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domingo, 21 de outubro de 2012

A Atenção e as Duas Naturezas

Dr. Conge - um raro buscador
Na página  "Quem escreve? Porque?" deste blog, contei que no passado participei de um Grupo em Sampa, que de 1970 a 1984 foi orientado  pelo Dr. Michel Conge na França, ele discípulo de Gurdjieff. Um período de ouro. 
Michel Conge nasceu em Pau, sudoeste da França em 1912. Cedo decidiu devotar-se à “procura do real atrás das aparências”. Sua questão levou-o primeiramente à medicina. Enquanto trabalhava como médico-biólogo no Instituto Pasteur em Paris encontrou o escritor René Daumal que o introduziu a Jeanne de Salzmann. Ela logo o convidou a se juntar a G.I.Gurdjieff. Iniciando em 1948, encorajado por Gurdjieff e Madame de Salzmann, Conge reuniu à sua volta e de sua esposa, Gilles, um núcleo de homens e mulheres cuja busca ele acompanhou e dirigiu até sua morte em 1984.
A palestra abaixo foi dada por Michel Conge em Santiago do Chile em 06 de agosto de 1966. Extraída de “Record of a Search –Working with Michel Conge in France” de Ricardo Guillon. 
A forma do texto é corriqueira, mas não se enganem, é profunda e exige uma leitura com atenção e às vezes com intervalos a fim de metabolizar cada frase. Aliás ela fala de nada mais que A Atenção (rsrs).
Vamos à palestra do Dr. Conge (como ele era conhecido):

"Eu não pretendo dar uma palestra formal, mas prefiro olhar de perto certas idéias que pertencem ao ensinamento de Gurdjieff. Então eu falarei especialmente àqueles que têm procurado por vários anos ou por vários meses e, tendo se familiarizado com estas idéias, sentem sua verdade. Por exemplo, se eu falar a respeito de liberdade ou liberação, é óbvio que pensa que é livre, consciente, tem vontade e pode fazer qualquer coisa que ela queira na vida.
Apenas aquele ser ao qual a vida mostrou o status de dependência dele e que compreendeu que as coisas são feitas através dele – e não por ele – pode realmente querer tornar-se livre e alcançar a Consciência.
Este ensinamento abrange ideias que são muito desagradáveis de ouvir – por exemplo, que nós somos mecânicos. Esta é uma pílula amarga ao nosso amor-próprio, embora seja verdade, e é relativamente fàcil acatar uma ideia assim: nosso ser pode ser comparado a uma mansão com quatro andares, mas nós ocupamos apenas o porão, um lugar escuro no qual somos mantidos prisioneiros, quando há coisas muito importantes nos outros níveis. Inicialmente pode-se pensar que há algo depressivo nesta ideia  Entretanto, se eu estou querendo olhar a minha vida e todos os fracassos que eu experimentei, posso reconhecer que esta perspectiva explica muitas coisas e, no final, oferece grande esperança: eu percebo que se eu pudesse ocupar todos os cômodos da minha mansão, minha vida mudaria. Da mesma forma, quando nos é dito “Eu não sou o que eu sou”, há nisto um convite à totalidade, que me dá coragem.
Meu desejo esta noite é que nós possamos vir a sentir que uma visão ampla da natureza humana é necessária para um trabalho real sobre Si Mesmo.
Se nós falamos em liberação, questões logo surgirão do tipo ‘por que’ da minha escravidão e de ‘como’ da minha liberação.
A fim de nos ajudar a alcançar uma visão ampla, todos ensinamentos oferecem a ideia de escada, embora ela não seja sempre facilmente reconhecida nos textos antigos, os quais são freqüentemente incompletos ou distorcidos pelos copistas. A constituição dos seres humanos não é plana, mas consiste de níveis, andares. O ser humano não corresponde a apenas um nível do universo, mas a muitos. É algumas vezes dito neste ensinamento que um ser humano completo, desenvolvido, de verdade, tem sua cabeça ao nível das estrelas e seus pés na terra, e isto sugere não apenas um símbolo, mas uma verdadeira escada, indicando uma direção, um reto caminho.
Nós precisamos compreender que as duas naturezas do homem estão inscritas nesta escada: na parte superior da escada, a natureza mais alta; na parte inferior, a natureza ordinária na qual nós vivemos todo o tempo e na qual o centro de gravidade de nossa existência inteira se encontra.
Entre estes dois níveis há um intervalo, um espaço que não pode ser ligado. Muitos textos antigos falam deste intervalo; por exemplo, no Velho Testamento, o esforço entre Jacó e o Anjo que tem lugar precisamente no meio de um rio, num banco de areia. É válido considerar todos os elementos da estória: no banco mais alto, o irmão mais velho e, no banco mais baixo, o irmão mais novo que vem com toda sua família, suas cabeças de gado, suas riquezas, e vem com medo. E o esforço, no qual uma nova força aparece na forma de um Anjo, um mensageiro de Deus – a terceira força (Gênesis 32 a 38, creio).
Consciência e vontade, que são realidades pré-existentes, pertencem à natureza mais alta. Todas as manifestações ilusórias – mentira, imaginação, mecanicidade – correspondem à natureza mais baixa, que recebe apenas pálidos raios de consciência filtrados pelo intervalo.
Nós encontramos no Evangelho – na parábola de Cristo no poço do qual a mulher samaritana vem pegar água – esta ideia de que a fonte da vida reside em uma natureza mais profunda. Intervalo, poço, rio - todas imagens simbólicas que fazem-nos compreender que a água da vida deve ser procurada além de onde esperamos encontrá-la (João 4:12-14 19-21, creio.).
Ao preparar esta conversa, eu me recordei de uma estória Zen da antiga China, a qual é válido contar pelo fato de ser muito simples e clara. Um discípulo veio ao seu mestre com a seguinte questão: “Eu gostaria de compreender a natureza humana”. A resposta do mestre foi pegar uma pá, cortar uma minhoca em dois pedaços em um único golpe e justapor as partes tentando, em vão, reuni-las.
Este é exatamente nosso problema: como religar as duas naturezas que constituem nosso ser?
Para conseguir isto, nós devemos absolutamente ter acesso ao conhecimento daqueles que, através dos tempos, tornaram-se conscientes, aqueles que conseguiram esta união e procuraram transmitir todo seu verdadeiro conhecimento – conhecimento que não pertence ao nível da vida ordinária e não pode ser encontrado em universidades.
Este conhecimento diz-nos que a natureza mais alta procura unir-se à natureza mais baixa. Mas como nós somos agora, esta natureza mais alta não pode mais ser encarnada em nós, devido ao intervalo intransponível. A natureza mais baixa também tenta unir-se à natureza mais alta, mas, ao final, perde-se em tentativas que cegamente movem-se em círculos.
Nenhuma natureza é capaz de se unir com a outra, pois um elemento conector de uma densidade, vitalidade ou qualidade de vibração intermediária falta entre ambas.
Quando chegamos a este ponto, se não recebemos a ajuda do conhecimento objetivo e toda a informação prática e teórica oferecida pelo ensinamento, nós estamos perdidos. Para resolver este problema, necessitamos acesso a uma ciência, a ciência do ser, e devemos pedir, e aprender como pedir, esta ciência.
Na verdade, deixados por nós mesmos, podemos tentar resolver o enigma intelectualmente. Mas mesmo se nós chamarmos nossa qualidade de pensamento mais inteligente, não podemos encontrar nosso caminho a esta união, embora o pensamento seja um instrumento que deve eventualmente ser útil. Ou podemos chamar nosso sentimento, mas igualmente será falho. O mesmo é verdade se nós acreditamos que podemos encontrar a chave do problema no corpo, no instinto. As funções são instrumentos, mas o segredo será encontrado numa qualidade inteiramente diferente. Ela é encontrada na Atenção, esta substância viva tão pouco e pobremente compreendida, embora cada um de nós tenha acesso a ela. Eu posso sempre estar atento.
E a ideia fundamental é: Eu sou a Atenção. Onde minha atenção está, lá eu estou. Se minha atenção é fraca, eu sou fraco; se ela é mecânica, eu sou mecânico; se ela é livre, eu sou livre.
É claro que alguém pode também dizer “Eu sou consciência”; mas isto não é verdade para mim hoje. Será apenas verdade quando minhas duas naturezas tiverem, finalmente, se unido. Então a consciência viverá no meu ser inteiro e eu saberei que eu sou consciência e a consciência sou eu.
Devemos então retornar à atenção e compreender que da mesma forma que eu sou um ser dividido em dois, a atenção em mim é, também, dividida em duas. Há uma atenção mais alta, escondida, inacessível, sobre a qual eu não tenho mais poder do que sobre minha consciência. É, deste modo, inútil tentar qualquer coisa em relação a esta atenção, que é livre, pura, não engajada, una.
E há uma atenção que corresponde à minha natureza mais baixa, mas esta atenção encontra-se ‘caída’ e fragmentada, dividida em correntes divergentes. Eu posso conhecer esta atenção muito melhor do que eu a conheço hoje. Posso reconhecer a mim mesmo nela e, graças a isto, encontrar a mim mesmo (lembrar de mim mesmo). Isto penetra nas minhas funções, que são seus canais ‘obrigatórios’. E agora eu começo a compreender por que é dito que o autoconhecimento é, ou começa, com o conhecimento da máquina. Esta máquina, meu corpo, minha psique, foram-me dados de modo que eu possa tentar reconhecer a mim mesmo enquanto ‘atenção’, e estas três correntes de atenção podem se agrupar neste nível mais baixo.
Eu devo compreender que nesta natureza mais baixa cada corrente de atenção pode aparecer em graus de intensidade diferentes. Eu preciso aprender que a atenção pode se manifestar de maneiras completamente instáveis e errantes. Por exemplo, no meu funcionamento intelectual a atenção errante deixa a si mesmo ser varrida por tudo que a atrai; palavras, imagens, lembranças e cada evento no meu dia podem varrê-la, cada um de seu próprio jeito. Eu saio à rua; as vitrines, as pessoas constantemente tomam esta atenção. Ela não tem maior estabilidade do que uma borboleta. Saia para andar com a intenção de pensar a respeito de seus próprios assuntos. Um cachorro late para você e toma toda sua atenção. Este cachorro é mais forte do que você. Tanto melhor para a força deste homem, que pensou que era consciente, pensou que era mestre de sua própria vontade. E o que ocupa lugar no intelecto também ocupa nas funções emocionais e motoras.
Às vezes, quando um problema ou grande dificuldade surge, minha atenção pode ser concentrada, condensada; sua qualidade muda, ela adquire mais força, é sustentada por um elemento de desejo ou interesse. Não mais errática, ela é capturada: um motivo especialmente forte a tomou.
Há, entretanto, uma espécie de atenção muito diferente, uma atenção que é mais consciente, mais voluntária. Algumas vezes, em ocasiões raras, eu descubro o gosto dela.
Se isto ocorre no meu pensamento, eu vejo que meu pensamento se torna claro. E se isto ocorre no meu sentimento, eu conheço o sentimento de ser completamente livre das minhas emoções habituais. Em relação ao meu corpo, posso também experimentar de uma maneira nova o que está acontecendo ao seu nível.
O que é importante é aprender que cada um destes graus ou qualidades de atenção corresponde a um dos três níveis dos meus centros, pois cada centro consiste de três níveis:

  • um nível motor ou mecânico,
  • um nível emocional,
  • um nível intelectual.

O conhecimento da correspondência entre cada gosto específico de atenção e cada um destes níveis é um enorme segredo. Se eu aprender a reconhecer e ver isto, o caminho na direção da unificação ou reunificação da atenção se torna aparente. Mas eu tenho que compreender que estes três caminhos devem ser experimentados simultaneamente. Para praticar, é bom trabalhar primeiro em um centro, depois em outro. Entretanto, no nível da minha natureza ordinária, o retorno à atenção reunificada é possível apenas quando os três centros essenciais da minha natureza mais baixa se encontrarem, ou seja, quando estiverem nos seus níveis mais altos. Apenas neste momento a atenção efetivamente adquire uma nova característica: ela se transforma em atenção verdadeiramente voluntária, atenção consciente. Eu não estou dizendo que isto é consciência ou vontade, mas seu caráter consciente e voluntário ajuda-me a compreender que há algo agora nesta atenção regenerada que pode corresponder às propriedades da natureza mais alta.
Mesmo assim, esta união não é, ainda, possível. Entretanto, eu prossigo vivendo minha vida e compreendo que, graças ao esforço de desengajamento, todos estes esforços ao nível de cada função permitem que a atenção adquira propriedades que estavam faltando antes. E eu compreendo ambos, a razão para este nascimento no corpo e o significado do esforço de retornar à origem.
Ao nível do centro intelectual, a atenção adquire um poder de visão. É como uma luz que sustenta tudo no seu campo de iluminação.
Ao nível do centro emocional, a atenção adquire um calor que estava faltando, graças ao qual o esforço pode ser sustentado por um momento sem enfraquecer.
Ao nível do corpo, a atenção é sustentada por um novo fenômeno, que leva muitos anos para compreender bem: uma sensação de Si Mesmo, uma sensação que não é nem agradável nem desagradável. Eu sei que eu estou aqui
  • por esta visão,
  • por este sentimento,
  • por esta sensação,
e estes são os sinais que antecedem a descida da Consciência e Vontade.
Mas isto ainda não é suficiente. Se for verdade que, graças à sensação, a atenção se beneficia de um suporte sólido que evita que ela vagueie, e se, devido a este novo sentimento e clareza, a atenção pode evitar o estado cativo, eu ainda preciso me familiarizar melhor com fontes adicionais de ajuda. E eu as encontrarei na descoberta das impressões conscientes de Mim Mesmo.
Eu estou realmente dizendo conscientes, impressões intencionais de mim mesmo, do que vive no meu ser. Eu sei tudo sobre impressões, eu as recebo todo o tempo – impressões não intencionais, mecânicas, oriundas do ambiente. Cada coisa, cada pessoa que eu vejo, a temperatura desta sala, toda a comida que eu como – tudo isto causa impressões. Mas se é verdade que estas impressões permitem-me viver, e se é verdade que eu poderia morrer neste mesmo instante se eu parasse de recebê-las, é também verdade que estas impressões lentamente me destroem. Elas capturam minha força de atenção, elas me empurram à reação.
Qual é o significado de impressões conscientes e intencionais de si mesmo?
É, em primeiro lugar, a impressão de mim mesmo recebendo as impressões mecânicas da vida, o impacto da vida, e devo fazer o esforço para experimentar isto freqüentemente. Aqui minha atenção encontra um suporte de modo a não se perder.
Mas eu devo descobrir impressões mais profundas – não ainda as impressões reais e diretas da minha natureza mais alta, mas, de preferência, das partes mais altas dos centros mais baixos.
E, finalmente, uma terceira espécie de impressão – de mim mesmo conhecendo a impressão desta vida profunda e, ao mesmo tempo, recebendo as impressões mecânicas da vida.
Isto ilumina o conceito bem conhecido do Bhagavad Gita – o campo de ação, o conhecedor do campo e aquele que conhece, ao mesmo tempo, o campo e o conhecedor do campo. É exatamente a mesma coisa.
Muito mais poderia ser dito sobre a questão da atenção. Por exemplo, a ideia da mudança de sinais, baseado no conceito de relatividade. O nível mais baixo de cada centro deveria ser passivo e, em relação a ele, o nível mais alto deveria ser ativo. Isto seria normal. Mas no meu modo habitual de ver precisamente o oposto ocorre. Se nós retornarmos à ideia de duas naturezas, a natureza mais alta deveria ser ativa, no comando, e a natureza mais baixa deveria ser passiva, a serviço. Na verdade a natureza mais alta permanece passiva e a agitada natureza mais baixa roga, para si, o papel ativo; e isto porque não há nada que as reconcilie.
É o mesmo em cada um dos meus centros. Mas eu posso compreender que quando eu tento libertar minha atenção, ela aparenta ser ativa (eu aparento ser ativo) em relação ao mecanismo que se torna passivo. Progressivamente, eu vejo a permutação de sinais revelada.
Finalmente, se os níveis mais altos dos centros de tornarem ativos, um grande evento pode acontecer: toda esta natureza, agora unificada e ordenada, pode começar a servir à natureza mais alta. A ordem de sinais é revertida.
Melhor ainda, como eu liberto a mim mesmo das funções e como minha atenção, carregada com novo poder, reveste cada uma das funções, eu descubro que uma nova estrutura está, gradualmente, tomando forma, permeada de qualidades de pensamento, sentimento e sensação que eu não conhecia anteriormente. Esta estrutura – um novo corpo se formando, condensando, organizando – é o elemento intermediário anteriormente perdido capaz de unir as naturezas alta e baixa.
A partir daquele momento, pode-se falar em Vigilância, quer dizer, uma capacidade de viver um esforço de tal modo que o sinal não mais reverta e a ligação verdadeiramente ocorra.
Tudo isto eu devo, agora, tentar viver e carregar na intimidade do meu coração, protegendo-o contra todas as coisas que possam destruí-lo."

domingo, 18 de março de 2012

O Desnate - O mistério da Percepção desvendado

Você já deve ter percebido que todas as tradições autênticas de busca interior, entre elas o budismo, o hinduismo, o cristianismo, falam, com diferentes nuances, que o mundo é uma ilusão, uma criação da nossa mente, e por aí afora. Afirmam que a realidade não é vista diretamente por nós humanos, algo assim como um aquário onde colocaram um corante na água e o peixinho diz: “O mundo é azul”...
O cinema engajado na busca interior já percebeu isso e produziu filmes e séries muito interessantes sobre o tema, como Matrix, O Show de Truman, Cidade das Sombras e outros.
A gente então, para não encrencar logo de saída, pode até aceitar que o que chamamos de realidade, ou de mundo, é um “produto de segunda mão”, uma interpretação da “verdadeira realidade”.  Mas esse aceitar soa mais como uma adesão gratúita, um "aceitar por aceitar", porque a rigor aí tem um problema, um ponto obscuro: como funciona esse processo pelo qual a realidade é escamoteada de nós? Como é exatamente que a gente é enganado? Ninguém explica isso direito.
Vamos então tentar explicar segundo a visão dos videntes toltecas que há muitos milhares de anos atrás esclareceram o mistério melhor que a Psicologia atual, que somente agora começou a arranhar a superfície da coisa.
Antes disso, como já acenamos de passagem em algumas postagens anteriores como O Mar Escuro da Consciência, temos que dar uma breve visão geral de alguns conceitos que formam o universo dessa incrí vel e milenar tradição. Vamos ver o que diziam os toltecas:
•    Há duas forças universais, de criação e destruição, atuando a cada instante eternamente. Uma faz, outra desfaz.
 
•    Então, a função de qualquer ser vivo é gerar Consciência para alimentar essa fonte eterna de energia inteligente chamada de O Mar Escuro da Consciência, senão ela acaba. 
•    Visto pelos xamãs e videntes toltecas, em estados alterados de consciência, O Mar Escuro da Consciência se mostra como uma incomensurável Águia.
•    Essa fonte produz emanações (chamadas “comandos da Águia”) que sustentam a vida de tudo o que há no Universo, mas na hora da morte Ela pede de volta a Consciência que foi produzida pelos seres vivos, na sua passagem pelos mundos. Ela dá Vida e cobra a Consciência obtida. Justo, não? Você pensou que viver era de graça?...
•    As emanações (Gurdjieff as chama de impressões - "sem as quais não vivemos sequer um segundo") que chegam aos seres vivos são caóticas, pois vem de uma dimensão profunda, fora do tempo e espaço do cosmos, fora da mente racional, e quem as vislumbrasse diretamente não entenderia nada ou poderia ficar louquinho. As ervas usadas pelos xamãs em rituais tem o poder, entre outras coisas, de dar ao iniciante uma visão desse intrigante caos, como forma de quebrar a ditadura da mente racional que insiste em que o mundo é só esse mundo visto pelos 5 sentidos. Foi assim que Don Juan fez com Castaneda, que tomou peyote e mescalito, mas somente para "quebrar" seu mental teimoso e cristalizado. Não era para dar nenhum "barato".
•    A Águia nos deu a Razão, uma ferramenta para organizar o caos e torná-lo compreensível nessa dimensão em que estamos, mas a Razão não entende o caos. Ela precisa de um filtro que traduza e interprete as emanações “em estado bruto”, tornando-as familiares a nós.
•    Às emanações filtradas e interpretadas, nós chamamos de mundo, coisas, objetos, pensamentos, sensações, emoções, sentimentos, realidade, universo, ou lá o que seja.
•    O processo de filtrar a realidade era chamado pelos toltecas de “desnate”, pois é exatamente como fazemos com o leite fervido para tirar a nata e deixá-lo bonitinho e estéticamente aceitável e agradável. É assim que nos ensinam a fazer com a impressões que nos chegam, transformando-as no mundo familiar que conhecemos.
•    Uma vez que uma impressão qualquer foi “desnatada” quando chegou, nunca mais vamos percebê-la originalmente como era. Só como ficou de aí por diante.
•    A Percepção acontece fora do nosso corpo físico, mas ainda dentro do invólucro maior que é o nosso corpo energético. Ela ocorre dentro de uma esfera luminosa do tamanho de uma bola de tênis que fica nas costas do ovo luminoso que envolve nosso corpo, na altura da omoplata. Esse ovo é o nosso corpo energético.
 
•    Existem 3 atenções, 3 níveis de talento, cada uma com seu domínio independente, completas por si só. Esse processo do desnate se dá na primeira atenção, que é a habitual do dia a dia, a única que conhecemos. A segunda é a atenção intensificada dos xamãs, homens de conhecimento, e que às vezes pressentimos, mas logo descartamos. A terceira, raríssima, é a atenção unificada pelo fogo interior, que acende todas as emanações da Águia presentes no ovo luminoso do ser, e o transforma em energia sem deixar vestígios. (As tradições registram casos conhecidos do fenômeno)

Muito bem. Definidos os conceitos, vamos à operação. (Está parecendo apresentação de negócios. - rsrs)
Cena: Somos ainda bebes. Chega à nossa percepção uma emanação qualquer vinda das profundezas da Consciência (impressão de qualquer tipo nos cinco sentidos conhecidos - mais outros sentidos que sequer conhecemos). Nós nos maravilhamos. Ato contínuo, chega alguém, o pai, a mãe, professor, padre, rabino, pastor, sei-lá-quem (o mundo está cheio de ajudantes e mestres generosos e dedicados) e prontamente, com a maior das boas intenções, define a complexa emanação de uma maneira rasteira como ele ou ela mesmo aprendeu pelo processo de socialização da chamada "educação": em geral ele ou ela dá um nome à coisa, ou esconde “porque é feio”, ou descarta, ou “enfeita o pavão”. Pronto. Rotulou. Desnatou. Fechou o assunto. Na próxima vez que a emanação se apresentar, a vítima já está vendo a impressão “desnatada”. Não é mais a mesma emanação original, mas um subproduto falsificado da Realidade. A vítima então já é um sócio, já pertence ao clube, que é toda a humanidade socializada, que enxerga tudo padronizado como vimos em Matrix e nos outros 2 filmes. Você é um deles. Tristeza, não? Mas tem que ser assim... O personagem do filme, Neo (novo ser) é cada um de nós, com a vocação de sair dessa.

 O que é então esse desnate? É o filtro da Realidade. É o que a transforma numa interpretação falseada dela mesma.
É esse processo que chamamos ingenuamente de Aprendizado, Educação... Para nos reconectarmos mais tarde com a Realidade, temos que desaprender tudo com muito esforço e dedicação. Bota esforço nisso.
Vamos abaixo relatar uma manobra soberba de dois exímios xamãs, Don Juan e Don Genaro, manipulando a percepção do aprendiz Castaneda, para mostrar o que era uma impressão antes do “desnate”, ou seja, como era o mundo das emanações, dos comandos da Águia antes de a filtragem do aprendizado “interpretar” a Realidade: como é que era primordialmente, por exemplo, a complexa emanação original chamada por nós (depois de interpretada) de o sol, a árvore, o chão, etc, e cuja percepção, antes do desnate, demandava todo o nosso ser integralmente, todos os sentidos conhecidos ou não, e não somente um deles como fazemos habitualmente. 

Até aqui, tudo bem? Todos a bordo? Então vamos nessa:

"- Dom Juan aproximou-se mais de mim. Inclinou-se e cochichou em meu ouvido direito.
Dom Genaro também se inclinou para mim e cochichou em meu ouvido esquerdo.

Ficaram sussurrando em meus ouvidos até eu ter a sensação de estar sendo dividido ao meio. Tornei-me uma névoa, como na véspera, um brilho amarelo que sentia tudo diretamente. Isto é, eu podia saber as coisas. Não se tratava de pensamentos; só havia certezas. E quando entrei em contato com uma sensação suave, esponjosa, saltitante, que ficava fora de mim e no entanto era parte de mim, eu sabia que era uma árvore. Senti que era uma árvore pelo cheiro. Não tinha o cheiro de nenhuma árvore específica de que eu me lembrasse, e não obstante alguma coisa dentro de mim sabia que aquele odor especial era a essência da árvore. Não tinha apenas a impressão de saber, nem raciocinei sobre meu conhecimento, nem remexi com indícios. Simplesmente sabia que havia ali alguma coisa em contato comigo, em volta de mim, um cheiro amigo, quente e compulsivo emanando de algo que não era nem sólido nem líquido, e sim algo diferente, indefinido, que eu sabia ser uma árvore. Senti que sabendo dela desse jeito eu estava tocando em sua essência. Não me sentia repelido por ela. Ao contrário, ela me convidava para me fundir com ela. Engolfava-me, ou eu a engolfava. Havia um laço entre nós que não era nem maravilhoso nem desagradável.
A sensação seguinte de que pude me lembrar com clareza foi uma onda de assombro e exultação. Em mim, tudo vibrava. Era como se me atravessassem cargas de eletricidade. Não eram dolorosas. Eram agradáveis, mas de uma forma tão indeterminada que não havia meio de classificá-las. Não obstante, eu sabia que aquilo com que eu estava em contato era o solo. Uma parte de mim reconhecia com uma certeza precisa que era o solo. Mas no momento em que tentei distinguir a infinidade de percepções diretas que eu estava tendo, perdi toda a capacidade de diferenciar minhas percepções.
Aí, de repente, eu era eu mesmo outra vez. Estava pensando. Foi uma transição tão abrupta que pensei que eu tinha acordado. No entanto, havia algo em meu modo de sentir que não era bem eu. Eu sabia que realmente faltava alguma coisa antes mesmo de abrir bem os olhos. Olhei em volta. Ainda estava num sonho, ou tendo alguma visão. Meus processos mentais, porém, não só estavam afetados, como eram extraordinariamente claros. Fiz uma avaliação rápida. Eu não tinha dúvidas de que Dom Juan e Dom Genaro tinham provocado meu estado de sonho com um  propósito específico em mente. Eu parecia estar a ponto de compreender qual era esse propósito quando algo estranho a mim obrigou-me a prestar atenção ao que me cercava. Levei tempo para me orientar. Eu estava deitado de bruços, e num chão espetacular. Examinando-o, não pude deixar de sentir assombro e admiração. Não consegui imaginar de que fosse feito. Placas irregulares de alguma substância desconhecida tinham sido colocadas de um modo muito complexo e ao mesmo tempo simples. Tinham sido postas juntas, mas não estavam pregadas no chão nem umas nas outras. Eram elásticas e cediam quando eu tentava afastá-las com meus dedos, mas quando as soltava, voltavam logo a sua posição original.
Tentei levantar-me e fui preso da mais absurda distorção sensorial. Eu não tinha controle sobre meu corpo; na verdade, meu corpo nem parecia me pertencer. Era inerte; eu não tinha ligação com nenhuma de suas partes e, quando tentei levantar-me, não consegui mexer os braços e fiquei me contorcendo indefeso, de barriga para baixo, rolando de lado. O impulso de minhas contorções quase me fez dar uma volta completa, tornando a ficar de bruços. Meus braços e pernas esticados me impediam de virar-me e fui parar de costas. Nessa posição, vi de relance duas pernas de forma estranha e os pés mais distorcidos que jamais vira. Era o meu corpo!
Eu parecia estar envolto numa túnica. A idéia que me veio à mente foi que eu estava experimentando uma cena de mim mesmo como aleijado ou inválido. Tentei curvar as costas e olhar para minhas pernas, mas só conseguia sacudir o corpo. Estava olhando para um céu amarelo, um céu de um amarelo-limão, forte e profundo. Ele tinha fendas ou canais de um tom amarelo mais profundo e uma porção de protuberâncias penduradas como pingos d’água. O efeito total daquele céu incrível era arrasador. Eu não conseguia saber se as protuberâncias eram nuvens. Havia ainda zonas de sombras e zonas de diferentes tons de amarelo, que fui descobrindo ao mexer a cabeça de um lado para o outro.
Aí alguma outra coisa atraiu a minha atenção: um sol no zênite mesmo do céu amarelo, bem sobre minha cabeça, um sol fraco a julgar pelo fato de eu poder olhar para dentro dele - que lançava uma luz calmante, branca e uniforme.
Antes de ter tempo de ponderar sobre todas essas visões extraterrenas, fui violentamente sacudido; minha cabeça pulava para diante e para trás. Senti que estava sendo erguido. Ouvi uma voz estridente e risadas e defrontei-me com um espetáculo realmente espantoso: uma mulher gigantesca, descalça. A cara dela era redonda e enorme. Seus cabelos negros estavam cortados no estilo pajem. Tinha braços e pernas gigantescos. Pegou-me e levantou-me, pondo-me em seus ombros, como se eu fosse um boneco. Meu corpo estava flácido. Olhei pelas costas dela. Tinha uma penugem fina em volta dos ombros e pela espinha abaixo. Olhando para baixo, dos ombros dela, tornei a ver aquele chão maravilhoso. Eu o ouvia ceder, elástico, sob o peso imenso dela e via as marcas de pressão que seus pés deixavam nele.
Ela me largou de bruços defronte de uma estrutura, uma espécie de prédio. Aí notei que havia algo de errado com a minha percepção de profundidade. Não consegui avaliar o tamanho do prédio, olhando para ele. Em certos momentos, parecia ridiculamente pequeno, mas depois que eu, aparentemente, ajustei minha percepção, fiquei realmente maravilhado com suas proporções monumentais.
A moça gigantesca sentou-se a meu lado e fez o chão ranger. Eu estava encostado a seu joelho imenso. Ela tinha cheiro de bala ou morangos. Falou comigo e eu entendi tudo o que ela disse; apontando para a estrutura, ela me afirmou que eu ia morar ali.
Meus poderes de observação pareceram aumentar, quando venci o choque inicial de me encontrar naquele local. Reparei então que o prédio tinha quatro lindas colunas não funcionais. Nada sustentavam; estavam em cima do prédio. Sua forma era a simplicidade total; eram projeções longas e graciosas, que pareciam se estar estendendo até aquele céu assombroso, incrivelmente amarelo. O efeito daquelas colunas invertidas era de pura beleza para mim. Tive um acesso de êxtase estético.
As colunas pareciam ter sido feitas de um só bloco; eu não podia nem conceber como. As duas colunas da frente estavam ligadas por uma trave fina, uma barra de comprimento monumental, que, pensei, podia ter servido como parapeito ou de varanda.
A moça gigantesca me fez deslizar de costas para dentro da estrutura. O telhado era negro e plano, coberto de furos simétricos, que deixavam passar o brilho amarelado do céu, criando os desenhos mais complicados. Fiquei realmente assombrado com a completa simplicidade e beleza alcançadas por aqueles pingos de céu amarelo aparecendo por aqueles furos precisos no telhado e os desenhos de sombras que eles criavam naquele chão magnífico e complicado. A estrutura era quadrada e, fora de sua beleza tocante, ela me era incompreensível.
Meu estado de exaltação era tão intenso naquele momento que tive vontade de chorar, ou de ficar ali para sempre. Mas alguma força, ou tensão, ou algo de indefinível começou a me puxar. De repente, vi que estava do lado de fora da estrutura, ainda deitado de costas. A moça gigantesca se encontrava lá, mas com ela havia outra criatura, uma mulher tão grande que chegava até o céu e tapava o sol. Comparada com ela, a moça gigantesca não era mais que uma menininha. A mulher grande estava zangada; agarrou a estrutura por uma de suas colunas, levantou-a, virou-a de pernas para o ar e largou-a no chão. Era uma cadeira!
Aquela percepção foi catalisadora; desencadeou percepções arrasadoras. Passei por uma série de imagens desconexas, mas que podiam figurar como uma seqüência. Em lampejos sucessivos, vi ou percebi que o piso magnífico e incompreensível era uma esteira de palha; o céu amarelo era o teto de estuque de um quarto: o sol, uma lâmpada; a estrutura que provocara tal êxtase em mim era uma cadeira que uma criança virara de pernas para o ar para brincar.
Tive mais uma visão coerente e em seqüência de outra estrutura arquitetônica misteriosa de proporções monumentais. Ela estava isolada. Parecia quase a concha de uma lesma pontuda com a cauda levantada. As paredes eram feitas de placas côncavas e convexas de um material estranho e roxo; cada placa apresentava fendas que pareciam mais funcionais que ornamentais.
Examinei a estrutura meticulosamente em seus detalhes e descobri que, como no caso anterior, ela era completamente incompreensível. Esperava de repente ajustar minha percepção para revelar a verdadeira natureza da estrutura. Mas nada aconteceu a esse respeito. Tive então um aglomerado de consciências ou descobertas alheias e emaranhadas quanto ao prédio e sua função, que não faziam sentido, pois eu não tinha um padrão de referência para elas.
Recuperei minha consciência normal de repente. Dom Juan e Dom Genaro estavam a meu lado. Eu me senti cansado. Procurei meu relógio; tinha sumido. Dom Juan e Dom Genaro riram-se em coro. Dom Juan disse que eu não devia estar preocupando-me com a hora e sim concentrar-me em seguir certas recomendações que Dom Genaro me fizera.
Virei-me para Dom Genaro e ele disse uma piada - a recomendação mais importante era que eu aprendesse a escrever com o dedo, para economizar os lápis e para me exibir.
Eles ainda implicaram mais um pouco comigo por causa de minhas anotações e depois eu fui dormir.
Dom Juan e Dom Genaro escutaram o relato detalhado de minha experiência, que lhes dei a pedido de Dom Juan, depois que acordei no dia seguinte.
- Genaro acha que você já fez bastante, por enquanto – disse Dom Juan, quando terminei.
Dom Genaro concordou, com um meneio.
- Qual o significado do que experimentei ontem à noite? Perguntei.
- Você teve uma visão da coisa mais importante da feitiçaria - explicou Dom Juan. - Ontem à noite você espiou a totalidade de você. Mas naturalmente isso é uma coisa sem sentido para você, neste momento. Obviamente, chegar à totalidade de seu ser não depende de seu desejo de concordar, nem da disposição de aprender. Genaro acha que seu corpo precisa de tempo para deixar que os sussurros do nagual penetrem você.
Dom Genaro tornou a balançar a cabeça.
- Muito tempo - disse ele, sacudindo a cabeça para cima e para baixo. - Uns 20 ou 30 anos, talvez.
Não sabia como reagir. Olhei para Dom Juan, buscando indicações. Os dois estavam sérios.
- Preciso mesmo de 20 ou 30 anos? - perguntei.
- Claro que não! - gritou Dom Genaro, e os dois caíram na gargalhada.
Dom Juan disse que eu devia voltar sempre que minha voz interior me mandasse, e que enquanto isso devia procurar concatenar, todas as sugestões que eles tinham feito enquanto eu estava dividido.
- E como vou fazer isso? - perguntei.
- Desligando seu diálogo interno e deixando alguma coisa em você fluir e expandir-se - disse Dom Juan. - Essa coisa é a sua percepção, mas não procure decifrar o que quero dizer. Apenas deixe que os sussurros do nagual o guiem.
Aí ele disse que na noite anterior eu tivera duas séries de visões intrinsecamente diferentes. Uma era inexplicável, a outra, perfeitamente natural, e a ordem em que tinham ocorrido mostrava uma condição que é intrínseca a todos nós.
- Uma foi o nagual, a outra, o tonal - acrescentou Dom Genaro.
Pedi que ele explicasse essa declaração. Ele me olhou e me deu um tapinha nas costas.
Dom Juan interveio e disse que as duas primeiras visões eram o nagual e que Dom Genaro escolhera uma árvore e o solo como os pontos de ênfase. As duas outras eram visões do tonal, que ele próprio escolhera; uma delas era minha percepção do mundo como criança.
- Parecia-lhe ser um mundo estranho porque a sua percepção ainda não fora preparada para caber no molde desejado - disse ele.
- Foi mesmo assim que vi o mundo? - perguntei.
- Por certo - disse ele. - Isso foi a sua memória.
Perguntei a Dom Juan se a sensação de apreciação estética que me extasiara também fazia parte de minha memória.
- Nós temos essas visões como estamos hoje - disse ele.
Você estava vendo aquela cena como a veria agora. No entanto, o exercício era de percepção. Era uma cena de uma época em que o mundo se tornou para você o que é agora. Um tempo em que uma cadeira tornou-se uma cadeira”.


Eu acrescentaria: "cena de uma época em que para você, as coisas ainda não tinham nome, só essência. Apenas eram. E você via a essência delas na sua totalidade. Sem desnate".

domingo, 11 de março de 2012

O Mar Escuro da Consciência, Mundos Gêmeos, Seres Inorgânicos, a Morte, "y otras cositas más"


Se me perguntassem “qual o melhor livro que você leu na sua vida?” eu diria sem dúvida “16 livros da obra de Castaneda e discípulos” (rsrs).
Exagero? O editor do New York Times, um "jornalzinho lá da matriz", sério, e parcimonioso em distribuir elogios, disse em 2001, quando foi editado o 12º livro do autor, O Lado Ativo do Infinito: “Somos incrivelmente afortunados em ter os livros de Carlos Castaneda.Tomados em conjunto formam uma obra que está entre o melhor que a ciência da Antropologia já produziu.
Por essa você não esperava, né?...Eu acrescentaria: "e o melhor que a tradição do Xamanismo produziu, também".
Infelizmente há um porém: grande parte da compreensão da obra foi comprometida pelo trabalho de “tradutores-traidores” que juntaram o seu desconhecimento do tema à “marquetagem” oportunista das editoras. Quer um exemplo?: O 1º livro da obra, que em inglês chama-se “The Teachings of Don Juan” ou Os Ensinamentos de Don Juan, foi traduzido e publicado no Brasil como “A Erva do Diabo”, para linkar a obra às drogas e a cultura hippie dos anos 60, que dava mais dinheiro que chuchu na serra. Isso deu resultado comercial  imediato, mas comprometeu a divulgação da valiosa tradição dos videntes toltecas de conhecimento interior. Muita gente torce o nariz até hoje, achando que a obra é uma apologia das drogas e ervas alucinógenas, apesar das explicações claras de Don Juan. Mas isso é outra história...
Vamos ver então Don Juan falando a Castaneda dessa energia descomunal, incompreensível e eterna que os homens de conhecimento toltecas chamava o Mar Escuro da Consciência (outros chamam de Deus), e falando também de mundos gêmeos, seres inorgânicos, morte “y otras cositas”: 

Os xamãs videntes toltecas "viam" essa energia como A Águia, uma incomensurável fonte de energia eterna, que estava ligada a cada esfera individual de Consciência humana ou de qualquer ser senciente no Universo , pois ela empresta Vida a todos os seres e no final da vida pede a consciência adquirida de volta. Muito aqui entre nós, os videntes, através de um processo chamado Recapitulação, faziam uma cópia da Consciência que adquiriram na vida, entregavam-na à Águia na hora da morte e mantinham a sua consciência individual depois da morte. E diziam que qualquer um poderia fazer isso (com muito trabalho, claro. Quer moleza?). Ops, contei o final do filme...
Vamos lá:
“- Enquanto estavam no auge de seus poderes de percepção, os videntes toltecas viam algo que os fazia tremer nas calças, se estivessem vestindo uma. Viam que o Mar Escuro da Consciência é responsável não só pela consciência dos organismos, mas também pela consciência das entidades que não têm um organismo.
- O que é isso, Dom Juan, seres sem um organismo, e que têm consciência? - perguntei, surpreso, pois ele nunca mencionara essa idéia antes.
- Os xamãs antigos descobriram que todo o universo é composto de forças gêmeas - ele começou -, forças que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre si. É inevitável que o nosso mundo seja um mundo gêmeo. Seu mundo oposto e complementar é habitado por seres que têm consciência, mas não um organismo. Por essa razão, os xamãs antigos os chamam de seres inorgânicos.
- E onde está esse mundo, Dom Juan?
- Aqui, onde você e eu estamos sentados - respondeu com naturalidade, mas rindo abertamente de meu nervosismo. - Eu disse a você que esse era o nosso mundo gêmeo, portanto está intimamente relacionado a nós. Os feiticeiros do México antigo não pensavam como você pensa em termos de espaço e tempo. Pensavam exclusivamente em termos de consciência. Dois tipos de consciência coexistem sem nunca colidir uma com a outra, pois cada tipo é completamente diferente do outro. Os xamãs antigos enfrentavam esse problema de coexistência sem se preocuparem com tempo e espaço. Raciocinavam que o grau de consciência dos seres orgânicos e o grau de consciência dos seres inorgânicos eram tão diferentes que ambos poderiam coexistir com o mínimo possível de interferência.
- Nós podemos perceber esses seres inorgânicos, Dom Juan? - perguntei.
- Com certeza - respondeu ele. - Os feiticeiros os percebem quando querem. As pessoas comuns fazem isso, mas não se dão conta que o fazem porque não são conscientes da existência do mundo gêmeo. Quando pensam em um mundo gêmeo, entram em todo tipo de masturbação mental, mas nunca lhes ocorre que as suas fantasias têm sua origem num conhecimento subliminar que todos nós temos: que não estamos sós.
Fiquei preso às palavras de Dom Juan.
- A dificuldade de se perceber as coisas em termos de tempo e espaço - continuou ele - é que você só nota se alguma coisa desembarcou no tempo e no espaço que está à sua disposição, e isso é muito limitado. Os feiticeiros, por outro lado, possuem um vasto campo onde podem notar se algo estranho desembarcou. Muitas entidades do universo como um todo, entidades que possuem consciência mas não um organismo, desembarcam no campo de consciência de nosso mundo, ou no campo de consciência de seu mundo gêmeo, sem que um ser humano comum jamais os perceba. As entidades que desembarcam em nosso campo de consciência, ou no campo de consciência de nosso mundo gêmeo, pertencem a outros mundos que existem além do nosso mundo e de seu gêmeo. O universo como um todo está abarrotado até a borda de mundos de consciência, orgânicos e inorgânicos.”
Curiosamente, aqui entre nós (mais a Dona Dolores e os meninos da escola) a “ciência de plantão” fala hoje nos Discovery, NatGeo e outros, de mundos gêmeos não mais como “coisa pseudo-científica inventada” mas como “coisa da vanguarda do conhecimento”. Os índios toltecas falavam do assunto já há milhares de anos em volta da fogueira. É mole?  A história do verdadeiro conhecimento da humanidade precisa ser reescrita.
“Dom Juan continuou falando e disse que aqueles feiticeiros sabiam quando a consciência inorgânica dos outros mundos além de nosso mundo gêmeo tinha desembarcado nos seus campos de consciência. Disse que, como todos os seres humanos nessa terra fariam, aqueles xamãs faziam intermináveis classificações dos diferentes tipos dessa energia que possui consciência. Elas eram conhecidas pelo termo genérico de seres inorgânicos.
- Esses seres inorgânicos têm vida como a nossa vida? perguntei.
- Se você pensa que Vida é ter Consciência, então eles têm vida - disse ele. - Suponho que seria correto dizer que se a vida pode ser medida pela intensidade, pela agudeza, pela duração daquela consciência, posso sinceramente dizer que eles são mais vivos do que você e eu.
- Esses seres inorgânicos morrem, Dom Juan? - perguntei. Dom Juan deu um risinho antes de responder.
- Se você chama morte o término da consciência, sim, eles morrem. Sua consciência acaba. Sua morte é como a morte de um ser humano e, ao mesmo tempo, não é, porque a morte dos seres humanos tem uma opção oculta. É algo como uma cláusula num documento legal, uma cláusula que é escrita em letras muito pequenas que mal se consegue enxergar. Você precisa usar uma lente de aumento para ler, porém é a cláusula mais importante do documento.
- Qual é a opção oculta, Dom Juan?
- A opção oculta para a morte é exclusiva dos feiticeiros. Eles são os únicos, que eu saiba, que leram as letrinhas. Para eles, a opção é pertinente e funcional. Para os seres humanos comuns, morte significa o fim de sua consciência, o fim de seu organismo. Para os seres inorgânicos, morte significa o mesmo: o fim de sua consciência. Em ambos os casos, o impacto da morte é o ato de ser sugado para o Mar Escuro da Consciência. As suas consciências individuais, carregadas com as suas experiências de vida, quebram as suas fronteiras, e a consciência enquanto energia se perde no Mar Escuro da Consciência.
- Mas o que é a opção oculta da morte que somente os feiticeiros captam, Dom Juan? - perguntei.
- Para um feiticeiro, a morte é um fator unificador. Em vez de desintegrar o organismo, como comumente acontece, a morte o unifica.
- Como pode a morte unificar alguma coisa? - protestei.
- A morte para um feiticeiro - disse ele - termina o reino dos temperamentos individuais no corpo. Os feiticeiros antigos acreditavam que era o domínio de diferentes partes do corpo que regia os temperamentos e as ações do corpo total; partes que se tornaram disfuncionais arrastavam o resto do corpo para o caos, como, por exemplo, quando você fica doente por comer porcaria. Nesse caso, o estado do seu estômago afeta todo o resto. A morte erradica o domínio dessas partes individuais. Ela unifica a sua consciência em uma única unidade.
- Você quer dizer que depois que os feiticeiros morrem ainda são conscientes? - perguntei.
- Para os feiticeiros, a morte é um ato de unificação que emprega cada parte da energia deles. Você está pensando na morte como um cadáver à sua frente, um corpo que começa a se decompor. Para os feiticeiros, quando o ato de unificação ocorre, não há cadáver. Não há decomposição. Seus corpos, na sua totalidade, se transformaram em energia, e a energia que possui consciência não é fragmentada. Os limites que são causados pelo organismo são interrompidos pela morte e ainda estão funcionando no caso dos feiticeiros, apesar de não serem mais visíveis a olho nu.
"Sei que você está morrendo de vontade de me perguntar - continuou ele com um amplo sorriso - se o que eu estou descrevendo é a alma que vai para o céu ou para o inferno. Não, não é a alma. O que acontece com os feiticeiros, quando eles escolhem essa opção oculta da morte, é que eles se tornam seres inorgânicos, muito especializados, seres inorgânicos de alta velocidade, seres capazes de manobras estupendas de percepção. Os feiticeiros entram então no que os xamãs do México antigo chamavam de sua viagem definitiva. O infinito se torna o seu reino de ação."
- Você quer dizer com isso, Dom Juan, que eles se tornam eternos?
- Minha sobriedade como um feiticeiro me diz - disse ele - que a consciência deles terminará da maneira como a consciência dos seres inorgânicos termina, mas eu não vi isso acontecer. Não tenho um conhecimento de primeira mão sobre isso. Os feiticeiros antigos acreditavam que a consciência desse tipo de ser inorgânico duraria o tempo que a Terra estiver viva. A Terra é a matriz deles. Enquanto ela prevalecer, sua consciência continua. Para mim, essa é uma afirmação bem razoável.
A continuidade e a ordem da explicação de Dom Juan tinham sido, para mim, magníficas. Eu não tinha mais nada a contribuir. Ele me deixou com uma sensação de mistério e expectativas não expressas a serem preenchidas.”

É interessante o paralelo entre e a visão tolteca e a visão de Gurdjieff sobre a imortalidade, colhida em suas andanças misteriosas pela Europa oriental e Ásia. Ele dizia naquele seu estilo obscuro, que  "o ser humano poderia atingir a  imortalidade, mas dentro dos
limites do sistema solar".

sábado, 28 de janeiro de 2012

Êta sofrimento...

Nesta semana a vida me pegou de jeito e eu pensei “Não vai dar para publicar o texto de domingo”, mas resolvi fazer um esforço no meio da pressão das coisas, e postar algo que li há uns tempos e achei muito bom. Só não vou contar o autor para evitar a "síndrome do já conhecido” que tira antecipadamente o frescor das coisas. Leiam sem referência, com o coração, como se faz com as catedrais góticas e templos antigos de autores desconhecidos. É bom para desenvolver a justa apreciação. Quem quiser tentar acertar o autor depois de ler, diga nos comentários e se acertar eu confirmo. "Ou não", como diz o Caetano (rsrs). Vamos lá:

DISSOLVER O SOFRIMENTO
A maior parte do sofrimento humano é desnecessária. Ele se forma sozinho, enquanto a mente superficial governa a nossa vida. O sofrimento que sentimos neste exato momento é sempre alguma forma de não-aceitação, uma forma de resistência inconsciente ao que é.
No nível do pensamento, a resistência é uma forma de julgamento. No nível emocional, ela é uma forma de negatividade. O sofrimento varia de intensidade de acordo com o nosso grau de resistência ao momento atual, e isso, por sua vez, depende da intensidade com que nos identificamos com as nossas mentes. A mente procura sempre negar e escapar do Agora.
Em outras palavras, quanto mais nos identificamos com as nossas mentes, mais sofremos. Ou ainda, quanto mais respeitamos e aceitamos o Agora, mais nos libertamos da dor, do sofrimento e da mente egóica.
Alguns ensinamentos espirituais dizem que todo sofrimento é, em última análise, uma ilusão, e isso é verdade. A questão é se isso é uma verdade para você. Acreditar simplesmente não transforma nada em verdade. Você quer sofrer para o resto da vida e permanecer dizendo que é uma ilusão? Será que essa atitude livra você do sofrimento? O que nos interessa aqui é o que podemos fazer para vivenciar essa verdade, ou seja, torná-la real em nossas vidas.
Enquanto estivermos identificados com as nossas mentes, o que significa dizer enquanto estivermos inconscientes espiritualmente, o sofrimento será inevitável. Refiro-me aqui ao sofrimento emocional, que é também a causa principal do sofrimento físico e a doença. O ressentimento, o ódio, a autopiedade, a culpa, a raiva, a  depressão, o ciúme e até mesmo uma leve irritação são formas de sofrimento. E qualquer prazer ou forte emoção contêm em si a semente do sofrimento. É o inseparável oposto, que se manifestará com o tempo.
Quem já tomou bebidas alcoólicas ou drogas para ficar "alto" sabe que o alto se transforma em baixo, que o prazer se transforma em alguma forma de sofrimento. A maioria das pessoas também sabe, por experiência própria, como uma relação íntima pode se transformar, de modo fácil e rápido, de fonte de prazer em fonte de sofrimento. Vistas de uma perspectiva mais ampla, tanto a polaridade negativa quanto a positiva são lados de uma mesma moeda, são partes de um sofrimento que está oculto, inseparável do estado de consciência identificado com a mente.
Existem dois níveis de sofrimento: o que você cria agora e o que tem origem no passado que ainda vive em sua mente e no seu corpo. Enquanto não somos capazes de acessar o poder do Agora, vamos acumulando resíduos de sofrimento emocional. Esses resíduos se misturam ao sofrimento do passado e se alojam em nossa mente e em nosso corpo. Isso inclui o sofrimento vivido em nossa infância, causado pela falta de compreensão do mundo em que nascemos.
Todo esse sofrimento cria um campo de energia negativa que ocupa a mente e o corpo. Se olharmos para ele como uma entidade invisível com características próprias, estaremos chegando bem perto da verdade. E o sofrimento emocional do corpo.
Apresenta-se sob duas modalidades: inativo e ativo. O sofrimento pode ficar inativo 90 por cento do tempo, ou 100 por cento ativado em alguém profundamente infeliz. Algumas pessoas atravessam a vida quase que inteiramente tomadas pelo sofrimento, enquanto outras passam por ele em algumas ocasiões que envolvem relações familiares e amorosas, lesões físicas ou emocionais, perdas do passado, abandono, etc.
Qualquer coisa pode ativá-lo, especialmente  se encontrar ressonância em um padrão de sofrimento do passado. Quando o sofrimento está pronto para despertar do estágio inativo, até mesmo uma observação inocente feita por um amigo, ou um pensamento, é capaz de ativá-lo.
 

DESFAZER A IDENTIFICAÇÃO COM O SOFRIMENTO
O sofrimento não quer que nós o observemos diretamente e vejamos o que ele realmente é. No momento em que o observamos, sentimos seu campo energético dentro de nós e desfazemos a nossa identificação com ele, surge uma nova dimensão da consciência.
Chamo isso de presença. Passamos a ser testemunhas ou observadores do sofrimento. Isso significa que ele não pode mais nos usar, fingindo ser nosso eu interior. Então, não temos mais como realimentá-lo. Aqui está nossa mais profunda força interior.
Alguns sofrimentos são irritantes, mas inofensivos, como é o caso de uma criança que não para de chorar. Outros são monstros destrutivos e mórbidos, verdadeiros demônios. Alguns são fisicamente violentos; outros, emocionalmente violentos. Eles podem atacar tanto as pessoas à nossa volta quanto a nós mesmos, seus hospedeiros. Os pensamentos e sentimentos relativos à nossa vida tornam-se, então, profundamente negativos e autodestrutivos. Doenças e acidentes frequentemente acontecem desse modo. Alguns sofrimentos podem até levar uma pessoa ao suicídio.
Às vezes levamos um choque ao descobrir uma faceta detestável em alguém que pensávamos conhecer bem. Entretanto, é mais importante observar essa situação em nós mesmos do que nos outros.
Preste atenção a qualquer sinal de infelicidade em você, qualquer que seja a forma, pois talvez seja o despertar do sofrimento. Ele pode se manifestar como uma irritação, um sinal de impaciência, um ar sombrio, um desejo de ferir, sentimentos de raiva, ira e depressão ou uma necessidade de criar algum tipo de problema em seus relacionamentos. Agarre o sinal no momento em que ele despertar de seu estado inativo.
O sofrimento deseja sobreviver, mas, para isso, precisa conseguir que nos identifiquemos inconscientemente com ele. Então poderá nascer, nos dominar, "tornar-se nós" e viver através de nós.
Ele retira seu "alimento" de nós. Vale-se de qualquer experiência sintonizada com o seu próprio tipo de energia, qualquer coisa que provoque um sofrimento adicional sob qualquer forma: raiva, destruição, rancor, desgostos, problemas emocionais, violência e até mesmo doenças. Portanto, quando o sofrimento toma conta de nós, cria uma situação em nossas vidas que reflete a própria frequência de energia da qual ele se alimenta. Sofrimento só se alimenta de sofrimento. Não consegue se alimentar de alegria. Acha-a indigesta.
Quando o sofrimento nos domina, faz com que desejemos ter mais sofrimento. Passamos a ser vítimas ou agressores. Queremos infligir sofrimento, ou senti-lo, ou ambos. Na verdade, não há muita diferença entre os dois. E claro que não ternos consciência disso e afirmamos que não queremos sofrer. Mas preste bem atenção e verá que o seu pensamento e o seu comportamento estão programados para continuar com o sofrimento, tanto para você quanto para os outros. Se você estivesse consciente disso, o padrão iria se desfazer, porque desejar mais sofrimento é uma insanidade, e ninguém é insano conscientemente.
O sofrimento, a sombra escura projetada pelo ego, tem medo da luz da nossa consciência. Teme ser descoberto. Sobrevive graças à nossa identificação inconsciente com ele, assim como do medo inconsciente de enfrentarmos o sofrimento que vive dentro de nós. Mas, se não o enfrentarmos, se não direcionarmos a luz da nossa consciência para o sofrimento, seremos forçados a revivê-lo.
O sofrimento pode parecer um monstro perigoso, mas eu garanto que se trata de um fantasma frágil. Ele não pode prevalecer sobre o poder da nossa presença.
Quando passamos a observadores e começamos a deixar de nos identificar, o sofrimento ainda continua a agir por um tempo e vai tentar fazer com que voltemos a nos identificar com ele. Embora não esteja mais recebendo a energia originada da nossa identificação com ele, o sofrimento ainda tem sua força, como uma roda-gigante que continua a girar mesmo quando deixa de receber o impulso. Nesse estágio, o sofrimento pode até ocasionar dores em diversas partes do corpo, mas elas não vão durar.
Esteja presente, fique consciente. Vigie o seu espaço interior. Você vai precisar estar presente e alerta para ser capaz de observar o sofrimento de um modo direto e sentir a energia que emana dele. Agindo assim, o sofrimento não terá força para controlar o seu pensamento.
No momento em que o seu pensamento se alinha com o campo energético do sofrimento, você está se identificando com ele e, de novo, alimentando-o com os seus pensamentos. Por exemplo, se a raiva é a vibração de energia que predomina no sofrimento e você alimenta esse sentimento, insistindo em pensar no que alguém fez para prejudicá-lo ou no que você vai fazer em relação a essa pessoa, é porque você já não está mais consciente, e o sofrimento se tornou "você". Onde existe raiva existe sempre um sofrimento oculto.
Quando você começa a entrar em um padrão mental negativo e a pensar como a sua vida é horrorosa, isso quer dizer que o pensamento se alinhou com o sofrimento e você passou a estar inconsciente e vulnerável a um ataque do sofrimento.
Utilizo a palavra "inconsciência" no presente contexto para significar uma identificação com um padrão mental ou emocional. Isso implica uma ausência completa do observador.

TRANSFORMAR O SOFRIMENTO EM CONSCIÊNCIA
Manter-se em um estado de alerta consciente destrói a ligação entre o sofrimento e o mecanismo do pensamento e aciona o processo de transformação. É como se o sofrimento se tornasse o combustível para a chama da consciência, resultando em um brilho de mais intensidade.
Esse é o significado esotérico da antiga arte da alquimia: a transformação do metal não precioso em ouro, do sofrimento em consciência. A separação interior cicatriza, e você se torna inteiro outra vez. Cabe a você, então, não criar um sofrimento adicional.
Concentre a atenção ao sentimento dentro de você. Reconheça que é o sofrimento. Aceite que ele esteja ali. Não pense a respeito. Não permita que o sentimento se transforme em pensamento. Não julgue nem analise. Não se identifique com o sentimento. Esteja presente e observe o que está acontecendo dentro de você.
Perceba não só o sofrimento emocional, mas também a presença "de alguém que observa", o observador silencioso. Esse é o poder do Agora, o poder da sua própria presença consciente. Veja, então, o que acontece.

A IDENTIFICAÇÃO DO EGO COM O SOFRIMENTO
O processo que acabei de descrever é extremamente poderoso, embora simples. Poderia ser ensinado a uma criança, e tenho a esperança de que um dia será uma das primeiras coisas a serem aprendidas na escola. Uma vez entendido o princípio básico do que significa estar presente observando o que acontece dentro de nós -e "entendemos" isso quando passamos pela experiência -, teremos à nossa disposição a mais poderosa ferramenta de transformação.
Não nego que podemos encontrar uma forte resistência interna tentando nos impedir de pôr um fim à identificação com o sofrimento. Isso acontecerá particularmente se tivermos vivido intimamente identificados com o sofrimento emocional durante a maior parte da vida e se tivermos investido nele uma grande parte ou mesmo todo o nosso sentido de eu interior. Isso significa que construímos um eu interior infeliz por conta do nosso sofrimento e acreditamos que somos essa ficção fabricada pela mente. Nesse caso, nosso medo inconsciente de perder a identidade vai criar uma forte resistência a qualquer forma de não-identificação. Em outras palavras, você preferiria viver com o sofrimento - ser o sofrimento - a saltar para o desconhecido, correndo o risco de perder o seu infeliz mas familiar eu interior.
Observe a resistência dentro de você. Observe o seu apego ao sofrimento. Esteja muito alerta. Observe como é estranho ter prazer em ser infeliz. Observe a compulsão de falar ou pensar a esse respeito. A resistência deixará de existir se você torná-la consciente.
Poderá então dar atenção ao sofrimento, estar presente como testemunha e iniciar a transformação.
Só você pode fazer isso. Ninguém pode fazer por você. Mas, caso tenha bastante sorte para encontrar alguém intensamente consciente, se puder estar com essa pessoa e juntar-se a ela no estado de presença, isso poderá ser de grande utilidade, acelerando o processo. Se isso acontecer, a sua própria luz logo brilhará mais forte.
Quando colocamos um pedaço de lenha que tenha começado a queimar há pouco tempo perto de outro que está queimando vigorosamente e, depois, separamos os dois novamente, o primeiro tronco passará a queimar com uma intensidade muito maior. Afinal de contas, é o mesmo fogo. Ser um fogo dessa natureza é uma das funções de um mestre espiritual. Alguns terapeutas estão aptos a preencher essa função, desde que tenham alcançado um ponto além do nível de consciência e sejam capazes de criar e sustentar um estado de presença intensa e consciente enquanto estiverem trabalhando com você.
A primeira coisa para lembrar é que, enquanto você construir a sua identidade em função do sofrimento, não conseguirá se livrar dele. Enquanto investir uma parte do seu sentido de eu interior no seu sofrimento emocional, você vai resistir ou sabotar, inconscientemente, cada tentativa para curar o sofrimento.
Por quê? Porque você quer se manter inteiro e o sofrimento se tornou uma parte essencial de você. Esse é um processo inconsciente, e o único caminho para superá-lo é torná-lo consciente.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Quem Você É - Eckhart Tolle

Há tempos atrás editamos um vídeo de Eckhart Tolle  sobre O que é a Meditação. Agora vamos falar da prática da  Meditação, mas de "quem você é" abaixo da superfície, escondido atrás da "pessoa". É a transcrição de uma reunião de Eckhart Tolle. Vamos lá:
"- Onde quer que você esteja, este momento é o Agora, o momento presente...
O tempo e as datas, coisas desse tipo, são coisas que nós impomos sobre a realidade. Em si mesmas, elas não têm nenhuma existência real, são um tipo de referência que nós impomos para que possamos funcionar no mundo, e não há problema nisso.
Então em última análise, em um certo nível, é verdadeiro dizer que hoje é tal dia de tal mês, tal hora e tantos minutos, seja qual for a hora, mês e ano. Em um certo nível, isso é verdadeiro. em outro nível, isso não é verdade, porque só existe a presença deste momento.
Da mesma forma que não existe Linha do Equador! Eu me lembro de visitar o país Equador e lá existe uma atração turística que é uma linha que diz:"Aqui é a linha do equador.", e as pessoas vêm e tiram fotos do equador, que é uma linha desenhada.É claro que é uma linha imaginária, por acaso aquele é o ponto equidistante entre  o pólo norte e o pólo sul, mas não existe nenhum equador, nós impomos isso, sobrepomos isso sobre a realidade.
Então em última análise não existe nenhuma Linha do Equador, não existe o tempo do relógio, nós podemos funcionar dentro dele, sem ficar presos nele, e sem acreditar por  completo que ele seja a realidade absoluta.
E nós impomos muitas outras coisas sobre a realidade, sobre nós mesmos, como por exemplo nosso senso de identidade, um nome, uma história, a história pessoal, todos os tipos de medos e desejos, e muitas outras coisas que constroem o nosso senso psicológico de identidade.
Elas possuem alguma realidade, mas não são a realidade absoluta. Então se você observar o tempo, a hora do relógio, se você se aprofundar nele, você acaba no momento presente, onde não existe tempo, existe sempre apenas isto.
E aqui estamos em nossa meditação hoje, estamos aqui para ir mais fundo pra dentro de nós mesmos, para que possamos descobrir esse nível mais profundo de “quem nós somos”, que não é relativo, mas que é absolutamente verdadeiro. Tudo o mais é então reconhecido como relativo.
Essas coisas têm seu lugar: sua história pessoal, seu passado, seu futuro, sua situação de vida, sua situação de saúde, situação financeira, de moradia, seus problemas e preocupações. Sim, está tudo lá, mas a sua vida se reduz a isso somente? Isso é tudo que você conhece? A sua situação de vida, suas circunstâncias pessoais?
Você está consciente de alguma outra dimensão na sua vida? A maioria das pessoas não está. Elas estão consumidas por suas situações de vida, e elas estão completamente identificadas com um senso de personalidade, que é derivado da atividade mental, o fluxo de pensamento, todas as coisas que a voz dentro da sua cabeça, está te dizendo, sobre quem você é.
E tudo isso, é claro, é condicionado pelo passado.
A pergunta mais importante na vida de qualquer pessoa, na sua vida é:"Existe algo mais em quem eu sou, do que o que os olhos podem ver
"Existe mais em quem eu sou do que o que meus sentidos percebem, ou sabem sobre mim mesmo, do que os pensamentos flutuando na minha mente? Existe um nível mais profundo em quem eu sou? Porque se existe, e eu nem sequer investiguei isso, nem sequer tentei chegar num nível mais profundo dentro de mim mesmo, então eu estive perdendo uma oportunidade maravilhosa, o propósito mais profundo da minha vida.
Eu não estou pedindo a você que acredite em nada, eu não estou pedindo que você acredite na dimensão transcendente de quem você é, mas eu estou te convidando a abrir a mente e estar aberto à possibilidade, Este é o ponto inicial: estar aberto à possibilidade de que possa existir um nível mais profundo em quem você é.
Algo mais profundo do que "a pessoa", que existe no tempo, e é condicionada pelo tempo, pelos eventos que aconteceram, que se tornam lembranças acumuladas, memórias conscientes e inconscientes.
E esse acúmulo de memórias, para a maioria das pessoas, é a base do seu senso de existência, e elas estão presas nisso. Então a questão é”Existe uma dimensão mais profunda em mim?” Ou existe apenas a história sobre mim mesmo, na minha mente? Existe algo além das minhas preocupações pessoais? Existe algo que talvez seja mais importante do que todas as coisas que eu penso serem extremamente importantes na minha vida? Meu problemas, minhas circunstâncias, todas essas coisas.Existirá algo talvez que seja mais importante que isso?. Não estou dizendo pra você negligenciar esse nível da realidade, mas existe algo mais profundo? E tudo o que você precisa dizer, é  claro, é: “Estou aberto a essa possibilidade”,'Pode ser que exista, pode ser que não.' Isso é tudo.
Mas se você já começar dizendo: “Eu não acredito em nada mais profundo.', então você já está fechado.É claro que, nesse caso, você nem estaria aqui, escutando isso.
Então, nesta meditação, ou em qualquer meditação verdadeira, e, aliás, esta não é uma meditação convencional, não iremos usar nenhuma técnica, senão a experiência direta. Em qualquer meditação sua intenção é de.contatar esse espaço mais profundo dentro de você.
Qual é nosso ponto inicial? Nosso ponto inicial tem que ser sempre a realidade deste momento.Se você quiser se aprofundar, você tem que começar sempre a partir da realidade deste momento, a simples realidade deste momento.
Qual é a realidade deste momento para você? agora? A percepção sensorial está acontecendo, você vê essa imagem minha, você ouve a voz, você está percebendo isso, na periferia disso, você está consciente do seu arredor, apesar de você estar mais concentrado em mim e em ouvir minha voz, porque esta é a direção para a qual você  está escolhendo levar sua atenção neste momento, mas você também tem consciência periférica do seu ambiente,é claro, isso tudo ainda está aí.
Você talvez esteja consciente do seu corpo, sentado  na cadeira, ou onde quer que esteja, a percepção sensorial. E talvez você esteja consciente de certos sentimentos que você pode estar tendo, e pensamentos passando pela sua cabeça, ocasionalmente, ainda.
Eles vêm e vão. Alguns pensamentos podem querer tomar a sua atenção por completo, e então você perde o foco das minhas palavras, isso pode estar acontecendo com alguns de vocês, alguns pensamentos vêm e levam sua atenção embora daqui. E tudo o que você precisa fazer é trazer  a sua atenção de volta, quando você perceber isso, traga sua atenção de volta para este momento. Nós chamamos isso de "se tornar presente", neste momento.
Você está consciente de o que quer que esteja surgindo no espaço deste momento,e você o aceita como ele é, porque ele já é. Este é um bom ponto de entrada para qualquer meditação que você queira fazer. O portal para o estado meditativo, para a consciência de presença é “permitir que a realidade deste momento seja como ela é”.
Por que? Porque ela já é. Este momento já é como ele é.
Internamente, você não exige que este momento seja diferente, por exemplo:você não precisa dizer 'Porque você não pára de falar, nós deveríamos estar meditando!'ou então "Eu não estou experienciando o meu eu  mais profundo, do que você está falando. Tudo o que precisamos fazer para nos tornarmos presentes, que é onde a meditação nos leva,é nos tornarmos presentes com o simples fato do “ser deste momento”. Isto é o que é.
Desde tempos remotos os filósofos e sábios, alguns escritores, têm discutido a possibilidade de que o que nós experienciamos como nossas vidas possa ser um tipo de sonho. Então, seja lá o que for que você esteja experienciando agora, neste momento, você não pode saber, em termos absolutos, que isto não é um sonho. E, de algumas formas, a vida possui uma qualidade onírica, seja lá o que for que você estiver experienciando, porque tudo passa muito rapidamente, se evapora como um sonho.
Onde está o jantar de ontem à noite? Evaporou como um sonho! Mas mesmo se for um sonho, deve haver algo que possibilita este sonho.
Se é um sonho, ou esta coisa parecida com um sonho, que são todos os conteúdos que existem no momento presente, deve haver algo que possibilite a existência deste sonho! Deve haver algo que possibilite que a realidade deste momento exista! E seja conhecida. E é claro, “você” é esse algo.
Neste momento, eu estou pedindo que você sinta, por assim dizer, dentro de você mesmo, o simples fato de que “você é a fundação, por assim dizer, da realidade deste momento”, seja qual for a forma deste momento à sua volta.
Em outras palavras, você pode sentir o simples fato de que você existe? 'Existir' pode não ser a palavra certa. Você pode sentir o simples fato de que você É?. Sua “seidade”, sua presença, através da qual, todas essas coisas estão sendo percebidas! Aqui, neste momento, até mesmo a minha voz...
Você pode sentir? Isso é algo muito imediato, eu estou pedindo que você direcione a sua atenção, o foco de sua atenção, para longe das percepções sensoriais, apesar delas permanecerem onde estão, mas não colocar a sua atenção nelas, nem sequer  colocar a sua atenção na minha voz, ou na imagem na tela. Sim, ela ainda está aqui, você ainda está percebendo a imagem, mas o que eu estou te pedindo é que coloque sua atenção no próprio fato de que você está consciente. Pode-se dizer, colocar a atenção na própria atenção.
A consciência que antes estava nos pensamentos e na percepção sensorial, agora se volta para si.E a consciência que antes estava em todo tipo de coisa, incluindo pensamentos, que também são coisas, a consciência se volta para dentro, para si mesma, e percebe aquela presença, aquela presença atemporal inata, que subjaz a tudo que você estiver experienciando.
Você já sabe, eu mencionei isso no livro 'Um Novo Mundo', que em Delphi, na Grécia antiga, o templo de Apolo, havia a inscrição, acredito que ainda esteja lá, 'Conhece-te a ti mesmo'.
O que é menos conhecido do que essa inscrição,é que nesse mesmo templo, há também outra inscrição, e isso remonta a anos atrás, há também a inscrição: 'VOCÊ É'' Você é o que?' VOCÊ É! É isso que está inscrito lá.Quando você lê isso, ou ouve isso, ou isso faz sentido pra você, ou não. Se faz sentido, você por um momento faz: 'Ah!
'Porque nesse momento, essas duas palavras, Você É,  direcionam a sua atenção para a própria atenção. Ou pode-se dizer: direcionam sua consciência para o fato de que você está consciente, ou seja: você se reconhece como consciência, sem forma, atemporal. você é! Não isso ou aquilo, mas simplesmente você se conscientiza de que “você é”.
E é para isso que os antigos sábios já apontavam, há anos. Não é incrível essa inscrição no templo dizendo: 'Você é'? Você não pode entender a verdade disso através da mente pensante, como você não pode entender a verdade do que  eu estou falando através da mente pensante. Porque a mente pensante, a mente conceitual lê isso da seguinte forma: 'Você é'. 'O que isso deveria significar? Não consigo descobrir. 'você é?' deve haver algo faltando aqui.
'Mas apenas através da verdade do 'você é',  ou seja, a verdade do 'eu sou', (porque quando você percebe a verdade do 'você é', ela se torna a verdade do 'eu sou'), a verdade do 'eu sou' não é conceitual, em absoluto, não tem nada a ver com o pensamento e só pode ser percebida fora do pensar.
Então eu estou apontando com a nossa meditação aqui para a possibilidade de se tornar consciente desse nível mais profundo de “quem você é”, que não tem nada a ver com a sua história, ou seus pensamentos.
E quando você percebe que, essencialmente, você é essa consciência não-condicionada, que não tem forma, quando você percebe que, em essência, você é a luz da consciência, a que Jesus chamava 'a luz do mundo', quando você percebe que você é isso, não apenas uma vez, e depois você passa o resto da sua vida:'Eu tive essa experiência incrível há dez anos, eu percebi quem eu sou! Mas agora eu esqueci!'. Não.
É bom ver a possibilidade de viver, ou existir, simultaneamente em dois níveis:
•    o nível do mundo,(em que as coisas precisam ser feitas, e você lida com elas dentro do tempo, sua situação de vida, você tem que lidar com isso e aquilo, sem ser consumido por isso) e é um destino horrendo ser consumido pelas circunstâncias da sua vida, terrível, mas o impulso é muito forte!.
•    a consciência contínua desse nível sem forma de pura consciência, ou “seidade”, o puro 'eu sou', enquanto você está lidando com as coisas deste mundo,  para que você não se perca nelas.
Eu vejo, quando observo as pessoas, o quão facilmente elas se perdem, continuamente, em tudo que surge:  'Tenho que pensar nisso!' E primariamente elas estão se perdendo nas suas mentes, em seus pensamentos,'Tenho que pensar nisso, tenho que lidar com aquilo, tenho que fazer aquele telefonema.' É claro que você tem que fazer os seus telefonemas! Mas, você está se perdendo no mundo? O que é o mesmo que dizer: se perdendo dentro da sua mente! Porque você experiencia o mundo dentro da sua mente e com a sua mente, e esse é o estado do qual, para usar a terminologia cristã, você precisa ser salvo.
Temos esse termo cristão 'salvação'. 'Salvo do quê?' Salvo de estar se perdendo no mundo, estar se perdendo na sua mente! É disso que se trata a salvação.
Infelizmente a maioria das igrejas não entendem mais isso ou não entendem faz muito tempo, entenderam errado o que é salvação.
A salvação é a verdade que vos libertará, outra coisa que Jesus disse: 'A verdade vos libertará. 'Mas antes de dizer isso, ele disse mais uma coisa. Ele disse:'Conheça a verdade, e a verdade vos libertará'. A verdade já é a verdade. Você precisa conhecê-la, e qual é a verdade? A verdade é quem você é, ou “o quê você é por baixo da forma”. É a verdade do 'eu sou'.
Então você existe em duas dimensões simultaneamente, você ainda está no mundo, lidando com as coisas, até mesmo pensando sobre as coisas, se relacionando com outros seres humanos, mas, no plano de fundo da sua vida, por assim dizer, você possui aquele nível do que poderíamos chamar de espaço da consciência, de presença consciente. Ou, poderíamos dizer, você sente a sua “seidade essencial”, a presença essencial, sob todas as coisas que estão continuamente acontecendo.E você pode levar uma vida harmoniosa, e a sua vida é.completamente satisfatória.
Ela só pode ser satisfatória se você não mais procurar satisfação nas coisas deste mundo, o emprego, o relacionamento, as finanças, o sucesso, tudo que as pessoas procuram, posses, todas as coisas nas quais as pessoas procuram satisfação, nenhuma dessas coisas é definitivamente satisfatória como muitos de vocês sabem, já experienciaram isso.
A vida te satisfaz quando você está enraizado na seidade essencial do 'eu sou', e ela não tem nada a ver com o pensamento.Ela é só um espaço de consciência, e isso forma o pano de fundo da sua vida, e você lida com as coisas, sem se perder nelas.
Você traz esse estado de consciência, que se pode chamar de “estado de consciência expandido”, você o traz para dentro das suas interações com as outras pessoas. Isso é de grande importância, e é somente então que você vai parar de tratar as outras pessoas como possíveis fontes de satisfação, ou como uma ameaça, o que é muito normal neste mundo.
Se você não estiver conectado a essa dimensão mais profunda dentro de si mesmo, você olha para as outras pessoas como uma fonte de realização, em outras palavras, você quer que elas façam algo pra você, em algum nível, ou você olha para as outras pessoas como uma  possível ameaça ao seu senso de identidade. Você se aproxima das pessoas com algum medo ou algum desejo, sempre. Ou há algum desejo, ou há algum medo.Terrível!.
E é claro que os relacionamentos não conseguem  funcionar muito bem nesse estado de consciência! Existe conflito contínuo, porque a outra pessoa também está esperando algo de você, seja por algum desejo ou alguma ameaça que você representa.
Quando você não está mais procurando por satisfação nas outras pessoas, ou procurando satisfação nas coisas do mundo, então as coisas do mundo e as pessoas se tornam bem agradáveis! Mas você só encontra isso quando você adquire a sua satisfação continuamente da sua seidade essencial! Em vez de obtê-la das coisas, ou das pessoas.
A realização é sentir. As palavras não captam exatamente o que quero dizer, vamos dizer assim: é sentir a vivacidade da sua essência.
Neste momento, não importa se você está num palácio ou numa cela de prisão, para você experienciar a realidade da sua essência, o lugar onde você está é irrelevante. Também é irrelevante se você falhou totalmente em todos os seus esforços, ou se você é um grande sucesso, aos olhos do mundo. Isso é irrelevante para a realização disso que eu estou falando.
Isso não é um alívio? Bem, é um alívio maior se você falhou em tudo, mas se você tivesse sido bem-sucedido em tudo,  você não estaria nem vendo este vídeo. Você teria que esperar durante mais alguns anos, até que  as coisas entrassem em colapso à sua volta, porque nada neste mundo é tão estável assim.
Então, a vida te realiza porque o momento presente, e aqui nós voltamos àquele portal essencial, o que nós chamamos de momento presente é, em essência, aquele senso do 'eu sou'. O senso do 'eu sou' é o significado mais profundo do agora.É o espaço da própria consciência, no qual tudo acontece. Vem e vai embora.
A realização vem de conhecer quem você é. De se conhecer enquanto a própria presença que fundamenta as coisas que você experiência como sendo o mundo, tanto externamente como na sua mente.
Na Índia, os sábios antigos chamavam isso de 'a felicidade de ser consciente', a felicidade de SER consciente, ou de ser a consciência. a palavra 'ser' é 'sat' em sânscrito,'Sat – Chit - Ananda', quer dizer: “Conhecer a felicidade de estar consciente”, a profunda realização de se conhecer enquanto consciência. E você é isso, em primeiro lugar, em segundo lugar você é a pessoa como a qual você está atuando na sua existência presente neste planeta. E sabe lá qual papel você tem vivido na sua existência presente. Você pode estar vivendo um papel muito trágico, ou você pode estar vivendo uma comédia, ou, em muitos casos, é uma mistura dos dois. Esse é o papel que você vive, seu nome, suas circunstâncias, sua situação de vida. Mas quem é você por trás disso, além disso?.
Você se conhece enquanto o 'eu sou' subjacente?. Isso é tudo. Essa foi nossa meditação, por hoje. Eu  aconselho a, ao sair daqui, não se deixar ser imediatamente arrastado de volta às coisas sobre as quais você tem que pensar e lidar, mas sim, enquanto você estiver fazendo as coisas, a permanecer consciente de si mesmo, no plano de fundo. Consciente de estar consciente. Você sente a consciência.
Quando eu pego alguma coisa, existe espaço no plano de fundo,e não apenas a ação que está acontecendo.
Outra palavra que posso usar é paz. Existe uma  paz no plano de fundo da sua vida. E com isso a sua forma de lidar com as coisas é pacífica! Se você não está conectado consigo mesmo, a sua forma de lidar com as coisas não pode ser pacífica, porque você fica aborrecido e reativo, muito rapidamente.
E você contribui para os problemas do mundo, mesmo se você estiver falando sobre alguma coisa espiritual maravilhosa. Você estará contribuindo negativamente, se você não lidar com as coisas e com  as pessoas de forma pacífica, você estará contribuindo para os problemas do mundo, você não é parte da solução, mas sim parte do problema.
Que coisa maravilhosa que é ver que a forma mais natural de viver é estar conectado com quem você é. A forma anti-natural é estar desconectado. O mundo está essa bagunça tão grande porque  muitos milhões estão vivendo dessa forma anti-natural, em desconexão. Esse é o porquê de estarmos aqui.
Antes de eu me despedir, vamos fazer um breve momento de simples quietude.
Fique bem.
Fique presente.
E não se esqueça de que VOCÊ É."

domingo, 21 de agosto de 2011

Desconstrução

Antes que alguém pense que mudei de sexo, informo que inauguramos hoje, com uma mulher, a ‘publicação de textos de colaboradores no blog’. Só tem uma condição: ser coisa boa (o texto), porque o nosso leitor é muito exigente (rsrs). Foi a Patrícia, amiga do peito e de armas, que me falou do indiano e jesuíta Anthony Mello. Antes de falecer em 1987 ele era diretor do Sadhana Institute of Pastoral Counseling em Poona, India. E eu, que tenho pensado muito no resgate do Cristianismo, como um caminho interior esotérico autêntico que é de fato, valioso, rico de verdades, e tão esquecido graças ao efeito desolador da ‘Lei de Sete’ sobre o Cristianismo Primitivo, pensei "É isso aí. É a vez da Patricia dar o recado”. Não se influencie, no texto do jesuita, pela linguagem “não moderna”, e termos às vezes devocionais do Cristianismo. É assim em todas as tradições autênticas: Santidade, Graça,  Iluminação, Consciência ou Despertar, é tudo a mesma coisa; “Filho do Homem” não é Jesus, que vai vir de algum lugar de fora nos resgatar a todos numa boa. Isso não vai acontecer. Pelo menos não ao pé da letra. É uma linguagem simbólica. "Filho do Homem" é o filho de você, Humano (a), um Ser Novo que poderá nascer de dentro de você, se você se aplicar e ficar presente no Agora. Esse é o significado. Cada tradição tem a roupagem e a linguagem diferente da cultura e do seu tempo. O que importa é a essência. É colocar a Consciência no Agora. Agora!
Com a palavra a Patrícia:

Buscadores de plantão....Procuro Achadores.
Quando aterrisei neste planeta já cheguei inquieta e quando me coloquei em marcha, a palavra “buscador (a)” tinha um sabor incrível...Que aventura! Encontrei pares com quem compartilhei as diferentes trilhas, linguagens e inquietações parecidas, tive trocas profundas, encontrei grupos, guias, seres extraordinários,  participei de vivências, praticas espirituais fortíssimas, com companheiros, sozinha, cavernas, danças, com comida, sem comida  sempre  em marcha, em  busca da verdade....igual cão farejador...pratiquei, fui disciplinada, às vezes mais, às vezes menos...
De repente, a vida me obrigou a puxar o freio, de forma brusca, provocando ate uma batida e um galo na cabeça! (rsrs). Tive que parar e me perguntar: E ai? O que achei? Onde estou  indo mesmo? O que realmente procuro? Cadê todos os iluminados após tanta busca e esforços?  Não tenho duvidas que  encontrei indicadores excelentes, verdadeiros naguais, e  que segui as instruções de navegação ...mas uma luz vermelha começou a piscar....e não para! Há um tempo a palavra desconstrução vem acendendo na minha tela frontal. É hora de desaprender, desconstruir, largar, soltar, e “VER” o que achei...Achamos. Muita coisa, sim....mas.. pressinto que  é muito mais simples, e no fundo não queremos pagar o preço de “VER”...melhor continuar buscando! E continuar confortavelmente dormindo.
Há semanas converso com outro “buscador”(o blogueiro de plantão deste pedaço)  com quem encontro ressonância nas minhas mais recentes perguntas...a troca tem sido rica....Obrigada Preto. E sendo assim resolvi passar para meu amigo mais um dos meus achados... Carrego-o há anos na bolsa. Encontrei-o numa dessas crises, de: “cadê algum representante da minha religião de infância?”...”será que não tem ninguém ai que fale minha lingua”? Eis que pulou na minha frente um jesuíta. Sim um jesuíta! Anthony de Mello. Livrinho pequeno, Way to Love (infelizmente não foi traduzido) que carrego para ler e receber as porradas necessárias...é tão simples sua linguagem que dói. Segue aqui uma tradução que fiz e compartilho, pois acredito que ele tem algo a nos dizer...uns vão dizer, ‘Ah, já conheço isso’...mas então, será que em algum momento, de 'verdade verdadeiríssima', teve acesso à Consciência da qual ele fala? Se gostarem...traduzirei outros pedaços....um abraço

Esteja Pronto
“Portanto você deve também estar pronto; pois O Filho do Homem virá na hora que você menos espera”. Mateus 24:44.   
Mais cedo ou mais tarde surge no coração de cada ser humano o desejo pelo sagrado, pela espiritualidade, Deus, chame como quiser.  Ouvimos místicos falarem sobre a Divindade ao nosso redor e que está ao nosso alcance, que faria nossas vidas terem significados, serem belas e ricas, se apenas pudéssemos descobri-la. As pessoas têm uma vaga idéia do que é isto. Lêem livros, consultam gurus, em uma tentativa de encontrar o que devem fazer para alcançar esta coisa chamada de Sagrado ou Espiritualidade.
Arranjam todo tipo de métodos, técnicas, exercícios espirituais, formulas; e depois de anos de esforços sem frutos, ficam desencorajados e confusos e se perguntam o que deu errado. A maioria se culpa e pensa: ‘Ah se eu tivesse praticado essas técnicas de forma mais disciplinada, se eu tivesse sido mais generoso, talvez tivesse conseguido’. Mas conseguido o que?  Eles não têm uma idéia clara do que exatamente é esse Sagrado que tanto buscam, mas certamente sabem que suas vidas continuam confusas, ainda estão ansiosos e inseguros, cheios de medo, amargurados, sem perdoar, ambiciosos, pessoas manipulativas e controladoras...
Então mais uma vez se lançam com vigor renovado, no esforço e no trabalho que eles acreditam ser necessário para alcançar sua meta. Nunca pararam para considerar este  simples fato:  seus esforços não os levarão a lugar nenhum. Seus esforços só piorarão as coisas, tal como as coisas pioram quando você usa o fogo para apagar fogo. O esforço não leva ao crescimento; O esforço seja lá qual forma ele tenha, seja força de vontade ou habito, ou uma técnica, ou um exercício espiritual, não leva a mudança. Na melhor das hipóteses leva à repressão e a encobrir a raiz da doença.
O esforço pode mudar o comportamento, mas não muda a pessoa. Veja só que tipo de mentalidade você demonstra quando pergunta, “o que preciso fazer para alcançar o Sagrado?”. Isto não é o mesmo que perguntar,’ quanto dinheiro devo gastar para comprar algo?’ Que tipo de sacrifício devo fazer? Que disciplina devo ter? Que meditação devo praticar para alcançar isso? Pense em um homem que quer conquistar o amor de uma mulher e tenta melhorar sua aparência física modelando o corpo ou mudando seu comportamento e praticando técnicas para encantá-la.
Você só ganha o amor dos outros por ser um certo tipo de pessoa, não pela prática de técnicas. E isso nunca se alcança através do esforço. É a mesma coisa com a espiritualidade e o sagrado. Não é o que você faz que traz isso a você. Isso não é uma commodity que podemos comprar, ou um premio que podemos ganhar. O que importa é o que você é, o que você se torna.
A Santidade não é uma realização , é uma Graça.  Uma graça chamada Consciência, uma graça chamada “Ver”, Observar, Compreender. Se você ao menos acendesse essa luz da Consciência, observasse a si mesmo e tudo ao seu redor durante o dia, se você se visse refletido no espelho da Consciência, da mesma forma que você vê seu rosto refletido num espelho, isto é, com precisão e clareza, exatamente como é, sem a mais mínima distorção ou acréscimo, e se você observasse esse reflexo sem nenhum julgamento ou condenação, você experimentaria todo tipo de mudanças maravilhosas acontecendo em você. Só que você não estaria no controle dessas mudanças ou seria capaz de planejá-las com antecedência, ou decidiria como e quando elas devem ocorrer. É esta Consciência sem julgamento, sozinha, que cura e faz mudanças e nos faz crescer. Mas no seu jeito e no seu tempo.
Do que você deveria ter especificamente consciência? De suas reações e de  seus relacionamentos. Cada vez que você está na presença de uma pessoa, qualquer pessoa, ou na natureza ou em uma situação particular, você tem todo tipo de reações positivas e negativas. Contemple todas essas reações, observe o que elas realmente são e de onde elas vem, sem fazer sermões ou culpar-se ou mesmo ter qualquer desejo, e muito menos esforço para mudá-las. É somente isso que precisamos para que o Sagrado possa emergir.
Mas a Consciência em si não é um esforço? Não, se você já tiver experimentado A Consciência  pelo menos uma vez. Porque assim você compreenderá que a Consciência é um deleite, é o  deleite de uma criança se movendo maravilhada para descobrir o mundo.  Porque mesmo quando a Consciência desvela coisas desagradáveis sobre você, sempre traz liberação e alegria. Então você saberá que uma vida sem Consciência não vale a pena ser vivida porque é cheia de escuridão e dor.
Se no começo há uma preguiça em praticar Consciência, não se force. Isto seria mais uma vez um esforço. Conscientize-se apenas da sua preguiça ou auto condenação. Você então compreenderá que a consciência envolve tanto esforço quanto o esforço que um amante faz para ir de encontro a sua amada, ou um homem faminto faz quando come sua comida, ou o alpinista faz para chegar ao topo de sua montanha amada, tanta energia empregada, até mesmo tantos obstáculos, ou dificuldades, mas não é esforço, é divertido!  Em outras palavras, Consciência é uma atividade sem esforço.
Consciência lhe trará a Santidade que você tanto deseja? Sim e não. O fato é que você nunca saberá. Pois a verdadeira Santidade, do tipo que não se alcança através de técnicas e esforços e repressões, a Santidade verdadeira é completamente sem consciência de si mesma. Você não teria a menor consciência da existência dela em você. Além do que, você não se importará, pois até mesmo a ambição de ser santo terá desaparecido na medida em que você vive de momento a momento uma vida feita de plenitude, alegria e transparência através da Consciência. Basta você ser atento e desperto. Pois nesse estado seus olhos verão o Salvador. Nada mais, absolutamente nada mais, nem segurança, nem amor, nem pertencer a, nem beleza, nem poder, nem  santidade. Nada mais importará!