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domingo, 4 de agosto de 2013

O Impulso da Terra

A obra de Castaneda tem uma passagem cativante e ao mesmo tempo desconcertante. É a estranha afirmação de que "A chave mágica que abre as portas da Terra é feita de silêncio interno e mais qualquer coisa que brilhe." É xamanismo puro, juntando silêncio interior e luz. Uma das índias aprendizes de Dom Juan, no livro O Segundo Círculo do Poder, afirma: O Nagual disse que o melhor meio de se conseguir energia naturalmente, é deixar o Sol entrar pelos seus olhos, especialmente o olho esquerdo.
Na passagem descrita abaixo os dois mestres Dom Juan e Dom Genaro mostram a Castaneda na prática, sem teoria,  como funciona e o que é o fenômeno da Percepção, pelo qual A Consciência percebe o mundo que conhecemos a partir de como somos feitos, ou seja, casulos luminosos assim como esse ser vivo, a Terra, também é. E mais, o que precisamos fazer para perceber outros mundos com a ajuda do "Impulso da Terra", ou seja, alinhar e iluminar as emanações internas do nosso casulo com as emanações externas do universo presentes na Terra. 
Vamos lá:

"- Vamos caminhar pela estrada de Oaxaca - disse-me Dom Juan. - Genaro está esperando por nós em algum ponto do caminho.
Seu convite tomou-me de surpresa. Eu passara todo o dia esperando que continuasse sua explicação. Deixamos sua casa e atravessamos em silêncio a cidade até a estrada de terra. Caminhamos tranqüilamente por um longo tempo. Subitamente, Dom Juan começou a falar.
- Tenho falado sobre as grandes descobertas que os antigos videntes fizeram. Assim como descobriram que a vida orgânica não é a única vida presente na Terra, também descobriram que a própria Terra é um ser vivo.
Esperou um pouco antes de continuar. Sorriu-me como se me convidasse a fazer um comentário. Não me ocorreu nada para dizer.
- Os antigos videntes viram que a Terra tem um casulo continuou. - Viram que existe uma bola circundando a Terra, um casulo luminoso que contém as emanações do Mar escuro da Consciência, a Águia. A Terra é um gigantesco ser consciente, sujeito às mesmas forças que nós.
Explicou que os antigos videntes, ao descobrirem isso, ficaram imediatamente interessados no uso prático que poderiam fazer desses conhecimentos. O resultado do seu interesse foi que as categorias mais elaboradas de suas feitiçarias tinham a ver com a Terra. Consideravam a Terra como fonte última de tudo que somos.
Dom Juan reafirmou que os antigos videntes não estavam enganados a esse respeito, porque a Terra é com efeito nossa fonte última.
Não disse nada mais até que encontramos Genaro, cerca de um quilômetro e meio estrada acima. Estava esperando por nós, sentado numa pedra ao lado da estrada.
Cumprimentou-me com grande efusão. Disse-me que devíamos subir ao topo de umas pequenas montanhas agrestes cobertas por vegetação rústica.
- Nós três vamos nos sentar apoiados em uma pedra disse Dom Juan - e olhar para a luz do sol refletida nas montanhas do leste. Quando o sol se puser atrás dos picos do oeste, a Terra poderá deixá-lo ver o alinhamento.
Quando atingimos o alto de uma montanha, sentamo-nos como Dom Juan havia dito, com as costas contra uma pedra. Dom Juan fez-me sentar entre os dois.
Perguntei-lhe o que estava planejando fazer. Suas declarações veladas e seus longos silêncios eram ameaçadores. Sentia-me terrivelmente apreensivo.
Ele não me respondeu. Continuou falando como se eu não tivesse dito nada.
- Foram os antigos videntes que, ao descobrirem que a percepção é alinhamento, tropeçaram em algo monumental. A parte triste é que suas aberrações impediram novamente que soubessem o que haviam realizado.
Apontou a cadeia de montanhas a leste do pequeno vale onde a cidade está localizada.
- Há cintilação suficiente naquelas montanhas para abalar seu ponto de aglutinação. Exatamente antes de o sol se pôr atrás dos picos do oeste, você terá alguns momentos para todas as cintilações de que precisa. A chave mágica que abre as portas da Terra é feita de silêncio interno e mais qualquer coisa que brilhe.
- O que devo fazer exatamente, Dom Juan?
Ambos examinaram-me. Pensei ver em seus olhos uma mistura de curiosidade e desagrado.
- Simplesmente corte o diálogo interno - disse-me Dom Juan. Senti um choque intenso de ansiedade e dúvida; não tinha confiança de que pudesse fazê-lo à vontade. Após um momento inicial de desagradável frustração, resignei-me a simplesmente relaxar.
Olhei ao redor. Percebi que estávamos suficientemente alto para enxergar o vale longo e estreito. Mais de metade dele estava coberto com as sombras do crepúsculo. O sol ainda iluminava o sopé da cadeia de montanhas do leste, no outro lado do vale; a luz do sol dava uma coloração ocre às montanhas erodidas, enquanto os picos azulados mais distantes adquiriram um tom púrpura.
- Percebe que já fez isto antes, não? - perguntou Dom Juan num sussurro.
Disse-lhe que não havia percebido coisa alguma.
- Sentamo-nos aqui antes, em outras ocasiões - insistiu - mas isso não importa, porque esta ocasião é a que vai contar.
- Hoje, com a ajuda de Genaro, você irá encontrar a chave que abre tudo. Não será capaz de usá-la ainda, mas saberá o que é e onde está. Os videntes pagam os preços mais caros para saber disso. Você mesmo vem pagando seu tributo todos esses anos.
Explicou que o que chamava de chave de tudo era o conhecimento em primeira mão de que a Terra é um ser consciente e, como tal, pode dar aos guerreiros um grande impulso, um empurrão que vem da consciência da própria Terra no instante em que as emanações do interior dos casulos dos guerreiros alinham-se com as emanações apropriadas do interior do casulo da Terra. Uma vez que tanto ela quanto o homem são seres conscientes, suas emanações coincidem, ou melhor, a Terra possui todas as emanações presentes no homem e, além disso, todas as emanações presentes em todos os seres conscientes, orgânicos e inorgânicos. Quando ocorre o alinhamento, os seres conscientes usam este alinhamento de um modo limitado e percebem seu mundo. Os guerreiros podem usar esse alinhamento para perceber, como todos os demais, ou usá-lo como um impulso que lhes permita entrar em mundos inimagináveis.
- Venho esperando que você me faça a única pergunta com sentido que poderia fazer, mas você nunca pergunta - continuou. - Você teima em perguntar se o mistério de tudo está dentro de nós. De qualquer modo, chegou bem perto.
"O desconhecido não está realmente dentro do casulo do homem nas emanações intocadas pela consciência e, no entanto, de certo modo, está lá. Esse é o ponto que você não compreendeu. Quando lhe disse que podemos aglutinar sete mundos além do que conhecemos, você entendeu que isto é algo interno, porque tende a acreditar que está apenas imaginando tudo que faz conosco. Por isso nunca me perguntou onde o desconhecido está realmente. Há anos venho traçando círculos com minha mão para indicar tudo ao redor de nós, dizendo que é lá que está o desconhecido. Mas você nunca ligou as coisas."
Genaro começou a rir, e depois tossiu e levantou-se.
- Ele ainda não ligou as coisas - disse a Dom Juan. Admiti para eles que, se havia uma ligação a ser feita, eu não estava percebendo.
Dom Juan reafirmou várias vezes que as emanações presentes dentro do casulo do homem só estão ali para a consciência, e que a consciência combina aquelas emanações com uma quantidade igual de emanações livres. Estas se chamam emanações livres porque são imensas; e dizer que fora do casulo do homem está o incognoscível é dizer que dentro do casulo da Terra está o incognoscível. Entretanto, no interior do casulo da Terra também está o desconhecido, e dentro do casulo do homem o desconhecido são as emanações intocadas pela consciência. Quando o brilho da consciência as toca, tomam-se ativas e podem ser alinhadas com as emanações livres correspondentes. Quando isto acontece, o desconhecido é percebido e toma-se conhecido.
- Sou muito estúpido, Dom Juan. Precisa trocar as coisas em miúdos para mim.
- Genaro vai fazer isso para você - retorquiu Dom Juan.
Genaro levantou-se e começou a executar a mesma marcha de poder que havia executado antes, quando circulou uma imensa rocha achatada em um campo de milho perto de sua casa com Dom Juan assistindo fascinado. Dessa vez, Dom Juan sussurrou em meu ouvido que eu deveria tentar ouvir os movimentos de Genaro, especialmente os movimentos de suas coxas quando se erguiam contra seu peito a cada passo que dava.
Segui os movimentos de Genaro com os olhos. Em poucos segundos, senti que alguma parte de mim fora aprisionada pelas pernas de Genaro. O movimento de suas coxas não me soltava. Era como se estivesse caminhando com ele. Sentia-me mesmo sem fôlego. Percebi, então, que estava realmente seguindo Genaro. De fato caminhava com ele, afastando-me do lugar onde estivéramos sentados.
Não vi Dom Juan, apenas Genaro caminhando diante de mim da mesma maneira estranha. Caminhamos por horas e horas.
Minha fadiga era tão intensa que fiquei com uma terrível dor de cabeça e me senti mal subitamente. Genaro parou de caminhar e veio para o meu lado. Havia um intenso brilho ao redor de nós, e a luz se refletiu nas feições de Genaro. Seus olhos brilhavam.
- Não olhe para Genaro! - Uma voz ordenou-me ao ouvido. - Olhe ao redor!
Obedeci. Pensei que estava no inferno! O choque de ver a paisagem foi tão grande que gritei de terror, mas não havia som em minha voz. Ao redor de mim estava a imagem mais vívida de todas as descrições do inferno de minha criação católica. Via um mundo avermelhado, quente e opressivo, escuro e cavernoso, sem céu, sem qualquer luz além das reflexões malignas das luzes avermelhadas que se mantinham em movimento ao redor de nós, em grande velocidade. Genaro começou a caminhar novamente, e algo puxou-me com ele. A força que me fazia segui-lo também evitou que eu olhasse ao redor. Minha consciência estava colada aos movimentos de Genaro.
Vi-o desabar como se estivesse profundamente exausto. No instante em que tocou o solo e estendeu-se para descansar, algo foi liberado em mim e fui novamente capaz de olhar ao redor. Dom Juan me fitava com ar de interrogação. Eu estava de pé diante dele. Encontrávamo-nos no mesmo lugar onde havíamos sentado, numa espaçosa saliência rochosa no topo de uma pequena montanha. Genaro ofegava e bufava, e eu também. Estava coberto de transpiração. Meu cabelo ensopara. Minhas roupas pingavam como se eu tivesse afundado num rio.
- Meu Deus, o que está acontecendo? - perguntei, com profunda seriedade e preocupação.
A exclamação soou tão imbecil que Dom Juan e Genaro começaram a rir.
- Estamos tentando fazer você compreender o que é o alinhamento - disse Genaro.
Cuidadosamente, Dom Juan ajudou-me a sentar. Sentou-se a meu lado.
- Lembra-se do que aconteceu?
Disse-lhe que sim, e ele insistiu em que lhe contasse exatamente o que tinha visto. Sua solicitação era incongruente com o que me dissera, que o único valor de minhas experiências era o deslocamento de meu ponto de aglutinação, e não o conteúdo de minhas visões. Explicou que Genaro tentara ajudar-me antes de maneira bastante parecida à que havia usado agora, mas que nunca pude lembrar-me de nada. Disse que Genaro guiara meu ponto de aglutinação desta vez, como havia feito antes, para aglomerar um mundo com outro dos grandes feixes de emanações.
Houve um longo silêncio. Eu estava tonto, chocado, embora minha consciência estivesse mais aguçada do que nunca. Pensei que havia finalmente compreendido o que era alinhamento. Algo dentro de mim, que eu vinha ativando sem saber como, deu-me a certeza de que eu compreendera uma grande verdade.
- Acho que você está começando a acumular seu próprio ímpeto - disse-me Dom Juan. - Vamos para casa. Foi bastante para um dia.
- Ora, vamos - disse Genaro. - Ele é mais forte do que um touro. Deveria ser empurrado um pouco além.
- Não! - disse Dom Juan enfaticamente. - Temos que economizar sua força. Ele já gastou muito.
Genaro insistiu para que ficássemos. Olhou para mim e piscou.
- Olhe - disse-me, apontando para a cadeia de montanhas do leste. - O sol mal se moveu alguns centímetros sobre aquelas montanhas e ainda assim você já caminhou no inferno por horas e horas. Não acha isso desconcertante?
- Não o assuste desnecessariamente! - protestou Dom Juan, quase com veemência.
Foi então que vi suas manobras. Naquele momento, a voz da visão disse-me que Dom Juan e Genaro eram uma dupla de soberbos espreitadores brincando comigo. Era Dom Juan que sempre me empurrava além de meus limites, mas sempre deixava Genaro ser o vilão. Naquele dia na casa de Genaro, assim que atingi um estado perigoso de medo histérico quando Genaro perguntou a Dom Juan se eu deveria ser empurrado e Dom Juan assegurou-me que ele estava divertindo-se à minha custa, Genaro estava na verdade preocupando-se comigo.
Fiquei tão chocado com a minha visão que comecei a rir. Tanto Dom Juan quanto Genaro olharam-me com surpresa. Então Dom Juan pareceu perceber imediatamente o que estava se passando em minha mente. Contou a Genaro, e ambos riram como crianças.
- Você está ficando adulto - disse-me Dom Juan. - Bem na hora. Você não é nem estúpido demais nem inteligente demais, exatamente como eu. Mas não é como eu em suas aberrações. Nisso, parece-se mais com o nagual Julian, só que ele era brilhante.
Levantou-se e distendeu as costas. Olhou para mim com os olhos mais penetrantes e ferozes que eu jamais havia visto. Levantei-me.
- Um nagual nunca deixa ninguém saber que ele está no comando - disse. - Um nagual vai e vem sem deixar rastros. Essa liberdade é o que faz dele um nagual.
Seus olhos lampejaram por um instante, e depois cobriram-se com uma nuvem de brandura, amabilidade e compaixão, e eram novamente os olhos de Dom Juan.
Eu mal podia manter o equilíbrio. Estava oscilando sem controle. Genaro saltou para o meu lado e ajudou-me a sentar. Ambos sentaram-se flanqueando-me.
- Você vai captar um impulso da Terra - disse-me Dom Juan em um ouvido.
- Pense nos olhos do nagual - disse-me Genaro no outro.
- O impulso virá no momento em que você enxergar a cintilação no alto daquela montanha - disse Dom Juan, e apontou para o pico mais alto da cadeia do leste.
- Nunca verá outra vez os olhos do nagual - sussurrou
Genaro.
- Vá com o impulso para onde ele o levar - disse Dom Juan.
- Se pensar nos olhos do nagual, irá perceber que há dois lados numa moeda - sussurrou Genaro.
Eu queria pensar no que ambos estavam dizendo, porém meus pensamentos não me obedeciam. Algo fazia pressão sobre mim. Senti que estava encolhendo. Tive uma sensação de náusea.
Vi as sombras do entardecer avançando rapidamente encosta acima naquelas montanhas do leste. Tive a sensação de que estava correndo atrás delas.
- É agora - disse Genaro em meu ouvido.
- Olhe o pico grande, olhe a cintilação - falou Dom Juan em meu outro ouvido.
Via-se realmente um ponto de brilho intenso onde Dom Juan havia apontado, no pico mais alto da cadeia. Observei o último raio de sol refletindo-se nele. Senti um frio na boca do estômago, como se estivesse em uma montanha-russa.
Senti, mais do que ouvi, o ruído distante de um terremoto que abruptamente me engolfou. As ondas sísmicas era tão altas e enormes que perderam todo o sentido para mim. Eu era um micróbio insignificante sendo torcido e virado.
O movimento diminuiu aos poucos. Houve mais uma sacudidela antes que tudo se detivesse. Tentei olhar ao redor. Não tinha qualquer ponto de referência. Parecia estar plantado, como uma árvore. Acima de mim havia uma cúpula branca, inconcebivelmente grande. Sua presença fez-me sentir exaltado. Voei em sua direção, ou melhor, fui lançado como um projétil. Tinha a sensação de estar confortável, cuidado, seguro; quanto mais perto chegava da cúpula, mais intensos se tornavam esses sentimentos. Finalmente venceram-me e perdi toda a consciência de mim mesmo.
A coisa seguinte que percebi foi estar ondulando suavemente no ar como uma folha que cai. Sentia-me exausto. Uma força de sucção começou a puxar-me. Atravessei um buraco escuro e então estava com Dom Juan e Genaro.

No dia seguinte, Dom Juan, Genaro e eu fomos a Oaxaca. Enquanto Dom Juan e eu perambulávamos pela praça, ao entardecer, ele repentinamente começou a falar sobre o que fizéramos no dia anterior. Perguntou-me se havia entendido ao que se referia quando dissera que os antigos videntes tropeçaram em algo monumental.
Disse-lhe que sim, mas que não podia explicar em palavras. - E o que acha que era a coisa principal que desejávamos que encontrasse no topo daquela montanha?
- Alinhamento - disse uma voz em meu ouvido, ao mesmo tempo em que eu dizia o mesmo.
Virei-me numa ação reflexa e dei com Genaro, que estava exatamente atrás de mim, caminhando em minhas pegadas. A rapidez de meu movimento surpreendeu-o. Abriu-se num sorriso e então abraçou-me.
Sentamo-nos. Dom Juan disse que havia pouquíssimas coisas que ele poderia dizer sobre o impulso que eu recebera da Terra, que os guerreiros estão sempre sós em tais casos e que as verdadeiras percepções vêm muito mais tarde, depois de anos de luta.
Disse a Dom Juan que o meu problema em compreender era aumentado porque ele e Genaro estavam fazendo todo o trabalho. Eu era simplesmente um personagem passivo, que só podia reagir às suas manobras. Não podia de maneira alguma iniciar qualquer ação, pois não sabia qual seria a ação apropriada, nem como iniciá-la.
- É precisamente esta a questão - disse Dom Juan.
Você ainda não deve saber. Você será deixado para trás, sozinho para reorganizar por sua própria conta tudo o que estamos fazendo com você agora. Essa é a tarefa que todo nagual tem de enfrentar.
"O nagual Julian fez a mesma coisa comigo, de um modo muito mais rude do que o usado com você. Ele sabia o que estava fazendo; era um nagual brilhante, que foi capaz de reorganizar em poucos anos tudo o que o nagual Elias lhe havia ensinado. Fez em tempo reduzidíssimo algo que tomaria a vida toda para você ou para mim. A diferença foi que o nagual Julian só necessitava de uma leve insinuação; a partir dali sua consciência assumia o comando, abrindo a única porta que existe."
- O que quer dizer, Dom Juan, a única porta que existe? - Quer dizer que, quando o ponto de aglutinação do homem se desloca além de um limite crucial, os resultados são sempre os mesmos para qualquer homem. As técnicas para fazê-lo deslocar-se podem ser muito diferentes, mas os resultados são sempre os mesmos, ou seja: o ponto de aglutinação aglomera outros mundos, auxiliado pelo impulso da Terra..
- O impulso da Terra é o mesmo para todos os homens,
Dom Juan?
- É claro. A dificuldade para o homem médio é o diálogo interno. A pessoa só pode usar o impulso quando atinge um estado de silêncio total. Você vai comprovar esta verdade no dia em que tentar usar o impulso sozinho.
- Eu não acho que devia tentar - disse Genaro sinceramente. - São necessários anos para tornar-se um guerreiro impecável. Para suportar o impacto do impulso da Terra, você precisa ser melhor do que agora.
- A rapidez do impulso irá dissolver tudo em você - disse
Dom Juan. - Sob seu impacto, tornamo-nos nada. Velocidade e sentido de existência individual não combinam. Ontem na montanha, Genaro e eu amparamos você e servimos de âncora; de outro modo você não teria regressado. Seria como alguns homens que, propositalmente, usaram esse impulso e entraram no desconheci do, onde continuam vagando em alguma imensidão incompreensível.
Queria que ele explicasse melhor, mas recusou-se. Mudou de assunto abruptamente.
- Há uma coisa que você ainda não compreendeu sobre a Terra ser um ser consciente. E Genaro, esse pavoroso Genaro, quer empurrá-lo até que compreenda.
Ambos riram. Brincando, Genaro deu-me um empurrão e piscou para mim enquanto pronunciava: "Eu sou pavoroso."
- Genaro é um capataz terrível, vil e rude - continuou Dom Juan.- Ele não se importa com seus medos e empurra-o sem dó nem piedade. Se não fosse por mim...
Era a imagem perfeita de um velho senhor bondoso e amável. Baixou os olhos e suspirou. Os dois caíram numa gargalhada ruidosa.
Quando se aquietaram, Dom Juan disse que Genaro desejava mostrar-me o que eu ainda não havia compreendido, que a suprema consciência da Terra é o que torna possível para nós passarmos para outras grandes faixas de emanações.
- Nós, seres vivos, somos percebedores - disse ele. – E percebemos por que algumas emanações do interior do casulo do homem se alinham com algumas emanações de fora. O alinhamento, portanto, é a passagem secreta, e o impulso da Terra é a chave. Genaro quer que você observe o momento de alinhamento. Olhe, para ele!
Genaro levantou-se como um ator e fez uma mesura, depois mostrou-nos que não trazia nada em suas mangas ou nas pernas de suas calças. Tirou os sapatos e sacudiu-os para mostrar que não havia nada escondido ali também.
Dom Juan estava rindo com total abandono. Genaro moveu suas mãos para cima e para baixo. O movimento criou uma imediata fixação em mim. Senti que nós três subitamente nos levantávamos e afastávamo-nos andando da praça, comigo entre os dois.
Enquanto continuamos andando, perdi minha visão periférica. Não distinguia mais as casas ou as ruas. Não percebi as montanhas ou a vegetação, também. Em dado momento, notei que havia perdido Dom Juan e Genaro de vista; em vez disso, via dois volumes luminosos movendo-se para cima e para baixo ao meu lado.
Senti um pânico instantâneo, que controlei imediatamente.
Tive a incomum porém bem conhecida sensação de que eu era eu mesmo mas, ainda assim, não o era. Estava consciente, entretanto, de tudo ao meu redor por meio de uma capacidade ao mesmo tempo estranha e extremamente familiar. A visão do mundo veio a mim de uma só vez. Tudo em mim via; a totalidade do que eu, em minha consciência normal, chamo de meu corpo era capaz de sentir como se fosse um enorme olho que detectava tudo. A primeira coisa que detectei após ver as duas bolhas de luz, foi um mundo violeta arroxeado feito de algo que parecia painéis e dosséis coloridos. Painéis chatos, semelhantes a telas de círculos concêntricos e irregulares, estavam por toda parte.
Senti uma grande pressão sobre mim e então ouvi uma voz em meu ouvido. Estava "vendo". A voz disse que a pressão se devia a meu movimento. Eu me movia junto com Dom Juan e Genaro.
Senti uma leve sacudida, como se tivesse rompido uma barreira de papel, e encontrei-me diante de um mundo luminescente. A luz se irradiava de toda a parte, mas sem ofuscar. Era como se o sol estivesse por irromper por detrás de nuvens brancas e diáfanas.
Estava olhando para baixo, para a fonte de luz. Era uma visão maravilhosa. Não havia massas de terras, apenas nuvens brancas e fofas e luz. E estávamos caminhando sobre as nuvens.
Então algo aprisionou-me novamente. Eu me movia com a mesma velocidade das duas bolhas de luz aos meus lados. Gradualmente, começaram a perder seu brilho, tornaram-se opacas e finalmente eram Dom Juan e Genaro. Estávamos caminhando por uma rua deserta, afastada da praça principal. Então voltamos.
- Genaro ajudou-o a alinhar suas emanações com as emanações livres ligadas a outra faixa - disse-me Dom Juan. - O alinhamento deve ser um ato muito pacífico, imperceptível. Nada de sair voando, nada de espetacular.
Disse que a sobriedade necessária para deixar que o ponto de aglutinação aglomere outros mundos é algo que não deve ser improvisado. A sobriedade deve estar madura e tornar-se uma força por si mesma para que os guerreiros possam romper impunemente a barreira da percepção.
Estávamos chegando mais perto da praça principal. Genaro não havia dito palavra. Caminhava em silêncio, como que absorto em seus pensamentos. Pouco antes de chegarmos à praça, Dom Juan disse que Genaro queria mostrar-me mais uma coisa: que a posição do ponto de aglutinação é tudo, e que o mundo que ele nos faz perceber é tão real que não deixa espaço para nada além da realidade.
- Genaro fará o ponto de aglutinação dele aglomerar outro mundo só para você ver - disse-me Dom Juan. - Então, você verá que, enquanto ele o perceber, a força de sua percepção não deixará espaço para mais nada.
Genaro caminhou à nossa frente e Dom Juan ordenou-me que girasse os olhos na direção contrária do relógio enquanto olhava para Genaro, para evitar ser arrastado com ele. Obedeci. Genaro estava a cinco ou seis passos de mim. Subitamente, sua forma ficou difusa e num instante ele se desvaneceu no ar.
Pensei sobre os filmes de ficção científica que havia visto, e perguntei-me se temos consciência subliminar de nossas possibilidades.
- Genaro está separado de nós nesse momento pela força da percepção - disse Dom Juan calmamente. - Quando o ponto de aglutinação aglomera um mundo, este mundo é total. Esta é a maravilha em que os antigos videntes tropeçaram sem nunca perceber o que fosse: a consciência da Terra pode dar-nos um impulso para alinhar outras grandes faixas de emanações, e a força desse novo alinhamento faz o mundo desaparecer.
"Todas as vezes que os antigos videntes realizavam um novo alinhamento, acreditavam ter descido às profundezas abaixo ou subido céus acima. Nunca souberam que o mundo desaparece no ar quando um novo alinhamento total nos faz perceber outro mundo total.""

Extraído do livro "O Fogo Interior" de Carlos Castaneda

domingo, 9 de junho de 2013

A Explicação Tolteca de "como vemos o mundo"

Como dissemos em "O Mar Escuro da Consciência...", o jornal The New York Times em 2001 afirmou: "Somos incrivelmente afortunados em ter os livros de Carlos Castaneda. Tomados em conjunto, formam uma obra que está entre o melhor que a ciência da antropologia já produziu". Compartilhamos dessa visão. A obra está entre as melhores coisas produzidas no século passado na humanidade.
Por isso decidimos apresentar os seis pontos básicos explicativos nos quais se assenta a visão tolteca de "como o ser humano vê a realidade do mundo através dos sentidos". Na obra essa visão é chamada de "As 6 proposições explicativas" e foi anexada num apêndice no final do livro O Presente da Águia em português e talvez na edição espanhola. Não existe na edição em inglês, não sabemos porque.
Esse texto de hoje é longo, denso, e deveria ser lido com intervalos para digerir o que se leu. Quem já leu a obra ou pelo menos as 5 ou 6 postagens sobre Castaneda neste blog terá mais facilidade para compreender, principalmente a postagem O Mundo Mágico Tolteca de Dom Juan e Castaneda, onde alguns conceitos do universo tolteca estão explicados, como o Intento, O Mar Escuro da Consciência, os comandos da Águia, ponto de aglutinação, o desnate, círculos de poder, etc. Quem quiser acessar essas postagens no blog, clique a palavra Castaneda em "Pesquise neste blog", á esquerda, na página inicial.
Infelizmente as traduções brasileiras traíram os leitores dos livros, fato este reconhecido por uma das tradutoras, mas nós re-traduzimos os termos neste texto, seguindo os conceitos toltecas
Vamos lá:

As 6 proposições explicativas

"Apesar das assombrosas manobras que Dom Juan fez com a minha consciência, durante anos eu persistia com teimosia em tentar avaliar o que ele fazia racionalmente. Embora tenha escrito longamente sobre essas manipulações, escrevi sempre de um ponto de vista experimental, e, sobretudo, de um ângulo estritamente racional. Imerso como estava na minha própria racionalidade, eu era incapaz de reconhecer as metas do seu ensinamento. Para poder entender a extensão destes objetivos com certo grau de precisão, foi necessário que eu “perdesse minha forma humana” e “chegasse à totalidade de mim mesmo”.
Os ensinamentos de Dom Juan tinham como objetivo me guiar no segundo estágio do desenvolvimento do guerreiro: a compreensão e total aceitação de que há outro tipo de conscientização dentro de nós. Este estágio era dividido em duas categorias. A primeira e mais abrangente, para a qual pediu a ajuda de Dom Genaro, era a que lidava com duas atividades. Consistia em mostrar-me certos processos, ações e métodos organizados para exercitar minha conscientização. A segunda preocupava-se com a apresentação de seis proposições explicativas.
Em vista da dificuldade que tive em deixar minha racionalidade aceitar o que me estava sendo ensinado, Dom Juan apresentou essas proposições explicativas em termos do meu preparo escolástico.
A primeira coisa que fez como introdução, foi criar uma divisão em mim por meio de um soco preciso aplicado na minha omoplata direita, soco esse que me fez entrar num estado invulgar de conscientização - estado que eu era incapaz de me lembrar quando voltava ao normal.
Até aquele ponto minha conscientização tinha um inegável senso de continuidade, que eu acreditava ser o resultado da minha experiência de vida. Eu achava que era um todo e que podia ser responsável por tudo o que tinha feito. Sobretudo, estava convencido de que o centro daquela conscientização encontrava-se na minha cabeça. Contudo, Dom Juan me provou com seu soco que existe um centro na espinha, à altura das omoplatas, que é obviamente um local de intensificada conscientização.
Quando o questionei sobre a natureza daquele soco, Dom Juan explicou que o nagual é um líder que tem a responsabilidade de abrir os caminhos, e que deve ser impecável, a fim de passar a seus guerreiros um espírito de confiança e clareza. Só nessas circunstâncias o nagual se encontra na posição de aplicar o soco nas costas e forçar uma mudança de conscientização; pois é o poder do nagual que nos leva a fazer essa transição. Se o nagual não for um praticante impecável, não há mudança, como aconteceu quando eu tentei em vão fazer os aprendizes entrarem num estado de elevada conscientização batendo nas suas costas antes de nos aventurarmos a atravessar a ponte.
Perguntei a Dom Juan o que acontecia naquela mudança de conscientização. Ele disse que o nagual tem de aplicar o soco numa região precisa, que varia de pessoa para pessoa, mas que se localiza sempre na área geral das omoplatas. Um nagual deve “ver” a fim de determinar o ponto, localizada na periferia do corpo luminoso da pessoa e não no próprio corpo físico; uma vez identificado o local, ele mais empurra que bate, formando assim uma concavidade, uma depressão na casca luminosa. O estado de elevada conscientização que resulta desse soco dura enquanto a depressão permanece. Algumas cascas luminosas voltam à forma original por si só, outras têm de ser apertadas em outra região para retornarem ao normal, e outras ainda nunca voltam à forma de ovo.
Dom Juan explicou que os videntes vêem a conscientização como um brilho peculiar. A conscientização da vida diária é um brilho no lado direito, estendendo-se do corpo físico à periferia de nossa luminosidade. A elevada conscientização é um brilho mais intenso, associado a uma grande velocidade e concentração, brilho esse que satura a periferia do lado esquerdo.
Disse que os videntes explicam o que acontece com o soco do nagual como um deslocamento temporário de um centro localizado no casulo luminoso do corpo. As emanações da Águia são na realidade avaliadas e selecionadas para o uso desse centro. O soco desregula sua função normal.
Através de suas pesquisas, os videntes concluíram que os guerreiros devem ser colocados em estado de desorientação. A mudança na maneira com a qual a conscientização opera nessas condições torna esse estado um campo ideal para elucidar os comandos da Águia, permitindo que o guerreiro funcione como se estivesse com a conscientização da vida diária, com a diferença de poder focalizar tudo o que quiser com uma força e clareza sem precedentes.
Dom Juan falou que minha situação era semelhante à que ele próprio tinha experimentado. Seu benfeitor criou uma profunda divisão nele, fazendo-o trocar várias vezes da conscientização do lado direito para o esquerdo e vice-versa. A clareza e liberdade do seu lado esquerdo se opunham diretamente às racionalizações e defesas sem fim do lado direito. Disse que todo guerreiro é lançado nas profundezas dessa mesma situação que se molda por essa polaridade, e que o nagual cria e reforça essa divisão como um meio de liderar os aprendizes à convicção de que existe uma conscientização não exploradas pelos seres humanos.

1 - O que percebemos como "mundo" são os comandos (emanações) da Águia (ou o Mar Escuro da Consciência".
Dom Juan explicou que o mundo que percebemos não tem existência transcendental. Nossa familiaridade com ele nos leva a acreditar que o que percebemos é um mundo de objetos existentes exatamente como os percebemos, quando na verdade não há um mundo de objetos, mas sim um universo de emanações da Águia.
Essas emanações representam a única realidade imutável. É uma realidade que engloba tudo o que existe, o perceptível e o não-perceptível, o conhecível e o não-conhecível.
Os videntes que vêem as emanações da Águia chamam-nas de comandos por causa da sua força compulsória. Todas as criaturas vivas são compelidas a usar as emanações, e usam-nas sem nunca saberem o que elas significam. O homem padrão interpreta-as como realidade. E os videntes que vêem as emanações interpretam-nas como o regulamento.
Apesar dos videntes verem as emanações, não há um meio deles saberem o que estão vendo. Ao invés de se complicarem em conjeturas inúteis, os videntes entram numa especulação funcional de como os comandos da Águia podem ser interpretados. Dom Juan insistia em dizer que intuir uma realidade que transcende o mundo que percebemos fica no nível de conjetura; não é suficiente supor que os comandos da Águia são percebidos de uma vez só por todas as criaturas vivas da terra e que não há uma criatura que perceba igual à outra. Os guerreiros devem ter como objetivo presenciar o fluxo das emanações e “ver” como o homem e os outros seres vivos usam-nas para construir seu mundo perceptível.
Quando eu propus o uso da palavra "descrição" em vez de comandos da Águia, Dom Juan esclareceu que não estava construindo uma metáfora. Disse que a palavra "descrição" tem uma conotação de concordância do homem, e que o que percebemos deriva de um comando no qual a concordância do homem é deixada de fora.

2 - A atenção é o que nos faz perceber os comandos da Águia como a ação do "desnate".
Dom Juan disse que a percepção é uma faculdade física cultivada por todos os seres vivos da terra; nos seres humanos o resultado final é conhecido pelos videntes como "atenção". Acrescentou que qualquer tentativa de defini-la é perigosa, pois transforma uma realização mágica numa coisa comum. Descreveu a atenção como fisgar e canalizar a percepção. Disse que é a nossa maior realização individual, cobrindo toda a gama de alternativas e possibilidades humanas.
Fez uma distinção precisa entre alternativas e possibilidades As alternativas humanas são nossa capacidade de escolher como pessoas que funcionam dentro do seu meio social. Nosso raio de ação nessa esfera é bastante limitado. As possibilidades humanas são nossa capacidade de alcance como seres mágicos.
Desenvolveu um esquema classificatório de três tipos de atenção, enfatizando que chamá-los de "tipos" podia levar a dúvidas. São, na verdade, três níveis de conhecimento - a primeira, a segunda e a terceira atenção, cada uma com seu domínio independente, cada uma completa por si só.
Para um guerreiro nos estágios iniciais de treino, a primeira atenção é a mais importante das três. Dom Juan disse que suas proposições explicativas eram tentativas de trazer a um primeiro plano o modo pelo o qual a primeira atenção funciona, algo que passa completamente despercebido por nós. Considerava imperativo que os guerreiros compreendessem a natureza da primeira atenção se quisessem aventurar-se nas outras duas.
Explicou que para a primeira atenção lidar com os comandos da Águia ela foi ensinada a mover-se instantaneamente por um espectro completo das emanações da Águia, sem de qualquer forma dar importância a isso, a fim de alcançar as "unidades perceptíveis" que todos nós aprendemos a aceitar como perceptíveis. Essa realização da nossa primeira atenção é conhecida pelos videntes como "desnate" porque engloba a capacidade de afastar as emanações supérfluas e escolher as emanações a serem enfatizadas.
Dom Juan elaborou esse processo tomando como exemplo a montanha com que estávamos nos deparando naquele momento. Argumentou que a minha primeira atenção, quando eu olhava a montanha, tinha desnatado um infinito número de emanações, para obter um milagre de percepção, um desnate que é conhecido de todos os seres humanos porque cada um deles próprios o alcançou por si mesmo.
A argumentação dos videntes é que tudo o que a primeira atenção afasta a fim de obter um desnate não pode ser recuperado dela em nenhuma condição. Do momento em que aprendemos a perceber em termos de desnates, as emanações supérfluas deixam de ser registradas por nossos sentidos. Para elucidar esse ponto ele me deu como exemplo o desnate "corpo humano". Disse que nossa primeira atenção é completamente ignorante das emanações que formam a casca externa luminosa do nosso corpo físico; nosso casulo em forma de ovo não está sujeito à percepção; as emanações que o tornariam perceptível foram descartadas em favor daquelas que tornam possível à primeira atenção perceber o corpo físico como é conhecido por nós.
O objetivo perceptivo a ser atingido pelas crianças enquanto estão adquirindo maturidade, é aprender a isolar as emanações apropriadas a fim de ser capazes de canalizar a sua percepção caótica e transformá-la na primeira atenção; ao fazer isso aprendem a construir os desnates. Todos os seres humanos maduros que rodeiam as crianças ensinam-lhes como desnatar. Cedo ou tarde as crianças aprendem a controlar sua primeira atenção para perceber os desnates em termos semelhantes aos que seus mestres percebem.
Dom Juan ficava admirado com nossa capacidade de trazer ordem ao caos de percepção. Afirmava que cada um de nós, a nosso próprio modo, é um mágico magistral, e nossa magia consiste em impregnar de realidade os desnates que nossa primeira atenção aprendeu a construir. Nossa percepção em termos de desnates provém dos comandos da Águia, mas a percepção desses comandos como objetos provém do nosso poder, nosso Dom de mágica. Nosso erro, por outro lado, é que sempre acabamos sendo parciais ao esquecermos que nossos desnates são reais apenas no sentido de que os percebemos como reais, em virtude do poder que temos de fazer isso. Dom Juan chamava a isso erro de julgamento, que destrói em nós a riqueza de nossas origens misteriosas.

3 - Os desnates recebem significado do primeiro anel de poder.
Dom Juan disse que o primeiro anel de poder é a força que se desprende das emanações da Águia para agir exclusivamente na nossa primeira atenção. Explicou que foi descrita como "anel" devido ao seu dinamismo, seu movimento ininterrupto. Foi chamado de anel de "poder", primeiro por seu caráter obrigatório, e segundo por sua capacidade única de parar suas obras, mudá-las ou reverter sua direção.
Seu caráter obrigatório se faz ver melhor pelo fato de que não somente é premente à primeira atenção construir e perpetuar desnates, mas ela pede a concordância de todos os participantes. A concordância de reprodução fiel de desnates é exigida de todos nós, pois nossa concordância ao primeiro anel de poder tem de ser total.
É precisamente essa concordância que nos dá a certeza (errada) de que os desnates são objetos existentes como tal, independentes da nossa percepção. Além do mais, a obrigatoriedade do primeiro anel de poder não cessa depois da nossa concordância inicial, mas exige que renovemos continuamente tal concordância. Temos de operar durante toda a nossa vida, por exemplo, como se cada um de nossos desnates fosse perceptivamente o mesmo para todos os seres humanos, a despeito da língua e da cultura. Dom Juan admitia que a coisa é séria demais para ser vista como uma piada, mas que o caráter compulsório do primeiro anel de poder é tão intenso que nos força a crer que se uma "montanha" pudesse ter consciência própria, ver-se-ia como o desnate que aprendemos a construir.
Para os guerreiros, a característica mais válida do anel de poder é sua capacidade de interromper seu fluxo de energia ou de pará-lo completamente. Dom Juan disse que é uma capacidade latente que existe em todos nós como uma unidade de cópia (backup). Em nosso mundo estreito de desnates não há necessidade de ser usada. Como nos apoiamos e defendemos com a rede da primeira atenção, não temos consciência de que possuímos recursos ocultos do qual nem suspeitamos. Se uma escolha alternativa nos é apresentada, tal como a opção do guerreiro em utilizar a segunda atenção, a capacidade latente do primeiro anel de poder pode ser posta em funcionamento com resultados espetaculares (NR: e não “falhos”, conforme traduzido!!!).
Dom Juan enfatizou que o processo envolvido em ativar essa capacidade latente é a maior realização do feiticeiro; é chamado de bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Explicou que as emanações da Águia, que já foram isolados pela primeira atenção para construir o mundo da vida diária, exercem uma inflexível pressão sobre a primeira atenção. Para que essa pressão cesse de agir, é preciso que seja deslocada. Os videntes chamam a isso interrupção ou parada do primeiro anel de poder.

4 - "Intento" é a força que move o primeiro anel de poder.
Dom Juan explicou que o intento não se refere a ter uma intenção, ou a querer uma coisa ou outra, mas a uma força imponderável que faz com que tenhamos atitudes que podem ser descritas como intenção, desejo, volição, e assim por diante. Don Juan não a definiu como uma condição de ser, vinda de si próprio, produzida por socialização ou reação biológica, mas sim como uma força particular, íntima, que possuímos e usamos individualmente como uma chave que faz com que o primeiro anel de poder se mova de formas aceitáveis. O intento é o que dirige a primeira atenção a focalizar qualquer das emanações da Águia dentro de um certo âmbito. E o intento é também o que comanda o primeiro anel de poder a interromper ou parar fluxo de energia dele.
Dom Juan sugeriu que eu pensasse no intento como numa força invisível que existe no Universo, desconhecida de si própria (?) e ainda assim agindo sobre tudo - força que cria e mantém os desnates.
Afirmou que os desnates devem ser recriados incessantemente, a fim de serem impregnados de continuidade. Para recriá-los toda vez com o frescor necessário para formar um mundo vivo, temos de intentá-los toda vez que os construímos. Por exemplo, temos de intentar a "montanha" em toda sua complexidade para o desnate ser completamente materializado. Disse que para um observador, comportando-se puramente na base da primeira atenção, sem a interferência do intento, a "montanha" pode parecer um desnate inteiramente diferente. Pode talvez parecer um desnate "forma geométrica" ou "mancha amorfa de coloração". Para que o desnate "montanha" seja completo, o observador tem de intentá-lo, quer involuntariamente, através da força compulsória do primeiro anel de poder, quer deliberadamente, através do treino do guerreiro.
Ele salientou três modos pelos quais o intento vem a nós. 
* O primeiro e mais comum é conhecido pelos videntes como "intento do primeiro anel de poder". É um intento cego que nos vem puramente ao acaso. É como se tivéssemos sido postos em seu caminho, ou como se o intento tivesse sido posto no nosso. Inevitavelmente nos encontramos presos em suas malhas sem termos a menor idéia do que está nos acontecendo.
* O segundo meio de nos depararmos com o intento é quando ele nos vem por sua própria conta. Isso exige um grau considerável de determinação, um senso de propósito da nossa parte. Só com nossa capacidade de guerreiros conseguimos nos colocar voluntariamente no caminho do intento, acenar para ele, por assim dizer. Dom Juan explicou que sua insistência em ser um guerreiro impecável nada mais era que um esforço de deixar o intento saber que ele estava se colocando no seu caminho.
Dom Juan dizia que os guerreiros chamam a esse fenômeno "poder". Então, quando falam em ter poder pessoal, referem-se ao fato de o intento chegar a eles por sua própria conta. O resultado disso, dizia ele, podia ser descrito como uma facilidade em encontrar novas soluções - ou a facilidade em causar efeitos nos acontecimentos ou nas pessoas. É como se as possibilidades desconhecidas previamente pelos guerreiros se tornassem evidentes de repente. Assim, um guerreiro impecável nunca planeja nada antes do tempo, mas seus atos são tão decisivos que parecem ter sido planejados detalhadamente de antemão.
* O terceiro meio de encontrarmos o intento é o mais raro e o mais complexo dos três; acontece quando o intento nos permite que nos adaptemos a ele. Dom Juan descrevia aquele estado como o verdadeiro momento de poder - a culminação de uma luta interminável pela impecabilidade. Só os guerreiros supremos o atingem, e enquanto permanecem nesse estado o intento permite que eles a manipulem à vontade. É como se o intento tivesse se fundido naqueles guerreiros, e ao fazer isso os tivesse transformado numa força pura e ilimitada. Os videntes chamavam a esse estado "intento do segundo anel de poder", ou "vontade".

5 - O primeiro anel de poder pode ser detido por um bloqueio funcional da capacidade de construir desnates.
Dom Juan disse que a função dos não-fazeres é criar uma obstrução na focalização habitual da nossa primeira atenção. Os não fazeres são, nesse sentido, manobras designadas a preparar a primeira atenção para o bloqueio funcional do primeiro anel de poder, ou em outras palavras, a interrupção do intento.
Ele explicou que esse bloqueio funcional, o único método de utilizar sistematicamente a capacidade latente do primeiro anel de poder é uma interrupção temporária que o benfeitor cria na capacidade de construir desnates dos seus discípulos. É uma  premeditada e poderosa intromissão artificial, à primeira atenção, designada para empurrá-la além das aparências dos conhecidos desnates; uma intromissão conseguida por meio da obstrução do intento do primeiro anel de poder.
Disse que para levar a cabo essa interrupção o benfeitor trata o intento como um processo, como se ela fosse um fluxo, uma corrente de energia que pode eventualmente ser cessada ou ser reorientada. A visou repetidas vezes que se tem de reconhecer que uma interrupção dessa natureza é um choque de tal magnitude que pode forçar o primeiro anel de poder a parar completamente a qualquer hora; é impossível concebermos tal situação nas nossas condições normais de vida. É inconcebível que possamos des-andar os passos que demos ao consolidarar nossa percepção, mas é viável que sob o impacto dessa interrupção possamos ser colocados numa posição perceptiva muito semelhante aos nossos inícios, quando os comandos da Águia eram emanações que ainda não tínhamos impregnado de significado.
Dom Juan costumava dizer que qualquer procedimento que o benfeitor pudesse usar para criar essa interrupção devia ser intimamente ligado com o seu poder pessoal. Portanto , um benfeitor não usa nenhum processo para manipular o intento, mas sim o move e o faz utilizável pelo aprendiz através do seu poder pessoal.
Em meu caso, Dom Juan atingiu o bloqueio funcional do primeiro anel de poder por meio de um processo complexo, uma combinação de três métodos: a ingestão de plantas alucinógenas; a manipulação do corpo; a manipulação do intento.
No início apoiou-se muito na ingestão de plantas alucinógenas, aparentemente em vista da inflexibilidade do meu lado racional. O efeito delas foi tremendo, mas ainda assim retardou a interrupção que ele procurava. O fato daquelas plantas serem alucinógenas fez com que minha razão aceitasse reunir todos seus recursos disponíveis e continuasse mantendo as rédeas do controle. Fiquei convencido de que podia explicar com lógica tudo o que estava sentindo, juntamente com as proezas inconcebíveis que Dom Juan e Dom Genaro costumavam realizar, para criar as interrupções, como distorções perceptivas causadas pela ingestão dos alucinógenos. Por outro lado, contudo, não havia meio possível de eu poder ter escapado ao efeito do bloqueio do primeiro anel de poder, que Dom Juan tinha programado atingir.
Dom Juan disse que o efeito mais notável das plantas alucinógenas era o que eu interpretava, sempre que as ingeria, como uma sensação peculiar de que tudo à minha volta exsudava uma extraordinária riqueza. Via cores, formas, detalhes que nunca tinha visto antes. Ele utilizou essa condição da minha habilidade elevada de perceber, e com uma série de ordens e comentários me forçou a um estado de agitação nervosa. Ele então manipulou meu corpo e me fez trocar a conscientização da direita para a esquerda e vice-versa, até criar visões fantasmagóricas ou cenas extremamente reais com criaturas em três dimensões que positivamente não podiam existir no mundo.
Explicou que quando a relação entre nosso intento e os desnates que construímos é quebrada, nunca mais pode ser restaurada. Daí por diante adquirimos a capacidade de captar uma corrente de que ele denominava "intento fantasma", ou o intento dos desnates  que não estão presentes no momento ou lugar da interrupção, mas que tornam o intento deles acessível a nós, através de algum aspecto da memória.
Afirmou que com a suspensão do intento do primeiro anel de poder nós nos tornamos receptivos e maleáveis; o nagual pode então introduzir o intento do segundo anel de poder. Ele estava convencido de que as crianças têm uma posição de receptividade semelhante; sendo desprovidas de intento, elas estão prontas a serem marcadas com qualquer intento que seus mestres lhes dêem.
Depois de um período de ingestão contínua de plantas alucinógenas, Dom Juan cortou totalmente o uso delas. Atingiu, no entanto, maiores interrupções em mim ao manipular meu corpo e me fazer mudar os estados de conscientização, juntamente com manobras do intento. Para aquele efeito ele usava quaisquer fenômenos capazes de apagar perceptivamente os limites delineados dos desnates, tais como chuva, relâmpago, crepúsculo e escuridão. Através de uma combinação de comandos hipnotizadores (e comentários adequados), ele criava uma corrente de “intento fantasma” e eu era levado a sentir os desnates familiares como coisas inconcebíveis, que só eu estava presenciando, sem a concordância de qualquer outra pessoa da terra.  Ele definiu isso como “uma rápida olhada na imensidão da Águia”.
Dom Juan explicou que a concordância que temos um com o outro sobre a existência de nossos desnates, além de ser uma combinação, é também um elo de associação. Esse elo é baseado no caráter compulsório do primeiro anel de poder. Exigindo uma concordância nossa em relação à construção fiel dos desnates, o primeiro anel de poder cria em nós não só a certeza de que esses desnates são objetos como também nos dá a certeza de que esses desnates são absolutamente homogêneos entre os membros da nossa espécie. Esse elo de associação não precisa ser reiterado. Uma vez convencidos de sua existência, ele se torna uma base de apoio para nós durante toda nossa vida.

Dom Juan me guiou magistralmente através de inúmeras interrupções do intento, até que eu? fiquei convencido, como vidente, que meu corpo mostrava o efeito do bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Ele disse que podia ver uma capacidade invulgar no meu casulo em forma de ovo, em volta da região das minhas omoplatas. Descreveu-a como uma rugosidade que se formava exatamente como se a casca de luminosidade fosse um lençol de músculo sendo contraído pelos nervos.
Para mim, o efeito do bloqueio funcional do primeiro anel de poder era conseguir apagar a certeza que eu tinha tido toda a vida de que o que meus sentidos percebiam era "real". Entrei tranqüilamente num estado de silêncio interior. Dom Juan disse que o que dá aos guerreiros aquela extrema falta de confiança que seu benfeitor sentiu no fim da vida, aquela resignação à derrota que ele próprio estava sentindo, é o fato de que apenas uma olhadela na imensidão da Águia, já nos deixa sem esperança. A esperança é o resultado de nossa familiaridade com nossos desnates e a idéia de que podemos controlá-los. Em tais momentos só o caminho dos guerreiros pode nos fazer persistir em nosso esforço de descobrir o que a Águia ocultou de nós, mas sem esperança de jamais compreender o que descobrirmos.

6 – A segunda atenção (NR: este título foi suprimido na edição em português)
Dom Juan explicou que o exame da segunda atenção devia começar com a constatação de que essa força do primeiro anel de poder que nos encaixota é uma concreta fronteira física. Os videntes descreveram-na como uma parede de névoa, uma barreira que pode ser sistematicamente levada à nossa conscientização por meio do bloqueio do primeiro anel de poder; então pode ser penetrado através do treino do guerreiro.
Ao penetrar na parede de névoa, entra-se num extenso estado intermediário. A tarefa dos guerreiros é atravessá-la até alcançar outra linha limite, que têm de penetrar a fim de entrarem em o que é propriamente o outro “si mesmo” ou a segunda atenção.
Dom Juan disse que ambas as linhas limites são perfeitamente distinguíveis. Quando os guerreiros penetram na parede de névoa sentem que seus corpos estão sendo apertados, ou sentem um intenso tremor dentro da cavidade de seus corpos, basicamente à direita do estômago ou pelo meio do corpo, da direita para a esquerda. Quando perfuram a segunda linha, sentem um estalo agudo na parte superior do corpo, como o som de um pequeno galho seco sendo partido em dois.
As duas linhas que limitam as duas atenções e as selam individualmente são conhecidas pelos videntes como linhas paralelas. Selam as duas atenções porque se estendem até o infinito, nunca permitindo uma travessia, a não ser se forem perfuradas.
Entre as duas linhas há uma área de conscientização específica, que os videntes chamam de limbo ou mundo entre as linhas paralelas. É um espaço real entre dois enormes âmbitos de emanações da Águia, emanações essas que estão dentro das possibilidades de conscientização do homem. Um é o âmbito que forma o eu da vida diária, e o outro é o âmbito que forma o outro eu. Como o limbo é uma área de transição, os dois âmbitos de emanações se sobrepõem lá. A fração do âmbito com o qual estamos familiarizados, que se estende sobre aquela área, prende uma orla de nosso primeiro anel de poder; sua capacidade de construir desnates nos força a perceber uma quantidade de desnates que são quase iguais aos da nossa existência diária, só que parecendo bizarros e torcidos. Assim, o limbo tem características específicas que não mudam arbitrariamente cada vez que se entra lá. Há nele características físicas que se assemelham ao que consideramos aspectos físicos nos desnates da nossa vida diária.
Dom Juan afirmou que a sensação de peso que se sente no limbo é devido à carga crescente colocada na nossa primeira atenção. Na área posterior à parede de névoa, ainda podemos nos comportar como nós mesmos; é como se estivéssemos num mundo grotesco porém ainda reconhecível. À medida que nos aprofundamos para longe da parede de névoa, torna-se progressivamente mais difícil reconhecer seus aspectos ou comportar-se em termos familiares a nós mesmos.
Explicou que a parede de névoa podia se parecer com qualquer outra coisa, mas que os videntes optaram por acentuar a que consome menos energia; visualizá-la como uma parede de névoa não envolve esforço algum.
O que existe além da segunda linha limite é conhecido pelos videntes como o outro eu, ou o mundo paralelo; e o ato de penetrar através de ambos os limites é conhecido como "cruzar as linhas paralelas".
Dom Juan achava que eu captaria esses conceitos com mais firmeza se descrevesse cada esfera de conscientização como uma específica predisposição de percepção. Disse que na esfera da conscientização da vida diária estamos indissoluvelmente emaranhados nas tendências perceptivas da primeira atenção. Do momento em que o primeiro anel de atenção começa a construir os desnates, o modo de construí- los se torna nossa tendência normal de percepção. Quebrar a força que ata a tendência perceptiva da primeira atenção é quebrar a primeira linha limite. Nossa tendência perceptiva normal então passa para a área intermediária entre as linhas paralelas. Continua-se a construir desnates quase normais por algum tempo. Mas quando se aproxima do que os videntes chamam de segunda linha limite, a tendência perceptiva da primeira atenção começa a diminuir, perdendo a força. Dom Juan disse que essa transição é marcada por uma súbita incapacidade de lembrar ou de perceber, através do auto-exame, o que se está fazendo.
Quando a segunda linha limite é alcançada, o outro eu começa a agir sobre os guerreiros que estão fazendo a viagem. Se são inexperientes, sua consciência fica vazia. Dom Juan afirmou que isso acontece porque eles se aproximam de um espectro das emanações da Águia que ainda não tem uma tendência perceptiva sistematizada para eles. Minhas experiências com La Gorda e a mulher nagual além da parede de névoa foram um exemplo dessa incapacidade. Viajei para o outro eu mas não pude dar conta do que tinha feito, simplesmente porque minha segunda atenção ainda estava sem formulação e não me permitiu lidar com coisa alguma que tinha percebido.
Dom Juan explicou que se começa a conquistar o segundo anel de poder forçando a segunda atenção a acordar de sua dormência. O bloqueio funcional do primeiro anel de poder realiza isso. Então a tarefa do mestre é recriar a condição que lançou o primeiro anel de poder, a condição de ser saturado de intento. O primeiro anel de poder foi colocado em movimento pela força da intento, que nos foi dada por quem nos ensinou como desnatar. Como meu mestre, ele estava me dando então um novo intento que iria criar um novo ambiente perceptual.
Dom Juan disse que se leva toda uma vida de disciplina incessante, que os videntes chamam de intento inflexível, para preparar o segundo anel de poder a construir desnates vindos do outro âmbito das emanações da Águia. Aperfeiçoar a tendência perceptiva do eu paralelo é uma proeza de valor incomparável que poucos guerreiros realizam. Silvio Manuel era um desses poucos.
Dom Juan aconselhou-me a não tentar deliberadamente aperfeiçoar isso. Se viesse a acontecer, seria um processo natural que se desenvolveria sem grande esforço. Explicou que a razão dessa quase indiferença reside na consideração prática de que aperfeiçoar essa tendência faz com que se torne mais difícil quebrá-la, pois a meta dos guerreiros é a capacidade de quebrar as duas tendências perceptivas a fim de entrar na terceira atenção".

domingo, 14 de abril de 2013

Seres Cíclicos

Poucas pessoas conhecem Armando Torres, um índio mexicano e escritor que foi aprendiz de Carlos Castaneda. Em seu livro Encontros Com o Nagual, editado por seu amigo Juan Yoliliztli, uma figurinha carimbada de quem fiquei amigo, ele fala de uma forma surpreendentemente nova de temas caros ao buscadores da verdade: vida após a morte, reencarnação, imortalidade, e por aí afora. Este texto fala de conceitos toltecas como A Águia ( O Mar escuro da Consciência), o ponto de aglutinação (ou ponto de encaixe da Consciência), o duplo de ensonhos (ou corpo energético), o caminho do guerreiro, e outros que estão  citados e explicados na obra de Castaneda. Sugerimos lê-la. Vamos lá:


"Pouco antes de conhecer Carlos, influenciado por minhas leituras orientais, eu havia sido partidário da doutrina da reencarnação. Parecia uma alternativa plausível à convicção Cristã na ressurreição dos corpos. Porém, em uma conferência, ele observou que os dogmas do cristianismo e das religiões do oriente eram suspeitosamente parecidas, porque partiram de um denominador comum: o medo da morte.
Seu comentário me lançou na perplexidade. Esse era um enfoque totalmente novo para um assunto que sempre me havia fascinado.
Quando perguntei sua opinião, Carlos tentou desviar meu interesse para outro tópico, como se não valesse a pena falar daquele assunto. Mas depois, mudando de tática, falou que todas as minhas crenças sobre a sobrevivência da personalidade eram o resultado das sugestões sociais.
"Foi dito a você que nós temos tempo, que há uma segunda oportunidade. Mentiras!
"Os videntes afirmam que o ser humano é como uma gota de água que se desprendeu do oceano da vida e começou a brilhar por conta própria. Esse brilho é o ponto de aglutinação da percepção. Mas, uma vez dissolvido o casulo luminoso, a consciência individual se desintegra e se faz cósmica, como poderia regressar? Para os bruxos, a vida é única. E você espera que se repita?
"Suas idéias partem da exagerada opinião que você tem sobre sua unidade. Mas, como todo o resto, você não é um bloco sólido, é fluido. Seu 'eu' é uma soma de crenças, uma lembrança, nada concreto!"
Perguntei a que se devia então que as religiões propagassem outros tipos de doutrinas.
Respondeu:
"Isso é fácil de entender; são respostas ao medo ancestral do ser humano. Cada cultura gerou suas próprias proposições explicativas, mas só os videntes foram mais além das crenças, corroborando esses aspectos das emanações da Águia por si mesmos"-
Ele me explicou que existem no universo feixes de energia aos quais todos estamos enganchados como se engancham as contas de um rosário entre si. Nós somos cíclicos; somos o resultado de um selo luminoso e toda vez que nasce um novo ser, encarna nele a natureza desse padrão. Mas a corrente que nos une não é de natureza pessoal, não implica a transferência de memória ou de personalidade, nem nada do estilo.
"Para sobreviver à morte é necessário ser bruxo. Ao satisfazer a Águia (O Mar Escuro da Consciência) com uma réplica vivencial, os bruxos conseguem manter acesa a chama de sua consciência individual por eternidades. Mas isso é um feito. Por um acaso a maior realização de um guerreiro deveria ser um presente?"
Comentei que recentes estudos tinham demonstrado que algumas pessoas, em circunstâncias muito especiais, podiam se lembrar de eventos de uma vida passada.
Afirmou que essa era uma interpretação errônea dos fatos.
"É certo que qualquer um pode sintonizar determinadas emanações de vivências que aconteceram em outros tempos e sentir que viveu não uma, mas muitas vidas. Mas isso é só um alinhamento entre milhões de possíveis alinhamentos".

 A alternativa do bruxo

Perguntei se a pessoa comum tem alguma possibilidade de sobreviver à morte.
 Respondeu que sempre havia uma possibilidade: o caminho do guerreiro.
"Se você quiser entender isso, não o veja em branco e preto. Veja-o em termos do movimento do ponto de aglutinação. O desafio do guerreiro é fixar sua atenção, lutando por manter a consciência de sua individualidade, inclusive depois de sua partida.
"Quando alcançarmos certo limiar de percepção, vemos que a morte física é um desafio. Assim como há duas formas de viver, há duas formas de morrer; em ambos os casos a pessoa pode agir como um guerreiro impecável ou como um idiota inconsciente. Essa diferença é tudo".
"Quer dizer que o que acontece depois da morte tem a ver com nossa preparação?"
Percebendo a intenção de minha pergunta, respondeu:
"Sim, mas não do modo como você quer interpretar isto. A idéia de que ser bom ou cumprir certos mandamentos facilitam as coisas é uma falácia à qual somos induzidos pela ordem social. A única preparação que vale a pena são os rigores do caminho do guerreiro, que nos ensina como economizar energia e sermos impecáveis.
"Considerando que há duas formas de viver e de morrer, há também dois tipos de pessoas: aqueles que pensam que são imortais e aqueles que já estão mortos. Os primeiros guardam esperanças, os últimos não. Um guerreiro é alguém que sabe que o tempo dele já terminou, mas continua lutando, porque essa é sua natureza. Se você olhar nos olhos dele, contemplará o vazio".
"Então, em que consiste realmente a alternativa do bruxo?".
"Há uma única forma na qual o homem pode se adiantar ao seu fim: através da manipulação de sua energia. Esse trabalho consiste de ensonho, espreita e recapitulação. As três técnicas se fundem em um mesmo resultado: o complemento do corpo energético.
"Em um sentido geral, a duração de nossa existência depende em grande medida de como tratamos nossa energia. Nós deixamos a vida por assim dizer 'grudada' nos assuntos diários, vamos nos desgastando nas coisas que vemos e tocamos, e por isso morremos. Mas se nós chamarmos de volta toda essa força vital através da Recapitulação, a morte já não poderá ser a mesma, porque teremos nossa totalidade.
"Do ponto de vista do vidente, um guerreiro que já recapitulou a vida dele não morre. Sua atenção está tão compacta que é uma linha contínua e coerente, não se dispersa. Sua recapitulação não termina nunca, continua para toda a eternidade, porque é o trabalho de desandar os passos, de andar em dia consigo mesmo e estar completo.
"Assim como necessitamos de certa quantidade de experiência para funcionarmos como indivíduos, o bruxo requer suficiente prática na segunda atenção para verdadeiramente ser um bruxo; caso contrário, não estará preparado para quando chegar sua hora e partirá ao infinito como um bruxo incompleto. Não obstante, um guerreiro que se esforçou durante toda sua vida para alcançar os parâmetros da impecabilidade tem uma segunda oportunidade. Pode agrupar os eventos de sua existência e recolher a energia que ficou espalhada para passar ao mundo do nagual".
 Perguntei o que fazia um bruxo naquele mundo.
Respondeu:
"Para a maioria das pessoas, morrer é entrar em um mundo de aspectos incomuns, igual a esses que nós testemunhamos durante os sonhos comuns. Lá, nada tem uma sucessão linear e os conceitos de tempo, espaço e gravidade não se aplicam. Imagine então tudo o que pode fazer um guerreiro que tem o controle de seu ”duplo de ensonhos” em uma viagem dessa natureza! Como você entenderá, isso é uma façanha da consciência.
"Um bruxo é alguém que passa sua vida se afinando através de árdua disciplina. Quando chega sua hora, enfrenta sua morte como uma nova etapa no caminho. Ao contrário do homem comum, ele não tenta encobrir o medo dele com falsas esperanças.
"O guerreiro parte para sua viagem definitiva cheio de deleite, e sua morte o cumprimenta e lhe permite conservar sua individualidade como troféu. Seu sentido de ser está afinado a tal grau que ele se transforma em energia pura e desaparece com um fogo interior. Desse modo, consegue estender sua individualidade por bilhões de anos".
"Bilhões de anos?"
"Assim é. Nós somos filhos da Terra, ela é nossa fonte última. A opção dos bruxos é unir-se à consciência da Terra por todo o tempo que ela viva""

domingo, 27 de março de 2011

O mundo mágico tolteca de Don Juan e Castaneda

Don Juan, o índio yaqui mexicano, nagual e xamã, dizia que o “fato energético”, era o alicerce do conhecimento dos xamãs do México Antigo, e significava que “cada nuance do cosmo é uma expressão de energia”. Nós vemos as coisas no mundo, mas atrás delas, no Invisível, elas são energia. Tudo é energia. A partir do seu nível de xamãs, de onde “viam a energia diretamente como ela flui no Universo”, eles chegaram à conclusão (que é também um fato energético) de que o cosmo inteiro é composto de duas forças gêmeas que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre elas. Eles chamavam essas duas forças de “energia animada e energia inanimada”. É o Ying e Yang do Taoismo.
Eles viram que a energia inanimada não tem consciência. Consciência, para os xamãs, é uma condição vibratória da energia animada. Don Juan dizia que os xamãs do México antigo foram “os primeiros a ver que todos os organismos da Terra são possuidores de energia vibratória”. Eles os chamavam de "seres orgânicos", e viram que os próprios organismos determinam o grau da força de coesão e os limites dessa energia. Eles também viram que existem conglomerados de energia vibratória, energia animada, que têm uma coesão própria, livres das amarras de um organismo. Eles os chamavam de "seres inorgânicos", e os descreviam como pedaços de energia com coesão própria,  que são invisíveis ao olho humano, "energias cônscias de si mesmas" e que possuem uma unidade determinada por uma força aglutinadora diferente da força aglutinadora de um organismo.
Os xamãs da linhagem de Don Juan viram que a condição essencial da energia animada, orgânica ou inorgânica, é "transformar a energia no universo como um todo, em dados sensoriais", ou seja, dados percebidos pelos 5 sentidos e depois transformadas em "informações úteis no mundo em que vivemos". Essa é a função dos seres orgânicos e inorgânicos. No caso de seres orgânicos, estes dados sensoriais “brutos” são então transformados em um sistema no qual “a energia como um todo é classificada”, e há um produto final designado e percebido, para cada classificação, qualquer que ela possa ser. Em resumo, o sistema transforma qualquer energia nova e impensável que chega do "mar escuro da consciência" para nós, em algo conhecido no nosso mundo rotineiro. Temos então uma “consciência de segunda mão”. Depois disso há ainda um filtro chamado “desnate” pelo qual eu elimino determinados aspectos de uma dada percepção, que então já chega a mim “interpretada”, graças ao filtro do aprendizado social, e fico com uma cópia barata e simplificada dela.
De acordo com a lógica dos xamãs, no caso de seres humanos, “o sistema de interpretação de dados sensoriais é o conhecimento deles sobre o mundo que os rodeia”. Eles sustentam que esse conhecimento humano pode ser temporariamente interrompido, já que ele é apenas um sistema classificatório no qual o produto final, ou “o que é o mundo” é gerado a partir da interpretação de dados sensoriais. Quando essa interrupção ocorre, os feiticeiros afirmam que “a energia pode ser percebida por nós diretamente enquanto flui no universo”, sem interpretação nenhuma. É um fato chocante que pode ser o êxtase que os místicos em busca da divindade experimentam. Os feiticeiros descrevem o ato de perceber a energia diretamente como um feito semelhante a “ver com os olhos”, embora estes estejam minimamente envolvidos no processo.
Perceber a energia diretamente permitiu aos feiticeiros da linhagem de Don Juan “ver” os seres humanos como “conglomerados de campos de energia que têm a aparência de bolas luminosas”. Esse é o “ver” dos feiticeiros videntes. Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas como dissemos nas postagens A Auto Importância e no Pássaro da Liberdade, quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que eles “são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras. O que os feiticeiros toltecas sabiam sobre os conceitos complexos da Consciência, Percepção e Atenção, as ciências atuais da Psicologia e Parapsicologia estão hoje apenas começando a arranhar”, com todo o respeito. Observar os seres humanos dessa maneira levou esses xamãs a conclusões energéticas extraordinárias. Eles notaram que “cada uma dessas bolas luminosas está individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo; uma massa que eles chamaram de o Mar Escuro da Consciência (ou A Águia)”. Eles observaram que cada bola individual está ligada ao mar escuro da consciência por um ponto que é ainda mais luminoso que a própria bola luminosa. Esses xamãs o chamaram de “ponto de aglutinação”, porque perceberam que “é neste local, fora do corpo, que a percepção é aglutinada, e acontece”. O fluxo de energia como um todo é transformado, nesse ponto, em dados sensoriais, e “esses dados são então interpretados e formam o mundo que chamamos de mundo, e que nos rodeia”.
Quando Castaneda pediu a Don Juan para explicar como esse processo de transformação do fluxo de energia em dados sensoriais ocorria, ele respondeu que a única coisa que os xamãs sabem a respeito disso é que a imensa massa de energia chamada mar escuro da consciência (ou A Águia) abastece os seres humanos com o que quer que lhes seja necessário para converter essa transformação de energia em dados sensoriais, e que tal processo não poderia jamais ser decifrado devido à imensidão da sua fonte original.
O que os xamãs do México antigo descobriram quando focalizaram seu “ver” no mar escuro da consciência foi a revelação de que “o cosmo inteiro é feito de filamentos luminosos que se estendem infinitamente”. Os xamãs os descrevem como "filamentos luminosos que vão em todas as direções sem jamais tocar uns nos outros". Eles viram que existem filamentos individuais, e que, ao mesmo tempo, esses filamentos se agrupam em massas inconcebivelmente colossais.
Outra dessas massas de filamentos, além do mar escuro da consciência que os xamãs observaram e apreciaram por causa de sua vibração, era algo que eles chamaram “Intento”. E chamaram de “intentar” o ato de xamãs individuais focalizarem sua atenção nessa massa. Eles viram que “o universo inteiro era um universo de intento, e intento, para eles, era o equivalente a Inteligência”. Uma outra forma de chamar a Consciência.
O universo, portanto, era para eles um universo de suprema inteligência. A conclusão, que se tornou parte do mundo de conhecimento deles, foi que a energia vibratória, consciente de si própria, era inteligente ao extremo. Eles viram que a massa de intento no cosmo era responsável por todas as mutações possíveis, todo tipo de variações que aconteciam no universo, “não por causa de circunstâncias cegas e arbitrárias, mas por causa do intentar feito pela energia vibratória, no nível do próprio fluxo de energia”.
Don Juan salientou que no mundo da vida cotidiana que vivemos, "os seres humanos realizam intento e intentar, através da maneira pela qual eles interpretam o mundo". Don Juan, por exemplo, alertou Castaneda para o fato que “meu mundo cotidiano não era regido pela minha percepção, mas pela interpretação da minha percepção”. Ele deu como exemplo o conceito corriqueiro de "universidade", que àquela época era um conceito de suprema importância para Castaneda. Ele disse a ele  que universidade não era algo que se podia perceber com os sentidos, porque nem minha visão, nem a audição, nem o paladar, nem os sentidos táteis ou olfativos forneciam alguma pista sobre universidade. "Universidade acontecia, e fazia sentido somente no meu intentar", e para que eu pudesse construí-la ali, precisava de tudo que sabia pelo aprendizado social como uma pessoa civilizada, de uma forma consciente ou subliminar.
O fato energético de o universo ser composto de filamentos luminosos deu origem à conclusão dos xamãs de que "cada um desses filamentos que se estendem infinitamente é um campo de energia". Eles observaram que os filamentos luminosos, ou melhor dizendo, os campos de energia de tal natureza, convergiam e passavam através do ponto de aglutinação. Já que o tamanho do ponto de aglutinação no ser humano foi determinado como sendo o equivalente a uma bola de tênis moderna, somente um número finito de campos de energia, mas ainda assim numa quantidade incalculável, convergiam e passavam através daquele ponto.
Quando os feiticeiros do México antigo viram o ponto de aglutinação, descobriram o fato energético de que “o impacto dos campos de energia que passavam através do ponto de aglutinação era transformado em dados sensoriais”; dados que eram então interpretados e transformados no mundo da vida cotidiana que vemos. Estes xamãs atribuíram a homogeneidade do conhecimento entre os seres humanos ao fato de que "o ponto de aglutinação de toda a raça humana está localizado no mesmo lugar nas respectivas esferas luminosas energéticas que nós somos: na altura das omoplatas, à distância de um braço por trás delas, nos limites da bola luminosa."
Suas observações sobre ver o ponto de aglutinação levaram os feiticeiros do México antigo a descobrirem que "o ponto de aglutinação mudava de posição sob condições de sono normal ou extrema fadiga, doença ou ingestão de plantas psicotrópicas". Esses feiticeiros viram que "quando o ponto de aglutinação estava numa nova posição, um feixe diferente de campos de energia passava através dele, forçando o ponto de aglomeração a transformar estes campos de energia em dados sensoriais e interpretá-los, trazendo como resultado um outro mundo novo e real para se perceber, mundo esse diferente do que usualmente conhecemos". Esses xamãs afirmavam que cada novo mundo que surgia dessa maneira era um mundo totalmente inclusivo, real e abrangente, diferente do mundo da vida cotidiana, mas absolutamente similar a ele no fato de que “se podia viver, ter filhos, e morrer nele”.
Para xamãs como Don Juan Matus, "o exercício mais importante de intentar, resulta no movimento voluntário do ponto de aglutinação", para que ele atinja áreas predeterminadas no conglomerado total de campos de energia que compõem um ser humano. Isso significa que depois de milhares de anos de investigação, os feiticeiros da linhagem de Don Juan descobriram que existem posições-chave no interior da bola luminosa total que é o ser humano, onde o ponto de aglutinação pode estar localizado e onde o bombardeio resultante dos campos de energia sobre  o ponto pode produzir um mundo totalmente novo e real.
Don Juan me assegurou que "isso é um fato energético e que a possibilidade de viajar para qualquer um desses mundos, ou para todos eles, é a herança de todos os seres humanos". Ele disse que "estes mundos estão lá à vontade, da mesma forma que as questões às vezes estão pedindo para serem perguntadas, e que tudo o que um feiticeiro ou um ser humano precisa para chegar até esses mundos é intentar o movimento do ponto de aglutinação".
Outro item relacionado ao intento, mas transposto para o nível do intentar universal, era, para os xamãs do México antigo, o fato energético de que estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles era um fato energético que "o universo em geral é predatório ao máximo, mas não predatório no sentido em que entendemos esse termo: o ato de saquear ou roubar, agredir ou explorar os outros em benefício próprio. Para os xamãs do México antigo, a condição predatória do universo significava que “o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência”. Eles viram que "o universo cria quantidades incalculáveis de seres orgânicos e de seres inorgânicos". Exercendo pressão sobre todos esses seres, o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma "o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio". No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, “a consciência é o resultado final”.
Don Juan Matus e os xamãs de sua linhagem consideram consciência como “o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem”, não apenas as possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros. Don Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor. A função, o propósito, nessas circunstâncias, se torna uma necessidade das mais prementes. Livre das idealidades e das falsas metas, o homem só tem a função como sua força guia. Os xamãs chamam isso de “impecabilidade”. Para eles, ser impecável significa “dar o seu melhor, e mais um pouco, mas sempre economizando energia”. Eles então obtinham a função ao "ver a energia diretamente, conforme ela flui do universo". Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional, pragmático. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo de conhecimento.
O exercício de todas as unidades de conhecimento dos feiticeiros permitia a Don Juan e a todos os xamãs de sua linhagem chegarem a conclusões energéticas estranhas que, à primeira vista, pareciam fazer sentido apenas a eles e às suas circunstâncias pessoais, mas que, se examinadas com cuidado, podiam ser aplicadas a qualquer um de nós. De acordo com Don Juan, a culminação da busca dos xamãs é algo que ele considerava como sendo o fato energético supremo, não apenas para os feiticeiros, mas para todos os seres humanos da Terra. Ele o chamava de “jornada definitiva”.
"A jornada definitiva é a possibilidade que a consciência individual, ampliada ao seu limite máximo pela adesão do indivíduo ao mundo de conhecimento dos xamãs, poderia ser sustentada além do ponto no qual o organismo é capaz de funcionar como uma unidade coesiva, o que quer dizer “além da morte”". Essa consciência transcendental era compreendida pelos xamãs do México antigo como sendo a possibilidade de que a consciência dos seres humanos ultrapassasse tudo que é conhecido, e chegasse, dessa forma, ao nível de energia que flui no universo. Xamãs como Don Juan Matus definiam sua busca como “a busca de se tomar, no final, um ser inorgânico”, significando que "essa energia cônscia de si mesma continuava após a morte, atuando como uma unidade viva, mas sem um organismo, um corpo como o conhecemos". Eles chamavam esse aspecto da cognição deles de “liberdade total, um estado no qual a consciência existe livre das imposições de socialização e sintaxe".