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domingo, 15 de junho de 2014

A Roda Da Vida - 2

Na postagem A Roda da Vida falamos deste conceito no budismo. Hoje vamos continuar a partir de textos didáticos e simples dos lamas Samten e Chagdud compilados por Kalma Tenpa Dharguye:

A Roda da Vida (sânsc. Bhavachakra), também conhecida com a Roda da Existência, Roda do Devir e do Vir-a-ser, foi criada pela extinta escola Sarvastivada, precursora do buddhismo Mahayana. Este diagrama geralmente é encontrado nas portas de entrada dos monastérios tibetanos. Suas ilustrações representam simbolicamente a os doze elos da existência interdependente, os seis reinos da existência cíclica e os três venenos da mente. Segundo a tradição, a Roda da Vida foi desenhada pela primeira vez na época do Buda Shakyamuni. Depois de pedir um conselho ao Buda, o diagrama teria sido desenhado por ordem do rei Bimbisara de Magadha. Ele o enviou ao rei Udayana em retribuição a um manto de jóias preciosas que tinha recebido de presente. O rei Udayana teria atingido uma profunda realização espiritual após estudar este diagrama.

A assustadora figura que segura a roda é Yama, o demônio da morte da mitologia indiana. Aqui, sua terrível presença simboliza a impermanência; nenhum ser vivo pode escapar de suas garras. Entretanto, o Buda está flutuando no céu e apontando para a lua cheia; isto representa que os seus ensinamentos apontam o caminho para a liberação.

A maioria das pessoas vive negando a morte; praticantes budistas vivem com a constante consciência de sua existência. A morte, para eles, é uma poderosa diretriz para encontrar o significado essencial da vida. Na prática Vajrayana tibetana, os símbolos da morte — copas de crânio, tambores de crânio, trombetas de fêmur, malas [rosários] de osso, dançarinos em indumentárias que simbolizam esqueletos — nos relembram nitidamente de sua proximidade. A utilização de tais implementos durante os rituais não quer dizer que os praticantes Vajrayana sejam insensíveis à morte, ou que não se aflijam com a morte de familiares e amigos, porém o cheiro e a textura de ossos envelhecidos, por exemplo, evocam o pensamento: "Sim, eu também terminarei como ossos espalhados ou cinzas num cemitério. Possa eu usar bem este corpo e não desperdiçar o tempo que me resta". (Chagdud Khadro, Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana)

Na borda da roda, doze ilustrações representam os “Doze elos da existência condicionada”:

3 ELOS DA VIDA PASSADA:

  • Uma velha mulher cega, andando com uma bengala, representa a ausência de visão ou ignorância;
  • Um oleiro fazendo um pote representa as formações mentais;
  • Um macaco pulando de galho em galho representa a consciência;
7 ELOS DA VIDA ATUAL:

  • Um barco com duas pessoas representa o nome e forma;
  • Uma casa com seis janelas representa o conjunto dos seis sentidos;
  • Um casal se abraçando representa o contato;
  • Um homem ferido por uma flecha no olho representa a sensação;
  • Um homem tomando uma bebida representa o desejo;
  • Um homem ou um macaco agarrando uma fruta em uma árvore representa o apego;
  • Uma mulher grávida representa a existência;
2 ELOS DA VIDA FUTURA:

  • Uma mulher dando à luz representa o nascimento;
  • Uma pessoa carregando um cadáver representa o envelhecimento e morte.
A parte principal da roda é dividida em seis partes, representando os seis reinos da existência cíclica (sânsc. samsara).

Na parte de baixo, estão os três reinos inferiores:
  • seres dos infernos (sânsc. naraka, nairayika);
  • fantasmas famintos (ou espíritos carentes, sânsc. preta);
  • animais (sânsc. tiryak, tiryagyona).

Na parte de cima, estão os três reinos superiores:
  • deuses (sânsc. deva);
  • semideuses (ou deuses invejosos, titãs, sânsc. asura);
  • humanos (sânsc. manushya).

Existem seis reinos onde nós podemos ter renascimento, um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito de experiência específico, ainda assim podemos vivenciar em corpo humano — embora com muito menos intensidade — as experiências dos seis reinos. Por exemplo, o reino dos infernos é vivido por nós através da experiência de que todas as pessoas que nos cercam são ruins, o filho, o marido, o chefe... Para todo lado que olhamos as coisas são difíceis e só há sofrimento. Através da raiva e da aversão nos conectamos com esse reino. No reino dos seres famintos há uma experiência de carência incessante, eles têm sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Nos conectamos a essa experiência através da avareza e aquisitividade. Assim como nos infernos, esses seres também não praticam. Os seres nos infernos dizem: "estou sofrendo, tudo é horrível, como eu vou praticar?" Os seres famintos dizem "eu preciso disso e disso, como posso praticar?". Depois há o reino dos animais, eles não praticam porque tão logo eles estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Dharma.

Entre os reinos superiores, há os deuses. Não é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponde àqueles que andam de carro importado, jatinho, não tem problemas de dinheiro, desfrutam de todas felicidades do mundo material. Os deuses têm corpos específicos sutis, se deslocam no espaço e produzem benefícios para os seres humanos em dificuldades. O problema é que são benefícios condicionados, e não do tipo que produz liberação. Esse reino é o que os seres humanos buscam em seus sonhos, é a sua perdição... Vivemos almejando chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Nos conectamos com esse reino através do orgulho.

Já os semi-deuses têm poder, mas são competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. A conexão se dá através da inveja. Os deuses não praticam porque estão imersos em facilidades e felicidades, então, por quê praticar? Os semi-deuses, como estão sempre guerreando, também não têm tempo para praticar.
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)
  
Não é um processo que necessariamente precise ser monitorado. As ações se desenrolam do seu próprio modo, sem que ninguém controle o resultado. Não é como se alguém tivesse que contabilizar tudo para que cada qual fosse parar no reino certo, etc. As ações de cada ser determinam as experiências futuras desse ser. [...]

A idéia de que podemos vivenciar estes reinos de sofrimento que chamamos de infernos deixa muitas pessoas céticas ou enraivecidas. Elas não acreditam em inferno; pensam que este conceito não passa de uma tática que algumas religiões empregam para assustar e controlar as pessoas. Em certo sentido, é verdade que o inferno não existe. Se fizermos uso de toda a tecnologia do mundo para tentar chegar ao centro da Terra, nunca acharemos o inferno. No entanto, muitos seres estão sofrendo no reino dos infernos neste exato momento.

O inferno é o fluxo dos enganos e fantasias da mente, dos pensamentos e interações raivosos, e das palavras e ações nocivas que eles produzem. Se não forem controlados, não há como deixarmos de vivenciar o inferno. [...] Algumas pessoas experimentam o inferno mesmo enquanto contam com um corpo humano. Muitas delas ocupam nossos hospitais. [...] Poderíamos estar sentados no mesmo quarto que elas, e não enxergar nada do que sofrem. Ao mesmo tempo, podemos estar bem ao lado de um grande meditador que vivencia o céu, a terra pura, sem que nós mesmos enxerguemos isso. [...]

Embora grandes meditadores consigam vislumbrar outros reinos, nós não temos prova absoluta sequer de que o nosso mundo fenomênico humano exista além das nossas mentes individuais e coletivas. Ainda assim, da mesma forma que tomamos nossos sonhos como reais enquanto estamos dormindo, consideramos real o nosso reino humano. E os cinco outros reinos são tão reais para os seres que neles existem quanto a nossa experiência é para nós. O inferno parece tão real para um ser no inferno, o reino dos fantasmas famintos tão real para um fantasma faminto, quanto o reino humano para nós. Em última análise, o sofrimento provém não dos fenômenos desses reinos, mas do fato dos seres conferirem realidade a eles. Assim, não é contraditório dizer que nossa experiência é real ou verdadeira, e ao mesmo tempo falsa. Nem é contraditório dizer o mesmo de qualquer outro reino. Se insistirmos que o reino humano é real, então todos os demais reinos são reais, porque os seres que neles existem os experimentam como reais. [...]

Quando tomamos consciência do sofrimento e das limitações da existência cíclica, passamos a ter motivação para encontrar uma saída, da mesma forma que, quando nos damos conta de que estamos doentes, buscamos algum remédio. Ao compreender que a virtude e a não-virtude determinam se a nossa experiência será de felicidade ou tristeza, prazer ou dor, cabe-nos uma escolha: podemos mudar nossas ações e cultivar qualidades virtuosas, buscando a liberação para nós mesmos e para os outros seres, ou podemos continuar a criar não-virtude, perpetuando sofrimento sem fim.
 (Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista)
  
No centro da roda há três animais que representam os três venenos (sânsc. klesha) da mente, a origem dos seis reinos e dos doze elos: o desejo (apego) é representado por um galo; o ódio (aversão) é representado por uma serpente; e a ignorância (conhecimento errôneo), a fonte dos outros dois venenos, é representada por um porco ou javali. O galo e a serpente geralmente aparecem saindo da boca do porco, indicando que o apego e a aversão surgem da ignorância. Ao transcendermos estes três venenos, podemos nos libertar do sofrimento dos seis reinos e extinguir os doze elos que nos prendem a ele.

Ao redor do círculo com estes três animais, há dois semicírculos que representam a virtude e a não-virtude. O semicírculo negro representa o karma negativo, que conduz aos reinos inferiores. O semicírculo branco representa o karma positivo, que conduz aos reinos superiores.

Observando a roda da vida, é possível contemplar os quatro pensamentos que transformam a mente: a preciosidade do nascimento humano, a impermanência, o karma e o sofrimento. Esta contemplação é muito eficaz para despertar a compaixão, o amor, a alegria e a equanimidade.

Os humanos têm maior vantagem. As nossas felicidades e sofrimentos não são tão duradouras. E quando cruzamos de uma felicidade para uma infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso é a vida humana comum. Ainda assim ela é muito rara. Se compararmos a nossa vida com outros seres, eles são muito mais numerosos. O corpo humano é raro e improvável. Como nós somos geridos pelo karma, o nosso renascimento é construído pela nossa condição kármica. Nós não conseguimos dirigir esse processo. É como a tartaruga cega, que a cada cem anos vêm à superfície do oceano, de águas revoltas, onde há um aro boiando. O renascimento humano é tão improvável quanto esta tartaruga, justamente no momento em que sobe à superfície, conseguir colocar sua cabeça dentro do aro que estava boiando.

A nossa condição humana hoje é favorável. Os seres humanos têm a possibilidade de praticar. Temos a liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Temos tempo livre. Isso significa méritos. Já a "vida humana preciosa" tem características peculiares que transcendem em muito a vida humana típica. Quando vivemos em épocas em que os seres de luz não se manifestam, nos sentimos perdidos e a vida parece sem sentido. Na época atual os seres de sabedoria vieram; vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Esses ensinamentos chegaram até nós e estamos numa região onde esses ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade para ouvi-los. Dizem que há uma vida humana preciosa quando, além desses fatores, estamos engajados em transformar a nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob domínio de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos. Se não estamos sob essas condições, isso completa as características da vida humana preciosa. Se a vida humana é numerosa como as estrelas no céu noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto estrelas que são vistas no céu diurno. A pessoa está engajada em produzir benefícios para todos os seres.

O segundo pensamento é sobre a impermanência. Todas as coisas são impermanentes. Nós estamos sempre buscando o que é estável, mas nos enganamos. Onde estão os meus amigos "inseparáveis" da escola? A gente nem sabe onde eles estão hoje. Onde está a casa da nossa infância? A nossa mãe, pai, irmãos? O primeiro namorado, que foi maravilhoso, mas sumiu. A nossa experiência é de instabilidade e transformação constantes. Se diz no buddhismo que o planeta Terra vai desaparecer. O que dizer então das nossas pequenezas? Estamos aqui por um curto espaço. Esse ensinamento vem para aprendermos a olhar com o olho correto à cada momento. O olho incorreto é pensar que tudo é estável. Quando entendemos a preciosidade da nossa vida, e a usamos para produzir benefícios aos outros seres, este é o sinal de que os ensinamentos produziram as transformações que buscávamos. A seguir, o karma. Estamos sujeitos a impulsos internos com os quais não podemos lidar. Esses impulsos produzem as dez ações não-virtuosas ou as correspondentes dez ações virtuosas. As ações virtuosas vão produzir experiências favoráveis — isso também é karma, karma favorável ou positivo, mérito. São experiências de felicidade condicionada. O karma se manifesta em quatro níveis: imediato, a curto, médio e longo prazo. Por exemplo, se desejamos que alguém morra, naquele exato instante estamos esquecidos da nossa condição búddhica, luminosa, perfeita, e isso já é sofrimento. O de curto alcance, é que de novo e de novo vemos a morte de alguém como solução para nossos problemas. O de médio alcance vai se prolongar por essa vida e por outras: a pessoa não se sente digna, sente-se impura por dentro, inferior, e tem uma marca de aversão pelos outros.

Pior que pensar é planejar como fazer. Aí a perturbação se intensifica. A pessoa vai ter sentimentos mais perturbadores, pode começar a ter pesadelos. Se fez isso e executou, a experiência que é muito intensa, vai haver uma intranqüilidade muito grande. E se o ser morreu, é pior ainda. Ela vai se sentir perseguida. Por um longo tempo vai sofrer. Então temos essas quatro etapas kármicas que acompanham cada ação.

Nós temos uma multiplicidade de possibilidades tanto positivas quanto negativas. Tanto uma quanto outra são condicionadas, podem flutuar, estamos sempre pulando de um ponto para outro. Estamos presos nisso, é automático. Esses impulsos estão a nosso serviço, mas quando eles começam a andar por si, são karma. Temos vários mecanismos condicionados, o nosso cabelo cresce, as unhas crescem, sem que a gente faça alguma coisa. E por causa do karma surge a etapa seguinte, o quarto pensamento, que é o sofrimento. Sempre que operamos com referenciais duais, o sofrimento é inevitável. Aí surge o pensamento final que é: eu gostaria de me liberar disso, revelar minha natureza luminosa, usar de forma positiva as relações que estou vivendo, beneficiar os seres.

Em meio às confusões do mundo e tendências kármicas, toda vitória que podemos ter é como vitória no campo de futebol, frágil, impermanente. Agora mudamos, queremos descobrir a nossa natureza completa. Quando olhamos na vida, a nossa vontade de mudar é testada várias vezes, isso é prática espiritual. Aí nossa paisagem ao redor se transforma de samsara, lugar de sofrimento e enganos, em terra pura, que é onde praticamos, recebemos ensinamentos e nos sentimos protegidos pelos seres de sabedoria.

Os Budas olham o que chamamos de samsara e vêem a perfeição que ali existe. Somos como formigas num palácio, não conseguimos reconhecê-lo com nossos olhos de formiga. Há, então, uma longa etapa de transformação dos nossos olhos, até que possamos reconhecê-lo. Em geral, não conseguimos perceber o valor do benefício real que estamos recebendo. Paralelamente ao processo de transformação das tendências kármicas, o Buda ensinou a prática ininterrupta das "quatro qualidades incomensuráveis", que são o método positivo de manifestação no cotidiano solucionando as confusões e conflitos.

A primeira é a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de ‘pena’. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações. A segunda é o amor, o desejo que o outro seja feliz, completamente. Não exclui ex-maridos, ex-esposas, ex-sócios... Depois a alegria, a capacidade de se alegrar com as alegrias e vitórias dos outros, pequenas ou grandes. É um poderoso antídoto contra a inveja. Finalmente a equanimidade: perceber as flutuações das alegrias e tristezas da vida; num momento se tem uma grande alegria, em outro aquilo mesmo vira uma grande tristeza. Surge uma serenidade estável frente a essas flutuações e uma fé permanente, inabalável na natureza de todos os Buddhas, que é a sua própria natureza.

O Buddha ensinou também os meios de produzir felicidade nas relações humanas: casamento, namoro, filhos, trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao invés de pensar ‘o quê vou obter do outro’, pensar ‘o que posso oferecer’. Alegrar-se em oferecer! Se estivermos na dependência do comportamento do outro para obter felicidade, eventualmente pode até funcionar, mas quando surgir a impermanência e o outro flutuar, entramos em crise. S.S. o 14º Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz, sempre brinca, ‘que tipo de amor é o de vocês, aquele que só existe se o outro sorrir?’ Esse tipo de amor está baseado em quanto estamos recebendo e, por isso, é frágil. Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana como caminho espiritual, superando os conflitos internos e trazendo benefícios a todos os seres. Alegria!
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)

Lembre-se que, nos infernos inferiores, os seres queimam como o sol, e que nos infernos superiores, eles congelam. Lembre-se de como os fantasmas e espíritos sofrem com a fome, a sede e o ambiente. Lembre-se de como os animais sofrem as conseqüências de sua estupidez. Abandone as causas kármicas de tais misérias e cultive as causas da alegria. A vida humana é rara e preciosa; não faça dela uma causa para o sofrimento. Tome cuidado; use-a bem.
(Nagarjuna, citado em Path to Enlightenment)

Adaptado da página: www.dharmanet.com.br


domingo, 30 de março de 2014

O Budismo Tenta Acordar os Adormecidos

O templo e a Natureza
Chegou o momento de agir. Vivemos hoje numa época de grave crise, confrontados com os desafios mais sérios que a humanidade alguma vez experimentou: as consequências ecológicas do nosso carma coletivo. 
A constatação unânime dos cientistas é esmagadora: as atividades humanas estão em vias de provocar um desastre ecológico em escala planetária. O aquecimento global, em particular, está acelerando-se a um ritmo mais rápido do que se previa, sendo hoje patente no Polo Norte. Durante centenas de milhares de anos, o Oceano Ártico esteve coberto por uma camada de gelo tão vasta como a Austrália que se encontra atualmente em rápido desaparecimento. Em 2007, o Grupo Intergovernamental de Especialistas em Evolução Climática (GIEC) previu que, por volta de 2100, o derretimento estival dos gelos seria total, mas é hoje evidente que corremos o risco de isso vir a suceder dentro de uma ou duas décadas. A vasta extensão de gelo da Groenlândia está também derretendo mais rapidamente do que se previra. O nível do mar vai aumentar pelo menos um metro ao longo deste século, o que provocará a inundação de inúmeras zonas costeiras, assim como de importantes áreas cultivadas de arroz de vital importância como o Delta do Mekong, no Vietnã. Por todo o mundo, os glaciares diminuem velozmente. Se as políticas econômicas atuais não mudarem, os glaciares do planalto tibetano, que alimentam os grandes rios que fornecem água a milhões de pessoas na Ásia, desaparecerão nos próximos trinta anos.
A Austrália e o Norte da China sofrem neste momento graves períodos de seca e uma diminuição das colheitas. Importantes relatórios, como o do GIEC, das Nações Unidas, da União Europeia e da União Internacional para a Conservação da Natureza, concordam em afirmar que, sem uma mudança de orientação coletiva, a diminuição das reservas de água e dos recursos alimentares, poderá provocar, entre outras consequências, situações de fome, conflitos motivados pela disputa dos recursos, assim como migrações maciças até meados do século – porventura, mesmo, até 2030, segundo o primeiro conselheiro científico do governo britânico.O aquecimento global desempenha um papel essencial em outras crises ecológicas, como o desaparecimento de numerosas espécies vegetais e animais que partilham a Terra conosco. Os oceanógrafos assinalam que metade das emissões de carbono devidas à utilização de combustíveis fósseis já terá sido absorvida pelos oceanos, o que aumentou a sua taxa de atividade em cerca de 30%. Esta acidificação perturba a calcificação das conchas e dos recifes de coral, ameaçando o desenvolvimento do plâncton, base da cadeia alimentar da maioria das espécies que povoam os oceanos.Os relatórios das Nações Unidas concordam com as tomadas de posição de eminentes biólogos que afirmam que a continuação da atual política de cegueira voluntária levará à extinção de cerca de metade das espécies terrestres atualmente existentes. Estamos transgredindo coletivamente o primeiro dos preceitos: “Não prejudicar os seres vivos”, e estamos a fazê-lo na maior escala possível. Somos incapazes de antecipar o impacto biológico sobre a vida humana que será provocado pelo desaparecimento desta infinidade de espécies que, imperceptivelmente, também contribuem para o nosso próprio bem-estar.
Muitos cientistas chegaram já à conclusão de que está hoje em causa a sobrevivência da própria civilização humana. Atingimos um momento crucial da nossa evolução biológica e social. Nunca na história a necessidade da contribuição do budismo para o bem de todos os seres se impôs com tamanha urgência. Por intermédio das quatro nobres verdades dispomos de um quadro que permite traçar um diagnóstico sobre a nossa situação atual e, assim, definir as grandes linhas de uma solução: as ameaças e catástrofes que nos assombram provêm em última instância do espírito humano, pelo que exigem uma fundamental mutação do nosso espírito. Se o sofrimento individual nasce do apego e da ignorância (dos três venenos: apego, ódio e ignorância), o mesmo sucede quanto ao sofrimento que experimentamos em escala coletiva. A urgência ecológica atual confronta-nos com o eterno sofrimento humano, de uma forma desmedida. Nós sofremos como indivíduos mas também como espécie, de um “eu” que se vê como separado não só dos outros mas também da própria Terra. Como diz Thich Nhat Hanh: “Nós estamos aqui para despertar da ilusão da nossa separação”. Devemos acordar e compreender que a Terra é tanto nossa mãe como nossa casa. Desde logo, o cordão umbilical que a ela nos liga não pode ser cortado. Se a terra adoece, nós também adoecemos porque somos parte integrante dela. As nossas atuais relações econômicas e tecnológicas com a biosfera não são viáveis. A fim de sobreviver às duras transformações que se avizinham, os nossos modos de vida e as nossas expectativas devem mudar. Isto supõe não só novos comportamentos, mas também novos valores. O ensinamento budista segundo o qual a saúde global das pessoas e da sociedade depende do bem-estar interior, e não apenas de indicadores econômicos, permite-nos definir as transformações pessoais e sociais que devemos empreender.
No plano individual, devemos adotar comportamentos que manifestem a nossa consciência ecológica no quotidiano, reduzindo assim a nossa pegada de carbono. Para aqueles que vivem em economias desenvolvidas, isto implica modernizar e isolar as casas e os lugares de trabalho para obter um melhor rendimento energético; reduzir o aquecimento no Inverno e o ar condicionado no Verão; utilizar lâmpadas e eletrodomésticos de baixo consumo; desligar os aparelhos elétricos que não estão em uso; conduzir carros que consumam o menos possível; diminuir o consumo de carne, favorecendo uma alimentação vegetariana, mais saudável e mais respeitadora do ambiente.
Estas iniciativas individuais, todavia, por si só, não são suficientes para evitar futuras catástrofes. Devemos igualmente empreender transformações institucionais, no plano tecnológico e no plano econômico. Logo que possível, devemos “descarbonizar” as nossas produções energéticas, substituindo as energias fosseis por fontes de energia renováveis que são ilimitadas, inofensivas e que estão em harmonia com a natureza. Devemos particularmente parar com a construção de novas centrais a carvão, uma vez que esta é, de longe, a fonte mais poluente e mais perigosa de emissões de carbono na atmosfera. Inteligentemente exploradas, as energias eólica, solar, das marés e geotérmica poderiam fornecer toda a eletricidade de que necessitamos sem prejudicar a biosfera. Cerca de um quarto das emissões de carbono mundiais são devidas ao desflorestamento, pelo que deveremos inverter o processo de destruição das florestas, em particular a faixa das florestas tropicais onde vive a maior parte das espécies animais e vegetais.
Torna-se hoje evidente que é igualmente necessário proceder a alterações significativas na organização do nosso sistema econômico. O aquecimento global encontra-se estreitamente ligado às monstruosas quantidades de energia que as nossas indústrias devoram a fim de dar resposta aos níveis de consumo que correspondem às expectativas de tantos de entre nós. De um ponto de vista budista, uma economia sã e duradoura deve reger-se pelo princípio da suficiência: a chave da felicidade encontra-se na satisfação e não numa multiplicação crescente de bens e produtos. O comportamento compulsivo que leva a um consumo crescente é expressão de apego, aquela disposição que o Buda identificou como sendo a principal causa do sofrimento.
No lugar de uma economia submetida à lei do lucro que requer um crescimento ilimitado para não falhar, devíamos fazer evoluir o mundo em direção a uma economia que promovesse um nível de vida satisfatório para todos, permitindo-nos assim desenvolver as nossas plenas potencialidades (incluindo as espirituais) em harmonia com a biosfera, que sustenta e nutre todos os seres, onde se incluem também as gerações futuras. Se os dirigentes políticos não são capazes de reconhecer a urgência desta crise mundial ou se ele não estão dispostos a considerar o bem estar a longo prazo da humanidade acima dos benefícios de curto prazo das companhias que exploram os combustíveis fosseis, talvez seja necessário que os contestemos mediante o desencadear de campanhas persistentes de ação cívica.
Diversos climatologistas, como o Dr. James Hansen, da NASA, definiram recentemente objetivos precisos a fim de evitar que o aquecimento global atinja um limiar crítico catastrófico. Para que a civilização humana seja viável, a taxa aceitável de dióxido de carbono na atmosfera deve ser inferior a 350 ppm (partes por milhão). O cumprimento deste objetivo é recomendado e apoiado pelo Dalai Lama, assim como por outras personalidades agraciadas com o Prêmio Nobel e por prestigiados cientistas. Na situação atual encontramo-nos nos 387 ppm, nível que aumenta ao valor de 2 ppm por ano.  É assim necessário não só reduzir as emissões de carbono mas também eliminar a excessiva quantidade de dióxido de carbono já presente na atmosfera.
Enquanto signatários desta declaração de princípios budista, nós reconhecemos o desafio urgente que o aquecimento global coloca. Juntamo-nos ao Dalai Lama para apoiar o objetivo dos 350 ppm. De acordo com os ensinamentos budistas, e conscientes da nossa responsabilidade individual e coletiva, comprometemo-nos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para atingir esse objetivo, nomeadamente (mas não só) através das ações individuais e sociais aqui sucintamente indicadas.
Dispomos apenas de um curto espaço de tempo para agir, para preservar a humanidade de uma catástrofe iminente e para assegurar a sobrevivência das diversas e belas formas de vida terrestres. As futuras gerações e as outras espécies que partilham a nossa biosfera, não têm voz para nos pedir que demonstremos a nossa compaixão, sabedoria e poder de cisão. Devemos escutar o seu silêncio. E devemos também ser a sua voz e agir em seu nome.

Redigido por David Loy (mestre zen) e pelo venerável Bhikkhu Bodhi (mestre da tradição Theravada), com a contribuição científica do Dr. John Stanley. Esta declaração tem como seu primeiro subscritor Sua Santidade o Dalai Lama.  

sábado, 4 de janeiro de 2014

O Ego e A Queda

Todas as tradições ancestrais falam de uma época em que o ser humano estava conectado com o Universo: O Jardim do Éden, A Idade de Ouro, e outros nomes. Tudo era mais fácil e o ser humano estava ligado naturalmente com as energias do Universo. Falam também de um estranho evento ou período a partir qual a existência do ser humano foi sendo tingida por dificuldades de toda ordem desde o parto até a morte, passando por uma existência difícil de dores, sofrimento, doenças guerras, violência, e por aí afora. Ele está até hoje afastado da Fonte. É só olhar a História e constatar.
Como já dissemos em publicações anteriores todas as tradições autênticas se detiveram sobre esse fato, dando uma visão e explicação sobre o que teria acontecido. Castaneda dá a visão tolteca de "uma instalação forânea" colocada no centro da cabeça correspondente ao centro mental, Gurdjieff dá a visão oriental das tradições onde aprendeu, e fala de um órgão implantado no ser humano chamado "kundabuffer" que era temporário e ficou definitivo. O budismo e o hinduismo também tocam no assunto.
Tolle, como sempre, dá uma perspectiva iluminada, coerente e sóbria sobre esses temas e acrescenta  o fato de que essa fase é necessária para a evolução humana, que tudo tenha sido como foi. Esse texto é uma transcrição de uma palestra de Eckhart Tolle onde fica claro que estamos no limiar de um degrau previsto na evolução e que temos que passar por isso.
Vamos lá:

"O Universo cometeu um erro com o Ego?
...Sim...é... embora sobre um certa perspectiva pode parecer bastante insano, sob uma perspectiva mais elevada ele é normal e é parte do processo evolutivo das espécies. É um estágio na evolução.
Como estamos nos aproximando de um novo estágio na evolução, estamos começando a ver que o Ego esta perdendo completamente sua utilidade.
Mas ele tinha sua utilidade. E só agora começamos a ver que ele é insano, porque estamos nos aproximando de um novo estágio na evolução humana.
Antes ninguém podia ver que o ego era insano, exceto os muitos raros grandes mestres.
Buda disse: “Ele é uma ilusão” .Jesus disse: “Negue-se a si mesmo”;  o que significa: “Reconheça a irrealidade do ego”. Mas não muitas pessoas entenderam o que eles disseram.
Eles eram um tipo de precursores do próximo passo. Estavam apontando para isso antes de realmente surgir um verdadeiro despertar no planeta.
Então sob a nossa presente perspectiva, no fim  de um estágio evolucionário, o ego parece ser totalmente absurdo uma vez que vemos o que ele é e quanto estrago tem feito. Mas sob uma perspectiva mais elevada, ele é parte da evolução humana
e não poderia haver, por fim, nenhuma iluminação e nenhum despertar sem ele. Então, esta bem.
Você pode ver isso em sua própria vida, o como que você tem que passar através da ignorância em sua própria vida - eu não estou me referindo aqui à ignorância como falta de educação, mas a ignorância espiritual - sabendo essencialmente quem você é, fazendo tantos erros com base na identidade ilusória do ego. E agora você pode vê-lo e você tem que passar através disso.
Parece ter acontecido que a humanidade uma vez ainda não tinha ego. O que é conhecido na base de diferentes e não conectadas  culturas como o mito da “Idade de Ouro”. Era quando os homens viviam em harmonia um com os outros e com a natureza e que a vida era fácil.
Isso aponta para o fato que há muitos e muitos anos atrás o homem viveu um momento com um senso de unidade com a natureza, quando o ego ainda não tinha se desenvolvido.
A memória disso provavelmente depois sobreviveu como o mito da “Idade de Ouro”. No Velho Testamento aparece como o “Paraíso”, que é um aspecto do mito da “Idade do Ouro”, quando o vida era fácil.
E então algo aconteceu! A “Queda” ou como a queira chamar. E isso sem dúvida foi o início da habilidade humana de pensar. E foi como algo milagroso. 
O pensamento surgiu subitamente. Alguns antropólogos nos dizem - e eu acredito que eles estão certos - que quando o pensamento surgiu nos homens eles ficaram muito surpresos e acharam que Deus estava lhes falando em sua cabeça, o que foi parte do desenvolvimento da linguagem, e a linguagem começou a aparecer na cabeça das pessoas. Quem está falando...!
E quando o pensamento vinha então eles agiam...
Mate esse homem... os inimigos, a outra tribo, eles não eram humanos... E o que a voz esta me dizendo...
Então a voz na cabeça, a linguagem internalizada,
que eles pensavam ser milagrosa, pois tornou muitas coisas possíveis que não poderiam sê-lo  sem ela.
O conhecimento surgindo... você podia transmitir conhecimento. Toda civilização como a conhecemos não poderia acontecer sem isso.
Toda a forma de transmissão de conhecimento:
arquitetura, filosofia, matemática, todas as coisas conceituais surgindo. Coisas milagrosas, coisas estranhas.
No decorrer de um milênio a voz se tornou tão penetrante que tomou conta do senso de identidade das pessoas. 
Provavelmente por muito tempo antes do surgimento do pensamento os homens ainda tinham o senso natural de arraigamento na profundidade de seu ser,
o que foi, gradualmente, pelo milênio, deslocado, mais e mais, para dentro do modo de pensamento na cabeça.
Então todo o senso de identidade não estava mais arraigado no profundo sentido do ser, mas na voz dentro da cabeça. Mas isso tornou muita coisa possível.
Agora, o próximo passo na evolução é um retorno ao estado de pré-ego, mas com a dimensão adicional de se saber, conscientemente, de sua conexão como o UM.
No estado anterior essa conexão não era auto sabida, mas sim um estado natural de conexão.
Mas agora, quando for para além do ego, você intencionalmente retorna, conscientemente, ao UM.
Essa é a próxima etapa. Então não é um regressar.
De certo modo você volta para a “Idade do Ouro”, mas  agora com Conhecimento.
E isso é expresso na antiga parábola bíblica que fala no “Filho Pródigo”. 
O filho deixa a casa do pai, pede-lhe para lhe dar sua parte na herança e vai para um “país distante” onde esbanja todos os seus bens e se torna destituído.
Então recebe a mensagem de seu pai por um mensageiro: “Volte para casa, volte para mim”.
Então o filho começa a se lembrar de quem ele é e começa o caminho de volta para a “Casa do Pai”.
E a parábola diz que então ele é amado mais profundamente do que era.
Primeiro você O perdeu – não completamente, porque isso não é possível pois sem ele você não existiria –
e quando você volta a Ele, Lhe está ainda mais profundamente ligado. E a isso é aonde nós estamos destinados ir.
Então quando você percebe isso, você fica realmente agradecido ao ego porque ele é parte dessa jornada.
Sim, muito obrigado.
Parte do surgimento e da dominação do ego é a ilusão de se ser uma entidade separada, não conectada a outros humanos, ao Todo mesmo, à natureza ou, mais fundamentalmente, não conectada com a Fonte da Vida que algumas vezes chamamos Deus.
Essa é uma ilusão muito disseminada na maioria dos humanos que vivem agora no planeta atraídos na ilusão da separatividade.
Por exemplo, a humanidade pode dizer que ela existe no Universo.
É como você tivesse sido posto no Universo: aqui estou eu e lá está o resto do Universo e as outras pessoas. A verdade é sem dúvida que você não esta NO Universo, mas você É o Universo.
Você é uma parte intrínseca da totalidade. Você não esta nele, porque se você pensa que esta nele você esta separado. Então você é ele. Você não esta nele.
O Universo esta despertando e você é, sem dúvida, uma pequenina parte, mas uma parte essencial, desse despertar do Universo.
Isso significa que a consciência esta vindo a essa dimensão a partir do “sem tempo”, onde não há nenhuma evolução.
Esse “sem tempo” é o Ser e você não pode nem mesmo alcança-lo com palavras ou pensamentos.
O “sem tempo” então começa a brilhar dentro do mundo do tempo – nossa dimensão.
E a isso podemos chamar do despertar através das formas de vida, e as formas de vida se tornam mais ajustadas ao despertar do Universo.
Você é parte disso, e você é, e eu sou e, por fim, sem duvida, todo o Eu. Então o Eu está despertando, você é o Eu, então você esta despertando para fora da ilusão de ser uma entidade separada.
E sem dúvida essa ilusão surgiu porque você esta completamente identificado com o senso de “self” (si mesmo) elaborado pela mente, criando assim a ilusão da separatividade.
O simples fato de olhar outro ser humano sem a interferência do pensamento conceitual - somente um ver sem notar - remove a ilusão da separatividade entre você e o outro. É somente quando surge o julgamento sobre o outro é que o outro se torna “o outro”.
O que o ego mais gosta é de enfatizar e fazer mais forte o senso de separação do outro. E ele faz isso criticando, julgando, se queixando dos outros, dizendo quão maus eles são...
As pessoas fazem isso coletivamente. Quando uma tribo fala de outra tribo fala deles como não sendo humanos mas demônios. E a outra tribo faz o mesmo com essa tribo. As nações fazem isso também.
Talvez um pouco menos agora, mas se você olhar para a primeira metade do sec. XX com as duas guerras mundiais, foi até politicamente aceitável fazer de outras nações demônios: japoneses fizeram dos americanos demônios....
Eu não estou dizendo que a profundidade da inconsciência é maior em certas nações que em outras. O que é sem dúvida verdade. Mas demonizar o outro é sem dúvida ego, ego coletivo. E a propaganda ...
Podemos ter isso no nível pessoal e no nível coletivo.
O ego gosta de enfatizar a separação do outro e isso tudo é parte da ilusão.
Então, voltando a uma coisa muito prática, olhar um outro ser humano sem a interferência do pensamento
é uma coisa bela e uma maravilhosa prática espiritual até que não venha a ser  mais uma prática espiritual,
mas um modo natural de interação com outro ser humano sem a interferência de rotular, julgar , sem o que eu quero de você, sem o que você pode fazer pra mim... Tão somente olhar, dar atenção... Não há mais o senso de separatividade.
Isso é o que o Dalai Lama chama de “gentileza” que é em realidade uma gentileza amorosa que desponta subitamente. Porque para a gentileza amorosa estar lá a ilusão de se ser uma totalmente separada entidade precisa ir. Porque a totalmente separada entidade não pode ter gentileza amorosa.
Ela pode até tentar ter a gentileza amorosa, mas não por muito tempo.
Então essa é a beleza disso.
Então você é uma parte essencial do Universo despertando. Então quando eu desperto o Universo ao meu redor esta também despertando e tudo em que estou envolvida também.
Sim, sim.
Não somente as mudanças em seu redor, mas também porque todos os seres humanos estão em conexão profunda, tal que uma transformação de consciência num ser humano afeta os outros, mesmo que não tenham conexão direta com você.
Porque isso é parte da consciência coletiva da humanidade.
Obrigado!

Transcrito por Paulo Azambuja, de palestra de Eckhart Tolle



domingo, 10 de março de 2013

Que tempo é esse? (1)

As pessoas mais sensíveis estão percebendo  no ar um desconforto emocional diferente da tradicional apreensão pelo futuro, que sempre existiu,  e que sempre sugeriu que o passado era melhor que o presente. Não se trata  de saudosismo dos tempos bons em que “se amarrava cachorro com lingüiça” como diziam os mais velhos, ou do medo alimentado pela indústria do Apocalipse e profecias, turbinada pelo apetite voraz e esperto da mídia em faturar sobre o que o povão quer ouvir. É algo mais perturbador, frio e inexoravelmente real. É algo como "tem algo imprevisível nos bastidores.Que tempo é esse?", e está relacionado concretamente ao aumento exponencial da população, que não comove mais ninguém e suas conseqüências no meio ambiente, água, produção de alimentos, lixos tóxicos que já passaram o ponto de “não volta”. Somado a isso e não menos concreto, a violência, o stress, corrupção desenfreada, o consumismo exacerbado, as guerras, a falta de valores reais de vida, e a desconfiança e descrédito nas pessoas. Afora as previsões e profecias.

Isso sempre existiu, mas temos a impressão desconfortável de que a corda está esticando, esticando...tudo agora é grande, é exponencial, e a gente se pergunta “Qual o desfecho disso? Como conviver com isso mantendo o eixo de busca interior, e de forma saudável?”
A resposta está dentro de cada um de nós, de forma individual e diferente para cada um. Os budistas, como o Dalai Lama, dizem que damos muita importância para o mundo, e que ele é apenas um palco, e não é importante. Dom Juan dizia que o que chamamos de mundo não tem existência transcendental. É uma ilusão. Já os aborígenes australianos diziam que estamos aqui de passagem, para voltar para casa.
Dentro desse panorama exponencial de velocidade e pressa completamente estranho aos ritmos dos seres orgânicos e reafirmando-o, a IBM,  um ícone deste capitalismo que é uma das bases da pressão angustiante sobre os valores que influenciam o ser humano, contribuiu fortemente para esse estado difuso de apreensão que nos atinge a cada dia que passa, através de uma mensagem que enviou aos seus executivos no mundo, amplamente divulgada na Internet. Um tiro pela culatra, pois tentava mudar a visão dos funcionários para se adaptarem a um mundo que muda, mas só conseguiu por lenha na fogueira do desconforto das pessoas.  O conceito está certo, o mundo muda mesmo e os chineses já mostraram isso com a sabedoria do livro I Ching. O que está errado é aceitar dentro de você esse frenesi exponencial como se fosse inevitável, porque os valores por trás dessa coisa externa é que estão errados. Damos muita importância ao mundo atual e seus valores incensados pela humanidade. Deveríamos voltar para a paisagem de simplicidade que cercava a vida de nossos antepassados...
Vejamos os pontos dessa mensagem da IBM:

  • ”Você sabia que os meios de comunicação, a informática e a Internet estão globalizando e mudando nosso mundo? Mas, quanto?
  • Países grandes vêm se tornando cada vez mais importantes no cenário mundial, cuja população é hoje da ordem de 6.6 bilhões de pessoas e 20% delas estão na China enquanto 17% na Índia. Juntos, os dois países têm mais de 1/3 da população mundial.
  • Se considerarmos apenas os 16% mais inteligentes da Índia teremos mais pessoas do que toda a população do Brasil. Da China precisaríamos apenas de 14%, ou seja, há mais pessoas inteligentes na China ou na Índia do que pessoas no Brasil.
  • Enquanto você lê este texto 30 bebês nasceram no Brasil, 244 nasceram na China e 351 nasceram na Índia.
  • Em breve, a China será o país que mais fala inglês no mundo.
  • Você sabia que a Inglaterra, em 1900, era considerada o país mais rico do mundo; com o maior exército; como centro mundial de negócios e finanças; com o melhor sistema de educação; líder em inovação e invenção; o modelo mundial de valor e com o melhor padrão de vida?
  • Você sabia que nos USA mais da metade dos profissionais trabalha há menos de cinco anos na mesma empresa ? Que somente 25% dos profissionais permanecem na mesma empresa por mais de um ano? Que, segundo a ONU, os estudantes de hoje passarão por dez a catorze empregos até os trinta e oito anos de idade?
  • Você sabia que as dez profissões que serão indispensáveis em 2010 sequer existiam em 2004? Ou seja, estamos preparando estudantes para profissões que ainda não existem, que usarão tecnologias que ainda não foram inventadas para resolver problemas que ainda nem sabemos que existem?
  • As pessoas estão indo cada vez mais para a Internet.
  • Você sabia que no ano passado, nos USA, um em cada oito casais se conheceu pela Internet e que mais de 106 milhões de usuários estavam registrados no My Space e que hoje há mais de 50 milhões de usuários no Orkut?
  • Se o My Space fosse um país ele seria o 11º maior do mundo, entre o Japão e o México. E o Orkut o 24º, entre a Itália e a Coréia do Sul.
  • Você sabia que 2.7 bilhões de perguntas são feitas todo mês ao Google? Para quem perguntávamos essas coisas A.G. — Antes do Google?
  • Você sabia que o número de mensagens de texto transmitidas todos os dias excede a população do planeta? Que, existem hoje cerca de 540 mil palavras na língua inglesa, cerca de 5 mil vezes mais do que havia na época de Shakespeare e que mais de três mil livros novos são publicados diariamente?
  • Estima-se que a quantidade de nova informação gerada no mundo este ano é maior do que a acumulada nos últimos cinco mil anos e que a quantidade de informação técnica nova dobra a cada dois anos.
  • Para os estudantes isso significa que metade do que se aprende no 1º ano de faculdade estará ultrapassado no 3º ano.
  • Estudos preveem que em 2010 o conhecimento dobrará a cada 72 horas, significando que todo profissional precisa se atualizar sempre. E você, tem se atualizado?
  • Você sabia que a informação está cada vez mais nos meios digitais?
  • Fibras óticas de 3ª geração, recentemente testadas pela NEC e ALCATEL, conduzem dez trilhões de bits por segundo num único fio. Isso equivale a 1900 CDs ou 150 milhões de ligações simultâneas a cada segundo e a cada seis meses esse número triplica.
  • Já existem cabos e fibras suficientes. O que se faz hoje é apenas melhorar as conexões e o custo dessas melhorias é praticamente zero.
  • Tudo isso indica que, muito em breve, o papel eletrônico estará mais barato que o papel real.
  • Você sabia que 47 milhões de laptops foram comercializados no mundo, no ano passado? E que o projeto “laptop a US$100″ fornecerá entre 50 e 100 milhões de laptops por ano a crianças de países em desenvolvimento?
  • Há previsões que em 2022 haverá um supercomputador que excederá a capacidade computacional do cérebro humano. Isso quer dizer que, em 15 anos, universitários em início de carreira terão como concorrente um computador de somente US$1.000,00 que excederá a capacidade do cérebro humano.
  • Enquanto é difícil fazer previsões tecnológicas, para além dos próximos 15 anos, é fácil prever que em 2050 um computador de US$1.000,00 excederá a capacidade computacional da espécie humana.
  • O que tudo isso significa? Mudanças acontecem. Agora você sabe! “


A gente então se pergunta: Será que é essa a resposta ao fato? Simplesmente aceitar que mudanças acontecem e pronto, tentar escapulir da nossa parcela de responsabilidade nisso? Achamos que não.
Por outro lado, não temos a resposta. Só perguntas:
Devemos aceitar esses fatos como finais, e arcar de forma meio suicida com o cenário angustiante e sem saída apresentado ? Ele só existe de fato na medida do nosso apego...
Ou poderíamos como na tradição havaiana do “Ho’ oponopono” citada por Joe Vitale, assumir 100% da responsabilidade que é nossa e tentar começar a fazer as verdadeiras mudanças? Não sei se podemos, nesta altura do caminho, mas deveríamos tentar, mesmo que fosse por diletantismo.
A grande pergunta é: Qual a melhor postura de vida para facear a situação? Tentar competir para estar na frente dos outros e então ter menos problemas? Ou então rever interiormente de maneira consistente os valores que nos foram inculcados, baixar a bola e começar a sair fora do moedor de carne, mesmo estando dentro dele? Qual a melhor forma de agir? Começar a traçar uma estratégia e tática interior de meditação-na-ação,  e outra exterior aparente, de comportamento e decisões sem parecer diferente do rebanho e ao mesmo tempo minimizando sistematicamente as conseqüências do mau tempo que se avizinha. Que hábitos deveriam ser mudados para se diminuir o desconforto e viver melhor? Vamos falar mais adiante de forma simples sobre a estratégia e táticas para sair desse enrosco...

domingo, 29 de julho de 2012

O Meu Mestre

Mestre Tenzin e "nóis na fita". Povão bonito!
As pessoas tem me dito “quem é o seu mestre?”, e, antes de responder, eu percebi, olhando a minha vida de busca interior que, sem perder o foco na busca, eu acredito nas orientações intuitivas e sutis que me chegam no sonho  (sempre fui fascinado e respeitoso com isso) e tenho tido, alternada ou concomitantemente, dois tipos de mestre na minha vida: o “orientador  de carne-e-osso (vivo ou não)", com sua tradição, suas idéias e praticas diárias, e o “mestre que não sei quem é”. Só o sinto ao meu pé d'ouvido. Foi assim com Gurdjieff, Mantak Chia, Castaneda, Stefano D’Anna, Lama Samten e atualmente com Tenzin Wangyal Rinpoche, da Tradição Bön Budismo tibetano (além de "os-que-não-sei-quem-são", do Invisível).
Em 4 postagens anteriores a gente falou do mestre Tenzin ou da tradição Bön Budista: O Ser e o Caminho de Volta, mais A Tradição Bön, 24 X 7 e também O Sonho - Visão Budista.
Há algum tempo atrás, após a dissolução de um grupo dissidente do Quarto Caminho gurdjieffiano em que eu participava, senti necessidade de conhecer o Bön Budismo, tradição anterior ao budismo no Tibet e caracterizada por ser um xamanismo nativo e puro, com grande ênfase no sonho, da mesma forma que a tradição tolteca de Castaneda que conheci. A vantagem é que o Bön é uma tradição estruturada, amalgamada com o Budismo,  com mestres espalhados pelo mundo, práticas precisas, diferentemente de Castaneda que escreveu livros “como un brujo” seguindo as orientações de Don Juan e um dia se foi...lembrei de Gurdjieff que no seu leito de morte disse para um discípulo: - Deixo vocês em maus lençóis.
Na época, após consultar a mãe-internet,  liguei e visitei alguns mosteiros budistas para obter orientação para contatar um mestre da tradição. Num deles a moça simpática disse:  “- Você está com sorte, hoje à noite há uma conferência na Livraria da Vila (Madalena) do Mestre Tenzin, que chegou hoje da Virgínia nos EUA, para ministrar um seminário”. Era uma sexta,quase caí de susto e satisfação. Fui lá com minha filha, conversei com ele na sua chegada e me inscrevi no retiro no dia seguinte no fim de semana. Beleza pura. O Universo conspirando a nosso favor.

 Ele é o meu mestre desde então. A gente se reune às terças no Instituto Ligmincha Brasil, com a simpática Blanca e de vez em quando faz práticas no seu sítio maravilhoso em Cotia, SP, com altas comidinhas e muita alegria. De caminho sizudo, eu já preenchi a minha cota na vida. Agora é alegria, compaixão, bom humor, amor (latu sensu), presença... Tem também dedicação, senão vira apoteose de escola de samba...

Geshe Tenzin Wangyal Rinpoche, fundador e diretor espiritual do Instituto Ligmincha, é um autor consagrado, bem como um professor altamente respeitado e amado por estudantes de todo o Estados Unidos, México e Europa. Fluente em Inglês, Tenzin Rinpoche é conhecido por sua profunda sabedoria, o seu claro estilo de ensino envolvente, e sua capacidade de fazer os antigos ensinamentos tibetanos altamente acessíveis e relevantes para a vida dos ocidentais modernos.

Tenzin Rinpoche nasceu em Amritsar, na Índia, não muito tempo depois que seus pais foram obrigados a escapar de sua pátria tibetana em 1959 durante a Revolução Cultural Chinesa. Aos 10 anos, Tenzin Rinpoche foi ordenado monge no Mosteiro Menri perto Dolanji, na Índia. Lá, ele foi reconhecido pelo instrutor principal Lopon Sangye Tenzin Rinpoche como uma reencarnação do famoso mestre Khyung Tul Rinpoche, um renomado mestre de meditação, professor acadêmico, e curador que morreu em meados do século 20.
A partir da idade de 13 anos Rinpoche praticou dzogchen sob a orientação de mestres de ambas as escolas Bön e budista do Tibete, incluindo (do Bön) Sua Santidade Lungtok Tenpai Nyima, Lopon Sangye Tenzin Rinpoche, Tenzin Lopon Namdak Rinpoche, e Geshe Yungdrung Namgyal. Desde a sua adolescência até a idade adulta jovem, Tenzin Rinpoche foi criado como um filho por seu professor de base Lopon Tenzin Namdak Rinpoche, hoje reverenciado como o professor mais antigo da tradição Bön e como segundo mestre na linhagem, que se mantem pura desde o início da existência da tradição Bön no mundo. Um acadêmico formado nas tradições Bön budistas textuais da exegese, filosofia e debate, em 1986, Tenzin Wangyal Rinpoche completou um curso de 11 anos de estudos tradicionais na Escola Dialética Bön do Mosteiro Menri, onde recebeu seu grau de Geshe, equivalente a um doutorado na filosofia das universidades ocidentais.
Ao se formar Tenzin Rinpoche empregou-se na Biblioteca de Obras e Arquivos Tibetanos em Dharamsala, na Índia. Naquele mesmo ano, Sua Santidade o 14 º Dalai Lama Rinpoche  o designou para ser o representante da tradição Bön na Assembleia dos Deputados do Povo Tibetano do governo tibetano no exílio. Ele declinou deste alto posto em favor de sua missão de vida, que sempre foi a de disseminar o conhecimento Bön pelo mundo.
Tenzin Wangyal Rinpoche foi um dos primeiros a trazer os preciosos ensinamentos Bön para o Ocidente. Em 1988 ele foi convidado pelo mestre dzogchen Chögyal Namkhai Norbu Rinpoche a ensinar na Itália, o que trouxe novas oportunidades para lecionar em outras localidades na Europa Ocidental. Em 1991 Tenzin Rinpoche foi premiado com uma bolsa Rockefeller na Universidade Rice, em Houston, Texas, onde continuou sua pesquisa sobre as primeiras divindades tântricas Bön e sua relação com as tradições budistas no início do Tibete budista. Ele foi premiado com um segundo Rockefeller Fellowship em 1993, quando a Rice University convidou-o de volta para ensinar durante o semestre da primavera.
Escolhido para permanecer no Ocidente para ensinar as antigas tradições Bön para estudantes ocidentais, em Março de 1992 Rinpoche fundou Ligmincha Institute em Charlottesville, Virgínia, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é preservar para as gerações futuras os ensinamentos antigos, artes, ciências, língua e literatura do Tibete e Zhung Zhang.
Em 1994 ele recebeu uma bolsa da National Endowment for the Humanities para prosseguir a investigação sobre os aspectos lógicos e filosóficos da tradição Bön. Os frutos dessa pesquisa surgiram com a publicação de 2006 do texto acadêmico Unbounded Wholeness: Dzogchen, Bon and the Logic of the Nonconceptual
(Oxford University Press), escrito em colaboração com Anne Carolyn Klein, grande autora de livros e detentora da cadeira cadeira de estudos religiosos da Rice university. Também em 1994 Tenzin Rinpoche apareceu no Discovery Channel, onde explicou os princípios envolvidos na prática de “yoga tibetano do sonho” como um segmento de uma série de três partes, intitulado "The Power of Dreams".
Em 1998, Rinpoche estabeleceu o Centro de Serenity Ridge Retreat em meio às montanhas de Nelson County, Va., 30 minutos a sul de Charlottesville.
Na Primavera de 2004 Tenzin Wangyal Rinpoche, casou-se com Tsering Wangmo, irmã do Dalai Khyimsar Rinpoche (detentor da linhagem dos mosteiros Bön Pungmo Gon e Nyiphug Lhari no Tibete e fundador da Yungdrung tibetana Bön Institute, Reino Unido). No outono de 2005 o seu primeiro filho, Senghe, nasceu. A família Wangyal atualmente reside em Charlottesville, Virgínia, não muito longe Ligmincha Instituto.
Hoje Rinpoche continua seus esforços dedicados à preservação da tradição budista Bön através de centros de estabelecimento e grupos em todo o mundo, através da tradução e publicação de textos, através do ensino do Bön como uma tradição autêntica, viva para estudantes ocidentais em todo o mundo. Em 2006, durante o retiro de verão europeu em Buchenau, Alemanha, Rinpoche anunciou a criação de Lishu Institute, uma escola perto de Dehra Dun, Índia, onde os estudantes ocidentais serão capazes de continuar e aprofundar seu conhecimento e experiência dos antigos ensinamentos e práticas de Bön.

 A Linhagem
Você vai ter que se acostumar com o elenco de lugares, nomes e títulos tibetanos muito parecidos e difíceis de memorizar, citados neste texto (rsrs).
Na medida em que as tradições autênticas sempre afirmam que é necessário uma tradição, um discípulo, um mestre, e um ensinamento autênticos, a linhagem passa a ser de grande importância. 

Vejamos a linhagem atual do Bön:
1 - Sua Santidade Lungtok Tenpai Nyima, o 33º  do mosteiro Menri Trizen, é o líder espiritual da tradição Bön. Sua Santidade se tornou um monge com a idade de 8 e aos 24 recebeu o seu grau de Geshe, especializado em medicina tibetana, astronomia e astrologia. Na época da invasão chinesa do Tibete, ele fugiu a pé para o norte da Índia. Em 15 de março de 1968, ele foi selecionado para ser o abade 33 do Mosteiro Menri, o líder espiritual do Bönpo. Muitos lamas vieram do Tibete, Nepal e Índia, para dar-lhe suas iniciações e ensinamentos, e por mais de um ano, ele praticou e treinou intensamente para o seu papel como abade, o líder que veio orientar o Bönpo e mantr todas as linhagens de ensino. Sua Santidade, em seguida, juntou-se Lopon Tenzin Rinpoche Namdak na reconstrução do Mosteiro Menri, e no estabelecimento de uma escola dialética Bön que concede graus Geshe certificada por Sua Santidade o Dalai Lama. Ele então criou o Centro de Crianças Bön Bem-Estar, um orfanato para meninos e meninas Bönpo que perderam suas famílias durante a invasão chinesa.
2 - Lopon Sangye Tenzin Rinpoche nasceu na família Jyab Og, uma linhagem de elevada estima dentro da tradição Bön. Ele se tornou um mestre consumado dos três caminhos: sutra, tantra e dzogchen. Lopon Sangye Tenzin Rinpoche viveu uma vida muito simples, mas ele foi considerado por muitos como o maior estudioso Bön de sua geração. Lopon Sangye Tenzin Rinpoche era um professor de Yongdzin Tenzin Wangyal Rinpoche e Namdak Tenzin Rinpoche, e era conhecido por seu estilo de ensino muito direto, claro e rigoroso. Como mestre-raiz de Tenzin Rinpoche, por três anos Lopon Sangye Tenzin deu a Tenzin Rinpoche os ensinamentos formais Dzogchen do Zhung Zhang Nyen Gyu (Transmissão Oral de Zhang Zhung). Poucos meses depois de completar estes ensinamentos e entrando em um novo ciclo dos mesmos ensinamentos, ele ficou gravemente doente e pediu Yongdzin Rinpoche para assumir seu papel como Lopon no mosteiro. Lopon Sangye Tenzin Rinpoche morreu em Dolanji em 1977 aos 67 anos. Após sua morte, de acordo com seus desejos suas economias foram usadas para fundar a Escola Dialética.

3 - Yongdzin (Lopon) Tenzin Rinpoche Namdak é o professor mais antigo na tradição Bön. Ele se tornou um monge com a idade de 15 e em 1953 foi eleito para o cargo de Lopon (professor titular), no mesmo ano em que obteve seu grau de Geshe do Mosteiro Menri no Tibete. Depois de fugir para o Nepal em 1960, Yongdzin Rinpoche foi para Londres com uma bolsa Rockefeller e colaborou em "As Nove Maneiras do Bön", o primeiro estudo acadêmico da tradição Bön no Ocidente. Em 1964, ele retornou ao Himachal Pradesh, norte da Índia, e fundou o estabelecimento Dolanji para pessoas Bönpo no exílio, e, em seguida, fundou uma escola dialética tradicional para preservar a tradição filosófica Bönpo. Em 1987, Yongdzin Rinpoche fundou o mosteiro Bön Triten Norbutse, a oeste de Katmandu, Nepal. 

 4 - Geshe Tenzin Wangyal Rinpoche é reconhecido como a reencarnação do famoso mestre Khung Tul Rinpoche, um grande meditador e estudioso. Começando aos 13 anos, Rinpoche praticou dzogchen sob a orientação dos mestres, tanto do Bön e escolas budistas, incluindo Sua Santidade Lungtok Tenpai Nyima, Sangye Lopon Tenzin Rinpoche, Tenzin Lopon Namdak Rinpoche, e Yungdrung Geshe Namgyal. Um acadêmico realizado nas tradições budistas Bön escritas, Tenzin Rinpoche completou um curso de 11 anos de estudos tradicionais na Escola Dialética Bön, onde recebeu seu doutorado, ou grau Geshe. Tenzin Rinpoche veio à Rice University, Houston, em 1991, com uma bolsa Rockefeller e manteve-se no Ocidente para ensinar as antigas tradições Bön para estudantes ocidentais. Em 1992, Rinpoche fundou o Instituto Ligmincha.

5 - Khenpo Tenpa Yungdrung Rinpoche é o abade (khenpo) do Mosteiro Triten Norbutse em Katmandu, Nepal, um dos dois principais mosteiros Bön fora do Tibete. Khenpo Rinpoche nasceu em 1969 em Dhorpatan, uma área remota do oeste do Nepal que abriga um assentamento de refugiados tibetanos pequeno e um mosteiro Bön. Khenpo recebeu seu grau de Geshe do Mosteiro Menri em Dolanji, na Índia. Em 1986, Khenpo Rinpoche começou a ensinar filosofia e ciências gerais tibetanas para os estudantes mais jovens. Depois de formado, Khenpo Rinpoche foi para Kathmandu para aprofundar seus estudos de tantra e dzogchen sob a orientação de Yongdzin Tenzin Namdak Rinpoche. Em 1996, Sua Santidade Menri Trizin Rinpoche e Yongdzin Rinpoche nomeado Khenpo Rinpoche como ponlob (professor principal) do Mosteiro Triten Norbutse. Em 2001, ele foi apontado como khenpo do mosteiro por HH Menri Trizin Rinpoche e HE Yongdzin Tenzin Namdak Rinpoche.

6 - H.E. Menri Lopon Trinley Nyima Rinpoche é o Lopon, ou o instrutor chefe, de Mosteiro Menri em Dolanji, na Índia. Nascido em Dolpo, uma região remota do oeste do Nepal, que tem o nome da família de "Yangton" e uma ancestralidade que remonta a Yangton Sherab Gyaltsen, (um dzogchen famoso e mestre tântrico do século 11), H.E. Menri Lopon Rinpoche começou seu treinamento em 1976 na idade de 10 anos. Ele recebeu seu grau de Geshe em 1989 pela Escola Dialética no Mosteiro Menri e foi ensinar na escola desde aquela época. Ele se tornou Lopon do mosteiro em 1992.

7 - Lhari-la Kalsang Nyima é o professor residente do Ligmincha Institute no cume da Serenidade. O nome tradicional "Lhari-la" é uma forma respeitosa que significa "pintor dos deuses" e reflete um rigoroso treinamento Lhari-la como um pintor thangka. Nascido em 1970 na província de Dolpo, Nepal, Lhari-la vem de uma família de muitos grandes praticantes de Bön. Aos 9 anos ele se tornou um monge no Mosteiro Samling, o mosteiro mais antigo e mais importante em Dolpo. Lá Lama Lhari-la treinou intensivamente durante 12 anos em sutra e tantra e completou muitos e longos retiros pessoais. Aos 21 anos ele começou a quatro anos de estudos no Mosteiro Triten Norbutse sob a orientação final de Tenzin Yongdzin Namdak Rinpoche, onde estudou todos os aspectos dos ensinamentos tradicionais Bön e recebeu um ciclo completo de ensinamentos dzogchen. Lá, ele também aprendeu técnicas de pintura tradicionais thangka, habilidades em que ele se aprofundou durante cinco anos de formação no mosteiro Ugyun Tulku em Bhouda nas proximidades. Professor experiente, em 2009 Lhari-la tornou-se professor residente do Ligmincha Institute. Ele também serve como residente várias vezes por ano no Centro de Retiro Chamma Ling, em Crestone, Colorado.

Nosso mestre Tenzin é o quarto na sucessão da linhagem, ou seja o centro geométrico da linhagem de sete, e extremamente importante para a continuidade da sua pureza e coesão. Como símbolo da continuidade da linhagem, os mantras sempre foram cantados em algum lugar do Tibete, Índia ou outro lugar, sem interrupção e da forma correta por algum mestre, sem falar na transmissão da linhagem sussurrada , que não tem texto, e se mantém do ouvido do mestre para o seu sucessor.

Seus livros em português e inglês são:
•    Os Yogas tibetanos do Sonho e do sono
•    A Cura aravés da forma, da Energia e da Luz
•    Awakening the Luminous Mind
•    Awakening the Sacred Body
•    Dream Yoga Set
•    Healing with Form, Energy and Light
•    The Tibetan Yogas of Dream and Sleep
•    Tibetan Sound Healing
•    Tibetan Yogas of Body, Speech and Mind
•    Unbounded Wholeness
•    Unbounded Wholeness
•    Wonders of the Natural Mind
 
Contato no Brasil:
Espaço Ligmincha Brasil
Rua Apinajés, 1646 – Sumarezinho – CEP 01258-001 -São Paulo – SP
(11) 3679.9747
contato@ligmincha.org

Contato nos EUA:
Ligmincha Institute, Charlotsville, Virginia
434.977.6161 

O local de reunião e práticas semanais é na Rua Apinajés 1646, Vila Madalena, Sampa (à noite).Ligue e apareça!


Vocês viram? Alguém me pergunta "quem é o seu mestre?", e eu em resposta abro um caminhão de melancias em cima dele... (rsrs)