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domingo, 11 de março de 2012

O Mar Escuro da Consciência, Mundos Gêmeos, Seres Inorgânicos, a Morte, "y otras cositas más"


Se me perguntassem “qual o melhor livro que você leu na sua vida?” eu diria sem dúvida “16 livros da obra de Castaneda e discípulos” (rsrs).
Exagero? O editor do New York Times, um "jornalzinho lá da matriz", sério, e parcimonioso em distribuir elogios, disse em 2001, quando foi editado o 12º livro do autor, O Lado Ativo do Infinito: “Somos incrivelmente afortunados em ter os livros de Carlos Castaneda.Tomados em conjunto formam uma obra que está entre o melhor que a ciência da Antropologia já produziu.
Por essa você não esperava, né?...Eu acrescentaria: "e o melhor que a tradição do Xamanismo produziu, também".
Infelizmente há um porém: grande parte da compreensão da obra foi comprometida pelo trabalho de “tradutores-traidores” que juntaram o seu desconhecimento do tema à “marquetagem” oportunista das editoras. Quer um exemplo?: O 1º livro da obra, que em inglês chama-se “The Teachings of Don Juan” ou Os Ensinamentos de Don Juan, foi traduzido e publicado no Brasil como “A Erva do Diabo”, para linkar a obra às drogas e a cultura hippie dos anos 60, que dava mais dinheiro que chuchu na serra. Isso deu resultado comercial  imediato, mas comprometeu a divulgação da valiosa tradição dos videntes toltecas de conhecimento interior. Muita gente torce o nariz até hoje, achando que a obra é uma apologia das drogas e ervas alucinógenas, apesar das explicações claras de Don Juan. Mas isso é outra história...
Vamos ver então Don Juan falando a Castaneda dessa energia descomunal, incompreensível e eterna que os homens de conhecimento toltecas chamava o Mar Escuro da Consciência (outros chamam de Deus), e falando também de mundos gêmeos, seres inorgânicos, morte “y otras cositas”: 

Os xamãs videntes toltecas "viam" essa energia como A Águia, uma incomensurável fonte de energia eterna, que estava ligada a cada esfera individual de Consciência humana ou de qualquer ser senciente no Universo , pois ela empresta Vida a todos os seres e no final da vida pede a consciência adquirida de volta. Muito aqui entre nós, os videntes, através de um processo chamado Recapitulação, faziam uma cópia da Consciência que adquiriram na vida, entregavam-na à Águia na hora da morte e mantinham a sua consciência individual depois da morte. E diziam que qualquer um poderia fazer isso (com muito trabalho, claro. Quer moleza?). Ops, contei o final do filme...
Vamos lá:
“- Enquanto estavam no auge de seus poderes de percepção, os videntes toltecas viam algo que os fazia tremer nas calças, se estivessem vestindo uma. Viam que o Mar Escuro da Consciência é responsável não só pela consciência dos organismos, mas também pela consciência das entidades que não têm um organismo.
- O que é isso, Dom Juan, seres sem um organismo, e que têm consciência? - perguntei, surpreso, pois ele nunca mencionara essa idéia antes.
- Os xamãs antigos descobriram que todo o universo é composto de forças gêmeas - ele começou -, forças que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre si. É inevitável que o nosso mundo seja um mundo gêmeo. Seu mundo oposto e complementar é habitado por seres que têm consciência, mas não um organismo. Por essa razão, os xamãs antigos os chamam de seres inorgânicos.
- E onde está esse mundo, Dom Juan?
- Aqui, onde você e eu estamos sentados - respondeu com naturalidade, mas rindo abertamente de meu nervosismo. - Eu disse a você que esse era o nosso mundo gêmeo, portanto está intimamente relacionado a nós. Os feiticeiros do México antigo não pensavam como você pensa em termos de espaço e tempo. Pensavam exclusivamente em termos de consciência. Dois tipos de consciência coexistem sem nunca colidir uma com a outra, pois cada tipo é completamente diferente do outro. Os xamãs antigos enfrentavam esse problema de coexistência sem se preocuparem com tempo e espaço. Raciocinavam que o grau de consciência dos seres orgânicos e o grau de consciência dos seres inorgânicos eram tão diferentes que ambos poderiam coexistir com o mínimo possível de interferência.
- Nós podemos perceber esses seres inorgânicos, Dom Juan? - perguntei.
- Com certeza - respondeu ele. - Os feiticeiros os percebem quando querem. As pessoas comuns fazem isso, mas não se dão conta que o fazem porque não são conscientes da existência do mundo gêmeo. Quando pensam em um mundo gêmeo, entram em todo tipo de masturbação mental, mas nunca lhes ocorre que as suas fantasias têm sua origem num conhecimento subliminar que todos nós temos: que não estamos sós.
Fiquei preso às palavras de Dom Juan.
- A dificuldade de se perceber as coisas em termos de tempo e espaço - continuou ele - é que você só nota se alguma coisa desembarcou no tempo e no espaço que está à sua disposição, e isso é muito limitado. Os feiticeiros, por outro lado, possuem um vasto campo onde podem notar se algo estranho desembarcou. Muitas entidades do universo como um todo, entidades que possuem consciência mas não um organismo, desembarcam no campo de consciência de nosso mundo, ou no campo de consciência de seu mundo gêmeo, sem que um ser humano comum jamais os perceba. As entidades que desembarcam em nosso campo de consciência, ou no campo de consciência de nosso mundo gêmeo, pertencem a outros mundos que existem além do nosso mundo e de seu gêmeo. O universo como um todo está abarrotado até a borda de mundos de consciência, orgânicos e inorgânicos.”
Curiosamente, aqui entre nós (mais a Dona Dolores e os meninos da escola) a “ciência de plantão” fala hoje nos Discovery, NatGeo e outros, de mundos gêmeos não mais como “coisa pseudo-científica inventada” mas como “coisa da vanguarda do conhecimento”. Os índios toltecas falavam do assunto já há milhares de anos em volta da fogueira. É mole?  A história do verdadeiro conhecimento da humanidade precisa ser reescrita.
“Dom Juan continuou falando e disse que aqueles feiticeiros sabiam quando a consciência inorgânica dos outros mundos além de nosso mundo gêmeo tinha desembarcado nos seus campos de consciência. Disse que, como todos os seres humanos nessa terra fariam, aqueles xamãs faziam intermináveis classificações dos diferentes tipos dessa energia que possui consciência. Elas eram conhecidas pelo termo genérico de seres inorgânicos.
- Esses seres inorgânicos têm vida como a nossa vida? perguntei.
- Se você pensa que Vida é ter Consciência, então eles têm vida - disse ele. - Suponho que seria correto dizer que se a vida pode ser medida pela intensidade, pela agudeza, pela duração daquela consciência, posso sinceramente dizer que eles são mais vivos do que você e eu.
- Esses seres inorgânicos morrem, Dom Juan? - perguntei. Dom Juan deu um risinho antes de responder.
- Se você chama morte o término da consciência, sim, eles morrem. Sua consciência acaba. Sua morte é como a morte de um ser humano e, ao mesmo tempo, não é, porque a morte dos seres humanos tem uma opção oculta. É algo como uma cláusula num documento legal, uma cláusula que é escrita em letras muito pequenas que mal se consegue enxergar. Você precisa usar uma lente de aumento para ler, porém é a cláusula mais importante do documento.
- Qual é a opção oculta, Dom Juan?
- A opção oculta para a morte é exclusiva dos feiticeiros. Eles são os únicos, que eu saiba, que leram as letrinhas. Para eles, a opção é pertinente e funcional. Para os seres humanos comuns, morte significa o fim de sua consciência, o fim de seu organismo. Para os seres inorgânicos, morte significa o mesmo: o fim de sua consciência. Em ambos os casos, o impacto da morte é o ato de ser sugado para o Mar Escuro da Consciência. As suas consciências individuais, carregadas com as suas experiências de vida, quebram as suas fronteiras, e a consciência enquanto energia se perde no Mar Escuro da Consciência.
- Mas o que é a opção oculta da morte que somente os feiticeiros captam, Dom Juan? - perguntei.
- Para um feiticeiro, a morte é um fator unificador. Em vez de desintegrar o organismo, como comumente acontece, a morte o unifica.
- Como pode a morte unificar alguma coisa? - protestei.
- A morte para um feiticeiro - disse ele - termina o reino dos temperamentos individuais no corpo. Os feiticeiros antigos acreditavam que era o domínio de diferentes partes do corpo que regia os temperamentos e as ações do corpo total; partes que se tornaram disfuncionais arrastavam o resto do corpo para o caos, como, por exemplo, quando você fica doente por comer porcaria. Nesse caso, o estado do seu estômago afeta todo o resto. A morte erradica o domínio dessas partes individuais. Ela unifica a sua consciência em uma única unidade.
- Você quer dizer que depois que os feiticeiros morrem ainda são conscientes? - perguntei.
- Para os feiticeiros, a morte é um ato de unificação que emprega cada parte da energia deles. Você está pensando na morte como um cadáver à sua frente, um corpo que começa a se decompor. Para os feiticeiros, quando o ato de unificação ocorre, não há cadáver. Não há decomposição. Seus corpos, na sua totalidade, se transformaram em energia, e a energia que possui consciência não é fragmentada. Os limites que são causados pelo organismo são interrompidos pela morte e ainda estão funcionando no caso dos feiticeiros, apesar de não serem mais visíveis a olho nu.
"Sei que você está morrendo de vontade de me perguntar - continuou ele com um amplo sorriso - se o que eu estou descrevendo é a alma que vai para o céu ou para o inferno. Não, não é a alma. O que acontece com os feiticeiros, quando eles escolhem essa opção oculta da morte, é que eles se tornam seres inorgânicos, muito especializados, seres inorgânicos de alta velocidade, seres capazes de manobras estupendas de percepção. Os feiticeiros entram então no que os xamãs do México antigo chamavam de sua viagem definitiva. O infinito se torna o seu reino de ação."
- Você quer dizer com isso, Dom Juan, que eles se tornam eternos?
- Minha sobriedade como um feiticeiro me diz - disse ele - que a consciência deles terminará da maneira como a consciência dos seres inorgânicos termina, mas eu não vi isso acontecer. Não tenho um conhecimento de primeira mão sobre isso. Os feiticeiros antigos acreditavam que a consciência desse tipo de ser inorgânico duraria o tempo que a Terra estiver viva. A Terra é a matriz deles. Enquanto ela prevalecer, sua consciência continua. Para mim, essa é uma afirmação bem razoável.
A continuidade e a ordem da explicação de Dom Juan tinham sido, para mim, magníficas. Eu não tinha mais nada a contribuir. Ele me deixou com uma sensação de mistério e expectativas não expressas a serem preenchidas.”

É interessante o paralelo entre e a visão tolteca e a visão de Gurdjieff sobre a imortalidade, colhida em suas andanças misteriosas pela Europa oriental e Ásia. Ele dizia naquele seu estilo obscuro, que  "o ser humano poderia atingir a  imortalidade, mas dentro dos
limites do sistema solar".

domingo, 4 de setembro de 2011

O Sonho – Visão Tolteca

Vocês se lembram que na postagem “O Sonho, Portal da Consciência” prometemos “publicar em breve assuntos de Leitura Transversal, que são citações da obra tolteca de Castaneda, começando com o tema O Sonho”. O fato de serem citações esparsas da obra, centradas num tema, torna a leitura interessante, inesperada, e agregadora em torno do tema, dando- lhe um novo significado. 
Vamos fazer isso, mas primeiro temos algumas dicas:
•    O texto pesquisado na obra para localizar as citações foi a expressão “sonhar é”, para apresentar resultados sobre a definição de “o que é o sonho”, e estabelecer a diferença radical entre o que é a real natureza do sonho e o que é a interpretação ocidental, que o considera superficial e sem importância.
•    A numeração das páginas é a das edições dos meus livros pessoais, e pode variar com as dos livros de cada um.
•    Os textos são trechos dos vários livros como foram escritos, às vezes com traduções “traidoras”
•    No nosso contexto abaixo, sonhar ou “ensonhar” refere-se ao “sonho lúcido” onde o sonhador está consciente dentro do sonho, e não do sonho comum que é uma montagem confusa das experiências do dia.
•    O significado da palavra “Ver” é “o modo de ver do vidente tolteca”, que "vê a energia como ela flui no universo".
•    Há conceitos específicos do universo tolteca, como: ponto de aglutinação, corpo energético, corpo sonhador “não fazer”, nagual, tonal, primeira, segunda e terceira atenção, espreitar, intentar, intento, seres inorgânicos...um dia vamos fazer um glossário disso.
Então seguem as citações sobre O Sonho na obra:

“- Quer dizer então, Dom Juan, que sonhar é real?
- Claro que é real.
- Tão real como o que estamos fazendo agora?
- Se você quer comparar as coisas, posso dizer que talvez seja mais real. No sonhar você tem poder; pode modificar as coisas; pode descobrir uma infinidade de fatos ocultos; pode controlar o que quiser.”
Viagem a Ixtlan – pág. 98

- Deve começar com alguma coisa bem simples - falou. Hoje, em seus sonhos, deve olhar para suas mãos.
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Naturalmente, pode olhar para o que bem entender ... os dedos dos pés, sua barriga ou qualquer coisa. Falei suas mãos porque isso foi o mais fácil para eu olhar. Não pense que é brincadeira. Sonhar é tão sério quanto ver ou morrer ou qualquer outra coisa neste mundo assombroso e misterioso.
- Cada vez que você olha para alguma coisa em seus sonhos essa coisa muda de forma - disse ele, depois de um longo silêncio. - O truque de aprender a organizar-se para sonhar, obviamente não é só olhar para as coisas, mas manter a visão delas. Sonhar é real quando a gente conseguiu focalizar tudo. Depois, não há diferença entre o que você faz quando dorme, e o que faz quando não está dormindo. Entende o que digo?
Viagem a Ixtlan – pág.102

"Cada vez que olhar para suas mãos, estará renovando o poder necessário para sonhar, de modo que, no princípio, não olhe para coisas demais. Quatro coisas bastam, de cada vez. Mais tarde, poderá aumentar o número até abranger tudo o que quiser, mas, assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para suas mãos.
"Quando achar que pode olhar para as coisas indefinidamente, estará pronto para uma nova técnica. Vou-lhe ensinar essa nova técnica agora, mas espero que só a utilize quando estiver preparado." Ficou calado por uns 15 minutos. Por fim, sentou-se e olhou para mim.
- O passo seguinte em organizar-se para sonhar é aprender a viajar - disse ele. - Da mesma maneira que aprendeu a olhar para suas mãos, pode obrigar-se a mover-se, a ir aos lugares. Primeiro, tem de estabelecer um lugar aonde queira ir. Escolha um lugar bem seu conhecido... talvez sua escola, ou um parque, ou a casa de um amigo., depois, obrigue-se a ir lá.
"Essa técnica é muito difícil. Precisa desempenhar duas tarefas: tem de obrigar-se a ir ao local determinado; e depois, quando já tiver dominado essa técnica, tem de aprender a controlar o tempo exato de sua viagem."
Viagem a Ixtlan – pág.115

Entenda, sonhar é o “não fazer” dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará “não fazendo”.
Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas “não fazer”. Mas, se lidar com “não fazer” diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
Viagem a Ixtlan – pág.186

 
- Sonhar é um auxílio prático, imaginado por feiticeiros continuou ele. - Eles não eram tolos; sabiam o que estavam fazendo ao procurarem a utilidade do nagual treinando seu tonal para se afrouxar um instante, por assim dizer, e depois apertar de novo. Essa declaração não lhe faz sentido. Mas é isso que você vem fazendo o tempo todo: treinando-se para se soltar sem perder as estribeiras. Sonhar, naturalmente, é a coroação dos esforços dos feiticeiros, o uso final do nagual.
Viagem a Ixtlan – pág.220

- Como vou equilibrar a minha segunda atenção?
- Você tem de sonhar como nós sonhamos. Sonhar é o único meio de se alcançar a segunda atenção sem prejudicá-la, sem torná-la ameaçadora e temível. A sua segunda atenção está fixa naquele lado terrível do mundo; a nossa está sobre a sua beleza. Você tem de trocar de lado e vir conosco. Foi isso que você escolheu ontem à noite, quando resolveu seguir conosco.
O Segundo Círculo do Poder – pág. 208

 A primeira atenção, a atenção que faz o mundo, nunca pode ser completamente dominada; pode apenas ser desligada por um instante e recolocada pela segunda atenção, desde que o corpo tenha armazenado bastante dela. Sonhar é, naturalmente, um modo de armazenar a segunda atenção. Assim sendo, eu diria que a fim de mudar em corpo sonhador enquanto acordado, tem de se praticar a sonho até que ele passe a ser uma coisa simples.
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Disse a La Gorda que Dom Juan me dera três tarefas para treinar minha segunda atenção. A primeira era encontrar minhas mãos na sonho. Em seguida recomendou que eu escolhesse um local, focalizasse minha atenção nele e então sonhasse de dia e descobrisse se poderia mesmo ir para lá. Sugeriu que eu colocasse alguém conhecido no lugar, de preferência uma mulher, a fim de fazer duas coisas: primeira, verificar mudanças súbitas que indicassem que eu estava lá em sonho; segunda, isolar o detalhe pequeno, que seria precisamente a coisa na qual a minha segunda atenção deveria se fixar.
O problema mais sério do sonhador a esse respeita é a fixação inflexível da segunda atenção no detalhe, que passaria completamente despercebido da atenção da vida diária, criando assim um obstáculo quase intransponível à sua validez. O que se procura no sonho não é aquilo a que se prestaria atenção todo dia.
O Presente da Águia, pág. 116

Dom Juan explicou que os sonhadores precisam atingir um equilíbrio muito sutil, pois os sonhos não podem sofrer interferência, assim como não podem ser comandados pelo esforço consciente do sonhador. Por outro lado, o deslocamento dos pontos de aglutinação deve obedecer ao comando do sonhador - uma contradição que não pode ser racionalizada mas que precisa ser resolvida na prática.
O fogo interior, pág. 167

- Sonhar é o avião a jato do feiticeiro. O nagual Elias era um sonhador assim como meu benfeitor era um espreitador. Era capaz de criar e projetar o que os feiticeiros conhecem como corpo de sonhar, ou "o outro", e estar em dois lugares distantes ao mesmo tempo. Com seu corpo de sonhar, podia ocupar-se de seus negócios como feiticeiro, e com seu eu natural um ser recluso.
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Antes que eu pudesse responder, recomeçou a falar sobre o nagual Elias. Disse que o nagual Elias tinha uma mente muito inquisidora e tinha muita habilidade com as mãos. Em suas jornadas como sonhador via muitos objetos, os quais copiava em madeira e ferro forjado. Don Juan assegurou-me que alguns desses modelos eram de uma beleza estranha e assustadora
Que tipos de objetos? - perguntei.
Não há um meio de saber. Você deve considerar que, por ser um índio, o nagual Elias entrava em suas jornadas de sonhar da mesma maneira como um animal selvagem ronda em busca de alimento. Um animal nunca aparece num lugar onde haja sinais de atividade. Vem apenas quando não há ninguém por perto. O nagual Elias, como sonhador solitário, visitava, digamos, a lixeira do infinito, quando ninguém estava presente, e copiava tudo o que via, mas nunca sabia para que aquelas coisas eram usadas ou qual a sua fonte.
O Poder do Silêncio, pág. 51

"- Você é um sonhador. Se não tiver cuidado com sua energia sexual, pode muito bem se acostumar à idéia de movimentos erráticos de seu ponto de aglutinação. Há um momento você estava espantado por suas reações. Bem, seu ponto de aglutinação move-se quase erraticamente, porque sua energia sexual não está equilibrada
O Poder do Silêncio, pág. 52

 
- Então vamos deixar as metáforas de lado - ele admitiu. - Digamos que sonhar é o meio prático dos feiticeiros utilizarem os sonhos comuns.
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- Sonhar só pode ser experimentado. Sonhar não é apenas ter sonhos; nem devaneios ou desejos ou imaginação. Sonhando podemos perceber outros mundos, que certamente podemos descrever; mas não podemos descrever o que nos faz percebê-los. No entanto podemos sentir de que modo o sonhar abre essas outras regiões. Sonhar parece uma sensação; um processo em nossos corpos, uma percepção em nossas mentes.
No decorrer de seus ensinamentos gerais, Dom Juan me explicou por completo os princípios, os fundamentos e as práticas da arte do sonhar. Sua instrução foi dividida em duas partes. Uma era sobre os procedimentos de sonhar; a outra sobre as explicações puramente abstratas desses procedimentos. Seu método de ensino era uma interação entre estimular minha curiosidade intelectual com relação aos princípios abstratos de sonhar e guiar-me para que eu buscasse um escoadouro em suas práticas.
A Arte do sonhar – pág. 8

"- Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.
Aceite o desafio de intentar - prosseguiu ele. - Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em convencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.”
- Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?
Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.
- Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?
- Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.
Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.
A Arte do sonhar – pág. 40

Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.
- Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?
- A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonhadora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.
Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.
A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de pedir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.
- Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.
- O que são esses batedores?
- Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.
- Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.
- Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente - ou o cérebro - capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.
A Arte do sonhar – pág. 43

- O que, exatamente, é o corpo energético?
- É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.
- Mas o corpo físico não é feito também de energia?
- Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.
- Como o que, por exemplo?
- Como se transportar num instante até os confins do universo. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.
"Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano, é independente. Tem sua própria esfera.”
- O que é essa esfera, Dom Juan?
- Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como percebemos comumente o mundo.
- O que significa perceber a energia enquanto ela flui?
- Significa “ver”. Significa que o corpo energético vê a energia diretamente como uma luz, como uma espécie de corrente vibratória ou como uma perturbação. Ou então sente-a como um tranco ou uma sensação que pode ser até dolorosa.
- E quanto ao outro modo do qual você falou. Dom Juan? O corpo energético usando energia como um combustível de foguete.
- Como a energia é a sua esfera, não há problema para o corpo energético usar correntes de energia que existem no universo para impulsioná-lo. Tudo que precisa é isolar essas correntes, e lá se vai ele.
A Arte do sonhar – pág. 46

- Você vai descobrir sozinho que o verdadeiro objetivo do sonhar é aperfeiçoar o corpo energético. Um corpo energético perfeito - entre outras coisas, claro - tem um controle tão grande sobre a atenção sonhadora a ponto de fazer com que o sonho pare quando for preciso. Essa é a válvula de segurança que os sonhadores têm. Não importa o quanto eles se entreguem num determinado momento, sua atenção sonhadora deve fazer com que possam emergir.
Comecei tudo de novo, em outra busca nos sonhos. Dessa vez o objetivo era mais escorregadio do que da primeira, e a dificuldade era ainda maior. Exatamente como acontecera na primeira tarefa, eu não conseguia ter idéia do que fazer. Sentia a suspeita desencorajante de que toda a prática que eu tivera não me ajudaria dessa vez. Depois de incontáveis fracassos desisti e decidi simplesmente continuar a fixar minha atenção sonhadora em todos os itens dos sonhos. A aceitação dessa incapacidade pareceu me dar um impulso, e tomei-me ainda mais capaz de manter a visão de qualquer item de meus sonhos.
A Arte do sonhar – pág. 58

 
- Para nós a novidade são os seres inorgânicos. E a novidade para eles é a nossa maneira de cruzar as fronteiras até o seu reino. De agora em diante você deve ter em mente que os seres inorgânicos, com sua consciência soberba, exercem uma tremenda atração sobre os sonhadores e podem facilmente transportá-los para mundos além de qualquer descrição.
"Os feiticeiros da antigüidade usavam-nos, e foram eles que cunharam o nome: aliados. Seus aliados lhes ensinaram a mover o ponto de aglutinação para fora dos limites do ovo, para o universo não-humano. Quando transportam um feiticeiro, eles transportam-no para mundos além do domínio humano.”
Enquanto ouvia fui assolado por estranhos medos e dúvidas, que ele captou de imediato.
- Você é um homem religioso até não poder mais - e riu.
- Bom, está sentindo o bafo do diabo na nuca. Pense nesses termos sobre o sonhar: sonhar é perceber mais do que acreditamos que é possível perceber.
Enquanto estava acordado eu me preocupava com a possibilidade de os seres inorgânicos realmente existirem. Quando sonhava, entretanto, minhas preocupações conscientes não tinham muita importância. Os choques de medo físico prosseguiram, mas vinham sempre seguidos por uma estranha calma; uma calma que assumia o controle sobre mim e deixava que eu procedesse como se não tivesse qualquer medo.
A Arte do sonhar – pág. 65

- Onde ficam esses mundos, Dom Juan? Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação?
- Certo. Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação, mas posicionamentos aos quais os feiticeiros chegam com um movimento do ponto de aglutinação, não com um deslocamento. Entrar nesses mundos é o tipo de sonhar que apenas os feiticeiros de hoje em dia fazem. Os feiticeiros antigos ficaram longe dele, porque é necessário um grande desprendimento e nenhuma auto-importância. Um preço que eles não podiam se dar ao luxo de pagar.
"Para os feiticeiros que o praticam atualmente, o sonhar é a liberdade de perceber mundos além da imaginação.”
A Arte do sonhar – pág. 97

- Quero dizer que não é verdadeiro falar, por exemplo, que o segundo portão é alcançado e atravessado quando um sonhador aprende a acordar em outro sonho, ou quando um sonhador aprende a mudar de sonhos sem acordar no mundo da vida cotidiana.
- Por que não é verdadeiro, Dom Juan?
- Porque o segundo portão do sonhar é alcançado e atravessado somente quando o sonhador aprende a isolar e a seguir os batedores da energia estranha.
- Então por que se dá a idéia de mudar de sonhos?
- Acordar em outro sonho ou mudar de sonho é o exercício imaginado pelos feiticeiros antigos para treinar a capacidade do sonhador isolar e seguir um batedor.
Dom Juan afirmou que a capacidade de seguir um batedor era uma grande realização, e que quando os sonhadores conseguem fazê-lo, o segundo portão é escancarado e o universo que existe por trás dele torna-se acessível. Enfatizou que esse universo está lá todo o tempo, mas que não podemos chegar a ele porque não temos habilidade energética e que, em essência, o segundo portão do sonhar é a porta para o mundo dos seres inorgânicos, e o sonhar é a chave que abre essa porta.
A Arte do sonhar – pág. 125

 
O terceiro portão do sonhar é alcançado quando você se pega num sonho olhando para outra pessoa adormecida. E descobre que essa pessoa é você mesmo - disse Dom Juan.
Meu nível de energia estava tão alto, na época, que passei a trabalhar imediatamente na terceira tarefa, apesar de ele não me oferecer mais nenhuma informação além do que dissera. A primeira coisa que percebi, no treinamento de sonhar, foi que um jorro de energia imediatamente rearrumou o foco de minha atenção sonhadora. Ela estava direcionada para que eu acordasse num sonho e me visse dormindo; viajar ao mundo dos seres inorgânicos não estava mais em questão.
Logo depois me encontrei num sonho, olhando para mim mesmo adormecido. Imediatamente informei a Dom Juan. O sonho acontecera enquanto eu estava em sua casa.
- Existem duas fases em cada portão do sonhar - disse ele. - A primeira, como você sabe, é chegar ao portão; a segunda é atravessá-lo. Sonhando o que sonhou, que se viu dormindo, você chegou ao terceiro portão. A segunda fase é movimentar-se assim que vir você mesmo dormindo.
"No terceiro portão do sonhar - prosseguiu ele - você começa deliberadamente a fundir sua realidade de sonho com a realidade do mundo cotidiano. Esse é o exercício, e os feiticeiros chamam-no de completar o corpo energético.
A Arte do sonhar – pág. 160

- O que é um mundo real, Dom Juan?
- Um mundo que gera energia; o oposto de um mundo fantasmagórico de projeções, onde nada gera energia; como na maioria de nossos sonhos, onde nada tem efeito energético.
Dom Juan me deu outra definição do sonhar: é um processo através do qual os sonhadores isolam condições de sonho em que podem encontrar elementos geradores de energia. Ele deve ter percebido meu espanto. Riu e deu outra definição ainda mais enrolada: sonhar é o processo através do qual intentamos encontrar posicionamentos adequados do ponto de aglutinação, posicionamentos que permitem que percebamos itens geradores de energia em estados de aparência onírica.
Explicou que o corpo energético também é capaz de perceber energias muito diferentes da energia de nosso mundo. Como no caso dos itens do reino dos seres inorgânicos, que o corpo energético percebe como energia crepitante. Acrescentou que em nosso mundo nada crepita; aqui tudo ondula.
- De agora em diante - falou - a questão em seu sonhar será determinar se os itens nos quais você concentra sua atenção sonhadora são geradores de energia ou meras projeções fantasmagóricas, ou se são geradores de energia alienígena.
A Arte do sonhar – pág. 184

 
- Estou dizendo isso tudo porque agora você está, pela primeira vez, na posição adequada para entender que o sonhar é uma condição geradora de energia. Pela primeira vez você pode entender que os sonhos comuns são os dispositivos usados para treinar o ponto de aglutinação a alcançar o posicionamento que cria essa condição geradora de energia, que chamamos de o sonhar. 

A arte do sonhar – pág. 194

- A primeira parte desta lição do sonhar é que a masculinidade e a feminilidade não são estados definitivos, e sim o resultado de um ato específico de posicionamento do ponto de aglutinação. E esse ato de rearrumar o ponto de aglutinação é, naturalmente, questão de vontade e treinamento. Como era um tema caro aos feiticeiros da antigüidade, apenas eles podem lançar alguma luz sobre isso.

 A arte do sonhar – pág. 233
 

A arte do sonhar é a capacidade de utilizar nossos sonhos comuns e transformá-los numa consciência controlada por uma forma especial de atenção chamada a atenção sonhadora.
A roda do tempo, pág. 196

 
- Não, não é sonhar - disse ele enfaticamente. - Isto é algo mais direto e mais misterioso. Aliás, tenho uma nova definição de sonhar para você hoje, mais de acordo com seu estado de ser. Sonhar é o ato de mudar o ponto de ligação com o mar escuro da consciência. Se você olhar para isso dessa forma, é um conceito e uma manobra muito simples. Requer tudo de você para percebê-lo, mas não é uma impossibilidade nem algo cercado de nuvens místicas.
"Sonhar é um termo que sempre me incomodou muito, porque enfraquece um ato muito poderoso. Faz com que pareça arbitrário; dá uma sensação de ser uma fantasia, e isso é a única coisa que não é. Tentei mudar o termo eu mesmo, mas ele está muito arraigado. Talvez algum dia você mesmo possa mudá-lo, apesar de que, como em tudo na feitiçaria, temo que quando você realmente puder fazê-lo não se importará mais com isso porque não fará mais nenhuma diferença como chamá-lo."
Dom Juan explicara amplamente, durante todo o tempo que eu o conheci, que sonhar era uma arte, descoberta pelos feiticeiros do México antigo, por meio da qual os sonhos comuns eram transformados em entradas legítimas para outros mundos de percepção. Sustentava, de todas as maneiras que podia, o advento de algo que ele chamava de atenção do sonhar, que era a capacidade de dar um tipo de atenção especial, ou de colocar um tipo especial de consciência nos elementos de um sonho comum.
Seguira meticulosamente todas as suas recomendações e tinha conseguido comandar minha consciência para permanecer fixada nos elementos de um sonho. A idéia que Dom Juan propunha era não começar deliberadamente a ter um sonho desejado, mas de fixar a atenção nos elementos componentes de qualquer sonho que se apresentasse.
O lado Ativo do infinito, pág. 221

 
Ela confessou que uma consideração séria a respeito dos sonhos de feiticeiros, que surgia de suas próprias falhas, era a dificuldade de incutir nas mulheres a coragem para abrir caminho num novo campo. A maioria das mulheres - e ela afirmou que era dessas - prefere seus grilhões seguros ao pavor de novos.
- Sonhar é só para as mulheres corajosas - murmurou ela, em meu ouvido. Depois deu uma gargalhada e acrescentou: - Ou para as mulheres que não têm outra opção, porque suas circunstâncias são insuportáveis - categoria a que pertence a maioria das mulheres, mesmo sem o saber.
Sonhos Lúcidos, pág. 256

 
- Como é que partilhamos os nossos sonhos? - tomei a perguntar.
Zuleica parou de se balançar. Sacudiu a cabeça e, depois, levantou os olhos, num sobressalto, como se tivesse acordado de repente.
- É impossível eu explicar isso agora - declarou ela. - Sonhar é incompreensível. A gente tem de alimentar isso e não discuti-lo. Como no mundo cotidiano, antes de explicar e analisar alguma coisa, é preciso experimentá-lo. - Ela falava devagar e com ponderação. Reconheceu que é importante explicar à medida que se avança. - No entanto, por vezes, as explicações são prematuras. Esta é uma dessas ocasiões. Um dia tudo isso fará sentido para você - prometeu Zuleica, vendo a decepção em meu rosto.
Sonhos Lúcidos, pág. 263

 
- Agora estou sonhando!
Sonhara que as feiticeiras iam ao meu quarto e me exercitavam nos raciocínios dos feiticeiros. Elas me disseram, vezes e mais vezes, que sonhar é a função secundária do útero sendo a primeira a reprodução e o que estiver relacionado com isso. Disseram-me que sonhar é uma função natural nas mulheres, corolário puro da energia. Tendo suficiente energia, o corpo da mulher, por si só, desperta as funções secundárias do útero, e a mulher sonhará sonhos inconcebíveis.
No entanto, essa energia necessária é como o auxilio a um país subdesenvolvido: não chega nunca. Alguma coisa na ordem geral de nossas estruturas sociais impede que essa energia se libere para que as mulheres possam sonhar.
Se essa energia fosse livre, as feiticeiras me disseram, chegaria a derrubar a ordem "civilizada" das coisas. Mas a grande tragédia das mulheres é que a sua consciência social domina completamente a sua consciência individual. As mulheres têm medo de serem diferentes e não querem se afastar demais dos confortos do conhecido.
As pressões sociais impostas a elas, para não se desviarem, são fortes demais e, em vez de mudarem, concordam com o que lhes foi ordenado: as mulheres existem para estar às ordens dos homens. Assim, nunca podem sonhar sonhos de feitiçaria, embora possuam disposição orgânica para tal.
A feminilidade destruiu as oportunidades das mulheres
Sonhos Lúcidos, pág. 263

 
"O melhor modo de desdobrar nossa percepção é através do ensonhar. Como método, o ensonhar é igualmente simples, mas menos arriscado; é mais inclusivo e, principalmente, muito mais natural.
"O objetivo do aprendiz é tomar as rédeas de seu ponto de aglutinação. Uma vez que consegue deslocá-lo, está obrigado a repetir esses movimentos sem ajuda externa, por meio de disciplina e impecabilidade. Então pode ser dito que o guerreiro encontrou um aliado".
Encontros com o Nagual, pág. 122

 
"Para romper a armadilha da fixação é válido, em princípio, apelar a qualquer recurso. Na maioria dos casos, só um empurrão proveniente do exterior pode provocar em uma pessoa o movimento do ponto de aglutinação. Quando nós temos muita, mas muita sorte, esse empurrão nos chega pelo golpe de um nagual.
"Uma vez conseguido o deslocamento inicial, o guerreiro dever lutar pelo domínio de sua atenção, e deve fazê-lo por meio do exercício do intento e a prática do ensonho. Ensonhar é a porta de escape para a raça humana e é a única coisa que dá à nossa existência sua dimensão apropriada"
Encontros com o Nagual, pág. 124

domingo, 27 de março de 2011

O mundo mágico tolteca de Don Juan e Castaneda

Don Juan, o índio yaqui mexicano, nagual e xamã, dizia que o “fato energético”, era o alicerce do conhecimento dos xamãs do México Antigo, e significava que “cada nuance do cosmo é uma expressão de energia”. Nós vemos as coisas no mundo, mas atrás delas, no Invisível, elas são energia. Tudo é energia. A partir do seu nível de xamãs, de onde “viam a energia diretamente como ela flui no Universo”, eles chegaram à conclusão (que é também um fato energético) de que o cosmo inteiro é composto de duas forças gêmeas que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre elas. Eles chamavam essas duas forças de “energia animada e energia inanimada”. É o Ying e Yang do Taoismo.
Eles viram que a energia inanimada não tem consciência. Consciência, para os xamãs, é uma condição vibratória da energia animada. Don Juan dizia que os xamãs do México antigo foram “os primeiros a ver que todos os organismos da Terra são possuidores de energia vibratória”. Eles os chamavam de "seres orgânicos", e viram que os próprios organismos determinam o grau da força de coesão e os limites dessa energia. Eles também viram que existem conglomerados de energia vibratória, energia animada, que têm uma coesão própria, livres das amarras de um organismo. Eles os chamavam de "seres inorgânicos", e os descreviam como pedaços de energia com coesão própria,  que são invisíveis ao olho humano, "energias cônscias de si mesmas" e que possuem uma unidade determinada por uma força aglutinadora diferente da força aglutinadora de um organismo.
Os xamãs da linhagem de Don Juan viram que a condição essencial da energia animada, orgânica ou inorgânica, é "transformar a energia no universo como um todo, em dados sensoriais", ou seja, dados percebidos pelos 5 sentidos e depois transformadas em "informações úteis no mundo em que vivemos". Essa é a função dos seres orgânicos e inorgânicos. No caso de seres orgânicos, estes dados sensoriais “brutos” são então transformados em um sistema no qual “a energia como um todo é classificada”, e há um produto final designado e percebido, para cada classificação, qualquer que ela possa ser. Em resumo, o sistema transforma qualquer energia nova e impensável que chega do "mar escuro da consciência" para nós, em algo conhecido no nosso mundo rotineiro. Temos então uma “consciência de segunda mão”. Depois disso há ainda um filtro chamado “desnate” pelo qual eu elimino determinados aspectos de uma dada percepção, que então já chega a mim “interpretada”, graças ao filtro do aprendizado social, e fico com uma cópia barata e simplificada dela.
De acordo com a lógica dos xamãs, no caso de seres humanos, “o sistema de interpretação de dados sensoriais é o conhecimento deles sobre o mundo que os rodeia”. Eles sustentam que esse conhecimento humano pode ser temporariamente interrompido, já que ele é apenas um sistema classificatório no qual o produto final, ou “o que é o mundo” é gerado a partir da interpretação de dados sensoriais. Quando essa interrupção ocorre, os feiticeiros afirmam que “a energia pode ser percebida por nós diretamente enquanto flui no universo”, sem interpretação nenhuma. É um fato chocante que pode ser o êxtase que os místicos em busca da divindade experimentam. Os feiticeiros descrevem o ato de perceber a energia diretamente como um feito semelhante a “ver com os olhos”, embora estes estejam minimamente envolvidos no processo.
Perceber a energia diretamente permitiu aos feiticeiros da linhagem de Don Juan “ver” os seres humanos como “conglomerados de campos de energia que têm a aparência de bolas luminosas”. Esse é o “ver” dos feiticeiros videntes. Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas como dissemos nas postagens A Auto Importância e no Pássaro da Liberdade, quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que eles “são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras. O que os feiticeiros toltecas sabiam sobre os conceitos complexos da Consciência, Percepção e Atenção, as ciências atuais da Psicologia e Parapsicologia estão hoje apenas começando a arranhar”, com todo o respeito. Observar os seres humanos dessa maneira levou esses xamãs a conclusões energéticas extraordinárias. Eles notaram que “cada uma dessas bolas luminosas está individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo; uma massa que eles chamaram de o Mar Escuro da Consciência (ou A Águia)”. Eles observaram que cada bola individual está ligada ao mar escuro da consciência por um ponto que é ainda mais luminoso que a própria bola luminosa. Esses xamãs o chamaram de “ponto de aglutinação”, porque perceberam que “é neste local, fora do corpo, que a percepção é aglutinada, e acontece”. O fluxo de energia como um todo é transformado, nesse ponto, em dados sensoriais, e “esses dados são então interpretados e formam o mundo que chamamos de mundo, e que nos rodeia”.
Quando Castaneda pediu a Don Juan para explicar como esse processo de transformação do fluxo de energia em dados sensoriais ocorria, ele respondeu que a única coisa que os xamãs sabem a respeito disso é que a imensa massa de energia chamada mar escuro da consciência (ou A Águia) abastece os seres humanos com o que quer que lhes seja necessário para converter essa transformação de energia em dados sensoriais, e que tal processo não poderia jamais ser decifrado devido à imensidão da sua fonte original.
O que os xamãs do México antigo descobriram quando focalizaram seu “ver” no mar escuro da consciência foi a revelação de que “o cosmo inteiro é feito de filamentos luminosos que se estendem infinitamente”. Os xamãs os descrevem como "filamentos luminosos que vão em todas as direções sem jamais tocar uns nos outros". Eles viram que existem filamentos individuais, e que, ao mesmo tempo, esses filamentos se agrupam em massas inconcebivelmente colossais.
Outra dessas massas de filamentos, além do mar escuro da consciência que os xamãs observaram e apreciaram por causa de sua vibração, era algo que eles chamaram “Intento”. E chamaram de “intentar” o ato de xamãs individuais focalizarem sua atenção nessa massa. Eles viram que “o universo inteiro era um universo de intento, e intento, para eles, era o equivalente a Inteligência”. Uma outra forma de chamar a Consciência.
O universo, portanto, era para eles um universo de suprema inteligência. A conclusão, que se tornou parte do mundo de conhecimento deles, foi que a energia vibratória, consciente de si própria, era inteligente ao extremo. Eles viram que a massa de intento no cosmo era responsável por todas as mutações possíveis, todo tipo de variações que aconteciam no universo, “não por causa de circunstâncias cegas e arbitrárias, mas por causa do intentar feito pela energia vibratória, no nível do próprio fluxo de energia”.
Don Juan salientou que no mundo da vida cotidiana que vivemos, "os seres humanos realizam intento e intentar, através da maneira pela qual eles interpretam o mundo". Don Juan, por exemplo, alertou Castaneda para o fato que “meu mundo cotidiano não era regido pela minha percepção, mas pela interpretação da minha percepção”. Ele deu como exemplo o conceito corriqueiro de "universidade", que àquela época era um conceito de suprema importância para Castaneda. Ele disse a ele  que universidade não era algo que se podia perceber com os sentidos, porque nem minha visão, nem a audição, nem o paladar, nem os sentidos táteis ou olfativos forneciam alguma pista sobre universidade. "Universidade acontecia, e fazia sentido somente no meu intentar", e para que eu pudesse construí-la ali, precisava de tudo que sabia pelo aprendizado social como uma pessoa civilizada, de uma forma consciente ou subliminar.
O fato energético de o universo ser composto de filamentos luminosos deu origem à conclusão dos xamãs de que "cada um desses filamentos que se estendem infinitamente é um campo de energia". Eles observaram que os filamentos luminosos, ou melhor dizendo, os campos de energia de tal natureza, convergiam e passavam através do ponto de aglutinação. Já que o tamanho do ponto de aglutinação no ser humano foi determinado como sendo o equivalente a uma bola de tênis moderna, somente um número finito de campos de energia, mas ainda assim numa quantidade incalculável, convergiam e passavam através daquele ponto.
Quando os feiticeiros do México antigo viram o ponto de aglutinação, descobriram o fato energético de que “o impacto dos campos de energia que passavam através do ponto de aglutinação era transformado em dados sensoriais”; dados que eram então interpretados e transformados no mundo da vida cotidiana que vemos. Estes xamãs atribuíram a homogeneidade do conhecimento entre os seres humanos ao fato de que "o ponto de aglutinação de toda a raça humana está localizado no mesmo lugar nas respectivas esferas luminosas energéticas que nós somos: na altura das omoplatas, à distância de um braço por trás delas, nos limites da bola luminosa."
Suas observações sobre ver o ponto de aglutinação levaram os feiticeiros do México antigo a descobrirem que "o ponto de aglutinação mudava de posição sob condições de sono normal ou extrema fadiga, doença ou ingestão de plantas psicotrópicas". Esses feiticeiros viram que "quando o ponto de aglutinação estava numa nova posição, um feixe diferente de campos de energia passava através dele, forçando o ponto de aglomeração a transformar estes campos de energia em dados sensoriais e interpretá-los, trazendo como resultado um outro mundo novo e real para se perceber, mundo esse diferente do que usualmente conhecemos". Esses xamãs afirmavam que cada novo mundo que surgia dessa maneira era um mundo totalmente inclusivo, real e abrangente, diferente do mundo da vida cotidiana, mas absolutamente similar a ele no fato de que “se podia viver, ter filhos, e morrer nele”.
Para xamãs como Don Juan Matus, "o exercício mais importante de intentar, resulta no movimento voluntário do ponto de aglutinação", para que ele atinja áreas predeterminadas no conglomerado total de campos de energia que compõem um ser humano. Isso significa que depois de milhares de anos de investigação, os feiticeiros da linhagem de Don Juan descobriram que existem posições-chave no interior da bola luminosa total que é o ser humano, onde o ponto de aglutinação pode estar localizado e onde o bombardeio resultante dos campos de energia sobre  o ponto pode produzir um mundo totalmente novo e real.
Don Juan me assegurou que "isso é um fato energético e que a possibilidade de viajar para qualquer um desses mundos, ou para todos eles, é a herança de todos os seres humanos". Ele disse que "estes mundos estão lá à vontade, da mesma forma que as questões às vezes estão pedindo para serem perguntadas, e que tudo o que um feiticeiro ou um ser humano precisa para chegar até esses mundos é intentar o movimento do ponto de aglutinação".
Outro item relacionado ao intento, mas transposto para o nível do intentar universal, era, para os xamãs do México antigo, o fato energético de que estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles era um fato energético que "o universo em geral é predatório ao máximo, mas não predatório no sentido em que entendemos esse termo: o ato de saquear ou roubar, agredir ou explorar os outros em benefício próprio. Para os xamãs do México antigo, a condição predatória do universo significava que “o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência”. Eles viram que "o universo cria quantidades incalculáveis de seres orgânicos e de seres inorgânicos". Exercendo pressão sobre todos esses seres, o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma "o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio". No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, “a consciência é o resultado final”.
Don Juan Matus e os xamãs de sua linhagem consideram consciência como “o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem”, não apenas as possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros. Don Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor. A função, o propósito, nessas circunstâncias, se torna uma necessidade das mais prementes. Livre das idealidades e das falsas metas, o homem só tem a função como sua força guia. Os xamãs chamam isso de “impecabilidade”. Para eles, ser impecável significa “dar o seu melhor, e mais um pouco, mas sempre economizando energia”. Eles então obtinham a função ao "ver a energia diretamente, conforme ela flui do universo". Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional, pragmático. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo de conhecimento.
O exercício de todas as unidades de conhecimento dos feiticeiros permitia a Don Juan e a todos os xamãs de sua linhagem chegarem a conclusões energéticas estranhas que, à primeira vista, pareciam fazer sentido apenas a eles e às suas circunstâncias pessoais, mas que, se examinadas com cuidado, podiam ser aplicadas a qualquer um de nós. De acordo com Don Juan, a culminação da busca dos xamãs é algo que ele considerava como sendo o fato energético supremo, não apenas para os feiticeiros, mas para todos os seres humanos da Terra. Ele o chamava de “jornada definitiva”.
"A jornada definitiva é a possibilidade que a consciência individual, ampliada ao seu limite máximo pela adesão do indivíduo ao mundo de conhecimento dos xamãs, poderia ser sustentada além do ponto no qual o organismo é capaz de funcionar como uma unidade coesiva, o que quer dizer “além da morte”". Essa consciência transcendental era compreendida pelos xamãs do México antigo como sendo a possibilidade de que a consciência dos seres humanos ultrapassasse tudo que é conhecido, e chegasse, dessa forma, ao nível de energia que flui no universo. Xamãs como Don Juan Matus definiam sua busca como “a busca de se tomar, no final, um ser inorgânico”, significando que "essa energia cônscia de si mesma continuava após a morte, atuando como uma unidade viva, mas sem um organismo, um corpo como o conhecemos". Eles chamavam esse aspecto da cognição deles de liberdade total, um estado no qual a consciência existe livre das imposições de socialização e sintaxe".