado a isto pelo seu mestre, através de armadilhas se for necessário. Mas com o tempo aprende a desfrutá-lo. É normal que os bruxos busquem o silêncio na solidão da montanha ou do deserto e que vivam sozinhos durante longos períodos".
Alguém comentou que essa era "uma perspectiva horrorosa"
Carlos respondeu:
"Horroroso é chegar à velhice como umas crianças choronas!
Encontros com o Nagual, pág. 93