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domingo, 2 de junho de 2019

Ulysses e o canto das sereias - 2

A lenda de Ulysses e as sereias
Há quase nove anos atrás, em setembro de 2010, publicamos esta postagem abaixo, a primeira do blog. Foi um sucesso! 
Por que? 
Porque ela fala da vida de nós seres humanos.
A partir de sugestões dos leitores percebemos porém que eles não tem tempo, paciência ou disposição para procurar e ler assuntos "antigos" e, dessa forma os novos leitores perdem alguns temas a nosso ver fascinantes, que ficam relegados ao esquecimento.

Para dar um jeito nisso, vamos reeditar algumas dessas postagens, com o mesmo nome inicial, seguidas do algarismo 2 como pode ser visto no título acima.

É só clicar no link abaixo.
Boa leitura!

https://serluminoso.blogspot.com/2010/09/de-herbert-james-drapper-1909-ulisses-e.html

domingo, 20 de julho de 2014

O ciclo de sete anos

Em postagens passadas falamos muito do número 7 e da sua influência no mundo em que vivemos. Mesmo que não tivéssemos falado, qualquer pessoa atenta já teria percebido a sua influência nas vibrações, cores do espectro, notas musicais, medicina oriental, teosofia, alquimia, e por aí afora.
No tempo da nossa existência esses ciclos também existem.

"A vida tem círculos de sete anos, ela se move em círculos de sete anos exatamente como a terra faz uma rotação em seu eixo em vinte e quatro horas. Ninguém sabe porque não são nem vinte e cinco nem vinte e três horas. Não há nenhum jeito de se responder isso. É simplesmente um fato. Assim, não me pergunte porque a vida se move em círculos de sete anos. Eu não sei. O máximo que eu sei é que ela se move em círculos de sete anos. E se você compreender esses círculos de sete anos, você compreenderá uma grande coisa sobre o crescimento humano.
Os primeiros sete anos são os mais importantes porque os alicerces da vida estão sendo assentados. É por isso que todas as religiões estão muito preocupadas em agarrar as crianças o mais rápido possível. Os judeus circuncidam as crianças. Que bobagem! Mas eles estão carimbando a criança como uma judia. Essa é uma maneira primitiva de carimbar. Ainda se faz isso com o gado aqui nas redondezas.  
Aqueles primeiros sete anos são os anos em que você é condicionado, é preenchido com todos os tipos de idéias que irão atormentá-lo ao longo de toda a sua vida, que irão distraí-lo de sua potencialidade, que irão corrompê-lo, que nunca irão lhe permitir ver claramente. Elas sempre virão como nuvens diante de seus olhos e irão fazer com que tudo fique confuso. As coisas são claras, muito claras. A existência é absolutamente clara. Mas os seus olhos têm camadas e mais camadas de poeira. 
E toda essa poeira foi arranjada nos primeiros sete anos de sua vida, quando você era tão inocente, tão confiante, que qualquer coisa que lhe fosse dita você aceitava como sendo verdadeira. E mais tarde, será muito difícil você descobrir tudo aquilo que entrou em seus alicerces. Terá se tornado quase parte de seu sangue, ossos, de sua própria medula. Você perguntará mil outras questões, mas você nunca perguntará a respeito dos alicerces básicos de suas crenças. 
A primeira expressão de amor para com a criança é deixá-la absolutamente inocente em seus primeiros sete anos, sem condicionamento, deixá-la por sete anos completamente selvagem, uma pagã. Ela não deveria ser convertida ao hinduismo, ao islamismo, ao cristianismo. Qualquer um que esteja tentando converter a criança, não tem compaixão, é cruel, está contaminando a própria alma de um viçoso recém-chegado. Antes mesmo que a criança tenha formulado perguntas, ela já terá recebido respostas com filosofias , dogmas e ideologias pré-fabricadas. Essa é uma situação muito estranha. A criança não perguntou a respeito de Deus e você já está lhe ensinando.  Por que tanta impaciência? Espere!
 Se algum dia a criança demonstrar interesse por Deus e começar a perguntar a respeito, então tente dizer a ela não apenas a sua idéia sobre Deus, porque ninguém tem qualquer monopólio. Coloque diante dela todas as idéias de Deus que estiveram presentes em diferentes povos, em épocas diferentes, por religiões, culturas e civilizações diferentes. E lhe diga: 'Você pode escolher dentre essas aquela que mais lhe atrai. Ou você pode inventar a sua própria, se nenhuma estiver adequada. Se todas lhe parecerem defeituosas, e você achar que pode ter uma idéia melhor, então invente a sua própria. Ou se você achar que não há jeito de inventar uma idéia sem falhas, então abandone toda essa história, ela não é necessária. Um homem pode viver sem Deus.' 
Não há qualquer necessidade de que o filho tenha que concordar com o pai. Na verdade parece muito melhor que ele não tenha que concordar. É assim que a evolução acontece. Se toda criança concordar com o pai, então não haverá qualquer evolução, porque o pai terá concordado com seu próprio pai, e todo mundo estará no ponto em que Deus deixou Adão e Eva: nus e expulsos do jardim do Éden. Todo mundo estará lá. O homem tem evoluído porque os filhos têm discordado de seus pais, dos pais de seus pais e de todas as tradições. Toda essa evolução é uma tremenda divergência com o passado. Quanto mais inteligente você for, mais você irá discordar. Mas os pais valorizam as crianças que concordam e condenam as que discordam.
Até os sete anos, se a criança puder ser deixada inocente, não corrompida pelas idéias dos outros, assim tornar-se-á impossível distraí-la de seu crescimento potencial.Os primeiros sete anos da criança são os mais vulneráveis. E elas estão nas mãos dos pais, dos professores, dos padres....
Como defender as crianças dos pais, dos padres e dos professores é uma questão de tamanha proporção que parece quase impossível de se fazer. Não é uma questão de ajudar a criança. A questão é proteger a criança. Se você tiver uma criança, proteja-a de si mesmo. Proteja a criança dos outros que possam influenciá-la, pelo menos até os sete anos, proteja-a. A criança é como uma pequena plantinha, fraca e suave. Um simples vento forte pode destruí-la, qualquer animal pode comê-la. Você põe um fio protetor ao redor dela, mas não a aprisiona, você está simplesmente protegendo-a.Quando a planta estiver maior, o fio será removido.
Proteja a criança de todo tipo de influência de modo que ela possa permanecer ela mesma. E isso é só uma questão de sete anos, porque então o primeiro círculo estará completo. Aos sete anos ele estará bem enraizado, centrado, forte o suficiente. Você não sabe o quanto uma criança de sete anos pode ser forte porque você só tem visto crianças corrompidas. Elas carregam os medos e a covardia de seus pais, mães e familiares. Elas não são elas mesmas.
Se uma criança permanecer sem ser corrompida por sete anos... Você ficará surpreso ao encontrar tal criança. Ela será tão afiada como uma espada. Seus olhos serão claros, seus insights serão claros. E você verá nela uma tremenda força que você não poderá encontrar nem mesmo num adulto de setenta anos.
Se você é um pai (ou mãe), você precisará muito dessa coragem para não interferir. Abra portas para direções desconhecidas de modo que a criança possa explorá-las. Ela não conhece o que ela tem dentro dela, ninguém sabe. Ela terá que tatear no escuro. Não faça com que ela tenha medo do escuro, não faça com que ela tenha medo do fracasso, não faça com que ela tenha medo do desconhecido. Dê a ela suporte. Quando ela estiver indo para uma jornada desconhecida, ofereça a ela todo o seu suporte, com todo o seu amor, com todas as suas bênçãos. 
Não deixe que ela seja afetada pelos seus medos. Você pode ter medos, mas mantenha-os consigo mesmo. Não descarregue esses medos em cima da criança, porque isso será interferência.
Depois dos sete anos, no próximo círculo de sete anos, dos sete aos quatorze, algo novo é acrescentado à vida: os primeiros alvoroços da energia sexual da criança. Mas elas são apenas uma espécie de ensaio.
Ser pai é uma tarefa difícil. Assim, a não ser que você esteja pronto para assumir tal tarefa difícil, não se torne um pai. As pessoas simplesmente seguem se tornando pais e mães sem saber o que estão fazendo. Você está trazendo uma vida à existência e todo o cuidado do mundo será necessário.
Agora, quando a criança começa a brincar com seus ensaios sexuais, é o tempo em que os pais mais interferem, porque foi assim que fizeram com eles. Tudo o que eles sabem é o que foi feito com eles, assim eles seguem fazendo o mesmo com as suas crianças. As sociedades não permitem ensaio sexual, pelo menos não permitiram até o século XX, exceto nas duas e três últimas décadas em alguns países muito avançados. Agora já existem escolas mistas para as crianças, mas em um país como a Índia, mesmo agora, a educação mista começa a surgir apenas no nível universitário.
O menino de sete anos e a menina de sete anos não podem estar no mesmo internato. E este é o momento para eles, sem qualquer risco, sem perigo de gravidez, sem que quaisquer problemas surjam para suas famílias; este é o momento em que lhes deveriam ser permitidas todas as brincadeiras. 
Sim, isso terá uma conotação sexual, mas será só um ensaio, não se trata de um drama teatral verdadeiro. E se você não permitir a eles nem mesmo esse ensaio, de repente então, um dia a cortina se abrirá e o verdadeiro drama começará... E eles não saberão o que está acontecendo e não haverá nem mesmo aquela pessoa escondida no palco para lhes soprar o que devem fazer. Você terá bagunçado a vida deles completamente.
Esses sete anos, o segundo círculo da vida, são significantes como um ensaio. Eles se encontrarão, se misturarão, brincarão e se conhecerão. E isso ajudará à humanidade a se livrar de quase noventa por cento das perversões. Se às crianças dos sete aos quatorze for permitido estarem juntas, nadarem juntas, estarem nuas juntas, noventa por cento das perversões e noventa por cento das pornografias irão simplesmente desaparecer. Quem irá dar atenção a essas coisas?
Quando um garoto conheceu tantas garotas nuas, que interesse uma revista tipo Playboy poderá ter para ele? Quando uma garota tiver visto tantos garotos nus, eu não vejo qualquer possibilidade de existir curiosidade a respeito do outro. Isso simplesmente desaparecerá. Eles irão crescer juntos naturalmente, não como duas espécies diferentes de animais. É assim que eles crescem agora, como duas espécies diferentes de animais. Eles não pertencem à mesma espécie humana, eles são mantidos separados. Mil e uma barreiras são criadas entre eles, e não lhes permitem qualquer ensaio de sua vida sexual que está chegando...
Se você tiver feito o dever de casa direitinho, se você tiver brincado com sua energia sexual exatamente com o espírito de um desportista (e naquela idade este é o único espírito que você poderia ter), você não se tornará um pervertido, um homossexual.  Todo tipo de coisas estranhas não virão à sua cabeça, porque você está se movendo naturalmente com o outro sexo e o outro sexo está se movendo com você. Não haverá qualquer bloqueio e você não estará fazendo nada errado com quem quer que seja. Sua consciência estará clara porque ninguém pôs nela idéias do que é certo e do que é errado. Você simplesmente está sendo o que você é. 

Dos quatorze aos vinte e um o seu sexo amadurece. E isso é significante para se entender: se o ensaio tiver sido bom no período dos sete aos quatorze quando o sexo amadurece, acontece uma coisa muito estranha que você nem mesmo deve ter pensado a respeito, porque não lhe foi dada a oportunidade. Eu disse a você que o segundo círculo de sete anos, dos sete aos quatorze, deu a você um vislumbre de antes da peça teatral. O terceiro círculo de sete anos da a você um vislumbre do que vem depois.Você está ainda com garotas ou garotos, mas agora uma nova fase começa em seu ser: você começa a se apaixonar.
Não é ainda um interesse biológico. Você não está interessado em procriar, você não está interessado em se tornar marido ou esposa. Esses são os anos dos jogos românticos. Você está mais interessado na beleza, no amor, na poesia, na escultura, que são fases diferentes de romantismo. 

Dos vinte e um aos vinte e oito é um tempo em que eles podem se acertar. Eles podem escolher um companheiro. E eles são capazes de escolher agora, através de toda a experiência dos dois círculos passados eles podem escolher o companheiro certo. Não há mais ninguém que possa fazer isso por você. Isso é algo como um pressentimento.  Nenhuma aritmética, nenhuma astrologia, nenhuma quiromancia, nenhum I-Ching poderão fazer isso. 
Isso é um pressentimento: entrando em contato com muitas, muitas pessoas, de repente alguma coisa dá um clique que nunca deu com qualquer outra pessoa. E isso clica com tanta certeza e tão absolutamente, que você não pode nem mesmo duvidar. Mesmo se você tentar duvidar, você não conseguirá. A certeza é tão tremenda. Com esse clique vocês se acertam. 
Entre os vinte e um e os vinte e oito, em algum lugar, se tudo correr bem do jeito que eu estou dizendo, sem interferência de outros, então vocês se acertam. E o período mais agradável da vida vem dos vinte e oito aos trinta e cinco: o mais alegre, o mais pacífico e harmonioso, porque duas pessoas começam a se derreter e a se fundir uma com a outra. 

Dos trinta e cinco aos quarenta e dois, um novo passo, uma nova porta se abre. Se até os trinta e cinco você sentiu profunda harmonia, uma sensação orgástica e tiver descoberto a meditação através disso, então, dos trinta e cinco aos quarenta e dois vocês ajudarão um ao outro a ir mais e mais fundo na meditação sem sexo, porque o sexo neste ponto começa a parecer infantil, juvenil. Quarenta e dois anos é o tempo certo quando a pessoa deveria ser capaz de saber exatamente quem ela é.

Dos quarenta e dois aos quarenta e nove ela vai mais fundo e mais fundo na meditação, mais e mais para dentro de si mesmo, e ajuda o companheiro no mesmo caminho. Eles se tornam amigos. Não mais existe marido e não mais existe esposa. Esse tempo já passou. Isso já deu a sua riqueza para a sua vida. Agora existe alguma coisa mais alta, mais alta que o amor. Isso é amizade, um relacionamento de compaixão para ajudar o outro a ir mais fundo dentro de si mesmo, a se tornar mais independente, a se tornar mais só, como duas árvores altas, separadas mas ainda próximas uma da outra, ou dois pilares num templo suportando o mesmo teto, estando tão próximos e tão separados, tão independentes e tão sós. 

Dos quarenta e nove aos cinqüenta e seis essa solitude se torna o foco de seu ser. Tudo no mundo perde o significado. A única coisa significante que permanece é essa solitude.
Dos cinqüenta e seis aos sessenta e três você se torna totalmente o que você está para ser: o florescimento potencial. 
Dos sessenta e três aos setenta você começa a ficar pronto para deixar o corpo. Agora você sabe que não é o corpo, você sabe que também não é a mente. O corpo era conhecido como separado de você em algum lugar quando você tinha trinta e cinco anos. Que a mente está separada de você foi conhecido em algum lugar quando você tinha quarenta e nove anos. Agora, tudo mais foi deixado de lado exceto a auto observação. Só a pura consciência, a chama da consciência permanece com você, e isso é a preparação para a morte.
Setenta é a duração de vida natural para o homem. E se as coisas se moverem em seu curso natural, então ele morre com tremenda alegria, em grande êxtase, sentindo-se imensamente abençoado porque a sua vida não foi sem significado e que, pelo menos, ele encontrou o seu lar. E por causa dessa riqueza, dessa realização, ele é capaz de abençoar toda a existência. 
 Só por estar perto de tal pessoa, quando ela está morrendo, é uma grande oportunidade. Você sentirá, na medida em que ele deixa o corpo, algumas flores invisíveis caindo sobre você. Embora você não possa vê-las, você poderá senti-las."
Após os 70 anos, deve começar tudo de novo...

Osho - From Darkness to Light - tradução: Sw.Bodhi Champak

domingo, 29 de junho de 2014

O Eneagrama

Conforme prometemos há tempos, vamos falar do Eneagrama. Ele é um mistério onde a Matemática se encontra com o Desconhecido (aliás aqui entre nós, a Matemática já é o Desconhecido): 
trata-se de uma figura de 9 pontos composta de dois circuitos sobrepostos: um com 3 pontos formando um triângulo e outro com 6 pontos formando uma figura como um circuito aparentemente irregular.
Ele parece ter sido apresentado no Ocidente, em sua forma atual, por Gurdjieff. O conhecimento do funcionamento do eneagrama era um dos mais importantes e era constantemente citado no sistema gurdjeffiano. Parece porém haver evidências de que tal símbolo já fazia parte do conjunto de conhecimentos que antigas ordens sufis utilizavam, ordens estas com as quais Gurdjieff entrou em contato durante seu aprendizado .
Gurdjieff dizia que o ensinamento que jaz sob o eneagrama é “completamente autônomo, independente de outros caminhos”, dando a impressão de permear a humanidade em vários lugares e épocas.
O eneagrama é um símbolo cuja representação gráfica é de um círculo dividido em nove partes. Essa figura encerra relações matemáticas simples e surpreendentes. Quando dividimos a unidade por 3, obtemos a sucessão infinita de 3, em uma dízima periódica, assim:
1/3 = 0.3333…
Se a isso somarmos mais uma terça parte obteremos:
1/3 + 1/3 = 0.6666…
Se repetirmos:
1/3 + 1/3 + 1/3 = 1
que também poderia ser expresso por 0.9999…
Esses 3 números – 3, 6 e 9 – dão origem ao triângulo do eneagrama que representaria a “Lei de Três”, uma das Leis básicas que fazem partem do sistema de Gurdjieff.
A Lei de Três relaciona-se diretamente com o fenômeno da Criação, com o Divino, com Deus, ou que nome tenha. Determina que todos os fenômenos podem ser compreendidos em termos de tríades geradoras que se expressaram em muitas tradições como o Pai-Filho-Espírito Santo, Brama-Shiva- Vishnu na Índia, Keter-Chokma-Binah na Cabala, Isis-Osiris-Horus no Egito, etc..
Essa Lei diz que a geração de todos os fenômenos pode ser explicada pela interação de 3 forças: uma de maior intensidade chamada de ativa que atua sobre a força de menor intensidade do conjunto que recebe o nome de passiva através da modulação e controle de uma força neutralizadora. A força passiva não é estática, ao contrário ela é atuante, mas possui uma intensidade menor que as outras duas. Gurdjieff refere-se à essas três forças usando os nomes de Santa Afirmação, Santa Negação e Santa Conciliação. Citando sua própria definição: “Todo novo surgimento provém de surgimentos anteriores através do ‘jarnel-miatznel’, quer dizer, através de uma fusão, cujo processo se realiza assim: o que está acima se une com o que está abaixo, com a finalidade de realizar por esta união, o que é mediano, o qual se converte, por sua vez em superior para o inferior seguinte, e no inferior para o superior precedente”.
Nada pode acontecer a não ser que essas três forças estejam presentes. Sem a neutralizadora, a ativa e a passiva ficam em inútil oposição e nada de novo pode surgir.
Em nosso estado atual de consciência somos praticamente cegos à força neutralizadora, pois estamos sempre presos a dualidades. Para que sejamos capazes de perceber mais do que essa dualidade é necessário um nível de percepção diferente da realidade (Técnicas do Quarto Caminho).
Costuma-se afirmar que as forças representadas pelos pontos 3, 6 e 9 são derivadas diretamente do Mundo de Uma Lei, ou seja, a própria emanação do Criador (o Raio de Criação). Elas contêm a mesma substância que dará origem ao Mundo de Três Leis. Assim, podemos afirmar que o triângulo dentro do eneagrama simboliza a ação do próprio Absoluto na realidade. O ponto 9 conteria a Força Ativa e representaria a ordem “Seja!”, a ordem primeira que dá origem aos seres; o ponto 3 representaria a harmonização do novo padrão estabelecido e atuaria como a Força Neutralizadora, enquanto que o ponto 6 (Força Passiva) “abriria um espaço” na realidade para que o novo evento pudesse vir à existência. Por isso, se diz que a Lei de Três está diretamente relacionada com a criação e é parte da natureza intrínseca do Raio de Criação em si.
Continuando, se agora dividirmos a unidade por 7 e somarmos outros sétimos sucessivamente, obteremos:
1/7 = 142857142857…
2/7 = 285714285714…
3/7 = 428571428571…
4/7 = 571428571428…
5/7 = 714285714285…
6/7 = 857142857142…
Os números 3, 6 e 9 não aparecem nessas dízimas, e a seqüência dos números sempre é a mesma: 142857. Essa seqüência dá origem a figura que acompanha o triângulo e representa a “Lei das Oitavas”.
Poderemos nos perguntar porque usar o número sete? Ao que parece, este número estaria associado à própria capacidade cerebral de discriminar e classificar os fenômenos, mas como já dissemos neste blog nas postagens a Lei de Três e A Lei de Sete, o 7 está ligado às leis da Manifestação que rege todos os fenômenos criados, da mesma forma que o  3 está ligado à Criação . Vemos a escala de sete notas musicais, as sete cores do arco-íris, os sete dias da semana, etc.. enfim, tudo o que está ligado á evolução dos fenômenos depois de criados.
É interessante observar na figura do Eneagrama que os dois circuitos do 3 e do 7 não se sobrepõem em nenhum ponto, e que os números que pertencem ao circuito da Criação (3, 6 e 9) não aparecem no da Manifestação (142857) e vice-versa. Por que?
Porque após criada, a criatura sai do ventre da Lei de 3, cai no mundo da Lei de 7, da Manifestação, regido pelo 7, ou Lei das Oitavas, e está por conta do acaso, da mecanicidade. Esse deve ser o significado da passagem do Gênesis e de todas as outras tradições "e no sétimo dia descansou", ou seja, O Criador deixou  de atuar diretamente após o sétimo dia em que ficou criando e deixou A Manifestação seguir o seu curso de evolução regido pela Lei do 7. 
A Lei das Oitavas mostra que todo o fenômeno evolui ao longo do tempo numa série de passos seqüenciais e que isso determina uma hierarquização. Essa seqüência no entanto, não é uniforme; existem períodos de aceleração e desaceleração, ou ainda, a energia que impulsiona o surgimento do fenômeno torna-se alternadamente mais forte e mais fraca.
Existe portanto, pontos cruciais nessa seqüência onde energias adicionais devem ser colocadas para que não ocorram desvios que podem acarretar a não concretização do fenômeno. A esses pontos dá-se o nome de “choques”. Quando uma energia adicional não é colocada no ponto de choque (choque adicional) ocorre um desvio na evolução do fenômeno que o distancia da sua concretização.
As Leis que determinam a seqüência dos eventos que compõem um fenômeno qualquer, já eram conhecidas em civilizações antigas e parece ter sido a origem da escala de sete tons da música. Logo, a lei das oitavas pode ser expressa como se segue:

Os choques correspondem aos semitons que representam o momento, no desenrolar do fenômeno, em que uma energia externa deve ser colocada. Se o primeiro choque for dado, a oitava se desenvolve naturalmente sem desvios até o Si. Nesse momento um novo impulso deve ser colocado para que a oitava alcance o próximo Dó. Gurdjieff dizia que qualquer evento dentro da Lei das Oitavas, vai evoluir, desde que a energia para os choques seja introduzida, de Dó para Ré, de Ré para Mi, para Fá, Sol, Lá, Si, Dó, sendo que este último Dó, por sua vez tem as mesmas características do Dó inicial, só que ele vai estar situado em uma dimensão energética ou numa qualidade acima.
A seqüência de dó a dó é chamada de “oitava humana” ou “oitava evolutiva” porque a  partir de um nível de energia inicial, o processo segue através de um conjunto de passos, até atingir um resultado que reflete o ato inicial num outro nível ou qualidade ou energia. Os momentos de choque receberam a energia necessária de tal forma que o processo chega ao Si final. Esse processo ocorre quando temos uma intenção inicial e chegamos ao final obtendo aquilo que havíamos proposto a nós mesmos no início.
Nesse caso, a qualidade do produto final costuma ser apenas suficiente para os padrões cotidianos e encontra-se dentro dos valores normais em termos de eficiência, bom gosto, criatividade, produtividade, etc. dependendo do evento que analisarmos.
Mas, devemos notar que a Lei das Oitavas afirma que o nível de energia que ocorre em um patamar é suficiente para que o Dó evolua para Ré, e para que o Ré evolua para Mi, mas a partir desse ponto, não existe mais energia suficiente intrínseca para que o processo siga em frente na sua exata dimensão. Se a energia adicional não for colocada, o processo tende a parar, o que é muito comum. Se for colocada energia mas esta for insuficiente, o processo pode seguir em frente mas em um nível mais baixo: de Fá passa para Sol, Sol para Lá, Lá para Si e aqui novamente temos uma outra parada. A partir desse ponto o processo decai de novo caso, seja colocada uma energia baixa, e chega a um outro patamar. Esse tipo de evolução de processos costuma ser chamado de “oitava natural”, pois acontece naturalmente onde existe pouca energia para manter o processo. É também chamada de “oitava do homem adormecido”. Aqui o produto será sempre degenerado ou inferior em relação à idéia inicial.
O esquema seria assim:

No entanto, ainda existe uma terceira possibilidade, onde no choque entre Mi e Fá existe um suprimento de energia extra, que é capaz de elevar a oitava para um nível acima em termos de qualidade. Nesse caso, damos o nome à essa oitava de “oitava do Trabalho” ou do “homem consciente”. A qualidade final do processo é notável e situa-se bastante acima do padrão comum. O esquema seria este:

Através dos diagramas fica claro que existem várias possibilidades, onde, por exemplo, o choque entre Mi e Fá pode acontecer e o choque entre Si e Dó não, o que acarreta uma gama muita grande de variações. No entanto, o elemento básico e mais importante que atua como energia nos momentos de choque é a atenção. Muitas vezes será a qualidade da atenção que definirá os processos. É necessário estar atento à evolução do processo e principalmente, estar atento nos momentos chaves, onde o choque se faz presente. E além disso, é necessário ter atenção suficiente para perceber qual a qualidade do choque. Muitas vezes a energia necessária está no próprio ambiente à nossa volta e para percebe-la é necessário desenvolver uma certa sensibilidade à realidade, tentando perceber as nuances e sutilezas. Às vezes é necessário uma energia de ordem física, às vezes, emocional ou intelectual. É necessário treinar essa capacidade de discriminação sutil para que a energia produzida no momento seja realmente útil.
Subir na oitava em ambos os choques não é muito comum. Esse aumento de qualidade e a geração de um produto especial, só é possível para as pessoas muito bem treinadas. É muito raro mas é possível. Todas essas alternativas existem. E isso pode ser aplicado para qualquer evento. Podemos analisar a negociação de um contrato usando esse modelo; estabelecer a planta de um escritório ou de um prédio. Podemos definir com antecipação se queremos um resultado aceitável, razoável ou se queremos um resultado excepcional. E então, devemos definir precisamente quais são os pontos em que deveremos colocar energia para atingir as metas que desejamos. Não adianta colocar energia antes ou depois do momento preciso porque isso não modificará substancialmente o resultado.
Sabemos que a energia necessária entre os pontos Mi e Fá é a metade da necessária entre os pontos Si e Dó. Gurdjieff, em seu livro ‘Relatos de Belzebu a seu neto’, chama ao primeiro choque de “mdnel-inn-mecânico-coincidente” e ao segundo de “mdnel-inn-voluntariamente-realizado”. A diferença entre eles parece residir no fato de que a energia para que o primeiro choque aconteça, tem uma maior chance de ser provida pelo próprio ambiente, mas a energia para o segundo choque deve necessariamente vir da pessoa envolvida com o processo.
“A estrutura do Universo é tal que nenhum processo, causal ou intencional, poderá chegar ao seu termo exceto em condições ambientais planejadas”, afirmava Gurdjieff.
Essa proposição pode ser observada em todos os eventos. Isso acontece porque na vida cotidiana as coisas sempre acontecem por si mesmas e carregam os indivíduos na direção que o acaso determina. “Condições ambientais planejadas” significam ou implicam em atenção para com os atos e suas consequências e para com os sinais que a realidade constantemente nos dá, para que sejamos capazes de escapar da lei do acidente.
Por isso, o estudo da Lei das Oitavas e do eneagrama deve ser sempre experiencial.
Implica em uma atitude de maior responsabilidade frente aos eventos que desencadeamos. Esse estudo nos conduz a perceber os momentos em que devemos estar mais atentos para desencadearmos os choques corretamente, de forma a garantir que o desenrolar do fenômeno aconteça a contento. E ainda, ajuda-nos a cumprir os objetivos que muitas vezes iniciam-se com um forte impulso, mas que aos poucos esmorecem, ou se desviam. Por exemplo, começamos empolgados com a idéia de trabalharmos sobre nós mesmos e terminamos perdidos em ilusões intelectuais, arrogância, etc.. Muito pouco acaba por sobrar do objetivo inicial até que, em momentos determinados, percebemos o quanto nos afastamos dele e tentamos começar tudo de novo.
A necessidade pelo estudo destas Leis era sempre bastante enfatizado na Escola Gurdjieffiana. A compreensão e a utilização consciente de suas premissas eram, em si mesmas, princípios que poderiam libertar o ser dos processos mecânicos da máquina.
Segundo Gurdjieff (1991) o estudo das Leis Cósmicas terminaria por gerar em nós a “propriedade divina” da “imparcialidade”. Para compreender melhor esse termo, sugerimos a leitura do tópico “Técnicas do Quarto Caminho: a Auto-observação”.
Se observarmos o desenho do eneagrama com atenção perceberemos que o segundo choque está, aparentemente no local errado, pois ele deveria estar entre Si e Dó e no entanto, ele aparece entre Sol e Lá.
Na verdade, depois que uma oitava se iniciou, se o primeiro choque for corretamente dado, nesse ponto (número 3) começará o desenvolvimento de uma segunda oitava paralela à primeira, onde o ponto 6 da primeira oitava (choque) corresponderia ao ponto 3 da segunda oitava, o ponto de choque (Ouspensky 1993) – veja figura abaixo. Sempre que iniciamos um evento muitas outras oitavas paralelas se desenvolvem, levando-nos, se tudo der certo, a uma espiral em direção a objetivos cada vez mais amplos. Por exemplo, o estudo de um livro muito difícil mas muito importante, pode gerar uma segunda oitava paralela, por exemplo, da formação de um grupo que se dispõe a estudálo.
Desse estudo outras oitavas podem se desenvolver com as propostas de trabalhos práticos que o grupo pode executar com a finalidade de experienciar as idéias do livro.
Uma outra oitava pode surgir se o grupo decidir fazer um trabalho que leve as idéias do livro para fora do contexto do grupo, por exemplo, através de uma peça teatral. Uma outra oitava surgiria então envolvendo as pessoas que entrariam em contato com essa peça, culminando em outra oitava da formação de um novo grupo de estudos, por exemplo, e assim por diante.

Até agora falamos apenas do percurso “externo” do eneagrama que vai do ponto 1 seqüencialmente até o ponto 9 (ou de Dó a Dó). Existe porém um segundo caminho que é o caminho “interno” cuja seqüência é a interna, ou seja a dos números que formam a dízima periódica 142857. Esse caminho indica a direção e o fluxo de influências dentro da própria estrutura.
O caminho externo, portanto, é fundamentado pela Lei das Oitavas, enquanto que o interno o é, pela Lei de Três. Analisando cada ponto em separado, pelo caminho interno, notamos que ele se liga à outros 2 pontos. Cada um desses pontos irá interagir com o ponto de análise, de forma a complementar o evento, seja mandando ou recebendo energia. O ponto central é o local onde as informações são recebidas, elaboradas e enviadas para o próximo ponto, gerando uma energia adicional que dará condições para a continuação do processo.
Podemos tentar entender isso usando o eneagrama dos dias da semana. Cada dia liga-se, pelo caminho interno, à outros 2 pontos. Assim, na segunda feira eu recebo as influências dos acontecimentos da sexta feira da semana passada e que repercutirão na próxima quarta feira. Portanto, o ponto central é o Neutralizador do processo, uma vez que é aí que se pode interferir e causar modificações, colocando ou retirando energia para que a oitava (caminho externo) se feche.
Se o ponto central é o ponto onde devemos interferir, isso significa que ele representa o momento presente. E neste instante, temos a possibilidade de estarmos interligados com o passado e o futuro ao mesmo tempo. Assim, dizemos que cada evento ocorre simultaneamente no passado-presente-futuro. Devemos compreender que o passado já se foi e que o futuro ainda não existe. Assim sendo, o único momento que realmente conta é o momento presente; ele existe como uma continuação do passado e poderá evidentemente, determinar os acontecimentos futuros. Com a ajuda do eneagrama podemos localizar que lugar do passado e do futuro devemos analisar, interferir ou não, para realizar algo desejado, com eficiência e com o menor dispêndio de energia possível. A energia que sobra, poderá então ser utilizada para os pontos de choque das oitavas paralelas.
O eneagrama também é usado associado à técnica dos “Movimentos” (ver Técnicas do Quarto Caminho). Gurdjieff enfatizava muito essa técnica onde os Movimentos eram feitos em grupo e seguiam o caminho interno, externo ou ambos, dependendo do Movimento. Um exemplo disso é o Eneagrama das Emoções onde a cada ponto se associa um postura física com a geração de uma emoção, sendo que nos pontos de choque as emoções associadas são caracterizadas por uma “estranheza” em termos das emoções do Centro Motor. Geralmente são emoções não-polares e possibilitam a oportunidade do indivíduo desenvolver novas “atitudes emocionais” frente a si mesmo e à realidade. Além da seqüência externa das emoções temos também uma interna, onde observamos como cada emoção influencia e é influenciada pela emoção seguinte.
Além disso, o eneagrama também está associado a cerimônia de “Giros Dervixes” em algumas Ordens Sufis, onde 9 dervixes se situam nos 9 pontos do eneagrama. Os praticantes desse tipo de ritual buscam compreender o eneagrama através da “dança consciente”, pois é durante a prática que surgem a eles os insights básicos que revelam os segredos desse símbolo.
Inicialmente, o eneagrama parece ter sido usado apenas em situações de aprendizado, seja pelos indivíduos envolvidos, por grupos ou para analisar a própria estrutura da Escola ou ensinamento. Atualmente, com a crescente divulgação dos trabalhos de Gurdjieff e de seus discípulos, o eneagrama passou a ser aplicado em outras áreas tais como, a psicologia, com a teoria dos “tipos psicológicos” (com Oscar Ichazo, Claudio Naranjo) ou em atividades empresariais. Porém ele pode ser aplicado em todos os fenômenos observados pois segue leis que permeiam a vida como um todo, apesar de isso ser apenas um subproduto. O principal é o conhecimento de Si Mesmo.
Vários autores se dedicaram intensamente ao estudo desse símbolo e suas aplicações práticas, como por exemplo I.B. Popoff (1978) e J.G.Benett (1983).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Kymatica

Kymatica, cujo significado pode ser "frequência de vibrações", é um documentário independente de Ben Stewart, que fez também “Esoteric Agenda” e “UnGrip”. É um questionamento profundo da situação e consciência do ser humano nos dias que correm.  Tem algo indisciplinado e ao mesmo tempo sério nesse documentário, como um mosaico da situação do homem, da criação, do conhecimento, das lendas, evolução, consciência, como se tudo o que existe fosse uma coisa só, um ser inteligente...bem no conceito do Somos Todos Um.
Recusando-se ao lugar-comum comportado do tipo “começo-meio-fim”, ele vai jogando as imagens e informações multifacetadas de uma forma surrealista, como a música Águas de Março do Tom Jobim, obrigando a gente a participar de uma forma interativa para obter a formação do nexo das impressões recebidas. Belezura. Um outro jeito de ver o mundo.
Apesar de às vezes parecer aparentemente duro, não culpa ninguém pelas nossas desgraças a não ser nós mesmos. "Não há ninguém lá fora de cada um de nós, nenhuma mão controlando nada", nenhuma elite a não ser nós mesmos criando na mente e no mundo toda essa coisa injusta e confusa, como um holograma que ganha vida e se auto-realiza. Nós é que causamos esses solavancos, e por uma boa razão: estamos evoluindo e portanto enfrentando os nossos demônios. É uma visão interessante. Tomara que o nosso filme, o da humanidade, acabe com um final feliz.
Há algumas pérolas:

  • “Pare de culpar a tudo e a todos. Pare de temer a tirania global e desastres naturais e preste atenção. O mundo está lhe dizendo algo, está lhe dizendo exatamente o que está errado e como corrigir isso.”
  • “A evolução humana, a evolução da Terra e a evolução da consciência, são uma coisa só”
  • “A espécie humana é uma espécie que não parece se adequar tão bem quanto às outras“
  • “O que se passa fora é o reflexo do que somos interiormente. “Preferimos um milhão de 11 de Setembro a um momento de percepção verdadeira do nosso auto-ódio“

Há passagens que lembram o que Alex Collier ouviu e reproduziu de alguns seres a respeito dos humanos, sobre o fato de a espécie humana não merecer ser ajudada “porque não respeita os seus semelhantes, nem o meio ambiente e nem a si mesma. É perigosa. E cheira mal (sic).
Outras passagens lembram semelhanças conceituais com o conceito da Hipótese Gaia de James Lovelock, que afirma que “a terra é um ser consciente de inteligência infinitamente superior ao humano”. O motivo porque isso parece difícil de entender (que o universo é um único organismo vivo e consciente, completamente ciente de si) é o nosso conhecimento tipicamente limitado pela nossa linguagem flexiva, que funciona no modo "sujeito-verbo-complemento", e não como a linguagem oriental que funciona com ideogramas. A diferença brutal é a mesma entre uma frase e um holograma ou uma imagem fractal. Esses 2 últimos são partes, que tem o todo dentro de si. Não são unidades estanques e portanto egoistas.
Outras passagens ainda nos remetem às  visões e afirmações duras e iradas de Terence McKenna,  ou outras do filme Zeitgeist  de Peter Joseph.
Vamos lá:







domingo, 17 de novembro de 2013

O Legado de Von Daniken

Em 68 eu era um buscador ávido das coisas do Universo sem perceber que o que fazia era na realidade a busca de si  mesmo por alguma razão disfarçada. Tinha uma certa noção de que o que nos ensinavam como ciência era um conjunto de informações montadas por pessoas com uma visão comportada, míope e preconceituosa que por hábito as impedia de ver o mundo de uma maneira mais questionadora, nova e progressista.
Foi quando tomei contato com Eram Os Deuses Astronautas? (Chariots of Gods), o primeiro livro de Erich von Daniken, um suiço intelectualmente irrequieto, com tempo, disposição e dinheiro para atuar no que acreditava, e fora do padrão dos escritores e pesquisadores da época. Um inovador incansável que via tudo a partir dos olhos do novo. Tomou os velhos conhecimentos arqueológicos, bíblicos e tradicionais e começou a fazer perguntas.  Acusado de fazer afirmações sem embasamento, na verdade o que fazia era uma série de perguntas incômodas. Foi um sucesso de leitura mas despertou críticas ferozes da mídia e do stablishment científico e intelectual da época que de uma forma classista o considerou, como sempre faz aos não iniciados, um intruso e sem "formação científica". Nada de novo. Já fizeram isso inclusive com grandes cientistas como Einstein, Tesla, Darwin, Newton e outros. 
Ele muito honestamente inclusive aceitou que por vezes movido pelo entusiasmo, passou por cima de procedimentos e cuidados científicos nas suas afirmações, coisa rara entre os cientistas.
Hoje é conhecido, respeitado e cultuado por milhões de leitores num claro indício de que estão percebendo as falsas teorias e afirmações da chamada ciência, como dissemos em Ciência, Preconceito e Lobby,  e refazendo a sua forma de entender o mundo.
O vídeo abaixo mostra o seu legado inovador e corajoso: Vale curtir:




domingo, 9 de junho de 2013

A Explicação Tolteca de "como vemos o mundo"

Como dissemos em "O Mar Escuro da Consciência...", o jornal The New York Times em 2001 afirmou: "Somos incrivelmente afortunados em ter os livros de Carlos Castaneda. Tomados em conjunto, formam uma obra que está entre o melhor que a ciência da antropologia já produziu". Compartilhamos dessa visão. A obra está entre as melhores coisas produzidas no século passado na humanidade.
Por isso decidimos apresentar os seis pontos básicos explicativos nos quais se assenta a visão tolteca de "como o ser humano vê a realidade do mundo através dos sentidos". Na obra essa visão é chamada de "As 6 proposições explicativas" e foi anexada num apêndice no final do livro O Presente da Águia em português e talvez na edição espanhola. Não existe na edição em inglês, não sabemos porque.
Esse texto de hoje é longo, denso, e deveria ser lido com intervalos para digerir o que se leu. Quem já leu a obra ou pelo menos as 5 ou 6 postagens sobre Castaneda neste blog terá mais facilidade para compreender, principalmente a postagem O Mundo Mágico Tolteca de Dom Juan e Castaneda, onde alguns conceitos do universo tolteca estão explicados, como o Intento, O Mar Escuro da Consciência, os comandos da Águia, ponto de aglutinação, o desnate, círculos de poder, etc. Quem quiser acessar essas postagens no blog, clique a palavra Castaneda em "Pesquise neste blog", á esquerda, na página inicial.
Infelizmente as traduções brasileiras traíram os leitores dos livros, fato este reconhecido por uma das tradutoras, mas nós re-traduzimos os termos neste texto, seguindo os conceitos toltecas
Vamos lá:

As 6 proposições explicativas

"Apesar das assombrosas manobras que Dom Juan fez com a minha consciência, durante anos eu persistia com teimosia em tentar avaliar o que ele fazia racionalmente. Embora tenha escrito longamente sobre essas manipulações, escrevi sempre de um ponto de vista experimental, e, sobretudo, de um ângulo estritamente racional. Imerso como estava na minha própria racionalidade, eu era incapaz de reconhecer as metas do seu ensinamento. Para poder entender a extensão destes objetivos com certo grau de precisão, foi necessário que eu “perdesse minha forma humana” e “chegasse à totalidade de mim mesmo”.
Os ensinamentos de Dom Juan tinham como objetivo me guiar no segundo estágio do desenvolvimento do guerreiro: a compreensão e total aceitação de que há outro tipo de conscientização dentro de nós. Este estágio era dividido em duas categorias. A primeira e mais abrangente, para a qual pediu a ajuda de Dom Genaro, era a que lidava com duas atividades. Consistia em mostrar-me certos processos, ações e métodos organizados para exercitar minha conscientização. A segunda preocupava-se com a apresentação de seis proposições explicativas.
Em vista da dificuldade que tive em deixar minha racionalidade aceitar o que me estava sendo ensinado, Dom Juan apresentou essas proposições explicativas em termos do meu preparo escolástico.
A primeira coisa que fez como introdução, foi criar uma divisão em mim por meio de um soco preciso aplicado na minha omoplata direita, soco esse que me fez entrar num estado invulgar de conscientização - estado que eu era incapaz de me lembrar quando voltava ao normal.
Até aquele ponto minha conscientização tinha um inegável senso de continuidade, que eu acreditava ser o resultado da minha experiência de vida. Eu achava que era um todo e que podia ser responsável por tudo o que tinha feito. Sobretudo, estava convencido de que o centro daquela conscientização encontrava-se na minha cabeça. Contudo, Dom Juan me provou com seu soco que existe um centro na espinha, à altura das omoplatas, que é obviamente um local de intensificada conscientização.
Quando o questionei sobre a natureza daquele soco, Dom Juan explicou que o nagual é um líder que tem a responsabilidade de abrir os caminhos, e que deve ser impecável, a fim de passar a seus guerreiros um espírito de confiança e clareza. Só nessas circunstâncias o nagual se encontra na posição de aplicar o soco nas costas e forçar uma mudança de conscientização; pois é o poder do nagual que nos leva a fazer essa transição. Se o nagual não for um praticante impecável, não há mudança, como aconteceu quando eu tentei em vão fazer os aprendizes entrarem num estado de elevada conscientização batendo nas suas costas antes de nos aventurarmos a atravessar a ponte.
Perguntei a Dom Juan o que acontecia naquela mudança de conscientização. Ele disse que o nagual tem de aplicar o soco numa região precisa, que varia de pessoa para pessoa, mas que se localiza sempre na área geral das omoplatas. Um nagual deve “ver” a fim de determinar o ponto, localizada na periferia do corpo luminoso da pessoa e não no próprio corpo físico; uma vez identificado o local, ele mais empurra que bate, formando assim uma concavidade, uma depressão na casca luminosa. O estado de elevada conscientização que resulta desse soco dura enquanto a depressão permanece. Algumas cascas luminosas voltam à forma original por si só, outras têm de ser apertadas em outra região para retornarem ao normal, e outras ainda nunca voltam à forma de ovo.
Dom Juan explicou que os videntes vêem a conscientização como um brilho peculiar. A conscientização da vida diária é um brilho no lado direito, estendendo-se do corpo físico à periferia de nossa luminosidade. A elevada conscientização é um brilho mais intenso, associado a uma grande velocidade e concentração, brilho esse que satura a periferia do lado esquerdo.
Disse que os videntes explicam o que acontece com o soco do nagual como um deslocamento temporário de um centro localizado no casulo luminoso do corpo. As emanações da Águia são na realidade avaliadas e selecionadas para o uso desse centro. O soco desregula sua função normal.
Através de suas pesquisas, os videntes concluíram que os guerreiros devem ser colocados em estado de desorientação. A mudança na maneira com a qual a conscientização opera nessas condições torna esse estado um campo ideal para elucidar os comandos da Águia, permitindo que o guerreiro funcione como se estivesse com a conscientização da vida diária, com a diferença de poder focalizar tudo o que quiser com uma força e clareza sem precedentes.
Dom Juan falou que minha situação era semelhante à que ele próprio tinha experimentado. Seu benfeitor criou uma profunda divisão nele, fazendo-o trocar várias vezes da conscientização do lado direito para o esquerdo e vice-versa. A clareza e liberdade do seu lado esquerdo se opunham diretamente às racionalizações e defesas sem fim do lado direito. Disse que todo guerreiro é lançado nas profundezas dessa mesma situação que se molda por essa polaridade, e que o nagual cria e reforça essa divisão como um meio de liderar os aprendizes à convicção de que existe uma conscientização não exploradas pelos seres humanos.

1 - O que percebemos como "mundo" são os comandos (emanações) da Águia (ou o Mar Escuro da Consciência".
Dom Juan explicou que o mundo que percebemos não tem existência transcendental. Nossa familiaridade com ele nos leva a acreditar que o que percebemos é um mundo de objetos existentes exatamente como os percebemos, quando na verdade não há um mundo de objetos, mas sim um universo de emanações da Águia.
Essas emanações representam a única realidade imutável. É uma realidade que engloba tudo o que existe, o perceptível e o não-perceptível, o conhecível e o não-conhecível.
Os videntes que vêem as emanações da Águia chamam-nas de comandos por causa da sua força compulsória. Todas as criaturas vivas são compelidas a usar as emanações, e usam-nas sem nunca saberem o que elas significam. O homem padrão interpreta-as como realidade. E os videntes que vêem as emanações interpretam-nas como o regulamento.
Apesar dos videntes verem as emanações, não há um meio deles saberem o que estão vendo. Ao invés de se complicarem em conjeturas inúteis, os videntes entram numa especulação funcional de como os comandos da Águia podem ser interpretados. Dom Juan insistia em dizer que intuir uma realidade que transcende o mundo que percebemos fica no nível de conjetura; não é suficiente supor que os comandos da Águia são percebidos de uma vez só por todas as criaturas vivas da terra e que não há uma criatura que perceba igual à outra. Os guerreiros devem ter como objetivo presenciar o fluxo das emanações e “ver” como o homem e os outros seres vivos usam-nas para construir seu mundo perceptível.
Quando eu propus o uso da palavra "descrição" em vez de comandos da Águia, Dom Juan esclareceu que não estava construindo uma metáfora. Disse que a palavra "descrição" tem uma conotação de concordância do homem, e que o que percebemos deriva de um comando no qual a concordância do homem é deixada de fora.

2 - A atenção é o que nos faz perceber os comandos da Águia como a ação do "desnate".
Dom Juan disse que a percepção é uma faculdade física cultivada por todos os seres vivos da terra; nos seres humanos o resultado final é conhecido pelos videntes como "atenção". Acrescentou que qualquer tentativa de defini-la é perigosa, pois transforma uma realização mágica numa coisa comum. Descreveu a atenção como fisgar e canalizar a percepção. Disse que é a nossa maior realização individual, cobrindo toda a gama de alternativas e possibilidades humanas.
Fez uma distinção precisa entre alternativas e possibilidades As alternativas humanas são nossa capacidade de escolher como pessoas que funcionam dentro do seu meio social. Nosso raio de ação nessa esfera é bastante limitado. As possibilidades humanas são nossa capacidade de alcance como seres mágicos.
Desenvolveu um esquema classificatório de três tipos de atenção, enfatizando que chamá-los de "tipos" podia levar a dúvidas. São, na verdade, três níveis de conhecimento - a primeira, a segunda e a terceira atenção, cada uma com seu domínio independente, cada uma completa por si só.
Para um guerreiro nos estágios iniciais de treino, a primeira atenção é a mais importante das três. Dom Juan disse que suas proposições explicativas eram tentativas de trazer a um primeiro plano o modo pelo o qual a primeira atenção funciona, algo que passa completamente despercebido por nós. Considerava imperativo que os guerreiros compreendessem a natureza da primeira atenção se quisessem aventurar-se nas outras duas.
Explicou que para a primeira atenção lidar com os comandos da Águia ela foi ensinada a mover-se instantaneamente por um espectro completo das emanações da Águia, sem de qualquer forma dar importância a isso, a fim de alcançar as "unidades perceptíveis" que todos nós aprendemos a aceitar como perceptíveis. Essa realização da nossa primeira atenção é conhecida pelos videntes como "desnate" porque engloba a capacidade de afastar as emanações supérfluas e escolher as emanações a serem enfatizadas.
Dom Juan elaborou esse processo tomando como exemplo a montanha com que estávamos nos deparando naquele momento. Argumentou que a minha primeira atenção, quando eu olhava a montanha, tinha desnatado um infinito número de emanações, para obter um milagre de percepção, um desnate que é conhecido de todos os seres humanos porque cada um deles próprios o alcançou por si mesmo.
A argumentação dos videntes é que tudo o que a primeira atenção afasta a fim de obter um desnate não pode ser recuperado dela em nenhuma condição. Do momento em que aprendemos a perceber em termos de desnates, as emanações supérfluas deixam de ser registradas por nossos sentidos. Para elucidar esse ponto ele me deu como exemplo o desnate "corpo humano". Disse que nossa primeira atenção é completamente ignorante das emanações que formam a casca externa luminosa do nosso corpo físico; nosso casulo em forma de ovo não está sujeito à percepção; as emanações que o tornariam perceptível foram descartadas em favor daquelas que tornam possível à primeira atenção perceber o corpo físico como é conhecido por nós.
O objetivo perceptivo a ser atingido pelas crianças enquanto estão adquirindo maturidade, é aprender a isolar as emanações apropriadas a fim de ser capazes de canalizar a sua percepção caótica e transformá-la na primeira atenção; ao fazer isso aprendem a construir os desnates. Todos os seres humanos maduros que rodeiam as crianças ensinam-lhes como desnatar. Cedo ou tarde as crianças aprendem a controlar sua primeira atenção para perceber os desnates em termos semelhantes aos que seus mestres percebem.
Dom Juan ficava admirado com nossa capacidade de trazer ordem ao caos de percepção. Afirmava que cada um de nós, a nosso próprio modo, é um mágico magistral, e nossa magia consiste em impregnar de realidade os desnates que nossa primeira atenção aprendeu a construir. Nossa percepção em termos de desnates provém dos comandos da Águia, mas a percepção desses comandos como objetos provém do nosso poder, nosso Dom de mágica. Nosso erro, por outro lado, é que sempre acabamos sendo parciais ao esquecermos que nossos desnates são reais apenas no sentido de que os percebemos como reais, em virtude do poder que temos de fazer isso. Dom Juan chamava a isso erro de julgamento, que destrói em nós a riqueza de nossas origens misteriosas.

3 - Os desnates recebem significado do primeiro anel de poder.
Dom Juan disse que o primeiro anel de poder é a força que se desprende das emanações da Águia para agir exclusivamente na nossa primeira atenção. Explicou que foi descrita como "anel" devido ao seu dinamismo, seu movimento ininterrupto. Foi chamado de anel de "poder", primeiro por seu caráter obrigatório, e segundo por sua capacidade única de parar suas obras, mudá-las ou reverter sua direção.
Seu caráter obrigatório se faz ver melhor pelo fato de que não somente é premente à primeira atenção construir e perpetuar desnates, mas ela pede a concordância de todos os participantes. A concordância de reprodução fiel de desnates é exigida de todos nós, pois nossa concordância ao primeiro anel de poder tem de ser total.
É precisamente essa concordância que nos dá a certeza (errada) de que os desnates são objetos existentes como tal, independentes da nossa percepção. Além do mais, a obrigatoriedade do primeiro anel de poder não cessa depois da nossa concordância inicial, mas exige que renovemos continuamente tal concordância. Temos de operar durante toda a nossa vida, por exemplo, como se cada um de nossos desnates fosse perceptivamente o mesmo para todos os seres humanos, a despeito da língua e da cultura. Dom Juan admitia que a coisa é séria demais para ser vista como uma piada, mas que o caráter compulsório do primeiro anel de poder é tão intenso que nos força a crer que se uma "montanha" pudesse ter consciência própria, ver-se-ia como o desnate que aprendemos a construir.
Para os guerreiros, a característica mais válida do anel de poder é sua capacidade de interromper seu fluxo de energia ou de pará-lo completamente. Dom Juan disse que é uma capacidade latente que existe em todos nós como uma unidade de cópia (backup). Em nosso mundo estreito de desnates não há necessidade de ser usada. Como nos apoiamos e defendemos com a rede da primeira atenção, não temos consciência de que possuímos recursos ocultos do qual nem suspeitamos. Se uma escolha alternativa nos é apresentada, tal como a opção do guerreiro em utilizar a segunda atenção, a capacidade latente do primeiro anel de poder pode ser posta em funcionamento com resultados espetaculares (NR: e não “falhos”, conforme traduzido!!!).
Dom Juan enfatizou que o processo envolvido em ativar essa capacidade latente é a maior realização do feiticeiro; é chamado de bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Explicou que as emanações da Águia, que já foram isolados pela primeira atenção para construir o mundo da vida diária, exercem uma inflexível pressão sobre a primeira atenção. Para que essa pressão cesse de agir, é preciso que seja deslocada. Os videntes chamam a isso interrupção ou parada do primeiro anel de poder.

4 - "Intento" é a força que move o primeiro anel de poder.
Dom Juan explicou que o intento não se refere a ter uma intenção, ou a querer uma coisa ou outra, mas a uma força imponderável que faz com que tenhamos atitudes que podem ser descritas como intenção, desejo, volição, e assim por diante. Don Juan não a definiu como uma condição de ser, vinda de si próprio, produzida por socialização ou reação biológica, mas sim como uma força particular, íntima, que possuímos e usamos individualmente como uma chave que faz com que o primeiro anel de poder se mova de formas aceitáveis. O intento é o que dirige a primeira atenção a focalizar qualquer das emanações da Águia dentro de um certo âmbito. E o intento é também o que comanda o primeiro anel de poder a interromper ou parar fluxo de energia dele.
Dom Juan sugeriu que eu pensasse no intento como numa força invisível que existe no Universo, desconhecida de si própria (?) e ainda assim agindo sobre tudo - força que cria e mantém os desnates.
Afirmou que os desnates devem ser recriados incessantemente, a fim de serem impregnados de continuidade. Para recriá-los toda vez com o frescor necessário para formar um mundo vivo, temos de intentá-los toda vez que os construímos. Por exemplo, temos de intentar a "montanha" em toda sua complexidade para o desnate ser completamente materializado. Disse que para um observador, comportando-se puramente na base da primeira atenção, sem a interferência do intento, a "montanha" pode parecer um desnate inteiramente diferente. Pode talvez parecer um desnate "forma geométrica" ou "mancha amorfa de coloração". Para que o desnate "montanha" seja completo, o observador tem de intentá-lo, quer involuntariamente, através da força compulsória do primeiro anel de poder, quer deliberadamente, através do treino do guerreiro.
Ele salientou três modos pelos quais o intento vem a nós. 
* O primeiro e mais comum é conhecido pelos videntes como "intento do primeiro anel de poder". É um intento cego que nos vem puramente ao acaso. É como se tivéssemos sido postos em seu caminho, ou como se o intento tivesse sido posto no nosso. Inevitavelmente nos encontramos presos em suas malhas sem termos a menor idéia do que está nos acontecendo.
* O segundo meio de nos depararmos com o intento é quando ele nos vem por sua própria conta. Isso exige um grau considerável de determinação, um senso de propósito da nossa parte. Só com nossa capacidade de guerreiros conseguimos nos colocar voluntariamente no caminho do intento, acenar para ele, por assim dizer. Dom Juan explicou que sua insistência em ser um guerreiro impecável nada mais era que um esforço de deixar o intento saber que ele estava se colocando no seu caminho.
Dom Juan dizia que os guerreiros chamam a esse fenômeno "poder". Então, quando falam em ter poder pessoal, referem-se ao fato de o intento chegar a eles por sua própria conta. O resultado disso, dizia ele, podia ser descrito como uma facilidade em encontrar novas soluções - ou a facilidade em causar efeitos nos acontecimentos ou nas pessoas. É como se as possibilidades desconhecidas previamente pelos guerreiros se tornassem evidentes de repente. Assim, um guerreiro impecável nunca planeja nada antes do tempo, mas seus atos são tão decisivos que parecem ter sido planejados detalhadamente de antemão.
* O terceiro meio de encontrarmos o intento é o mais raro e o mais complexo dos três; acontece quando o intento nos permite que nos adaptemos a ele. Dom Juan descrevia aquele estado como o verdadeiro momento de poder - a culminação de uma luta interminável pela impecabilidade. Só os guerreiros supremos o atingem, e enquanto permanecem nesse estado o intento permite que eles a manipulem à vontade. É como se o intento tivesse se fundido naqueles guerreiros, e ao fazer isso os tivesse transformado numa força pura e ilimitada. Os videntes chamavam a esse estado "intento do segundo anel de poder", ou "vontade".

5 - O primeiro anel de poder pode ser detido por um bloqueio funcional da capacidade de construir desnates.
Dom Juan disse que a função dos não-fazeres é criar uma obstrução na focalização habitual da nossa primeira atenção. Os não fazeres são, nesse sentido, manobras designadas a preparar a primeira atenção para o bloqueio funcional do primeiro anel de poder, ou em outras palavras, a interrupção do intento.
Ele explicou que esse bloqueio funcional, o único método de utilizar sistematicamente a capacidade latente do primeiro anel de poder é uma interrupção temporária que o benfeitor cria na capacidade de construir desnates dos seus discípulos. É uma  premeditada e poderosa intromissão artificial, à primeira atenção, designada para empurrá-la além das aparências dos conhecidos desnates; uma intromissão conseguida por meio da obstrução do intento do primeiro anel de poder.
Disse que para levar a cabo essa interrupção o benfeitor trata o intento como um processo, como se ela fosse um fluxo, uma corrente de energia que pode eventualmente ser cessada ou ser reorientada. A visou repetidas vezes que se tem de reconhecer que uma interrupção dessa natureza é um choque de tal magnitude que pode forçar o primeiro anel de poder a parar completamente a qualquer hora; é impossível concebermos tal situação nas nossas condições normais de vida. É inconcebível que possamos des-andar os passos que demos ao consolidarar nossa percepção, mas é viável que sob o impacto dessa interrupção possamos ser colocados numa posição perceptiva muito semelhante aos nossos inícios, quando os comandos da Águia eram emanações que ainda não tínhamos impregnado de significado.
Dom Juan costumava dizer que qualquer procedimento que o benfeitor pudesse usar para criar essa interrupção devia ser intimamente ligado com o seu poder pessoal. Portanto , um benfeitor não usa nenhum processo para manipular o intento, mas sim o move e o faz utilizável pelo aprendiz através do seu poder pessoal.
Em meu caso, Dom Juan atingiu o bloqueio funcional do primeiro anel de poder por meio de um processo complexo, uma combinação de três métodos: a ingestão de plantas alucinógenas; a manipulação do corpo; a manipulação do intento.
No início apoiou-se muito na ingestão de plantas alucinógenas, aparentemente em vista da inflexibilidade do meu lado racional. O efeito delas foi tremendo, mas ainda assim retardou a interrupção que ele procurava. O fato daquelas plantas serem alucinógenas fez com que minha razão aceitasse reunir todos seus recursos disponíveis e continuasse mantendo as rédeas do controle. Fiquei convencido de que podia explicar com lógica tudo o que estava sentindo, juntamente com as proezas inconcebíveis que Dom Juan e Dom Genaro costumavam realizar, para criar as interrupções, como distorções perceptivas causadas pela ingestão dos alucinógenos. Por outro lado, contudo, não havia meio possível de eu poder ter escapado ao efeito do bloqueio do primeiro anel de poder, que Dom Juan tinha programado atingir.
Dom Juan disse que o efeito mais notável das plantas alucinógenas era o que eu interpretava, sempre que as ingeria, como uma sensação peculiar de que tudo à minha volta exsudava uma extraordinária riqueza. Via cores, formas, detalhes que nunca tinha visto antes. Ele utilizou essa condição da minha habilidade elevada de perceber, e com uma série de ordens e comentários me forçou a um estado de agitação nervosa. Ele então manipulou meu corpo e me fez trocar a conscientização da direita para a esquerda e vice-versa, até criar visões fantasmagóricas ou cenas extremamente reais com criaturas em três dimensões que positivamente não podiam existir no mundo.
Explicou que quando a relação entre nosso intento e os desnates que construímos é quebrada, nunca mais pode ser restaurada. Daí por diante adquirimos a capacidade de captar uma corrente de que ele denominava "intento fantasma", ou o intento dos desnates  que não estão presentes no momento ou lugar da interrupção, mas que tornam o intento deles acessível a nós, através de algum aspecto da memória.
Afirmou que com a suspensão do intento do primeiro anel de poder nós nos tornamos receptivos e maleáveis; o nagual pode então introduzir o intento do segundo anel de poder. Ele estava convencido de que as crianças têm uma posição de receptividade semelhante; sendo desprovidas de intento, elas estão prontas a serem marcadas com qualquer intento que seus mestres lhes dêem.
Depois de um período de ingestão contínua de plantas alucinógenas, Dom Juan cortou totalmente o uso delas. Atingiu, no entanto, maiores interrupções em mim ao manipular meu corpo e me fazer mudar os estados de conscientização, juntamente com manobras do intento. Para aquele efeito ele usava quaisquer fenômenos capazes de apagar perceptivamente os limites delineados dos desnates, tais como chuva, relâmpago, crepúsculo e escuridão. Através de uma combinação de comandos hipnotizadores (e comentários adequados), ele criava uma corrente de “intento fantasma” e eu era levado a sentir os desnates familiares como coisas inconcebíveis, que só eu estava presenciando, sem a concordância de qualquer outra pessoa da terra.  Ele definiu isso como “uma rápida olhada na imensidão da Águia”.
Dom Juan explicou que a concordância que temos um com o outro sobre a existência de nossos desnates, além de ser uma combinação, é também um elo de associação. Esse elo é baseado no caráter compulsório do primeiro anel de poder. Exigindo uma concordância nossa em relação à construção fiel dos desnates, o primeiro anel de poder cria em nós não só a certeza de que esses desnates são objetos como também nos dá a certeza de que esses desnates são absolutamente homogêneos entre os membros da nossa espécie. Esse elo de associação não precisa ser reiterado. Uma vez convencidos de sua existência, ele se torna uma base de apoio para nós durante toda nossa vida.

Dom Juan me guiou magistralmente através de inúmeras interrupções do intento, até que eu? fiquei convencido, como vidente, que meu corpo mostrava o efeito do bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Ele disse que podia ver uma capacidade invulgar no meu casulo em forma de ovo, em volta da região das minhas omoplatas. Descreveu-a como uma rugosidade que se formava exatamente como se a casca de luminosidade fosse um lençol de músculo sendo contraído pelos nervos.
Para mim, o efeito do bloqueio funcional do primeiro anel de poder era conseguir apagar a certeza que eu tinha tido toda a vida de que o que meus sentidos percebiam era "real". Entrei tranqüilamente num estado de silêncio interior. Dom Juan disse que o que dá aos guerreiros aquela extrema falta de confiança que seu benfeitor sentiu no fim da vida, aquela resignação à derrota que ele próprio estava sentindo, é o fato de que apenas uma olhadela na imensidão da Águia, já nos deixa sem esperança. A esperança é o resultado de nossa familiaridade com nossos desnates e a idéia de que podemos controlá-los. Em tais momentos só o caminho dos guerreiros pode nos fazer persistir em nosso esforço de descobrir o que a Águia ocultou de nós, mas sem esperança de jamais compreender o que descobrirmos.

6 – A segunda atenção (NR: este título foi suprimido na edição em português)
Dom Juan explicou que o exame da segunda atenção devia começar com a constatação de que essa força do primeiro anel de poder que nos encaixota é uma concreta fronteira física. Os videntes descreveram-na como uma parede de névoa, uma barreira que pode ser sistematicamente levada à nossa conscientização por meio do bloqueio do primeiro anel de poder; então pode ser penetrado através do treino do guerreiro.
Ao penetrar na parede de névoa, entra-se num extenso estado intermediário. A tarefa dos guerreiros é atravessá-la até alcançar outra linha limite, que têm de penetrar a fim de entrarem em o que é propriamente o outro “si mesmo” ou a segunda atenção.
Dom Juan disse que ambas as linhas limites são perfeitamente distinguíveis. Quando os guerreiros penetram na parede de névoa sentem que seus corpos estão sendo apertados, ou sentem um intenso tremor dentro da cavidade de seus corpos, basicamente à direita do estômago ou pelo meio do corpo, da direita para a esquerda. Quando perfuram a segunda linha, sentem um estalo agudo na parte superior do corpo, como o som de um pequeno galho seco sendo partido em dois.
As duas linhas que limitam as duas atenções e as selam individualmente são conhecidas pelos videntes como linhas paralelas. Selam as duas atenções porque se estendem até o infinito, nunca permitindo uma travessia, a não ser se forem perfuradas.
Entre as duas linhas há uma área de conscientização específica, que os videntes chamam de limbo ou mundo entre as linhas paralelas. É um espaço real entre dois enormes âmbitos de emanações da Águia, emanações essas que estão dentro das possibilidades de conscientização do homem. Um é o âmbito que forma o eu da vida diária, e o outro é o âmbito que forma o outro eu. Como o limbo é uma área de transição, os dois âmbitos de emanações se sobrepõem lá. A fração do âmbito com o qual estamos familiarizados, que se estende sobre aquela área, prende uma orla de nosso primeiro anel de poder; sua capacidade de construir desnates nos força a perceber uma quantidade de desnates que são quase iguais aos da nossa existência diária, só que parecendo bizarros e torcidos. Assim, o limbo tem características específicas que não mudam arbitrariamente cada vez que se entra lá. Há nele características físicas que se assemelham ao que consideramos aspectos físicos nos desnates da nossa vida diária.
Dom Juan afirmou que a sensação de peso que se sente no limbo é devido à carga crescente colocada na nossa primeira atenção. Na área posterior à parede de névoa, ainda podemos nos comportar como nós mesmos; é como se estivéssemos num mundo grotesco porém ainda reconhecível. À medida que nos aprofundamos para longe da parede de névoa, torna-se progressivamente mais difícil reconhecer seus aspectos ou comportar-se em termos familiares a nós mesmos.
Explicou que a parede de névoa podia se parecer com qualquer outra coisa, mas que os videntes optaram por acentuar a que consome menos energia; visualizá-la como uma parede de névoa não envolve esforço algum.
O que existe além da segunda linha limite é conhecido pelos videntes como o outro eu, ou o mundo paralelo; e o ato de penetrar através de ambos os limites é conhecido como "cruzar as linhas paralelas".
Dom Juan achava que eu captaria esses conceitos com mais firmeza se descrevesse cada esfera de conscientização como uma específica predisposição de percepção. Disse que na esfera da conscientização da vida diária estamos indissoluvelmente emaranhados nas tendências perceptivas da primeira atenção. Do momento em que o primeiro anel de atenção começa a construir os desnates, o modo de construí- los se torna nossa tendência normal de percepção. Quebrar a força que ata a tendência perceptiva da primeira atenção é quebrar a primeira linha limite. Nossa tendência perceptiva normal então passa para a área intermediária entre as linhas paralelas. Continua-se a construir desnates quase normais por algum tempo. Mas quando se aproxima do que os videntes chamam de segunda linha limite, a tendência perceptiva da primeira atenção começa a diminuir, perdendo a força. Dom Juan disse que essa transição é marcada por uma súbita incapacidade de lembrar ou de perceber, através do auto-exame, o que se está fazendo.
Quando a segunda linha limite é alcançada, o outro eu começa a agir sobre os guerreiros que estão fazendo a viagem. Se são inexperientes, sua consciência fica vazia. Dom Juan afirmou que isso acontece porque eles se aproximam de um espectro das emanações da Águia que ainda não tem uma tendência perceptiva sistematizada para eles. Minhas experiências com La Gorda e a mulher nagual além da parede de névoa foram um exemplo dessa incapacidade. Viajei para o outro eu mas não pude dar conta do que tinha feito, simplesmente porque minha segunda atenção ainda estava sem formulação e não me permitiu lidar com coisa alguma que tinha percebido.
Dom Juan explicou que se começa a conquistar o segundo anel de poder forçando a segunda atenção a acordar de sua dormência. O bloqueio funcional do primeiro anel de poder realiza isso. Então a tarefa do mestre é recriar a condição que lançou o primeiro anel de poder, a condição de ser saturado de intento. O primeiro anel de poder foi colocado em movimento pela força da intento, que nos foi dada por quem nos ensinou como desnatar. Como meu mestre, ele estava me dando então um novo intento que iria criar um novo ambiente perceptual.
Dom Juan disse que se leva toda uma vida de disciplina incessante, que os videntes chamam de intento inflexível, para preparar o segundo anel de poder a construir desnates vindos do outro âmbito das emanações da Águia. Aperfeiçoar a tendência perceptiva do eu paralelo é uma proeza de valor incomparável que poucos guerreiros realizam. Silvio Manuel era um desses poucos.
Dom Juan aconselhou-me a não tentar deliberadamente aperfeiçoar isso. Se viesse a acontecer, seria um processo natural que se desenvolveria sem grande esforço. Explicou que a razão dessa quase indiferença reside na consideração prática de que aperfeiçoar essa tendência faz com que se torne mais difícil quebrá-la, pois a meta dos guerreiros é a capacidade de quebrar as duas tendências perceptivas a fim de entrar na terceira atenção".

domingo, 20 de janeiro de 2013

Nossa Situação - 1

As pessoas acham que o maior problema do ser humano no planeta é circunstancial: são as guerras, os políticos, a violência, a superpopulação, a camada de ozônio, o lixo, a contaminação, as mudanças climáticas, a água, as erupções solares, e por aí a fora. Tudo coisa desse mundo externo. Sei não... Parece que não é bem assim. É bem mais para dentro. Nem é no corpo, na matéria física. É um defeito de fabricação na estrutura não física, na energia. Os antigos homens de conhecimento tinham uma visão da coisa, mas ninguém gostava muito de falar no assunto, como se fosse um inexplicável erro da Criação.
Os mestres do quarto caminho, os videntes toltecasos mestres budistas, e muitas outras tradições autênticas sempre enfatizaram o mau funcionamento, o método, o porquê, e os efeitos maléficos desse sono do ser humano, e todos concordaram na necessidade de escapar desse sutil, disfarçadamente inocente e prosaico, mas desastroso defeito de fabricação. Vamos lá:

"Pegue um relógio e olhe para o ponteiro grande tentando manter a consciência de si próprio e concentrar-se neste pensamento: "Eu sou Fulano e estou aqui neste momento." Tente pensar apenas nisto, siga os movimentos do ponteiro grande mantendo a própria consciência do seu nome, da sua existência e do local onde se encontra." 

Ao princípio, isto parecia simples e até um pouco ridículo. Evidentemente que posso manter presente no espírito a ideia de que me chamo Fulano e de que estou aqui, neste momento a ver deslocar-se muito lentamente o ponteiro grande do meu relógio. Depois percebo que esta ideia não se mantém muito tempo imóvel em mim, que começa a tomar mil formas e a correr em todos os sentidos, como os objetos que Salvador Dali pintava, transformados em lama movediça. Mas tenho ainda de reconhecer que não me pedem que mantenha viva e fixa uma ideia, mas uma percepção. Não me pedem apenas que pense que existo, mas que saiba, que tenha desse fato um conhecimento absoluto. Ora eu sinto que isso é possível e que poderia produzir-se em mim, trazendo-me qualquer coisa de novo e importante. Descubro na experiência que mil pensamentos ou sombras de pensamentos, mil sensações, imagens e associações de ideias perfeitamente estranhas ao objeto do meu esforço me assaltam sem cessar e me desviam do esforço que faço. Por vezes é o ponteiro que prende toda a minha atenção e, ao olhá-lo, perco-me de vista. Por vezes é o meu corpo, uma crispação da perna, um pequeno movimento na barriga que me faz deixar o ponteiro e ao mesmo tempo a minha própria pessoa. Por vezes ainda creio ter feito parar o meu pequeno cinema interior, eliminado o mundo exterior, mas apercebo-me então que acabo de mergulhar numa espécie de sono do qual o ponteiro desapareceu, do qual eu próprio desapareci e durante o qual as imagens continuam a sobrepor-se umas às outras, assim como as sensações, as ideias, como que atrás de um véu, como num sonho que se desbobina por sua conta enquanto eu durmo. Por vezes, finalmente, por uma fração de segundo, sou eu próprio a olhar esse ponteiro, sou totalmente, completamente. Mas, na mesma fração de segundo, felicito-me por o ter conseguido; se assim posso dizer, o meu espírito aplaude, e imediatamente a minha inteligência, apossando-se da vitória para dela se congratular, compromete-a irremediavelmente. Finalmente despeitado mas sobretudo esgotado, fujo à experiência com precipitação, pois parece-me que acabo de viver os minutos mais difíceis da minha existência, que acabo de ser privado de ar até ao limite da resistência. Como aquilo me pareceu longo! Ora não se passaram mais de dois minutos e, em dois minutos, só tive uma verdadeira percepção de mim próprio durante três ou quatro súbitas e imperceptíveis revelações. Eu devia portanto admitir que nós quase nunca estamos conscientes de nós próprios e que quase nunca temos consciência da dificuldade de ser consciente. O estado de consciência, diziam-nos, é antes de mais o estado do homem que sabe enfim que não está quase nunca consciente e que, portanto, aprende pouco a pouco quais são os obstáculos que se opõem, nele próprio, aos esforços que faz. À luz daquele pequenino exercício sabem agora que um homem pode ler uma obra, por exemplo, aprovar, aborrecer-se, protestar ou entusiasmar-se, sem ter a mínima consciência do fato, e portanto sem que nada da leitura se dirija verdadeiramente a ele próprio. A sua leitura é um sonho acrescentado aos seus próprios sonhos, um desbobinamento no perpétuo desbobinar do inconsciente. Pois a nossa verdadeira consciência pode estar e está quase sempre completamente ausente de tudo o que fazemos, pensamos, queremos, imaginamos
Compreendo então que há muito pouca diferença entre o estado em que estamos durante o sono e aquele em que nos encontramos no estado de vigília vulgar, quando falamos, agimos, etc. Os nossos sonhos tornaram-se invisíveis, como as estrelas quando o dia nasce, mas continuam presentes e nós continuamos a viver sob a sua influência. Nós apenas adquirimos, após o despertar, uma atitude crítica para com as nossas próprias sensações, pensamentos mais ordenados, ações mais disciplinadas, maior vivacidade de impressão, de sentimentos, de desejos, mas continuamos na não-consciência. Não se trata do verdadeiro despertar, mas do "sono desperto", e é nesse estado de "sono desperto" que se desenrola toda a nossa vida. Ensinavam-nos que era possível despertarmos completamente, adquirir o estado de consciência de nós próprios. Nesse estado, como o entrevi durante o exercício com o relógio, era-me possível ter, a respeito do funcionamento do meu pensamento, do desenrolar das imagens, ideias e sensações, dos sentimentos e dos desejos, um conhecimento objetivo. Nesse estado, eu podia tentar e desenvolver um esforço real para examinar, suspender de tempos a tempos e alterar esse desenrolar. E esse próprio esforço, diziam-me, criava em mim uma certa subsistência. Esse próprio esforço não chegava aqui ou ali. Bastava-lhe ser para que se criasse e acumulasse em mim a própria subsistência do meu ser. Era-me dito que poderia então, possuindo um ser fixo, alcançar a "consciência objetiva" e ter assim, não apenas de mim próprio, mas dos outros homens, das coisas e do Mundo inteiro, um conhecimento totalmente objetivo, um conhecimento absoluto. 

Monsieur Gurdjieff, Paris, 1954 - por Luis Pauwels