Falamos do sonho em pelo menos 5 postagens :
O Sonhar, O Sonho, Portal da Consciência, O Sonho - Visão Tolteca, O Sonho - Visão Budista, e finalmente O Sonho e o Rupigwara. Hoje vamos falar do "ensonho", na visão de Dom Juan no livro Passes Mágicos, de Carlos Castaneda:
"Dom Juan Matus definia sonhar como o ato de usar sonhos normais como uma autêntica entrada para a consciência nos outros domínios de percepção. Para ele, essa definição implicava que os sonhos comuns podiam ser usados como uma portinhola que conduzia a percepção para outras regiões de energia diferente da energia do mundo da vida cotidiana e, no entanto, absolutamente semelhante a ela em um núcleo básico. Para os feiticeiros, o resultado de uma tal entrada era a percepção de mundos verdadeiros nos quais eles podiam viver ou morrer, mundos que eram estarrecedoramente diferentes dos nossos e, no entanto, absolutamente semelhantes.
Pressionado por uma explicação linear sobre essa contradição, Dom Juan Matus reiterava a posição padrão dos feiticeiros: de que as respostas para todas essas perguntas estavam na prática e não na inquisição intelectual. Ele dizia que, para conversarmos sobre tais possibilidades, precisaríamos usar a sintaxe da linguagem, qualquer que fosse a linguagem que falássemos, e que aquela sintaxe, pela força da utilização, limita as possibilidades de expressão. A sintaxe de qualquer linguagem só se refere a possibilidades perceptivas encontradas no mundo em que vivemos.
Dom Juan fazia uma importante diferenciação entre dois verbos em espanhol: um era sonhar ( soñar) e o outro era ensonhar (ensoñar), que é “sonhar da maneira que os feiticeiros sonham”, ou seja, o sonho lúcido, consciente, uma abertura para outros mundos e uma área de atuação e evolução como é este.
De acordo com o que Dom Juan ensinava, a arte de sonhar se originou de uma observação muito casual que os feiticeiros do antigo México fizeram quando viam pessoas que estavam adormecidas. Eles notaram que durante o sono o "ponto de aglutinação" era deslocado, de uma maneira muito natural e simples, da sua posição habitual e que se movia para qualquer lugar ao longo da periferia da esfera luminosa ou para qualquer lugar no interior dela.
(NR – o ponto de aglutinação é o ponto luminoso onde a percepção e interpretação dos dados sensoriais é agrupada no corpo energético dos seres)
Correlacionando a sua visão com os relatos das pessoas que tinham observado dormindo, eles perceberam que, quanto maior o deslocamento observado do ponto de aglutinação, mais estarrecedores eram os relatos dos acontecimentos e cenas vivenciados em sonhos.
Após essa observação se apoderar deles, os feiticeiros começaram a procurar avidamente oportunidades para deslocarem os seus próprios pontos de aglutinação. Acabaram usando plantas psicotrópicas para conseguir isso. Muito rapidamente perceberam que o deslocamento ocasionado pelo uso dessas plantas era errático, forçado e fora de controle. Contudo, no meio desse fracasso, descobriram uma coisa de grande valor. Chamaram-na de atenção ao sonhar.
Dom Juan explicava esse fenômeno referindo-se primeiro à consciência diária dos seres humanos como a atenção colocada nos elementos do mundo da vida cotidiana. Ele salientava que os seres humanos só lançavam um olhar superficial e, contudo, sustentado para todas as coisas que os cercavam. Mais do que examinar as coisas, os seres humanos simplesmente estabeleciam a presença daqueles elementos através de um tipo especial de atenção, um aspecto específico da sua consciência geral. A sua
legação era que o mesmo tipo de "olhar", por assim dizer, superficial mas sustentado podia ser aplicado aos elementos de um sonho comum. Ele chamava esse outro aspecto específico da consciência geral de atenção ao sonhar ou da capacidade que os praticantes adquirem de manter a consciência inflexivelmente fixada nos itens dos seus sonhos.
O cultivo da atenção ao sonhar deu aos feiticeiros da linhagem de Dom Juan uma classificação básica dos sonhos. Descobriram que a maior parte dos seus sonhos era imaginação, produtos da cognição do seu mundo diário. Entretanto havia alguns que escapavam a essa classificação. Tais sonhos eram estados verdadeiros de consciência intensificada nos quais os elementos do sonho não eram simples imaginação, mas ocorrências geradoras de energia. Para os xamãs, os sonhos que tinham elementos geradores de energia eram sonhos em que eles eram capazes de ver a energia como ela fluía no universo.
Esses xamãs eram capazes de focalizar sua atenção ao sonhar em qualquer elemento dos seus sonhos e, dessa forma, descobriram que existem dois tipos de sonhos. Um são os sonhos com os quais todos nós estamos familiarizados, nos quais elementos fantasmagóricos entram em ação, algo que poderíamos categorizar como produto da nossa mentalidade, da nossa psique; talvez algo que tenha a ver com a nossa constituição neurológica. O outro tipo de sonhos eles chamavam de sonhos geradores de energia. Dom Juan dizia que aqueles xamãs dos tempos antigos se descobriram em sonhos que não eram sonhos e sim verdadeiras visitas feitas, em um estado parecido com o sonho, a lugares autênticos que não eram deste mundo - lugares reais, exatamente como o mundo no qual vivemos; lugares onde os objetos do sonho geravam energia assim como, para um feiticeiro vidente, as árvores, os animais ou até mesmo as rochas geram energia no nosso mundo diário.
Entretanto, para os xamãs, suas visões de tais lugares eram efêmeras demais, temporárias demais para lhes serem de algum valor. Eles atribuíam essa falha ao fato de que os seus pontos de aglutinação não podiam ser mantidos fixos por qualquer tempo considerável na posição para a qual tinham sido deslocados. As suas tentativas de remediar a situação resultaram na outra arte magna da feitiçaria: a arte de hastear.
Um dia Dom Juan definiu as duas artes com muita clareza quando me disse que a arte de sonhar, consistia em deslocar propositadamente o ponto de aglutinação da sua posição habitual. A arte de hastear consistia em voluntariamente fazê-lo permanecer fixado na nova posição para a qual tinha sido deslocado.
Essa fixação permitia aos feiticeiros do antigo México a oportunidade de testemunharem outros mundos em toda a sua extensão. Dom Juan dizia que alguns desses feiticeiros nunca voltaram de suas viagens. Em outras palavras, optaram por permanecer lá, onde quer que "lá" possa ter sido.
- Quando os antigos feiticeiros acabaram de mapear os seres humanos como esferas luminosas - disse-me Dom Juan certa vez -, eles tinham descoberto nada menos que seiscentos locais na esfera luminosa total que eram locais de mundos genuínos. Isso queria dizer que, se o ponto de aglutinação se fixasse em qualquer um daqueles lugares, o resultado era a entrada do praticante em um mundo totalmente novo.
- Mas existem esses outros seiscentos mundos, Dom Juan? perguntei.
- A única resposta para essa pergunta é incompreensível - disse ele rindo. - Ela é a essência da feitiçaria, contudo não significa nada para a mente comum. Esses seiscentos mundos estão na posição do ponto de aglutinação. Para que tal resposta faça sentido, são necessárias incalculáveis quantidades de energia. Nós temos a energia. O que nos falta é a facilidade ou a disposição de usá-la.
Eu acrescentaria que nada poderia ser mais verdadeiro do que todas essas declarações e, no entanto, nada poderia fazer menos sentido.
Dom Juan explicava a percepção comum nos termos em que os feiticeiros da sua linhagem a entendiam: em sua localização habitual, o ponto de aglutinação recebe um influxo de campos de energia do universo como um todo na forma de filamentos luminosos, chegando ao número dos trilhões. Uma vez que sua posição é consistentemente a mesma, o raciocínio lógico dos feiticeiros era que os mesmos campos de energia, na forma de filamentos luminosos, convergem para o ponto de aglutinação e o atravessam proporcionando, como um resultado consistente, a percepção do mundo que conhecemos. Esses feiticeiros chegaram à inevitável conclusão de que, se o ponto de aglutinação fosse deslocado para uma outra posição, um outro conjunto de filamentos energéticos o atravessaria resultando na percepção de um mundo que, por definição, não era o mesmo do mundo da vida cotidiana.
Na opinião de Dom Juan, o que os seres humanos consideram normalmente como sendo perceber é mais o ato de interpretar dados sensoriais. Ele mantinha que, desde o momento do nascimento, todas as coisas ao nosso redor nos supriam com uma possibilidade de interpretação e que, com o tempo, essa possibilidade se transforma em um sistema completo através do qual conduzimos todas as nossas transações perceptivas no mundo.
Ele salientava que o ponto de aglutinação não era apenas o centro onde a percepção é agrupada, mas também o centro onde a interpretação de dados sensoriais é realizada. Sendo assim, se mudasse a localização, interpretaria o novo influxo de campos de energia nos mesmíssimos termos que interpreta o mundo da vida cotidiana. O resultado dessa nova interpretação é a percepção de um mundo estranhamente semelhante ao nosso e, no entanto, intrinsecamente diferente. Dom Juan dizia que, energeticamente, aqueles outros mundos são tão diferentes do nosso quanto poderiam ser. Só a interpretação do ponto de aglutinação é que é responsável pelas aparentes semelhanças:
Dom Juan sentia necessidade de uma nova sintaxe que pudesse ser usada para expressar essa assombrosa qualidade do ponto de aglutinação e as possibilidades de percepção ocasionadas pelo sonhar. No entanto ele admitia que, se essa experiência se tornasse disponível a qualquer um de nós e não simplesmente aos xamãs iniciados, a sintaxe atual da nossa linguagem talvez pudesse ser forçada a abrangê-la.
Uma coisa relacionada ao sonhar que era de tremendo interesse para mim, mas que me deixou completamente confuso até o final, era a afirmação de Dom Juan de que realmente não havia nenhum procedimento que ensinasse alguém como sonhar. Dizia que, mais do que qualquer outra coisa, sonhar era um esforço árduo por parte dos praticantes para se porem em contato com a indescritível força que a tudo permeia, que os feiticeiros do antigo México chamavam de intento. Uma vez que essa ligação estivesse estabelecida, sonhar também se estabeleceria misteriosamente. Dom Juan afirmava que essa ligação poderia ser realizada seguindo qualquer padrão que implicasse disciplina.
Quando lhe pedi que me desse uma explicação sucinta dos procedimentos envolvidos, ele riu de mim.
- Aventurar-se no mundo dos feiticeiros - disse ele - não é como aprender a dirigir um carro. Para dirigir um carro, você precisa de manuais e de instruções. Para sonhar, você precisa intentá-la.
- Mas como posso intentá-la? - insisti.
- A única maneira como você poderia intentá-la é intentando-o
- declarou ele. - Uma das coisas mais difíceis para um homem dos nossos dias aceitar é a falta de procedimentos. O homem moderno está nos paroxismos dos manuais, das praxes, dos métodos, dos passos que conduzem a alguma coisa. Está incessantemente tomando notas, fazendo diagramas, profundamente envolvido em saber como fazer. Porém, no mundo dos feiticeiros, os procedimentos e os rituais são meros esquemas para atrair e focalizar a atenção. São estratagemas usados para forçar uma concentração de interesse e determinação. Não têm nenhum outro valor.
Para sonhar, o que Dom Juan considerava ser de suprema importância é a execução rigorosa dos passes mágicos: o único estratagema que os feiticeiros da sua linhagem usavam para auxiliar o deslocamento do ponto de aglutinação. A execução dos passes mágicos dava àqueles feiticeiros a estabilidade e a energia necessárias para suscitar a sua atenção ao sonhar, sem o que, para eles, não havia nenhuma possibilidade de sonhar. Sem a emergência da atenção ao sonhar, o máximo que os praticantes poderiam aspirar era ter sonhos lúcidos sobre mundos fantasmagóricos. Talvez pudessem ter visões de mundos que geram energia, mas, para eles, elas não fariam nenhum sentido na ausência de um fundamento lógico abrangente que as categorizasse adequadamente.
Uma vez que os feiticeiros da linhagem de Dom Juan tinham desenvolvido a sua atenção ao sonhar, eles perceberam que tinham tocado nas portas do infinito. Tinham sido bem-sucedidos na ampliação dos parâmetros da sua percepção normal. Descobriram que o seu estado normal de consciência era infinitamente mais variado do que tinha sido antes do advento da sua atenção ao sonhar. Daquele ponto em diante, os feiticeiros poderiam verdadeiramente se aventurar no desconhecido.
- O aforismo "o céu é o limite" - disse Dom Juan - era mais aplicável aos feiticeiros dos tempos antigos. Certamente, eles se superaram.
- Para eles, era realmente verdade que o céu era o limite, Dom Juan? - perguntei.
- Essa pergunta só poderia ser respondida por cada um de nós individualmente - disse ele sorrindo efusivamente. - Eles nos deram as ferramentas. Depende de nós, individualmente, usá-las ou rejeitá-las. Em essência, estamos sozinhos diante do infinito e a questão de sermos ou não capazes de alcançarmos os nossos limites precisa ser respondida pessoalmente."
A vocação deste blog é ajudar os leitores, e o próprio autor, a preparar o terreno para o "estar presente", que acontece somente no momento fugidio do Agora - a porta estreita - de que as tradições falam. A diversidade de temas é proposital e tem dois objetivos: mostrar que não há só uma tradição exclusiva, e, se houver Intento, qualquer situação corriqueira da Vida é adequada para quem busca interiormente, até mesmo a de uma passista no desfile da escola de samba. - Arnaldo Preto
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domingo, 20 de outubro de 2013
O Ensonhar
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domingo, 4 de agosto de 2013
O Impulso da Terra
A obra de Castaneda tem uma passagem cativante e ao mesmo tempo desconcertante. É a estranha afirmação de que "A chave mágica que abre as portas da Terra é feita de silêncio interno e mais qualquer coisa que brilhe." É xamanismo puro, juntando silêncio interior e luz. Uma das índias aprendizes de Dom Juan, no livro O Segundo Círculo do Poder, afirma: O Nagual disse que o melhor
meio de se conseguir energia naturalmente, é deixar o Sol entrar pelos seus
olhos, especialmente o olho esquerdo.
Na passagem descrita abaixo os dois mestres Dom Juan e Dom Genaro mostram a Castaneda na prática, sem teoria, como funciona e o que é o fenômeno da Percepção, pelo qual A Consciência percebe o mundo que conhecemos a partir de como somos feitos, ou seja, casulos luminosos assim como esse ser vivo, a Terra, também é. E mais, o que precisamos fazer para perceber outros mundos com a ajuda do "Impulso da Terra", ou seja, alinhar e iluminar as emanações internas do nosso casulo com as emanações externas do universo presentes na Terra.
Vamos lá:
"- Vamos caminhar pela estrada de Oaxaca - disse-me Dom Juan. - Genaro está esperando por nós em algum ponto do caminho.
Seu convite tomou-me de surpresa. Eu passara todo o dia esperando que continuasse sua explicação. Deixamos sua casa e atravessamos em silêncio a cidade até a estrada de terra. Caminhamos tranqüilamente por um longo tempo. Subitamente, Dom Juan começou a falar.
- Tenho falado sobre as grandes descobertas que os antigos videntes fizeram. Assim como descobriram que a vida orgânica não é a única vida presente na Terra, também descobriram que a própria Terra é um ser vivo.
Esperou um pouco antes de continuar. Sorriu-me como se me convidasse a fazer um comentário. Não me ocorreu nada para dizer.
- Os antigos videntes viram que a Terra tem um casulo continuou. - Viram que existe uma bola circundando a Terra, um casulo luminoso que contém as emanações do Mar escuro da Consciência, a Águia. A Terra é um gigantesco ser consciente, sujeito às mesmas forças que nós.
Explicou que os antigos videntes, ao descobrirem isso, ficaram imediatamente interessados no uso prático que poderiam fazer desses conhecimentos. O resultado do seu interesse foi que as categorias mais elaboradas de suas feitiçarias tinham a ver com a Terra. Consideravam a Terra como fonte última de tudo que somos.
Dom Juan reafirmou que os antigos videntes não estavam enganados a esse respeito, porque a Terra é com efeito nossa fonte última.
Não disse nada mais até que encontramos Genaro, cerca de um quilômetro e meio estrada acima. Estava esperando por nós, sentado numa pedra ao lado da estrada.
Cumprimentou-me com grande efusão. Disse-me que devíamos subir ao topo de umas pequenas montanhas agrestes cobertas por vegetação rústica.
- Nós três vamos nos sentar apoiados em uma pedra disse Dom Juan - e olhar para a luz do sol refletida nas montanhas do leste. Quando o sol se puser atrás dos picos do oeste, a Terra poderá deixá-lo ver o alinhamento.
Quando atingimos o alto de uma montanha, sentamo-nos como Dom Juan havia dito, com as costas contra uma pedra. Dom Juan fez-me sentar entre os dois.
Perguntei-lhe o que estava planejando fazer. Suas declarações veladas e seus longos silêncios eram ameaçadores. Sentia-me terrivelmente apreensivo.
Ele não me respondeu. Continuou falando como se eu não tivesse dito nada.
- Foram os antigos videntes que, ao descobrirem que a percepção é alinhamento, tropeçaram em algo monumental. A parte triste é que suas aberrações impediram novamente que soubessem o que haviam realizado.
Apontou a cadeia de montanhas a leste do pequeno vale onde a cidade está localizada.
- Há cintilação suficiente naquelas montanhas para abalar seu ponto de aglutinação. Exatamente antes de o sol se pôr atrás dos picos do oeste, você terá alguns momentos para todas as cintilações de que precisa. A chave mágica que abre as portas da Terra é feita de silêncio interno e mais qualquer coisa que brilhe.
- O que devo fazer exatamente, Dom Juan?
Ambos examinaram-me. Pensei ver em seus olhos uma mistura de curiosidade e desagrado.
- Simplesmente corte o diálogo interno - disse-me Dom Juan. Senti um choque intenso de ansiedade e dúvida; não tinha confiança de que pudesse fazê-lo à vontade. Após um momento inicial de desagradável frustração, resignei-me a simplesmente relaxar.
Olhei ao redor. Percebi que estávamos suficientemente alto para enxergar o vale longo e estreito. Mais de metade dele estava coberto com as sombras do crepúsculo. O sol ainda iluminava o sopé da cadeia de montanhas do leste, no outro lado do vale; a luz do sol dava uma coloração ocre às montanhas erodidas, enquanto os picos azulados mais distantes adquiriram um tom púrpura.
- Percebe que já fez isto antes, não? - perguntou Dom Juan num sussurro.
Disse-lhe que não havia percebido coisa alguma.
- Sentamo-nos aqui antes, em outras ocasiões - insistiu - mas isso não importa, porque esta ocasião é a que vai contar.
- Hoje, com a ajuda de Genaro, você irá encontrar a chave que abre tudo. Não será capaz de usá-la ainda, mas saberá o que é e onde está. Os videntes pagam os preços mais caros para saber disso. Você mesmo vem pagando seu tributo todos esses anos.
Explicou que o que chamava de chave de tudo era o conhecimento em primeira mão de que a Terra é um ser consciente e, como tal, pode dar aos guerreiros um grande impulso, um empurrão que vem da consciência da própria Terra no instante em que as emanações do interior dos casulos dos guerreiros alinham-se com as emanações apropriadas do interior do casulo da Terra. Uma vez que tanto ela quanto o homem são seres conscientes, suas emanações coincidem, ou melhor, a Terra possui todas as emanações presentes no homem e, além disso, todas as emanações presentes em todos os seres conscientes, orgânicos e inorgânicos. Quando ocorre o alinhamento, os seres conscientes usam este alinhamento de um modo limitado e percebem seu mundo. Os guerreiros podem usar esse alinhamento para perceber, como todos os demais, ou usá-lo como um impulso que lhes permita entrar em mundos inimagináveis.
- Venho esperando que você me faça a única pergunta com sentido que poderia fazer, mas você nunca pergunta - continuou. - Você teima em perguntar se o mistério de tudo está dentro de nós. De qualquer modo, chegou bem perto.
"O desconhecido não está realmente dentro do casulo do homem nas emanações intocadas pela consciência e, no entanto, de certo modo, está lá. Esse é o ponto que você não compreendeu. Quando lhe disse que podemos aglutinar sete mundos além do que conhecemos, você entendeu que isto é algo interno, porque tende a acreditar que está apenas imaginando tudo que faz conosco. Por isso nunca me perguntou onde o desconhecido está realmente. Há anos venho traçando círculos com minha mão para indicar tudo ao redor de nós, dizendo que é lá que está o desconhecido. Mas você nunca ligou as coisas."
Genaro começou a rir, e depois tossiu e levantou-se.
- Ele ainda não ligou as coisas - disse a Dom Juan. Admiti para eles que, se havia uma ligação a ser feita, eu não estava percebendo.
Dom Juan reafirmou várias vezes que as emanações presentes dentro do casulo do homem só estão ali para a consciência, e que a consciência combina aquelas emanações com uma quantidade igual de emanações livres. Estas se chamam emanações livres porque são imensas; e dizer que fora do casulo do homem está o incognoscível é dizer que dentro do casulo da Terra está o incognoscível. Entretanto, no interior do casulo da Terra também está o desconhecido, e dentro do casulo do homem o desconhecido são as emanações intocadas pela consciência. Quando o brilho da consciência as toca, tomam-se ativas e podem ser alinhadas com as emanações livres correspondentes. Quando isto acontece, o desconhecido é percebido e toma-se conhecido.
- Sou muito estúpido, Dom Juan. Precisa trocar as coisas em miúdos para mim.
- Genaro vai fazer isso para você - retorquiu Dom Juan.
Genaro levantou-se e começou a executar a mesma marcha de poder que havia executado antes, quando circulou uma imensa rocha achatada em um campo de milho perto de sua casa com Dom Juan assistindo fascinado. Dessa vez, Dom Juan sussurrou em meu ouvido que eu deveria tentar ouvir os movimentos de Genaro, especialmente os movimentos de suas coxas quando se erguiam contra seu peito a cada passo que dava.
Segui os movimentos de Genaro com os olhos. Em poucos segundos, senti que alguma parte de mim fora aprisionada pelas pernas de Genaro. O movimento de suas coxas não me soltava. Era como se estivesse caminhando com ele. Sentia-me mesmo sem fôlego. Percebi, então, que estava realmente seguindo Genaro. De fato caminhava com ele, afastando-me do lugar onde estivéramos sentados.
Não vi Dom Juan, apenas Genaro caminhando diante de mim da mesma maneira estranha. Caminhamos por horas e horas.
Minha fadiga era tão intensa que fiquei com uma terrível dor de cabeça e me senti mal subitamente. Genaro parou de caminhar e veio para o meu lado. Havia um intenso brilho ao redor de nós, e a luz se refletiu nas feições de Genaro. Seus olhos brilhavam.
- Não olhe para Genaro! - Uma voz ordenou-me ao ouvido. - Olhe ao redor!
Obedeci. Pensei que estava no inferno! O choque de ver a paisagem foi tão grande que gritei de terror, mas não havia som em minha voz. Ao redor de mim estava a imagem mais vívida de todas as descrições do inferno de minha criação católica. Via um mundo avermelhado, quente e opressivo, escuro e cavernoso, sem céu, sem qualquer luz além das reflexões malignas das luzes avermelhadas que se mantinham em movimento ao redor de nós, em grande velocidade. Genaro começou a caminhar novamente, e algo puxou-me com ele. A força que me fazia segui-lo também evitou que eu olhasse ao redor. Minha consciência estava colada aos movimentos de Genaro.
Vi-o desabar como se estivesse profundamente exausto. No instante em que tocou o solo e estendeu-se para descansar, algo foi liberado em mim e fui novamente capaz de olhar ao redor. Dom Juan me fitava com ar de interrogação. Eu estava de pé diante dele. Encontrávamo-nos no mesmo lugar onde havíamos sentado, numa espaçosa saliência rochosa no topo de uma pequena montanha. Genaro ofegava e bufava, e eu também. Estava coberto de transpiração. Meu cabelo ensopara. Minhas roupas pingavam como se eu tivesse afundado num rio.
- Meu Deus, o que está acontecendo? - perguntei, com profunda seriedade e preocupação.
A exclamação soou tão imbecil que Dom Juan e Genaro começaram a rir.
- Estamos tentando fazer você compreender o que é o alinhamento - disse Genaro.
Cuidadosamente, Dom Juan ajudou-me a sentar. Sentou-se a meu lado.
- Lembra-se do que aconteceu?
Disse-lhe que sim, e ele insistiu em que lhe contasse exatamente o que tinha visto. Sua solicitação era incongruente com o que me dissera, que o único valor de minhas experiências era o deslocamento de meu ponto de aglutinação, e não o conteúdo de minhas visões. Explicou que Genaro tentara ajudar-me antes de maneira bastante parecida à que havia usado agora, mas que nunca pude lembrar-me de nada. Disse que Genaro guiara meu ponto de aglutinação desta vez, como havia feito antes, para aglomerar um mundo com outro dos grandes feixes de emanações.
Houve um longo silêncio. Eu estava tonto, chocado, embora minha consciência estivesse mais aguçada do que nunca. Pensei que havia finalmente compreendido o que era alinhamento. Algo dentro de mim, que eu vinha ativando sem saber como, deu-me a certeza de que eu compreendera uma grande verdade.
- Acho que você está começando a acumular seu próprio ímpeto - disse-me Dom Juan. - Vamos para casa. Foi bastante para um dia.
- Ora, vamos - disse Genaro. - Ele é mais forte do que um touro. Deveria ser empurrado um pouco além.
- Não! - disse Dom Juan enfaticamente. - Temos que economizar sua força. Ele já gastou muito.
Genaro insistiu para que ficássemos. Olhou para mim e piscou.
- Olhe - disse-me, apontando para a cadeia de montanhas do leste. - O sol mal se moveu alguns centímetros sobre aquelas montanhas e ainda assim você já caminhou no inferno por horas e horas. Não acha isso desconcertante?
- Não o assuste desnecessariamente! - protestou Dom Juan, quase com veemência.
Foi então que vi suas manobras. Naquele momento, a voz da visão disse-me que Dom Juan e Genaro eram uma dupla de soberbos espreitadores brincando comigo. Era Dom Juan que sempre me empurrava além de meus limites, mas sempre deixava Genaro ser o vilão. Naquele dia na casa de Genaro, assim que atingi um estado perigoso de medo histérico quando Genaro perguntou a Dom Juan se eu deveria ser empurrado e Dom Juan assegurou-me que ele estava divertindo-se à minha custa, Genaro estava na verdade preocupando-se comigo.
Fiquei tão chocado com a minha visão que comecei a rir. Tanto Dom Juan quanto Genaro olharam-me com surpresa. Então Dom Juan pareceu perceber imediatamente o que estava se passando em minha mente. Contou a Genaro, e ambos riram como crianças.
- Você está ficando adulto - disse-me Dom Juan. - Bem na hora. Você não é nem estúpido demais nem inteligente demais, exatamente como eu. Mas não é como eu em suas aberrações. Nisso, parece-se mais com o nagual Julian, só que ele era brilhante.
Levantou-se e distendeu as costas. Olhou para mim com os olhos mais penetrantes e ferozes que eu jamais havia visto. Levantei-me.
- Um nagual nunca deixa ninguém saber que ele está no comando - disse. - Um nagual vai e vem sem deixar rastros. Essa liberdade é o que faz dele um nagual.
Seus olhos lampejaram por um instante, e depois cobriram-se com uma nuvem de brandura, amabilidade e compaixão, e eram novamente os olhos de Dom Juan.
Eu mal podia manter o equilíbrio. Estava oscilando sem controle. Genaro saltou para o meu lado e ajudou-me a sentar. Ambos sentaram-se flanqueando-me.
- Você vai captar um impulso da Terra - disse-me Dom Juan em um ouvido.
- Pense nos olhos do nagual - disse-me Genaro no outro.
- O impulso virá no momento em que você enxergar a cintilação no alto daquela montanha - disse Dom Juan, e apontou para o pico mais alto da cadeia do leste.
- Nunca verá outra vez os olhos do nagual - sussurrou
Genaro.
- Vá com o impulso para onde ele o levar - disse Dom Juan.
- Se pensar nos olhos do nagual, irá perceber que há dois lados numa moeda - sussurrou Genaro.
Eu queria pensar no que ambos estavam dizendo, porém meus pensamentos não me obedeciam. Algo fazia pressão sobre mim. Senti que estava encolhendo. Tive uma sensação de náusea.
Vi as sombras do entardecer avançando rapidamente encosta acima naquelas montanhas do leste. Tive a sensação de que estava correndo atrás delas.
- É agora - disse Genaro em meu ouvido.
- Olhe o pico grande, olhe a cintilação - falou Dom Juan em meu outro ouvido.
Via-se realmente um ponto de brilho intenso onde Dom Juan havia apontado, no pico mais alto da cadeia. Observei o último raio de sol refletindo-se nele. Senti um frio na boca do estômago, como se estivesse em uma montanha-russa.
Senti, mais do que ouvi, o ruído distante de um terremoto que abruptamente me engolfou. As ondas sísmicas era tão altas e enormes que perderam todo o sentido para mim. Eu era um micróbio insignificante sendo torcido e virado.
O movimento diminuiu aos poucos. Houve mais uma sacudidela antes que tudo se detivesse. Tentei olhar ao redor. Não tinha qualquer ponto de referência. Parecia estar plantado, como uma árvore. Acima de mim havia uma cúpula branca, inconcebivelmente grande. Sua presença fez-me sentir exaltado. Voei em sua direção, ou melhor, fui lançado como um projétil. Tinha a sensação de estar confortável, cuidado, seguro; quanto mais perto chegava da cúpula, mais intensos se tornavam esses sentimentos. Finalmente venceram-me e perdi toda a consciência de mim mesmo.
A coisa seguinte que percebi foi estar ondulando suavemente no ar como uma folha que cai. Sentia-me exausto. Uma força de sucção começou a puxar-me. Atravessei um buraco escuro e então estava com Dom Juan e Genaro.
No dia seguinte, Dom Juan, Genaro e eu fomos a Oaxaca. Enquanto Dom Juan e eu perambulávamos pela praça, ao entardecer, ele repentinamente começou a falar sobre o que fizéramos no dia anterior. Perguntou-me se havia entendido ao que se referia quando dissera que os antigos videntes tropeçaram em algo monumental.
Disse-lhe que sim, mas que não podia explicar em palavras. - E o que acha que era a coisa principal que desejávamos que encontrasse no topo daquela montanha?
- Alinhamento - disse uma voz em meu ouvido, ao mesmo tempo em que eu dizia o mesmo.
Virei-me numa ação reflexa e dei com Genaro, que estava exatamente atrás de mim, caminhando em minhas pegadas. A rapidez de meu movimento surpreendeu-o. Abriu-se num sorriso e então abraçou-me.
Sentamo-nos. Dom Juan disse que havia pouquíssimas coisas que ele poderia dizer sobre o impulso que eu recebera da Terra, que os guerreiros estão sempre sós em tais casos e que as verdadeiras percepções vêm muito mais tarde, depois de anos de luta.
Disse a Dom Juan que o meu problema em compreender era aumentado porque ele e Genaro estavam fazendo todo o trabalho. Eu era simplesmente um personagem passivo, que só podia reagir às suas manobras. Não podia de maneira alguma iniciar qualquer ação, pois não sabia qual seria a ação apropriada, nem como iniciá-la.
- É precisamente esta a questão - disse Dom Juan.
Você ainda não deve saber. Você será deixado para trás, sozinho para reorganizar por sua própria conta tudo o que estamos fazendo com você agora. Essa é a tarefa que todo nagual tem de enfrentar.
"O nagual Julian fez a mesma coisa comigo, de um modo muito mais rude do que o usado com você. Ele sabia o que estava fazendo; era um nagual brilhante, que foi capaz de reorganizar em poucos anos tudo o que o nagual Elias lhe havia ensinado. Fez em tempo reduzidíssimo algo que tomaria a vida toda para você ou para mim. A diferença foi que o nagual Julian só necessitava de uma leve insinuação; a partir dali sua consciência assumia o comando, abrindo a única porta que existe."
- O que quer dizer, Dom Juan, a única porta que existe? - Quer dizer que, quando o ponto de aglutinação do homem se desloca além de um limite crucial, os resultados são sempre os mesmos para qualquer homem. As técnicas para fazê-lo deslocar-se podem ser muito diferentes, mas os resultados são sempre os mesmos, ou seja: o ponto de aglutinação aglomera outros mundos, auxiliado pelo impulso da Terra..
- O impulso da Terra é o mesmo para todos os homens,
Dom Juan?
- É claro. A dificuldade para o homem médio é o diálogo interno. A pessoa só pode usar o impulso quando atinge um estado de silêncio total. Você vai comprovar esta verdade no dia em que tentar usar o impulso sozinho.
- Eu não acho que devia tentar - disse Genaro sinceramente. - São necessários anos para tornar-se um guerreiro impecável. Para suportar o impacto do impulso da Terra, você precisa ser melhor do que agora.
- A rapidez do impulso irá dissolver tudo em você - disse
Dom Juan. - Sob seu impacto, tornamo-nos nada. Velocidade e sentido de existência individual não combinam. Ontem na montanha, Genaro e eu amparamos você e servimos de âncora; de outro modo você não teria regressado. Seria como alguns homens que, propositalmente, usaram esse impulso e entraram no desconheci do, onde continuam vagando em alguma imensidão incompreensível.
Queria que ele explicasse melhor, mas recusou-se. Mudou de assunto abruptamente.
- Há uma coisa que você ainda não compreendeu sobre a Terra ser um ser consciente. E Genaro, esse pavoroso Genaro, quer empurrá-lo até que compreenda.
Ambos riram. Brincando, Genaro deu-me um empurrão e piscou para mim enquanto pronunciava: "Eu sou pavoroso."
- Genaro é um capataz terrível, vil e rude - continuou Dom Juan.- Ele não se importa com seus medos e empurra-o sem dó nem piedade. Se não fosse por mim...
Era a imagem perfeita de um velho senhor bondoso e amável. Baixou os olhos e suspirou. Os dois caíram numa gargalhada ruidosa.
Quando se aquietaram, Dom Juan disse que Genaro desejava mostrar-me o que eu ainda não havia compreendido, que a suprema consciência da Terra é o que torna possível para nós passarmos para outras grandes faixas de emanações.
- Nós, seres vivos, somos percebedores - disse ele. – E percebemos por que algumas emanações do interior do casulo do homem se alinham com algumas emanações de fora. O alinhamento, portanto, é a passagem secreta, e o impulso da Terra é a chave. Genaro quer que você observe o momento de alinhamento. Olhe, para ele!
Genaro levantou-se como um ator e fez uma mesura, depois mostrou-nos que não trazia nada em suas mangas ou nas pernas de suas calças. Tirou os sapatos e sacudiu-os para mostrar que não havia nada escondido ali também.
Dom Juan estava rindo com total abandono. Genaro moveu suas mãos para cima e para baixo. O movimento criou uma imediata fixação em mim. Senti que nós três subitamente nos levantávamos e afastávamo-nos andando da praça, comigo entre os dois.
Enquanto continuamos andando, perdi minha visão periférica. Não distinguia mais as casas ou as ruas. Não percebi as montanhas ou a vegetação, também. Em dado momento, notei que havia perdido Dom Juan e Genaro de vista; em vez disso, via dois volumes luminosos movendo-se para cima e para baixo ao meu lado.
Senti um pânico instantâneo, que controlei imediatamente.
Tive a incomum porém bem conhecida sensação de que eu era eu mesmo mas, ainda assim, não o era. Estava consciente, entretanto, de tudo ao meu redor por meio de uma capacidade ao mesmo tempo estranha e extremamente familiar. A visão do mundo veio a mim de uma só vez. Tudo em mim via; a totalidade do que eu, em minha consciência normal, chamo de meu corpo era capaz de sentir como se fosse um enorme olho que detectava tudo. A primeira coisa que detectei após ver as duas bolhas de luz, foi um mundo violeta arroxeado feito de algo que parecia painéis e dosséis coloridos. Painéis chatos, semelhantes a telas de círculos concêntricos e irregulares, estavam por toda parte.
Senti uma grande pressão sobre mim e então ouvi uma voz em meu ouvido. Estava "vendo". A voz disse que a pressão se devia a meu movimento. Eu me movia junto com Dom Juan e Genaro.
Senti uma leve sacudida, como se tivesse rompido uma barreira de papel, e encontrei-me diante de um mundo luminescente. A luz se irradiava de toda a parte, mas sem ofuscar. Era como se o sol estivesse por irromper por detrás de nuvens brancas e diáfanas.
Estava olhando para baixo, para a fonte de luz. Era uma visão maravilhosa. Não havia massas de terras, apenas nuvens brancas e fofas e luz. E estávamos caminhando sobre as nuvens.
Então algo aprisionou-me novamente. Eu me movia com a mesma velocidade das duas bolhas de luz aos meus lados. Gradualmente, começaram a perder seu brilho, tornaram-se opacas e finalmente eram Dom Juan e Genaro. Estávamos caminhando por uma rua deserta, afastada da praça principal. Então voltamos.
- Genaro ajudou-o a alinhar suas emanações com as emanações livres ligadas a outra faixa - disse-me Dom Juan. - O alinhamento deve ser um ato muito pacífico, imperceptível. Nada de sair voando, nada de espetacular.
Disse que a sobriedade necessária para deixar que o ponto de aglutinação aglomere outros mundos é algo que não deve ser improvisado. A sobriedade deve estar madura e tornar-se uma força por si mesma para que os guerreiros possam romper impunemente a barreira da percepção.
Estávamos chegando mais perto da praça principal. Genaro não havia dito palavra. Caminhava em silêncio, como que absorto em seus pensamentos. Pouco antes de chegarmos à praça, Dom Juan disse que Genaro queria mostrar-me mais uma coisa: que a posição do ponto de aglutinação é tudo, e que o mundo que ele nos faz perceber é tão real que não deixa espaço para nada além da realidade.
- Genaro fará o ponto de aglutinação dele aglomerar outro mundo só para você ver - disse-me Dom Juan. - Então, você verá que, enquanto ele o perceber, a força de sua percepção não deixará espaço para mais nada.
Genaro caminhou à nossa frente e Dom Juan ordenou-me que girasse os olhos na direção contrária do relógio enquanto olhava para Genaro, para evitar ser arrastado com ele. Obedeci. Genaro estava a cinco ou seis passos de mim. Subitamente, sua forma ficou difusa e num instante ele se desvaneceu no ar.
Pensei sobre os filmes de ficção científica que havia visto, e perguntei-me se temos consciência subliminar de nossas possibilidades.
- Genaro está separado de nós nesse momento pela força da percepção - disse Dom Juan calmamente. - Quando o ponto de aglutinação aglomera um mundo, este mundo é total. Esta é a maravilha em que os antigos videntes tropeçaram sem nunca perceber o que fosse: a consciência da Terra pode dar-nos um impulso para alinhar outras grandes faixas de emanações, e a força desse novo alinhamento faz o mundo desaparecer.
"Todas as vezes que os antigos videntes realizavam um novo alinhamento, acreditavam ter descido às profundezas abaixo ou subido céus acima. Nunca souberam que o mundo desaparece no ar quando um novo alinhamento total nos faz perceber outro mundo total.""
Extraído do livro "O Fogo Interior" de Carlos Castaneda
Vamos lá:
"- Vamos caminhar pela estrada de Oaxaca - disse-me Dom Juan. - Genaro está esperando por nós em algum ponto do caminho.
Seu convite tomou-me de surpresa. Eu passara todo o dia esperando que continuasse sua explicação. Deixamos sua casa e atravessamos em silêncio a cidade até a estrada de terra. Caminhamos tranqüilamente por um longo tempo. Subitamente, Dom Juan começou a falar.
- Tenho falado sobre as grandes descobertas que os antigos videntes fizeram. Assim como descobriram que a vida orgânica não é a única vida presente na Terra, também descobriram que a própria Terra é um ser vivo.
Esperou um pouco antes de continuar. Sorriu-me como se me convidasse a fazer um comentário. Não me ocorreu nada para dizer.
- Os antigos videntes viram que a Terra tem um casulo continuou. - Viram que existe uma bola circundando a Terra, um casulo luminoso que contém as emanações do Mar escuro da Consciência, a Águia. A Terra é um gigantesco ser consciente, sujeito às mesmas forças que nós.
Explicou que os antigos videntes, ao descobrirem isso, ficaram imediatamente interessados no uso prático que poderiam fazer desses conhecimentos. O resultado do seu interesse foi que as categorias mais elaboradas de suas feitiçarias tinham a ver com a Terra. Consideravam a Terra como fonte última de tudo que somos.
Dom Juan reafirmou que os antigos videntes não estavam enganados a esse respeito, porque a Terra é com efeito nossa fonte última.
Não disse nada mais até que encontramos Genaro, cerca de um quilômetro e meio estrada acima. Estava esperando por nós, sentado numa pedra ao lado da estrada.
Cumprimentou-me com grande efusão. Disse-me que devíamos subir ao topo de umas pequenas montanhas agrestes cobertas por vegetação rústica.
- Nós três vamos nos sentar apoiados em uma pedra disse Dom Juan - e olhar para a luz do sol refletida nas montanhas do leste. Quando o sol se puser atrás dos picos do oeste, a Terra poderá deixá-lo ver o alinhamento.
Quando atingimos o alto de uma montanha, sentamo-nos como Dom Juan havia dito, com as costas contra uma pedra. Dom Juan fez-me sentar entre os dois.
Perguntei-lhe o que estava planejando fazer. Suas declarações veladas e seus longos silêncios eram ameaçadores. Sentia-me terrivelmente apreensivo.
Ele não me respondeu. Continuou falando como se eu não tivesse dito nada.
- Foram os antigos videntes que, ao descobrirem que a percepção é alinhamento, tropeçaram em algo monumental. A parte triste é que suas aberrações impediram novamente que soubessem o que haviam realizado.
Apontou a cadeia de montanhas a leste do pequeno vale onde a cidade está localizada.
- Há cintilação suficiente naquelas montanhas para abalar seu ponto de aglutinação. Exatamente antes de o sol se pôr atrás dos picos do oeste, você terá alguns momentos para todas as cintilações de que precisa. A chave mágica que abre as portas da Terra é feita de silêncio interno e mais qualquer coisa que brilhe.
- O que devo fazer exatamente, Dom Juan?
Ambos examinaram-me. Pensei ver em seus olhos uma mistura de curiosidade e desagrado.
- Simplesmente corte o diálogo interno - disse-me Dom Juan. Senti um choque intenso de ansiedade e dúvida; não tinha confiança de que pudesse fazê-lo à vontade. Após um momento inicial de desagradável frustração, resignei-me a simplesmente relaxar.
Olhei ao redor. Percebi que estávamos suficientemente alto para enxergar o vale longo e estreito. Mais de metade dele estava coberto com as sombras do crepúsculo. O sol ainda iluminava o sopé da cadeia de montanhas do leste, no outro lado do vale; a luz do sol dava uma coloração ocre às montanhas erodidas, enquanto os picos azulados mais distantes adquiriram um tom púrpura.
- Percebe que já fez isto antes, não? - perguntou Dom Juan num sussurro.
Disse-lhe que não havia percebido coisa alguma.
- Sentamo-nos aqui antes, em outras ocasiões - insistiu - mas isso não importa, porque esta ocasião é a que vai contar.
- Hoje, com a ajuda de Genaro, você irá encontrar a chave que abre tudo. Não será capaz de usá-la ainda, mas saberá o que é e onde está. Os videntes pagam os preços mais caros para saber disso. Você mesmo vem pagando seu tributo todos esses anos.
Explicou que o que chamava de chave de tudo era o conhecimento em primeira mão de que a Terra é um ser consciente e, como tal, pode dar aos guerreiros um grande impulso, um empurrão que vem da consciência da própria Terra no instante em que as emanações do interior dos casulos dos guerreiros alinham-se com as emanações apropriadas do interior do casulo da Terra. Uma vez que tanto ela quanto o homem são seres conscientes, suas emanações coincidem, ou melhor, a Terra possui todas as emanações presentes no homem e, além disso, todas as emanações presentes em todos os seres conscientes, orgânicos e inorgânicos. Quando ocorre o alinhamento, os seres conscientes usam este alinhamento de um modo limitado e percebem seu mundo. Os guerreiros podem usar esse alinhamento para perceber, como todos os demais, ou usá-lo como um impulso que lhes permita entrar em mundos inimagináveis.
- Venho esperando que você me faça a única pergunta com sentido que poderia fazer, mas você nunca pergunta - continuou. - Você teima em perguntar se o mistério de tudo está dentro de nós. De qualquer modo, chegou bem perto.
"O desconhecido não está realmente dentro do casulo do homem nas emanações intocadas pela consciência e, no entanto, de certo modo, está lá. Esse é o ponto que você não compreendeu. Quando lhe disse que podemos aglutinar sete mundos além do que conhecemos, você entendeu que isto é algo interno, porque tende a acreditar que está apenas imaginando tudo que faz conosco. Por isso nunca me perguntou onde o desconhecido está realmente. Há anos venho traçando círculos com minha mão para indicar tudo ao redor de nós, dizendo que é lá que está o desconhecido. Mas você nunca ligou as coisas."
Genaro começou a rir, e depois tossiu e levantou-se.
- Ele ainda não ligou as coisas - disse a Dom Juan. Admiti para eles que, se havia uma ligação a ser feita, eu não estava percebendo.
Dom Juan reafirmou várias vezes que as emanações presentes dentro do casulo do homem só estão ali para a consciência, e que a consciência combina aquelas emanações com uma quantidade igual de emanações livres. Estas se chamam emanações livres porque são imensas; e dizer que fora do casulo do homem está o incognoscível é dizer que dentro do casulo da Terra está o incognoscível. Entretanto, no interior do casulo da Terra também está o desconhecido, e dentro do casulo do homem o desconhecido são as emanações intocadas pela consciência. Quando o brilho da consciência as toca, tomam-se ativas e podem ser alinhadas com as emanações livres correspondentes. Quando isto acontece, o desconhecido é percebido e toma-se conhecido.
- Sou muito estúpido, Dom Juan. Precisa trocar as coisas em miúdos para mim.
- Genaro vai fazer isso para você - retorquiu Dom Juan.
Genaro levantou-se e começou a executar a mesma marcha de poder que havia executado antes, quando circulou uma imensa rocha achatada em um campo de milho perto de sua casa com Dom Juan assistindo fascinado. Dessa vez, Dom Juan sussurrou em meu ouvido que eu deveria tentar ouvir os movimentos de Genaro, especialmente os movimentos de suas coxas quando se erguiam contra seu peito a cada passo que dava.
Segui os movimentos de Genaro com os olhos. Em poucos segundos, senti que alguma parte de mim fora aprisionada pelas pernas de Genaro. O movimento de suas coxas não me soltava. Era como se estivesse caminhando com ele. Sentia-me mesmo sem fôlego. Percebi, então, que estava realmente seguindo Genaro. De fato caminhava com ele, afastando-me do lugar onde estivéramos sentados.
Não vi Dom Juan, apenas Genaro caminhando diante de mim da mesma maneira estranha. Caminhamos por horas e horas.
Minha fadiga era tão intensa que fiquei com uma terrível dor de cabeça e me senti mal subitamente. Genaro parou de caminhar e veio para o meu lado. Havia um intenso brilho ao redor de nós, e a luz se refletiu nas feições de Genaro. Seus olhos brilhavam.
- Não olhe para Genaro! - Uma voz ordenou-me ao ouvido. - Olhe ao redor!
Obedeci. Pensei que estava no inferno! O choque de ver a paisagem foi tão grande que gritei de terror, mas não havia som em minha voz. Ao redor de mim estava a imagem mais vívida de todas as descrições do inferno de minha criação católica. Via um mundo avermelhado, quente e opressivo, escuro e cavernoso, sem céu, sem qualquer luz além das reflexões malignas das luzes avermelhadas que se mantinham em movimento ao redor de nós, em grande velocidade. Genaro começou a caminhar novamente, e algo puxou-me com ele. A força que me fazia segui-lo também evitou que eu olhasse ao redor. Minha consciência estava colada aos movimentos de Genaro.
Vi-o desabar como se estivesse profundamente exausto. No instante em que tocou o solo e estendeu-se para descansar, algo foi liberado em mim e fui novamente capaz de olhar ao redor. Dom Juan me fitava com ar de interrogação. Eu estava de pé diante dele. Encontrávamo-nos no mesmo lugar onde havíamos sentado, numa espaçosa saliência rochosa no topo de uma pequena montanha. Genaro ofegava e bufava, e eu também. Estava coberto de transpiração. Meu cabelo ensopara. Minhas roupas pingavam como se eu tivesse afundado num rio.
- Meu Deus, o que está acontecendo? - perguntei, com profunda seriedade e preocupação.
A exclamação soou tão imbecil que Dom Juan e Genaro começaram a rir.
- Estamos tentando fazer você compreender o que é o alinhamento - disse Genaro.
Cuidadosamente, Dom Juan ajudou-me a sentar. Sentou-se a meu lado.
- Lembra-se do que aconteceu?
Disse-lhe que sim, e ele insistiu em que lhe contasse exatamente o que tinha visto. Sua solicitação era incongruente com o que me dissera, que o único valor de minhas experiências era o deslocamento de meu ponto de aglutinação, e não o conteúdo de minhas visões. Explicou que Genaro tentara ajudar-me antes de maneira bastante parecida à que havia usado agora, mas que nunca pude lembrar-me de nada. Disse que Genaro guiara meu ponto de aglutinação desta vez, como havia feito antes, para aglomerar um mundo com outro dos grandes feixes de emanações.
Houve um longo silêncio. Eu estava tonto, chocado, embora minha consciência estivesse mais aguçada do que nunca. Pensei que havia finalmente compreendido o que era alinhamento. Algo dentro de mim, que eu vinha ativando sem saber como, deu-me a certeza de que eu compreendera uma grande verdade.
- Acho que você está começando a acumular seu próprio ímpeto - disse-me Dom Juan. - Vamos para casa. Foi bastante para um dia.
- Ora, vamos - disse Genaro. - Ele é mais forte do que um touro. Deveria ser empurrado um pouco além.
- Não! - disse Dom Juan enfaticamente. - Temos que economizar sua força. Ele já gastou muito.
Genaro insistiu para que ficássemos. Olhou para mim e piscou.
- Olhe - disse-me, apontando para a cadeia de montanhas do leste. - O sol mal se moveu alguns centímetros sobre aquelas montanhas e ainda assim você já caminhou no inferno por horas e horas. Não acha isso desconcertante?
- Não o assuste desnecessariamente! - protestou Dom Juan, quase com veemência.
Foi então que vi suas manobras. Naquele momento, a voz da visão disse-me que Dom Juan e Genaro eram uma dupla de soberbos espreitadores brincando comigo. Era Dom Juan que sempre me empurrava além de meus limites, mas sempre deixava Genaro ser o vilão. Naquele dia na casa de Genaro, assim que atingi um estado perigoso de medo histérico quando Genaro perguntou a Dom Juan se eu deveria ser empurrado e Dom Juan assegurou-me que ele estava divertindo-se à minha custa, Genaro estava na verdade preocupando-se comigo.
Fiquei tão chocado com a minha visão que comecei a rir. Tanto Dom Juan quanto Genaro olharam-me com surpresa. Então Dom Juan pareceu perceber imediatamente o que estava se passando em minha mente. Contou a Genaro, e ambos riram como crianças.
- Você está ficando adulto - disse-me Dom Juan. - Bem na hora. Você não é nem estúpido demais nem inteligente demais, exatamente como eu. Mas não é como eu em suas aberrações. Nisso, parece-se mais com o nagual Julian, só que ele era brilhante.
Levantou-se e distendeu as costas. Olhou para mim com os olhos mais penetrantes e ferozes que eu jamais havia visto. Levantei-me.
- Um nagual nunca deixa ninguém saber que ele está no comando - disse. - Um nagual vai e vem sem deixar rastros. Essa liberdade é o que faz dele um nagual.
Seus olhos lampejaram por um instante, e depois cobriram-se com uma nuvem de brandura, amabilidade e compaixão, e eram novamente os olhos de Dom Juan.
Eu mal podia manter o equilíbrio. Estava oscilando sem controle. Genaro saltou para o meu lado e ajudou-me a sentar. Ambos sentaram-se flanqueando-me.
- Você vai captar um impulso da Terra - disse-me Dom Juan em um ouvido.
- Pense nos olhos do nagual - disse-me Genaro no outro.
- O impulso virá no momento em que você enxergar a cintilação no alto daquela montanha - disse Dom Juan, e apontou para o pico mais alto da cadeia do leste.
- Nunca verá outra vez os olhos do nagual - sussurrou
Genaro.
- Vá com o impulso para onde ele o levar - disse Dom Juan.
- Se pensar nos olhos do nagual, irá perceber que há dois lados numa moeda - sussurrou Genaro.
Eu queria pensar no que ambos estavam dizendo, porém meus pensamentos não me obedeciam. Algo fazia pressão sobre mim. Senti que estava encolhendo. Tive uma sensação de náusea.
Vi as sombras do entardecer avançando rapidamente encosta acima naquelas montanhas do leste. Tive a sensação de que estava correndo atrás delas.
- É agora - disse Genaro em meu ouvido.
- Olhe o pico grande, olhe a cintilação - falou Dom Juan em meu outro ouvido.
Via-se realmente um ponto de brilho intenso onde Dom Juan havia apontado, no pico mais alto da cadeia. Observei o último raio de sol refletindo-se nele. Senti um frio na boca do estômago, como se estivesse em uma montanha-russa.
Senti, mais do que ouvi, o ruído distante de um terremoto que abruptamente me engolfou. As ondas sísmicas era tão altas e enormes que perderam todo o sentido para mim. Eu era um micróbio insignificante sendo torcido e virado.
O movimento diminuiu aos poucos. Houve mais uma sacudidela antes que tudo se detivesse. Tentei olhar ao redor. Não tinha qualquer ponto de referência. Parecia estar plantado, como uma árvore. Acima de mim havia uma cúpula branca, inconcebivelmente grande. Sua presença fez-me sentir exaltado. Voei em sua direção, ou melhor, fui lançado como um projétil. Tinha a sensação de estar confortável, cuidado, seguro; quanto mais perto chegava da cúpula, mais intensos se tornavam esses sentimentos. Finalmente venceram-me e perdi toda a consciência de mim mesmo.
A coisa seguinte que percebi foi estar ondulando suavemente no ar como uma folha que cai. Sentia-me exausto. Uma força de sucção começou a puxar-me. Atravessei um buraco escuro e então estava com Dom Juan e Genaro.
No dia seguinte, Dom Juan, Genaro e eu fomos a Oaxaca. Enquanto Dom Juan e eu perambulávamos pela praça, ao entardecer, ele repentinamente começou a falar sobre o que fizéramos no dia anterior. Perguntou-me se havia entendido ao que se referia quando dissera que os antigos videntes tropeçaram em algo monumental.
Disse-lhe que sim, mas que não podia explicar em palavras. - E o que acha que era a coisa principal que desejávamos que encontrasse no topo daquela montanha?
- Alinhamento - disse uma voz em meu ouvido, ao mesmo tempo em que eu dizia o mesmo.
Virei-me numa ação reflexa e dei com Genaro, que estava exatamente atrás de mim, caminhando em minhas pegadas. A rapidez de meu movimento surpreendeu-o. Abriu-se num sorriso e então abraçou-me.
Sentamo-nos. Dom Juan disse que havia pouquíssimas coisas que ele poderia dizer sobre o impulso que eu recebera da Terra, que os guerreiros estão sempre sós em tais casos e que as verdadeiras percepções vêm muito mais tarde, depois de anos de luta.
Disse a Dom Juan que o meu problema em compreender era aumentado porque ele e Genaro estavam fazendo todo o trabalho. Eu era simplesmente um personagem passivo, que só podia reagir às suas manobras. Não podia de maneira alguma iniciar qualquer ação, pois não sabia qual seria a ação apropriada, nem como iniciá-la.
- É precisamente esta a questão - disse Dom Juan.
Você ainda não deve saber. Você será deixado para trás, sozinho para reorganizar por sua própria conta tudo o que estamos fazendo com você agora. Essa é a tarefa que todo nagual tem de enfrentar.
"O nagual Julian fez a mesma coisa comigo, de um modo muito mais rude do que o usado com você. Ele sabia o que estava fazendo; era um nagual brilhante, que foi capaz de reorganizar em poucos anos tudo o que o nagual Elias lhe havia ensinado. Fez em tempo reduzidíssimo algo que tomaria a vida toda para você ou para mim. A diferença foi que o nagual Julian só necessitava de uma leve insinuação; a partir dali sua consciência assumia o comando, abrindo a única porta que existe."
- O que quer dizer, Dom Juan, a única porta que existe? - Quer dizer que, quando o ponto de aglutinação do homem se desloca além de um limite crucial, os resultados são sempre os mesmos para qualquer homem. As técnicas para fazê-lo deslocar-se podem ser muito diferentes, mas os resultados são sempre os mesmos, ou seja: o ponto de aglutinação aglomera outros mundos, auxiliado pelo impulso da Terra..
- O impulso da Terra é o mesmo para todos os homens,
Dom Juan?
- É claro. A dificuldade para o homem médio é o diálogo interno. A pessoa só pode usar o impulso quando atinge um estado de silêncio total. Você vai comprovar esta verdade no dia em que tentar usar o impulso sozinho.
- Eu não acho que devia tentar - disse Genaro sinceramente. - São necessários anos para tornar-se um guerreiro impecável. Para suportar o impacto do impulso da Terra, você precisa ser melhor do que agora.
- A rapidez do impulso irá dissolver tudo em você - disse
Dom Juan. - Sob seu impacto, tornamo-nos nada. Velocidade e sentido de existência individual não combinam. Ontem na montanha, Genaro e eu amparamos você e servimos de âncora; de outro modo você não teria regressado. Seria como alguns homens que, propositalmente, usaram esse impulso e entraram no desconheci do, onde continuam vagando em alguma imensidão incompreensível.
Queria que ele explicasse melhor, mas recusou-se. Mudou de assunto abruptamente.
- Há uma coisa que você ainda não compreendeu sobre a Terra ser um ser consciente. E Genaro, esse pavoroso Genaro, quer empurrá-lo até que compreenda.
Ambos riram. Brincando, Genaro deu-me um empurrão e piscou para mim enquanto pronunciava: "Eu sou pavoroso."
- Genaro é um capataz terrível, vil e rude - continuou Dom Juan.- Ele não se importa com seus medos e empurra-o sem dó nem piedade. Se não fosse por mim...
Era a imagem perfeita de um velho senhor bondoso e amável. Baixou os olhos e suspirou. Os dois caíram numa gargalhada ruidosa.
Quando se aquietaram, Dom Juan disse que Genaro desejava mostrar-me o que eu ainda não havia compreendido, que a suprema consciência da Terra é o que torna possível para nós passarmos para outras grandes faixas de emanações.
- Nós, seres vivos, somos percebedores - disse ele. – E percebemos por que algumas emanações do interior do casulo do homem se alinham com algumas emanações de fora. O alinhamento, portanto, é a passagem secreta, e o impulso da Terra é a chave. Genaro quer que você observe o momento de alinhamento. Olhe, para ele!
Genaro levantou-se como um ator e fez uma mesura, depois mostrou-nos que não trazia nada em suas mangas ou nas pernas de suas calças. Tirou os sapatos e sacudiu-os para mostrar que não havia nada escondido ali também.
Dom Juan estava rindo com total abandono. Genaro moveu suas mãos para cima e para baixo. O movimento criou uma imediata fixação em mim. Senti que nós três subitamente nos levantávamos e afastávamo-nos andando da praça, comigo entre os dois.
Enquanto continuamos andando, perdi minha visão periférica. Não distinguia mais as casas ou as ruas. Não percebi as montanhas ou a vegetação, também. Em dado momento, notei que havia perdido Dom Juan e Genaro de vista; em vez disso, via dois volumes luminosos movendo-se para cima e para baixo ao meu lado.
Senti um pânico instantâneo, que controlei imediatamente.
Tive a incomum porém bem conhecida sensação de que eu era eu mesmo mas, ainda assim, não o era. Estava consciente, entretanto, de tudo ao meu redor por meio de uma capacidade ao mesmo tempo estranha e extremamente familiar. A visão do mundo veio a mim de uma só vez. Tudo em mim via; a totalidade do que eu, em minha consciência normal, chamo de meu corpo era capaz de sentir como se fosse um enorme olho que detectava tudo. A primeira coisa que detectei após ver as duas bolhas de luz, foi um mundo violeta arroxeado feito de algo que parecia painéis e dosséis coloridos. Painéis chatos, semelhantes a telas de círculos concêntricos e irregulares, estavam por toda parte.
Senti uma grande pressão sobre mim e então ouvi uma voz em meu ouvido. Estava "vendo". A voz disse que a pressão se devia a meu movimento. Eu me movia junto com Dom Juan e Genaro.
Senti uma leve sacudida, como se tivesse rompido uma barreira de papel, e encontrei-me diante de um mundo luminescente. A luz se irradiava de toda a parte, mas sem ofuscar. Era como se o sol estivesse por irromper por detrás de nuvens brancas e diáfanas.
Estava olhando para baixo, para a fonte de luz. Era uma visão maravilhosa. Não havia massas de terras, apenas nuvens brancas e fofas e luz. E estávamos caminhando sobre as nuvens.
Então algo aprisionou-me novamente. Eu me movia com a mesma velocidade das duas bolhas de luz aos meus lados. Gradualmente, começaram a perder seu brilho, tornaram-se opacas e finalmente eram Dom Juan e Genaro. Estávamos caminhando por uma rua deserta, afastada da praça principal. Então voltamos.
- Genaro ajudou-o a alinhar suas emanações com as emanações livres ligadas a outra faixa - disse-me Dom Juan. - O alinhamento deve ser um ato muito pacífico, imperceptível. Nada de sair voando, nada de espetacular.
Disse que a sobriedade necessária para deixar que o ponto de aglutinação aglomere outros mundos é algo que não deve ser improvisado. A sobriedade deve estar madura e tornar-se uma força por si mesma para que os guerreiros possam romper impunemente a barreira da percepção.
Estávamos chegando mais perto da praça principal. Genaro não havia dito palavra. Caminhava em silêncio, como que absorto em seus pensamentos. Pouco antes de chegarmos à praça, Dom Juan disse que Genaro queria mostrar-me mais uma coisa: que a posição do ponto de aglutinação é tudo, e que o mundo que ele nos faz perceber é tão real que não deixa espaço para nada além da realidade.
- Genaro fará o ponto de aglutinação dele aglomerar outro mundo só para você ver - disse-me Dom Juan. - Então, você verá que, enquanto ele o perceber, a força de sua percepção não deixará espaço para mais nada.
Genaro caminhou à nossa frente e Dom Juan ordenou-me que girasse os olhos na direção contrária do relógio enquanto olhava para Genaro, para evitar ser arrastado com ele. Obedeci. Genaro estava a cinco ou seis passos de mim. Subitamente, sua forma ficou difusa e num instante ele se desvaneceu no ar.
Pensei sobre os filmes de ficção científica que havia visto, e perguntei-me se temos consciência subliminar de nossas possibilidades.
- Genaro está separado de nós nesse momento pela força da percepção - disse Dom Juan calmamente. - Quando o ponto de aglutinação aglomera um mundo, este mundo é total. Esta é a maravilha em que os antigos videntes tropeçaram sem nunca perceber o que fosse: a consciência da Terra pode dar-nos um impulso para alinhar outras grandes faixas de emanações, e a força desse novo alinhamento faz o mundo desaparecer.
"Todas as vezes que os antigos videntes realizavam um novo alinhamento, acreditavam ter descido às profundezas abaixo ou subido céus acima. Nunca souberam que o mundo desaparece no ar quando um novo alinhamento total nos faz perceber outro mundo total.""
Extraído do livro "O Fogo Interior" de Carlos Castaneda
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domingo, 30 de setembro de 2012
O Sonhar (Leitura Transversal)
Como já fizemos com o tema “não fazer”, na postagem "O Não fazer - Leitura Transversal”, vamos novamente ler pelo avesso um outro tema na obra de Castaneda, "O Sonhar". É um método batizado de Leitura Transversal, que é nada mais do que “ler apenas um tema específico que interessa dentro de uma obra qualquer. Como já dissemos lá, quem já leu os índices remissivos da Bíblia, do Alcorão, da Torá, ou qualquer obra extensa, sabe o que é isso. Imaginem: eu quero saber na Bíblia tudo sobre o assunto "a Graça”, por exemplo. Vou ao índice e acho todas as passagens sobre “a graça”. Legal, não é? A Leitura Transversal é o não fazer de ler (rsrs).
A informática facilitou essa operação porque hoje no Word ou outro editor de texto onde estão as obras digitalizadas, pode-se selecionar pelo comando “localizar” todas as vezes que um palavra ou expressão está escrita (no caso usamos “sonhar é”). Então é só ler os texto garimpados pelo “localizar”. Nós fizemos isso na obra completa de Castaneda e “cruzamos” transversalmente a obra obtendo um a um vários temas importantes que estavam dispersos nela. Um deles é “o sonhar” um tema fascinante. Quem se interessar pode se aprofundar lendo os próprios livro inteiros. O texto é longo, mas não precisa lê-lo de uma só vez. O assunto aqui exposto é alta magia.
Vamos às citações nos livros, sobre “o sonhar” ou “ensonhar” (forma que existe em espanhol), usada nos livros do Armando Torres:
“- Quer dizer então, Dom Juan, que sonhar é real? - Claro que é real.
- Tão real como o que estamos fazendo agora?
- Se você quer comparar as coisas, posso dizer que talvez seja mais real. No sonhar você tem poder; pode modificar as coisas; pode descobrir uma infinidade de fatos ocultos; pode controlar o que quiser.”
Viagem a Ixtlan – pág. 98
- Deve começar com alguma coisa bem simples - falou. Hoje, em seus sonhos, deve olhar para suas mãos.
Naturalmente, pode olhar para o que bem entender ... os dedos dos pés, sua barriga ou qualquer coisa. Falei suas mãos porque isso foi o mais fácil para eu olhar. Não pense que é brincadeira. Sonhar é tão sério quanto ver ou morrer ou qualquer outra coisa neste mundo assombroso e misterioso.
- Cada vez que você olha para alguma coisa em seus sonhos essa coisa muda de forma - disse ele, depois de um longo silêncio. - O truque de aprender a organizar-se para sonhar obviamente não é só olhar para as coisas, mas manter a visão delas. Sonhar é real quando a gente conseguiu focalizar tudo. Depois, não há diferença entre o que você faz quando dorme, e o que faz quando não está dormindo. Entende o que digo?
Viagem a Ixtlan – pág.102
"Cada vez que olhar para suas mãos, estará renovando o poder necessário para sonhar, de modo que, no princípio, não olhe para coisas demais. Quatro coisas bastam, de cada vez. Mais tarde, poderá aumentar o número até abranger tudo o que quiser, mas, assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para suas mãos.
"Quando achar que pode olhar para as coisas indefinidamente, estará pronto para uma nova técnica. Vou-lhe ensinar essa nova técnica agora, mas espero que só a utilize quando estiver preparado." Ficou calado por uns 15 minutos. Por fim, sentou-se e olhou para mim.
- O passo seguinte em organizar-se para sonhar é aprender a viajar - disse ele. - Da mesma maneira que aprendeu a olhar para suas mãos, pode obrigar-se a mover-se, a ir aos lugares. Primeiro, tem de estabelecer um lugar aonde queira ir. Escolha um lugar bem seu conhecido... talvez sua escola, ou um parque, ou a casa de um amigo., depois, obrigue-se a ir lá.
"Essa técnica é muito difícil. Precisa desempenhar duas tarefas: tem de obrigar-se a ir ao local determinado; e depois, quando já tiver dominado essa técnica, tem de aprender a controlar o tempo exato de sua viagem."
Viagem a Ixtlan – pág.115
Entenda, sonhar é o “não fazer” dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará “não fazendo”.
Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas “não fazer”. Mas, se lidar com “não fazer” diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
Viagem a Ixtlan – pág.186
- Sonhar é um auxílio prático, imaginado por feiticeiros continuou ele. - Eles não eram tolos; sabiam o que estavam fazendo ao procurarem a utilidade do nagual treinando seu tonal para se afrouxar um instante, por assim dizer, e depois apertar de novo. Essa declaração não lhe faz sentido. Mas é isso que você vem fazendo o tempo todo: treinando-se para se soltar sem perder as estribeiras. Sonhar, naturalmente, é a coroação dos esforços dos feiticeiros, o uso final do nagual.
Ele passou por todos os exercícios de não-fazer que me fizera praticar, as rotinas de minha vida diária que ele isolara para romper, e todas as ocasiões em que ele me forçara a adotar o passo do poder.
Viagem a Ixtlan – pág.220
- Como vou equilibrar a minha segunda atenção?
- Você tem de sonhar como nós sonhamos. Sonhar é o único meio de se alcançar a segunda atenção sem prejudicá-la, sem torná-la ameaçadora e temível. A sua segunda atenção está fixa naquele lado terrível do mundo; a nossa está sobre a sua beleza. Você tem de trocar de lado e vir conosco. Foi isso que você escolheu ontem à noite, quando resolveu seguir conosco.
O Segundo Círculo do Poder – pág. 208
- Creio que o nagual deve ter lhe dito também - disse ela - que a única coisa que realmente conta ao fazer essa mudança é prender a segunda atenção. Disse que a atenção é o que faz o mundo. É claro que estava absolutamente certo; tinha razões para dizer isso.
Ele era o mestre da atenção. Creio que deixou a meu cargo descobrir que tudo o que eu precisava para mudar em corpo sonhador era focalizar minha atenção no vôo. O importante era armazenar atenção no sonho, observar tudo o que eu fazia quando voava. Era esse o único meio de cuidar bem da minha segunda atenção. Uma vez sólida, focalizá-la ligeiramente nos detalhes e na sensação de voar atraía mais o sonho de vôo, até que fosse rotina para mim sonhar que voava pelos ares. No que dizia respeito ao vôo, então, a minha
segunda atenção estava aguçada. Quando a nagual me deu a tarefa de mudar para meu corpo sonhador queria que eu mudasse para a segunda atenção enquanto acordada. Foi isso que entendi. A primeira atenção, a atenção que faz o mundo, nunca pode ser completamente dominada; pode apenas ser desligada por um instante e recolocada pela segunda atenção, desde que o corpo tenha armazenado bastante dela. Sonhar é, naturalmente, um modo de armazenar a segunda atenção. Assim sendo, eu diria que a fim de mudar em corpo sonhador enquanto acordado, tem de se praticar a sonho até que ele passe a ser uma coisa simples.
- Você pode chegar ao seu corpo sonhador a qualquer hora que quiser? - perguntei.
- Não. Não é assim tão fácil - respondeu. - Aprendi a repetir os movimentos e sensações de voar enquanto acordada mas ainda assim não consigo voar toda vez que quero. Há sempre uma barreira ao meu corpo sonhador. Às vezes sinta que a barreira caiu; nessas horas meu corpo fica livre e eu consigo voar como se estivesse sonhando.
Disse a La Gorda que Dom Juan me dera três tarefas para treinar minha segunda atenção. A primeira era encontrar minhas mãos na sonho. Em seguida recomendou que eu escolhesse um local, focalizasse minha atenção nele e então sonhasse de dia e descobrisse se poderia mesma ir para lá. Sugeriu que eu colocasse alguém conhecido no lugar, de preferência uma mulher, a fim de fazer duas coisas: primeira, verificar mudanças súbitas que indicassem que eu estava lá em sonho; segunda, isolar o detalhe pequeno, que seria precisamente a coisa na qual a minha segunda atenção deveria se fixar.
O que se procura no sonho não é aquilo a que se prestaria atenção todo dia.
O Presente da Águia, pág. 116
- Por que os novos videntes determinam que sonhar deve ser ensinado em consciência normal?
- Porque sonhar é muito perigoso, e os sonhadores muito vulneráveis. É perigoso porque tem um poder inconcebível; toma os sonhadores vulneráveis porque os deixa à mercê da força incompreensível do alinhamento.
"Os novos videntes perceberam que em nosso estado normal de consciência temos incontáveis defesas que podem resguardar-nos contra a força de emanações não usuais, que subitamente se alinham durante o sonho."
Dom Juan explicou que sonhar, assim como espreitar, começava com uma simples observação. Os antigos videntes tiveram consciência de que nos sonhos o ponto de aglutinação se desloca ligeiramente para a esquerda; de maneira natural. Com efeito, o ponto de aglutinação relaxa quando o homem dorme, e todos os tipos de emanações inusuais começam a brilhar.
Os antigos videntes ficaram imediatamente intrigados com esta observação e começaram a trabalhar com esse deslocamento natural até se tomarem capazes de controlá-lo. Chamaram esse controle de sonhar, ou a arte de manejar o corpo sonhador.
O Fogo Interior, pág. 167
- Sonhar é o avião a jato do feiticeiro. O nagual Elias era um sonhador assim como meu benfeitor era um espreitador. Era capaz de criar e projetar o que os feiticeiros conhecem como corpo de sonhar, ou o Outro, e está em dois lugares distantes ao mesmo tempo. Com seu corpo de sonhar, podia ocupar-se de seus negócios como feiticeiro, e com seu eu natural um ser recluso.
Comentei que me surpreendia que pudesse aceitar tão facilmente a premissa de que o nagual Elias possuía a habilidade de projetar uma imagem tridimensional de si mesmo, e no entanto não conseguia pela minha própria vida compreender as explicações sobre o cerne abstrato.
Segundo Don Juan, eu podia aceitar a idéia da vida dupla do nagual Elias porque o espírito estava fazendo ajustes finais em minha capacidade de consciência. Explodi numa barreira de protestos diante da obscuridade de sua declaração.
- Ela não é obscura - avisou. - É a constatação de um fato. Você poderia dizer que é um fato incompreensível no momento, mas que o momento irá mudar.
Antes que eu pudesse responder, recomeçou a falar sobre o nagual Elias. Disse que o nagual Elias tinha uma mente muito inquisidora e tinha muita habilidade com as mãos. Em suas jornadas como sonhador via muitos objetos, os quais copiava em madeira e ferro forjado. Don Juan assegurou-me que alguns desses modelos eram de uma beleza estranha e assustadora
Que tipos de objetos? - perguntei.
Não há um meio de saber. Você deve considerar que,
por ser um índio, o nagual Elias entrava em suas jornadas de sonhar da mesma maneira como um animal selvagem ronda em busca de alimento. Um animal nunca aparece num lugar onde haja sinais de atividade. Vem apenas quando não há ninguém por perto. O nagual Elias, como sonhador solitário, visitava, digamos, a lixeira do infinito, quando ninguém estava presente, e copiava tudo o que via, mas nunca sabia para que aquelas coisas eram usadas ou qual a sua fonte.
O Poder do Silêncio, pág. 51
- O nagual Elias tinha grande respeito pela energia sexual - comentou Don Juan. - Acreditava que esta foi-nos concedida de modo que possamos usá-la para sonhar. Para ele, sonhar havia caído em desuso porque pode desfazer o precário equilíbrio mental de pessoas suscetíveis.
"Ensinei-o a sonhar da mesma maneira que ele me ensi
nou. Ele ensinou-me que, enquanto sonhamos, o ponto de aglutinação move-se muito suave e naturalmente.”
"O equilíbrio mental nada mais é que a fixação do ponto de aglutinação num lugar ao qual estamos acostumados. Se os sonhos fazem esse ponto mover-se e sonhar é usado para controlar esse movimento natural, e energia sexual é necessária para sonhar, o resultado é às vezes desastroso quando a energia sexual é dissipada em sexo em vez de sonhar. Então os sonhadores movem seus pontos de aglutinação erraticamente e perdem o juízo.”
- O que está tentando explicar-me, Don Juan? - perguntei porque senti que o assunto de sonhar não havia sido uma tendência natural da conversação.
- Você é um sonhador. Se não tiver cuidado com sua energia sexual, pode muito bem se acostumar à idéia de movimentos erráticos de seu ponto de aglutinação. Há um momento você estava espantado por suas reações. Bem, seu ponto de aglutinação move-se quase erraticamente, porque sua energia sexual não está equilibrada
O Poder do Silêncio, pág. 52
Com a perspectiva proporcionada pelo tempo, percebo agora
que a afirmação mais adequada que Dom Juan fez sobre o sonho foi chamá-lo de "portão para o infinito". Observei, no momento em que ele disse, que a metáfora não tinha qualquer significado para mim.
- Então vamos deixar as metáforas de lado - ele admitiu. - Digamos que sonhar é o meio prático dos feiticeiros utilizarem os sonhos comuns.
- Mas como os sonhos comuns podem ser utilizados? perguntei.
- As palavras estão sempre pregando peças - disse ele.
No meu caso, meu professor tentou descrever o que era o sonhar dizendo que era o modo dos feiticeiros dizerem boa-noite ao mundo. É claro que ele estava amoldando sua descrição para que ela se adaptasse mentalmente a mim. Estou fazendo o mesmo com você.
Em outra ocasião Dom Juan me disse:
- Sonhar só pode ser experimentado. Sonhar não é apenas ter sonhos; nem devaneios ou desejos ou imaginação. Sonhando podemos perceber outros mundos, que certamente podemos descrever; mas não podemos descrever o que nos faz percebê-los. No entanto podemos sentir de que modo o sonhar abre essas outras regiões. Sonhar parece uma sensação; um processo em nossos corpos, uma percepção em nossas mentes.
No decorrer de seus ensinamentos gerais, Dom Juan me explicou por completo os princípios, os fundamentos e as práticas da arte do sonhar. Sua instrução foi dividida em duas partes. Uma era sobre os procedimentos de sonhar; a outra sobre as explicações puramente abstratas desses procedimentos. Seu método de ensino era uma interação entre estimular minha curiosidade intelectual com relação aos princípios abstratos de sonhar e guiar-me para que eu buscasse um escoadouro em suas práticas.
A Arte de sonhar – pág. 8
- O objetivo de sonhar é intentar o corpo energético? - perguntei, subitamente com o poder de um raciocínio estranho.
- Pode-se colocar desse modo - ele disse. - Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.
"Aceite o desafio de intentar - prosseguiu ele. - Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em convencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.”
- Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?
- Quando você ouve que precisa se convencer, imediatamente se torna mais racional. Como pode se convencer de que é um sonhador quando sabe que não é? Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.
- Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?
- Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.
Dom Juan acrescentou num tom jocoso que ele não tinha energia suficiente para me fazer outro empréstimo para o intento, e que a coisa a fazer era buscar sozinho meu corpo energético. Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.
A Arte de sonhar – pág. 40
- É perigoso?
- E como! Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não
é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.
- Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?
- A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonhadora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.
Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.
A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de pedir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.
- Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.
- O que são esses batedores?
- Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.
- Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.
- Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente - ou o cérebro - capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.
Parou, obviamente para dar à minha mente tempo de absorver o que dizia.
- Os feiticeiros têm consciência dessas correntes de energia estranha - continuou. - Eles percebem-nas e tentam isolá-las dos itens normais de seus sonhos.
A Arte de sonhar – pág. 43
- O que, exatamente, é o corpo energético?
- É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.
- Mas o corpo físico não é feito também de energia?
- Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem
apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.
- Como o que, por exemplo?
- Como se transportar num instante até os confins do uni verso. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.
"Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano,
é independente. Tem sua própria esfera.”
- O que é essa esfera, Dom Juan?
- Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como percebemos comumente o mundo.
- O que significa perceber a energia enquanto ela flui? - Significa ver. Significa que o corpo energético vê a energia diretamente como uma luz, como uma espécie de corrente vibratória ou como uma perturbação. Ou então sente-a como um tranco ou uma sensação que pode ser até dolorosa.
- E quanto ao outro modo do qual você falou. Dom Juan? O corpo energético usando energia como um combustível de foguete.
- Como a energia é a sua esfera, não há problema para o corpo energético usar correntes de energia que existem no uni verso para impulsioná-lo. Tudo que precisa é isolar essas correntes, e lá se vai ele.
Parou de falar e pareceu indeciso, como se desejasse acrescentar alguma coisa mas não tivesse certeza. Sorriu e, justo quando eu ia começar a fazer uma pergunta, continuou a explicação.
- Já disse antes que, em seus sonhos, os feiticeiros isolam
batedores de outras esferas. Seu corpo energético faz isso. Reconhece a energia e vai atrás dela. Mas não é desejável que os feiticeiros fiquem procurando batedores. Eu estava relutando em dizer isso a você, por causa da facilidade com que podemos ficar envolvidos nessa busca.
A Arte de sonhar – pág. 46
. Isso é o sonhar. Um sonhador, ao cruzar o primeiro portão, já chegou ao corpo energético. O que realmente atravessa o segundo portão, saltando de sonho em sonho, é o corpo energético.
- Qual é a implicação disso tudo, Dom Juan?
- A implicação é que, ao cruzar o segundo portão, você deve intentar um controle maior e mais sóbrio de sua atenção sonhadora: a única válvula de segurança para os sonhadores.
- O que é essa válvula de segurança?
- Você vai descobrir sozinho que o verdadeiro objetivo do sonhar é aperfeiçoar o corpo energético. Um corpo energético perfeito - entre outras coisas, claro - tem um controle tão grande sobre a atenção sonhadora a ponto de fazer com que o sonho pare quando for preciso. Essa é a válvula de segurança que os sonhadores têm. Não importa o quanto eles se entreguem num determinado momento, sua atenção sonhadora deve fazer com que possam emergir.
Comecei tudo de novo, em outra busca nos sonhos. Dessa vez o objetivo era mais escorregadio do que da primeira, e a dificuldade era ainda maior. Exatamente como acontecera na primeira tarefa, eu não conseguia ter idéia do que fazer. Sentia a suspeita desencorajante de que toda a prática que eu tivera não me ajudaria dessa vez. Depois de incontáveis fracassos desisti e decidi simplesmente continuar a fixar minha atenção sonhadora em todos os itens dos sonhos. A aceitação dessa incapacidade pareceu me dar um impulso, e tomei-me ainda mais capaz de manter a visão de qualquer item de meus sonhos.
A Arte de sonhar – pág. 58
- Sonhar é manter o posicionamento para o qual o ponto de aglutinação mudou nos sonhos. Esse ato cria uma carga energética especial que atrai a atenção deles. É como isca para peixe; eles vão atrás. Os feiticeiros, ao atravessar os dois primeiros portões do sonhar, lançam a isca para esses seres e obrigam-nos a aparecer.
Atravessando os dois portões você fez com que eles notassem sua isca. Agora precisa esperar um sinal.
- Que sinal vai ser, Dom Juan?
- Possivelmente o aparecimento de um deles, se bem que parece cedo demais. Sou de opinião que o sinal deles será simplesmente alguma interferência em seu sonhar. Acredito que os choques de medo que você está experimentando atualmente não sejam indigestão, e sim choques de energia mandados pelos seres inorgânicos.
- O que devo fazer?
- Deve medir suas expectativas.
Não entendi o que ele quis dizer, e ele explicou cuidadosa mente que nossa expectativa normal, ao entrarmos em interação com os humanos ou com outros seres orgânicos, é receber uma resposta imediata à nossa solicitação. Os seres inorgânicos, entretanto, são separados de por uma barreira gigantesca: a energia que se move a diferentes velocidades. Os feiticeiros devem levar em conta essa diferença, medir suas expectativas e manter a solicitação pelo tempo necessário para que ela seja confirmada.
A Arte de sonhar – pág. 63
- Os sonhadores, querendo ou não, buscam em seus sonhos associações com outros seres. Isso pode ser um choque para você, mas os sonhadores automaticamente buscam grupos de seres; nexos de seres inorgânicos, neste caso. Os sonhadores procuram-nos avidamente.
- Isso é muito estranho, Dom Juan. Por que os sonhadores fazem isso?
- Para nós a novidade são os seres inorgânicos. E a novidade para eles é a nossa maneira de cruzar as fronteiras até o seu reino. De agora em diante você deve ter em mente que os seres inorgânicos, com sua consciência soberba, exercem uma tremenda atração sobre os sonhadores e podem facilmente transportá-los para mundos além de qualquer descrição.
"Os feiticeiros da antigüidade usavam-nos, e foram eles que cunharam o nome: aliados. Seus aliados lhes ensinaram a mover o ponto de aglutinação para fora dos limites do ovo, para o universo não-humano. Quando transportam um feiticeiro, eles transportam-no para mundos além do domínio humano.”
Enquanto ouvia fui assolado por estranhos medos e dúvidas, que ele captou de imediato.
- Você é um homem religioso até não poder mais - e riu.
- Bom, está sentindo o bafo do diabo na nuca. Pense nesses termos sobre o sonhar: sonhar é perceber mais do que acreditamos que é possível perceber.
Enquanto estava acordado eu me preocupava com a possibilidade de os seres inorgânicos realmente existirem. Quando sonhava, entretanto, minhas preocupações conscientes não tinham muita importância. Os choques de medo físico prosseguiram, mas vinham sempre seguidos por uma estranha calma; uma calma que assumia o controle sobre mim e deixava que eu procedesse como se não tivesse qualquer medo.
A Arte de sonhar – pág. 65
- Onde ficam esses mundos, Dom Juan? Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação?
- Certo. Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação, mas posicionamentos aos quais os feiticeiros chegam com um movimento do ponto de aglutinação, não com um deslocamento. Entrar nesses mundos é o tipo de sonhar que apenas os feiticeiros de hoje em dia fazem. Os feiticeiros antigos ficaram longe dele, porque é necessário um grande desprendimento e nenhuma auto-importância. Um preço que eles não podiam se dar ao luxo de pagar.
"Para os feiticeiros que o praticam atualmente, o sonhar é a liberdade de perceber mundos além da imaginação.”
- Mas qual é o sentido de perceber isso tudo?
- Hoje você já fez essa mesma pergunta. Você fala como um legítimo mercador. Qual é o risco? você pergunta. Qual é a percentagem de lucro para meu investimento? Isso vai me tornar melhor?
"Não há como responder a isso. A mente mercadora faz comércio. Mas a liberdade não pode ser um investimento. Liberdade é uma aventura sem fim, onde arriscamos nossas vidas e muito mais por alguns momentos e alguma coisa além dos mundos, além de pensamentos ou sentimentos.”
A Arte de sonhar – pág. 97
- Quero dizer que não é verdadeiro falar, por exemplo, que o segundo portão é alcançado e atravessado quando um sonhador aprende a acordar em outro sonho, ou quando um sonhador aprende a mudar de sonhos sem acordar no mundo da vida cotidiana.
- Por que não é verdadeiro, Dom Juan?
- Porque o segundo portão do sonhar é alcançado e atravessado somente quando o sonhador aprende a isolar e a seguir os batedores da energia estranha.
- Então por que se dá a idéia de mudar de sonhos?
- Acordar em outro sonho ou mudar de sonho é o exercício imaginado pelos feiticeiros antigos para treinar a capacidade do sonhador isolar e seguir um batedor.
Dom Juan afirmou que a capacidade de seguir um batedor era uma grande realização, e que quando os sonhadores conseguem fazê-lo, o segundo portão é escancarado e o universo que existe por trás dele torna-se acessível. Enfatizou que esse universo está lá todo o tempo, mas que não podemos chegar a ele porque não temos habilidade energética e que, em essência, o segundo portão
do sonhar é a porta para o mundo dos seres inorgânicos, e o sonhar é a chave que abre essa porta.
A Arte de sonhar – pág. 125
O caminho do sonhar é cheio de armadilhas, e evitar essas armadilhas ou cair nelas é o problema pessoal e individual de cada sonhador, e devo acrescentar que é um problema definitivo.
- E essas armadilhas são o resultado de sucumbir à adulação ou às promessas de poder?
- Não somente de sucumbir a isso, mas de sucumbir a qualquer coisa oferecida por eles, além de um determinado ponto.
- E qual é esse certo ponto, Dom Juan?
- O ponto depende de nós como indivíduos. O desafio é cada um de nós pegar apenas o que for necessário naquele mundo, e nada mais. Saber o que é necessário é a virtude dos feiticeiros; mas pegar apenas o necessário é sua maior realização. Deixar de compreender essa regra simples é o meio mais seguro de despencar numa armadilha.
- O que acontece quando se cai, Dom Juan?
- Se você cair, você paga o preço, e o preço depende das circunstâncias e do tamanho da queda. Mas realmente não há meio de falar de uma eventualidade dessas, porque não estamos enfrentando um problema de punição. Aqui o que está em jogo são
correntes energéticas; correntes energéticas que criam circunstâncias mais apavorantes do que a morte. Tudo no caminho dos feiticeiros é questão de vida ou morte, mas no caminho do sonhar essa questão é multiplicada por cem.
A Arte de sonhar – pág. 127
O terceiro portão do sonhar é alcançado quando você se pega num sonho olhando para outra pessoa adormecida. E descobre que essa pessoa é você mesmo - disse Dom Juan.
Meu nível de energia estava tão alto, na época, que passei a trabalhar imediatamente na terceira tarefa, apesar de ele não me oferecer mais nenhuma informação além do que dissera. A primeira coisa que percebi, no treinamento de sonhar, foi que um jorro de energia imediatamente rearrumou o foco de minha atenção sonhadora. Ela estava direcionada para que eu acordasse num sonho e me visse dormindo; viajar ao mundo dos seres inorgânicos não estava mais em questão.
Logo depois me encontrei num sonho, olhando para mim mesmo adormecido. Imediatamente informei a Dom Juan. O sonho acontecera enquanto eu estava em sua casa.
- Existem duas fases em cada portão do sonhar - disse ele. - A primeira, como você sabe, é chegar ao portão; a segunda é atravessá-lo. Sonhando o que sonhou, que se viu dormindo, você chegou ao terceiro portão. A segunda fase é movimentar-se assim que vir você mesmo dormindo.
"No terceiro portão do sonhar - prosseguiu ele - você começa deliberadamente a fundir sua realidade de sonho com a realidade do mundo cotidiano. Esse é o exercício, e os feiticeiros chamam-no de completar o corpo energético. A fusão entre as duas realidades tem de ser tão absoluta que você precisa ser mais fluido do que nunca. Examine tudo no terceiro portão com grande cuidado e curiosidade.”
Reclamei, dizendo que essas recomendações eram cifradas demais, e não faziam qualquer sentido para mim.
- O que quer dizer com grande cuidado e curiosidade? perguntei.
- No terceiro portão nossa tendência é ficarmos perdidos nos detalhes. Ver as coisas com grande cuidado e curiosidade significa resistir à tentação quase irresistível de mergulhar no detalhe.
"O exercício no terceiro portão, como eu disse, é consolidar o corpo energético. Os sonhadores começam a forjar o corpo energético fazendo os exercícios do primeiro e do segundo portão. Quando chegam ao terceiro, o corpo energético está pronto para sair, ou talvez seja melhor dizer que ele está pronto para agir. Infelizmente isso também significa que está pronto para ficar hipnotizado pelos detalhes.
- O que significa ficar hipnotizado pelos detalhes?
- O corpo energético é como uma criança que ficou presa durante toda a vida. No momento em que se liberta ela chafurda em tudo que pode encontrar, e estou falando de tudo, mesmo. Cada detalhe minúsculo e irrelevante absorve totalmente o corpo energético.
A Arte de sonhar – pág. 160
- O que é um mundo real, Dom Juan?
- Um mundo que gera energia; o oposto de um mundo fantasmagórico de projeções, onde nada gera energia; como na maioria de nossos sonhos, onde nada tem efeito energético.
Dom Juan me deu outra definição do sonhar: é um processo através do qual os sonhadores isolam condições de sonho em que podem encontrar elementos geradores de energia. Ele deve ter percebido meu espanto. Riu e deu outra definição ainda mais enrolada: sonhar é o processo através do qual intentamos encontrar posicionamentos adequados do ponto de aglutinação, posicionamentos que permitem que percebamos itens geradores de energia em estados de aparência onírica.
Explicou que o corpo energético também é capaz de perceber energias muito diferentes da energia de nosso mundo. Como no caso dos itens do reino dos seres inorgânicos, que o corpo energético percebe como energia crepitante. Acrescentou que em nosso mundo nada crepita; aqui tudo ondula.
- De agora em diante - falou - a questão em seu sonhar será determinar se os itens nos quais você concentra sua atenção sonhadora são geradores de energia ou meras projeções fantasmagóricas, ou se são geradores de energia alienígena.
A Arte de sonhar – pág. 184
- Estou dizendo isso tudo porque agora você está, pela primeira vez, na posição adequada para entender que o sonhar é uma condição geradora de energia. Pela primeira vez você pode entender que os sonhos comuns são os dispositivos usados para treinar o ponto de aglutinação a alcançar o posicionamento que
cria essa condição geradora de energia, que chamamos de o sonhar.
Avisou-me que, como os sonhadores entram em mundo reais - para todos os efeitos inclusivos - eles devem ficar num estado de alerta contínuo e intenso; já que qualquer desvio do estado de alerta absoluto põe o sonhador em perigos mais do que apavorantes.
Nesse ponto comecei de novo a experimentar um movimento na cavidade torácica, exatamente como sentira no dia em que minha consciência mudara de nível sozinha. Dom Juan sacudiu meu braço com força.
- Veja o sonhar como uma coisa extremamente perigosa! - ordenou. - E comece isso agora! Não venha com nenhuma de suas manobras suspeitas.
Seu tom de voz foi tão insistente que parei o que quer que estivesse inconscientemente fazendo.
- O que está acontecendo comigo, Dom Juan?
- O que está acontecendo é que você consegue deslocar o ponto de aglutinação rápida e facilmente. Mas essa facilidade tem a tendência de tornar o deslocamento errático. Controle sua facilidade. E não se permita nem mesmo um milímetro de folga.
A Arte de sonhar – pág. 194
- A primeira parte desta lição do sonhar é que a masculinidade e a feminilidade não são estados definitivos, e sim o resultado de um ato específico de posicionamento do ponto de aglutinação. E esse ato de rearrumar o ponto de aglutinação é, naturalmente, questão de vontade e treinamento. Como era um tema caro aos feiticeiros da antigüidade, apenas eles podem lançar alguma luz sobre isso.
Talvez porque fosse a única coisa racional a fazer, comecei a discutir com Dom Juan.
- Não posso aceitar nem acreditar no que está dizendo falei sentindo o calor me subir ao rosto.
- Mas você viu a mulher - respondeu Dom Juan. - Acha que tudo isso é um truque?
- Não sei o que pensar.
-" Aquele ser na igreja é uma mulher verdadeira - ele disse num tom decidido. - Por que isso deveria perturbá-lo tanto? O fato dela ter nascido como homem somente atesta o poder das maquinações dos feiticeiros antigos. Isso não deveria surpreendê-lo. Você já incorporou todos os princípios da feitiçaria.”
Minhas entranhas estavam em vias de explodir de tensão. Num tom acusatório Dom Juan disse que eu só estava querendo discutir. Com paciência forçada e pomposidade real expliquei a ele o fundamento biológico do masculino e do feminino.
- Eu compreendo tudo isso - ele disse. - E você está certo no que está falando. Sua falha é tentar universalizar suas avaliações.
- Nós estamos falando é de princípios básicos - gritei. Eles serão pertinentes para o homem aqui ou em qualquer outro lugar do universo.
- Certo, certo - ele disse em voz baixa. - Tudo que você está dizendo é verdade enquanto nosso ponto de aglutinação permanecer em seu posicionamento habitual. Mas no momento em que ele se desloca para além de certas fronteiras, e nosso mundo cotidiano não funciona mais, nenhum dos princípios que você nutre com carinho tem esse valor absoluto do qual está falando.
A Arte de sonhar – pág. 233
A arte de sonhar é a capacidade de utilizar nossos sonhos comuns e transformá-los numa consciência controlada por uma forma especial de atenção chamada a atenção sonhadora.
A roda do tempo, pág. 196
- Não, não é sonhar - disse ele enfaticamente. - Isto é algo mais direto e mais misterioso. Aliás, tenho uma nova definição de sonhar para você hoje, mais de acordo com seu estado de ser. Sonhar é o ato de mudar o ponto de ligação com o mar escuro da consciência. Se você olhar para isso dessa forma, é um conceito e uma manobra muito simples. Requer tudo de você para percebê-lo, mas não é uma impossibilidade nem algo cercado de nuvens místicas.
"Sonhar é um termo que sempre me incomodou muito, porque enfraquece um ato muito poderoso. Faz com que pareça arbitrário; dá uma sensação de ser uma fantasia, e isso é a única coisa que não é. Tentei mudar o termo eu mesmo, mas ele está muito arraigado. Talvez algum dia você mesmo possa mudá-lo, apesar de que, como em tudo na feitiçaria, temo que quando você realmente puder fazê-lo não se importará mais com isso porque não fará mais nenhuma diferença como chamá-lo."
Dom Juan explicara amplamente, durante todo o tempo que eu o conheci, que sonhar era uma arte, descoberta pelos feiticeiros do México antigo, por meio da qual os sonhos comuns eram transformados em entradas legítimas para outros mundos de percepção. Sustentava, de todas as maneiras que podia, o advento de algo que ele chamava de atenção do sonhar, que era a capacidade de dar um tipo de atenção especial, ou de colocar um tipo especial de consciência nos elementos de um sonho comum.
Seguira meticulosamente todas as suas recomendações e tinha conseguido comandar minha consciência para permanecer fixada nos elementos de um sonho. A idéia que Dom Juan propunha era não começar deliberadamente a ter um sonho desejado, mas de fixar a atenção nos elementos componentes de qualquer sonho que se apresentasse.
Depois Dom Juan mostrara-me energeticamente o que os feiticeiros do México antigo consideravam ser a origem do sonhar: o deslocamento do ponto de aglutinação. Disse que o ponto de aglutinação se deslocava muito naturalmente durante o sono, mas ver o deslocamento era um tanto difícil porque requeria um temperamento agressivo, e que esse temperamento agressivo tinha sido a predileção dos feiticeiros do México antigo. Aqueles feiticeiros, segundo Dom Juan, encontraram todas as premissas de suas feitiçarias através desse humor.
O Lado Ativo do infinito, pág. 221
"Visto que sonhar, para a mulher, é uma questão de ter energia à sua disposição, o importante é convencê-la da necessidade de modificar a sua socialização profunda a fim de adquirir essa ener
gia. O ato de utilizar essa energia é automático; as mulheres sonham sonhos de feiticeiros no instante em que têm a energia.
Ela confessou que uma consideração séria a respeito dos sonhos de feiticeiros, que surgia de suas próprias falhas, era a dificuldade de incutir nas mulheres a coragem para abrir caminho num novo campo. A maioria das mulheres - e ela afirmou que era dessas prefere seus grilhões seguros ao pavor de novos.
- Sonhar é só para as mulheres corajosas - murmurou ela, em meu ouvido. Depois deu uma gargalhada e acrescentou: - Ou para as mulheres que não têm outra opção, porque suas circunstâncias são insuportáveis - categoria a que pertence a maioria das mulheres, mesmo sem o saber.
O som de sua risada áspera teve um efeito estranho sobre mim. Senti como se, de repente, tivesse acordado de um sonho profundo e me lembrei de uma coisa de que me esquecera inteiramente enquanto dormia.
Sonhos Lúcidos, pág. 256
- Como é que partilhamos os nossos sonhos? - tomei a perguntar.
Zuleica parou de se balançar. Sacudiu a cabeça e, depois, levantou os olhos, num sobressalto, como se tivesse acordado de repente.
- É impossível eu explicar isso agora - declarou ela. - Sonhar é incompreensível. A gente tem de alimentar isso e não discuti-lo. Como no mundo cotidiano, antes de explicar e analisar alguma coisa, é preciso experimentá-lo. - Ela falava devagar e com ponderação. Reconheceu que é importante explicar à medida que se avança. - No entanto, por vezes, as explicações são prematuras. Esta é uma dessas ocasiões. Um dia tudo isso fará sentido para você - prometeu Zuleica, vendo a decepção em meu rosto.
Sonhos Lúcidos, pág. 263
- Agora estou sonhando!
Aquela declaração pronunciada em voz alta deslanchou alguma coisa dentro de mim; uma nova avalancha de recordações diferentes me inundou. Sabia o que havia de errado comigo: tinha errado e não tinha energia para sonhar. Todas as noites, desde a minha chegada, sonhara o mesmo sonho, de que me esquecera até aquele momento. Sonhara que as feiticeiras iam ao meu quarto e me exercitavam nos raciocínios dos feiticeiros. Elas me disseram, vezes e mais vezes, que sonhar é a função secundária do útero sendo a primeira a reprodução e o que estiver relacionado com isso. Disseram-me que sonhar é uma função natural nas mulheres, corolário puro da energia. Tendo suficiente energia, o corpo da mulher, por si só, desperta as funções secundárias do útero, e a mulher sonhará sonhos inconcebíveis.
No entanto, essa energia necessária é como o auxilio a um país subdesenvolvido: não chega nunca. Alguma coisa na ordem geral de nossas estruturas sociais impede que essa energia se libere para que as mulheres possam sonhar.
Se essa energia fosse livre, as feiticeiras me disseram, chegaria a derrubar a ordem "civilizada" das coisas. Mas a grande tragédia das mulheres é que a sua consciência social domina completamente a sua consciência individual. As mulheres têm medo de serem diferentes e não querem se afastar demais dos confortos do conhecido.
As pressões sociais impostas a elas, para não se desviarem, são fortes demais e, em vez de mudarem, concordam com o que lhes foi ordenado: as mulheres existem para estar às ordens dos homens. Assim, nunca podem sonhar sonhos de feitiçaria, embora possuam disposição orgânica para tal. A feminilidade destruiu as oportunidades das mulheres
Sonhos Lúcidos, pág. 263
"O melhor modo de desdobrar nossa percepção é através do ensonhar. Como método, o ensonhar é igualmente simples, mas menos arriscado; é mais inclusivo e, principalmente, muito mais natural.
"O objetivo do aprendiz é tomar as rédeas de seu ponto de aglutinação. Uma vez que consegue deslocá-lo, está obrigado a repetir esses movimentos sem ajuda externa, por meio de disciplina e impecabilidade. Então pode ser dito que o guerreiro encontrou um aliado".
Encontros com o Nagual, pág. 122
Explicou que a fixação do ponto de aglutinação consome enormes quantidades de energia e produz uma visão estática do mundo. A energia processada desse modo se esparrama por toda nossa luminosidade e termina acumulando-se em suas bordas, onde forma massas densas que criam um reflexo do eu. Em tais circunstâncias, mover essa fixação se torna uma tarefa exaustiva.
"Para romper a armadilha da fixação é válido, em princípio, apelar a qualquer recurso. Na maioria dos casos, só um empurrão proveniente do exterior pode provocar em uma pessoa o movimento do ponto de aglutinação. Quando nós temos muita, mas muita sorte, esse empurrão nos chega pelo golpe de um nagual.
"Uma vez conseguido o deslocamento inicial, o guerreiro dever lutar pelo domínio de sua atenção, e deve fazê-lo por meio do exercício do intento e a prática do ensonho. Ensonhar é a porta de escape para a raça humana e é a única coisa que dá à nossa existência sua dimensão apropriada"
Encontros com o Nagual, pág. 124
A informática facilitou essa operação porque hoje no Word ou outro editor de texto onde estão as obras digitalizadas, pode-se selecionar pelo comando “localizar” todas as vezes que um palavra ou expressão está escrita (no caso usamos “sonhar é”). Então é só ler os texto garimpados pelo “localizar”. Nós fizemos isso na obra completa de Castaneda e “cruzamos” transversalmente a obra obtendo um a um vários temas importantes que estavam dispersos nela. Um deles é “o sonhar” um tema fascinante. Quem se interessar pode se aprofundar lendo os próprios livro inteiros. O texto é longo, mas não precisa lê-lo de uma só vez. O assunto aqui exposto é alta magia.
Vamos às citações nos livros, sobre “o sonhar” ou “ensonhar” (forma que existe em espanhol), usada nos livros do Armando Torres:
“- Quer dizer então, Dom Juan, que sonhar é real? - Claro que é real.
- Tão real como o que estamos fazendo agora?
- Se você quer comparar as coisas, posso dizer que talvez seja mais real. No sonhar você tem poder; pode modificar as coisas; pode descobrir uma infinidade de fatos ocultos; pode controlar o que quiser.”
Viagem a Ixtlan – pág. 98
- Deve começar com alguma coisa bem simples - falou. Hoje, em seus sonhos, deve olhar para suas mãos.
Naturalmente, pode olhar para o que bem entender ... os dedos dos pés, sua barriga ou qualquer coisa. Falei suas mãos porque isso foi o mais fácil para eu olhar. Não pense que é brincadeira. Sonhar é tão sério quanto ver ou morrer ou qualquer outra coisa neste mundo assombroso e misterioso.
- Cada vez que você olha para alguma coisa em seus sonhos essa coisa muda de forma - disse ele, depois de um longo silêncio. - O truque de aprender a organizar-se para sonhar obviamente não é só olhar para as coisas, mas manter a visão delas. Sonhar é real quando a gente conseguiu focalizar tudo. Depois, não há diferença entre o que você faz quando dorme, e o que faz quando não está dormindo. Entende o que digo?
Viagem a Ixtlan – pág.102
"Cada vez que olhar para suas mãos, estará renovando o poder necessário para sonhar, de modo que, no princípio, não olhe para coisas demais. Quatro coisas bastam, de cada vez. Mais tarde, poderá aumentar o número até abranger tudo o que quiser, mas, assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para suas mãos.
"Quando achar que pode olhar para as coisas indefinidamente, estará pronto para uma nova técnica. Vou-lhe ensinar essa nova técnica agora, mas espero que só a utilize quando estiver preparado." Ficou calado por uns 15 minutos. Por fim, sentou-se e olhou para mim.
- O passo seguinte em organizar-se para sonhar é aprender a viajar - disse ele. - Da mesma maneira que aprendeu a olhar para suas mãos, pode obrigar-se a mover-se, a ir aos lugares. Primeiro, tem de estabelecer um lugar aonde queira ir. Escolha um lugar bem seu conhecido... talvez sua escola, ou um parque, ou a casa de um amigo., depois, obrigue-se a ir lá.
"Essa técnica é muito difícil. Precisa desempenhar duas tarefas: tem de obrigar-se a ir ao local determinado; e depois, quando já tiver dominado essa técnica, tem de aprender a controlar o tempo exato de sua viagem."
Viagem a Ixtlan – pág.115
Entenda, sonhar é o “não fazer” dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará “não fazendo”.
Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas “não fazer”. Mas, se lidar com “não fazer” diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
Viagem a Ixtlan – pág.186
- Sonhar é um auxílio prático, imaginado por feiticeiros continuou ele. - Eles não eram tolos; sabiam o que estavam fazendo ao procurarem a utilidade do nagual treinando seu tonal para se afrouxar um instante, por assim dizer, e depois apertar de novo. Essa declaração não lhe faz sentido. Mas é isso que você vem fazendo o tempo todo: treinando-se para se soltar sem perder as estribeiras. Sonhar, naturalmente, é a coroação dos esforços dos feiticeiros, o uso final do nagual.
Ele passou por todos os exercícios de não-fazer que me fizera praticar, as rotinas de minha vida diária que ele isolara para romper, e todas as ocasiões em que ele me forçara a adotar o passo do poder.
Viagem a Ixtlan – pág.220
- Como vou equilibrar a minha segunda atenção?
- Você tem de sonhar como nós sonhamos. Sonhar é o único meio de se alcançar a segunda atenção sem prejudicá-la, sem torná-la ameaçadora e temível. A sua segunda atenção está fixa naquele lado terrível do mundo; a nossa está sobre a sua beleza. Você tem de trocar de lado e vir conosco. Foi isso que você escolheu ontem à noite, quando resolveu seguir conosco.
O Segundo Círculo do Poder – pág. 208
- Creio que o nagual deve ter lhe dito também - disse ela - que a única coisa que realmente conta ao fazer essa mudança é prender a segunda atenção. Disse que a atenção é o que faz o mundo. É claro que estava absolutamente certo; tinha razões para dizer isso.
Ele era o mestre da atenção. Creio que deixou a meu cargo descobrir que tudo o que eu precisava para mudar em corpo sonhador era focalizar minha atenção no vôo. O importante era armazenar atenção no sonho, observar tudo o que eu fazia quando voava. Era esse o único meio de cuidar bem da minha segunda atenção. Uma vez sólida, focalizá-la ligeiramente nos detalhes e na sensação de voar atraía mais o sonho de vôo, até que fosse rotina para mim sonhar que voava pelos ares. No que dizia respeito ao vôo, então, a minha
segunda atenção estava aguçada. Quando a nagual me deu a tarefa de mudar para meu corpo sonhador queria que eu mudasse para a segunda atenção enquanto acordada. Foi isso que entendi. A primeira atenção, a atenção que faz o mundo, nunca pode ser completamente dominada; pode apenas ser desligada por um instante e recolocada pela segunda atenção, desde que o corpo tenha armazenado bastante dela. Sonhar é, naturalmente, um modo de armazenar a segunda atenção. Assim sendo, eu diria que a fim de mudar em corpo sonhador enquanto acordado, tem de se praticar a sonho até que ele passe a ser uma coisa simples.
- Você pode chegar ao seu corpo sonhador a qualquer hora que quiser? - perguntei.
- Não. Não é assim tão fácil - respondeu. - Aprendi a repetir os movimentos e sensações de voar enquanto acordada mas ainda assim não consigo voar toda vez que quero. Há sempre uma barreira ao meu corpo sonhador. Às vezes sinta que a barreira caiu; nessas horas meu corpo fica livre e eu consigo voar como se estivesse sonhando.
Disse a La Gorda que Dom Juan me dera três tarefas para treinar minha segunda atenção. A primeira era encontrar minhas mãos na sonho. Em seguida recomendou que eu escolhesse um local, focalizasse minha atenção nele e então sonhasse de dia e descobrisse se poderia mesma ir para lá. Sugeriu que eu colocasse alguém conhecido no lugar, de preferência uma mulher, a fim de fazer duas coisas: primeira, verificar mudanças súbitas que indicassem que eu estava lá em sonho; segunda, isolar o detalhe pequeno, que seria precisamente a coisa na qual a minha segunda atenção deveria se fixar.
O que se procura no sonho não é aquilo a que se prestaria atenção todo dia.
O Presente da Águia, pág. 116
- Por que os novos videntes determinam que sonhar deve ser ensinado em consciência normal?
- Porque sonhar é muito perigoso, e os sonhadores muito vulneráveis. É perigoso porque tem um poder inconcebível; toma os sonhadores vulneráveis porque os deixa à mercê da força incompreensível do alinhamento.
"Os novos videntes perceberam que em nosso estado normal de consciência temos incontáveis defesas que podem resguardar-nos contra a força de emanações não usuais, que subitamente se alinham durante o sonho."
Dom Juan explicou que sonhar, assim como espreitar, começava com uma simples observação. Os antigos videntes tiveram consciência de que nos sonhos o ponto de aglutinação se desloca ligeiramente para a esquerda; de maneira natural. Com efeito, o ponto de aglutinação relaxa quando o homem dorme, e todos os tipos de emanações inusuais começam a brilhar.
Os antigos videntes ficaram imediatamente intrigados com esta observação e começaram a trabalhar com esse deslocamento natural até se tomarem capazes de controlá-lo. Chamaram esse controle de sonhar, ou a arte de manejar o corpo sonhador.
O Fogo Interior, pág. 167
- Sonhar é o avião a jato do feiticeiro. O nagual Elias era um sonhador assim como meu benfeitor era um espreitador. Era capaz de criar e projetar o que os feiticeiros conhecem como corpo de sonhar, ou o Outro, e está em dois lugares distantes ao mesmo tempo. Com seu corpo de sonhar, podia ocupar-se de seus negócios como feiticeiro, e com seu eu natural um ser recluso.
Comentei que me surpreendia que pudesse aceitar tão facilmente a premissa de que o nagual Elias possuía a habilidade de projetar uma imagem tridimensional de si mesmo, e no entanto não conseguia pela minha própria vida compreender as explicações sobre o cerne abstrato.
Segundo Don Juan, eu podia aceitar a idéia da vida dupla do nagual Elias porque o espírito estava fazendo ajustes finais em minha capacidade de consciência. Explodi numa barreira de protestos diante da obscuridade de sua declaração.
- Ela não é obscura - avisou. - É a constatação de um fato. Você poderia dizer que é um fato incompreensível no momento, mas que o momento irá mudar.
Antes que eu pudesse responder, recomeçou a falar sobre o nagual Elias. Disse que o nagual Elias tinha uma mente muito inquisidora e tinha muita habilidade com as mãos. Em suas jornadas como sonhador via muitos objetos, os quais copiava em madeira e ferro forjado. Don Juan assegurou-me que alguns desses modelos eram de uma beleza estranha e assustadora
Que tipos de objetos? - perguntei.
Não há um meio de saber. Você deve considerar que,
por ser um índio, o nagual Elias entrava em suas jornadas de sonhar da mesma maneira como um animal selvagem ronda em busca de alimento. Um animal nunca aparece num lugar onde haja sinais de atividade. Vem apenas quando não há ninguém por perto. O nagual Elias, como sonhador solitário, visitava, digamos, a lixeira do infinito, quando ninguém estava presente, e copiava tudo o que via, mas nunca sabia para que aquelas coisas eram usadas ou qual a sua fonte.
O Poder do Silêncio, pág. 51
- O nagual Elias tinha grande respeito pela energia sexual - comentou Don Juan. - Acreditava que esta foi-nos concedida de modo que possamos usá-la para sonhar. Para ele, sonhar havia caído em desuso porque pode desfazer o precário equilíbrio mental de pessoas suscetíveis.
"Ensinei-o a sonhar da mesma maneira que ele me ensi
nou. Ele ensinou-me que, enquanto sonhamos, o ponto de aglutinação move-se muito suave e naturalmente.”
"O equilíbrio mental nada mais é que a fixação do ponto de aglutinação num lugar ao qual estamos acostumados. Se os sonhos fazem esse ponto mover-se e sonhar é usado para controlar esse movimento natural, e energia sexual é necessária para sonhar, o resultado é às vezes desastroso quando a energia sexual é dissipada em sexo em vez de sonhar. Então os sonhadores movem seus pontos de aglutinação erraticamente e perdem o juízo.”
- O que está tentando explicar-me, Don Juan? - perguntei porque senti que o assunto de sonhar não havia sido uma tendência natural da conversação.
- Você é um sonhador. Se não tiver cuidado com sua energia sexual, pode muito bem se acostumar à idéia de movimentos erráticos de seu ponto de aglutinação. Há um momento você estava espantado por suas reações. Bem, seu ponto de aglutinação move-se quase erraticamente, porque sua energia sexual não está equilibrada
O Poder do Silêncio, pág. 52
Com a perspectiva proporcionada pelo tempo, percebo agora
que a afirmação mais adequada que Dom Juan fez sobre o sonho foi chamá-lo de "portão para o infinito". Observei, no momento em que ele disse, que a metáfora não tinha qualquer significado para mim.
- Então vamos deixar as metáforas de lado - ele admitiu. - Digamos que sonhar é o meio prático dos feiticeiros utilizarem os sonhos comuns.
- Mas como os sonhos comuns podem ser utilizados? perguntei.
- As palavras estão sempre pregando peças - disse ele.
No meu caso, meu professor tentou descrever o que era o sonhar dizendo que era o modo dos feiticeiros dizerem boa-noite ao mundo. É claro que ele estava amoldando sua descrição para que ela se adaptasse mentalmente a mim. Estou fazendo o mesmo com você.
Em outra ocasião Dom Juan me disse:
- Sonhar só pode ser experimentado. Sonhar não é apenas ter sonhos; nem devaneios ou desejos ou imaginação. Sonhando podemos perceber outros mundos, que certamente podemos descrever; mas não podemos descrever o que nos faz percebê-los. No entanto podemos sentir de que modo o sonhar abre essas outras regiões. Sonhar parece uma sensação; um processo em nossos corpos, uma percepção em nossas mentes.
No decorrer de seus ensinamentos gerais, Dom Juan me explicou por completo os princípios, os fundamentos e as práticas da arte do sonhar. Sua instrução foi dividida em duas partes. Uma era sobre os procedimentos de sonhar; a outra sobre as explicações puramente abstratas desses procedimentos. Seu método de ensino era uma interação entre estimular minha curiosidade intelectual com relação aos princípios abstratos de sonhar e guiar-me para que eu buscasse um escoadouro em suas práticas.
A Arte de sonhar – pág. 8
- O objetivo de sonhar é intentar o corpo energético? - perguntei, subitamente com o poder de um raciocínio estranho.
- Pode-se colocar desse modo - ele disse. - Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.
"Aceite o desafio de intentar - prosseguiu ele. - Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em convencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.”
- Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?
- Quando você ouve que precisa se convencer, imediatamente se torna mais racional. Como pode se convencer de que é um sonhador quando sabe que não é? Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.
- Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?
- Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.
Dom Juan acrescentou num tom jocoso que ele não tinha energia suficiente para me fazer outro empréstimo para o intento, e que a coisa a fazer era buscar sozinho meu corpo energético. Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.
A Arte de sonhar – pág. 40
- É perigoso?
- E como! Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não
é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.
- Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?
- A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonhadora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.
Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.
A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de pedir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.
- Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.
- O que são esses batedores?
- Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.
- Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.
- Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente - ou o cérebro - capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.
Parou, obviamente para dar à minha mente tempo de absorver o que dizia.
- Os feiticeiros têm consciência dessas correntes de energia estranha - continuou. - Eles percebem-nas e tentam isolá-las dos itens normais de seus sonhos.
A Arte de sonhar – pág. 43
- O que, exatamente, é o corpo energético?
- É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.
- Mas o corpo físico não é feito também de energia?
- Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem
apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.
- Como o que, por exemplo?
- Como se transportar num instante até os confins do uni verso. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.
"Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano,
é independente. Tem sua própria esfera.”
- O que é essa esfera, Dom Juan?
- Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como percebemos comumente o mundo.
- O que significa perceber a energia enquanto ela flui? - Significa ver. Significa que o corpo energético vê a energia diretamente como uma luz, como uma espécie de corrente vibratória ou como uma perturbação. Ou então sente-a como um tranco ou uma sensação que pode ser até dolorosa.
- E quanto ao outro modo do qual você falou. Dom Juan? O corpo energético usando energia como um combustível de foguete.
- Como a energia é a sua esfera, não há problema para o corpo energético usar correntes de energia que existem no uni verso para impulsioná-lo. Tudo que precisa é isolar essas correntes, e lá se vai ele.
Parou de falar e pareceu indeciso, como se desejasse acrescentar alguma coisa mas não tivesse certeza. Sorriu e, justo quando eu ia começar a fazer uma pergunta, continuou a explicação.
- Já disse antes que, em seus sonhos, os feiticeiros isolam
batedores de outras esferas. Seu corpo energético faz isso. Reconhece a energia e vai atrás dela. Mas não é desejável que os feiticeiros fiquem procurando batedores. Eu estava relutando em dizer isso a você, por causa da facilidade com que podemos ficar envolvidos nessa busca.
A Arte de sonhar – pág. 46
. Isso é o sonhar. Um sonhador, ao cruzar o primeiro portão, já chegou ao corpo energético. O que realmente atravessa o segundo portão, saltando de sonho em sonho, é o corpo energético.
- Qual é a implicação disso tudo, Dom Juan?
- A implicação é que, ao cruzar o segundo portão, você deve intentar um controle maior e mais sóbrio de sua atenção sonhadora: a única válvula de segurança para os sonhadores.
- O que é essa válvula de segurança?
- Você vai descobrir sozinho que o verdadeiro objetivo do sonhar é aperfeiçoar o corpo energético. Um corpo energético perfeito - entre outras coisas, claro - tem um controle tão grande sobre a atenção sonhadora a ponto de fazer com que o sonho pare quando for preciso. Essa é a válvula de segurança que os sonhadores têm. Não importa o quanto eles se entreguem num determinado momento, sua atenção sonhadora deve fazer com que possam emergir.
Comecei tudo de novo, em outra busca nos sonhos. Dessa vez o objetivo era mais escorregadio do que da primeira, e a dificuldade era ainda maior. Exatamente como acontecera na primeira tarefa, eu não conseguia ter idéia do que fazer. Sentia a suspeita desencorajante de que toda a prática que eu tivera não me ajudaria dessa vez. Depois de incontáveis fracassos desisti e decidi simplesmente continuar a fixar minha atenção sonhadora em todos os itens dos sonhos. A aceitação dessa incapacidade pareceu me dar um impulso, e tomei-me ainda mais capaz de manter a visão de qualquer item de meus sonhos.
A Arte de sonhar – pág. 58
- Sonhar é manter o posicionamento para o qual o ponto de aglutinação mudou nos sonhos. Esse ato cria uma carga energética especial que atrai a atenção deles. É como isca para peixe; eles vão atrás. Os feiticeiros, ao atravessar os dois primeiros portões do sonhar, lançam a isca para esses seres e obrigam-nos a aparecer.
Atravessando os dois portões você fez com que eles notassem sua isca. Agora precisa esperar um sinal.
- Que sinal vai ser, Dom Juan?
- Possivelmente o aparecimento de um deles, se bem que parece cedo demais. Sou de opinião que o sinal deles será simplesmente alguma interferência em seu sonhar. Acredito que os choques de medo que você está experimentando atualmente não sejam indigestão, e sim choques de energia mandados pelos seres inorgânicos.
- O que devo fazer?
- Deve medir suas expectativas.
Não entendi o que ele quis dizer, e ele explicou cuidadosa mente que nossa expectativa normal, ao entrarmos em interação com os humanos ou com outros seres orgânicos, é receber uma resposta imediata à nossa solicitação. Os seres inorgânicos, entretanto, são separados de por uma barreira gigantesca: a energia que se move a diferentes velocidades. Os feiticeiros devem levar em conta essa diferença, medir suas expectativas e manter a solicitação pelo tempo necessário para que ela seja confirmada.
A Arte de sonhar – pág. 63
- Os sonhadores, querendo ou não, buscam em seus sonhos associações com outros seres. Isso pode ser um choque para você, mas os sonhadores automaticamente buscam grupos de seres; nexos de seres inorgânicos, neste caso. Os sonhadores procuram-nos avidamente.
- Isso é muito estranho, Dom Juan. Por que os sonhadores fazem isso?
- Para nós a novidade são os seres inorgânicos. E a novidade para eles é a nossa maneira de cruzar as fronteiras até o seu reino. De agora em diante você deve ter em mente que os seres inorgânicos, com sua consciência soberba, exercem uma tremenda atração sobre os sonhadores e podem facilmente transportá-los para mundos além de qualquer descrição.
"Os feiticeiros da antigüidade usavam-nos, e foram eles que cunharam o nome: aliados. Seus aliados lhes ensinaram a mover o ponto de aglutinação para fora dos limites do ovo, para o universo não-humano. Quando transportam um feiticeiro, eles transportam-no para mundos além do domínio humano.”
Enquanto ouvia fui assolado por estranhos medos e dúvidas, que ele captou de imediato.
- Você é um homem religioso até não poder mais - e riu.
- Bom, está sentindo o bafo do diabo na nuca. Pense nesses termos sobre o sonhar: sonhar é perceber mais do que acreditamos que é possível perceber.
Enquanto estava acordado eu me preocupava com a possibilidade de os seres inorgânicos realmente existirem. Quando sonhava, entretanto, minhas preocupações conscientes não tinham muita importância. Os choques de medo físico prosseguiram, mas vinham sempre seguidos por uma estranha calma; uma calma que assumia o controle sobre mim e deixava que eu procedesse como se não tivesse qualquer medo.
A Arte de sonhar – pág. 65
- Onde ficam esses mundos, Dom Juan? Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação?
- Certo. Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação, mas posicionamentos aos quais os feiticeiros chegam com um movimento do ponto de aglutinação, não com um deslocamento. Entrar nesses mundos é o tipo de sonhar que apenas os feiticeiros de hoje em dia fazem. Os feiticeiros antigos ficaram longe dele, porque é necessário um grande desprendimento e nenhuma auto-importância. Um preço que eles não podiam se dar ao luxo de pagar.
"Para os feiticeiros que o praticam atualmente, o sonhar é a liberdade de perceber mundos além da imaginação.”
- Mas qual é o sentido de perceber isso tudo?
- Hoje você já fez essa mesma pergunta. Você fala como um legítimo mercador. Qual é o risco? você pergunta. Qual é a percentagem de lucro para meu investimento? Isso vai me tornar melhor?
"Não há como responder a isso. A mente mercadora faz comércio. Mas a liberdade não pode ser um investimento. Liberdade é uma aventura sem fim, onde arriscamos nossas vidas e muito mais por alguns momentos e alguma coisa além dos mundos, além de pensamentos ou sentimentos.”
A Arte de sonhar – pág. 97
- Quero dizer que não é verdadeiro falar, por exemplo, que o segundo portão é alcançado e atravessado quando um sonhador aprende a acordar em outro sonho, ou quando um sonhador aprende a mudar de sonhos sem acordar no mundo da vida cotidiana.
- Por que não é verdadeiro, Dom Juan?
- Porque o segundo portão do sonhar é alcançado e atravessado somente quando o sonhador aprende a isolar e a seguir os batedores da energia estranha.
- Então por que se dá a idéia de mudar de sonhos?
- Acordar em outro sonho ou mudar de sonho é o exercício imaginado pelos feiticeiros antigos para treinar a capacidade do sonhador isolar e seguir um batedor.
Dom Juan afirmou que a capacidade de seguir um batedor era uma grande realização, e que quando os sonhadores conseguem fazê-lo, o segundo portão é escancarado e o universo que existe por trás dele torna-se acessível. Enfatizou que esse universo está lá todo o tempo, mas que não podemos chegar a ele porque não temos habilidade energética e que, em essência, o segundo portão
do sonhar é a porta para o mundo dos seres inorgânicos, e o sonhar é a chave que abre essa porta.
A Arte de sonhar – pág. 125
O caminho do sonhar é cheio de armadilhas, e evitar essas armadilhas ou cair nelas é o problema pessoal e individual de cada sonhador, e devo acrescentar que é um problema definitivo.
- E essas armadilhas são o resultado de sucumbir à adulação ou às promessas de poder?
- Não somente de sucumbir a isso, mas de sucumbir a qualquer coisa oferecida por eles, além de um determinado ponto.
- E qual é esse certo ponto, Dom Juan?
- O ponto depende de nós como indivíduos. O desafio é cada um de nós pegar apenas o que for necessário naquele mundo, e nada mais. Saber o que é necessário é a virtude dos feiticeiros; mas pegar apenas o necessário é sua maior realização. Deixar de compreender essa regra simples é o meio mais seguro de despencar numa armadilha.
- O que acontece quando se cai, Dom Juan?
- Se você cair, você paga o preço, e o preço depende das circunstâncias e do tamanho da queda. Mas realmente não há meio de falar de uma eventualidade dessas, porque não estamos enfrentando um problema de punição. Aqui o que está em jogo são
correntes energéticas; correntes energéticas que criam circunstâncias mais apavorantes do que a morte. Tudo no caminho dos feiticeiros é questão de vida ou morte, mas no caminho do sonhar essa questão é multiplicada por cem.
A Arte de sonhar – pág. 127
O terceiro portão do sonhar é alcançado quando você se pega num sonho olhando para outra pessoa adormecida. E descobre que essa pessoa é você mesmo - disse Dom Juan.
Meu nível de energia estava tão alto, na época, que passei a trabalhar imediatamente na terceira tarefa, apesar de ele não me oferecer mais nenhuma informação além do que dissera. A primeira coisa que percebi, no treinamento de sonhar, foi que um jorro de energia imediatamente rearrumou o foco de minha atenção sonhadora. Ela estava direcionada para que eu acordasse num sonho e me visse dormindo; viajar ao mundo dos seres inorgânicos não estava mais em questão.
Logo depois me encontrei num sonho, olhando para mim mesmo adormecido. Imediatamente informei a Dom Juan. O sonho acontecera enquanto eu estava em sua casa.
- Existem duas fases em cada portão do sonhar - disse ele. - A primeira, como você sabe, é chegar ao portão; a segunda é atravessá-lo. Sonhando o que sonhou, que se viu dormindo, você chegou ao terceiro portão. A segunda fase é movimentar-se assim que vir você mesmo dormindo.
"No terceiro portão do sonhar - prosseguiu ele - você começa deliberadamente a fundir sua realidade de sonho com a realidade do mundo cotidiano. Esse é o exercício, e os feiticeiros chamam-no de completar o corpo energético. A fusão entre as duas realidades tem de ser tão absoluta que você precisa ser mais fluido do que nunca. Examine tudo no terceiro portão com grande cuidado e curiosidade.”
Reclamei, dizendo que essas recomendações eram cifradas demais, e não faziam qualquer sentido para mim.
- O que quer dizer com grande cuidado e curiosidade? perguntei.
- No terceiro portão nossa tendência é ficarmos perdidos nos detalhes. Ver as coisas com grande cuidado e curiosidade significa resistir à tentação quase irresistível de mergulhar no detalhe.
"O exercício no terceiro portão, como eu disse, é consolidar o corpo energético. Os sonhadores começam a forjar o corpo energético fazendo os exercícios do primeiro e do segundo portão. Quando chegam ao terceiro, o corpo energético está pronto para sair, ou talvez seja melhor dizer que ele está pronto para agir. Infelizmente isso também significa que está pronto para ficar hipnotizado pelos detalhes.
- O que significa ficar hipnotizado pelos detalhes?
- O corpo energético é como uma criança que ficou presa durante toda a vida. No momento em que se liberta ela chafurda em tudo que pode encontrar, e estou falando de tudo, mesmo. Cada detalhe minúsculo e irrelevante absorve totalmente o corpo energético.
A Arte de sonhar – pág. 160
- O que é um mundo real, Dom Juan?
- Um mundo que gera energia; o oposto de um mundo fantasmagórico de projeções, onde nada gera energia; como na maioria de nossos sonhos, onde nada tem efeito energético.
Dom Juan me deu outra definição do sonhar: é um processo através do qual os sonhadores isolam condições de sonho em que podem encontrar elementos geradores de energia. Ele deve ter percebido meu espanto. Riu e deu outra definição ainda mais enrolada: sonhar é o processo através do qual intentamos encontrar posicionamentos adequados do ponto de aglutinação, posicionamentos que permitem que percebamos itens geradores de energia em estados de aparência onírica.
Explicou que o corpo energético também é capaz de perceber energias muito diferentes da energia de nosso mundo. Como no caso dos itens do reino dos seres inorgânicos, que o corpo energético percebe como energia crepitante. Acrescentou que em nosso mundo nada crepita; aqui tudo ondula.
- De agora em diante - falou - a questão em seu sonhar será determinar se os itens nos quais você concentra sua atenção sonhadora são geradores de energia ou meras projeções fantasmagóricas, ou se são geradores de energia alienígena.
A Arte de sonhar – pág. 184
- Estou dizendo isso tudo porque agora você está, pela primeira vez, na posição adequada para entender que o sonhar é uma condição geradora de energia. Pela primeira vez você pode entender que os sonhos comuns são os dispositivos usados para treinar o ponto de aglutinação a alcançar o posicionamento que
cria essa condição geradora de energia, que chamamos de o sonhar.
Avisou-me que, como os sonhadores entram em mundo reais - para todos os efeitos inclusivos - eles devem ficar num estado de alerta contínuo e intenso; já que qualquer desvio do estado de alerta absoluto põe o sonhador em perigos mais do que apavorantes.
Nesse ponto comecei de novo a experimentar um movimento na cavidade torácica, exatamente como sentira no dia em que minha consciência mudara de nível sozinha. Dom Juan sacudiu meu braço com força.
- Veja o sonhar como uma coisa extremamente perigosa! - ordenou. - E comece isso agora! Não venha com nenhuma de suas manobras suspeitas.
Seu tom de voz foi tão insistente que parei o que quer que estivesse inconscientemente fazendo.
- O que está acontecendo comigo, Dom Juan?
- O que está acontecendo é que você consegue deslocar o ponto de aglutinação rápida e facilmente. Mas essa facilidade tem a tendência de tornar o deslocamento errático. Controle sua facilidade. E não se permita nem mesmo um milímetro de folga.
A Arte de sonhar – pág. 194
- A primeira parte desta lição do sonhar é que a masculinidade e a feminilidade não são estados definitivos, e sim o resultado de um ato específico de posicionamento do ponto de aglutinação. E esse ato de rearrumar o ponto de aglutinação é, naturalmente, questão de vontade e treinamento. Como era um tema caro aos feiticeiros da antigüidade, apenas eles podem lançar alguma luz sobre isso.
Talvez porque fosse a única coisa racional a fazer, comecei a discutir com Dom Juan.
- Não posso aceitar nem acreditar no que está dizendo falei sentindo o calor me subir ao rosto.
- Mas você viu a mulher - respondeu Dom Juan. - Acha que tudo isso é um truque?
- Não sei o que pensar.
-" Aquele ser na igreja é uma mulher verdadeira - ele disse num tom decidido. - Por que isso deveria perturbá-lo tanto? O fato dela ter nascido como homem somente atesta o poder das maquinações dos feiticeiros antigos. Isso não deveria surpreendê-lo. Você já incorporou todos os princípios da feitiçaria.”
Minhas entranhas estavam em vias de explodir de tensão. Num tom acusatório Dom Juan disse que eu só estava querendo discutir. Com paciência forçada e pomposidade real expliquei a ele o fundamento biológico do masculino e do feminino.
- Eu compreendo tudo isso - ele disse. - E você está certo no que está falando. Sua falha é tentar universalizar suas avaliações.
- Nós estamos falando é de princípios básicos - gritei. Eles serão pertinentes para o homem aqui ou em qualquer outro lugar do universo.
- Certo, certo - ele disse em voz baixa. - Tudo que você está dizendo é verdade enquanto nosso ponto de aglutinação permanecer em seu posicionamento habitual. Mas no momento em que ele se desloca para além de certas fronteiras, e nosso mundo cotidiano não funciona mais, nenhum dos princípios que você nutre com carinho tem esse valor absoluto do qual está falando.
A Arte de sonhar – pág. 233
A arte de sonhar é a capacidade de utilizar nossos sonhos comuns e transformá-los numa consciência controlada por uma forma especial de atenção chamada a atenção sonhadora.
A roda do tempo, pág. 196
- Não, não é sonhar - disse ele enfaticamente. - Isto é algo mais direto e mais misterioso. Aliás, tenho uma nova definição de sonhar para você hoje, mais de acordo com seu estado de ser. Sonhar é o ato de mudar o ponto de ligação com o mar escuro da consciência. Se você olhar para isso dessa forma, é um conceito e uma manobra muito simples. Requer tudo de você para percebê-lo, mas não é uma impossibilidade nem algo cercado de nuvens místicas.
"Sonhar é um termo que sempre me incomodou muito, porque enfraquece um ato muito poderoso. Faz com que pareça arbitrário; dá uma sensação de ser uma fantasia, e isso é a única coisa que não é. Tentei mudar o termo eu mesmo, mas ele está muito arraigado. Talvez algum dia você mesmo possa mudá-lo, apesar de que, como em tudo na feitiçaria, temo que quando você realmente puder fazê-lo não se importará mais com isso porque não fará mais nenhuma diferença como chamá-lo."
Dom Juan explicara amplamente, durante todo o tempo que eu o conheci, que sonhar era uma arte, descoberta pelos feiticeiros do México antigo, por meio da qual os sonhos comuns eram transformados em entradas legítimas para outros mundos de percepção. Sustentava, de todas as maneiras que podia, o advento de algo que ele chamava de atenção do sonhar, que era a capacidade de dar um tipo de atenção especial, ou de colocar um tipo especial de consciência nos elementos de um sonho comum.
Seguira meticulosamente todas as suas recomendações e tinha conseguido comandar minha consciência para permanecer fixada nos elementos de um sonho. A idéia que Dom Juan propunha era não começar deliberadamente a ter um sonho desejado, mas de fixar a atenção nos elementos componentes de qualquer sonho que se apresentasse.
Depois Dom Juan mostrara-me energeticamente o que os feiticeiros do México antigo consideravam ser a origem do sonhar: o deslocamento do ponto de aglutinação. Disse que o ponto de aglutinação se deslocava muito naturalmente durante o sono, mas ver o deslocamento era um tanto difícil porque requeria um temperamento agressivo, e que esse temperamento agressivo tinha sido a predileção dos feiticeiros do México antigo. Aqueles feiticeiros, segundo Dom Juan, encontraram todas as premissas de suas feitiçarias através desse humor.
O Lado Ativo do infinito, pág. 221
"Visto que sonhar, para a mulher, é uma questão de ter energia à sua disposição, o importante é convencê-la da necessidade de modificar a sua socialização profunda a fim de adquirir essa ener
gia. O ato de utilizar essa energia é automático; as mulheres sonham sonhos de feiticeiros no instante em que têm a energia.
Ela confessou que uma consideração séria a respeito dos sonhos de feiticeiros, que surgia de suas próprias falhas, era a dificuldade de incutir nas mulheres a coragem para abrir caminho num novo campo. A maioria das mulheres - e ela afirmou que era dessas prefere seus grilhões seguros ao pavor de novos.
- Sonhar é só para as mulheres corajosas - murmurou ela, em meu ouvido. Depois deu uma gargalhada e acrescentou: - Ou para as mulheres que não têm outra opção, porque suas circunstâncias são insuportáveis - categoria a que pertence a maioria das mulheres, mesmo sem o saber.
O som de sua risada áspera teve um efeito estranho sobre mim. Senti como se, de repente, tivesse acordado de um sonho profundo e me lembrei de uma coisa de que me esquecera inteiramente enquanto dormia.
Sonhos Lúcidos, pág. 256
- Como é que partilhamos os nossos sonhos? - tomei a perguntar.
Zuleica parou de se balançar. Sacudiu a cabeça e, depois, levantou os olhos, num sobressalto, como se tivesse acordado de repente.
- É impossível eu explicar isso agora - declarou ela. - Sonhar é incompreensível. A gente tem de alimentar isso e não discuti-lo. Como no mundo cotidiano, antes de explicar e analisar alguma coisa, é preciso experimentá-lo. - Ela falava devagar e com ponderação. Reconheceu que é importante explicar à medida que se avança. - No entanto, por vezes, as explicações são prematuras. Esta é uma dessas ocasiões. Um dia tudo isso fará sentido para você - prometeu Zuleica, vendo a decepção em meu rosto.
Sonhos Lúcidos, pág. 263
- Agora estou sonhando!
Aquela declaração pronunciada em voz alta deslanchou alguma coisa dentro de mim; uma nova avalancha de recordações diferentes me inundou. Sabia o que havia de errado comigo: tinha errado e não tinha energia para sonhar. Todas as noites, desde a minha chegada, sonhara o mesmo sonho, de que me esquecera até aquele momento. Sonhara que as feiticeiras iam ao meu quarto e me exercitavam nos raciocínios dos feiticeiros. Elas me disseram, vezes e mais vezes, que sonhar é a função secundária do útero sendo a primeira a reprodução e o que estiver relacionado com isso. Disseram-me que sonhar é uma função natural nas mulheres, corolário puro da energia. Tendo suficiente energia, o corpo da mulher, por si só, desperta as funções secundárias do útero, e a mulher sonhará sonhos inconcebíveis.
No entanto, essa energia necessária é como o auxilio a um país subdesenvolvido: não chega nunca. Alguma coisa na ordem geral de nossas estruturas sociais impede que essa energia se libere para que as mulheres possam sonhar.
Se essa energia fosse livre, as feiticeiras me disseram, chegaria a derrubar a ordem "civilizada" das coisas. Mas a grande tragédia das mulheres é que a sua consciência social domina completamente a sua consciência individual. As mulheres têm medo de serem diferentes e não querem se afastar demais dos confortos do conhecido.
As pressões sociais impostas a elas, para não se desviarem, são fortes demais e, em vez de mudarem, concordam com o que lhes foi ordenado: as mulheres existem para estar às ordens dos homens. Assim, nunca podem sonhar sonhos de feitiçaria, embora possuam disposição orgânica para tal. A feminilidade destruiu as oportunidades das mulheres
Sonhos Lúcidos, pág. 263
"O melhor modo de desdobrar nossa percepção é através do ensonhar. Como método, o ensonhar é igualmente simples, mas menos arriscado; é mais inclusivo e, principalmente, muito mais natural.
"O objetivo do aprendiz é tomar as rédeas de seu ponto de aglutinação. Uma vez que consegue deslocá-lo, está obrigado a repetir esses movimentos sem ajuda externa, por meio de disciplina e impecabilidade. Então pode ser dito que o guerreiro encontrou um aliado".
Encontros com o Nagual, pág. 122
Explicou que a fixação do ponto de aglutinação consome enormes quantidades de energia e produz uma visão estática do mundo. A energia processada desse modo se esparrama por toda nossa luminosidade e termina acumulando-se em suas bordas, onde forma massas densas que criam um reflexo do eu. Em tais circunstâncias, mover essa fixação se torna uma tarefa exaustiva.
"Para romper a armadilha da fixação é válido, em princípio, apelar a qualquer recurso. Na maioria dos casos, só um empurrão proveniente do exterior pode provocar em uma pessoa o movimento do ponto de aglutinação. Quando nós temos muita, mas muita sorte, esse empurrão nos chega pelo golpe de um nagual.
"Uma vez conseguido o deslocamento inicial, o guerreiro dever lutar pelo domínio de sua atenção, e deve fazê-lo por meio do exercício do intento e a prática do ensonho. Ensonhar é a porta de escape para a raça humana e é a única coisa que dá à nossa existência sua dimensão apropriada"
Encontros com o Nagual, pág. 124
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domingo, 4 de setembro de 2011
O Sonho – Visão Tolteca
Vocês se lembram que na postagem “O Sonho, Portal da Consciência” prometemos “publicar em breve assuntos de Leitura Transversal, que são citações da obra tolteca de Castaneda, começando com o tema O Sonho”. O fato de serem citações esparsas da obra, centradas num tema, torna a leitura interessante, inesperada, e agregadora em torno do tema, dando- lhe um novo significado.
Vamos fazer isso, mas primeiro temos algumas dicas:
• O texto pesquisado na obra para localizar as citações foi a expressão “sonhar é”, para apresentar resultados sobre a definição de “o que é o sonho”, e estabelecer a diferença radical entre o que é a real natureza do sonho e o que é a interpretação ocidental, que o considera superficial e sem importância.
• A numeração das páginas é a das edições dos meus livros pessoais, e pode variar com as dos livros de cada um.
• Os textos são trechos dos vários livros como foram escritos, às vezes com traduções “traidoras”
• No nosso contexto abaixo, sonhar ou “ensonhar” refere-se ao “sonho lúcido” onde o sonhador está consciente dentro do sonho, e não do sonho comum que é uma montagem confusa das experiências do dia.
• O significado da palavra “Ver” é “o modo de ver do vidente tolteca”, que "vê a energia como ela flui no universo".
• Há conceitos específicos do universo tolteca, como: ponto de aglutinação, corpo energético, corpo sonhador “não fazer”, nagual, tonal, primeira, segunda e terceira atenção, espreitar, intentar, intento, seres inorgânicos...um dia vamos fazer um glossário disso.
Então seguem as citações sobre O Sonho na obra:
“- Quer dizer então, Dom Juan, que sonhar é real?
- Claro que é real.
- Tão real como o que estamos fazendo agora?
- Se você quer comparar as coisas, posso dizer que talvez seja mais real. No sonhar você tem poder; pode modificar as coisas; pode descobrir uma infinidade de fatos ocultos; pode controlar o que quiser.”
Viagem a Ixtlan – pág. 98
- Deve começar com alguma coisa bem simples - falou. Hoje, em seus sonhos, deve olhar para suas mãos.
---
Naturalmente, pode olhar para o que bem entender ... os dedos dos pés, sua barriga ou qualquer coisa. Falei suas mãos porque isso foi o mais fácil para eu olhar. Não pense que é brincadeira. Sonhar é tão sério quanto ver ou morrer ou qualquer outra coisa neste mundo assombroso e misterioso.
- Cada vez que você olha para alguma coisa em seus sonhos essa coisa muda de forma - disse ele, depois de um longo silêncio. - O truque de aprender a organizar-se para sonhar, obviamente não é só olhar para as coisas, mas manter a visão delas. Sonhar é real quando a gente conseguiu focalizar tudo. Depois, não há diferença entre o que você faz quando dorme, e o que faz quando não está dormindo. Entende o que digo?
Viagem a Ixtlan – pág.102
"Cada vez que olhar para suas mãos, estará renovando o poder necessário para sonhar, de modo que, no princípio, não olhe para coisas demais. Quatro coisas bastam, de cada vez. Mais tarde, poderá aumentar o número até abranger tudo o que quiser, mas, assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para suas mãos.
"Quando achar que pode olhar para as coisas indefinidamente, estará pronto para uma nova técnica. Vou-lhe ensinar essa nova técnica agora, mas espero que só a utilize quando estiver preparado." Ficou calado por uns 15 minutos. Por fim, sentou-se e olhou para mim.
- O passo seguinte em organizar-se para sonhar é aprender a viajar - disse ele. - Da mesma maneira que aprendeu a olhar para suas mãos, pode obrigar-se a mover-se, a ir aos lugares. Primeiro, tem de estabelecer um lugar aonde queira ir. Escolha um lugar bem seu conhecido... talvez sua escola, ou um parque, ou a casa de um amigo., depois, obrigue-se a ir lá.
"Essa técnica é muito difícil. Precisa desempenhar duas tarefas: tem de obrigar-se a ir ao local determinado; e depois, quando já tiver dominado essa técnica, tem de aprender a controlar o tempo exato de sua viagem."
Viagem a Ixtlan – pág.115
Entenda, sonhar é o “não fazer” dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará “não fazendo”.
Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas “não fazer”. Mas, se lidar com “não fazer” diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
Viagem a Ixtlan – pág.186
- Sonhar é um auxílio prático, imaginado por feiticeiros continuou ele. - Eles não eram tolos; sabiam o que estavam fazendo ao procurarem a utilidade do nagual treinando seu tonal para se afrouxar um instante, por assim dizer, e depois apertar de novo. Essa declaração não lhe faz sentido. Mas é isso que você vem fazendo o tempo todo: treinando-se para se soltar sem perder as estribeiras. Sonhar, naturalmente, é a coroação dos esforços dos feiticeiros, o uso final do nagual.
Viagem a Ixtlan – pág.220
- Como vou equilibrar a minha segunda atenção?
- Você tem de sonhar como nós sonhamos. Sonhar é o único meio de se alcançar a segunda atenção sem prejudicá-la, sem torná-la ameaçadora e temível. A sua segunda atenção está fixa naquele lado terrível do mundo; a nossa está sobre a sua beleza. Você tem de trocar de lado e vir conosco. Foi isso que você escolheu ontem à noite, quando resolveu seguir conosco.
O Segundo Círculo do Poder – pág. 208
A primeira atenção, a atenção que faz o mundo, nunca pode ser completamente dominada; pode apenas ser desligada por um instante e recolocada pela segunda atenção, desde que o corpo tenha armazenado bastante dela. Sonhar é, naturalmente, um modo de armazenar a segunda atenção. Assim sendo, eu diria que a fim de mudar em corpo sonhador enquanto acordado, tem de se praticar a sonho até que ele passe a ser uma coisa simples.
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Disse a La Gorda que Dom Juan me dera três tarefas para treinar minha segunda atenção. A primeira era encontrar minhas mãos na sonho. Em seguida recomendou que eu escolhesse um local, focalizasse minha atenção nele e então sonhasse de dia e descobrisse se poderia mesmo ir para lá. Sugeriu que eu colocasse alguém conhecido no lugar, de preferência uma mulher, a fim de fazer duas coisas: primeira, verificar mudanças súbitas que indicassem que eu estava lá em sonho; segunda, isolar o detalhe pequeno, que seria precisamente a coisa na qual a minha segunda atenção deveria se fixar.
O problema mais sério do sonhador a esse respeita é a fixação inflexível da segunda atenção no detalhe, que passaria completamente despercebido da atenção da vida diária, criando assim um obstáculo quase intransponível à sua validez. O que se procura no sonho não é aquilo a que se prestaria atenção todo dia.
O Presente da Águia, pág. 116
Dom Juan explicou que os sonhadores precisam atingir um equilíbrio muito sutil, pois os sonhos não podem sofrer interferência, assim como não podem ser comandados pelo esforço consciente do sonhador. Por outro lado, o deslocamento dos pontos de aglutinação deve obedecer ao comando do sonhador - uma contradição que não pode ser racionalizada mas que precisa ser resolvida na prática.
O fogo interior, pág. 167
- Sonhar é o avião a jato do feiticeiro. O nagual Elias era um sonhador assim como meu benfeitor era um espreitador. Era capaz de criar e projetar o que os feiticeiros conhecem como corpo de sonhar, ou "o outro", e estar em dois lugares distantes ao mesmo tempo. Com seu corpo de sonhar, podia ocupar-se de seus negócios como feiticeiro, e com seu eu natural um ser recluso.
---
Antes que eu pudesse responder, recomeçou a falar sobre o nagual Elias. Disse que o nagual Elias tinha uma mente muito inquisidora e tinha muita habilidade com as mãos. Em suas jornadas como sonhador via muitos objetos, os quais copiava em madeira e ferro forjado. Don Juan assegurou-me que alguns desses modelos eram de uma beleza estranha e assustadora
Que tipos de objetos? - perguntei.
Não há um meio de saber. Você deve considerar que, por ser um índio, o nagual Elias entrava em suas jornadas de sonhar da mesma maneira como um animal selvagem ronda em busca de alimento. Um animal nunca aparece num lugar onde haja sinais de atividade. Vem apenas quando não há ninguém por perto. O nagual Elias, como sonhador solitário, visitava, digamos, a lixeira do infinito, quando ninguém estava presente, e copiava tudo o que via, mas nunca sabia para que aquelas coisas eram usadas ou qual a sua fonte.
O Poder do Silêncio, pág. 51
"- Você é um sonhador. Se não tiver cuidado com sua energia sexual, pode muito bem se acostumar à idéia de movimentos erráticos de seu ponto de aglutinação. Há um momento você estava espantado por suas reações. Bem, seu ponto de aglutinação move-se quase erraticamente, porque sua energia sexual não está equilibrada
O Poder do Silêncio, pág. 52
- Então vamos deixar as metáforas de lado - ele admitiu. - Digamos que sonhar é o meio prático dos feiticeiros utilizarem os sonhos comuns.
---
- Sonhar só pode ser experimentado. Sonhar não é apenas ter sonhos; nem devaneios ou desejos ou imaginação. Sonhando podemos perceber outros mundos, que certamente podemos descrever; mas não podemos descrever o que nos faz percebê-los. No entanto podemos sentir de que modo o sonhar abre essas outras regiões. Sonhar parece uma sensação; um processo em nossos corpos, uma percepção em nossas mentes.
No decorrer de seus ensinamentos gerais, Dom Juan me explicou por completo os princípios, os fundamentos e as práticas da arte do sonhar. Sua instrução foi dividida em duas partes. Uma era sobre os procedimentos de sonhar; a outra sobre as explicações puramente abstratas desses procedimentos. Seu método de ensino era uma interação entre estimular minha curiosidade intelectual com relação aos princípios abstratos de sonhar e guiar-me para que eu buscasse um escoadouro em suas práticas.
A Arte do sonhar – pág. 8
"- Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.
Aceite o desafio de intentar - prosseguiu ele. - Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em convencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.”
- Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?
Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.
- Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?
- Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.
Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.
A Arte do sonhar – pág. 40
Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.
- Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?
- A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonhadora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.
Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.
A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de pedir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.
- Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.
- O que são esses batedores?
- Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.
- Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.
- Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente - ou o cérebro - capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.
A Arte do sonhar – pág. 43
- O que, exatamente, é o corpo energético?
- É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.
- Mas o corpo físico não é feito também de energia?
- Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.
- Como o que, por exemplo?
- Como se transportar num instante até os confins do universo. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.
"Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano, é independente. Tem sua própria esfera.”
- O que é essa esfera, Dom Juan?
- Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como percebemos comumente o mundo.
- O que significa perceber a energia enquanto ela flui?
- Significa “ver”. Significa que o corpo energético vê a energia diretamente como uma luz, como uma espécie de corrente vibratória ou como uma perturbação. Ou então sente-a como um tranco ou uma sensação que pode ser até dolorosa.
- E quanto ao outro modo do qual você falou. Dom Juan? O corpo energético usando energia como um combustível de foguete.
- Como a energia é a sua esfera, não há problema para o corpo energético usar correntes de energia que existem no universo para impulsioná-lo. Tudo que precisa é isolar essas correntes, e lá se vai ele.
A Arte do sonhar – pág. 46
- Você vai descobrir sozinho que o verdadeiro objetivo do sonhar é aperfeiçoar o corpo energético. Um corpo energético perfeito - entre outras coisas, claro - tem um controle tão grande sobre a atenção sonhadora a ponto de fazer com que o sonho pare quando for preciso. Essa é a válvula de segurança que os sonhadores têm. Não importa o quanto eles se entreguem num determinado momento, sua atenção sonhadora deve fazer com que possam emergir.
Comecei tudo de novo, em outra busca nos sonhos. Dessa vez o objetivo era mais escorregadio do que da primeira, e a dificuldade era ainda maior. Exatamente como acontecera na primeira tarefa, eu não conseguia ter idéia do que fazer. Sentia a suspeita desencorajante de que toda a prática que eu tivera não me ajudaria dessa vez. Depois de incontáveis fracassos desisti e decidi simplesmente continuar a fixar minha atenção sonhadora em todos os itens dos sonhos. A aceitação dessa incapacidade pareceu me dar um impulso, e tomei-me ainda mais capaz de manter a visão de qualquer item de meus sonhos.
A Arte do sonhar – pág. 58
- Para nós a novidade são os seres inorgânicos. E a novidade para eles é a nossa maneira de cruzar as fronteiras até o seu reino. De agora em diante você deve ter em mente que os seres inorgânicos, com sua consciência soberba, exercem uma tremenda atração sobre os sonhadores e podem facilmente transportá-los para mundos além de qualquer descrição.
"Os feiticeiros da antigüidade usavam-nos, e foram eles que cunharam o nome: aliados. Seus aliados lhes ensinaram a mover o ponto de aglutinação para fora dos limites do ovo, para o universo não-humano. Quando transportam um feiticeiro, eles transportam-no para mundos além do domínio humano.”
Enquanto ouvia fui assolado por estranhos medos e dúvidas, que ele captou de imediato.
- Você é um homem religioso até não poder mais - e riu.
- Bom, está sentindo o bafo do diabo na nuca. Pense nesses termos sobre o sonhar: sonhar é perceber mais do que acreditamos que é possível perceber.
Enquanto estava acordado eu me preocupava com a possibilidade de os seres inorgânicos realmente existirem. Quando sonhava, entretanto, minhas preocupações conscientes não tinham muita importância. Os choques de medo físico prosseguiram, mas vinham sempre seguidos por uma estranha calma; uma calma que assumia o controle sobre mim e deixava que eu procedesse como se não tivesse qualquer medo.
A Arte do sonhar – pág. 65
- Onde ficam esses mundos, Dom Juan? Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação?
- Certo. Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação, mas posicionamentos aos quais os feiticeiros chegam com um movimento do ponto de aglutinação, não com um deslocamento. Entrar nesses mundos é o tipo de sonhar que apenas os feiticeiros de hoje em dia fazem. Os feiticeiros antigos ficaram longe dele, porque é necessário um grande desprendimento e nenhuma auto-importância. Um preço que eles não podiam se dar ao luxo de pagar.
"Para os feiticeiros que o praticam atualmente, o sonhar é a liberdade de perceber mundos além da imaginação.”
A Arte do sonhar – pág. 97
- Quero dizer que não é verdadeiro falar, por exemplo, que o segundo portão é alcançado e atravessado quando um sonhador aprende a acordar em outro sonho, ou quando um sonhador aprende a mudar de sonhos sem acordar no mundo da vida cotidiana.
- Por que não é verdadeiro, Dom Juan?
- Porque o segundo portão do sonhar é alcançado e atravessado somente quando o sonhador aprende a isolar e a seguir os batedores da energia estranha.
- Então por que se dá a idéia de mudar de sonhos?
- Acordar em outro sonho ou mudar de sonho é o exercício imaginado pelos feiticeiros antigos para treinar a capacidade do sonhador isolar e seguir um batedor.
Dom Juan afirmou que a capacidade de seguir um batedor era uma grande realização, e que quando os sonhadores conseguem fazê-lo, o segundo portão é escancarado e o universo que existe por trás dele torna-se acessível. Enfatizou que esse universo está lá todo o tempo, mas que não podemos chegar a ele porque não temos habilidade energética e que, em essência, o segundo portão do sonhar é a porta para o mundo dos seres inorgânicos, e o sonhar é a chave que abre essa porta.
A Arte do sonhar – pág. 125
O terceiro portão do sonhar é alcançado quando você se pega num sonho olhando para outra pessoa adormecida. E descobre que essa pessoa é você mesmo - disse Dom Juan.
Meu nível de energia estava tão alto, na época, que passei a trabalhar imediatamente na terceira tarefa, apesar de ele não me oferecer mais nenhuma informação além do que dissera. A primeira coisa que percebi, no treinamento de sonhar, foi que um jorro de energia imediatamente rearrumou o foco de minha atenção sonhadora. Ela estava direcionada para que eu acordasse num sonho e me visse dormindo; viajar ao mundo dos seres inorgânicos não estava mais em questão.
Logo depois me encontrei num sonho, olhando para mim mesmo adormecido. Imediatamente informei a Dom Juan. O sonho acontecera enquanto eu estava em sua casa.
- Existem duas fases em cada portão do sonhar - disse ele. - A primeira, como você sabe, é chegar ao portão; a segunda é atravessá-lo. Sonhando o que sonhou, que se viu dormindo, você chegou ao terceiro portão. A segunda fase é movimentar-se assim que vir você mesmo dormindo.
"No terceiro portão do sonhar - prosseguiu ele - você começa deliberadamente a fundir sua realidade de sonho com a realidade do mundo cotidiano. Esse é o exercício, e os feiticeiros chamam-no de completar o corpo energético.
A Arte do sonhar – pág. 160
- O que é um mundo real, Dom Juan?
- Um mundo que gera energia; o oposto de um mundo fantasmagórico de projeções, onde nada gera energia; como na maioria de nossos sonhos, onde nada tem efeito energético.
Dom Juan me deu outra definição do sonhar: é um processo através do qual os sonhadores isolam condições de sonho em que podem encontrar elementos geradores de energia. Ele deve ter percebido meu espanto. Riu e deu outra definição ainda mais enrolada: sonhar é o processo através do qual intentamos encontrar posicionamentos adequados do ponto de aglutinação, posicionamentos que permitem que percebamos itens geradores de energia em estados de aparência onírica.
Explicou que o corpo energético também é capaz de perceber energias muito diferentes da energia de nosso mundo. Como no caso dos itens do reino dos seres inorgânicos, que o corpo energético percebe como energia crepitante. Acrescentou que em nosso mundo nada crepita; aqui tudo ondula.
- De agora em diante - falou - a questão em seu sonhar será determinar se os itens nos quais você concentra sua atenção sonhadora são geradores de energia ou meras projeções fantasmagóricas, ou se são geradores de energia alienígena.
A Arte do sonhar – pág. 184
- Estou dizendo isso tudo porque agora você está, pela primeira vez, na posição adequada para entender que o sonhar é uma condição geradora de energia. Pela primeira vez você pode entender que os sonhos comuns são os dispositivos usados para treinar o ponto de aglutinação a alcançar o posicionamento que cria essa condição geradora de energia, que chamamos de o sonhar.
A arte do sonhar – pág. 194
- A primeira parte desta lição do sonhar é que a masculinidade e a feminilidade não são estados definitivos, e sim o resultado de um ato específico de posicionamento do ponto de aglutinação. E esse ato de rearrumar o ponto de aglutinação é, naturalmente, questão de vontade e treinamento. Como era um tema caro aos feiticeiros da antigüidade, apenas eles podem lançar alguma luz sobre isso.
A arte do sonhar – pág. 233
A arte do sonhar é a capacidade de utilizar nossos sonhos comuns e transformá-los numa consciência controlada por uma forma especial de atenção chamada a atenção sonhadora.
A roda do tempo, pág. 196
- Não, não é sonhar - disse ele enfaticamente. - Isto é algo mais direto e mais misterioso. Aliás, tenho uma nova definição de sonhar para você hoje, mais de acordo com seu estado de ser. Sonhar é o ato de mudar o ponto de ligação com o mar escuro da consciência. Se você olhar para isso dessa forma, é um conceito e uma manobra muito simples. Requer tudo de você para percebê-lo, mas não é uma impossibilidade nem algo cercado de nuvens místicas.
"Sonhar é um termo que sempre me incomodou muito, porque enfraquece um ato muito poderoso. Faz com que pareça arbitrário; dá uma sensação de ser uma fantasia, e isso é a única coisa que não é. Tentei mudar o termo eu mesmo, mas ele está muito arraigado. Talvez algum dia você mesmo possa mudá-lo, apesar de que, como em tudo na feitiçaria, temo que quando você realmente puder fazê-lo não se importará mais com isso porque não fará mais nenhuma diferença como chamá-lo."
Dom Juan explicara amplamente, durante todo o tempo que eu o conheci, que sonhar era uma arte, descoberta pelos feiticeiros do México antigo, por meio da qual os sonhos comuns eram transformados em entradas legítimas para outros mundos de percepção. Sustentava, de todas as maneiras que podia, o advento de algo que ele chamava de atenção do sonhar, que era a capacidade de dar um tipo de atenção especial, ou de colocar um tipo especial de consciência nos elementos de um sonho comum.
Seguira meticulosamente todas as suas recomendações e tinha conseguido comandar minha consciência para permanecer fixada nos elementos de um sonho. A idéia que Dom Juan propunha era não começar deliberadamente a ter um sonho desejado, mas de fixar a atenção nos elementos componentes de qualquer sonho que se apresentasse.
O lado Ativo do infinito, pág. 221
Ela confessou que uma consideração séria a respeito dos sonhos de feiticeiros, que surgia de suas próprias falhas, era a dificuldade de incutir nas mulheres a coragem para abrir caminho num novo campo. A maioria das mulheres - e ela afirmou que era dessas - prefere seus grilhões seguros ao pavor de novos.
- Sonhar é só para as mulheres corajosas - murmurou ela, em meu ouvido. Depois deu uma gargalhada e acrescentou: - Ou para as mulheres que não têm outra opção, porque suas circunstâncias são insuportáveis - categoria a que pertence a maioria das mulheres, mesmo sem o saber.
Sonhos Lúcidos, pág. 256
- Como é que partilhamos os nossos sonhos? - tomei a perguntar.
Zuleica parou de se balançar. Sacudiu a cabeça e, depois, levantou os olhos, num sobressalto, como se tivesse acordado de repente.
- É impossível eu explicar isso agora - declarou ela. - Sonhar é incompreensível. A gente tem de alimentar isso e não discuti-lo. Como no mundo cotidiano, antes de explicar e analisar alguma coisa, é preciso experimentá-lo. - Ela falava devagar e com ponderação. Reconheceu que é importante explicar à medida que se avança. - No entanto, por vezes, as explicações são prematuras. Esta é uma dessas ocasiões. Um dia tudo isso fará sentido para você - prometeu Zuleica, vendo a decepção em meu rosto.
Sonhos Lúcidos, pág. 263
- Agora estou sonhando!
Sonhara que as feiticeiras iam ao meu quarto e me exercitavam nos raciocínios dos feiticeiros. Elas me disseram, vezes e mais vezes, que sonhar é a função secundária do útero sendo a primeira a reprodução e o que estiver relacionado com isso. Disseram-me que sonhar é uma função natural nas mulheres, corolário puro da energia. Tendo suficiente energia, o corpo da mulher, por si só, desperta as funções secundárias do útero, e a mulher sonhará sonhos inconcebíveis.
No entanto, essa energia necessária é como o auxilio a um país subdesenvolvido: não chega nunca. Alguma coisa na ordem geral de nossas estruturas sociais impede que essa energia se libere para que as mulheres possam sonhar.
Se essa energia fosse livre, as feiticeiras me disseram, chegaria a derrubar a ordem "civilizada" das coisas. Mas a grande tragédia das mulheres é que a sua consciência social domina completamente a sua consciência individual. As mulheres têm medo de serem diferentes e não querem se afastar demais dos confortos do conhecido.
As pressões sociais impostas a elas, para não se desviarem, são fortes demais e, em vez de mudarem, concordam com o que lhes foi ordenado: as mulheres existem para estar às ordens dos homens. Assim, nunca podem sonhar sonhos de feitiçaria, embora possuam disposição orgânica para tal.
A feminilidade destruiu as oportunidades das mulheres
Sonhos Lúcidos, pág. 263
"O melhor modo de desdobrar nossa percepção é através do ensonhar. Como método, o ensonhar é igualmente simples, mas menos arriscado; é mais inclusivo e, principalmente, muito mais natural.
"O objetivo do aprendiz é tomar as rédeas de seu ponto de aglutinação. Uma vez que consegue deslocá-lo, está obrigado a repetir esses movimentos sem ajuda externa, por meio de disciplina e impecabilidade. Então pode ser dito que o guerreiro encontrou um aliado".
Encontros com o Nagual, pág. 122
"Para romper a armadilha da fixação é válido, em princípio, apelar a qualquer recurso. Na maioria dos casos, só um empurrão proveniente do exterior pode provocar em uma pessoa o movimento do ponto de aglutinação. Quando nós temos muita, mas muita sorte, esse empurrão nos chega pelo golpe de um nagual.
"Uma vez conseguido o deslocamento inicial, o guerreiro dever lutar pelo domínio de sua atenção, e deve fazê-lo por meio do exercício do intento e a prática do ensonho. Ensonhar é a porta de escape para a raça humana e é a única coisa que dá à nossa existência sua dimensão apropriada"
Encontros com o Nagual, pág. 124
Vamos fazer isso, mas primeiro temos algumas dicas:
• O texto pesquisado na obra para localizar as citações foi a expressão “sonhar é”, para apresentar resultados sobre a definição de “o que é o sonho”, e estabelecer a diferença radical entre o que é a real natureza do sonho e o que é a interpretação ocidental, que o considera superficial e sem importância.
• A numeração das páginas é a das edições dos meus livros pessoais, e pode variar com as dos livros de cada um.
• Os textos são trechos dos vários livros como foram escritos, às vezes com traduções “traidoras”
• No nosso contexto abaixo, sonhar ou “ensonhar” refere-se ao “sonho lúcido” onde o sonhador está consciente dentro do sonho, e não do sonho comum que é uma montagem confusa das experiências do dia.
• O significado da palavra “Ver” é “o modo de ver do vidente tolteca”, que "vê a energia como ela flui no universo".
• Há conceitos específicos do universo tolteca, como: ponto de aglutinação, corpo energético, corpo sonhador “não fazer”, nagual, tonal, primeira, segunda e terceira atenção, espreitar, intentar, intento, seres inorgânicos...um dia vamos fazer um glossário disso.
Então seguem as citações sobre O Sonho na obra:
“- Quer dizer então, Dom Juan, que sonhar é real?
- Claro que é real.
- Tão real como o que estamos fazendo agora?
- Se você quer comparar as coisas, posso dizer que talvez seja mais real. No sonhar você tem poder; pode modificar as coisas; pode descobrir uma infinidade de fatos ocultos; pode controlar o que quiser.”
Viagem a Ixtlan – pág. 98
- Deve começar com alguma coisa bem simples - falou. Hoje, em seus sonhos, deve olhar para suas mãos.
---
Naturalmente, pode olhar para o que bem entender ... os dedos dos pés, sua barriga ou qualquer coisa. Falei suas mãos porque isso foi o mais fácil para eu olhar. Não pense que é brincadeira. Sonhar é tão sério quanto ver ou morrer ou qualquer outra coisa neste mundo assombroso e misterioso.
- Cada vez que você olha para alguma coisa em seus sonhos essa coisa muda de forma - disse ele, depois de um longo silêncio. - O truque de aprender a organizar-se para sonhar, obviamente não é só olhar para as coisas, mas manter a visão delas. Sonhar é real quando a gente conseguiu focalizar tudo. Depois, não há diferença entre o que você faz quando dorme, e o que faz quando não está dormindo. Entende o que digo?
Viagem a Ixtlan – pág.102
"Cada vez que olhar para suas mãos, estará renovando o poder necessário para sonhar, de modo que, no princípio, não olhe para coisas demais. Quatro coisas bastam, de cada vez. Mais tarde, poderá aumentar o número até abranger tudo o que quiser, mas, assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para suas mãos.
"Quando achar que pode olhar para as coisas indefinidamente, estará pronto para uma nova técnica. Vou-lhe ensinar essa nova técnica agora, mas espero que só a utilize quando estiver preparado." Ficou calado por uns 15 minutos. Por fim, sentou-se e olhou para mim.
- O passo seguinte em organizar-se para sonhar é aprender a viajar - disse ele. - Da mesma maneira que aprendeu a olhar para suas mãos, pode obrigar-se a mover-se, a ir aos lugares. Primeiro, tem de estabelecer um lugar aonde queira ir. Escolha um lugar bem seu conhecido... talvez sua escola, ou um parque, ou a casa de um amigo., depois, obrigue-se a ir lá.
"Essa técnica é muito difícil. Precisa desempenhar duas tarefas: tem de obrigar-se a ir ao local determinado; e depois, quando já tiver dominado essa técnica, tem de aprender a controlar o tempo exato de sua viagem."
Viagem a Ixtlan – pág.115
Entenda, sonhar é o “não fazer” dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará “não fazendo”.
Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas “não fazer”. Mas, se lidar com “não fazer” diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
Viagem a Ixtlan – pág.186
- Sonhar é um auxílio prático, imaginado por feiticeiros continuou ele. - Eles não eram tolos; sabiam o que estavam fazendo ao procurarem a utilidade do nagual treinando seu tonal para se afrouxar um instante, por assim dizer, e depois apertar de novo. Essa declaração não lhe faz sentido. Mas é isso que você vem fazendo o tempo todo: treinando-se para se soltar sem perder as estribeiras. Sonhar, naturalmente, é a coroação dos esforços dos feiticeiros, o uso final do nagual.
Viagem a Ixtlan – pág.220
- Como vou equilibrar a minha segunda atenção?
- Você tem de sonhar como nós sonhamos. Sonhar é o único meio de se alcançar a segunda atenção sem prejudicá-la, sem torná-la ameaçadora e temível. A sua segunda atenção está fixa naquele lado terrível do mundo; a nossa está sobre a sua beleza. Você tem de trocar de lado e vir conosco. Foi isso que você escolheu ontem à noite, quando resolveu seguir conosco.
O Segundo Círculo do Poder – pág. 208
A primeira atenção, a atenção que faz o mundo, nunca pode ser completamente dominada; pode apenas ser desligada por um instante e recolocada pela segunda atenção, desde que o corpo tenha armazenado bastante dela. Sonhar é, naturalmente, um modo de armazenar a segunda atenção. Assim sendo, eu diria que a fim de mudar em corpo sonhador enquanto acordado, tem de se praticar a sonho até que ele passe a ser uma coisa simples.
---
Disse a La Gorda que Dom Juan me dera três tarefas para treinar minha segunda atenção. A primeira era encontrar minhas mãos na sonho. Em seguida recomendou que eu escolhesse um local, focalizasse minha atenção nele e então sonhasse de dia e descobrisse se poderia mesmo ir para lá. Sugeriu que eu colocasse alguém conhecido no lugar, de preferência uma mulher, a fim de fazer duas coisas: primeira, verificar mudanças súbitas que indicassem que eu estava lá em sonho; segunda, isolar o detalhe pequeno, que seria precisamente a coisa na qual a minha segunda atenção deveria se fixar.
O problema mais sério do sonhador a esse respeita é a fixação inflexível da segunda atenção no detalhe, que passaria completamente despercebido da atenção da vida diária, criando assim um obstáculo quase intransponível à sua validez. O que se procura no sonho não é aquilo a que se prestaria atenção todo dia.
O Presente da Águia, pág. 116
Dom Juan explicou que os sonhadores precisam atingir um equilíbrio muito sutil, pois os sonhos não podem sofrer interferência, assim como não podem ser comandados pelo esforço consciente do sonhador. Por outro lado, o deslocamento dos pontos de aglutinação deve obedecer ao comando do sonhador - uma contradição que não pode ser racionalizada mas que precisa ser resolvida na prática.
O fogo interior, pág. 167
- Sonhar é o avião a jato do feiticeiro. O nagual Elias era um sonhador assim como meu benfeitor era um espreitador. Era capaz de criar e projetar o que os feiticeiros conhecem como corpo de sonhar, ou "o outro", e estar em dois lugares distantes ao mesmo tempo. Com seu corpo de sonhar, podia ocupar-se de seus negócios como feiticeiro, e com seu eu natural um ser recluso.
---
Antes que eu pudesse responder, recomeçou a falar sobre o nagual Elias. Disse que o nagual Elias tinha uma mente muito inquisidora e tinha muita habilidade com as mãos. Em suas jornadas como sonhador via muitos objetos, os quais copiava em madeira e ferro forjado. Don Juan assegurou-me que alguns desses modelos eram de uma beleza estranha e assustadora
Que tipos de objetos? - perguntei.
Não há um meio de saber. Você deve considerar que, por ser um índio, o nagual Elias entrava em suas jornadas de sonhar da mesma maneira como um animal selvagem ronda em busca de alimento. Um animal nunca aparece num lugar onde haja sinais de atividade. Vem apenas quando não há ninguém por perto. O nagual Elias, como sonhador solitário, visitava, digamos, a lixeira do infinito, quando ninguém estava presente, e copiava tudo o que via, mas nunca sabia para que aquelas coisas eram usadas ou qual a sua fonte.
O Poder do Silêncio, pág. 51
"- Você é um sonhador. Se não tiver cuidado com sua energia sexual, pode muito bem se acostumar à idéia de movimentos erráticos de seu ponto de aglutinação. Há um momento você estava espantado por suas reações. Bem, seu ponto de aglutinação move-se quase erraticamente, porque sua energia sexual não está equilibrada
O Poder do Silêncio, pág. 52
- Então vamos deixar as metáforas de lado - ele admitiu. - Digamos que sonhar é o meio prático dos feiticeiros utilizarem os sonhos comuns.
---
- Sonhar só pode ser experimentado. Sonhar não é apenas ter sonhos; nem devaneios ou desejos ou imaginação. Sonhando podemos perceber outros mundos, que certamente podemos descrever; mas não podemos descrever o que nos faz percebê-los. No entanto podemos sentir de que modo o sonhar abre essas outras regiões. Sonhar parece uma sensação; um processo em nossos corpos, uma percepção em nossas mentes.
No decorrer de seus ensinamentos gerais, Dom Juan me explicou por completo os princípios, os fundamentos e as práticas da arte do sonhar. Sua instrução foi dividida em duas partes. Uma era sobre os procedimentos de sonhar; a outra sobre as explicações puramente abstratas desses procedimentos. Seu método de ensino era uma interação entre estimular minha curiosidade intelectual com relação aos princípios abstratos de sonhar e guiar-me para que eu buscasse um escoadouro em suas práticas.
A Arte do sonhar – pág. 8
"- Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.
Aceite o desafio de intentar - prosseguiu ele. - Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em convencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.”
- Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?
Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.
- Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?
- Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.
Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.
A Arte do sonhar – pág. 40
Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.
- Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?
- A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonhadora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.
Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.
A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de pedir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.
- Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.
- O que são esses batedores?
- Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.
- Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.
- Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente - ou o cérebro - capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.
A Arte do sonhar – pág. 43
- O que, exatamente, é o corpo energético?
- É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.
- Mas o corpo físico não é feito também de energia?
- Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.
- Como o que, por exemplo?
- Como se transportar num instante até os confins do universo. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.
"Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano, é independente. Tem sua própria esfera.”
- O que é essa esfera, Dom Juan?
- Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como percebemos comumente o mundo.
- O que significa perceber a energia enquanto ela flui?
- Significa “ver”. Significa que o corpo energético vê a energia diretamente como uma luz, como uma espécie de corrente vibratória ou como uma perturbação. Ou então sente-a como um tranco ou uma sensação que pode ser até dolorosa.
- E quanto ao outro modo do qual você falou. Dom Juan? O corpo energético usando energia como um combustível de foguete.
- Como a energia é a sua esfera, não há problema para o corpo energético usar correntes de energia que existem no universo para impulsioná-lo. Tudo que precisa é isolar essas correntes, e lá se vai ele.
A Arte do sonhar – pág. 46
- Você vai descobrir sozinho que o verdadeiro objetivo do sonhar é aperfeiçoar o corpo energético. Um corpo energético perfeito - entre outras coisas, claro - tem um controle tão grande sobre a atenção sonhadora a ponto de fazer com que o sonho pare quando for preciso. Essa é a válvula de segurança que os sonhadores têm. Não importa o quanto eles se entreguem num determinado momento, sua atenção sonhadora deve fazer com que possam emergir.
Comecei tudo de novo, em outra busca nos sonhos. Dessa vez o objetivo era mais escorregadio do que da primeira, e a dificuldade era ainda maior. Exatamente como acontecera na primeira tarefa, eu não conseguia ter idéia do que fazer. Sentia a suspeita desencorajante de que toda a prática que eu tivera não me ajudaria dessa vez. Depois de incontáveis fracassos desisti e decidi simplesmente continuar a fixar minha atenção sonhadora em todos os itens dos sonhos. A aceitação dessa incapacidade pareceu me dar um impulso, e tomei-me ainda mais capaz de manter a visão de qualquer item de meus sonhos.
A Arte do sonhar – pág. 58
- Para nós a novidade são os seres inorgânicos. E a novidade para eles é a nossa maneira de cruzar as fronteiras até o seu reino. De agora em diante você deve ter em mente que os seres inorgânicos, com sua consciência soberba, exercem uma tremenda atração sobre os sonhadores e podem facilmente transportá-los para mundos além de qualquer descrição.
"Os feiticeiros da antigüidade usavam-nos, e foram eles que cunharam o nome: aliados. Seus aliados lhes ensinaram a mover o ponto de aglutinação para fora dos limites do ovo, para o universo não-humano. Quando transportam um feiticeiro, eles transportam-no para mundos além do domínio humano.”
Enquanto ouvia fui assolado por estranhos medos e dúvidas, que ele captou de imediato.
- Você é um homem religioso até não poder mais - e riu.
- Bom, está sentindo o bafo do diabo na nuca. Pense nesses termos sobre o sonhar: sonhar é perceber mais do que acreditamos que é possível perceber.
Enquanto estava acordado eu me preocupava com a possibilidade de os seres inorgânicos realmente existirem. Quando sonhava, entretanto, minhas preocupações conscientes não tinham muita importância. Os choques de medo físico prosseguiram, mas vinham sempre seguidos por uma estranha calma; uma calma que assumia o controle sobre mim e deixava que eu procedesse como se não tivesse qualquer medo.
A Arte do sonhar – pág. 65
- Onde ficam esses mundos, Dom Juan? Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação?
- Certo. Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação, mas posicionamentos aos quais os feiticeiros chegam com um movimento do ponto de aglutinação, não com um deslocamento. Entrar nesses mundos é o tipo de sonhar que apenas os feiticeiros de hoje em dia fazem. Os feiticeiros antigos ficaram longe dele, porque é necessário um grande desprendimento e nenhuma auto-importância. Um preço que eles não podiam se dar ao luxo de pagar.
"Para os feiticeiros que o praticam atualmente, o sonhar é a liberdade de perceber mundos além da imaginação.”
A Arte do sonhar – pág. 97
- Quero dizer que não é verdadeiro falar, por exemplo, que o segundo portão é alcançado e atravessado quando um sonhador aprende a acordar em outro sonho, ou quando um sonhador aprende a mudar de sonhos sem acordar no mundo da vida cotidiana.
- Por que não é verdadeiro, Dom Juan?
- Porque o segundo portão do sonhar é alcançado e atravessado somente quando o sonhador aprende a isolar e a seguir os batedores da energia estranha.
- Então por que se dá a idéia de mudar de sonhos?
- Acordar em outro sonho ou mudar de sonho é o exercício imaginado pelos feiticeiros antigos para treinar a capacidade do sonhador isolar e seguir um batedor.
Dom Juan afirmou que a capacidade de seguir um batedor era uma grande realização, e que quando os sonhadores conseguem fazê-lo, o segundo portão é escancarado e o universo que existe por trás dele torna-se acessível. Enfatizou que esse universo está lá todo o tempo, mas que não podemos chegar a ele porque não temos habilidade energética e que, em essência, o segundo portão do sonhar é a porta para o mundo dos seres inorgânicos, e o sonhar é a chave que abre essa porta.
A Arte do sonhar – pág. 125
O terceiro portão do sonhar é alcançado quando você se pega num sonho olhando para outra pessoa adormecida. E descobre que essa pessoa é você mesmo - disse Dom Juan.
Meu nível de energia estava tão alto, na época, que passei a trabalhar imediatamente na terceira tarefa, apesar de ele não me oferecer mais nenhuma informação além do que dissera. A primeira coisa que percebi, no treinamento de sonhar, foi que um jorro de energia imediatamente rearrumou o foco de minha atenção sonhadora. Ela estava direcionada para que eu acordasse num sonho e me visse dormindo; viajar ao mundo dos seres inorgânicos não estava mais em questão.
Logo depois me encontrei num sonho, olhando para mim mesmo adormecido. Imediatamente informei a Dom Juan. O sonho acontecera enquanto eu estava em sua casa.
- Existem duas fases em cada portão do sonhar - disse ele. - A primeira, como você sabe, é chegar ao portão; a segunda é atravessá-lo. Sonhando o que sonhou, que se viu dormindo, você chegou ao terceiro portão. A segunda fase é movimentar-se assim que vir você mesmo dormindo.
"No terceiro portão do sonhar - prosseguiu ele - você começa deliberadamente a fundir sua realidade de sonho com a realidade do mundo cotidiano. Esse é o exercício, e os feiticeiros chamam-no de completar o corpo energético.
A Arte do sonhar – pág. 160
- O que é um mundo real, Dom Juan?
- Um mundo que gera energia; o oposto de um mundo fantasmagórico de projeções, onde nada gera energia; como na maioria de nossos sonhos, onde nada tem efeito energético.
Dom Juan me deu outra definição do sonhar: é um processo através do qual os sonhadores isolam condições de sonho em que podem encontrar elementos geradores de energia. Ele deve ter percebido meu espanto. Riu e deu outra definição ainda mais enrolada: sonhar é o processo através do qual intentamos encontrar posicionamentos adequados do ponto de aglutinação, posicionamentos que permitem que percebamos itens geradores de energia em estados de aparência onírica.
Explicou que o corpo energético também é capaz de perceber energias muito diferentes da energia de nosso mundo. Como no caso dos itens do reino dos seres inorgânicos, que o corpo energético percebe como energia crepitante. Acrescentou que em nosso mundo nada crepita; aqui tudo ondula.
- De agora em diante - falou - a questão em seu sonhar será determinar se os itens nos quais você concentra sua atenção sonhadora são geradores de energia ou meras projeções fantasmagóricas, ou se são geradores de energia alienígena.
A Arte do sonhar – pág. 184
- Estou dizendo isso tudo porque agora você está, pela primeira vez, na posição adequada para entender que o sonhar é uma condição geradora de energia. Pela primeira vez você pode entender que os sonhos comuns são os dispositivos usados para treinar o ponto de aglutinação a alcançar o posicionamento que cria essa condição geradora de energia, que chamamos de o sonhar.
A arte do sonhar – pág. 194
- A primeira parte desta lição do sonhar é que a masculinidade e a feminilidade não são estados definitivos, e sim o resultado de um ato específico de posicionamento do ponto de aglutinação. E esse ato de rearrumar o ponto de aglutinação é, naturalmente, questão de vontade e treinamento. Como era um tema caro aos feiticeiros da antigüidade, apenas eles podem lançar alguma luz sobre isso.
A arte do sonhar – pág. 233
A arte do sonhar é a capacidade de utilizar nossos sonhos comuns e transformá-los numa consciência controlada por uma forma especial de atenção chamada a atenção sonhadora.
A roda do tempo, pág. 196
- Não, não é sonhar - disse ele enfaticamente. - Isto é algo mais direto e mais misterioso. Aliás, tenho uma nova definição de sonhar para você hoje, mais de acordo com seu estado de ser. Sonhar é o ato de mudar o ponto de ligação com o mar escuro da consciência. Se você olhar para isso dessa forma, é um conceito e uma manobra muito simples. Requer tudo de você para percebê-lo, mas não é uma impossibilidade nem algo cercado de nuvens místicas.
"Sonhar é um termo que sempre me incomodou muito, porque enfraquece um ato muito poderoso. Faz com que pareça arbitrário; dá uma sensação de ser uma fantasia, e isso é a única coisa que não é. Tentei mudar o termo eu mesmo, mas ele está muito arraigado. Talvez algum dia você mesmo possa mudá-lo, apesar de que, como em tudo na feitiçaria, temo que quando você realmente puder fazê-lo não se importará mais com isso porque não fará mais nenhuma diferença como chamá-lo."
Dom Juan explicara amplamente, durante todo o tempo que eu o conheci, que sonhar era uma arte, descoberta pelos feiticeiros do México antigo, por meio da qual os sonhos comuns eram transformados em entradas legítimas para outros mundos de percepção. Sustentava, de todas as maneiras que podia, o advento de algo que ele chamava de atenção do sonhar, que era a capacidade de dar um tipo de atenção especial, ou de colocar um tipo especial de consciência nos elementos de um sonho comum.
Seguira meticulosamente todas as suas recomendações e tinha conseguido comandar minha consciência para permanecer fixada nos elementos de um sonho. A idéia que Dom Juan propunha era não começar deliberadamente a ter um sonho desejado, mas de fixar a atenção nos elementos componentes de qualquer sonho que se apresentasse.
O lado Ativo do infinito, pág. 221
Ela confessou que uma consideração séria a respeito dos sonhos de feiticeiros, que surgia de suas próprias falhas, era a dificuldade de incutir nas mulheres a coragem para abrir caminho num novo campo. A maioria das mulheres - e ela afirmou que era dessas - prefere seus grilhões seguros ao pavor de novos.
- Sonhar é só para as mulheres corajosas - murmurou ela, em meu ouvido. Depois deu uma gargalhada e acrescentou: - Ou para as mulheres que não têm outra opção, porque suas circunstâncias são insuportáveis - categoria a que pertence a maioria das mulheres, mesmo sem o saber.
Sonhos Lúcidos, pág. 256
- Como é que partilhamos os nossos sonhos? - tomei a perguntar.
Zuleica parou de se balançar. Sacudiu a cabeça e, depois, levantou os olhos, num sobressalto, como se tivesse acordado de repente.
- É impossível eu explicar isso agora - declarou ela. - Sonhar é incompreensível. A gente tem de alimentar isso e não discuti-lo. Como no mundo cotidiano, antes de explicar e analisar alguma coisa, é preciso experimentá-lo. - Ela falava devagar e com ponderação. Reconheceu que é importante explicar à medida que se avança. - No entanto, por vezes, as explicações são prematuras. Esta é uma dessas ocasiões. Um dia tudo isso fará sentido para você - prometeu Zuleica, vendo a decepção em meu rosto.
Sonhos Lúcidos, pág. 263
- Agora estou sonhando!
Sonhara que as feiticeiras iam ao meu quarto e me exercitavam nos raciocínios dos feiticeiros. Elas me disseram, vezes e mais vezes, que sonhar é a função secundária do útero sendo a primeira a reprodução e o que estiver relacionado com isso. Disseram-me que sonhar é uma função natural nas mulheres, corolário puro da energia. Tendo suficiente energia, o corpo da mulher, por si só, desperta as funções secundárias do útero, e a mulher sonhará sonhos inconcebíveis.
No entanto, essa energia necessária é como o auxilio a um país subdesenvolvido: não chega nunca. Alguma coisa na ordem geral de nossas estruturas sociais impede que essa energia se libere para que as mulheres possam sonhar.
Se essa energia fosse livre, as feiticeiras me disseram, chegaria a derrubar a ordem "civilizada" das coisas. Mas a grande tragédia das mulheres é que a sua consciência social domina completamente a sua consciência individual. As mulheres têm medo de serem diferentes e não querem se afastar demais dos confortos do conhecido.
As pressões sociais impostas a elas, para não se desviarem, são fortes demais e, em vez de mudarem, concordam com o que lhes foi ordenado: as mulheres existem para estar às ordens dos homens. Assim, nunca podem sonhar sonhos de feitiçaria, embora possuam disposição orgânica para tal.
A feminilidade destruiu as oportunidades das mulheres
Sonhos Lúcidos, pág. 263
"O melhor modo de desdobrar nossa percepção é através do ensonhar. Como método, o ensonhar é igualmente simples, mas menos arriscado; é mais inclusivo e, principalmente, muito mais natural.
"O objetivo do aprendiz é tomar as rédeas de seu ponto de aglutinação. Uma vez que consegue deslocá-lo, está obrigado a repetir esses movimentos sem ajuda externa, por meio de disciplina e impecabilidade. Então pode ser dito que o guerreiro encontrou um aliado".
Encontros com o Nagual, pág. 122
"Para romper a armadilha da fixação é válido, em princípio, apelar a qualquer recurso. Na maioria dos casos, só um empurrão proveniente do exterior pode provocar em uma pessoa o movimento do ponto de aglutinação. Quando nós temos muita, mas muita sorte, esse empurrão nos chega pelo golpe de um nagual.
"Uma vez conseguido o deslocamento inicial, o guerreiro dever lutar pelo domínio de sua atenção, e deve fazê-lo por meio do exercício do intento e a prática do ensonho. Ensonhar é a porta de escape para a raça humana e é a única coisa que dá à nossa existência sua dimensão apropriada"
Encontros com o Nagual, pág. 124
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