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domingo, 13 de maio de 2012

A Ignorância, o Apego, o Ódio

Na publicação A Roda da Vida falamos do símbolo tibetano mais expressivo do sofrimento, que é, aliás, a condição humana, lembram-se?
“No centro do símbolo há 3 animais, uma cobra, um galo, um porco, ou seja, o ódio/medo (uma unidade), a avidez e a ignorância entrelaçados, um correndo atrás do outro e mordendo avidamente um ao outro como não podia deixar de ser (pois são ligados intrinsecamente). E essa trindade é tingida, pela shenpa, (fisgar, ficar colado) como eles dizem.
É como um átomo do sofrimento, a partícula indivisível que é a fonte da dor, atrelada ao apego, o seu núcleo. Essa é uma redução ao denominador comum, de toda variedade do sofrimento que encontramos desde sempre no planeta. O budismo tibetano fez uma obra prima de sintetização de um dos temas metafísicos de maior complexidade que conhecemos, o sofrimento.  E a partir dessa gênese, em círculos concêntricos a roda se esparrama na diversidade estabelecendo o quadro todo da Vida.”
Essa tríade está conectada com fortes ligações, como um átomo com suas ligações químicas, e uma puxa a outra, num círculo vicioso, ou melhor, num triângulo vicioso.  

Vamos falar disso um pouco mais fundo?
Observemos com atenção todo e qualquer aspecto da nossa vida que tenha algum resquício, por menor que seja, de sofrimento. Ele tem sempre uma dosagem dos três bichos combinados em doses diferentes. Não se preocupem, nem percam muito tempo em procurar exemplos de situações. Peguem o primeiro que aparecer pois são aproximadamente 99,9% dos casos da nossa vida (rsrs). Somos um planeta de expiação, e para isso, um planeta em que a vida é sofrimento, conforme diz o budismo. Sem pessimismo, nós temos é que aceitar o processo, e isso realmente muda tudo. Mas continuando:
Vamos tomar com simplicidade o tema e transportá-lo para dentro de nós através da Presença. Vamos sentir a natureza e o efeito das três coisas (ódio, apego e ignorância), mas de uma forma real e prática, sentindo-as dentro de nós mesmo, do nosso corpo: onde tocam? Em que lugares? O que produzem? Que gosto tem? Como e onde a gente se contrai, como disfarça, como se engana e foge para a TV, cinema, sexo, baladas, fantasias?...
Vejamos o apego, o galo, essa coisa que produz, ou mesmo é, a própria avidez: como ele se combina com os outros dois? Se eu me flagro numa situação de apego, de colamento a algo, seja uma pessoa, uma emoção, um fato, ou o que for, se eu olhar de soslaio (gosto dessa palavra) eu vou identificar o ódio, ou pelo menos o seu germe, o potencial ódio, colado ao apego, pois basta alguém ou algo contrariar o meu apego, e o demônio do ódio desperta, incontrolável. Quando eu consigo ver isso, vejo por tabela que o que me impedia de ver antes era a ignorância. Faz sentido? Aí estão os três, mais unidos que político e corrupção.
Se fizermos a mesma coisa com a raiva, ou ódio, que é simbolizado pela cobra, o processo é muito parecido. Vamos lá: eu me flagro com raiva de alguém ou algo, um fato, uma situação, um imprevisto. Se eu olhar para a gênese da raiva em questão, verei que ela existe pelo fato de que eu estou apegado ao resultado frustrado em relação ao que eu queria, ou não quería, que acontecesse. A pessoa me agrediu, ou me enganou, ou o fato era imprevisto em relação ao que eu apegadamente queria. E do canto do olho eu vejo a ignorância rindo de mim. É a ignorância do fato de que esse evento ruim que aconteceu estava no quadro das possibilidades e eu deveria então desapegadamente prevê-lo como possível de acontecer e não desenhar um futuro já previsto e fixo, ao gosto
do meu ego. O contrário disso chama-se fluir, soltar-se. Como dizia Gurdjieff, "temos direito ao esforço, não ao resultado". Então, é fazer todo o esforço, colocar toda a vontade em conseguir algo, mas sem se apegar ao resultado. Se ele vier, beleza. Se não, vamos em frente. É difícil? É. Mas se fosse fácil você não seria chamado, ora essa. Qualquer um faria (rsrs)
Intervalo para recreio: desci agora para tomar um cafezinho entre uma frase e outra, e fui olhar uma das três misteriosas larvas prateadas que apareceram na parede do quintal. Estava vazia e havia uma esguia borboleta secando as asas. Amarela, rosa e preta. Daí a pouco alçou vôo, pousou uns segundos na samambaia ao sol, e caiu na mata e no mundo...êta mundo velho...
E para fechar o triângulo, a ignorância, o porco. Vamos observá-la dentro de nós. Ela é mais difícil, porque o nosso ego não aceita que ela exista, ele já acha que sabe tudo e portanto não há ignorância para o bonitão do porco. Temos que fazer um esforço para assumir e sentir a ignorância dentro de nós.
Eu olho para qualquer situação, pessoa ou fato e não percebo “o que eu não sei” sobre aquilo. Isso é a ignorância, e eu não sei ficar diante dela impassível e calmo. Eu assumo que só existe o que eu vejo e pronto. Já procuro, com o pouco que percebo da situação, fazer, controlar, decidir, etc., ignorando que só vejo uma pequena parte do iceberg. Então, a partir da falsa premissa de que eu compreendo e comando a situação, a porta está aberta para sentir raiva de quem não concorda comigo, ou sentir apego às minhas idéias, valores, concepções, planos, visão do mundo, etc..
É isso. Estamos numa prisão de 3 paredes, uma colada à outra. Indivisível. Mas transponível. Isso é o sofrimento.

No Budismo Bön, e em todo o Budismo há uma representação da alquimia interna do ser humano que traz esse dilema para dentro do nosso corpo e ensina o caminho para sair da prisão através da respiração, do prana, a energia vital. Já falamos disso na publicação O Sonho – Visão Budista. , mas é sempre bom recordar.
Há 3 canais energéticos interligados que unem as narinas e um ponto abaixo do umbigo, no interior do corpo. Dois ficam nas laterais da coluna, um vermelho e outro branco. Um é ligado à raiva, outro ao apego e começam nas narinas, sobem para o topo da cabeça e descem latralmente até o ponto no baixo ventre onde se unem no centro e sobem num canal azul até o chacra da coroa no topo da cabeça. Nas 9 respirações purificadoras, o prana ou energia vital, é conduzido a partir do nariz para dentro de nós e limpa os 3 canais saindo pelo topo da cabeça com o nosso lixão interior, e nos tornando conscientes do trabalho sobre os 3 animais, e portanto sobre o sofrimento. Como dizem os anúncios na tv: Experimente!...

domingo, 15 de abril de 2012

Corpo de Glória, Corpo de Arco-Íris, Terceira Atenção


Quando a gente lê a frase “todos os caminhos conduzem ao mesmo lugar”, não faz idéia de o quanto isso é verdade nas tradições de busca interior.  A facilidade das comunicações atuais está mostrando o quanto as tradições autênticas da humanidade são uma coisa só. Só as roupagens e a linguagem parecem diferentes.
Um dos conhecimentos mais misteriosos das tradições é o fenômeno interior que vulgarmente se chama com o nome genérico e simplista de Iluminação. O assunto é inesgotável, pela sua natureza misteriosa, desafiadora e ao mesmo tempo real. Poucos se detém de fato sobre o tema a ponto de fazer as perguntas certas: Isso é real? O que é se iluminar? Como acontece de fato? Qual é o caminho? 

Vamos só dar uma visão despretensiosa dessa convergência das tradições sobre o assunto, e você que é uma pessoa guerreira e persistente, irá mais fundo se gostar e quiser.
O fenômeno é "a transformação de certos seres humanos espiritualmente evoluídos em luz, em energia radiante, quando atingem o estado final da sua evolução”. Você deve estar pensando “esse cara além de crédulo, é doido”, mas acompanhe comigo o assunto nas tradições autênticas e milenares do planeta:


O Corpo de Glória - Cristianismo
Nós, os que tiveram formação cristã, somos tão distraídos que não percebemos que o Cristianismo fala sobre isso todo o tempo. Tem até comemoração. Há poucos dias festejamos a Páscoa (Pesach, a passagem, em hebráico), e no domingo trocamos votos e ovos de chocolate, mas não sabemos que o motivo da festa é que um ser evoluído da nossa tradição teve uma morte física, uma Ressurreição, ou seja nasceu de novo após ter morrido, apareceu durante 40 dias para os amigos incrédulos, e teve uma Ascenção, ou seja, subiu aos céus em “corpo de glória”, ou corpo de luz, com uma platéia enorme olhando, e não voltou mais. Foi embora com roupa e tudo. Esse relato é bíblico e está no Novo Testamento. A mesma coisa teria acontecido com Maria, de quem Ele era filho, mas somente a tradição fala nisso, não a Bíblia. Você pergunta “foi factual ou simbólico?” Não importa. Como alguns afirmam, Jesus pode ter sido "criação de uma escola", pode nem ter existido como pessoa física. O que importa é que a tradição cristã afirma isso exatamente como as outras tradições autênticas que vamos ver, ressalvadas aquelas religiões que estão mais para caça-níqueis do que para tradição de fato. E se olharmos no Velho Testamento, os profetas Enoch, no livro do  Gênesis e Elias no Primeiro Livro dos Reis passaram pelo mesmo processo e foram embora de sandália e tudo, sem deixar rastros...
Muito bem, vamos para a segunda tradição:

 O Corpo de Arco-Íris - Budismo
 “Através das práticas avançadas de Dzogchen (as 3 vias no Budismo Tibetano são Sutra, Tantra e Dzogchen), praticantes realizados podem levar suas vidas a um fim extraordinário e triunfante. Quando morrem, capacitam seu corpo a ser reabsorvido na essência de luz dos elementos que o criaram; em conseqüência, esse seu corpo material se dissolve em luz e desaparece por completo. Esse processo é conhecido como “corpo de arco-íris”, ou “corpo de luz”, por que a dissolução é comumente acompanhada por manifestações espontâneas de luz e de arco-íris. Os antigos tantras do Dzogchen e os escritos dos grandes mestres distinguem diferentes categorias desse fenômeno espantoso e sobrenatural que, numa certa época, embora não habitual, era razoavelmente freqüente.
Via de regra uma pessoa que sabe que está prestes a obter um corpo de arco-íris pede para ser deixada sozinha por sete dias, sem ser perturbada, em um quarto ou tenda. No oitavo dia somente são encontrados os cabelos, as unhas e as impurezas do corpo.
Isso pode ser muito difícil de acreditar atualmente, mas a história dos fatos da linhagem Dzogchen está cheia de exemplos de indivíduos que obtiveram o corpo de arco-íris e, como Dudjom Rinpoche costumava sempre salientar, não se trata apenas de história antiga.
E agora a terceira. Mas há muitas outras tradições que afirmam isso. Não vamos citá-las todas, porque vai ser um tédio. Para confirmar o fenômeno na tradição tolteca, vamos citar vários trechos dos livros da obra de Castaneda e discípulos, já que a tradição tolteca dos Homens de Conhecimento era mais oral e em petroglifos:


A entrada na Terceira Atenção – Toltecas
Uma Esreanha Realidade - Castaneda
A tradição tolteca não só registrou o fenômeno, como o considerava o objetivo final do trabalho dos iniciados, que chamava "a busca da liberdade total". Vejamos trechos desse tema nos textos de Carlos Castaneda e Armando Torres:
“A fim de explicar esses conceitos, Dom Juan fez uma divisão de três partes desiguais da nossa consciência. Chamou à menor "primeira atenção", a consciência que toda pessoa normal desenvolve, a fim de lidar com o mundo diário; ela abrange o conhecimento do corpo físico. À outra parte maior deu o nome de "segunda atenção", o conhecimento de que precisamos para perceber nosso casulo luminoso e para agir como seres luminosos. Disse que a segunda atenção permanece como pano de fundo durante toda a nossa vida, a não ser que seja transportada através de treinamento deliberado ou por um trauma acidental, e que ela abrange o conhecimento do nosso corpo luminoso. Chamou à última parte, a maior, de "terceira atenção", uma consciência incomensurável que envolve aspectos indefiníveis do conhecimento dos corpos físico e luminoso.
Perguntei-lhe se ele próprio tinha experimentado a terceira atenção. Ele respondeu que estava na sua periferia, e que se entrasse nela completamente eu saberia no mesmo instante, pois ele todo se tornaria o que era na realidade, uma explosão de energia. Acrescentou que o campo de batalha dos guerreiros era a segunda atenção, uma  espécie de campo de treinamento para atingir a terceira atenção. Era um estado bem difícil de se chegar, mas muito frutificante quando atingido.”
O Presente da Águia, pág. 20


“Dom Juan explicou que o Regulamento não é uma lenda, e que atravessar para a liberdade não significa uma vida eterna como se entende comumente - quer dizer, “uma vida para sempre”. O que o regulamento declara é que se pode manter a consciência, normalmente abandonada no momento da morte. Dom Juan não podia explicar o que queria dizer “manter a consciência”, ou talvez não pudesse nem mesmo concebê-la. Seu benfeitor tinha lhe dito que no momento da travessia a pessoa entra na terceira atenção, e o corpo, em sua totalidade, é iluminado pelo Conhecimento. Cada célula torna-se de repente consciente de si própria, e também consciente da totalidade do corpo.
Seu benfeitor também lhe disse que o tipo de conscientização é sem significado para nossos espíritos compartimentados.”
O Presente da Águia, pág. 146


“Explicou que ao morrer, nossa conscientização entra na terceira atenção; mas só por um instante, como uma ação purgatória, logo antes da Águia (o Mar Escuro da Consciência ) devorá-la.”
O Presente da Águia, pág. 197


“Ela me assegurou que uma Recapitulação perfeita pode mudar um guerreiro tanto, se não mais, quanto o controle total do Corpo Sonhador. Nesse particular, o Sonho e a Espreita têm a mesma finalidade, entrar na terceira atenção. É importante, entretanto, que o guerreiro saiba e pratique os dois. Disse que para a mulher há configurações diferentes do corpo luminoso para se aperfeiçoar em uma ou em outra. Os homens, ao contrário, podem realizar os dois com facilidade, mas ao mesmo tempo não podem nunca chegar ao grau de eficiência que as mulheres atingem em cada arte.”
O Presente da Águia, pag 228


"- A terceira atenção é atingida quando o brilho da Consciência se transforma no fogo interior: o brilho que acende não uma faixa de cada vez, mas todas as emanações da Águia (o Mar Escuro da Consciência ) no interior do casulo luminoso do homem.
Dom Juan expressou seu respeito pelo esforço deliberado dos novos videntes em atingir a terceira atenção enquanto estão vivos e conscientes de sua individualidade.
Não achava que valesse a pena discutir os casos esparsos de homens e outros seres sencientes que ingressam no desconhecido e no incognoscível sem estarem conscientes disso; referiu-se a tal fato como o presente da Águia. Assegurou que, para os novos videntes, entrar na terceira atenção também é um presente, mas que tem um significado diferente. É mais como uma recompensa por uma realização.
Acrescentou que, no momento de morrer, todos os seres humanos entram no incognoscível, e alguns deles atingem a terceira atenção, embora por um tempo muito breve e apenas para purificar o alimento da Águia.”
O Fogo Interior, pag. 73


"Alguma vez você viu as estátuas dos Atlantes de Tula?"
Disse que sim, e ele me explicou que essas impressionantes figuras do tempo dos toltecas são uma descrição da “partida do nagual”. Sustentou que os dezesseis  sacerdotes em baixo relevo que há nas quatro colunas que estão atrás das estátuas representam o grupo completo de guerreiros, dividido em quatro equipes, um para cada direção cardeal.
" - Eles são viajantes cósmicos e sua missão é fluir com a energia do infinito. Cada uma de suas funções foi simbolizada nos objetos que levam consigo. Esses sacerdotes são uma partida em pleno vôo, uma imagem do objetivo final do caminho que é alcançar a terceira atenção".
Encontros com o Nagual, pág. 184


Parece que a razão final de estarmos aqui não é o sucesso, as posses, a fama, o dinheiro, apesar de que isso tudo pode ser conseguido e é bom, pois podemos então viver a vida sem muito solavanco e desconforto, junto com os nossos queridos. A razão final da nossa existência neste planeta é evoluir e ajudar os outros nessa tarefa. É a busca da liberdade total para viver as experiências indescritíveis desse Universo mágico e misterioso do qual não conhecemos absolutamente nada, absorvidos que estamos pelas pressões geradas pelo apego no dia a dia.

E você pergunta: 
- Tudo bem, o que eu faço com toda essa informação? Bem...há duas hipóteses. Você escolhe: 
  • ou fica ruminando com o seu mental para ver se consegue deslindar o assunto, 
  • ou coloca a sua Presença no Agora, intenta o mental vazio, e... faz sabe-o-quê? O “não fazer”...
Ai você toma contato com essa busca.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Apego, como ele nos fisga, como se soltar...

O apego é o nosso estado "normal", e junto com a raiva, forma a dupla que se associa aos dois canais laterais à coluna, por onde passa o Prana (ou Qi, ou Energia Vital) quando respiramos. Já pensou? A pura energia sutil universal passa pelos canais associados ao apego e à raiva: um presente para a nossa evolução. Basta estar atento e consciente, limpando-os a cada respiração...
Já o terceiro canal, central, por onde o Prana, verde e luminoso, leva embora as energias negativas depositadas nos chakras  pelo nosso karma diário e as manda embora no alto da cabeça, é ligado à Ignorância. Então, Apego, Raiva e Ignorância formam o tripé do sofrimento, como mostra a figura tibetana dos 3 animais, o galo, a serpente e o porco. Os 3 canais são banhados pelo prana desde a nossa primeira até a última respiração.
Pema Chodron fala então do apego (o galo), chamado shenpa no budismo tibetano: como ele nos “fisga” como um anzol, e como se desvencilhar gradualmente dele na prática do nosso dia-a-dia. Vamos lá:
“Você está tentando tratar uma questão com seu colega de trabalho ou com sua companheira. Num momento, o rosto dela está aberto, ela está sorrindo. No momento seguinte, uma nuvem embaça seus olhos e seu queixo enrijece de tensão.
O que você está percebendo?
Alguém o critica. Criticam seu trabalho, sua aparência ou seu filho. Em momentos como esse, o que você sente? Há um gosto familiar na sua boca, há um cheiro familiar. Ao se dar conta disso, você sente que essa experiência vem acontecendo desde sempre.
A palavra tibetana para isso é shenpa. Geralmente é traduzida como "apego", mas uma tradução mais apropriada poderia ser "a fisgada". Quando a shenpa nos fisga é como se ficássemos "colados".  Poderíamos chamar de shenpa de essa sensação de "colamento". É uma experiência de todo instante. Mesmo um pontinho no seu casaco novo pode conduzir a ela. Num nível mais sutil sentimos um aperto, uma tensão, uma sensação de fechamento. Em seguida, vem uma vontade enorme de nos retirar dali, não queremos mais estar onde estamos. Essa é a qualidade da fisgada. Aquela sensação de aperto tem o poder de nos fisgar para a auto depreciação, culpa, raiva, ciúmes e outras emoções que levam a palavras e ações que acabam por nos envenenar.
Lembra daquele conto de fadas em que sapos pulavam da boca da Princesa cada vez que ela dizia coisas más? É como a sensação de ser fisgado. Contudo não paramos – não podemos parar – porque ainda estamos habituados a associar o que quer que estejamos fazendo ao alívio do nosso próprio desconforto. Essa é a síndrome da shenpa. A palavra "apego" não traduz completamente o que está acontecendo. É uma qualidade de experiência que não é fácil de descrever mas que todo mundo conhece bem. Geralmente a shenpa  é involuntária e vai direto à raiz do porque sofremos.
Alguém nos olha de certa maneira, ou ouvimos uma certa canção, sentimos um certo cheiro, entramos em certo aposento e pronto!. A sensação não tem nada a ver com o presente, e apesar disso ela está lá. Quando estivemos praticando para reconhecer a shenpa, descobrimos que alguns de nós podiam senti-la até mesmo quando uma determinada pessoa simplesmente sentava próximo de nós na mesa.
A shenpa floresce na insegurança motivada por  vivermos num mundo que está sempre mudando, impermanente. Experimentamos essa insegurança como um fundo de leve desconforto  e inquietação. Todos nós queremos alguma espécie de alívio para esse desconforto, então nos voltamos para o que nos dá prazer – comida, diversão, álcool, drogas, sexo, trabalho ou as compras. Com moderação o que nos dá prazer pode ser muito delicioso. Podemos apreciar seu sabor e sua presença em nossa vida. Mas quando lhe atribuímos poder com a idéia de que nos trará conforto, removerá nossa inquietude, aí somos fisgados.
Desse modo, também poderíamos chamar de shenpa  o "impulso" – o impulso de fumar um cigarro, de comer demais, de tomar outro drinque, de saciar nossa dependência qualquer que seja ela. Às vezes a shenpa é tão forte que sentimos vontade de morrer ao obter esse alivio de curto prazo dos sintomas. O momento atrás do impulso é tão forte que nós nunca nos livramos do padrão habitual de buscar o conforto no veneno.  Este não necessariamente tem que envolver uma substância; pode ser dizer coisas mesquinhas ou se aproximar de tudo com uma mente crítica. Essa é a maior fisgada. Alguma coisa aciona o gatilho de um velho padrão que preferiríamos não sentir, nos retesamos e engatamos em críticas e queixumes. Isso nos proporciona uma satisfação ofegante e uma sensação de controle que oferece alivio de curto prazo ao desconforto.
Aqueles de nós com dependências fortes sabem que trabalhar com padrões habituais começa com a disposição de reconhecer completamente nosso impulso e em seguida disposição de não atuar a partir dele. Esse não atuar é chamado abster-se. Tradicionalmente é  conhecido como renúncia. Não renunciamos ou nos abstemos da comida, do sexo, do trabalho ou de relacionamentos em si. Renunciamos e nos abstemos da shenpa. Quando falamos sobre abster-se da shenpa, não estamos falando de tentar jogá-la fora; estamos falando de tentar ver a shenpa claramente e experimentá-la. Se pudermos ver a shenpa exatamente quando começamos a nos fechar, quando sentirmos o aperto, existe a possibilidade de agarrar o impulso de fazer a coisa habitual e não fazê-la.
Sem a prática da meditação isso é quase impossível de fazer. Geralmente, não capturamos o aperto até que tenhamos saciado o impulso de coçar nosso comichão de alguma maneira habitual. E, a menos que equiparemos o abster-se com bondade amorosa e amizade para conosco, abster-se dá a impressão de vestir uma camisa de força. Lutamos contra ela. A palavra Tibetana para renúncia é shenlock, que significa "virar a shenpa de cabeça para baixo, sacudindo-a".
Quando sentirmos o aperto, de alguma forma temos que saber como abrir o espaço sem sermos fisgados para nosso padrão habitual.
Ao praticar com a shenpa, primeiro tentamos admiti-la. O melhor lugar para fazê-lo é na almofada de meditação. A prática da meditação sentada nos ensina como nos abrir e relaxar para o que quer que surja, sem escolher ou selecionar. Ela nos ensina a experimentar o desconforto, o aperto, a coceira da shenpa. Treinamos em sentar quietos com nosso desejo de coçar. É assim que aprendemos a interromper a reação em cadeia dos padrões habituais que de outra maneira governarão nossas vidas. É assim que enfraquecemos os padrões que nos mantêm fisgados no desconforto que nós confundimos com conforto. Nós rotulamos isso através do "pensar" e voltamos para o momento presente. Até mesmo na meditação experimentamos a shenpa.
Vamos supor, por exemplo que na meditação você se sentiu sereno e aberto. 
Os pensamentos vierem e se foram mas não o fisgaram. Eram como nuvens no céu que se dissolviam quando você os reconhecia. Você foi capaz de voltar ao momento sem uma sensação de luta. Em seguida você é fisgado naquela experiência tão agradável: "Eu fiz certo, consegui acertar. É como tinha que ser, é o modelo." Ser apanhado dessa maneira constrói arrogância e no reverso dela constrói pobreza, porque sua próxima sessão não será nada daquilo. Na verdade sua sessão "má" é muito pior agora porque você foi fisgado na "boa". Você sentou lá e foi discursivo: ficou obcecado por alguma coisa em casa, no trabalho. Você se preocupou e se atormentou; foi apanhado com medo ou raiva. No fim da sessão você se sentiu desanimado – foi "mau", e só há você para culpar.
Há alguma coisa inerentemente errada ou certa na experiência da meditação?
Somente a shenpa. A shenpa que sentimos para a "boa" meditação nos fisga no que ela "deve" ser e com isso somos conduzidos pela shenpa a como ela não "deve" ser. No entanto a meditação é apenas o que ela é. Somos apanhados não nela, mas em "nossa idéia dela": isso é a shenpa. Essa colada é a raiz da shenpa. Nós a chamamos “pegada do ego” ou auto-absorção. Quando somos fisgados na idéia da experiência má, a auto-absorção fica mais forte. É por isso que, como praticantes, somos ensinados a não nos julgar, para não sermos apanhados no bom ou mau.
O que realmente precisamos fazer é tratar as coisas como elas são. Aprender a admitir a shenpa nos ensina o significado de não estar apegado a esse mundo. Não estar apegado não tem nada a ver com esse mundo. Tem a ver com a shenpa – sermos fisgados pelo que associamos com conforto. Tudo o que estamos tentando fazer é não sentir nosso desconforto. Mas quando fazemos isso nunca chegamos à raiz da prática. A raiz é experimentar a coceira, assim como o impulso de coçar e então não atuar sobre ele.
Se estamos dispostos a praticar dessa  maneira todo o tempo, o prajna começa a aparecer. Prajna é a visão clara. É a nossa inteligência inata, nossa sabedoria. Com o prajna, começamos a ver claramente toda a reação em cadeia. À medida que praticarmos, a sabedoria se torna uma força mais poderosa que a shenpa.
Por si só, ela tem o poder de interromper a reação em cadeia.
O prajna não está envolvido com o ego. Sua sabedoria se baseia na bondade fundamental, na abertura, na equanimidade – que corta a auto-absorção. Com o prajna podemos ver o que o espaço vai nos mostrar. Ação habitual, que está baseada no ego é exatamente o oposto – a compulsão de preencher o espaço ao nosso estilo particular. Alguns de nós fechamos o espaço martelando nossos mesmos pontos; outros tentando suavizar as águas.
Fomos ensinados que tudo que surge é fresco, a essência da realização. Esta é a visão básica. Mas como ver  tudo que surge como a essência da realização quando a realidade é que temos um trabalho a fazer? A chave é olhar para dentro da shenpa. O trabalho que temos que fazer é descobrir se estamos tensos, fisgados ou "excitados". Essa é a essência da realização. Quanto mais cedo  captarmos isso, mais fácil será trabalhar com a shenpa, mas até mesmo captar isso quando já estivermos excitados é bom. Às vezes temos que percorrer todo ciclo até que vejamos o que estamos fazendo. O impulso é tão forte, a fisgada tão profunda, o padrão habitual tão colado que tem vezes que não podemos fazer nada sobre isso.
Entretanto, há alguma coisa que podemos fazer na realidade. Podemos sentar na almofada de meditação e repassar a história. Talvez comecemos lembrando a sensação de excitamento e entremos em contato com ela. Olhamos claramente a shenpa em retrospecto; também ajuda muito ver a shenpa surgindo em habitozinhos, quando a fisgada ainda não é tão profunda.
Os budistas estão falando da shenpa quando dizem, "Não se deixe apanhar no contentamento: observe a qualidade que está por trás  - a colada, o desejo, o apego". A meditação sentada nos ensina a ver aquela tangente antes de cair nela. Ela basicamente se resume à instrução "rotule a coisa pensando". Treinar isso na almofada onde é relativamente fácil e agradável fazê-lo, é a maneira de nos preparar para quando estivermos excitados.
Em seguida podemos treinar em ver a shenpa onde quer que estejamos. Diga alguma coisa a outra pessoa e talvez você sentirá aquela tensão. Em vez de ser apanhado numa história sobre como você está certo ou como você está errado, tome isso como uma oportunidade de estar presente com a qualidade da fisgada.
Use isso como uma oportunidade de estar com o aperto sem atuar sobre ele. Deixe o treinamento ser a sua base.
Você também pode praticar reconhecendo a shenpa na natureza. Praticar se sentando quieto e captando o momento em que se fecha. Ou praticar numa multidão, olhando uma pessoa de cada vez. Quando você está em silêncio, o que o fisga é o diálogo mental. Você fala consigo mesmo sobre maldade ou bondade: eu-mau ou eles-maus, isso-certo ou aquilo-errado. Simplesmente veja isso como uma prática. Você ficará intrigado como  involuntariamente se fechará e será fisgado de uma maneira ou de outra. Apenas continue rotulando aqueles pensamentos e volte para a imediatez da sensação. É a maneira de  não seguir a reação em cadeia.
Uma vez que estejamos conscientes da shenpa, começamos a notá-la em outras pessoas,  nós as vemos se fechando. Vemos que elas foram fisgadas e que nada irá penetrá-las agora. Naquele momento temos o prajna. A inteligência básica surge quando não somos apanhados escapando do nosso próprio desconforto. Com o prajna podemos ver o que está acontecendo com os outros; podemos ver quando eles estão sendo fisgados. Em seguida podemos dar algum espaço à situação. Uma maneira de fazê-lo é abrindo o espaço no local através da meditação. Fique quieto e coloque sua mente na respiração. Segure sua mente no lugar com grande abertura e curiosidade para com essa pessoa. Fazer uma pergunta é outra maneira de criar espaço em volta daquela sensação de colamento. Assim como adiar a discussão para outra hora.
No mosteiro, temos muita sorte de todo mundo estar entusiasmado em trabalhar com a shenpa. Muitas palavras que tenho tentado usar se tornaram munição para as pessoas usarem contra elas próprias. Mas sentimos uma espécie de alegria trabalhando com a shenpa, talvez porque a palavra não nos seja familiar. Podemos reconhecer o que está acontecendo com visão clara, sem nos apontarmos. Como ninguém gosta de ter sua shenpa apontada, as pessoas no mosteiro combinaram, "Quando você me vir sendo fisgado, só puxe sua orelha e se eu o vir sendo fisgado, farei o mesmo. Ou se você o vir em você mesmo e eu não tiver captado, pelo menos dê um sinalzinho de que talvez esta não seja a hora de continuarmos a discussão". É dessa maneira que estamos nos ajudando uns aos outros a cultivar prajna, visão clara.
Poderíamos pensar em todo esse processo em termos dos 4 “R”:
 
•    reconhecer a shenpa,
•    refrear (abster-se) o coçar,
•    relaxar no impulso que motiva o coçar, e então
•    resolver continuar  interrompendo nossos padrões habituais como esse pelo resto de nossas vidas.
O que você faz quando não faz a coisa habitual? Você se deixa ficar com seu impulso. É como você se põe mais em contato com a avidez e com a vontade de fugir. Você relaxa nele. Em seguida, resolve continuar praticando dessa maneira.
Trabalhar com a shenpa nos suaviza. Uma vez que vemos como somos fisgados e como somos arrastados pelo momento, não tem como ser arrogantes. O segredo é continuar vendo. Não deixar que a suavidade e a humildade se transformem em auto-depreciação. É apenas uma outra fisgada. Como viemos fortalecendo toda a situação habitual por um longo, longo tempo não podemos espera desfazê-la do dia para a noite. Não é um assunto para um tiro só. É preciso bondade amorosa para reconhecer; é preciso prática para abster-se; é preciso disposição para relaxar; é preciso determinação para continuar treinando dessa maneira. Ajuda lembrar que podemos experimentar dois bilhões de espécies de coceiras ou sete quatrilhões de tipos de comichão, mas só existe realmente uma única raiz da shenpa – a aderência do ego. Nós a experimentamos como aperto e auto-absorção.
Ela tem graus de intensidade. As ramificações shenpas são todos os nossos diferentes estilos de coçar o comichão.
Recentemente vi um cartoon com três peixes nadando em volta de um anzol. Um peixe está dizendo para o outro, "o segredo é não grudar". É um cartoon shenpa: o segredo é – não morda o anzol. Se nós pudermos nos apanhar no lugar onde o impulso de morder é forte podemos, pelo menos, ter uma perspectiva maior do que está acontecendo. Praticando dessa maneira, ganhamos confiança em nossa própria sabedoria. Isso começa a nos conduzir a um aspecto fundamental do nosso ser – amplidão, calor e espontaneidade.”

Pema Chödron,  nascida Deirdre Blomfield-Brown (Nova York, 1936) é uma monja budista tibetana na tradição Vajrayana, e é instrutora residente no templo Gampo Abbey, em Cape Breton Nova Escócia, Canadá, fundado pelo grande Chögyam Trungpa em 1984. Veja www.pemachodronfoundation.org

domingo, 25 de setembro de 2011

O Dalai Lama e o Brasil

O Budismo está numa posição interessante e peculiar. É historicamente uma tradição sem Deus, já que Buda foi apenas um homem, que atingiu a Iluminação, a Compreensão. Mas diferentemente das outras grandes tradições vivas do planeta (Hinduismo, Judaismo, Cristianismo, Islamismo...) que tem um Deus e são então consideradas religiões, entre os próprios budistas há divergências. Grande parte, se não a maior parte, a considera uma filosofia, não uma religião.
Mas, o que é exatamente uma religião?
Há controvérsias. Se considerarmos o significado da palavra-mãe, “religar”, tudo o que nos leva a uma conexão com a Consciência, Deus, ou o que for que tenha criado ou que mantém o Universo em que estamos, é uma religião. Já se levarmos em conta a concepção de que religião é uma entidade com estrutura (hoje até empresarial) organizada numa crença, com lideranças representativas, níveis de autoridade, missão, objetivos (terrenos e/ou não), supervisão, princípios, ética, controles econômicos e financeiros, etc., somente algumas são, mesmo que eventualmente não religuem nada com coisa nenhuma. Não vamos nem entrar no mérito do fato de a “autoridade reconhecida” do seu iniciador ou líder ser autêntica ou não, universal ou não.
Essa particularidade de não ter um Deus, fato que torna o Budismo não competitivo com as outras religiões, que às vezes até matam em nome do seu Deus, fez com que o budismo se harmonizasse com facilidade com as religiões e seitas com que fez contato nas várias culturas, produzindo uma grande variedade de colorações resultantes, todas chamadas de budismo.  
Somado a isso, a grande ironia é que a truculenta China num gesto “brucutu” criticado pelo Ocidente (só levemente criticado, por medo e interesses) invadiu unilateralmente o Tibet, provocou uma fuga em massa de monges budistas para a Índia e Ocidente, incluindo o próprio Dalai Lama e mais 80 mil seguidores. Foi uma forma de preservar a tradição budista tibetana. É visível o efeito dessa migração em termos de “conversões” de pessoas na Europa, EUA, e América Latina para onde muitos foram. Por essas e outras o governo chinês tem agora que ficar pedindo aos países que não apóiem o Tibet, nem recebam o seu líder nos eventos organizados pelos monges exilados e aclimatados pelo mundo. Foi uma má decisão...
O Dalai Lama, além de chefe da tradição budista, como o papa é para o Cristianismo, acumulava a função incômoda de chefe de Estado do Tibet, da qual parece finalmente ter se livrado há pouco, segundo suas mais recentes declarações. Ele é um exemplo claro, aliás o único do planeta, da possibilidade de conciliar Religião e Estado, o secular e o sagrado, de uma forma harmônica. Os outros exemplos dessa junção são frequentemente tirânicos e assustadores. É interessante notar-se a habilidade com que ele desempenha as duas funções, antes e no exílio na Índia, além de uma terceira que é a mestria de administrar mansa e discretamente o complicador de estar hospedado num pais concorrente e vizinho da China. Coisa de mestre.
Ele tem muito o que ensinar como chefe de estado e como ser humano, testado em duras situações, a esses pseudo líderes que estão aí mentindo e traindo seus representados.
E por falar em mestria, nos eventos da sua vinda ao Brasil, infelizmente tingido por situações inevitáveis do oportunismo da nossa época,  abordou 5 pontos contundentes, alguns dos quais surpreenderam a platéia presente nos vários eventos:
Corrupção – Este ponto, feito de encomenda para nós brasileiros, que tratamos bandidos e corruptos como visitas, foi apresentado como “o novo câncer do mundo”. Por que será que ele tocou nesse tema aqui no Brasil? Não é preciso ser nenhum gênio para responder. Basta ler as notícias políticas e econômicas. Uma pena que não havia nenhum representante do governo central e seu partido, notoriamente condescendentes quando não indutores, protetores e acobertadores da corrupção desenfreada. Talvez por receio de uma "saia justa", esse governo e o seu partido não enviaram representante. O único presente, do governo municipal, foi vaiado.
Pobreza – Filha da corrupção e portanto da avidez, a pobreza já poderia ter sido eliminada várias vezes no país, se tivesse recebido um investimento igual ao que é desviado pela mãe. Não seriam necessárias as famigeradas Bolsas-de-Todos-os-Tipos, artifícios gerados pelo governo para escondê-la com subsídios, ao invés de erradicá-la via educação e desenvolvimento, como fizeram alguns paises asiáticos .
Secularismo – Essa afirmação defendendo a visão laica, não religiosa do secularismo pegou todo mundo de surpresa, e só um primaz de uma tradição sem Deus poderia fazer. Ele sabiamente alega que deve ser respeitada a posição de muita gente que não é atraída por nenhuma religião, mesmo com as promessas de compaixão que todas prometem (e quase nenhuma, aliás, entrega).
Ética – O caminho de uma “cultura de paz” vai depender necessariamente do desenvolvimento e universalização de uma ética, inicialmente dentro de cada um de nós. Não só nos negócios, mas na sociedade em geral, nas relações de todos os tipos. Esse é o remédio real para combater a corrupção, aliado à Educação.
Educação – É o último citado, mas o mais importante. Ele disse que “é a tarefa das próximas gerações” e defendeu a sua importância desde o Jardim da infância até a faculdade. Foi onde ele recebeu mais aplausos, o que é um sinal claro de que a classe presente que tem acesso à educação é que conhece a importância dela e pode, através do voto, interromper o curso do que está aí hoje.
“Cabe a vocês dar uma forma ao século 21. Um mundo de compaixão pode ser criado”.
Ao despedir-se disse “A minha geração logo vai dar tchauzinho e ir embora”, ou seja, a tarefa é de vocês. Virem-se. Resolvam.
De tudo o que falou, não há nada que já não sabíamos, mas é bom ouvir isso de um Dalai Lama.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O pânico, a cura, o mestre

Nascido em 1975, em Nubri, Nepal, Yongey Mingyur Rinpoche é uma estrela em ascenção da nova geração de mestres do budismo tibetano treinados fora do Tibet.
Aos 3 anos, foi formalmente reconhecido pelo 6º Karmapa como a sétima encarnação de Yongey Mingyur Rinpoche, um estudioso e adepto da meditação do século XVII conhecido como o mestre de métodos avançados da prática budista.
(Nota: Os Karmapas, seres que podem olhar simultaneamente para tudo no passado, presente e futuro, da mesma forma como nós olhamos para algo na palma de nossa mão, são uma linhagem de encarnações de mestres da qual o 6º, Thongwa Donden, também músico, foi o responsável pela sistematização da prática litúrgica Karma Kagyu usada nos rituais)
Vale notar que a palavra Rinpoche - que pode ser traduzida do tibetano como “Precioso” – é um título vinculado ao nome de um grande mestre, similar à forma como o título PhD é agregado a um ocidental considerado especialista em várias áreas do conhecimento.


A entrevista

- O senhor praticava meditação antes de receber treinamento formal?

YMR – Sim. Eu tentava praticar embora não tivesse idéia do que era meditação. Às vezes eu entrava na gruta e fazia de conta que meditava, e minha avó ficou muito apreensiva, pois um dia achou que eu tinha me perdido. Ela pediu para as pessoas me procurarem, e finalmente ela me achou na gruta e disse “Uh! Não faça isso de novo!”, mas, (risos) eu fiz mesmo assim e então ela aceitou e disse: “Se você for para essa gruta, tudo bem”. Então eu tinha permissão da minha avó e da minha mãe. Um dia eu estava sentado lá e fingia meditar - eu não tinha idéia de o que era meditação – mas havia aquele mantra “Om Mani Padme Hum”, todos usam esse mantra em nossa aldeia. Nós os chamamos de mantra da compaixão, o mantra da sabedoria da compaixão. (Nota: esse mantra é muito reverenciado pelos seguidores do atual  14º Dalai Lama. Apesar de afirmarem que não tem uma tradução só, afirma-se que significa “Recebemos a jóia da consciência divina, no centro do nosso chakra da coroa”).
E pensei “talvez eu deva dizer isso mentalmente enquanto estiver na gruta.” E fiz isso. E me senti bem melhor . Quando eu tinha 9 anos, pedi a meu pai, que era um grande mestre de meditação - mas eu era tímido para pedir diretamente - pedi à minha mãe para me ajudar a pedir ao meu pai, para me ensinar meditação, e ele aceitou. E a minha primeira pergunta foi: “recitar Om Mani Padme Hum mentalmente é meditar ou não?”  Meu pai disse sim. E eu fiquei tão feliz. (risos)

- O senhor ficou feliz por agradar seu pai?

YMR – Fiquei feliz porque eu estava fazendo certo. Isso é uma meditação.


- E qual era a sua idade?
YMR – Eu tinha 9 anos, mas... mas embora eu idealizasse meditar - era curioso quanto à meditação – mas eu tinha ataques de pânico quando eu tinha por volta de 8 anos. Eu desenvolvi pânico, mesmo tendo uma família amorosa, um bom ambiente, mas...o pânico me seguia como uma sombra. Às vezes no inverno temos tempestade, tempestades de neve, e muitas coisas acontecem. Eu tinha medo de desastres naturais, medo de trovões, raios, muitos medos. Às vezes não conseguia dormir. Mas comecei a buscar uma solução para o meu pânico. Então aos 9 anos aprendi meditação com o meu pai, para lidar com o pânico. Recebi instruções maravilhosas, mas não praticava muito. Era um menino preguiçoso. Aos 11 anos mudei para o norte da Ìndia, um local chamado Sherab Ling, um local muito bonito perto de Dharamsala, a residência de S. S. Dalai Lama, a duas horas de Dharamsala, uma estrada esburacada, o que é muito bom para o corpo... exercício gratuito! Sabe aquela poltrona de massagem do aeroporto? Em que a gente coloca um pouco de dinheiro? A estrada esburacada é melhor, é de graça (risos). Então...eu estava em Sherab Ling, e quando tinha 13 anos, estava para começar lá um retiro de 3 anos. Um retiro de meditação. Eu quis muito participar do retiro... mas fiquei tímido para pedir, e pedi ao meu pai, para solicitar a Sua Eminência Tai Situ Rinpoche, o chefe do nosso monastério, para aceitar a minha adesão ao retiro, e meu pai escreveu uma carta solicitando. E Rinpoche me perguntou “você quer mesmo participar? Tem certeza?” E eu disse sim. E ele me aceitou, e tive a oportunidade de participar do retiro de 3 anos. E no primeiro ano de retiro meu pânico piorou. Ficou mais forte. Então eu pensei “Hmm”... Eu era muito infeliz naquele tempo, mas eu ainda tinha 2 anos pela frente. Pensei “Uau, ainda tenho 2 anos! Você quer mesmo passar 2 anos desse jeito? Ou você quer aplicar técnicas de meditação para os ataques de pânico?” E decidi aplicar técnicas de meditação para o meu pânico. E então eu disse para o meu pânico “Olá”, pois normalmente descobri que existem dois modos de o pânico piorar e ficar mais forte. Primeiro, você segue o seu pânico. Você só diz “Sim Senhor” e você acredita no pânico, e em qualquer mensagem que venha do pânico. Você apenas acredita que o mundo é terrível, cheio de problemas. Desse modo o pânico se torna seu chefe, e você se torna escravo do pânico. O segundo problema, é que você não gosta do pânico. Você odeia o pânico... “Êi pânico, saia daí!” E você tenta bloquear o pânico. Você tem pânico do pânico! Tem medo do pânico. Às vezes o medo do pânico é mais forte do que o pânico. E assim o pânico se torna seu inimigo. O que eu descobri é que podemos nos tornar amigos do pânico. E como? Diga “olá!" para ele. Então uso o meu pânico como objeto de meditação. E o pânico se transforma numa meditação. Quando olho para o pânico, ele parece uma bolha, como espuma de barba, sabe? Cheia de bolhas por dentro, mas quando se olha mais fundo, o pânico perde o sentido e se torna uma percepção consciente... espaços...experiência para além da palavra, além dos conceitos. E o pânico passou. Fiquei sentado em meu quarto durante 3 dias, para usar o pânico como objeto de meditação, e depois de 3 dias o pânico passou totalmente. Desde então nunca mais tive pânico. Mas ainda me sinto muito feliz em relação ao meu pânico. Penso que meu pânico é um de meus mestres importantes. Ainda sou agradecido ao meu pânico. Aprendi muita coisa a respeito do meu pânico. Por causa dele estou aqui, e escrevi dois livros: A Alegria de Viver, e o mais novo Joyful Wisdom (Sabedoria Alegre), e nesses livros compartilho a minha experiência com o pânico e como lidar com ele, como transformá-lo. E não somente o pânico. Você pode usar para qualquer outra emoção, depressão, perda de autoestima, raiva, e assim por diante...

Essa postagem foi transcrita, com algumas adaptações, de uma entrevista alegre e despretensiosa concedida pelo jovem mestre Yongey Mingyur Rinpoche e registrada em video, apresentado no site http://vimeo.com/19875915 por Helio Biesemeyer


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A roda da vida

O símbolo mais eloqüente do budismo tibetano a meu ver, A Roda da Vida, é uma aula profunda de trabalho interior, como tudo o que essa cultura criou. Vale a pena apreciar essa obra de arte objetiva que nos foi deixada por esse povo dos Himalaias.
No centro dela há 3 animais, uma cobra, um galo, um porco, ou seja, o ódio/medo (uma unidade), a avidez e a ignorância entrelaçados, um correndo atrás do outro e mordendo avidamente um ao outro como não podia deixar de ser. E essa trindade é tingida, pela shenpa, (apego, fisgar, ficar colado) como eles dizem.
É como um átomo do sofrimento, a partícula indivisível que é a fonte da dor, atrelada ao apego, o seu núcleo. Essa é uma redução ao denominador comum, de toda variedade do sofrimento que encontramos desde sempre. O budismo tibetano fez uma obra prima de sintetização de um dos temas metafísicos de maior complexidade que conhecemos, o sofrimento.  E a partir dessa gênese, em círculos concêntricos a roda se esparrama na diversidade estabelecendo o quadro todo da Vida.

A parte principal da roda é dividida em seis partes, representando os seis reinos da existência cíclica ou samsara em sânscrito. Na parte de baixo, estão os três reinos inferiores:seres dos infernos, espíritos carentes, e animais. Na parte de cima, estão os três reinos superiores:deuses,semideuses, e nós humanos. Na borda da roda, doze ilustrações representam os elos da existência não livre, condicionada. Em cada reino há um buddha.
Quem segura a roda com garras e dentes é Yama, o demônio da morte da mitologia indiana. Sua terrível presença simboliza a impermanência; nenhum ser vivo pode escapar de suas garras. Entretanto, o Buddha está flutuando no céu e apontando para a lua cheia, ou seja, os seus ensinamentos apontam o caminho para a liberação.

Não podia ser mais preciso e lacônico o símbolo: essas 3 coisas, ódio/medo, avidez e ignorância, atiçadas pelo estado do apego produzem a matriz do sofrimento. E já basta. É de uma simplicidade chocante, como se dissesse “você só precisa ficar atento e trabalhar o apego, que produz as outras 3 coisas, para voltar ao seu estado original de felicidade”. Um achado. É interessante olhar a atitude desses 3 animais para chegar à essência de cada um: o olhar duro e arredio da cobra, controlador e tenso do galo, e unilateral e oco do porco, todos identificados com a sua natureza, desprovidos da possibilidade de um “destacamento” da situação. Nenhum consegue um distanciamento para perceber uma alternativa mais ampla e abrangente de o que está em torno de si.
A mandala tem mais uma infinidade de detalhes simbólicos mas só esses iniciais já bastam para uma vida de trabalho interior.
Quando a gente pratica meditação, se ficar atento e rente ao corpo de sensação, consegue identificar em cada distração, fantasia ou rejeição um desses 3 motores da vida humana e o seu cimento comum, o apego...
Eckhart Tolle fala em uma coisa chamada Corpo de Sofrimento, ou Corpo de Dor em algumas traduções, uma superestrutura formada por essa alimentação que damos ao sofrimento em cada um de nós quando nos deleitamos na mídia com o noticiário da violência, do crime hediondo, da catástrofe, do fim do mundo, da miséria humana. Como uma nuvem esse corpo paira, se alimenta e se fortalece com a energia que mecanicamente todos damos e recebemos num círculo infernal.
Desperte! Você está criando o seu mundo com o poder mágico de Ser Humano que você nem sabe que possui. Você é um aprendiz de feiticeiro, que não sabe que tem poder de criar o mundo em que vive. Para depois reclamar dele, choramingando.  Em termos de energia, o esforço para criar um Corpo de Otimismo e Alegria é o mesmo, talvez até menor. Nem falo em Amor porque é ainda mercadoria desconhecida e rara nesses tempos conturbados de Kali Yuga. O povo ou se escandaliza, ou ridiculariza, ou acha muito difícil amar. Mas é esse o gesto que falta. É aí que mora a Magia. Ou como diz o caipira, “é aí que você deve amarrar o seu burrinho”.
Pratiquem sem pressa, e observem no seu dia a dia. Depois me contem...



Essa postagem resumida de ensinamentos do budismo tibetano Vajrayana e Nyingma vem de leituras e ensinamentos de Lama Samten (CEBB - Brasil), Lama Tsering (Odsal LIng - Brasil), Sogyal Rinpoche, Tarthang Tulku, Shögyam Trungpa