Mostrando postagens com marcador rinpoche. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador rinpoche. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de abril de 2012

24 X 7

O assunto é Presença. 
Presença no modo 24X7. E você pergunta: "Então o que faz esse morango aí ao lado?
Vou explicar:
Acho que resolvi  o mistério de “Porque há certas lembranças aparentemente corriqueiras que a gente nunca mais esquece, mesmo que se passem cem anos? E, por outro lado, há outras com jeito de “muito importantes” que a gente não lembra mais daí a cinco minutos, apesar de todo o esforço.”
Tenho sentido e observado muito na Contemplação, e ficou claro para mim que as lembranças que perduram são aquelas que tocaram, mesmo que de leve, uma inteligência e memória  que estão por trás do nosso Estar Presente no Agora e fazem parte dele. Algo assim: se eu estou com um nível mínimo de presença dentro de mim, e algo de qualidade, uma cena, um ensinamento, uma lembrança surge na tela dos sentidos, uma alquimia secreta faz a ligação entre as duas coisas de qualidade e pronto, a lembrança fica permanente, guardada no HD da memória, para consultas posteriores ou mesmo aparecendo espontaneamente na tela como um pequeno flash dizendo  “olhe eu aqui!”
Estou escrevendo isso por duas razões; primeiro porque não tenho mais nada que fazer nesse dia ensolarado, olhando o verde do mato aqui na minha janela na granja, e já que estou na frente do teclado... 
Segundo porque me veio à memória, mais uma vez, a lembrança persistente de uma cena que ouvi há uns 30 ou 40 anos num grupo de “busca interior”. Ficou gravada em cores (principalmente o morango), como um filme. Era uma história Zen contada pelo instrutor da época. Vamos lá:
“Um homem andava pela floresta quando sentiu que um lobo o seguia. Apressou o passo, e o lobo atrás, só na espreita... Começou a correr e viu que eram vários lobos, muitos lobos. E “pernas para quem te quero”, como dizia a Dona Josefina.
A certa altura, já exausto, viu que a trilha terminava e estava de frente para um barranco, ou melhor, estava mais para precipício que um simples barranco,  e não dava para saltar para baixo de tão alto que era. E os lobos uivando ferozes nos calcanhares.
Então ele, sem pensar, resolveu saltar e agarrar uma raiz mais abaixo para não se estatelar lá no chão. Os lobos ficaram acima uivando, um inferno.
Bem - pensou - agora preciso achar um jeito de ir descendo, e ao olhar para baixo, vejam vocês, viu um tigre esperando. Brincadeira. Apavorado, suando de esforço e pavor, ficou olhando em volta para achar uma saída. Decididamente não era um bom dia.
Nisso, à distância de um braço viu sabe o quê? Um morango, redondinho, pontudo, vermelhinho e perfumado entre as folhas verdes, com aqueles furinhos em volta. Uma cena.
Esticou o braço, pegou o morango e fechando os olhos, levando-o à boca sentiu o azedinho suave, a textura macia, o prazer de estar vivo, dentro de si mesmo, mastigando calmamente, sentindo um gosto inesquecível de morango, segurando uma raiz com a outra mão já doendo, e ouvindo uivos de lobos”.
Acabou. 

É... Acabou o conto. Mas não o assunto.
Volta e meia esse conto Zen me volta à lembrança. E eu acho que sei porque. Tenho percebido que não há outra saída para quem quer evoluir de verdade, a não ser a firme, sutil e dedicada intenção de estar presente dentro de si mesmo todo o tempo, a todo instante, 24 horas por dia, 7 dias da semana, sem desculpas esfarrapadas. Presente como o homem ao saborear o morango, apesar da pessão. Não é preciso mais nada, nem livros, nem seminários, conferências, workshops, nada disso. Aliás tenho sempre dito aos meus amigos de busca que a maioria de nós já leu mais do que precisava para o seu despertar. Buda não deve ter lido nada, ou muito pouco, já que a tradição era oral. O que precisamos sim é de agir no Agora, com um bom mestre, um bom ensinamento, energia e Intento. Eu ainda leio porque um bom livro funciona para mim como uma dose extra de motivação para a busca. Puro tesão.
Quando digo 24 horas por dia, você que é uma pessoa sintonizada pergunta: “24 horas por dia? Mas e à noite no sono?”. Os mestres dizem que à noite temos que aprender a estar despertos no sono como faziam e fazem budistas, toltecas e outros, e trabalhá-lo como um mundo de atuação normal, com seres, situações, decisões, projetos, enfim, atuação. O meu prezado Lama Samten disse um dia que organiza o seu dia seguinte ou a semana seguinte no sonho á noite. E confirmando isso, assisti no passado um workshop empresarial de um conhecido palestrante, antropólogo que na sua tese de doutorado esteve na Austrália e disse que “os aborígenes australianos também”sonham a caçada” num ritual na véspera, e no dia seguinte vão apenas “buscar a presa” que já foi caçada antes, no sonho”. Os índios brasileiros também. Todos em modo 24X7.
Eu fico encantado com isso: programar o futuro enquanto dorme, desperto e descansando! Belezura, cumadre.
 Nas publicações anteriores O Sonho, Portal da Consciência, O sonho – Visáo Budista, O Sonho – Visáo tolteca e O Sonho e o Rupigwara, falamos muito do assunto. O mestre do Bön Budismo Tenzin Wangyal Rinpoche em seu livro “Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono” diz que o Sonho é uma área de atividade exatamente como é a vigília acordado. Imagine como se fosse um país estrangeiro. Basta aprender o jeito de viajar para lá, a língua, os costumes, e boa viagem. E como bônus, viver dois mundos num só.
Tenho me proposto esse intento de trabalhar 24X7, inclusive no Sonho, seguindo instruções do mestre Tenzin Wangyal Rinpoche, e tenho notado sutilezas interessantes tanto no sonho como no dia a dia, como se os dois mundos começassem a se relacionar. Talvez por isso tenho me lembrado com frequência do conto Zen do morango. Quem sabe?...
Em breve vamos falar das descobertas e dificuldades de intentar viver a Presença 24X7. Aguardem

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O pânico, a cura, o mestre

Nascido em 1975, em Nubri, Nepal, Yongey Mingyur Rinpoche é uma estrela em ascenção da nova geração de mestres do budismo tibetano treinados fora do Tibet.
Aos 3 anos, foi formalmente reconhecido pelo 6º Karmapa como a sétima encarnação de Yongey Mingyur Rinpoche, um estudioso e adepto da meditação do século XVII conhecido como o mestre de métodos avançados da prática budista.
(Nota: Os Karmapas, seres que podem olhar simultaneamente para tudo no passado, presente e futuro, da mesma forma como nós olhamos para algo na palma de nossa mão, são uma linhagem de encarnações de mestres da qual o 6º, Thongwa Donden, também músico, foi o responsável pela sistematização da prática litúrgica Karma Kagyu usada nos rituais)
Vale notar que a palavra Rinpoche - que pode ser traduzida do tibetano como “Precioso” – é um título vinculado ao nome de um grande mestre, similar à forma como o título PhD é agregado a um ocidental considerado especialista em várias áreas do conhecimento.


A entrevista

- O senhor praticava meditação antes de receber treinamento formal?

YMR – Sim. Eu tentava praticar embora não tivesse idéia do que era meditação. Às vezes eu entrava na gruta e fazia de conta que meditava, e minha avó ficou muito apreensiva, pois um dia achou que eu tinha me perdido. Ela pediu para as pessoas me procurarem, e finalmente ela me achou na gruta e disse “Uh! Não faça isso de novo!”, mas, (risos) eu fiz mesmo assim e então ela aceitou e disse: “Se você for para essa gruta, tudo bem”. Então eu tinha permissão da minha avó e da minha mãe. Um dia eu estava sentado lá e fingia meditar - eu não tinha idéia de o que era meditação – mas havia aquele mantra “Om Mani Padme Hum”, todos usam esse mantra em nossa aldeia. Nós os chamamos de mantra da compaixão, o mantra da sabedoria da compaixão. (Nota: esse mantra é muito reverenciado pelos seguidores do atual  14º Dalai Lama. Apesar de afirmarem que não tem uma tradução só, afirma-se que significa “Recebemos a jóia da consciência divina, no centro do nosso chakra da coroa”).
E pensei “talvez eu deva dizer isso mentalmente enquanto estiver na gruta.” E fiz isso. E me senti bem melhor . Quando eu tinha 9 anos, pedi a meu pai, que era um grande mestre de meditação - mas eu era tímido para pedir diretamente - pedi à minha mãe para me ajudar a pedir ao meu pai, para me ensinar meditação, e ele aceitou. E a minha primeira pergunta foi: “recitar Om Mani Padme Hum mentalmente é meditar ou não?”  Meu pai disse sim. E eu fiquei tão feliz. (risos)

- O senhor ficou feliz por agradar seu pai?

YMR – Fiquei feliz porque eu estava fazendo certo. Isso é uma meditação.


- E qual era a sua idade?
YMR – Eu tinha 9 anos, mas... mas embora eu idealizasse meditar - era curioso quanto à meditação – mas eu tinha ataques de pânico quando eu tinha por volta de 8 anos. Eu desenvolvi pânico, mesmo tendo uma família amorosa, um bom ambiente, mas...o pânico me seguia como uma sombra. Às vezes no inverno temos tempestade, tempestades de neve, e muitas coisas acontecem. Eu tinha medo de desastres naturais, medo de trovões, raios, muitos medos. Às vezes não conseguia dormir. Mas comecei a buscar uma solução para o meu pânico. Então aos 9 anos aprendi meditação com o meu pai, para lidar com o pânico. Recebi instruções maravilhosas, mas não praticava muito. Era um menino preguiçoso. Aos 11 anos mudei para o norte da Ìndia, um local chamado Sherab Ling, um local muito bonito perto de Dharamsala, a residência de S. S. Dalai Lama, a duas horas de Dharamsala, uma estrada esburacada, o que é muito bom para o corpo... exercício gratuito! Sabe aquela poltrona de massagem do aeroporto? Em que a gente coloca um pouco de dinheiro? A estrada esburacada é melhor, é de graça (risos). Então...eu estava em Sherab Ling, e quando tinha 13 anos, estava para começar lá um retiro de 3 anos. Um retiro de meditação. Eu quis muito participar do retiro... mas fiquei tímido para pedir, e pedi ao meu pai, para solicitar a Sua Eminência Tai Situ Rinpoche, o chefe do nosso monastério, para aceitar a minha adesão ao retiro, e meu pai escreveu uma carta solicitando. E Rinpoche me perguntou “você quer mesmo participar? Tem certeza?” E eu disse sim. E ele me aceitou, e tive a oportunidade de participar do retiro de 3 anos. E no primeiro ano de retiro meu pânico piorou. Ficou mais forte. Então eu pensei “Hmm”... Eu era muito infeliz naquele tempo, mas eu ainda tinha 2 anos pela frente. Pensei “Uau, ainda tenho 2 anos! Você quer mesmo passar 2 anos desse jeito? Ou você quer aplicar técnicas de meditação para os ataques de pânico?” E decidi aplicar técnicas de meditação para o meu pânico. E então eu disse para o meu pânico “Olá”, pois normalmente descobri que existem dois modos de o pânico piorar e ficar mais forte. Primeiro, você segue o seu pânico. Você só diz “Sim Senhor” e você acredita no pânico, e em qualquer mensagem que venha do pânico. Você apenas acredita que o mundo é terrível, cheio de problemas. Desse modo o pânico se torna seu chefe, e você se torna escravo do pânico. O segundo problema, é que você não gosta do pânico. Você odeia o pânico... “Êi pânico, saia daí!” E você tenta bloquear o pânico. Você tem pânico do pânico! Tem medo do pânico. Às vezes o medo do pânico é mais forte do que o pânico. E assim o pânico se torna seu inimigo. O que eu descobri é que podemos nos tornar amigos do pânico. E como? Diga “olá!" para ele. Então uso o meu pânico como objeto de meditação. E o pânico se transforma numa meditação. Quando olho para o pânico, ele parece uma bolha, como espuma de barba, sabe? Cheia de bolhas por dentro, mas quando se olha mais fundo, o pânico perde o sentido e se torna uma percepção consciente... espaços...experiência para além da palavra, além dos conceitos. E o pânico passou. Fiquei sentado em meu quarto durante 3 dias, para usar o pânico como objeto de meditação, e depois de 3 dias o pânico passou totalmente. Desde então nunca mais tive pânico. Mas ainda me sinto muito feliz em relação ao meu pânico. Penso que meu pânico é um de meus mestres importantes. Ainda sou agradecido ao meu pânico. Aprendi muita coisa a respeito do meu pânico. Por causa dele estou aqui, e escrevi dois livros: A Alegria de Viver, e o mais novo Joyful Wisdom (Sabedoria Alegre), e nesses livros compartilho a minha experiência com o pânico e como lidar com ele, como transformá-lo. E não somente o pânico. Você pode usar para qualquer outra emoção, depressão, perda de autoestima, raiva, e assim por diante...

Essa postagem foi transcrita, com algumas adaptações, de uma entrevista alegre e despretensiosa concedida pelo jovem mestre Yongey Mingyur Rinpoche e registrada em video, apresentado no site http://vimeo.com/19875915 por Helio Biesemeyer