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domingo, 4 de março de 2012

O Outro

Eu tinha uma amiga que dizia: “eu gosto do povo, adoro. Só não gosto do cheiro do povo no ônibus”. Pois é, o outro é assim, um desafio, sempre. Mesmo quando “gostamos” dele.
Não é à toa que na divisão das 12 casas astrológicas que perfazem a nossa vida, a Casa 1, que é “o meu eu”, é oposta à Casa 7, “o outro”, do outro lado, a 180º de distância, nos encarando... Não tem escapatória. Esse outro é tanto o inimigo declarado, o parceiro (a) de vida, o sócio, o concorrente. Para o médico é o paciente, para o vendedor é o comprador, e por aí afora... E a nossa vida está entrelaçada com a do outro como essas crianças na imagem aí em cima.

Eu pergunto, aqui entre nós: - “você não acha sintomático que o cônjuge e o inimigo declarado sejam personagens  da mesma casa 7?” Abra o olho cumpadre (e cumadre). Aí tem coisa. E não contaram para nós. Vamos ter que descobrir sozinhos...
 E por falar em sozinho, é curioso: a gente nasce sozinho e vai morrer sozinho, prestando conta para si mesmo e mais ninguém, mas no entremeio vai conviver, bem ou mal, todo o tempo com o outro. E a gente ama e odeia isso. Às vezes ao mesmo tempo. É estranho... Por que é assim? Não sei. Não sabemos. Precisamos ser sinceros quanto à nossa incompetência.
Eu tenho um pressentimento, sei lá se é verdadeiro ou falso, mas vou dizer (se não funcionar, a gente continua na busca). Como já falamos na postagem
Meditar? Orar? Para que? vamos então nos atrever a propor uma “teoria da geração de tudo”, uma Cosmogenia que, entre outras, explica essa coisa da existência do outro: parafraseando Don Juan e o hinduismo, existe no Universo uma força de Criação da Consciência (Brahma) e outra de Destruição (Shiva) atuando a todo instante sem parar. Vishnu, o terceiro fica só na Manutenção, equilibrando os estragos dos dois (rsrs). Então, se a Criação e a Destruição são simultâneas, o Universo precisa de Consciência sendo gerada a todo o instante, on line, em tempo real, como diz a garotada antenada. E portanto precisa de Ex-pe-ri-ên-cia. Precisa de nós, seres vivos, desde o mais simples vírus até os humanos. Todos ganhamos Vida e devolvemos Consciência, como diziam os homens de conhecimento toltecas. Daí a expressão “crescei e multiplicai-vos” dita por outro homem de conhecimento que sabia das coisas, expressão que aliás no nosso planeta está meio em baixa por causa da superpopulação.
Por isso estamos aqui: nos demos a nós mesmos um equipamento físico, emocional, mental e espiritual tingido por umas coisas como apego, raiva, ignorância e no final, a cereja do bolo: o outro. Nós mesmos nos demos o outro, não podia ser diferente. Igual e oposto a nós, ao mesmo tempo. E a paisagem que nos demos em volta qual é?: Recursos inflexíveis, sabiamente dosados, e apetites insaciáveis, É mole?
Esse embate com o outro é o grande gerador de experiências e portanto de Consciência de que o Universo precisa: atrito. É o atrito entre opostos como possibilidade criativa de experiências.
Se você discorda, pode fazer uma experiência decisiva: imagine-se (não vai ser fácil) vivendo num mundo sem o outro, sem o seu semelhante, ou melhor, o seu diferente. Mas imagine mesmo, senão não dá para aceitar ou refutar a teoria. Nesse tal mundo, se não há o outro, não há como haver nenhuma das 7 virtudes (temperança, caridade, simplicidade, paciência, generosidade, diligência, humildade) ou os 7 pecados capitais (orgulho, preguiça, inveja, luxúria, raiva, gula, avareza). Essas coisas só aparecem a dois ou mais: sem o outro, vai ser uma paradeira federal. Bota tristeza nisso. Não há Consciência que brote aí. Sem o outro a aridez é total. Já pensou num mundo sem Luxúria? Vixe! (rsrs)
Então você, muito gentil, diz: ‘ok, vou aceitar em princípio a sua teoria “sub judice”, ou seja, até prova em contrário. Mas tenho uma pergunta: “como eu faço para me relacionar com o outro de uma forma justa, equânime, tanto exterior como interiormente?”
Essa sim é A pergunta.
A resposta eu na sei, mas estamos trabalhando nisso. Todo o tempo. A pergunta é sempre mais interessante que a resposta, porque deixa o tema sempre no modo aberto. Começo a achar que talvez a resposta não seja a resposta em si, mas sim o trabalhar nisso, sem descanso. Vamos lá:
O “se relacionar com o outro” exige uma pá de coisas:
A primeira coisa, e principal, é você “estar presente” (rsrs). Você deve ter pensado: esse cara é doido. Como posso me relacionar com o outro se não estou presente? Por telepatia? Mas é de outra presença que estamos falando, é claro. É a presença interior, no instante, no Agora,  de que as tradições sem exceção falam. Eckhart Tolle tem textos e vídeos encantadores sobre isso. Presença é “ocupar” todo o seu corpo físico, estar sentindo-o sem pensar nele, atento e aberto para o outro. Na cena só existe a sua Atenção e o outro . A rigor mesmo só existe a sua Atenção. É claro que quando a gente faz a lição de casa direitinho, a gente está presente “de carona” também no emocional e mental e sentindo  no conjunto dos três, cada vibração e impressão que chega, ao mesmo tempo em que está se relacionando com o outro. Parece difícil no início, principalmente nos picos emocionais, absorventes, na hora do racha, mas aos poucos a gente acerta. É um largar atento, um deixar fluir. Se a gente se perder, volta e retoma...
A outra coisa é agir exteriormente com o outro com a maior consideração possível (seja ele quem for, seja na situação que for), exatamente como agimos com uma pessoa querida, que queremos agradar. Difícil? Bota difícil nisso. Não podemos esquecer que estamos lidando com dois egos insuportáveis, o nosso e o dele. Para funcionar, o agente da nossa ação deve estar previamente ciente de que o ponto não é “ganhar a discussão” mas, sem perder o objetivo, estar presente contemplando-se na ação, identificando as energias e observando, tão imparcialmente quanto possível, a resistência ridícula e mesquinha do ego. Aliás dos dois egos. Isso não significa “ser bonzinho” mas um segredo é não “bater de frente”. Gurdjieff chamava esse processo de “consideração exterior”, ou seja, independentemente de o seu ego achar que o outro ego seja um (a) pulha, você o trata exteriormente com consideração. Não confunda isso com essa coisa viscosa chamada de “politicamente correto”. São coisas parecidas só por fora, mas a nossa nos põe diante de uma dificuldade quase insuperável, a de conscientemente tratar alguém  exteriormente com consideração, quando o seu próprio ego está revoltado interiormente, querendo pular no pescoço do outro e esganá-lo. Lembrei-me de um rabino que disse; "É muito melhor interiormente para nós, ser gentil do que ter razão".
Uma terceira coisa é uma constatação absolutamente insuportável para o nosso ego que vive na dualidade “eu e o outro”. O grande filósofo popular, Vicente Mateus, ex-presidente do Corinthians dizia, reafirmando essa dualidade: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. (rsrs).
Pois bem, o que eu vou dizer é uma coisa tão insuportável para o nosso ego, que eu vou falar rapidinho e sair de fininho, como criança que “fez reinação”. A constatação é a seguinte: 

 O outro é a sua sombra.
O outro é tudo o que é sombrio demais para você aceitar como seu. Aqui entre nós, apesar de o seu ego espernear – chegue um pouco mais que eu vou contar um segredo no pé do seu ouvido (essa vai ser "braba"):
“O outro é você”.
E durma com um barulho desses.
Domingo que vem, tem mais.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Êta sofrimento...

Nesta semana a vida me pegou de jeito e eu pensei “Não vai dar para publicar o texto de domingo”, mas resolvi fazer um esforço no meio da pressão das coisas, e postar algo que li há uns tempos e achei muito bom. Só não vou contar o autor para evitar a "síndrome do já conhecido” que tira antecipadamente o frescor das coisas. Leiam sem referência, com o coração, como se faz com as catedrais góticas e templos antigos de autores desconhecidos. É bom para desenvolver a justa apreciação. Quem quiser tentar acertar o autor depois de ler, diga nos comentários e se acertar eu confirmo. "Ou não", como diz o Caetano (rsrs). Vamos lá:

DISSOLVER O SOFRIMENTO
A maior parte do sofrimento humano é desnecessária. Ele se forma sozinho, enquanto a mente superficial governa a nossa vida. O sofrimento que sentimos neste exato momento é sempre alguma forma de não-aceitação, uma forma de resistência inconsciente ao que é.
No nível do pensamento, a resistência é uma forma de julgamento. No nível emocional, ela é uma forma de negatividade. O sofrimento varia de intensidade de acordo com o nosso grau de resistência ao momento atual, e isso, por sua vez, depende da intensidade com que nos identificamos com as nossas mentes. A mente procura sempre negar e escapar do Agora.
Em outras palavras, quanto mais nos identificamos com as nossas mentes, mais sofremos. Ou ainda, quanto mais respeitamos e aceitamos o Agora, mais nos libertamos da dor, do sofrimento e da mente egóica.
Alguns ensinamentos espirituais dizem que todo sofrimento é, em última análise, uma ilusão, e isso é verdade. A questão é se isso é uma verdade para você. Acreditar simplesmente não transforma nada em verdade. Você quer sofrer para o resto da vida e permanecer dizendo que é uma ilusão? Será que essa atitude livra você do sofrimento? O que nos interessa aqui é o que podemos fazer para vivenciar essa verdade, ou seja, torná-la real em nossas vidas.
Enquanto estivermos identificados com as nossas mentes, o que significa dizer enquanto estivermos inconscientes espiritualmente, o sofrimento será inevitável. Refiro-me aqui ao sofrimento emocional, que é também a causa principal do sofrimento físico e a doença. O ressentimento, o ódio, a autopiedade, a culpa, a raiva, a  depressão, o ciúme e até mesmo uma leve irritação são formas de sofrimento. E qualquer prazer ou forte emoção contêm em si a semente do sofrimento. É o inseparável oposto, que se manifestará com o tempo.
Quem já tomou bebidas alcoólicas ou drogas para ficar "alto" sabe que o alto se transforma em baixo, que o prazer se transforma em alguma forma de sofrimento. A maioria das pessoas também sabe, por experiência própria, como uma relação íntima pode se transformar, de modo fácil e rápido, de fonte de prazer em fonte de sofrimento. Vistas de uma perspectiva mais ampla, tanto a polaridade negativa quanto a positiva são lados de uma mesma moeda, são partes de um sofrimento que está oculto, inseparável do estado de consciência identificado com a mente.
Existem dois níveis de sofrimento: o que você cria agora e o que tem origem no passado que ainda vive em sua mente e no seu corpo. Enquanto não somos capazes de acessar o poder do Agora, vamos acumulando resíduos de sofrimento emocional. Esses resíduos se misturam ao sofrimento do passado e se alojam em nossa mente e em nosso corpo. Isso inclui o sofrimento vivido em nossa infância, causado pela falta de compreensão do mundo em que nascemos.
Todo esse sofrimento cria um campo de energia negativa que ocupa a mente e o corpo. Se olharmos para ele como uma entidade invisível com características próprias, estaremos chegando bem perto da verdade. E o sofrimento emocional do corpo.
Apresenta-se sob duas modalidades: inativo e ativo. O sofrimento pode ficar inativo 90 por cento do tempo, ou 100 por cento ativado em alguém profundamente infeliz. Algumas pessoas atravessam a vida quase que inteiramente tomadas pelo sofrimento, enquanto outras passam por ele em algumas ocasiões que envolvem relações familiares e amorosas, lesões físicas ou emocionais, perdas do passado, abandono, etc.
Qualquer coisa pode ativá-lo, especialmente  se encontrar ressonância em um padrão de sofrimento do passado. Quando o sofrimento está pronto para despertar do estágio inativo, até mesmo uma observação inocente feita por um amigo, ou um pensamento, é capaz de ativá-lo.
 

DESFAZER A IDENTIFICAÇÃO COM O SOFRIMENTO
O sofrimento não quer que nós o observemos diretamente e vejamos o que ele realmente é. No momento em que o observamos, sentimos seu campo energético dentro de nós e desfazemos a nossa identificação com ele, surge uma nova dimensão da consciência.
Chamo isso de presença. Passamos a ser testemunhas ou observadores do sofrimento. Isso significa que ele não pode mais nos usar, fingindo ser nosso eu interior. Então, não temos mais como realimentá-lo. Aqui está nossa mais profunda força interior.
Alguns sofrimentos são irritantes, mas inofensivos, como é o caso de uma criança que não para de chorar. Outros são monstros destrutivos e mórbidos, verdadeiros demônios. Alguns são fisicamente violentos; outros, emocionalmente violentos. Eles podem atacar tanto as pessoas à nossa volta quanto a nós mesmos, seus hospedeiros. Os pensamentos e sentimentos relativos à nossa vida tornam-se, então, profundamente negativos e autodestrutivos. Doenças e acidentes frequentemente acontecem desse modo. Alguns sofrimentos podem até levar uma pessoa ao suicídio.
Às vezes levamos um choque ao descobrir uma faceta detestável em alguém que pensávamos conhecer bem. Entretanto, é mais importante observar essa situação em nós mesmos do que nos outros.
Preste atenção a qualquer sinal de infelicidade em você, qualquer que seja a forma, pois talvez seja o despertar do sofrimento. Ele pode se manifestar como uma irritação, um sinal de impaciência, um ar sombrio, um desejo de ferir, sentimentos de raiva, ira e depressão ou uma necessidade de criar algum tipo de problema em seus relacionamentos. Agarre o sinal no momento em que ele despertar de seu estado inativo.
O sofrimento deseja sobreviver, mas, para isso, precisa conseguir que nos identifiquemos inconscientemente com ele. Então poderá nascer, nos dominar, "tornar-se nós" e viver através de nós.
Ele retira seu "alimento" de nós. Vale-se de qualquer experiência sintonizada com o seu próprio tipo de energia, qualquer coisa que provoque um sofrimento adicional sob qualquer forma: raiva, destruição, rancor, desgostos, problemas emocionais, violência e até mesmo doenças. Portanto, quando o sofrimento toma conta de nós, cria uma situação em nossas vidas que reflete a própria frequência de energia da qual ele se alimenta. Sofrimento só se alimenta de sofrimento. Não consegue se alimentar de alegria. Acha-a indigesta.
Quando o sofrimento nos domina, faz com que desejemos ter mais sofrimento. Passamos a ser vítimas ou agressores. Queremos infligir sofrimento, ou senti-lo, ou ambos. Na verdade, não há muita diferença entre os dois. E claro que não ternos consciência disso e afirmamos que não queremos sofrer. Mas preste bem atenção e verá que o seu pensamento e o seu comportamento estão programados para continuar com o sofrimento, tanto para você quanto para os outros. Se você estivesse consciente disso, o padrão iria se desfazer, porque desejar mais sofrimento é uma insanidade, e ninguém é insano conscientemente.
O sofrimento, a sombra escura projetada pelo ego, tem medo da luz da nossa consciência. Teme ser descoberto. Sobrevive graças à nossa identificação inconsciente com ele, assim como do medo inconsciente de enfrentarmos o sofrimento que vive dentro de nós. Mas, se não o enfrentarmos, se não direcionarmos a luz da nossa consciência para o sofrimento, seremos forçados a revivê-lo.
O sofrimento pode parecer um monstro perigoso, mas eu garanto que se trata de um fantasma frágil. Ele não pode prevalecer sobre o poder da nossa presença.
Quando passamos a observadores e começamos a deixar de nos identificar, o sofrimento ainda continua a agir por um tempo e vai tentar fazer com que voltemos a nos identificar com ele. Embora não esteja mais recebendo a energia originada da nossa identificação com ele, o sofrimento ainda tem sua força, como uma roda-gigante que continua a girar mesmo quando deixa de receber o impulso. Nesse estágio, o sofrimento pode até ocasionar dores em diversas partes do corpo, mas elas não vão durar.
Esteja presente, fique consciente. Vigie o seu espaço interior. Você vai precisar estar presente e alerta para ser capaz de observar o sofrimento de um modo direto e sentir a energia que emana dele. Agindo assim, o sofrimento não terá força para controlar o seu pensamento.
No momento em que o seu pensamento se alinha com o campo energético do sofrimento, você está se identificando com ele e, de novo, alimentando-o com os seus pensamentos. Por exemplo, se a raiva é a vibração de energia que predomina no sofrimento e você alimenta esse sentimento, insistindo em pensar no que alguém fez para prejudicá-lo ou no que você vai fazer em relação a essa pessoa, é porque você já não está mais consciente, e o sofrimento se tornou "você". Onde existe raiva existe sempre um sofrimento oculto.
Quando você começa a entrar em um padrão mental negativo e a pensar como a sua vida é horrorosa, isso quer dizer que o pensamento se alinhou com o sofrimento e você passou a estar inconsciente e vulnerável a um ataque do sofrimento.
Utilizo a palavra "inconsciência" no presente contexto para significar uma identificação com um padrão mental ou emocional. Isso implica uma ausência completa do observador.

TRANSFORMAR O SOFRIMENTO EM CONSCIÊNCIA
Manter-se em um estado de alerta consciente destrói a ligação entre o sofrimento e o mecanismo do pensamento e aciona o processo de transformação. É como se o sofrimento se tornasse o combustível para a chama da consciência, resultando em um brilho de mais intensidade.
Esse é o significado esotérico da antiga arte da alquimia: a transformação do metal não precioso em ouro, do sofrimento em consciência. A separação interior cicatriza, e você se torna inteiro outra vez. Cabe a você, então, não criar um sofrimento adicional.
Concentre a atenção ao sentimento dentro de você. Reconheça que é o sofrimento. Aceite que ele esteja ali. Não pense a respeito. Não permita que o sentimento se transforme em pensamento. Não julgue nem analise. Não se identifique com o sentimento. Esteja presente e observe o que está acontecendo dentro de você.
Perceba não só o sofrimento emocional, mas também a presença "de alguém que observa", o observador silencioso. Esse é o poder do Agora, o poder da sua própria presença consciente. Veja, então, o que acontece.

A IDENTIFICAÇÃO DO EGO COM O SOFRIMENTO
O processo que acabei de descrever é extremamente poderoso, embora simples. Poderia ser ensinado a uma criança, e tenho a esperança de que um dia será uma das primeiras coisas a serem aprendidas na escola. Uma vez entendido o princípio básico do que significa estar presente observando o que acontece dentro de nós -e "entendemos" isso quando passamos pela experiência -, teremos à nossa disposição a mais poderosa ferramenta de transformação.
Não nego que podemos encontrar uma forte resistência interna tentando nos impedir de pôr um fim à identificação com o sofrimento. Isso acontecerá particularmente se tivermos vivido intimamente identificados com o sofrimento emocional durante a maior parte da vida e se tivermos investido nele uma grande parte ou mesmo todo o nosso sentido de eu interior. Isso significa que construímos um eu interior infeliz por conta do nosso sofrimento e acreditamos que somos essa ficção fabricada pela mente. Nesse caso, nosso medo inconsciente de perder a identidade vai criar uma forte resistência a qualquer forma de não-identificação. Em outras palavras, você preferiria viver com o sofrimento - ser o sofrimento - a saltar para o desconhecido, correndo o risco de perder o seu infeliz mas familiar eu interior.
Observe a resistência dentro de você. Observe o seu apego ao sofrimento. Esteja muito alerta. Observe como é estranho ter prazer em ser infeliz. Observe a compulsão de falar ou pensar a esse respeito. A resistência deixará de existir se você torná-la consciente.
Poderá então dar atenção ao sofrimento, estar presente como testemunha e iniciar a transformação.
Só você pode fazer isso. Ninguém pode fazer por você. Mas, caso tenha bastante sorte para encontrar alguém intensamente consciente, se puder estar com essa pessoa e juntar-se a ela no estado de presença, isso poderá ser de grande utilidade, acelerando o processo. Se isso acontecer, a sua própria luz logo brilhará mais forte.
Quando colocamos um pedaço de lenha que tenha começado a queimar há pouco tempo perto de outro que está queimando vigorosamente e, depois, separamos os dois novamente, o primeiro tronco passará a queimar com uma intensidade muito maior. Afinal de contas, é o mesmo fogo. Ser um fogo dessa natureza é uma das funções de um mestre espiritual. Alguns terapeutas estão aptos a preencher essa função, desde que tenham alcançado um ponto além do nível de consciência e sejam capazes de criar e sustentar um estado de presença intensa e consciente enquanto estiverem trabalhando com você.
A primeira coisa para lembrar é que, enquanto você construir a sua identidade em função do sofrimento, não conseguirá se livrar dele. Enquanto investir uma parte do seu sentido de eu interior no seu sofrimento emocional, você vai resistir ou sabotar, inconscientemente, cada tentativa para curar o sofrimento.
Por quê? Porque você quer se manter inteiro e o sofrimento se tornou uma parte essencial de você. Esse é um processo inconsciente, e o único caminho para superá-lo é torná-lo consciente.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Apego, como ele nos fisga, como se soltar...

O apego é o nosso estado "normal", e junto com a raiva, forma a dupla que se associa aos dois canais laterais à coluna, por onde passa o Prana (ou Qi, ou Energia Vital) quando respiramos. Já pensou? A pura energia sutil universal passa pelos canais associados ao apego e à raiva: um presente para a nossa evolução. Basta estar atento e consciente, limpando-os a cada respiração...
Já o terceiro canal, central, por onde o Prana, verde e luminoso, leva embora as energias negativas depositadas nos chakras  pelo nosso karma diário e as manda embora no alto da cabeça, é ligado à Ignorância. Então, Apego, Raiva e Ignorância formam o tripé do sofrimento, como mostra a figura tibetana dos 3 animais, o galo, a serpente e o porco. Os 3 canais são banhados pelo prana desde a nossa primeira até a última respiração.
Pema Chodron fala então do apego (o galo), chamado shenpa no budismo tibetano: como ele nos “fisga” como um anzol, e como se desvencilhar gradualmente dele na prática do nosso dia-a-dia. Vamos lá:
“Você está tentando tratar uma questão com seu colega de trabalho ou com sua companheira. Num momento, o rosto dela está aberto, ela está sorrindo. No momento seguinte, uma nuvem embaça seus olhos e seu queixo enrijece de tensão.
O que você está percebendo?
Alguém o critica. Criticam seu trabalho, sua aparência ou seu filho. Em momentos como esse, o que você sente? Há um gosto familiar na sua boca, há um cheiro familiar. Ao se dar conta disso, você sente que essa experiência vem acontecendo desde sempre.
A palavra tibetana para isso é shenpa. Geralmente é traduzida como "apego", mas uma tradução mais apropriada poderia ser "a fisgada". Quando a shenpa nos fisga é como se ficássemos "colados".  Poderíamos chamar de shenpa de essa sensação de "colamento". É uma experiência de todo instante. Mesmo um pontinho no seu casaco novo pode conduzir a ela. Num nível mais sutil sentimos um aperto, uma tensão, uma sensação de fechamento. Em seguida, vem uma vontade enorme de nos retirar dali, não queremos mais estar onde estamos. Essa é a qualidade da fisgada. Aquela sensação de aperto tem o poder de nos fisgar para a auto depreciação, culpa, raiva, ciúmes e outras emoções que levam a palavras e ações que acabam por nos envenenar.
Lembra daquele conto de fadas em que sapos pulavam da boca da Princesa cada vez que ela dizia coisas más? É como a sensação de ser fisgado. Contudo não paramos – não podemos parar – porque ainda estamos habituados a associar o que quer que estejamos fazendo ao alívio do nosso próprio desconforto. Essa é a síndrome da shenpa. A palavra "apego" não traduz completamente o que está acontecendo. É uma qualidade de experiência que não é fácil de descrever mas que todo mundo conhece bem. Geralmente a shenpa  é involuntária e vai direto à raiz do porque sofremos.
Alguém nos olha de certa maneira, ou ouvimos uma certa canção, sentimos um certo cheiro, entramos em certo aposento e pronto!. A sensação não tem nada a ver com o presente, e apesar disso ela está lá. Quando estivemos praticando para reconhecer a shenpa, descobrimos que alguns de nós podiam senti-la até mesmo quando uma determinada pessoa simplesmente sentava próximo de nós na mesa.
A shenpa floresce na insegurança motivada por  vivermos num mundo que está sempre mudando, impermanente. Experimentamos essa insegurança como um fundo de leve desconforto  e inquietação. Todos nós queremos alguma espécie de alívio para esse desconforto, então nos voltamos para o que nos dá prazer – comida, diversão, álcool, drogas, sexo, trabalho ou as compras. Com moderação o que nos dá prazer pode ser muito delicioso. Podemos apreciar seu sabor e sua presença em nossa vida. Mas quando lhe atribuímos poder com a idéia de que nos trará conforto, removerá nossa inquietude, aí somos fisgados.
Desse modo, também poderíamos chamar de shenpa  o "impulso" – o impulso de fumar um cigarro, de comer demais, de tomar outro drinque, de saciar nossa dependência qualquer que seja ela. Às vezes a shenpa é tão forte que sentimos vontade de morrer ao obter esse alivio de curto prazo dos sintomas. O momento atrás do impulso é tão forte que nós nunca nos livramos do padrão habitual de buscar o conforto no veneno.  Este não necessariamente tem que envolver uma substância; pode ser dizer coisas mesquinhas ou se aproximar de tudo com uma mente crítica. Essa é a maior fisgada. Alguma coisa aciona o gatilho de um velho padrão que preferiríamos não sentir, nos retesamos e engatamos em críticas e queixumes. Isso nos proporciona uma satisfação ofegante e uma sensação de controle que oferece alivio de curto prazo ao desconforto.
Aqueles de nós com dependências fortes sabem que trabalhar com padrões habituais começa com a disposição de reconhecer completamente nosso impulso e em seguida disposição de não atuar a partir dele. Esse não atuar é chamado abster-se. Tradicionalmente é  conhecido como renúncia. Não renunciamos ou nos abstemos da comida, do sexo, do trabalho ou de relacionamentos em si. Renunciamos e nos abstemos da shenpa. Quando falamos sobre abster-se da shenpa, não estamos falando de tentar jogá-la fora; estamos falando de tentar ver a shenpa claramente e experimentá-la. Se pudermos ver a shenpa exatamente quando começamos a nos fechar, quando sentirmos o aperto, existe a possibilidade de agarrar o impulso de fazer a coisa habitual e não fazê-la.
Sem a prática da meditação isso é quase impossível de fazer. Geralmente, não capturamos o aperto até que tenhamos saciado o impulso de coçar nosso comichão de alguma maneira habitual. E, a menos que equiparemos o abster-se com bondade amorosa e amizade para conosco, abster-se dá a impressão de vestir uma camisa de força. Lutamos contra ela. A palavra Tibetana para renúncia é shenlock, que significa "virar a shenpa de cabeça para baixo, sacudindo-a".
Quando sentirmos o aperto, de alguma forma temos que saber como abrir o espaço sem sermos fisgados para nosso padrão habitual.
Ao praticar com a shenpa, primeiro tentamos admiti-la. O melhor lugar para fazê-lo é na almofada de meditação. A prática da meditação sentada nos ensina como nos abrir e relaxar para o que quer que surja, sem escolher ou selecionar. Ela nos ensina a experimentar o desconforto, o aperto, a coceira da shenpa. Treinamos em sentar quietos com nosso desejo de coçar. É assim que aprendemos a interromper a reação em cadeia dos padrões habituais que de outra maneira governarão nossas vidas. É assim que enfraquecemos os padrões que nos mantêm fisgados no desconforto que nós confundimos com conforto. Nós rotulamos isso através do "pensar" e voltamos para o momento presente. Até mesmo na meditação experimentamos a shenpa.
Vamos supor, por exemplo que na meditação você se sentiu sereno e aberto. 
Os pensamentos vierem e se foram mas não o fisgaram. Eram como nuvens no céu que se dissolviam quando você os reconhecia. Você foi capaz de voltar ao momento sem uma sensação de luta. Em seguida você é fisgado naquela experiência tão agradável: "Eu fiz certo, consegui acertar. É como tinha que ser, é o modelo." Ser apanhado dessa maneira constrói arrogância e no reverso dela constrói pobreza, porque sua próxima sessão não será nada daquilo. Na verdade sua sessão "má" é muito pior agora porque você foi fisgado na "boa". Você sentou lá e foi discursivo: ficou obcecado por alguma coisa em casa, no trabalho. Você se preocupou e se atormentou; foi apanhado com medo ou raiva. No fim da sessão você se sentiu desanimado – foi "mau", e só há você para culpar.
Há alguma coisa inerentemente errada ou certa na experiência da meditação?
Somente a shenpa. A shenpa que sentimos para a "boa" meditação nos fisga no que ela "deve" ser e com isso somos conduzidos pela shenpa a como ela não "deve" ser. No entanto a meditação é apenas o que ela é. Somos apanhados não nela, mas em "nossa idéia dela": isso é a shenpa. Essa colada é a raiz da shenpa. Nós a chamamos “pegada do ego” ou auto-absorção. Quando somos fisgados na idéia da experiência má, a auto-absorção fica mais forte. É por isso que, como praticantes, somos ensinados a não nos julgar, para não sermos apanhados no bom ou mau.
O que realmente precisamos fazer é tratar as coisas como elas são. Aprender a admitir a shenpa nos ensina o significado de não estar apegado a esse mundo. Não estar apegado não tem nada a ver com esse mundo. Tem a ver com a shenpa – sermos fisgados pelo que associamos com conforto. Tudo o que estamos tentando fazer é não sentir nosso desconforto. Mas quando fazemos isso nunca chegamos à raiz da prática. A raiz é experimentar a coceira, assim como o impulso de coçar e então não atuar sobre ele.
Se estamos dispostos a praticar dessa  maneira todo o tempo, o prajna começa a aparecer. Prajna é a visão clara. É a nossa inteligência inata, nossa sabedoria. Com o prajna, começamos a ver claramente toda a reação em cadeia. À medida que praticarmos, a sabedoria se torna uma força mais poderosa que a shenpa.
Por si só, ela tem o poder de interromper a reação em cadeia.
O prajna não está envolvido com o ego. Sua sabedoria se baseia na bondade fundamental, na abertura, na equanimidade – que corta a auto-absorção. Com o prajna podemos ver o que o espaço vai nos mostrar. Ação habitual, que está baseada no ego é exatamente o oposto – a compulsão de preencher o espaço ao nosso estilo particular. Alguns de nós fechamos o espaço martelando nossos mesmos pontos; outros tentando suavizar as águas.
Fomos ensinados que tudo que surge é fresco, a essência da realização. Esta é a visão básica. Mas como ver  tudo que surge como a essência da realização quando a realidade é que temos um trabalho a fazer? A chave é olhar para dentro da shenpa. O trabalho que temos que fazer é descobrir se estamos tensos, fisgados ou "excitados". Essa é a essência da realização. Quanto mais cedo  captarmos isso, mais fácil será trabalhar com a shenpa, mas até mesmo captar isso quando já estivermos excitados é bom. Às vezes temos que percorrer todo ciclo até que vejamos o que estamos fazendo. O impulso é tão forte, a fisgada tão profunda, o padrão habitual tão colado que tem vezes que não podemos fazer nada sobre isso.
Entretanto, há alguma coisa que podemos fazer na realidade. Podemos sentar na almofada de meditação e repassar a história. Talvez comecemos lembrando a sensação de excitamento e entremos em contato com ela. Olhamos claramente a shenpa em retrospecto; também ajuda muito ver a shenpa surgindo em habitozinhos, quando a fisgada ainda não é tão profunda.
Os budistas estão falando da shenpa quando dizem, "Não se deixe apanhar no contentamento: observe a qualidade que está por trás  - a colada, o desejo, o apego". A meditação sentada nos ensina a ver aquela tangente antes de cair nela. Ela basicamente se resume à instrução "rotule a coisa pensando". Treinar isso na almofada onde é relativamente fácil e agradável fazê-lo, é a maneira de nos preparar para quando estivermos excitados.
Em seguida podemos treinar em ver a shenpa onde quer que estejamos. Diga alguma coisa a outra pessoa e talvez você sentirá aquela tensão. Em vez de ser apanhado numa história sobre como você está certo ou como você está errado, tome isso como uma oportunidade de estar presente com a qualidade da fisgada.
Use isso como uma oportunidade de estar com o aperto sem atuar sobre ele. Deixe o treinamento ser a sua base.
Você também pode praticar reconhecendo a shenpa na natureza. Praticar se sentando quieto e captando o momento em que se fecha. Ou praticar numa multidão, olhando uma pessoa de cada vez. Quando você está em silêncio, o que o fisga é o diálogo mental. Você fala consigo mesmo sobre maldade ou bondade: eu-mau ou eles-maus, isso-certo ou aquilo-errado. Simplesmente veja isso como uma prática. Você ficará intrigado como  involuntariamente se fechará e será fisgado de uma maneira ou de outra. Apenas continue rotulando aqueles pensamentos e volte para a imediatez da sensação. É a maneira de  não seguir a reação em cadeia.
Uma vez que estejamos conscientes da shenpa, começamos a notá-la em outras pessoas,  nós as vemos se fechando. Vemos que elas foram fisgadas e que nada irá penetrá-las agora. Naquele momento temos o prajna. A inteligência básica surge quando não somos apanhados escapando do nosso próprio desconforto. Com o prajna podemos ver o que está acontecendo com os outros; podemos ver quando eles estão sendo fisgados. Em seguida podemos dar algum espaço à situação. Uma maneira de fazê-lo é abrindo o espaço no local através da meditação. Fique quieto e coloque sua mente na respiração. Segure sua mente no lugar com grande abertura e curiosidade para com essa pessoa. Fazer uma pergunta é outra maneira de criar espaço em volta daquela sensação de colamento. Assim como adiar a discussão para outra hora.
No mosteiro, temos muita sorte de todo mundo estar entusiasmado em trabalhar com a shenpa. Muitas palavras que tenho tentado usar se tornaram munição para as pessoas usarem contra elas próprias. Mas sentimos uma espécie de alegria trabalhando com a shenpa, talvez porque a palavra não nos seja familiar. Podemos reconhecer o que está acontecendo com visão clara, sem nos apontarmos. Como ninguém gosta de ter sua shenpa apontada, as pessoas no mosteiro combinaram, "Quando você me vir sendo fisgado, só puxe sua orelha e se eu o vir sendo fisgado, farei o mesmo. Ou se você o vir em você mesmo e eu não tiver captado, pelo menos dê um sinalzinho de que talvez esta não seja a hora de continuarmos a discussão". É dessa maneira que estamos nos ajudando uns aos outros a cultivar prajna, visão clara.
Poderíamos pensar em todo esse processo em termos dos 4 “R”:
 
•    reconhecer a shenpa,
•    refrear (abster-se) o coçar,
•    relaxar no impulso que motiva o coçar, e então
•    resolver continuar  interrompendo nossos padrões habituais como esse pelo resto de nossas vidas.
O que você faz quando não faz a coisa habitual? Você se deixa ficar com seu impulso. É como você se põe mais em contato com a avidez e com a vontade de fugir. Você relaxa nele. Em seguida, resolve continuar praticando dessa maneira.
Trabalhar com a shenpa nos suaviza. Uma vez que vemos como somos fisgados e como somos arrastados pelo momento, não tem como ser arrogantes. O segredo é continuar vendo. Não deixar que a suavidade e a humildade se transformem em auto-depreciação. É apenas uma outra fisgada. Como viemos fortalecendo toda a situação habitual por um longo, longo tempo não podemos espera desfazê-la do dia para a noite. Não é um assunto para um tiro só. É preciso bondade amorosa para reconhecer; é preciso prática para abster-se; é preciso disposição para relaxar; é preciso determinação para continuar treinando dessa maneira. Ajuda lembrar que podemos experimentar dois bilhões de espécies de coceiras ou sete quatrilhões de tipos de comichão, mas só existe realmente uma única raiz da shenpa – a aderência do ego. Nós a experimentamos como aperto e auto-absorção.
Ela tem graus de intensidade. As ramificações shenpas são todos os nossos diferentes estilos de coçar o comichão.
Recentemente vi um cartoon com três peixes nadando em volta de um anzol. Um peixe está dizendo para o outro, "o segredo é não grudar". É um cartoon shenpa: o segredo é – não morda o anzol. Se nós pudermos nos apanhar no lugar onde o impulso de morder é forte podemos, pelo menos, ter uma perspectiva maior do que está acontecendo. Praticando dessa maneira, ganhamos confiança em nossa própria sabedoria. Isso começa a nos conduzir a um aspecto fundamental do nosso ser – amplidão, calor e espontaneidade.”

Pema Chödron,  nascida Deirdre Blomfield-Brown (Nova York, 1936) é uma monja budista tibetana na tradição Vajrayana, e é instrutora residente no templo Gampo Abbey, em Cape Breton Nova Escócia, Canadá, fundado pelo grande Chögyam Trungpa em 1984. Veja www.pemachodronfoundation.org

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O pânico, a cura, o mestre

Nascido em 1975, em Nubri, Nepal, Yongey Mingyur Rinpoche é uma estrela em ascenção da nova geração de mestres do budismo tibetano treinados fora do Tibet.
Aos 3 anos, foi formalmente reconhecido pelo 6º Karmapa como a sétima encarnação de Yongey Mingyur Rinpoche, um estudioso e adepto da meditação do século XVII conhecido como o mestre de métodos avançados da prática budista.
(Nota: Os Karmapas, seres que podem olhar simultaneamente para tudo no passado, presente e futuro, da mesma forma como nós olhamos para algo na palma de nossa mão, são uma linhagem de encarnações de mestres da qual o 6º, Thongwa Donden, também músico, foi o responsável pela sistematização da prática litúrgica Karma Kagyu usada nos rituais)
Vale notar que a palavra Rinpoche - que pode ser traduzida do tibetano como “Precioso” – é um título vinculado ao nome de um grande mestre, similar à forma como o título PhD é agregado a um ocidental considerado especialista em várias áreas do conhecimento.


A entrevista

- O senhor praticava meditação antes de receber treinamento formal?

YMR – Sim. Eu tentava praticar embora não tivesse idéia do que era meditação. Às vezes eu entrava na gruta e fazia de conta que meditava, e minha avó ficou muito apreensiva, pois um dia achou que eu tinha me perdido. Ela pediu para as pessoas me procurarem, e finalmente ela me achou na gruta e disse “Uh! Não faça isso de novo!”, mas, (risos) eu fiz mesmo assim e então ela aceitou e disse: “Se você for para essa gruta, tudo bem”. Então eu tinha permissão da minha avó e da minha mãe. Um dia eu estava sentado lá e fingia meditar - eu não tinha idéia de o que era meditação – mas havia aquele mantra “Om Mani Padme Hum”, todos usam esse mantra em nossa aldeia. Nós os chamamos de mantra da compaixão, o mantra da sabedoria da compaixão. (Nota: esse mantra é muito reverenciado pelos seguidores do atual  14º Dalai Lama. Apesar de afirmarem que não tem uma tradução só, afirma-se que significa “Recebemos a jóia da consciência divina, no centro do nosso chakra da coroa”).
E pensei “talvez eu deva dizer isso mentalmente enquanto estiver na gruta.” E fiz isso. E me senti bem melhor . Quando eu tinha 9 anos, pedi a meu pai, que era um grande mestre de meditação - mas eu era tímido para pedir diretamente - pedi à minha mãe para me ajudar a pedir ao meu pai, para me ensinar meditação, e ele aceitou. E a minha primeira pergunta foi: “recitar Om Mani Padme Hum mentalmente é meditar ou não?”  Meu pai disse sim. E eu fiquei tão feliz. (risos)

- O senhor ficou feliz por agradar seu pai?

YMR – Fiquei feliz porque eu estava fazendo certo. Isso é uma meditação.


- E qual era a sua idade?
YMR – Eu tinha 9 anos, mas... mas embora eu idealizasse meditar - era curioso quanto à meditação – mas eu tinha ataques de pânico quando eu tinha por volta de 8 anos. Eu desenvolvi pânico, mesmo tendo uma família amorosa, um bom ambiente, mas...o pânico me seguia como uma sombra. Às vezes no inverno temos tempestade, tempestades de neve, e muitas coisas acontecem. Eu tinha medo de desastres naturais, medo de trovões, raios, muitos medos. Às vezes não conseguia dormir. Mas comecei a buscar uma solução para o meu pânico. Então aos 9 anos aprendi meditação com o meu pai, para lidar com o pânico. Recebi instruções maravilhosas, mas não praticava muito. Era um menino preguiçoso. Aos 11 anos mudei para o norte da Ìndia, um local chamado Sherab Ling, um local muito bonito perto de Dharamsala, a residência de S. S. Dalai Lama, a duas horas de Dharamsala, uma estrada esburacada, o que é muito bom para o corpo... exercício gratuito! Sabe aquela poltrona de massagem do aeroporto? Em que a gente coloca um pouco de dinheiro? A estrada esburacada é melhor, é de graça (risos). Então...eu estava em Sherab Ling, e quando tinha 13 anos, estava para começar lá um retiro de 3 anos. Um retiro de meditação. Eu quis muito participar do retiro... mas fiquei tímido para pedir, e pedi ao meu pai, para solicitar a Sua Eminência Tai Situ Rinpoche, o chefe do nosso monastério, para aceitar a minha adesão ao retiro, e meu pai escreveu uma carta solicitando. E Rinpoche me perguntou “você quer mesmo participar? Tem certeza?” E eu disse sim. E ele me aceitou, e tive a oportunidade de participar do retiro de 3 anos. E no primeiro ano de retiro meu pânico piorou. Ficou mais forte. Então eu pensei “Hmm”... Eu era muito infeliz naquele tempo, mas eu ainda tinha 2 anos pela frente. Pensei “Uau, ainda tenho 2 anos! Você quer mesmo passar 2 anos desse jeito? Ou você quer aplicar técnicas de meditação para os ataques de pânico?” E decidi aplicar técnicas de meditação para o meu pânico. E então eu disse para o meu pânico “Olá”, pois normalmente descobri que existem dois modos de o pânico piorar e ficar mais forte. Primeiro, você segue o seu pânico. Você só diz “Sim Senhor” e você acredita no pânico, e em qualquer mensagem que venha do pânico. Você apenas acredita que o mundo é terrível, cheio de problemas. Desse modo o pânico se torna seu chefe, e você se torna escravo do pânico. O segundo problema, é que você não gosta do pânico. Você odeia o pânico... “Êi pânico, saia daí!” E você tenta bloquear o pânico. Você tem pânico do pânico! Tem medo do pânico. Às vezes o medo do pânico é mais forte do que o pânico. E assim o pânico se torna seu inimigo. O que eu descobri é que podemos nos tornar amigos do pânico. E como? Diga “olá!" para ele. Então uso o meu pânico como objeto de meditação. E o pânico se transforma numa meditação. Quando olho para o pânico, ele parece uma bolha, como espuma de barba, sabe? Cheia de bolhas por dentro, mas quando se olha mais fundo, o pânico perde o sentido e se torna uma percepção consciente... espaços...experiência para além da palavra, além dos conceitos. E o pânico passou. Fiquei sentado em meu quarto durante 3 dias, para usar o pânico como objeto de meditação, e depois de 3 dias o pânico passou totalmente. Desde então nunca mais tive pânico. Mas ainda me sinto muito feliz em relação ao meu pânico. Penso que meu pânico é um de meus mestres importantes. Ainda sou agradecido ao meu pânico. Aprendi muita coisa a respeito do meu pânico. Por causa dele estou aqui, e escrevi dois livros: A Alegria de Viver, e o mais novo Joyful Wisdom (Sabedoria Alegre), e nesses livros compartilho a minha experiência com o pânico e como lidar com ele, como transformá-lo. E não somente o pânico. Você pode usar para qualquer outra emoção, depressão, perda de autoestima, raiva, e assim por diante...

Essa postagem foi transcrita, com algumas adaptações, de uma entrevista alegre e despretensiosa concedida pelo jovem mestre Yongey Mingyur Rinpoche e registrada em video, apresentado no site http://vimeo.com/19875915 por Helio Biesemeyer