sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Eros e Psique



Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.


Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.


A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.


Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.


Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.


E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,


E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa

Que obra de arte sagrada deste Poeta do Espírito, um iniciado, finíssimo mestre.
Don Juan, o velho nagual tolteca, dizia que os poetas são profundamente conscientes de nosso elo de ligação com o Espírito, mas que essa consciência é intuitiva, não do modo deliberado e pragmático dos homens de conhecimento.
- Os poetas não têm conhecimento de primeira mão do Espírito - dizia. - É por isso que seus poemas não podem realmente atingir o centro dos verdadeiros gestos para o Espírito. No entanto, atingem muito perto dele.
Na busca que esse poema apresenta, a alma não se mostra. A nossa ligação com ela existe, está construída,  mas não há o contato, que só começa a acontecer quando o infante, lutando, supera a dualidade Bem-Mal. Então se liberta e começa acertar o caminho da estrada.
A alma dorme no corpo, mas na cabeça, na mente há um lembrete, uma coroa viva, real, a hera.
E os dois personagens, o príncipe - que é cada um de nós - e a sua alma, cumprem o Destino porque o Mais Alto construiu a estrada para que se encontrem. O resto, a luta, fica por conta deles. Como diz um ditado da tradição mágica, quando alguém procura a verdade embaixo, ela em cima também o procura com a mesma vontade e disposição.
Então, apesar de tudo ser falso e difícil no caminho , o Infante chega. A mão da ação se ergue à cabeça e encontra a hera, o lembrete deixado na mente.
E ele finalmente vê que o que procurava fora, no mundo, não só estava dentro dele, mas era ele mesmo. Todo o tempo. E finalmente se juntam.

Como diz o Osvaldo meu mineiro amigo, irmão de sangue: - Êh Pessoa, danadibom!

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