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domingo, 9 de junho de 2013

A Explicação Tolteca de "como vemos o mundo"

Como dissemos em "O Mar Escuro da Consciência...", o jornal The New York Times em 2001 afirmou: "Somos incrivelmente afortunados em ter os livros de Carlos Castaneda. Tomados em conjunto, formam uma obra que está entre o melhor que a ciência da antropologia já produziu". Compartilhamos dessa visão. A obra está entre as melhores coisas produzidas no século passado na humanidade.
Por isso decidimos apresentar os seis pontos básicos explicativos nos quais se assenta a visão tolteca de "como o ser humano vê a realidade do mundo através dos sentidos". Na obra essa visão é chamada de "As 6 proposições explicativas" e foi anexada num apêndice no final do livro O Presente da Águia em português e talvez na edição espanhola. Não existe na edição em inglês, não sabemos porque.
Esse texto de hoje é longo, denso, e deveria ser lido com intervalos para digerir o que se leu. Quem já leu a obra ou pelo menos as 5 ou 6 postagens sobre Castaneda neste blog terá mais facilidade para compreender, principalmente a postagem O Mundo Mágico Tolteca de Dom Juan e Castaneda, onde alguns conceitos do universo tolteca estão explicados, como o Intento, O Mar Escuro da Consciência, os comandos da Águia, ponto de aglutinação, o desnate, círculos de poder, etc. Quem quiser acessar essas postagens no blog, clique a palavra Castaneda em "Pesquise neste blog", á esquerda, na página inicial.
Infelizmente as traduções brasileiras traíram os leitores dos livros, fato este reconhecido por uma das tradutoras, mas nós re-traduzimos os termos neste texto, seguindo os conceitos toltecas
Vamos lá:

As 6 proposições explicativas

"Apesar das assombrosas manobras que Dom Juan fez com a minha consciência, durante anos eu persistia com teimosia em tentar avaliar o que ele fazia racionalmente. Embora tenha escrito longamente sobre essas manipulações, escrevi sempre de um ponto de vista experimental, e, sobretudo, de um ângulo estritamente racional. Imerso como estava na minha própria racionalidade, eu era incapaz de reconhecer as metas do seu ensinamento. Para poder entender a extensão destes objetivos com certo grau de precisão, foi necessário que eu “perdesse minha forma humana” e “chegasse à totalidade de mim mesmo”.
Os ensinamentos de Dom Juan tinham como objetivo me guiar no segundo estágio do desenvolvimento do guerreiro: a compreensão e total aceitação de que há outro tipo de conscientização dentro de nós. Este estágio era dividido em duas categorias. A primeira e mais abrangente, para a qual pediu a ajuda de Dom Genaro, era a que lidava com duas atividades. Consistia em mostrar-me certos processos, ações e métodos organizados para exercitar minha conscientização. A segunda preocupava-se com a apresentação de seis proposições explicativas.
Em vista da dificuldade que tive em deixar minha racionalidade aceitar o que me estava sendo ensinado, Dom Juan apresentou essas proposições explicativas em termos do meu preparo escolástico.
A primeira coisa que fez como introdução, foi criar uma divisão em mim por meio de um soco preciso aplicado na minha omoplata direita, soco esse que me fez entrar num estado invulgar de conscientização - estado que eu era incapaz de me lembrar quando voltava ao normal.
Até aquele ponto minha conscientização tinha um inegável senso de continuidade, que eu acreditava ser o resultado da minha experiência de vida. Eu achava que era um todo e que podia ser responsável por tudo o que tinha feito. Sobretudo, estava convencido de que o centro daquela conscientização encontrava-se na minha cabeça. Contudo, Dom Juan me provou com seu soco que existe um centro na espinha, à altura das omoplatas, que é obviamente um local de intensificada conscientização.
Quando o questionei sobre a natureza daquele soco, Dom Juan explicou que o nagual é um líder que tem a responsabilidade de abrir os caminhos, e que deve ser impecável, a fim de passar a seus guerreiros um espírito de confiança e clareza. Só nessas circunstâncias o nagual se encontra na posição de aplicar o soco nas costas e forçar uma mudança de conscientização; pois é o poder do nagual que nos leva a fazer essa transição. Se o nagual não for um praticante impecável, não há mudança, como aconteceu quando eu tentei em vão fazer os aprendizes entrarem num estado de elevada conscientização batendo nas suas costas antes de nos aventurarmos a atravessar a ponte.
Perguntei a Dom Juan o que acontecia naquela mudança de conscientização. Ele disse que o nagual tem de aplicar o soco numa região precisa, que varia de pessoa para pessoa, mas que se localiza sempre na área geral das omoplatas. Um nagual deve “ver” a fim de determinar o ponto, localizada na periferia do corpo luminoso da pessoa e não no próprio corpo físico; uma vez identificado o local, ele mais empurra que bate, formando assim uma concavidade, uma depressão na casca luminosa. O estado de elevada conscientização que resulta desse soco dura enquanto a depressão permanece. Algumas cascas luminosas voltam à forma original por si só, outras têm de ser apertadas em outra região para retornarem ao normal, e outras ainda nunca voltam à forma de ovo.
Dom Juan explicou que os videntes vêem a conscientização como um brilho peculiar. A conscientização da vida diária é um brilho no lado direito, estendendo-se do corpo físico à periferia de nossa luminosidade. A elevada conscientização é um brilho mais intenso, associado a uma grande velocidade e concentração, brilho esse que satura a periferia do lado esquerdo.
Disse que os videntes explicam o que acontece com o soco do nagual como um deslocamento temporário de um centro localizado no casulo luminoso do corpo. As emanações da Águia são na realidade avaliadas e selecionadas para o uso desse centro. O soco desregula sua função normal.
Através de suas pesquisas, os videntes concluíram que os guerreiros devem ser colocados em estado de desorientação. A mudança na maneira com a qual a conscientização opera nessas condições torna esse estado um campo ideal para elucidar os comandos da Águia, permitindo que o guerreiro funcione como se estivesse com a conscientização da vida diária, com a diferença de poder focalizar tudo o que quiser com uma força e clareza sem precedentes.
Dom Juan falou que minha situação era semelhante à que ele próprio tinha experimentado. Seu benfeitor criou uma profunda divisão nele, fazendo-o trocar várias vezes da conscientização do lado direito para o esquerdo e vice-versa. A clareza e liberdade do seu lado esquerdo se opunham diretamente às racionalizações e defesas sem fim do lado direito. Disse que todo guerreiro é lançado nas profundezas dessa mesma situação que se molda por essa polaridade, e que o nagual cria e reforça essa divisão como um meio de liderar os aprendizes à convicção de que existe uma conscientização não exploradas pelos seres humanos.

1 - O que percebemos como "mundo" são os comandos (emanações) da Águia (ou o Mar Escuro da Consciência".
Dom Juan explicou que o mundo que percebemos não tem existência transcendental. Nossa familiaridade com ele nos leva a acreditar que o que percebemos é um mundo de objetos existentes exatamente como os percebemos, quando na verdade não há um mundo de objetos, mas sim um universo de emanações da Águia.
Essas emanações representam a única realidade imutável. É uma realidade que engloba tudo o que existe, o perceptível e o não-perceptível, o conhecível e o não-conhecível.
Os videntes que vêem as emanações da Águia chamam-nas de comandos por causa da sua força compulsória. Todas as criaturas vivas são compelidas a usar as emanações, e usam-nas sem nunca saberem o que elas significam. O homem padrão interpreta-as como realidade. E os videntes que vêem as emanações interpretam-nas como o regulamento.
Apesar dos videntes verem as emanações, não há um meio deles saberem o que estão vendo. Ao invés de se complicarem em conjeturas inúteis, os videntes entram numa especulação funcional de como os comandos da Águia podem ser interpretados. Dom Juan insistia em dizer que intuir uma realidade que transcende o mundo que percebemos fica no nível de conjetura; não é suficiente supor que os comandos da Águia são percebidos de uma vez só por todas as criaturas vivas da terra e que não há uma criatura que perceba igual à outra. Os guerreiros devem ter como objetivo presenciar o fluxo das emanações e “ver” como o homem e os outros seres vivos usam-nas para construir seu mundo perceptível.
Quando eu propus o uso da palavra "descrição" em vez de comandos da Águia, Dom Juan esclareceu que não estava construindo uma metáfora. Disse que a palavra "descrição" tem uma conotação de concordância do homem, e que o que percebemos deriva de um comando no qual a concordância do homem é deixada de fora.

2 - A atenção é o que nos faz perceber os comandos da Águia como a ação do "desnate".
Dom Juan disse que a percepção é uma faculdade física cultivada por todos os seres vivos da terra; nos seres humanos o resultado final é conhecido pelos videntes como "atenção". Acrescentou que qualquer tentativa de defini-la é perigosa, pois transforma uma realização mágica numa coisa comum. Descreveu a atenção como fisgar e canalizar a percepção. Disse que é a nossa maior realização individual, cobrindo toda a gama de alternativas e possibilidades humanas.
Fez uma distinção precisa entre alternativas e possibilidades As alternativas humanas são nossa capacidade de escolher como pessoas que funcionam dentro do seu meio social. Nosso raio de ação nessa esfera é bastante limitado. As possibilidades humanas são nossa capacidade de alcance como seres mágicos.
Desenvolveu um esquema classificatório de três tipos de atenção, enfatizando que chamá-los de "tipos" podia levar a dúvidas. São, na verdade, três níveis de conhecimento - a primeira, a segunda e a terceira atenção, cada uma com seu domínio independente, cada uma completa por si só.
Para um guerreiro nos estágios iniciais de treino, a primeira atenção é a mais importante das três. Dom Juan disse que suas proposições explicativas eram tentativas de trazer a um primeiro plano o modo pelo o qual a primeira atenção funciona, algo que passa completamente despercebido por nós. Considerava imperativo que os guerreiros compreendessem a natureza da primeira atenção se quisessem aventurar-se nas outras duas.
Explicou que para a primeira atenção lidar com os comandos da Águia ela foi ensinada a mover-se instantaneamente por um espectro completo das emanações da Águia, sem de qualquer forma dar importância a isso, a fim de alcançar as "unidades perceptíveis" que todos nós aprendemos a aceitar como perceptíveis. Essa realização da nossa primeira atenção é conhecida pelos videntes como "desnate" porque engloba a capacidade de afastar as emanações supérfluas e escolher as emanações a serem enfatizadas.
Dom Juan elaborou esse processo tomando como exemplo a montanha com que estávamos nos deparando naquele momento. Argumentou que a minha primeira atenção, quando eu olhava a montanha, tinha desnatado um infinito número de emanações, para obter um milagre de percepção, um desnate que é conhecido de todos os seres humanos porque cada um deles próprios o alcançou por si mesmo.
A argumentação dos videntes é que tudo o que a primeira atenção afasta a fim de obter um desnate não pode ser recuperado dela em nenhuma condição. Do momento em que aprendemos a perceber em termos de desnates, as emanações supérfluas deixam de ser registradas por nossos sentidos. Para elucidar esse ponto ele me deu como exemplo o desnate "corpo humano". Disse que nossa primeira atenção é completamente ignorante das emanações que formam a casca externa luminosa do nosso corpo físico; nosso casulo em forma de ovo não está sujeito à percepção; as emanações que o tornariam perceptível foram descartadas em favor daquelas que tornam possível à primeira atenção perceber o corpo físico como é conhecido por nós.
O objetivo perceptivo a ser atingido pelas crianças enquanto estão adquirindo maturidade, é aprender a isolar as emanações apropriadas a fim de ser capazes de canalizar a sua percepção caótica e transformá-la na primeira atenção; ao fazer isso aprendem a construir os desnates. Todos os seres humanos maduros que rodeiam as crianças ensinam-lhes como desnatar. Cedo ou tarde as crianças aprendem a controlar sua primeira atenção para perceber os desnates em termos semelhantes aos que seus mestres percebem.
Dom Juan ficava admirado com nossa capacidade de trazer ordem ao caos de percepção. Afirmava que cada um de nós, a nosso próprio modo, é um mágico magistral, e nossa magia consiste em impregnar de realidade os desnates que nossa primeira atenção aprendeu a construir. Nossa percepção em termos de desnates provém dos comandos da Águia, mas a percepção desses comandos como objetos provém do nosso poder, nosso Dom de mágica. Nosso erro, por outro lado, é que sempre acabamos sendo parciais ao esquecermos que nossos desnates são reais apenas no sentido de que os percebemos como reais, em virtude do poder que temos de fazer isso. Dom Juan chamava a isso erro de julgamento, que destrói em nós a riqueza de nossas origens misteriosas.

3 - Os desnates recebem significado do primeiro anel de poder.
Dom Juan disse que o primeiro anel de poder é a força que se desprende das emanações da Águia para agir exclusivamente na nossa primeira atenção. Explicou que foi descrita como "anel" devido ao seu dinamismo, seu movimento ininterrupto. Foi chamado de anel de "poder", primeiro por seu caráter obrigatório, e segundo por sua capacidade única de parar suas obras, mudá-las ou reverter sua direção.
Seu caráter obrigatório se faz ver melhor pelo fato de que não somente é premente à primeira atenção construir e perpetuar desnates, mas ela pede a concordância de todos os participantes. A concordância de reprodução fiel de desnates é exigida de todos nós, pois nossa concordância ao primeiro anel de poder tem de ser total.
É precisamente essa concordância que nos dá a certeza (errada) de que os desnates são objetos existentes como tal, independentes da nossa percepção. Além do mais, a obrigatoriedade do primeiro anel de poder não cessa depois da nossa concordância inicial, mas exige que renovemos continuamente tal concordância. Temos de operar durante toda a nossa vida, por exemplo, como se cada um de nossos desnates fosse perceptivamente o mesmo para todos os seres humanos, a despeito da língua e da cultura. Dom Juan admitia que a coisa é séria demais para ser vista como uma piada, mas que o caráter compulsório do primeiro anel de poder é tão intenso que nos força a crer que se uma "montanha" pudesse ter consciência própria, ver-se-ia como o desnate que aprendemos a construir.
Para os guerreiros, a característica mais válida do anel de poder é sua capacidade de interromper seu fluxo de energia ou de pará-lo completamente. Dom Juan disse que é uma capacidade latente que existe em todos nós como uma unidade de cópia (backup). Em nosso mundo estreito de desnates não há necessidade de ser usada. Como nos apoiamos e defendemos com a rede da primeira atenção, não temos consciência de que possuímos recursos ocultos do qual nem suspeitamos. Se uma escolha alternativa nos é apresentada, tal como a opção do guerreiro em utilizar a segunda atenção, a capacidade latente do primeiro anel de poder pode ser posta em funcionamento com resultados espetaculares (NR: e não “falhos”, conforme traduzido!!!).
Dom Juan enfatizou que o processo envolvido em ativar essa capacidade latente é a maior realização do feiticeiro; é chamado de bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Explicou que as emanações da Águia, que já foram isolados pela primeira atenção para construir o mundo da vida diária, exercem uma inflexível pressão sobre a primeira atenção. Para que essa pressão cesse de agir, é preciso que seja deslocada. Os videntes chamam a isso interrupção ou parada do primeiro anel de poder.

4 - "Intento" é a força que move o primeiro anel de poder.
Dom Juan explicou que o intento não se refere a ter uma intenção, ou a querer uma coisa ou outra, mas a uma força imponderável que faz com que tenhamos atitudes que podem ser descritas como intenção, desejo, volição, e assim por diante. Don Juan não a definiu como uma condição de ser, vinda de si próprio, produzida por socialização ou reação biológica, mas sim como uma força particular, íntima, que possuímos e usamos individualmente como uma chave que faz com que o primeiro anel de poder se mova de formas aceitáveis. O intento é o que dirige a primeira atenção a focalizar qualquer das emanações da Águia dentro de um certo âmbito. E o intento é também o que comanda o primeiro anel de poder a interromper ou parar fluxo de energia dele.
Dom Juan sugeriu que eu pensasse no intento como numa força invisível que existe no Universo, desconhecida de si própria (?) e ainda assim agindo sobre tudo - força que cria e mantém os desnates.
Afirmou que os desnates devem ser recriados incessantemente, a fim de serem impregnados de continuidade. Para recriá-los toda vez com o frescor necessário para formar um mundo vivo, temos de intentá-los toda vez que os construímos. Por exemplo, temos de intentar a "montanha" em toda sua complexidade para o desnate ser completamente materializado. Disse que para um observador, comportando-se puramente na base da primeira atenção, sem a interferência do intento, a "montanha" pode parecer um desnate inteiramente diferente. Pode talvez parecer um desnate "forma geométrica" ou "mancha amorfa de coloração". Para que o desnate "montanha" seja completo, o observador tem de intentá-lo, quer involuntariamente, através da força compulsória do primeiro anel de poder, quer deliberadamente, através do treino do guerreiro.
Ele salientou três modos pelos quais o intento vem a nós. 
* O primeiro e mais comum é conhecido pelos videntes como "intento do primeiro anel de poder". É um intento cego que nos vem puramente ao acaso. É como se tivéssemos sido postos em seu caminho, ou como se o intento tivesse sido posto no nosso. Inevitavelmente nos encontramos presos em suas malhas sem termos a menor idéia do que está nos acontecendo.
* O segundo meio de nos depararmos com o intento é quando ele nos vem por sua própria conta. Isso exige um grau considerável de determinação, um senso de propósito da nossa parte. Só com nossa capacidade de guerreiros conseguimos nos colocar voluntariamente no caminho do intento, acenar para ele, por assim dizer. Dom Juan explicou que sua insistência em ser um guerreiro impecável nada mais era que um esforço de deixar o intento saber que ele estava se colocando no seu caminho.
Dom Juan dizia que os guerreiros chamam a esse fenômeno "poder". Então, quando falam em ter poder pessoal, referem-se ao fato de o intento chegar a eles por sua própria conta. O resultado disso, dizia ele, podia ser descrito como uma facilidade em encontrar novas soluções - ou a facilidade em causar efeitos nos acontecimentos ou nas pessoas. É como se as possibilidades desconhecidas previamente pelos guerreiros se tornassem evidentes de repente. Assim, um guerreiro impecável nunca planeja nada antes do tempo, mas seus atos são tão decisivos que parecem ter sido planejados detalhadamente de antemão.
* O terceiro meio de encontrarmos o intento é o mais raro e o mais complexo dos três; acontece quando o intento nos permite que nos adaptemos a ele. Dom Juan descrevia aquele estado como o verdadeiro momento de poder - a culminação de uma luta interminável pela impecabilidade. Só os guerreiros supremos o atingem, e enquanto permanecem nesse estado o intento permite que eles a manipulem à vontade. É como se o intento tivesse se fundido naqueles guerreiros, e ao fazer isso os tivesse transformado numa força pura e ilimitada. Os videntes chamavam a esse estado "intento do segundo anel de poder", ou "vontade".

5 - O primeiro anel de poder pode ser detido por um bloqueio funcional da capacidade de construir desnates.
Dom Juan disse que a função dos não-fazeres é criar uma obstrução na focalização habitual da nossa primeira atenção. Os não fazeres são, nesse sentido, manobras designadas a preparar a primeira atenção para o bloqueio funcional do primeiro anel de poder, ou em outras palavras, a interrupção do intento.
Ele explicou que esse bloqueio funcional, o único método de utilizar sistematicamente a capacidade latente do primeiro anel de poder é uma interrupção temporária que o benfeitor cria na capacidade de construir desnates dos seus discípulos. É uma  premeditada e poderosa intromissão artificial, à primeira atenção, designada para empurrá-la além das aparências dos conhecidos desnates; uma intromissão conseguida por meio da obstrução do intento do primeiro anel de poder.
Disse que para levar a cabo essa interrupção o benfeitor trata o intento como um processo, como se ela fosse um fluxo, uma corrente de energia que pode eventualmente ser cessada ou ser reorientada. A visou repetidas vezes que se tem de reconhecer que uma interrupção dessa natureza é um choque de tal magnitude que pode forçar o primeiro anel de poder a parar completamente a qualquer hora; é impossível concebermos tal situação nas nossas condições normais de vida. É inconcebível que possamos des-andar os passos que demos ao consolidarar nossa percepção, mas é viável que sob o impacto dessa interrupção possamos ser colocados numa posição perceptiva muito semelhante aos nossos inícios, quando os comandos da Águia eram emanações que ainda não tínhamos impregnado de significado.
Dom Juan costumava dizer que qualquer procedimento que o benfeitor pudesse usar para criar essa interrupção devia ser intimamente ligado com o seu poder pessoal. Portanto , um benfeitor não usa nenhum processo para manipular o intento, mas sim o move e o faz utilizável pelo aprendiz através do seu poder pessoal.
Em meu caso, Dom Juan atingiu o bloqueio funcional do primeiro anel de poder por meio de um processo complexo, uma combinação de três métodos: a ingestão de plantas alucinógenas; a manipulação do corpo; a manipulação do intento.
No início apoiou-se muito na ingestão de plantas alucinógenas, aparentemente em vista da inflexibilidade do meu lado racional. O efeito delas foi tremendo, mas ainda assim retardou a interrupção que ele procurava. O fato daquelas plantas serem alucinógenas fez com que minha razão aceitasse reunir todos seus recursos disponíveis e continuasse mantendo as rédeas do controle. Fiquei convencido de que podia explicar com lógica tudo o que estava sentindo, juntamente com as proezas inconcebíveis que Dom Juan e Dom Genaro costumavam realizar, para criar as interrupções, como distorções perceptivas causadas pela ingestão dos alucinógenos. Por outro lado, contudo, não havia meio possível de eu poder ter escapado ao efeito do bloqueio do primeiro anel de poder, que Dom Juan tinha programado atingir.
Dom Juan disse que o efeito mais notável das plantas alucinógenas era o que eu interpretava, sempre que as ingeria, como uma sensação peculiar de que tudo à minha volta exsudava uma extraordinária riqueza. Via cores, formas, detalhes que nunca tinha visto antes. Ele utilizou essa condição da minha habilidade elevada de perceber, e com uma série de ordens e comentários me forçou a um estado de agitação nervosa. Ele então manipulou meu corpo e me fez trocar a conscientização da direita para a esquerda e vice-versa, até criar visões fantasmagóricas ou cenas extremamente reais com criaturas em três dimensões que positivamente não podiam existir no mundo.
Explicou que quando a relação entre nosso intento e os desnates que construímos é quebrada, nunca mais pode ser restaurada. Daí por diante adquirimos a capacidade de captar uma corrente de que ele denominava "intento fantasma", ou o intento dos desnates  que não estão presentes no momento ou lugar da interrupção, mas que tornam o intento deles acessível a nós, através de algum aspecto da memória.
Afirmou que com a suspensão do intento do primeiro anel de poder nós nos tornamos receptivos e maleáveis; o nagual pode então introduzir o intento do segundo anel de poder. Ele estava convencido de que as crianças têm uma posição de receptividade semelhante; sendo desprovidas de intento, elas estão prontas a serem marcadas com qualquer intento que seus mestres lhes dêem.
Depois de um período de ingestão contínua de plantas alucinógenas, Dom Juan cortou totalmente o uso delas. Atingiu, no entanto, maiores interrupções em mim ao manipular meu corpo e me fazer mudar os estados de conscientização, juntamente com manobras do intento. Para aquele efeito ele usava quaisquer fenômenos capazes de apagar perceptivamente os limites delineados dos desnates, tais como chuva, relâmpago, crepúsculo e escuridão. Através de uma combinação de comandos hipnotizadores (e comentários adequados), ele criava uma corrente de “intento fantasma” e eu era levado a sentir os desnates familiares como coisas inconcebíveis, que só eu estava presenciando, sem a concordância de qualquer outra pessoa da terra.  Ele definiu isso como “uma rápida olhada na imensidão da Águia”.
Dom Juan explicou que a concordância que temos um com o outro sobre a existência de nossos desnates, além de ser uma combinação, é também um elo de associação. Esse elo é baseado no caráter compulsório do primeiro anel de poder. Exigindo uma concordância nossa em relação à construção fiel dos desnates, o primeiro anel de poder cria em nós não só a certeza de que esses desnates são objetos como também nos dá a certeza de que esses desnates são absolutamente homogêneos entre os membros da nossa espécie. Esse elo de associação não precisa ser reiterado. Uma vez convencidos de sua existência, ele se torna uma base de apoio para nós durante toda nossa vida.

Dom Juan me guiou magistralmente através de inúmeras interrupções do intento, até que eu? fiquei convencido, como vidente, que meu corpo mostrava o efeito do bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Ele disse que podia ver uma capacidade invulgar no meu casulo em forma de ovo, em volta da região das minhas omoplatas. Descreveu-a como uma rugosidade que se formava exatamente como se a casca de luminosidade fosse um lençol de músculo sendo contraído pelos nervos.
Para mim, o efeito do bloqueio funcional do primeiro anel de poder era conseguir apagar a certeza que eu tinha tido toda a vida de que o que meus sentidos percebiam era "real". Entrei tranqüilamente num estado de silêncio interior. Dom Juan disse que o que dá aos guerreiros aquela extrema falta de confiança que seu benfeitor sentiu no fim da vida, aquela resignação à derrota que ele próprio estava sentindo, é o fato de que apenas uma olhadela na imensidão da Águia, já nos deixa sem esperança. A esperança é o resultado de nossa familiaridade com nossos desnates e a idéia de que podemos controlá-los. Em tais momentos só o caminho dos guerreiros pode nos fazer persistir em nosso esforço de descobrir o que a Águia ocultou de nós, mas sem esperança de jamais compreender o que descobrirmos.

6 – A segunda atenção (NR: este título foi suprimido na edição em português)
Dom Juan explicou que o exame da segunda atenção devia começar com a constatação de que essa força do primeiro anel de poder que nos encaixota é uma concreta fronteira física. Os videntes descreveram-na como uma parede de névoa, uma barreira que pode ser sistematicamente levada à nossa conscientização por meio do bloqueio do primeiro anel de poder; então pode ser penetrado através do treino do guerreiro.
Ao penetrar na parede de névoa, entra-se num extenso estado intermediário. A tarefa dos guerreiros é atravessá-la até alcançar outra linha limite, que têm de penetrar a fim de entrarem em o que é propriamente o outro “si mesmo” ou a segunda atenção.
Dom Juan disse que ambas as linhas limites são perfeitamente distinguíveis. Quando os guerreiros penetram na parede de névoa sentem que seus corpos estão sendo apertados, ou sentem um intenso tremor dentro da cavidade de seus corpos, basicamente à direita do estômago ou pelo meio do corpo, da direita para a esquerda. Quando perfuram a segunda linha, sentem um estalo agudo na parte superior do corpo, como o som de um pequeno galho seco sendo partido em dois.
As duas linhas que limitam as duas atenções e as selam individualmente são conhecidas pelos videntes como linhas paralelas. Selam as duas atenções porque se estendem até o infinito, nunca permitindo uma travessia, a não ser se forem perfuradas.
Entre as duas linhas há uma área de conscientização específica, que os videntes chamam de limbo ou mundo entre as linhas paralelas. É um espaço real entre dois enormes âmbitos de emanações da Águia, emanações essas que estão dentro das possibilidades de conscientização do homem. Um é o âmbito que forma o eu da vida diária, e o outro é o âmbito que forma o outro eu. Como o limbo é uma área de transição, os dois âmbitos de emanações se sobrepõem lá. A fração do âmbito com o qual estamos familiarizados, que se estende sobre aquela área, prende uma orla de nosso primeiro anel de poder; sua capacidade de construir desnates nos força a perceber uma quantidade de desnates que são quase iguais aos da nossa existência diária, só que parecendo bizarros e torcidos. Assim, o limbo tem características específicas que não mudam arbitrariamente cada vez que se entra lá. Há nele características físicas que se assemelham ao que consideramos aspectos físicos nos desnates da nossa vida diária.
Dom Juan afirmou que a sensação de peso que se sente no limbo é devido à carga crescente colocada na nossa primeira atenção. Na área posterior à parede de névoa, ainda podemos nos comportar como nós mesmos; é como se estivéssemos num mundo grotesco porém ainda reconhecível. À medida que nos aprofundamos para longe da parede de névoa, torna-se progressivamente mais difícil reconhecer seus aspectos ou comportar-se em termos familiares a nós mesmos.
Explicou que a parede de névoa podia se parecer com qualquer outra coisa, mas que os videntes optaram por acentuar a que consome menos energia; visualizá-la como uma parede de névoa não envolve esforço algum.
O que existe além da segunda linha limite é conhecido pelos videntes como o outro eu, ou o mundo paralelo; e o ato de penetrar através de ambos os limites é conhecido como "cruzar as linhas paralelas".
Dom Juan achava que eu captaria esses conceitos com mais firmeza se descrevesse cada esfera de conscientização como uma específica predisposição de percepção. Disse que na esfera da conscientização da vida diária estamos indissoluvelmente emaranhados nas tendências perceptivas da primeira atenção. Do momento em que o primeiro anel de atenção começa a construir os desnates, o modo de construí- los se torna nossa tendência normal de percepção. Quebrar a força que ata a tendência perceptiva da primeira atenção é quebrar a primeira linha limite. Nossa tendência perceptiva normal então passa para a área intermediária entre as linhas paralelas. Continua-se a construir desnates quase normais por algum tempo. Mas quando se aproxima do que os videntes chamam de segunda linha limite, a tendência perceptiva da primeira atenção começa a diminuir, perdendo a força. Dom Juan disse que essa transição é marcada por uma súbita incapacidade de lembrar ou de perceber, através do auto-exame, o que se está fazendo.
Quando a segunda linha limite é alcançada, o outro eu começa a agir sobre os guerreiros que estão fazendo a viagem. Se são inexperientes, sua consciência fica vazia. Dom Juan afirmou que isso acontece porque eles se aproximam de um espectro das emanações da Águia que ainda não tem uma tendência perceptiva sistematizada para eles. Minhas experiências com La Gorda e a mulher nagual além da parede de névoa foram um exemplo dessa incapacidade. Viajei para o outro eu mas não pude dar conta do que tinha feito, simplesmente porque minha segunda atenção ainda estava sem formulação e não me permitiu lidar com coisa alguma que tinha percebido.
Dom Juan explicou que se começa a conquistar o segundo anel de poder forçando a segunda atenção a acordar de sua dormência. O bloqueio funcional do primeiro anel de poder realiza isso. Então a tarefa do mestre é recriar a condição que lançou o primeiro anel de poder, a condição de ser saturado de intento. O primeiro anel de poder foi colocado em movimento pela força da intento, que nos foi dada por quem nos ensinou como desnatar. Como meu mestre, ele estava me dando então um novo intento que iria criar um novo ambiente perceptual.
Dom Juan disse que se leva toda uma vida de disciplina incessante, que os videntes chamam de intento inflexível, para preparar o segundo anel de poder a construir desnates vindos do outro âmbito das emanações da Águia. Aperfeiçoar a tendência perceptiva do eu paralelo é uma proeza de valor incomparável que poucos guerreiros realizam. Silvio Manuel era um desses poucos.
Dom Juan aconselhou-me a não tentar deliberadamente aperfeiçoar isso. Se viesse a acontecer, seria um processo natural que se desenvolveria sem grande esforço. Explicou que a razão dessa quase indiferença reside na consideração prática de que aperfeiçoar essa tendência faz com que se torne mais difícil quebrá-la, pois a meta dos guerreiros é a capacidade de quebrar as duas tendências perceptivas a fim de entrar na terceira atenção".

domingo, 18 de março de 2012

O Desnate - O mistério da Percepção desvendado

Você já deve ter percebido que todas as tradições autênticas de busca interior, entre elas o budismo, o hinduismo, o cristianismo, falam, com diferentes nuances, que o mundo é uma ilusão, uma criação da nossa mente, e por aí afora. Afirmam que a realidade não é vista diretamente por nós humanos, algo assim como um aquário onde colocaram um corante na água e o peixinho diz: “O mundo é azul”...
O cinema engajado na busca interior já percebeu isso e produziu filmes e séries muito interessantes sobre o tema, como Matrix, O Show de Truman, Cidade das Sombras e outros.
A gente então, para não encrencar logo de saída, pode até aceitar que o que chamamos de realidade, ou de mundo, é um “produto de segunda mão”, uma interpretação da “verdadeira realidade”.  Mas esse aceitar soa mais como uma adesão gratúita, um "aceitar por aceitar", porque a rigor aí tem um problema, um ponto obscuro: como funciona esse processo pelo qual a realidade é escamoteada de nós? Como é exatamente que a gente é enganado? Ninguém explica isso direito.
Vamos então tentar explicar segundo a visão dos videntes toltecas que há muitos milhares de anos atrás esclareceram o mistério melhor que a Psicologia atual, que somente agora começou a arranhar a superfície da coisa.
Antes disso, como já acenamos de passagem em algumas postagens anteriores como O Mar Escuro da Consciência, temos que dar uma breve visão geral de alguns conceitos que formam o universo dessa incrí vel e milenar tradição. Vamos ver o que diziam os toltecas:
•    Há duas forças universais, de criação e destruição, atuando a cada instante eternamente. Uma faz, outra desfaz.
 
•    Então, a função de qualquer ser vivo é gerar Consciência para alimentar essa fonte eterna de energia inteligente chamada de O Mar Escuro da Consciência, senão ela acaba. 
•    Visto pelos xamãs e videntes toltecas, em estados alterados de consciência, O Mar Escuro da Consciência se mostra como uma incomensurável Águia.
•    Essa fonte produz emanações (chamadas “comandos da Águia”) que sustentam a vida de tudo o que há no Universo, mas na hora da morte Ela pede de volta a Consciência que foi produzida pelos seres vivos, na sua passagem pelos mundos. Ela dá Vida e cobra a Consciência obtida. Justo, não? Você pensou que viver era de graça?...
•    As emanações (Gurdjieff as chama de impressões - "sem as quais não vivemos sequer um segundo") que chegam aos seres vivos são caóticas, pois vem de uma dimensão profunda, fora do tempo e espaço do cosmos, fora da mente racional, e quem as vislumbrasse diretamente não entenderia nada ou poderia ficar louquinho. As ervas usadas pelos xamãs em rituais tem o poder, entre outras coisas, de dar ao iniciante uma visão desse intrigante caos, como forma de quebrar a ditadura da mente racional que insiste em que o mundo é só esse mundo visto pelos 5 sentidos. Foi assim que Don Juan fez com Castaneda, que tomou peyote e mescalito, mas somente para "quebrar" seu mental teimoso e cristalizado. Não era para dar nenhum "barato".
•    A Águia nos deu a Razão, uma ferramenta para organizar o caos e torná-lo compreensível nessa dimensão em que estamos, mas a Razão não entende o caos. Ela precisa de um filtro que traduza e interprete as emanações “em estado bruto”, tornando-as familiares a nós.
•    Às emanações filtradas e interpretadas, nós chamamos de mundo, coisas, objetos, pensamentos, sensações, emoções, sentimentos, realidade, universo, ou lá o que seja.
•    O processo de filtrar a realidade era chamado pelos toltecas de “desnate”, pois é exatamente como fazemos com o leite fervido para tirar a nata e deixá-lo bonitinho e estéticamente aceitável e agradável. É assim que nos ensinam a fazer com a impressões que nos chegam, transformando-as no mundo familiar que conhecemos.
•    Uma vez que uma impressão qualquer foi “desnatada” quando chegou, nunca mais vamos percebê-la originalmente como era. Só como ficou de aí por diante.
•    A Percepção acontece fora do nosso corpo físico, mas ainda dentro do invólucro maior que é o nosso corpo energético. Ela ocorre dentro de uma esfera luminosa do tamanho de uma bola de tênis que fica nas costas do ovo luminoso que envolve nosso corpo, na altura da omoplata. Esse ovo é o nosso corpo energético.
 
•    Existem 3 atenções, 3 níveis de talento, cada uma com seu domínio independente, completas por si só. Esse processo do desnate se dá na primeira atenção, que é a habitual do dia a dia, a única que conhecemos. A segunda é a atenção intensificada dos xamãs, homens de conhecimento, e que às vezes pressentimos, mas logo descartamos. A terceira, raríssima, é a atenção unificada pelo fogo interior, que acende todas as emanações da Águia presentes no ovo luminoso do ser, e o transforma em energia sem deixar vestígios. (As tradições registram casos conhecidos do fenômeno)

Muito bem. Definidos os conceitos, vamos à operação. (Está parecendo apresentação de negócios. - rsrs)
Cena: Somos ainda bebes. Chega à nossa percepção uma emanação qualquer vinda das profundezas da Consciência (impressão de qualquer tipo nos cinco sentidos conhecidos - mais outros sentidos que sequer conhecemos). Nós nos maravilhamos. Ato contínuo, chega alguém, o pai, a mãe, professor, padre, rabino, pastor, sei-lá-quem (o mundo está cheio de ajudantes e mestres generosos e dedicados) e prontamente, com a maior das boas intenções, define a complexa emanação de uma maneira rasteira como ele ou ela mesmo aprendeu pelo processo de socialização da chamada "educação": em geral ele ou ela dá um nome à coisa, ou esconde “porque é feio”, ou descarta, ou “enfeita o pavão”. Pronto. Rotulou. Desnatou. Fechou o assunto. Na próxima vez que a emanação se apresentar, a vítima já está vendo a impressão “desnatada”. Não é mais a mesma emanação original, mas um subproduto falsificado da Realidade. A vítima então já é um sócio, já pertence ao clube, que é toda a humanidade socializada, que enxerga tudo padronizado como vimos em Matrix e nos outros 2 filmes. Você é um deles. Tristeza, não? Mas tem que ser assim... O personagem do filme, Neo (novo ser) é cada um de nós, com a vocação de sair dessa.

 O que é então esse desnate? É o filtro da Realidade. É o que a transforma numa interpretação falseada dela mesma.
É esse processo que chamamos ingenuamente de Aprendizado, Educação... Para nos reconectarmos mais tarde com a Realidade, temos que desaprender tudo com muito esforço e dedicação. Bota esforço nisso.
Vamos abaixo relatar uma manobra soberba de dois exímios xamãs, Don Juan e Don Genaro, manipulando a percepção do aprendiz Castaneda, para mostrar o que era uma impressão antes do “desnate”, ou seja, como era o mundo das emanações, dos comandos da Águia antes de a filtragem do aprendizado “interpretar” a Realidade: como é que era primordialmente, por exemplo, a complexa emanação original chamada por nós (depois de interpretada) de o sol, a árvore, o chão, etc, e cuja percepção, antes do desnate, demandava todo o nosso ser integralmente, todos os sentidos conhecidos ou não, e não somente um deles como fazemos habitualmente. 

Até aqui, tudo bem? Todos a bordo? Então vamos nessa:

"- Dom Juan aproximou-se mais de mim. Inclinou-se e cochichou em meu ouvido direito.
Dom Genaro também se inclinou para mim e cochichou em meu ouvido esquerdo.

Ficaram sussurrando em meus ouvidos até eu ter a sensação de estar sendo dividido ao meio. Tornei-me uma névoa, como na véspera, um brilho amarelo que sentia tudo diretamente. Isto é, eu podia saber as coisas. Não se tratava de pensamentos; só havia certezas. E quando entrei em contato com uma sensação suave, esponjosa, saltitante, que ficava fora de mim e no entanto era parte de mim, eu sabia que era uma árvore. Senti que era uma árvore pelo cheiro. Não tinha o cheiro de nenhuma árvore específica de que eu me lembrasse, e não obstante alguma coisa dentro de mim sabia que aquele odor especial era a essência da árvore. Não tinha apenas a impressão de saber, nem raciocinei sobre meu conhecimento, nem remexi com indícios. Simplesmente sabia que havia ali alguma coisa em contato comigo, em volta de mim, um cheiro amigo, quente e compulsivo emanando de algo que não era nem sólido nem líquido, e sim algo diferente, indefinido, que eu sabia ser uma árvore. Senti que sabendo dela desse jeito eu estava tocando em sua essência. Não me sentia repelido por ela. Ao contrário, ela me convidava para me fundir com ela. Engolfava-me, ou eu a engolfava. Havia um laço entre nós que não era nem maravilhoso nem desagradável.
A sensação seguinte de que pude me lembrar com clareza foi uma onda de assombro e exultação. Em mim, tudo vibrava. Era como se me atravessassem cargas de eletricidade. Não eram dolorosas. Eram agradáveis, mas de uma forma tão indeterminada que não havia meio de classificá-las. Não obstante, eu sabia que aquilo com que eu estava em contato era o solo. Uma parte de mim reconhecia com uma certeza precisa que era o solo. Mas no momento em que tentei distinguir a infinidade de percepções diretas que eu estava tendo, perdi toda a capacidade de diferenciar minhas percepções.
Aí, de repente, eu era eu mesmo outra vez. Estava pensando. Foi uma transição tão abrupta que pensei que eu tinha acordado. No entanto, havia algo em meu modo de sentir que não era bem eu. Eu sabia que realmente faltava alguma coisa antes mesmo de abrir bem os olhos. Olhei em volta. Ainda estava num sonho, ou tendo alguma visão. Meus processos mentais, porém, não só estavam afetados, como eram extraordinariamente claros. Fiz uma avaliação rápida. Eu não tinha dúvidas de que Dom Juan e Dom Genaro tinham provocado meu estado de sonho com um  propósito específico em mente. Eu parecia estar a ponto de compreender qual era esse propósito quando algo estranho a mim obrigou-me a prestar atenção ao que me cercava. Levei tempo para me orientar. Eu estava deitado de bruços, e num chão espetacular. Examinando-o, não pude deixar de sentir assombro e admiração. Não consegui imaginar de que fosse feito. Placas irregulares de alguma substância desconhecida tinham sido colocadas de um modo muito complexo e ao mesmo tempo simples. Tinham sido postas juntas, mas não estavam pregadas no chão nem umas nas outras. Eram elásticas e cediam quando eu tentava afastá-las com meus dedos, mas quando as soltava, voltavam logo a sua posição original.
Tentei levantar-me e fui preso da mais absurda distorção sensorial. Eu não tinha controle sobre meu corpo; na verdade, meu corpo nem parecia me pertencer. Era inerte; eu não tinha ligação com nenhuma de suas partes e, quando tentei levantar-me, não consegui mexer os braços e fiquei me contorcendo indefeso, de barriga para baixo, rolando de lado. O impulso de minhas contorções quase me fez dar uma volta completa, tornando a ficar de bruços. Meus braços e pernas esticados me impediam de virar-me e fui parar de costas. Nessa posição, vi de relance duas pernas de forma estranha e os pés mais distorcidos que jamais vira. Era o meu corpo!
Eu parecia estar envolto numa túnica. A idéia que me veio à mente foi que eu estava experimentando uma cena de mim mesmo como aleijado ou inválido. Tentei curvar as costas e olhar para minhas pernas, mas só conseguia sacudir o corpo. Estava olhando para um céu amarelo, um céu de um amarelo-limão, forte e profundo. Ele tinha fendas ou canais de um tom amarelo mais profundo e uma porção de protuberâncias penduradas como pingos d’água. O efeito total daquele céu incrível era arrasador. Eu não conseguia saber se as protuberâncias eram nuvens. Havia ainda zonas de sombras e zonas de diferentes tons de amarelo, que fui descobrindo ao mexer a cabeça de um lado para o outro.
Aí alguma outra coisa atraiu a minha atenção: um sol no zênite mesmo do céu amarelo, bem sobre minha cabeça, um sol fraco a julgar pelo fato de eu poder olhar para dentro dele - que lançava uma luz calmante, branca e uniforme.
Antes de ter tempo de ponderar sobre todas essas visões extraterrenas, fui violentamente sacudido; minha cabeça pulava para diante e para trás. Senti que estava sendo erguido. Ouvi uma voz estridente e risadas e defrontei-me com um espetáculo realmente espantoso: uma mulher gigantesca, descalça. A cara dela era redonda e enorme. Seus cabelos negros estavam cortados no estilo pajem. Tinha braços e pernas gigantescos. Pegou-me e levantou-me, pondo-me em seus ombros, como se eu fosse um boneco. Meu corpo estava flácido. Olhei pelas costas dela. Tinha uma penugem fina em volta dos ombros e pela espinha abaixo. Olhando para baixo, dos ombros dela, tornei a ver aquele chão maravilhoso. Eu o ouvia ceder, elástico, sob o peso imenso dela e via as marcas de pressão que seus pés deixavam nele.
Ela me largou de bruços defronte de uma estrutura, uma espécie de prédio. Aí notei que havia algo de errado com a minha percepção de profundidade. Não consegui avaliar o tamanho do prédio, olhando para ele. Em certos momentos, parecia ridiculamente pequeno, mas depois que eu, aparentemente, ajustei minha percepção, fiquei realmente maravilhado com suas proporções monumentais.
A moça gigantesca sentou-se a meu lado e fez o chão ranger. Eu estava encostado a seu joelho imenso. Ela tinha cheiro de bala ou morangos. Falou comigo e eu entendi tudo o que ela disse; apontando para a estrutura, ela me afirmou que eu ia morar ali.
Meus poderes de observação pareceram aumentar, quando venci o choque inicial de me encontrar naquele local. Reparei então que o prédio tinha quatro lindas colunas não funcionais. Nada sustentavam; estavam em cima do prédio. Sua forma era a simplicidade total; eram projeções longas e graciosas, que pareciam se estar estendendo até aquele céu assombroso, incrivelmente amarelo. O efeito daquelas colunas invertidas era de pura beleza para mim. Tive um acesso de êxtase estético.
As colunas pareciam ter sido feitas de um só bloco; eu não podia nem conceber como. As duas colunas da frente estavam ligadas por uma trave fina, uma barra de comprimento monumental, que, pensei, podia ter servido como parapeito ou de varanda.
A moça gigantesca me fez deslizar de costas para dentro da estrutura. O telhado era negro e plano, coberto de furos simétricos, que deixavam passar o brilho amarelado do céu, criando os desenhos mais complicados. Fiquei realmente assombrado com a completa simplicidade e beleza alcançadas por aqueles pingos de céu amarelo aparecendo por aqueles furos precisos no telhado e os desenhos de sombras que eles criavam naquele chão magnífico e complicado. A estrutura era quadrada e, fora de sua beleza tocante, ela me era incompreensível.
Meu estado de exaltação era tão intenso naquele momento que tive vontade de chorar, ou de ficar ali para sempre. Mas alguma força, ou tensão, ou algo de indefinível começou a me puxar. De repente, vi que estava do lado de fora da estrutura, ainda deitado de costas. A moça gigantesca se encontrava lá, mas com ela havia outra criatura, uma mulher tão grande que chegava até o céu e tapava o sol. Comparada com ela, a moça gigantesca não era mais que uma menininha. A mulher grande estava zangada; agarrou a estrutura por uma de suas colunas, levantou-a, virou-a de pernas para o ar e largou-a no chão. Era uma cadeira!
Aquela percepção foi catalisadora; desencadeou percepções arrasadoras. Passei por uma série de imagens desconexas, mas que podiam figurar como uma seqüência. Em lampejos sucessivos, vi ou percebi que o piso magnífico e incompreensível era uma esteira de palha; o céu amarelo era o teto de estuque de um quarto: o sol, uma lâmpada; a estrutura que provocara tal êxtase em mim era uma cadeira que uma criança virara de pernas para o ar para brincar.
Tive mais uma visão coerente e em seqüência de outra estrutura arquitetônica misteriosa de proporções monumentais. Ela estava isolada. Parecia quase a concha de uma lesma pontuda com a cauda levantada. As paredes eram feitas de placas côncavas e convexas de um material estranho e roxo; cada placa apresentava fendas que pareciam mais funcionais que ornamentais.
Examinei a estrutura meticulosamente em seus detalhes e descobri que, como no caso anterior, ela era completamente incompreensível. Esperava de repente ajustar minha percepção para revelar a verdadeira natureza da estrutura. Mas nada aconteceu a esse respeito. Tive então um aglomerado de consciências ou descobertas alheias e emaranhadas quanto ao prédio e sua função, que não faziam sentido, pois eu não tinha um padrão de referência para elas.
Recuperei minha consciência normal de repente. Dom Juan e Dom Genaro estavam a meu lado. Eu me senti cansado. Procurei meu relógio; tinha sumido. Dom Juan e Dom Genaro riram-se em coro. Dom Juan disse que eu não devia estar preocupando-me com a hora e sim concentrar-me em seguir certas recomendações que Dom Genaro me fizera.
Virei-me para Dom Genaro e ele disse uma piada - a recomendação mais importante era que eu aprendesse a escrever com o dedo, para economizar os lápis e para me exibir.
Eles ainda implicaram mais um pouco comigo por causa de minhas anotações e depois eu fui dormir.
Dom Juan e Dom Genaro escutaram o relato detalhado de minha experiência, que lhes dei a pedido de Dom Juan, depois que acordei no dia seguinte.
- Genaro acha que você já fez bastante, por enquanto – disse Dom Juan, quando terminei.
Dom Genaro concordou, com um meneio.
- Qual o significado do que experimentei ontem à noite? Perguntei.
- Você teve uma visão da coisa mais importante da feitiçaria - explicou Dom Juan. - Ontem à noite você espiou a totalidade de você. Mas naturalmente isso é uma coisa sem sentido para você, neste momento. Obviamente, chegar à totalidade de seu ser não depende de seu desejo de concordar, nem da disposição de aprender. Genaro acha que seu corpo precisa de tempo para deixar que os sussurros do nagual penetrem você.
Dom Genaro tornou a balançar a cabeça.
- Muito tempo - disse ele, sacudindo a cabeça para cima e para baixo. - Uns 20 ou 30 anos, talvez.
Não sabia como reagir. Olhei para Dom Juan, buscando indicações. Os dois estavam sérios.
- Preciso mesmo de 20 ou 30 anos? - perguntei.
- Claro que não! - gritou Dom Genaro, e os dois caíram na gargalhada.
Dom Juan disse que eu devia voltar sempre que minha voz interior me mandasse, e que enquanto isso devia procurar concatenar, todas as sugestões que eles tinham feito enquanto eu estava dividido.
- E como vou fazer isso? - perguntei.
- Desligando seu diálogo interno e deixando alguma coisa em você fluir e expandir-se - disse Dom Juan. - Essa coisa é a sua percepção, mas não procure decifrar o que quero dizer. Apenas deixe que os sussurros do nagual o guiem.
Aí ele disse que na noite anterior eu tivera duas séries de visões intrinsecamente diferentes. Uma era inexplicável, a outra, perfeitamente natural, e a ordem em que tinham ocorrido mostrava uma condição que é intrínseca a todos nós.
- Uma foi o nagual, a outra, o tonal - acrescentou Dom Genaro.
Pedi que ele explicasse essa declaração. Ele me olhou e me deu um tapinha nas costas.
Dom Juan interveio e disse que as duas primeiras visões eram o nagual e que Dom Genaro escolhera uma árvore e o solo como os pontos de ênfase. As duas outras eram visões do tonal, que ele próprio escolhera; uma delas era minha percepção do mundo como criança.
- Parecia-lhe ser um mundo estranho porque a sua percepção ainda não fora preparada para caber no molde desejado - disse ele.
- Foi mesmo assim que vi o mundo? - perguntei.
- Por certo - disse ele. - Isso foi a sua memória.
Perguntei a Dom Juan se a sensação de apreciação estética que me extasiara também fazia parte de minha memória.
- Nós temos essas visões como estamos hoje - disse ele.
Você estava vendo aquela cena como a veria agora. No entanto, o exercício era de percepção. Era uma cena de uma época em que o mundo se tornou para você o que é agora. Um tempo em que uma cadeira tornou-se uma cadeira”.


Eu acrescentaria: "cena de uma época em que para você, as coisas ainda não tinham nome, só essência. Apenas eram. E você via a essência delas na sua totalidade. Sem desnate".

domingo, 27 de março de 2011

O mundo mágico tolteca de Don Juan e Castaneda

Don Juan, o índio yaqui mexicano, nagual e xamã, dizia que o “fato energético”, era o alicerce do conhecimento dos xamãs do México Antigo, e significava que “cada nuance do cosmo é uma expressão de energia”. Nós vemos as coisas no mundo, mas atrás delas, no Invisível, elas são energia. Tudo é energia. A partir do seu nível de xamãs, de onde “viam a energia diretamente como ela flui no Universo”, eles chegaram à conclusão (que é também um fato energético) de que o cosmo inteiro é composto de duas forças gêmeas que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre elas. Eles chamavam essas duas forças de “energia animada e energia inanimada”. É o Ying e Yang do Taoismo.
Eles viram que a energia inanimada não tem consciência. Consciência, para os xamãs, é uma condição vibratória da energia animada. Don Juan dizia que os xamãs do México antigo foram “os primeiros a ver que todos os organismos da Terra são possuidores de energia vibratória”. Eles os chamavam de "seres orgânicos", e viram que os próprios organismos determinam o grau da força de coesão e os limites dessa energia. Eles também viram que existem conglomerados de energia vibratória, energia animada, que têm uma coesão própria, livres das amarras de um organismo. Eles os chamavam de "seres inorgânicos", e os descreviam como pedaços de energia com coesão própria,  que são invisíveis ao olho humano, "energias cônscias de si mesmas" e que possuem uma unidade determinada por uma força aglutinadora diferente da força aglutinadora de um organismo.
Os xamãs da linhagem de Don Juan viram que a condição essencial da energia animada, orgânica ou inorgânica, é "transformar a energia no universo como um todo, em dados sensoriais", ou seja, dados percebidos pelos 5 sentidos e depois transformadas em "informações úteis no mundo em que vivemos". Essa é a função dos seres orgânicos e inorgânicos. No caso de seres orgânicos, estes dados sensoriais “brutos” são então transformados em um sistema no qual “a energia como um todo é classificada”, e há um produto final designado e percebido, para cada classificação, qualquer que ela possa ser. Em resumo, o sistema transforma qualquer energia nova e impensável que chega do "mar escuro da consciência" para nós, em algo conhecido no nosso mundo rotineiro. Temos então uma “consciência de segunda mão”. Depois disso há ainda um filtro chamado “desnate” pelo qual eu elimino determinados aspectos de uma dada percepção, que então já chega a mim “interpretada”, graças ao filtro do aprendizado social, e fico com uma cópia barata e simplificada dela.
De acordo com a lógica dos xamãs, no caso de seres humanos, “o sistema de interpretação de dados sensoriais é o conhecimento deles sobre o mundo que os rodeia”. Eles sustentam que esse conhecimento humano pode ser temporariamente interrompido, já que ele é apenas um sistema classificatório no qual o produto final, ou “o que é o mundo” é gerado a partir da interpretação de dados sensoriais. Quando essa interrupção ocorre, os feiticeiros afirmam que “a energia pode ser percebida por nós diretamente enquanto flui no universo”, sem interpretação nenhuma. É um fato chocante que pode ser o êxtase que os místicos em busca da divindade experimentam. Os feiticeiros descrevem o ato de perceber a energia diretamente como um feito semelhante a “ver com os olhos”, embora estes estejam minimamente envolvidos no processo.
Perceber a energia diretamente permitiu aos feiticeiros da linhagem de Don Juan “ver” os seres humanos como “conglomerados de campos de energia que têm a aparência de bolas luminosas”. Esse é o “ver” dos feiticeiros videntes. Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas como dissemos nas postagens A Auto Importância e no Pássaro da Liberdade, quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que eles “são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras. O que os feiticeiros toltecas sabiam sobre os conceitos complexos da Consciência, Percepção e Atenção, as ciências atuais da Psicologia e Parapsicologia estão hoje apenas começando a arranhar”, com todo o respeito. Observar os seres humanos dessa maneira levou esses xamãs a conclusões energéticas extraordinárias. Eles notaram que “cada uma dessas bolas luminosas está individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo; uma massa que eles chamaram de o Mar Escuro da Consciência (ou A Águia)”. Eles observaram que cada bola individual está ligada ao mar escuro da consciência por um ponto que é ainda mais luminoso que a própria bola luminosa. Esses xamãs o chamaram de “ponto de aglutinação”, porque perceberam que “é neste local, fora do corpo, que a percepção é aglutinada, e acontece”. O fluxo de energia como um todo é transformado, nesse ponto, em dados sensoriais, e “esses dados são então interpretados e formam o mundo que chamamos de mundo, e que nos rodeia”.
Quando Castaneda pediu a Don Juan para explicar como esse processo de transformação do fluxo de energia em dados sensoriais ocorria, ele respondeu que a única coisa que os xamãs sabem a respeito disso é que a imensa massa de energia chamada mar escuro da consciência (ou A Águia) abastece os seres humanos com o que quer que lhes seja necessário para converter essa transformação de energia em dados sensoriais, e que tal processo não poderia jamais ser decifrado devido à imensidão da sua fonte original.
O que os xamãs do México antigo descobriram quando focalizaram seu “ver” no mar escuro da consciência foi a revelação de que “o cosmo inteiro é feito de filamentos luminosos que se estendem infinitamente”. Os xamãs os descrevem como "filamentos luminosos que vão em todas as direções sem jamais tocar uns nos outros". Eles viram que existem filamentos individuais, e que, ao mesmo tempo, esses filamentos se agrupam em massas inconcebivelmente colossais.
Outra dessas massas de filamentos, além do mar escuro da consciência que os xamãs observaram e apreciaram por causa de sua vibração, era algo que eles chamaram “Intento”. E chamaram de “intentar” o ato de xamãs individuais focalizarem sua atenção nessa massa. Eles viram que “o universo inteiro era um universo de intento, e intento, para eles, era o equivalente a Inteligência”. Uma outra forma de chamar a Consciência.
O universo, portanto, era para eles um universo de suprema inteligência. A conclusão, que se tornou parte do mundo de conhecimento deles, foi que a energia vibratória, consciente de si própria, era inteligente ao extremo. Eles viram que a massa de intento no cosmo era responsável por todas as mutações possíveis, todo tipo de variações que aconteciam no universo, “não por causa de circunstâncias cegas e arbitrárias, mas por causa do intentar feito pela energia vibratória, no nível do próprio fluxo de energia”.
Don Juan salientou que no mundo da vida cotidiana que vivemos, "os seres humanos realizam intento e intentar, através da maneira pela qual eles interpretam o mundo". Don Juan, por exemplo, alertou Castaneda para o fato que “meu mundo cotidiano não era regido pela minha percepção, mas pela interpretação da minha percepção”. Ele deu como exemplo o conceito corriqueiro de "universidade", que àquela época era um conceito de suprema importância para Castaneda. Ele disse a ele  que universidade não era algo que se podia perceber com os sentidos, porque nem minha visão, nem a audição, nem o paladar, nem os sentidos táteis ou olfativos forneciam alguma pista sobre universidade. "Universidade acontecia, e fazia sentido somente no meu intentar", e para que eu pudesse construí-la ali, precisava de tudo que sabia pelo aprendizado social como uma pessoa civilizada, de uma forma consciente ou subliminar.
O fato energético de o universo ser composto de filamentos luminosos deu origem à conclusão dos xamãs de que "cada um desses filamentos que se estendem infinitamente é um campo de energia". Eles observaram que os filamentos luminosos, ou melhor dizendo, os campos de energia de tal natureza, convergiam e passavam através do ponto de aglutinação. Já que o tamanho do ponto de aglutinação no ser humano foi determinado como sendo o equivalente a uma bola de tênis moderna, somente um número finito de campos de energia, mas ainda assim numa quantidade incalculável, convergiam e passavam através daquele ponto.
Quando os feiticeiros do México antigo viram o ponto de aglutinação, descobriram o fato energético de que “o impacto dos campos de energia que passavam através do ponto de aglutinação era transformado em dados sensoriais”; dados que eram então interpretados e transformados no mundo da vida cotidiana que vemos. Estes xamãs atribuíram a homogeneidade do conhecimento entre os seres humanos ao fato de que "o ponto de aglutinação de toda a raça humana está localizado no mesmo lugar nas respectivas esferas luminosas energéticas que nós somos: na altura das omoplatas, à distância de um braço por trás delas, nos limites da bola luminosa."
Suas observações sobre ver o ponto de aglutinação levaram os feiticeiros do México antigo a descobrirem que "o ponto de aglutinação mudava de posição sob condições de sono normal ou extrema fadiga, doença ou ingestão de plantas psicotrópicas". Esses feiticeiros viram que "quando o ponto de aglutinação estava numa nova posição, um feixe diferente de campos de energia passava através dele, forçando o ponto de aglomeração a transformar estes campos de energia em dados sensoriais e interpretá-los, trazendo como resultado um outro mundo novo e real para se perceber, mundo esse diferente do que usualmente conhecemos". Esses xamãs afirmavam que cada novo mundo que surgia dessa maneira era um mundo totalmente inclusivo, real e abrangente, diferente do mundo da vida cotidiana, mas absolutamente similar a ele no fato de que “se podia viver, ter filhos, e morrer nele”.
Para xamãs como Don Juan Matus, "o exercício mais importante de intentar, resulta no movimento voluntário do ponto de aglutinação", para que ele atinja áreas predeterminadas no conglomerado total de campos de energia que compõem um ser humano. Isso significa que depois de milhares de anos de investigação, os feiticeiros da linhagem de Don Juan descobriram que existem posições-chave no interior da bola luminosa total que é o ser humano, onde o ponto de aglutinação pode estar localizado e onde o bombardeio resultante dos campos de energia sobre  o ponto pode produzir um mundo totalmente novo e real.
Don Juan me assegurou que "isso é um fato energético e que a possibilidade de viajar para qualquer um desses mundos, ou para todos eles, é a herança de todos os seres humanos". Ele disse que "estes mundos estão lá à vontade, da mesma forma que as questões às vezes estão pedindo para serem perguntadas, e que tudo o que um feiticeiro ou um ser humano precisa para chegar até esses mundos é intentar o movimento do ponto de aglutinação".
Outro item relacionado ao intento, mas transposto para o nível do intentar universal, era, para os xamãs do México antigo, o fato energético de que estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles era um fato energético que "o universo em geral é predatório ao máximo, mas não predatório no sentido em que entendemos esse termo: o ato de saquear ou roubar, agredir ou explorar os outros em benefício próprio. Para os xamãs do México antigo, a condição predatória do universo significava que “o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência”. Eles viram que "o universo cria quantidades incalculáveis de seres orgânicos e de seres inorgânicos". Exercendo pressão sobre todos esses seres, o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma "o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio". No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, “a consciência é o resultado final”.
Don Juan Matus e os xamãs de sua linhagem consideram consciência como “o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem”, não apenas as possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros. Don Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor. A função, o propósito, nessas circunstâncias, se torna uma necessidade das mais prementes. Livre das idealidades e das falsas metas, o homem só tem a função como sua força guia. Os xamãs chamam isso de “impecabilidade”. Para eles, ser impecável significa “dar o seu melhor, e mais um pouco, mas sempre economizando energia”. Eles então obtinham a função ao "ver a energia diretamente, conforme ela flui do universo". Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional, pragmático. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo de conhecimento.
O exercício de todas as unidades de conhecimento dos feiticeiros permitia a Don Juan e a todos os xamãs de sua linhagem chegarem a conclusões energéticas estranhas que, à primeira vista, pareciam fazer sentido apenas a eles e às suas circunstâncias pessoais, mas que, se examinadas com cuidado, podiam ser aplicadas a qualquer um de nós. De acordo com Don Juan, a culminação da busca dos xamãs é algo que ele considerava como sendo o fato energético supremo, não apenas para os feiticeiros, mas para todos os seres humanos da Terra. Ele o chamava de “jornada definitiva”.
"A jornada definitiva é a possibilidade que a consciência individual, ampliada ao seu limite máximo pela adesão do indivíduo ao mundo de conhecimento dos xamãs, poderia ser sustentada além do ponto no qual o organismo é capaz de funcionar como uma unidade coesiva, o que quer dizer “além da morte”". Essa consciência transcendental era compreendida pelos xamãs do México antigo como sendo a possibilidade de que a consciência dos seres humanos ultrapassasse tudo que é conhecido, e chegasse, dessa forma, ao nível de energia que flui no universo. Xamãs como Don Juan Matus definiam sua busca como “a busca de se tomar, no final, um ser inorgânico”, significando que "essa energia cônscia de si mesma continuava após a morte, atuando como uma unidade viva, mas sem um organismo, um corpo como o conhecemos". Eles chamavam esse aspecto da cognição deles de liberdade total, um estado no qual a consciência existe livre das imposições de socialização e sintaxe".

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Os voadores

O tema dos Voadores, ou Sombras de Barro na obra de Castaneda e discípulos, é um dos mais obscuros e intrigantes das tradições do xamanismo tolteca, interessados na busca interior dos seres humanos. Ele fala de uma limitação misteriosa imposta ao desenvolvimento da percepção, consciência e potencialidades dos humanos neste planeta, em algum momento da sua evolução.
A literatura antropológica mundial não registra  informações sobre o tema. Já a chamada literatura esotérica tradicional apresenta, mas de forma não estruturada, alguns conceitos mais familiares ao tema.
É o que vemos principalmente na tradição xamânica, pelo fato de não ser racional mas sim pragmática, de ação. Ela aborda a natureza e o universo de uma forma empírica e prática, e não tem receios de parecer ilógica quando age sem mesmo entender mentalmente a natureza das energias com as quais está entrando em contato ou manipulando. Este mundo é um mistério, dizia Don Juan a Castaneda batendo com o pé no chão.
Quem já teve contato com algumas dessas tradições e rituais, seja na Amazônia, Sibéria, África, Oceania, América ou outros lugares, já ouviu falar de entidades não físicas (não orgânicas) indesejáveis que atormentam os seres humanos e se aproveitam de forma predadora da sua energia e consciência. É o caso também do espiritismo kardecista e de outras linhas de trabalho animistas que afirmam a mesma coisa. Os voadores são uma dessas entidades.
Gurdjieff, em sua obra, fala do kundabuffer, uma junção das palavras Kundalini e buffer (amortecedor, em inglês) algo que foi introduzido temporariamente, para um fim específico, na mente humana em algum período na humanidade e por alguma razão não conhecida ficou permanente. O aparato então cria um amortecedor entre o ser humano e a realidade. A sua percepção da realidade fica filtrada e não mais direta. Os toltecas chamavam o mecanismo de desnate, uma distorção da realidade ensinada a nós pelos adultos desde que somos bebês. O hinduísmo chama o resultado final obtido de véu de Maya. Por isso somos vulneráveis e portanto parasitados e predados. 
Temos que desconstruir o aparato se quisermos atingir a liberdade e ver a realidade como ela é, sem interpretações do filtro que nos foi imposto. No livros de Carlos Castaneda, principalmente Passes Mágicos essa passagem é explicada, inclusive com práticas para tentar neutralizá-la.
O Xamanismo em todas as tradições do planeta coloca isso como o resultado de o universo em que vivemos ser um ambiente altamente predatório, com seres mais fortes se alimentando dos mais fracos ou inexperientes. Nós seres humanos estamos em estado de sítio, dizia Don Juan na obra tolteca. Há um complô em andamento e nós ficamos dormindo como sei-lá-o-quê. Temos que aprender a escapar disso.
O corpo de dor, de Eckhart Tolle no livro Despertar de Uma Nova Consciência é uma entidade que lembra muito os voadores se alimentando e se fortalecendo com as nossas emoções negativas.
Os xamãs, ou videntes do Antigo México, com grande persistência e, quando em estados de consciência intensificada, estudaram esses seres predadores a ponto de estabelecer uma classificação, como está explicado extensamente nas obras a respeito.
O relato é aterrador e a maioria dos leitores fica entre o ceticismo e a crença de que há um certo exagero nas afirmações. O próprio Castaneda, apesar do contato com o fato, e da magistral condução de Don Juan, demorou muito para tomar consciência da situação deplorável a que estamos submetidos. Todos. Sem exceção.
Para o buscador sério fica clara a urgência do fato de que nós não temos tempo. Temos que iniciar o trabalho agora, neste mesmo instante em que estamos lendo esse texto.
Sobre essa falta de tempo, Don Juan, em A Porta para o Infinito dizia:
- Um ser imortal tem todo o tempo do mundo para dúvidas e confusão e medos. Um guerreiro, por outro lado, não pode se agarrar aos significados obtidos sob a ordem do tonal que é contaminado com essa interpretação da realidade, pois ele sabe que a totalidade dele só tem pouco tempo nesta Terra.
- Você tem de se esforçar ao máximo, o tempo todo.