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domingo, 25 de setembro de 2011

O Dalai Lama e o Brasil

O Budismo está numa posição interessante e peculiar. É historicamente uma tradição sem Deus, já que Buda foi apenas um homem, que atingiu a Iluminação, a Compreensão. Mas diferentemente das outras grandes tradições vivas do planeta (Hinduismo, Judaismo, Cristianismo, Islamismo...) que tem um Deus e são então consideradas religiões, entre os próprios budistas há divergências. Grande parte, se não a maior parte, a considera uma filosofia, não uma religião.
Mas, o que é exatamente uma religião?
Há controvérsias. Se considerarmos o significado da palavra-mãe, “religar”, tudo o que nos leva a uma conexão com a Consciência, Deus, ou o que for que tenha criado ou que mantém o Universo em que estamos, é uma religião. Já se levarmos em conta a concepção de que religião é uma entidade com estrutura (hoje até empresarial) organizada numa crença, com lideranças representativas, níveis de autoridade, missão, objetivos (terrenos e/ou não), supervisão, princípios, ética, controles econômicos e financeiros, etc., somente algumas são, mesmo que eventualmente não religuem nada com coisa nenhuma. Não vamos nem entrar no mérito do fato de a “autoridade reconhecida” do seu iniciador ou líder ser autêntica ou não, universal ou não.
Essa particularidade de não ter um Deus, fato que torna o Budismo não competitivo com as outras religiões, que às vezes até matam em nome do seu Deus, fez com que o budismo se harmonizasse com facilidade com as religiões e seitas com que fez contato nas várias culturas, produzindo uma grande variedade de colorações resultantes, todas chamadas de budismo.  
Somado a isso, a grande ironia é que a truculenta China num gesto “brucutu” criticado pelo Ocidente (só levemente criticado, por medo e interesses) invadiu unilateralmente o Tibet, provocou uma fuga em massa de monges budistas para a Índia e Ocidente, incluindo o próprio Dalai Lama e mais 80 mil seguidores. Foi uma forma de preservar a tradição budista tibetana. É visível o efeito dessa migração em termos de “conversões” de pessoas na Europa, EUA, e América Latina para onde muitos foram. Por essas e outras o governo chinês tem agora que ficar pedindo aos países que não apóiem o Tibet, nem recebam o seu líder nos eventos organizados pelos monges exilados e aclimatados pelo mundo. Foi uma má decisão...
O Dalai Lama, além de chefe da tradição budista, como o papa é para o Cristianismo, acumulava a função incômoda de chefe de Estado do Tibet, da qual parece finalmente ter se livrado há pouco, segundo suas mais recentes declarações. Ele é um exemplo claro, aliás o único do planeta, da possibilidade de conciliar Religião e Estado, o secular e o sagrado, de uma forma harmônica. Os outros exemplos dessa junção são frequentemente tirânicos e assustadores. É interessante notar-se a habilidade com que ele desempenha as duas funções, antes e no exílio na Índia, além de uma terceira que é a mestria de administrar mansa e discretamente o complicador de estar hospedado num pais concorrente e vizinho da China. Coisa de mestre.
Ele tem muito o que ensinar como chefe de estado e como ser humano, testado em duras situações, a esses pseudo líderes que estão aí mentindo e traindo seus representados.
E por falar em mestria, nos eventos da sua vinda ao Brasil, infelizmente tingido por situações inevitáveis do oportunismo da nossa época,  abordou 5 pontos contundentes, alguns dos quais surpreenderam a platéia presente nos vários eventos:
Corrupção – Este ponto, feito de encomenda para nós brasileiros, que tratamos bandidos e corruptos como visitas, foi apresentado como “o novo câncer do mundo”. Por que será que ele tocou nesse tema aqui no Brasil? Não é preciso ser nenhum gênio para responder. Basta ler as notícias políticas e econômicas. Uma pena que não havia nenhum representante do governo central e seu partido, notoriamente condescendentes quando não indutores, protetores e acobertadores da corrupção desenfreada. Talvez por receio de uma "saia justa", esse governo e o seu partido não enviaram representante. O único presente, do governo municipal, foi vaiado.
Pobreza – Filha da corrupção e portanto da avidez, a pobreza já poderia ter sido eliminada várias vezes no país, se tivesse recebido um investimento igual ao que é desviado pela mãe. Não seriam necessárias as famigeradas Bolsas-de-Todos-os-Tipos, artifícios gerados pelo governo para escondê-la com subsídios, ao invés de erradicá-la via educação e desenvolvimento, como fizeram alguns paises asiáticos .
Secularismo – Essa afirmação defendendo a visão laica, não religiosa do secularismo pegou todo mundo de surpresa, e só um primaz de uma tradição sem Deus poderia fazer. Ele sabiamente alega que deve ser respeitada a posição de muita gente que não é atraída por nenhuma religião, mesmo com as promessas de compaixão que todas prometem (e quase nenhuma, aliás, entrega).
Ética – O caminho de uma “cultura de paz” vai depender necessariamente do desenvolvimento e universalização de uma ética, inicialmente dentro de cada um de nós. Não só nos negócios, mas na sociedade em geral, nas relações de todos os tipos. Esse é o remédio real para combater a corrupção, aliado à Educação.
Educação – É o último citado, mas o mais importante. Ele disse que “é a tarefa das próximas gerações” e defendeu a sua importância desde o Jardim da infância até a faculdade. Foi onde ele recebeu mais aplausos, o que é um sinal claro de que a classe presente que tem acesso à educação é que conhece a importância dela e pode, através do voto, interromper o curso do que está aí hoje.
“Cabe a vocês dar uma forma ao século 21. Um mundo de compaixão pode ser criado”.
Ao despedir-se disse “A minha geração logo vai dar tchauzinho e ir embora”, ou seja, a tarefa é de vocês. Virem-se. Resolvam.
De tudo o que falou, não há nada que já não sabíamos, mas é bom ouvir isso de um Dalai Lama.

domingo, 28 de agosto de 2011

O Sonho, portal da Consciência

Nós todos sonhamos desde o nascimento até a morte, quer lembremos ou não, e entramos todo dia num mundo desconhecido. A gente passa em média 1/3 da vida dormindo, sem exceção. Os outros 2/3, pensa que está acordado e lúcido. Pensa.
O interessante é que no fim do dia a gente "apaga", vai para um lugar desconhecido, misterioso e imprevisível, não conhece as regras de lá, não leva os nossos bens, só lembranças, e ganha uma identidade parecida com a que tem durante o dia, mas só assiste as coisas, as mais mirabolantes ou não, sem interferir. Deveria se assustar, mas não se assusta porque por mais que não seja bom, sabe que pela manhã volta à chamada “realidade”. Pouca gente se questiona ou dá algum valor ao sonho. Na tradição cristã, no máximo ouvimos falar dos sonhos proféticos de José do Egito no Velho Testamento, que ajudaram a sua amizade com o faraó e a proteção aos demais judeus. Mas só nos fechados círculos do Cristianismo Esotérico pelo mundo o assunto foi trabalhado como uma prática de busca interior.
A Ciência Ocidental, por sua vez fica só procurando “em que lugar do cérebro eles são gerados ou estimulados” e quais são os estímulos, como se isso funcionasse assim, e resolvesse a questão. Não interessa o "o que", só o "onde" e " o como".
 Já a tradição oriental e o xamanismo dizem que podemos mudar essa ignorância e apatia pelo sonho  e, pasmem vocês, aprender a ficar “conscientes no sonho”, agindo como na vida acordada, e aproveitar esse 1/3 para a busca interior e evolução, ou seja aprender a ter “sonhos lúcidos” e trabalhar e aprender 24 X 7, sem se cansar. E ao contrário, ainda ganhar energia. Lamas e yogues iluminaram-se por esse processo, dentro de suas linhagens. O Budismo afirma que “você só está realmente desperto se estiver desperto no sonho e no sono”. Só então está preparado para enfrentar o bardo da morte (intervalo entre duas encarnações), e escapulir da próxima.
Como a tradição xamânica era oral, pouco se falava disso no mundo ocidental há 50 anos atrás, pois mesmo os ramos do xamanismo mentalmente sofisticados como o Budismo ou menos sofisticados como os Toltecas, siberianos, africanos e americanos, mantinham um forte segredo. Hoje, como dissemos em ”Quase Morri, Voltei, entendi”, tudo mudou pela influência crescente do Kali Yuga, e a internet fervilha de informação. Curiosamente esse acúmulo só quantitativo de informação de má qualidade continua escondendo o ouro como nos tempos da tradição oral. É assim.
O Budismo, que espalhou seus mestres pelo mundo graças à perseguição da China, e estabeleceu bases no ocidente, mudou suas antigas estratégias de segredo e os mestres passaram a fazer seminários, eventos, e editar livros e técnicas sobre como trabalhar os bardos (intervalos) como a vida, o sonho, o sono, a meditação e o pós-morte. 

Da mesma forma a tradição oral Tolteca só veio a publicar livros com Carlos Castaneda, nagual da linha dos novos videntes, em 1968 e sob protestos de muitos dos videntes da linha antiga, obcecados mais por manter o poder do que pela a “liberdade total”.
Mais recente também o xamanismo, em geral ajudado por acadêmicos recém convertidos, vem abrindo suas portas através de livros e eventos. É o caso de Olga Kharitidi, simpática, discreta e jovem bruxa, médica e escritora russa, e de outros acadêmicos como Michael Harner, Hank Wesselman e outros em todo o mundo.
No Brasil fui a uns 3 ou 4 anos atrás, a uma defesa de tese de doutorado do Osvaldo, um amigo da Patrícia, antropólogo na USP - Universidade de São Paulo, sobre o sonho na cultura indígena. A gente sequer imagina o que é esse mundo. Os índios quando se referem a um índio considerado "não bom" dizem: "ele nem sonha".
Como diferenças entre tradições podemos assinalar que a tradição e prática do Budismo tornou o sonho acessível e didático no mundo todo, mas a prática Tolteca antiga, por exemplo, continua de difícil acesso no México. Castaneda afirmou que como um “nagual de 3 pontas”  diferente dos demais, veio com a missão de quebrar a linhagem e permitir que grupos se formem e recomecem na linha dos “novos videntes” pelo mundo. Tomara.
Já como semelhanças entre essas duas tradições, elas além de considerarem o sonho como um portal importante para o Despertar, afirmam a necessidade de 3 coisas: uma linhagem, um mestre, e um discípulo autênticos. Além disso salientam como essencial um mesmo fato: a necessidade imprescindível de “uma forte intenção” (Budismo), ou de um “intento inflexível”
do discípulo(Tolteca). Estamos falando  da mesma coisa. Sem o exercício dessa Vontade sob a forma de intenção nada acontece.
Aliás a idéia de trabalhar 24 horas por dia vem como uma luva de encontro às preocupações de muitos velhos praticantes que acham que estão ficando sem a mesma energia de outrora e “o tempo está acabando”. Pois bem, não tem mais desculpa
(rsrs): quem cultivar a Consciência no Agora pode usar tanto a vida, como a meditação, o sonho, e o sono para buscar o Despertar mesmo em casa, sem enfrentar o trânsito, antes que chegue o bardo após a morte. Vixe.
Muita gente reclama que Castaneda, apesar de prático, contundente e assertivo, não é claro e didático sobre as práticas. É verdade, mas o caminho tolteca sempre foi um caminho de ação e pouca conversa. Coisa de índio. Já o Budismo nessa diáspora pelo mundo está usando mais a palavra escrita e os recursos modernos da mídia, internet, eventos, etc..
Quando li a obra central de Castaneda e discípulos (15 livros até agora) tive dificuldade, racional que sou, de superar a aparente confusão da cronologia do seu aprendizado, que é uma resultante clara do treinamento simultâneo que Don Juan deu a ele nas "duas atenções": a primeira, normal, no domínio da nossa realidade, o tonal, e a segunda, numa consciência intensificada, no domínio do nagual, misterioso e atemporal.
Então fiz um trabalho de louco, batizado de Leitura Transversal: escaneei os 15 livros (umas 3.800 páginas) e com um software de reconhecimento de texto (OCR) digitalizei toda a obra. Então escolho um tema, por exemplo, A Morte, e busco no Word as citações sobre o assunto, copio, colo, e tenho a visão completa, tudo sobre aquele assunto específico na obra, inclusive a cronologia dos livros e página. É uma leitura não de cada livro, mas de cada tema ou conceito dentro da obra toda, através das citações nos diversos livros.
Fica assim, por exemplo nesta citação abaixo, de Don Juan sobre  o assunto “O Sonhar”:
“Sonhar é um termo que sempre me incomodou muito, porque enfraquece um ato muito poderoso. Faz com que pareça arbitrário; dá uma sensação de ser uma fantasia, e isso é a única coisa que não é. Tentei mudar o termo eu mesmo, mas ele está muito arraigado. Talvez algum dia você mesmo possa mudá-lo, apesar de que, como em tudo na feitiçaria, temo que quando você realmente puder fazê-lo não se importará mais com isso porque não fará mais nenhuma diferença como chamá-lo."
Dom Juan explicara amplamente, durante todo o tempo que eu o conheci, que sonhar era uma arte, descoberta pelos feiticeiros do México antigo, por meio da qual os sonhos comuns eram transformados em entradas legítimas para outros mundos de percepção. Sustentava, de todas as maneiras que podia, o advento de algo que ele chamava de “atenção do sonhar”, que era a capacidade de dar um tipo de atenção especial, ou de colocar um tipo especial de consciência nos elementos de um sonho comum.
Seguira meticulosamente todas as suas recomendações e tinha conseguido comandar minha consciência para permanecer fixada nos elementos de um sonho. A idéia que Dom Juan propunha era não começar deliberadamente a ter um sonho desejado, mas de fixar a atenção nos elementos componentes de qualquer sonho que se apresentasse”.
“O Lado Ativo do Infinito”, pág. 220”

Isso é a Leitura Transversal. Como disse um amigo na época, “isso que você fez é trabalho de presidiário”. Mas é isso mesmo que somos. Como diz o budismo, "Se você está no corpo de um burro, aprecie o capim"...
Vou fazer duas promessas sobre O Sonhar a vocês. Uma do Budismo e outra da Tradição Tolteca via Castaneda:
•    Publicar em breve assuntos de Leitura Transversal, começando com o sonho, para quem quiser ler sobre os conceitos toltecas trazidos por Castaneda.
•    Dar uma visão resumida do trabalho budista sobre o sonho e o sono como portal de entrada para o Despertar da Consciência.
Aguardem, amici...


domingo, 19 de junho de 2011

O Raio de Criação

Você conhece um brinquedo da antiga tradição esotérica russa chamado “matryoshka” ou “babushka”? Ele é formado de uma bonequinha que fica dentro de outra, dentro de outra... até formar 7 bonecas. Não conhece? Que pena. Então você não vai compreender o Raio de Criação... (rsrs)
Na publicação anterior,  A Lei de Três, dissemos que O Absoluto, composto de 3 forças unidas, cria um “mundo de segunda ordem” onde as três forças já divididas, ao se encontrarem criam novos “mundos de terceira ordem”. Nesses mundos, além das 3 primeiras forças do mundo  anterior, há mais 3 desse próprio mundo. E vai assim até formar  7 níveis de mundos, um dentro do outro, cada um com 3 forças  a mais que o anterior. Alguma semelhança com a babushka?
Você vê? O brinquedinho inocente é uma forma de perpetuar uma tradição de conhecimento interior, como é também o Tarot e demais baralhos, o jogo de amarelinha, as danças e músicas sagradas, as lendas, o ritual do chá, o tiro de arco... É o tradicional uso de qualquer arte, jogo, brinquedo, dansa, ou coisa corriqueira da vida como apoio do buscador para a busca interior. Quer coisa mais simples que fazer um chá? Pois foi transformada em um apoio e uma arte na busca de Si Mesmo, da evolução. Coisa de gente séria...A vida não é considerada pelos orientais como um fim em si, mas apenas um meio, um palco de ação. O fim é a evolução. Esse conceito é muito difícil para nós ocidentais educados para o sucesso material, o ter em lugar do ser, a forma em vez da essência.
Vamos então simplificar essa coisa de 7 níveis de mundos com um quadro:
“Mundos”
Nível
Leis atuando
Cosmos
Plano
Analogia
Absoluto
1
1
Protocosmos
Atmico
?
Todos os mundos
2
3
Ayocosmos
Budhico
Todas as Galáxias
Todos os sóis
3
6
Macrocosmos
Causal
Via láctea
Sol
4
12
Deuterocosmos
Mental
Cada sol
Todos os planetas
5
24
Mesocosmos
Astral
Cada planeta
Terra
6
48
Microcosmos
Físico
A terra
Lua
7
96
Tritocosmos
?
A lua

Observem que no nosso “mundo”, a Terra, há 48 leis atuando sobre nós, no nível em que estamos da Criação.
Esse é o tal “Raio de Criação”, composto de 7 degraus, do qual você está no sexto, longe do Absoluto, bem em baixo (rsrs). Cada raio individual da Criação sai do Absoluto, (mundo de nível 1), não imaginável pelos nossos parâmetros habituais, e termina num satélite de um planeta (nível 7), extremamente denso em termos de energia, de materialidade. É como se a Criação fosse uma grande esfera composta de raios que saem do centro para a superfície exterior mais densa em termos de energia, ou materialidade. Um desses raios termina na nossa Lua. É o nosso.
Nessa esfera, em cada nível, as infindáveis trindades criadas dentro dele, criam outras infindáveis trindades indefinidamente. O raio que chegou até a Terra e Lua é só um único deles, dentro da esfera multidimensional que é o Absoluto.
Você vai dizer: “Muito bem, e o que significa para mim isso de 48 leis?”
Bem, significa, segundo o que dissemos  em O Ser e o Caminho de Volta, que você é um viajante, um Ser que está muito longe de casa, num país que tem lei que não acaba mais. Aliás até já esqueceu de onde veio e para onde deveria ir. Uma tristeza... Mas não desanime não, viajante (rsrs). Apesar de tudo a viagem é interessante. Aliás, muito aqui entre nós, nem dá para desistir dela. Alguns até tentam...
O problema é que para voltar dessa viagem de ida, tem muito chão para percorrer. Você vive atualmente  em um mundo sujeito a 48 ordens de leis, ou seja, longe da vontade do Absoluto, num canto muito remoto do universo e muito triste. Você está longe do centro de decisões, da Luz, na beiradinha de uma galáxia, quase caindo (rsrs), perto de um sol pequeno, num planetinha de... de nada, maltratado por você e seus semelhantes.
Quanto mais longe do Absoluto, o aumento do número de leis torna tudo mais difícil, porque tudo é mais denso. E a sua missão é tomar a matéria densa desse escafandro onde você escolheu se meter, e tentar refiná-la, torná-la mais sutil para acessar mundos de qualidade também mais sutis. Não é o nosso espírito que tem que retornar, mas a matéria densa do nosso Ser, inclusive do nosso corpo, que deve ser refinada por nós como se fôssemos uma usina de purificação, e levada de volta ao Absoluto. Esse é o caminho de evolução dos Universos e de nós mesmos. As tradições  simbólicas falam dessa descida e subida como foi citado em O Ser e o Caminho de Volta: o Cristianismo Esotérico fala isso na forma de símbolos quando trata da Encarnação do Verbo na Virgem Maria sob a forma do Filho (a descida do Espírito no Raio de Criação) e depois a Ascenção do Filho (a subida por sua própria vontade e esforço). Da mesma forma a Alquimia fala simbolicamente em transmutar metais densos em ouro. É a mesma coisa.
Na volta tudo parece difícil, e você não tem uma mão nesse jogo. Vai dar muito trabalho voltar para poder  “sentar à direita do Pai” segundo diz também metaforicamente a tradição cristã.
Aliás, aqui entre nós,  a Terra, como Ser, é que é regida por 48 leis. Nós humanos estamos entre 48 e 96 leis. Só entrando em harmonia com ela temos a possibilidade de estar sob 48 leis. Quando estamos mergulhados na escuridão da ira, inveja, e demais "pecados capitais", estamos no 96. No mundo da Lua.
Mas nós pelo menos temos uma escolha: podemos começar agora a tentativa de subir para 48 ou níveis mais finos, ou deixar para depois, correndo o risco de descermos para 96. (rsrs... ou... sniff, não sei bem qual...). Há um ditado nas tradições que afirma : “Quem não evolui, regride”.
Agora fica claro para os seguidores do caminho tolteca quando Don Juan responde para Castaneda
“- Quarenta e oito é o nosso número - disse ele. - É isso que nos torna homens. Não sei por quê. Não desperdice seu poder fazendo perguntas tolas.” ( A Porta para o Infinito, pág. 38)
Ou então:
“- Para os videntes, significa que há 48 tipos de organizações (leis) na terra, 48 tipos de feixes ou estruturas. A vida orgânica é um deles.” (O Fogo Interior, pág. 54)
Os toltecas sabiam das coisas...
Resumindo: para a gente entender o fenômeno da criação, qualquer que seja o produto dela, primeiro devemos nos aprofundar no conhecimento da Lei de Três. Quem quiser se aprofundar pode ler o livro "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido" sobre o Quarto caminho, de P. D. Ouspensky. Depois de entender com a cabeça, compreender o funcionamento dela dentro de nós.
Após a Lei de Três que rege a Criação e forma o Raio de Criação, para entender a evolução posterior de qualquer coisa ou fenômeno após ter sido criado, devemos conhecer uma outra lei fundamental, a Lei de Sete ou Lei da Oitava.  É fascinante.
Quem for muito corajoso mesmo, vai então tentar combinar a Lei de Três com a Lei de Sete e descobrir o Eneagrama, esse símbolo de difícil compreensão, cujos fragmentos praticamente se perderam na história das tradições, e foram transformados por dois sul-americanos no século passado em uma caricatura bem enfeitada, sedutora e falseada, do conhecimento original. Logo mais devemos falar disso. Aguardem.
NR – A teoria dessas leis (a autêntica) é misteriosa e atraente, mas nada vale se não a praticarmos e a descobrirmos em nós mesmos.

domingo, 20 de março de 2011

Contemplar – 1 (a natureza da mente)

Para se falar de meditar, ou contemplar, é preciso entender um pouco da natureza da mente, e de alguns pontos iniciais que formam a paisagem necessária para a compreensão.
No início deste blog falamos da dádiva que é acreditar no invisível. A gente porém, ao contrário, só acredita nas impressões trazidas pelos 5 sentidos, arquivadas pela memória, e operadas por algo racional que chamamos erroneamente de mente. Essa limitação é algo como um computador simples com um software rudimentar.
Nós temos uma grande dificuldade em imaginar uma outra dimensão da realidade graças a essa construção limitada que produzimos   e operamos, e que achamos que é tudo, todo o universo.
O que é a mente?  O que é necessário para compreendê-la?
A tradição budista tibetana afirma há milhares de anos, que são necessárias 3 coisas para que a gente compreenda a verdadeira natureza da mente: um mestre autêntico, um discípulo autêntico, e também uma linhagem autêntica, ou seja uma corrente de transmissão do Ensinamento que não foi interrompida. Particularmente para mim isso faz todo o sentido, pois mesmo sem saber se tinha um mestre autêntico, passei como discípulo pelo processo de uma linhagem que cortou sua ligação com a corrente de transmissão no meio do caminho. Um desastre.
O discípulo precisa achar essa abertura, alimentá-la constantemente, aumentar a sua visão, disposição, entusiasmo e respeito. Isso vai mudar a atmosfera de sua mente e torná-lo aberto à sua apresentação a ele. Eles chamam isso de devoção. Sem ela o mestre mostra a natureza da mente, mas o discípulo não reconhece. Eles dois tem que formar uma dupla de corações e mentes, e o método utilizado por milhares de anos é o mesmo que formou o mestre no passado e possibilita agora que ele continue a corrente de transmissão.
O mestre simplesmente desperta o discípulo para a presença viva da iluminação que já está dentro de nós esperando ser despertada. É disso que trata a lenda da Bela Adormecida. O discípulo então reconhece a inseparatividade entre ele, o mestre, entre a mente de sabedoria do mestre e a natureza da mente do aluno. E os dois não mais se separam. Surge então uma imensa gratidão, respeito e assombro, que o mestre Dudjom Rinpoche chama de “a homenagem da visão”.
“A mente é a base universal da experiência” e a grande descoberta do Budismo, como diz Sogyal Rinpoche, é que “a vida e a morte estão na mente, e em nenhum outro lugar”. Há dois aspectos dela que se sobressaem: um é a mente ordinária, pensante, dualista, discursiva, que só funciona de fora para dentro, a partir de um ponto de referência ou estímulo externo.  Chama-se “sem”. É esperta como um político corrupto, desconfiada, cética e engenhosa nos jogos de engano. A outra é a verdadeira essência da mente, que é absoluta, intocada pela mudança e pela morte. É chamada “Rigpa” , a verdadeira raiz da compreensão, o conhecimento do conhecimento. É o que os santos e os padres do deserto do Cristianismo Esotérico tocaram em suas experiências de êxtase.
Nós, que vivemos essa era de ceticismo e descrédito de tudo, achamos que nunca chegaremos a isso, que  “isso é para o Buda”, mas ele trouxe, quando se iluminou, uma mensagem simples e inspiradora de que “a iluminação está ao alcance de todos”. A nossa natureza búdica está sempre presente, seja como for a nossa vida. É um céu, independente das nuvens passageiras que o estão cobrindo.
Mas por que é tão difícil perceber a natureza da mente? Os ensinamentos nos falam em 4 erros:
•    “Ela está próxima demais”, e muito rente a nós para ser reconhecida. Como o nosso próprio rosto.
•    “É profunda demais para ser sondada” pelos meios comuns de que dispomos.
•    “É fácil demais para acreditarmos nela”. O que precisamos fazer é “não fazer” (rsrs), somente repousar na consciência  pura da natureza da mente, que está sempre presente, à nossa disposição.
•    “É maravilhosa demais” e vasta demais para caber no nosso jeitão estreito de pensar.
Se isso é verdade e ensinado no Tibet, uma cultura tranqüila e centrada na busca da iluminação, o que se dirá da nossa civilização moderna, com as armadilhas dispersivas dessa cultura dedicada à busca da ilusão...
Não existem informações gerais sobre a natureza da mente na nossa cultura. Só vemos teorias centradas em estudos biológicos do corpo e cérebro, com uma parafernália de equipamentos de “última geração”, buscando a “rebimboca da parafuseta” para colocá-la na mídia como um trunfo da ciência. Os escritores, intelectuais e filósofos falam pouco e mal disso, e o assunto não faz parte da cultura popular com nas culturas orientais. A nossa crença é de que só é real o que percebemos com os 5 sentidos. Como foi apresentado na postagem O pânico, a cura, o mestre, quando foi que vimos no ocidente um garoto de 9 anos interessado e motivado pelos pais a meditar?
Temos alguns vislumbres da natureza da mente mas a nossa cultura não tem contexto para nos ajudar a entender. Vivemos fora do centro energético, na beirada de uma galáxia, num sistema solar minúsculo, num pequeno planeta, no lado ocidental não dedicado ao invisível, e como se não bastasse, em pleno Kali Yuga (mais rsrs). Nossa escolha foi essa. É por isso que temos que “fazer o máximo, o tempo todo”, como disse Don Juan a Castaneda. Esse blog é uma minúscula tentativa de ajudar nesse sentido.
Como fazer para mudar isso? É simples. Nossa mente tem um interruptor com duas posições: olhar para fora e olhar para dentro. Vamos olhar para dentro. Como? Só olhar, sem fazer nada. No máximo tentando como apoio a atenção sobre a respiração. Ainda tem muito assunto ainda neste blog sobre isso no futuro.  Aguardem...