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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Pineal, 3º olho, Ajna Chacra: Como descalcificar e desintoxicar


Na postagem A Glândula Pineal, Corpo e Alma apresentamos um texto e vídeo do seminário do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira.  Depois na postagem Flúor, o Veneno da Pineal falamos rapidamente de algumas formas de descalcificar e desintoxicá-la. Como a receptividade foi boa, hoje ampliamos o assunto dando mais alternativas aos interessados em saná-la dos abusos involuntários passados cometidos por desconhecimento ou descaso, e de como prevenir o futuro. Para simplificar, trata-se de ingerir uma comida orgânica, simples e saudável, ou seja, evitar alimentos com agrotóxicos, adubos químicos, produtos processados (sal iodado, açúcar, pasta de dente, adoçantes químicos) e beber uma água saudável sem flúor e cloro.  Fácil, fácil... (rsrs)... É só olhar nas informações dos produtos no supermercado e você vai entender! Isso, quando a informação dos ingredientes, no rótulo é verdadeira e está sendo mesmo fiscalizada assídua, honesta e rigorosamente pelo estado e governo de plantão (Anvisa), sem propinas: esse mesmo estado e governo que fiscaliza as empreiteiras e a Petrobrás ($&%#?@$)! Fique de olho!
O principal objetivo de descalcificar sua glândula pineal é para você começar o processo de ativação da glândula e começar a ter a possibilidade de despertar sua função metafísica conhecida por  'terceiro olho' (3ª Visão), já que ela é a correspondente no físico do Ajna Chakra no corpo energético. 
Existem dois passos para descalcificação da glândula pineal. Um preventivo, outro corretivo: 
O primeiro é para impedir qualquer futura calcificação da glândula pineal, a qual é causada por estilo de vida e os fatores ambientais, por exemplo, flúor, etc. . . O segundo passo é para trabalhar na redução e eliminação da calcificação já existente, ajudando a desenvolver a potencialidade completa da glândula. 
Então, vamos aos passos que você pode utilizar para atingir essas etapas. . . 

PASSO 1 - Parar o processo de calcificação atual e futuro da glândula pineal:

A chave para impedir a calcificação posterior da glândula pineal é identificar as causas da calcificação, e segundo parar essas fontes. No geral, são a dieta (comida / bebida) e estilo de vida, as causas da calcificação. 
Abaixo está uma lista das principais causas de calcificação:

  • Halogenetos ou halóides

Os halogenetos são substâncias químicas, tais como fluoreto, cloreto e brometo. Todos eles parecem ter efeitos similares sobre a glândula pineal, por isso é importante eliminar estes de sua dieta. 
O flúor é o mais comum e difundido em nossa dieta. É magneticamente atraído para a glândula pineal mais do que qualquer outra parte do corpo. O flúor está presente nos cremes dentais e água da torneira. É um veneno de alta resistência e deve ser evitado a todo o custo e, basicamente, fecha a glândula para baixo. Mudar para uma pasta dental livre de flúor e água mineral potável ou água filtrada.

  • Cálcio

Os suplementos de cálcio - Esta é uma das maiores causas de calcificação. Se você está tomando é recomendado que pare imediatamente. 
 Quase todos os alimentos processados contêm alguma forma de cálcio. Estas formas incluem fosfato de cálcio, carbonato de cálcio e fosfato dicálcico. Muitos suplementos contêm também, reduza seu consumo. 

  • Água da torneira

A água da torneira contém muitas substâncias calcificados (incluindo flúor, como mencionado acima). A escolha mais saudável e segura para a maioria é água de nascente, já que a água destilada pode ser prejudicial no longo prazo. No entanto, a água destilada é ainda muito melhor do que a água da torneira. Você também pode usar filtros de água desde que eliminem cloro e flúor. É o caso dos filtros de Osmose Reversa. Certifique-se disto. 

  • Mercúrio

O mercúrio é muito ruim para a glândula pineal, devido à sua natureza tóxica. Deve ser evitado a todo custo. O Mercúrio usado em obturações dentárias é toxina para a pineal e deve ser removido. Também todas as vacinas estão contaminadas com mercúrio, por exemplo o Thimersal (o conservante da vacina é feito de metil-mercúrio) é muito difícil sair do cérebro, uma vez que ele esteja lá. Evite comer camarões. Atum e carne de golfinho são particularmente graves, pois contêm altas doses do mercúrio que é despejado nos rios e mares pela mineração de ouro e indústrias. De um modo geral, quanto maior for o peixe, mais elevada a concentração de mercúrio nos seus tecidos. Lâmpadas Eco também devem ser usadas com cuidado, porque se quebram o vapor de mercúrio é liberado para a atmosfera e inalado. A boa notícia é que o mercúrio pode ser removido do corpo pelo uso diário de chlorella, germem de trigo e espirulina, mas leva tempo. Erva de coentro e salsa tomadas diariamente podem ajudar a remover o mercúrio do tecido cerebral também. 

  • Agrotóxicos

Alguns pesticidas são alimentos tóxicos para a pineal também. Estes devem ser evitados. Pesticidas químicos, portanto, alimentos frescos e orgânicos são recomendados. Alimentos orgânicos, com uma alta proporção de alimentos crus (dieta crua) apóiam a desintoxicação pineal. 
Por causa da cadeia alimentar, a aprovação destes pesticidas químicos sobre certas carnes, podem acumular esses produtos químicos. Algumas pessoas recomendam dietas sem carne também para proteger a glândula pineal de substâncias potencialmente nocivas. 

  • Outras toxinas

Se algo não ocorre normalmente na natureza, não coloque em seu corpo. Se você não pode dizer o nome da substância, o mais provável é que será ruim para você. Outras toxinas incluem adoçantes artificiais (aspartame, sacarina, ciclamato, etc), açúcar refinado, phylenanine (em polpas de frutas), desodorantes, produtos químicos de limpeza, anti-sépticos bucais dentários (água oxigenada é suficiente) e purificadores de ar. 

  • Açúcar, cafeína, álcool e tabaco

Em geral, uma dieta livre de açúcar, cafeína, álcool e tabaco , não só serve para limpar o sistema, mas também trazer a energia "kundalini" (certifique-se que você tem uma mente / corpo equilibrado). A dieta deve ser mantida durante pelo menos 2 meses. Quanto mais tempo você mantiver a dieta, juntamente com o exercício, vai achar que o seu nível de energia vai aumentar e o excesso de peso vai desaparecer, deixando claro que o cérebro está livre de toxinas. Isso lhe dará a capacidade de se concentrar na ativação da glândula pineal. 

PASSO 2 - Eliminar a calcificação já existente dentro da glândula pineal:

Remover o acúmulo de anos de toxicidade em sua glândula pineal pode ser conseguido com um pouco de dedicação e empenho. 
Há uma série de maneiras para descalcificação de sua glândula pineal, abaixo está uma lista delas, junto com o que você deve fazer:

  • Óleo de peixe orgânico

Uma das substâncias naturais mais poderosas que você pode tomar para descalcificação sua glândula pineal. Ele contém uma poderosa substância chamada "Ativador X" descoberta por Weston Price. Veja abaixo mais informações sobre o "Ativador X". 

  • Enxofre

Embora se encontre enxofre no estado natural em determinados frutos e legumes frescos, este é destruído durante a cozedura, transformação e o armazenamento dos alimentos. O ideal é não processá-los. O enxofre concentra-se em volta das membranas mucosas, onde cria uma película protetora que reduz os efeitos dos alergênicos e dos contaminantes externos, protegendo assim também a glândula pineal. Alguns estudos mostram claramente que o nível de enxofre no organismo baixa significativamente com a idade. 
O enxofre está presente numa concentração especialmente elevada nas articulações, onde participa na produção do sulfato de condroitina, das glucosaminas e do ácido hialurônico. Desempenha um papel crítico na manutenção da estabilidade e integridade do tecido conjuntivo e das proteínas. 

  • Cacau orgânico ( Atenção: não chocolate comum)

Cacau "in natura" é um grande desintoxicante em doses elevadas da glândula pineal, devido ao elevado teor de antioxidantes. Também é bom como um estimulante da glândula pineal, bem como, pode ajudar a ativar o seu terceiro olho. Consulte "Ativando a seção glândula pineal", para mais informações sobre como ativar a glândula pineal. 

  • Ácido cítrico

Suco de limão consumido cru é muito bom para desintoxicação de sua glândula pineal. O ácido cítrico também funciona, mas o suco de limão cru é recomendado. Recomendamos tomar 7 limões orgânicos cada dia com o estômago vazio por três semanas. Você pode fazer isso através da mistura com água de nascente, pois o ácido cítrico, muito ácido, não é tão bom para os dentes. 

  • Alho

Alho é surpreendente para desincrustação, uma vez que é capaz de dissolver o cálcio e atua como um antibiótico natural. Benefícios adicionais são de que ele dá no seu sistema imunitário um pontapé inicial. Consuma cerca de metade de um bulbo por dia (ou mais, se desejar). Para certificar-se de que seu hálito não vá assustar ninguém, pode esmagar o alho em molho de vinagre de cidra da maçã ou suco de limão fresco cru, inclusive para desinfetar. 

  • Vinagre de maçã

Muito bom para desintoxicação de sua glândula pineal, pois contém ácido málico. É ótimo para colocar em sua comida. No geral, o vinagre é vendido em garrafas de vidro, mais saudáveis, por isso, não compre de plástico!
Óleo de orégano
Ele age como um antibiótico natural contra conchas de cálcio e nanobactérias criadas em torno da glândula pineal. 

  • Ativador X (Vitamina K1/K2)

Weston Price descobriu que é um potente super-desintoxicante, especialmente quando misturado com vitaminas A e D3, e tem muitas propriedades. Você pode reverter o processo de aterosclerose, permitindo equilíbrio enzima a ser restaurado. Isto permite então que o cálcio seja removido das artérias e em qualquer outro local (por exemplo, glândula pineal), e colocados onde se insere, no osso tem um poderoso catalisador para a absorção de vitaminas e minerais. 
A vitamina ocorre naturalmente em duas formas:
K1 (filoquinona) é encontrada em vegetais de folhas verdes;
K2 (menaquinonas composto) é criada pela microflora intestinal e também obtida a partir de fontes de alimentos, como molho japonês fermentado de soja (a mais rica fonte de alimento K2), chucrute, óleos marinhos. 

  • Boro

O boro é um outro desintoxicante e purificador da glândula pineal. Ele também funciona bem como um "eliminador" de flúor. Ele está presente na beterraba e a melhor forma de consumo é comer beterraba orgânica ou beterraba em pó misturado com água mineral ou outros líquidos / alimentos
Melatonina
Não demonstrado conclusivamente, mas muitos acreditam que a melatonina ajuda a remover o flúor, o que ajuda a desintegração de calcificação existente. Além da suplementação de melatonina, muita atividade física durante o dia e ou exercício, uma dieta saudável, não comer demais, meditação,  relaxamento exercícios contribuem para uma maior produção de melatonina pela glândula pineal. 

  • Iodo

O iodo tem sido clinicamente comprovado para aumentar a eliminação de fluoreto de sódio do corpo através da urina, sob a forma de fluoreto de cálcio. A maioria das dietas são deficientes neste mineral vital e recomenda-se que as pessoas consumam alimentos e suplementos de iodo de algas. Para complementar a ingestão de iodo, a lecitina é recomendada. 

  • Tamarindo

A polpa, casca e folhas da árvore de tamarindo podem ser usadas para fazer chá, extratos e tinturas que ajudarão a eliminar fluoretos através da urina. O tamarindo é amplamente utilizado na medicina ayurvédica e tem muitas propriedades positivas para a saúde. 

  • Água destilada

Há uma pesquisa que diz que a água destilada pode ajudar na descalcificação da glândula pineal. Para mais informações, por favor visite o seguinte site: '24 médicos com a coragem de dizer a verdade sobre a água destilada'. http://www.infiniteunknown.net/2012/04/15/24-doctors-with-the-courage-to-tell-the-truth-about-distilled-water/ 

Dois meses realizando o método acima, vai deixar a sua glândula pineal desintoxicada e descalcificada.

*Sobre o autor
Spiritual Scientist é o criador do Decalcify Pineal Gland, um site que nasceu de sua própria curiosidade para descalcificação e despertar seu terceiro olho(3ª Visão), i. e. glândula pineal. Com a ajuda de pessoas afins, o site pretende ser um recurso abrangente que contém todas as informações que você precisa saber para começar a abrir o seu terceiro olho, que nos conecta com a grande energia que une todos nós. Ele acredita que nunca houve um momento mais importante para começar esta jornada do despertar. Independentemente do medo que colocam certos grupos , é realmente um momento emocionante estar vivo. Então, se você quer aprender a descalcificação / desintoxicar e ativar sua glândula pineal / terceiro olho, visite o site e divulgue para outros.  www.decalcifypinealgland.com 
O Blog "Spiritual Scientist" realiza sua própria jornada espiritual com as experiências e lições que estamos aprendendo ao longo do caminho. Então, se você está conectado com as áreas científica / espiritual / metafísica e quer saber mais sobre essa mudança de paradigma e entãoa configurar e descobrir como podemos montar essa onda de energia cósmica juntos, há alguns momentos emocionantes pela frente! - www.decalcifypinealgland.com/blog 

Este artigo foi adaptado de informações do site http://saberepoder57.blogspot.com.br/

domingo, 20 de outubro de 2013

O Ensonhar

Falamos do sonho em pelo menos 5 postagens :
O Sonhar, O Sonho, Portal da Consciência, O Sonho - Visão ToltecaO Sonho - Visão Budista, e finalmente O Sonho e o Rupigwara. Hoje vamos falar do "ensonho", na visão de Dom Juan no livro Passes Mágicos, de Carlos Castaneda:

"Dom Juan Matus definia sonhar como o ato de usar sonhos normais como uma autêntica entrada para a consciência nos outros domínios de percepção. Para ele, essa definição implicava que os sonhos comuns podiam ser usados como uma portinhola que conduzia a percepção para outras regiões de energia diferente da energia do mundo da vida cotidiana e, no entanto, absolutamente semelhante a ela em um núcleo básico. Para os feiticeiros, o resultado de uma tal entrada era a percepção de mundos verdadeiros nos quais eles podiam viver ou morrer, mundos que eram estarrecedoramente diferentes dos nossos e, no entanto, absolutamente semelhantes.
Pressionado por uma explicação linear sobre essa contradição, Dom Juan Matus reiterava a posição padrão dos feiticeiros: de que as respostas para todas essas perguntas estavam na prática e não na inquisição intelectual. Ele dizia que, para conversarmos sobre tais possibilidades, precisaríamos usar a sintaxe da linguagem, qualquer que fosse a linguagem que falássemos, e que aquela sintaxe, pela força da utilização, limita as possibilidades de expressão. A sintaxe de qualquer linguagem só se refere a possibilidades perceptivas encontradas no mundo em que vivemos.
Dom Juan fazia uma importante diferenciação entre dois verbos em espanhol: um era sonhar ( soñar) e o outro era ensonhar (ensoñar), que é “sonhar da maneira que os feiticeiros sonham”, ou seja, o sonho lúcido, consciente, uma abertura para outros mundos e uma área de atuação e evolução como é este.
De acordo com o que Dom Juan ensinava, a arte de sonhar se originou de uma observação muito casual que os feiticeiros do antigo México fizeram quando viam pessoas que estavam adormecidas. Eles notaram que durante o sono o "ponto de aglutinação" era deslocado, de uma maneira muito natural e simples, da sua posição habitual e que se movia para qualquer lugar ao longo da periferia da esfera luminosa ou para qualquer lugar no interior dela. 
(NR – o ponto de aglutinação é o ponto luminoso onde a percepção e interpretação dos dados sensoriais é agrupada no corpo energético dos seres) 
Correlacionando a sua visão com os relatos das pessoas que tinham observado dormindo, eles perceberam que, quanto maior o deslocamento observado do ponto de aglutinação, mais estarrecedores eram os relatos dos acontecimentos e cenas vivenciados em sonhos.
Após essa observação se apoderar deles, os feiticeiros começaram a procurar avidamente oportunidades para deslocarem os seus próprios pontos de aglutinação. Acabaram usando plantas psicotrópicas para conseguir isso. Muito rapidamente perceberam que o deslocamento ocasionado pelo uso dessas plantas era errático, forçado e fora de controle. Contudo, no meio desse fracasso, descobriram uma coisa de grande valor. Chamaram-na de atenção ao sonhar.
Dom Juan explicava esse fenômeno referindo-se primeiro à consciência diária dos seres humanos como a atenção colocada nos elementos do mundo da vida cotidiana. Ele salientava que os seres humanos só lançavam um olhar superficial e, contudo, sustentado para todas as coisas que os cercavam. Mais do que examinar as coisas, os seres humanos simplesmente estabeleciam a presença daqueles elementos através de um tipo especial de atenção, um aspecto específico da sua consciência geral. A sua 
legação era que o mesmo tipo de "olhar", por assim dizer, superficial mas sustentado podia ser aplicado aos elementos de um sonho comum. Ele chamava esse outro aspecto específico da consciência geral de atenção ao sonhar ou da capacidade que os praticantes adquirem de manter a consciência inflexivelmente fixada nos itens dos seus sonhos.
O cultivo da atenção ao sonhar deu aos feiticeiros da linhagem de Dom Juan uma classificação básica dos sonhos. Descobriram que a maior parte dos seus sonhos era imaginação, produtos da cognição do seu mundo diário. Entretanto havia alguns que escapavam a essa classificação. Tais sonhos eram estados verdadeiros de consciência intensificada nos quais os elementos do sonho não eram simples imaginação, mas ocorrências geradoras de energia. Para os xamãs, os sonhos que tinham elementos geradores de energia eram sonhos em que eles eram capazes de ver a energia como ela fluía no universo.
Esses xamãs eram capazes de focalizar sua atenção ao sonhar em qualquer elemento dos seus sonhos e, dessa forma, descobriram que existem dois tipos de sonhos. Um são os sonhos com os quais todos nós estamos familiarizados, nos quais elementos fantasmagóricos entram em ação, algo que poderíamos categorizar como produto da nossa mentalidade, da nossa psique; talvez algo que tenha a ver com a nossa constituição neurológica. O outro tipo de sonhos eles chamavam de sonhos geradores de energia. Dom Juan dizia que aqueles xamãs dos tempos antigos se descobriram em sonhos que não eram sonhos e sim verdadeiras visitas feitas, em um estado parecido com o sonho, a lugares autênticos que não eram deste mundo - lugares reais, exatamente como o mundo no qual vivemos; lugares onde os objetos do sonho geravam energia assim como, para um feiticeiro vidente, as árvores, os animais ou até mesmo as rochas geram energia no nosso mundo diário.
Entretanto, para os xamãs, suas visões de tais lugares eram efêmeras demais, temporárias demais para lhes serem de algum valor. Eles atribuíam essa falha ao fato de que os seus pontos de aglutinação não podiam ser mantidos fixos por qualquer tempo considerável na posição para a qual tinham sido deslocados. As suas tentativas de remediar a situação resultaram na outra arte magna da feitiçaria: a arte de hastear.
Um dia Dom Juan definiu as duas artes com muita clareza quando me disse que a arte de sonhar, consistia em deslocar propositadamente o ponto de aglutinação da sua posição habitual. A arte de hastear consistia em voluntariamente fazê-lo permanecer fixado na nova posição para a qual tinha sido deslocado.
Essa fixação permitia aos feiticeiros do antigo México a oportunidade de testemunharem outros mundos em toda a sua extensão. Dom Juan dizia que alguns desses feiticeiros nunca voltaram de suas viagens. Em outras palavras, optaram por permanecer lá, onde quer que "lá" possa ter sido.
- Quando os antigos feiticeiros acabaram de mapear os seres humanos como esferas luminosas - disse-me Dom Juan certa vez -, eles tinham descoberto nada menos que seiscentos locais na esfera luminosa total que eram locais de mundos genuínos. Isso queria dizer que, se o ponto de aglutinação se fixasse em qualquer um daqueles lugares, o resultado era a entrada do praticante em um mundo totalmente novo.
- Mas existem esses outros seiscentos mundos, Dom Juan? perguntei.
- A única resposta para essa pergunta é incompreensível - disse ele rindo. - Ela é a essência da feitiçaria, contudo não significa nada para a mente comum. Esses seiscentos mundos estão na posição do ponto de aglutinação. Para que tal resposta faça sentido, são necessárias incalculáveis quantidades de energia. Nós temos a energia. O que nos falta é a facilidade ou a disposição de usá-la.
Eu acrescentaria que nada poderia ser mais verdadeiro do que todas essas declarações e, no entanto, nada poderia fazer menos sentido.
Dom Juan explicava a percepção comum nos termos em que os feiticeiros da sua linhagem a entendiam: em sua localização habitual, o ponto de aglutinação recebe um influxo de campos de energia do universo como um todo na forma de filamentos luminosos, chegando ao número dos trilhões. Uma vez que sua posição é consistentemente a mesma, o raciocínio lógico dos feiticeiros era que os mesmos campos de energia, na forma de filamentos luminosos, convergem para o ponto de aglutinação e o atravessam proporcionando, como um resultado consistente, a percepção do mundo que conhecemos. Esses feiticeiros chegaram à inevitável conclusão de que, se o ponto de aglutinação fosse deslocado para uma outra posição, um outro conjunto de filamentos energéticos o atravessaria resultando na percepção de um mundo que, por definição, não era o mesmo do mundo da vida cotidiana.
Na opinião de Dom Juan, o que os seres humanos consideram normalmente como sendo perceber é mais o ato de interpretar dados sensoriais. Ele mantinha que, desde o momento do nascimento, todas as coisas ao nosso redor nos supriam com uma possibilidade de interpretação e que, com o tempo, essa possibilidade se transforma em um sistema completo através do qual conduzimos todas as nossas transações perceptivas no mundo.
Ele salientava que o ponto de aglutinação não era apenas o centro onde a percepção é agrupada, mas também o centro onde a interpretação de dados sensoriais é realizada. Sendo assim, se mudasse a localização, interpretaria o novo influxo de campos de energia nos mesmíssimos termos que interpreta o mundo da vida cotidiana. O resultado dessa nova interpretação é a percepção de um mundo estranhamente semelhante ao nosso e, no entanto, intrinsecamente diferente. Dom Juan dizia que, energeticamente, aqueles outros mundos são tão diferentes do nosso quanto poderiam ser. Só a interpretação do ponto de aglutinação é que é responsável pelas aparentes semelhanças:
Dom Juan sentia necessidade de uma nova sintaxe que pudesse ser usada para expressar essa assombrosa qualidade do ponto de aglutinação e as possibilidades de percepção ocasionadas pelo sonhar. No entanto ele admitia que, se essa experiência se tornasse disponível a qualquer um de nós e não simplesmente aos xamãs iniciados, a sintaxe atual da nossa linguagem talvez pudesse ser forçada a abrangê-la.
Uma coisa relacionada ao sonhar que era de tremendo interesse para mim, mas que me deixou completamente confuso até o final, era a afirmação de Dom Juan de que realmente não havia nenhum procedimento que ensinasse alguém como sonhar. Dizia que, mais do que qualquer outra coisa, sonhar era um esforço árduo por parte dos praticantes para se porem em contato com a indescritível força que a tudo permeia, que os feiticeiros do antigo México chamavam de intento. Uma vez que essa ligação estivesse estabelecida, sonhar também se estabeleceria misteriosamente. Dom Juan afirmava que essa ligação poderia ser realizada seguindo qualquer padrão que implicasse disciplina.
Quando lhe pedi que me desse uma explicação sucinta dos procedimentos envolvidos, ele riu de mim.
- Aventurar-se no mundo dos feiticeiros - disse ele - não é como aprender a dirigir um carro. Para dirigir um carro, você precisa de manuais e de instruções. Para sonhar, você precisa intentá-la.
- Mas como posso intentá-la? - insisti.
- A única maneira como você poderia intentá-la é intentando-o
- declarou ele. - Uma das coisas mais difíceis para um homem dos nossos dias aceitar é a falta de procedimentos. O homem moderno está nos paroxismos dos manuais, das praxes, dos métodos, dos passos que conduzem a alguma coisa. Está incessantemente tomando notas, fazendo diagramas, profundamente envolvido em saber como fazer. Porém, no mundo dos feiticeiros, os procedimentos e os rituais são meros esquemas para atrair e focalizar a atenção. São estratagemas usados para forçar uma concentração de interesse e determinação. Não têm nenhum outro valor.
Para sonhar, o que Dom Juan considerava ser de suprema importância é a execução rigorosa dos passes mágicos: o único estratagema que os feiticeiros da sua linhagem usavam para auxiliar o deslocamento do ponto de aglutinação. A execução dos passes mágicos dava àqueles feiticeiros a estabilidade e a energia necessárias para suscitar a sua atenção ao sonhar, sem o que, para eles, não havia nenhuma possibilidade de sonhar. Sem a emergência da atenção ao sonhar, o máximo que os praticantes poderiam aspirar era ter sonhos lúcidos sobre mundos fantasmagóricos. Talvez pudessem ter visões de mundos que geram energia, mas, para eles, elas não fariam nenhum sentido na ausência de um fundamento lógico abrangente que as categorizasse adequadamente.
Uma vez que os feiticeiros da linhagem de Dom Juan tinham desenvolvido a sua atenção ao sonhar, eles perceberam que tinham tocado nas portas do infinito. Tinham sido bem-sucedidos na ampliação dos parâmetros da sua percepção normal. Descobriram que o seu estado normal de consciência era infinitamente mais variado do que tinha sido antes do advento da sua atenção ao sonhar. Daquele ponto em diante, os feiticeiros poderiam verdadeiramente se aventurar no desconhecido.
- O aforismo "o céu é o limite" - disse Dom Juan - era mais aplicável aos feiticeiros dos tempos antigos. Certamente, eles se superaram.
- Para eles, era realmente verdade que o céu era o limite, Dom Juan? - perguntei.
- Essa pergunta só poderia ser respondida por cada um de nós individualmente - disse ele sorrindo efusivamente. - Eles nos deram as ferramentas. Depende de nós, individualmente, usá-las ou rejeitá-las. Em essência, estamos sozinhos diante do infinito e a questão de sermos ou não capazes de alcançarmos os nossos limites precisa ser respondida pessoalmente."

domingo, 30 de setembro de 2012

O Sonhar (Leitura Transversal)

Como já fizemos com o tema “não fazer”, na postagem "O Não fazer - Leitura Transversal”, vamos novamente ler pelo avesso um outro tema na obra de Castaneda, "O Sonhar". É um método batizado de Leitura Transversal, que é nada mais do que “ler apenas um tema específico  que interessa dentro de  uma obra qualquer.  Como já dissemos lá, quem já leu os índices remissivos da Bíblia, do Alcorão, da Torá, ou qualquer obra extensa, sabe o que é isso. Imaginem: eu quero saber na Bíblia tudo sobre o assunto "a Graça”, por exemplo. Vou ao índice e acho todas as passagens sobre “a graça”. Legal, não é? A Leitura Transversal é o não fazer de ler (rsrs).
A informática facilitou essa operação porque hoje no Word ou outro editor de texto onde estão as obras digitalizadas, pode-se selecionar pelo comando “localizar” todas as vezes que um palavra ou expressão está escrita (no caso usamos “sonhar é”). Então é só ler os texto garimpados pelo “localizar”. Nós fizemos isso na obra completa de Castaneda e “cruzamos” transversalmente a obra obtendo um a um vários temas importantes que estavam dispersos nela. Um deles é “o sonhar” um tema fascinante. Quem se interessar pode se aprofundar lendo os próprios livro inteiros. O texto é longo, mas não precisa lê-lo de uma só vez. O assunto aqui exposto é alta magia.
Vamos às citações nos livros, sobre “o sonhar” ou “ensonhar” (forma que existe em espanhol), usada nos livros do Armando Torres:


“- Quer dizer então, Dom Juan, que sonhar é real? - Claro que é real.
- Tão real como o que estamos fazendo agora?
- Se você quer comparar as coisas, posso dizer que talvez seja mais real. No sonhar você tem poder; pode modificar as coisas; pode descobrir uma infinidade de fatos ocultos; pode controlar o que quiser.”
Viagem a Ixtlan – pág. 98
- Deve começar com alguma coisa bem simples - falou. Hoje, em seus sonhos, deve olhar para suas mãos.
Naturalmente, pode olhar para o que bem entender ... os dedos dos pés, sua barriga ou qualquer coisa. Falei suas mãos porque isso foi o mais fácil para eu olhar. Não pense que é brincadeira. Sonhar é tão sério quanto ver ou morrer ou qualquer outra coisa neste mundo assombroso e misterioso.
- Cada vez que você olha para alguma coisa em seus sonhos essa coisa muda de forma - disse ele, depois de um longo silêncio. - O truque de aprender a organizar-se para sonhar obviamente não é só olhar para as coisas, mas manter a visão delas. Sonhar é real quando a gente conseguiu focalizar tudo. Depois, não há diferença entre o que você faz quando dorme, e o que faz quando não está dormindo. Entende o que digo?
Viagem a Ixtlan – pág.102
"Cada vez que olhar para suas mãos, estará renovando o poder necessário para sonhar, de modo que, no princípio, não olhe para coisas demais. Quatro coisas bastam, de cada vez. Mais tarde, poderá aumentar o número até abranger tudo o que quiser, mas, assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para suas mãos.
"Quando achar que pode olhar para as coisas indefinidamente, estará pronto para uma nova técnica. Vou-lhe ensinar essa nova técnica agora, mas espero que só a utilize quando estiver preparado." Ficou calado por uns 15 minutos. Por fim, sentou-se e olhou para mim.
- O passo seguinte em organizar-se para sonhar é aprender a viajar - disse ele. - Da mesma maneira que aprendeu a olhar para suas mãos, pode obrigar-se a mover-se, a ir aos lugares. Primeiro, tem de estabelecer um lugar aonde queira ir. Escolha um lugar bem seu conhecido... talvez sua escola, ou um parque, ou a casa de um amigo., depois, obrigue-se a ir lá.
"Essa técnica é muito difícil. Precisa desempenhar duas tarefas: tem de obrigar-se a ir ao local determinado; e depois, quando já tiver dominado essa técnica, tem de aprender a controlar o tempo exato de sua viagem."
Viagem a Ixtlan – pág.115
Entenda, sonhar é o “não fazer” dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará “não fazendo”.
Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas “não fazer”. Mas, se lidar com “não fazer” diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
Viagem a Ixtlan – pág.186
- Sonhar é um auxílio prático, imaginado por feiticeiros continuou ele. - Eles não eram tolos; sabiam o que estavam fazendo ao procurarem a utilidade do nagual treinando seu tonal para se afrouxar um instante, por assim dizer, e depois apertar de novo. Essa declaração não lhe faz sentido. Mas é isso que você vem fazendo o tempo todo: treinando-se para se soltar sem perder as estribeiras. Sonhar, naturalmente, é a coroação dos esforços dos feiticeiros, o uso final do nagual.
Ele passou por todos os exercícios de não-fazer que me fizera praticar, as rotinas de minha vida diária que ele isolara para romper, e todas as ocasiões em que ele me forçara a adotar o passo do poder.
Viagem a Ixtlan – pág.220
- Como vou equilibrar a minha segunda atenção?
- Você tem de sonhar como nós sonhamos. Sonhar é o único meio de se alcançar a segunda atenção sem prejudicá-la, sem torná-la ameaçadora e temível. A sua segunda atenção está fixa naquele lado terrível do mundo; a nossa está sobre a sua beleza. Você tem de trocar de lado e vir conosco. Foi isso que você escolheu ontem à noite, quando resolveu seguir conosco.
O Segundo Círculo do Poder – pág. 208
- Creio que o nagual deve ter lhe dito também - disse ela - que a única coisa que realmente conta ao fazer essa mudança é prender a segunda atenção. Disse que a atenção é o que faz o mundo. É claro que estava absolutamente certo; tinha razões para dizer isso.
Ele era o mestre da atenção. Creio que deixou a meu cargo descobrir que tudo o que eu precisava para mudar em corpo sonhador era focalizar minha atenção no vôo. O importante era armazenar atenção no sonho, observar tudo o que eu fazia quando voava. Era esse o único meio de cuidar bem da minha segunda atenção. Uma vez sólida, focalizá-la ligeiramente nos detalhes e na sensação de voar atraía mais o sonho de vôo, até que fosse rotina para mim sonhar que voava pelos ares. No que dizia respeito ao vôo, então, a minha
segunda atenção estava aguçada. Quando a nagual me deu a tarefa de mudar para meu corpo sonhador queria que eu mudasse para a segunda atenção enquanto acordada. Foi isso que entendi. A primeira atenção, a atenção que faz o mundo, nunca pode ser completamente dominada; pode apenas ser desligada por um instante e recolocada pela segunda atenção, desde que o corpo tenha armazenado bastante dela. Sonhar é, naturalmente, um modo de armazenar a segunda atenção. Assim sendo, eu diria que a fim de mudar em corpo sonhador enquanto acordado, tem de se praticar a sonho até que ele passe a ser uma coisa simples.
- Você pode chegar ao seu corpo sonhador a qualquer hora que quiser? - perguntei.
- Não. Não é assim tão fácil - respondeu. - Aprendi a repetir os movimentos e sensações de voar enquanto acordada mas ainda assim não consigo voar toda vez que quero. Há sempre uma barreira ao meu corpo sonhador. Às vezes sinta que a barreira caiu; nessas horas meu corpo fica livre e eu consigo voar como se estivesse sonhando.
Disse a La Gorda que Dom Juan me dera três tarefas para treinar minha segunda atenção. A primeira era encontrar minhas mãos na sonho. Em seguida recomendou que eu escolhesse um local, focalizasse minha atenção nele e então sonhasse de dia e descobrisse se poderia mesma ir para lá. Sugeriu que eu colocasse alguém conhecido no lugar, de preferência uma mulher, a fim de fazer duas coisas: primeira, verificar mudanças súbitas que indicassem que eu estava lá em sonho; segunda, isolar o detalhe pequeno, que seria precisamente a coisa na qual a minha segunda atenção deveria se fixar.
O que se procura no sonho não é aquilo a que se prestaria atenção todo dia.
O Presente da Águia, pág. 116
- Por que os novos videntes determinam que sonhar deve ser ensinado em consciência normal?
- Porque sonhar é muito perigoso, e os sonhadores muito vulneráveis. É perigoso porque tem um poder inconcebível; toma os sonhadores vulneráveis porque os deixa à mercê da força incompreensível do alinhamento.
"Os novos videntes perceberam que em nosso estado normal de consciência temos incontáveis defesas que podem resguardar-nos contra a força de emanações não usuais, que subitamente se alinham durante o sonho."
Dom Juan explicou que sonhar, assim como espreitar, começava com uma simples observação. Os antigos videntes tiveram consciência de que nos sonhos o ponto de aglutinação se desloca ligeiramente para a esquerda; de maneira natural. Com efeito, o ponto de aglutinação relaxa quando o homem dorme, e todos os tipos de emanações inusuais começam a brilhar.
Os antigos videntes ficaram imediatamente intrigados com esta observação e começaram a trabalhar com esse deslocamento natural até se tomarem capazes de controlá-lo. Chamaram esse controle de sonhar, ou a arte de manejar o corpo sonhador.
O Fogo Interior, pág. 167
- Sonhar é o avião a jato do feiticeiro. O nagual Elias era um sonhador assim como meu benfeitor era um espreitador. Era capaz de criar e projetar o que os feiticeiros conhecem como corpo de sonhar, ou o Outro, e está em dois lugares distantes ao mesmo tempo. Com seu corpo de sonhar, podia ocupar-se de seus negócios como feiticeiro, e com seu eu natural um ser recluso.
Comentei que me surpreendia que pudesse aceitar tão facilmente a premissa de que o nagual Elias possuía a habilidade de projetar uma imagem tridimensional de si mesmo, e no entanto não conseguia pela minha própria vida compreender as explicações sobre o cerne abstrato.
Segundo Don Juan, eu podia aceitar a idéia da vida dupla do nagual Elias porque o espírito estava fazendo ajustes finais em minha capacidade de consciência. Explodi numa barreira de protestos diante da obscuridade de sua declaração.
- Ela não é obscura - avisou. - É a constatação de um fato. Você poderia dizer que é um fato incompreensível no momento, mas que o momento irá mudar.
Antes que eu pudesse responder, recomeçou a falar sobre o nagual Elias. Disse que o nagual Elias tinha uma mente muito inquisidora e tinha muita habilidade com as mãos. Em suas jornadas como sonhador via muitos objetos, os quais copiava em madeira e ferro forjado. Don Juan assegurou-me que alguns desses modelos eram de uma beleza estranha e assustadora
Que tipos de objetos? - perguntei.
Não há um meio de saber. Você deve considerar que,
por ser um índio, o nagual Elias entrava em suas jornadas de sonhar da mesma maneira como um animal selvagem ronda em busca de alimento. Um animal nunca aparece num lugar onde haja sinais de atividade. Vem apenas quando não há ninguém por perto. O nagual Elias, como sonhador solitário, visitava, digamos, a lixeira do infinito, quando ninguém estava presente, e copiava tudo o que via, mas nunca sabia para que aquelas coisas eram usadas ou qual a sua fonte.
O Poder do Silêncio, pág. 51
- O nagual Elias tinha grande respeito pela energia sexual - comentou Don Juan. - Acreditava que esta foi-nos concedida de modo que possamos usá-la para sonhar. Para ele, sonhar havia caído em desuso porque pode desfazer o precário equilíbrio mental de pessoas suscetíveis.
"Ensinei-o a sonhar da mesma maneira que ele me ensi
nou. Ele ensinou-me que, enquanto sonhamos, o ponto de aglutinação move-se muito suave e naturalmente.”
"O equilíbrio mental nada mais é que a fixação do ponto de aglutinação num lugar ao qual estamos acostumados. Se os sonhos fazem esse ponto mover-se e sonhar é usado para controlar esse movimento natural, e energia sexual é necessária para sonhar, o resultado é às vezes desastroso quando a energia sexual é dissipada em sexo em vez de sonhar. Então os sonhadores movem seus pontos de aglutinação erraticamente e perdem o juízo.”
- O que está tentando explicar-me, Don Juan? - perguntei porque senti que o assunto de sonhar não havia sido uma tendência natural da conversação.
- Você é um sonhador. Se não tiver cuidado com sua energia sexual, pode muito bem se acostumar à idéia de movimentos erráticos de seu ponto de aglutinação. Há um momento você estava espantado por suas reações. Bem, seu ponto de aglutinação move-se quase erraticamente, porque sua energia sexual não está equilibrada
O Poder do Silêncio, pág. 52
Com a perspectiva proporcionada pelo tempo, percebo agora
que a afirmação mais adequada que Dom Juan fez sobre o sonho foi chamá-lo de "portão para o infinito". Observei, no momento em que ele disse, que a metáfora não tinha qualquer significado para mim.
- Então vamos deixar as metáforas de lado - ele admitiu. - Digamos que sonhar é o meio prático dos feiticeiros utilizarem os sonhos comuns.
- Mas como os sonhos comuns podem ser utilizados? perguntei.
- As palavras estão sempre pregando peças - disse ele.
No meu caso, meu professor tentou descrever o que era o sonhar dizendo que era o modo dos feiticeiros dizerem boa-noite ao mundo. É claro que ele estava amoldando sua descrição para que ela se adaptasse mentalmente a mim. Estou fazendo o mesmo com você.
Em outra ocasião Dom Juan me disse:
- Sonhar só pode ser experimentado. Sonhar não é apenas ter sonhos; nem devaneios ou desejos ou imaginação. Sonhando podemos perceber outros mundos, que certamente podemos descrever; mas não podemos descrever o que nos faz percebê-los. No entanto podemos sentir de que modo o sonhar abre essas outras regiões. Sonhar parece uma sensação; um processo em nossos corpos, uma percepção em nossas mentes.
No decorrer de seus ensinamentos gerais, Dom Juan me explicou por completo os princípios, os fundamentos e as práticas da arte do sonhar. Sua instrução foi dividida em duas partes. Uma era sobre os procedimentos de sonhar; a outra sobre as explicações puramente abstratas desses procedimentos. Seu método de ensino era uma interação entre estimular minha curiosidade intelectual com relação aos princípios abstratos de sonhar e guiar-me para que eu buscasse um escoadouro em suas práticas.
A Arte de sonhar – pág. 8
- O objetivo de sonhar é intentar o corpo energético? - perguntei, subitamente com o poder de um raciocínio estranho.
- Pode-se colocar desse modo - ele disse. - Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.
"Aceite o desafio de intentar - prosseguiu ele. - Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em convencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.”
- Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?
- Quando você ouve que precisa se convencer, imediatamente se torna mais racional. Como pode se convencer de que é um sonhador quando sabe que não é? Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.
- Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?
- Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.
Dom Juan acrescentou num tom jocoso que ele não tinha energia suficiente para me fazer outro empréstimo para o intento, e que a coisa a fazer era buscar sozinho meu corpo energético. Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.
A Arte de sonhar – pág. 40
- É perigoso?
- E como! Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não
é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.
- Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?
- A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonhadora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.
Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.
A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de pedir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.
- Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.
- O que são esses batedores?
- Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.
- Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.
- Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente - ou o cérebro - capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.
Parou, obviamente para dar à minha mente tempo de absorver o que dizia.
- Os feiticeiros têm consciência dessas correntes de energia estranha - continuou. - Eles percebem-nas e tentam isolá-las dos itens normais de seus sonhos.
A Arte de sonhar – pág. 43
- O que, exatamente, é o corpo energético?
- É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.
- Mas o corpo físico não é feito também de energia?
- Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem
apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.
- Como o que, por exemplo?
- Como se transportar num instante até os confins do uni verso. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.
"Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano,
é independente. Tem sua própria esfera.”
- O que é essa esfera, Dom Juan?
- Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como percebemos comumente o mundo.
- O que significa perceber a energia enquanto ela flui? - Significa ver. Significa que o corpo energético vê a energia diretamente como uma luz, como uma espécie de corrente vibratória ou como uma perturbação. Ou então sente-a como um tranco ou uma sensação que pode ser até dolorosa.
- E quanto ao outro modo do qual você falou. Dom Juan? O corpo energético usando energia como um combustível de foguete.
- Como a energia é a sua esfera, não há problema para o corpo energético usar correntes de energia que existem no uni verso para impulsioná-lo. Tudo que precisa é isolar essas correntes, e lá se vai ele.
Parou de falar e pareceu indeciso, como se desejasse acrescentar alguma coisa mas não tivesse certeza. Sorriu e, justo quando eu ia começar a fazer uma pergunta, continuou a explicação.
- Já disse antes que, em seus sonhos, os feiticeiros isolam
batedores de outras esferas. Seu corpo energético faz isso. Reconhece a energia e vai atrás dela. Mas não é desejável que os feiticeiros fiquem procurando batedores. Eu estava relutando em dizer isso a você, por causa da facilidade com que podemos ficar envolvidos nessa busca.
A Arte de sonhar – pág. 46
. Isso é o sonhar. Um sonhador, ao cruzar o primeiro portão, já chegou ao corpo energético. O que realmente atravessa o segundo portão, saltando de sonho em sonho, é o corpo energético.
- Qual é a implicação disso tudo, Dom Juan?
- A implicação é que, ao cruzar o segundo portão, você deve intentar um controle maior e mais sóbrio de sua atenção sonhadora: a única válvula de segurança para os sonhadores.
- O que é essa válvula de segurança?
- Você vai descobrir sozinho que o verdadeiro objetivo do sonhar é aperfeiçoar o corpo energético. Um corpo energético perfeito - entre outras coisas, claro - tem um controle tão grande sobre a atenção sonhadora a ponto de fazer com que o sonho pare quando for preciso. Essa é a válvula de segurança que os sonhadores têm. Não importa o quanto eles se entreguem num determinado momento, sua atenção sonhadora deve fazer com que possam emergir.
Comecei tudo de novo, em outra busca nos sonhos. Dessa vez o objetivo era mais escorregadio do que da primeira, e a dificuldade era ainda maior. Exatamente como acontecera na primeira tarefa, eu não conseguia ter idéia do que fazer. Sentia a suspeita desencorajante de que toda a prática que eu tivera não me ajudaria dessa vez. Depois de incontáveis fracassos desisti e decidi simplesmente continuar a fixar minha atenção sonhadora em todos os itens dos sonhos. A aceitação dessa incapacidade pareceu me dar um impulso, e tomei-me ainda mais capaz de manter a visão de qualquer item de meus sonhos.
A Arte de sonhar – pág. 58
- Sonhar é manter o posicionamento para o qual o ponto de aglutinação mudou nos sonhos. Esse ato cria uma carga energética especial que atrai a atenção deles. É como isca para peixe; eles vão atrás. Os feiticeiros, ao atravessar os dois primeiros portões do sonhar, lançam a isca para esses seres e obrigam-nos a aparecer.
Atravessando os dois portões você fez com que eles notassem sua isca. Agora precisa esperar um sinal.
- Que sinal vai ser, Dom Juan?
- Possivelmente o aparecimento de um deles, se bem que parece cedo demais. Sou de opinião que o sinal deles será simplesmente alguma interferência em seu sonhar. Acredito que os choques de medo que você está experimentando atualmente não sejam indigestão, e sim choques de energia mandados pelos seres inorgânicos.
- O que devo fazer?
- Deve medir suas expectativas.
Não entendi o que ele quis dizer, e ele explicou cuidadosa mente que nossa expectativa normal, ao entrarmos em interação com os humanos ou com outros seres orgânicos, é receber uma resposta imediata à nossa solicitação. Os seres inorgânicos, entretanto, são separados de por uma barreira gigantesca: a energia que se move a diferentes velocidades. Os feiticeiros devem levar em conta essa diferença, medir suas expectativas e manter a solicitação pelo tempo necessário para que ela seja confirmada.
A Arte de sonhar – pág. 63
- Os sonhadores, querendo ou não, buscam em seus sonhos associações com outros seres. Isso pode ser um choque para você, mas os sonhadores automaticamente buscam grupos de seres; nexos de seres inorgânicos, neste caso. Os sonhadores procuram-nos avidamente.
- Isso é muito estranho, Dom Juan. Por que os sonhadores fazem isso?
- Para nós a novidade são os seres inorgânicos. E a novidade para eles é a nossa maneira de cruzar as fronteiras até o seu reino. De agora em diante você deve ter em mente que os seres inorgânicos, com sua consciência soberba, exercem uma tremenda atração sobre os sonhadores e podem facilmente transportá-los para mundos além de qualquer descrição.
"Os feiticeiros da antigüidade usavam-nos, e foram eles que cunharam o nome: aliados. Seus aliados lhes ensinaram a mover o ponto de aglutinação para fora dos limites do ovo, para o universo não-humano. Quando transportam um feiticeiro, eles transportam-no para mundos além do domínio humano.”
Enquanto ouvia fui assolado por estranhos medos e dúvidas, que ele captou de imediato.
- Você é um homem religioso até não poder mais - e riu.
- Bom, está sentindo o bafo do diabo na nuca. Pense nesses termos sobre o sonhar: sonhar é perceber mais do que acreditamos que é possível perceber.
Enquanto estava acordado eu me preocupava com a possibilidade de os seres inorgânicos realmente existirem. Quando sonhava, entretanto, minhas preocupações conscientes não tinham muita importância. Os choques de medo físico prosseguiram, mas vinham sempre seguidos por uma estranha calma; uma calma que assumia o controle sobre mim e deixava que eu procedesse como se não tivesse qualquer medo.
A Arte de sonhar – pág. 65
- Onde ficam esses mundos, Dom Juan? Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação?
- Certo. Em posicionamentos diferentes do ponto de aglutinação, mas posicionamentos aos quais os feiticeiros chegam com um movimento do ponto de aglutinação, não com um deslocamento. Entrar nesses mundos é o tipo de sonhar que apenas os feiticeiros de hoje em dia fazem. Os feiticeiros antigos ficaram longe dele, porque é necessário um grande desprendimento e nenhuma auto-importância. Um preço que eles não podiam se dar ao luxo de pagar.
"Para os feiticeiros que o praticam atualmente, o sonhar é a liberdade de perceber mundos além da imaginação.”
- Mas qual é o sentido de perceber isso tudo?
- Hoje você já fez essa mesma pergunta. Você fala como um legítimo mercador. Qual é o risco? você pergunta. Qual é a percentagem de lucro para meu investimento? Isso vai me tornar melhor?
"Não há como responder a isso. A mente mercadora faz comércio. Mas a liberdade não pode ser um investimento. Liberdade é uma aventura sem fim, onde arriscamos nossas vidas e muito mais por alguns momentos e alguma coisa além dos mundos, além de pensamentos ou sentimentos.”
A Arte de sonhar – pág. 97
- Quero dizer que não é verdadeiro falar, por exemplo, que o segundo portão é alcançado e atravessado quando um sonhador aprende a acordar em outro sonho, ou quando um sonhador aprende a mudar de sonhos sem acordar no mundo da vida cotidiana.
- Por que não é verdadeiro, Dom Juan?
- Porque o segundo portão do sonhar é alcançado e atravessado somente quando o sonhador aprende a isolar e a seguir os batedores da energia estranha.
- Então por que se dá a idéia de mudar de sonhos?
- Acordar em outro sonho ou mudar de sonho é o exercício imaginado pelos feiticeiros antigos para treinar a capacidade do sonhador isolar e seguir um batedor.
Dom Juan afirmou que a capacidade de seguir um batedor era uma grande realização, e que quando os sonhadores conseguem fazê-lo, o segundo portão é escancarado e o universo que existe por trás dele torna-se acessível. Enfatizou que esse universo está lá todo o tempo, mas que não podemos chegar a ele porque não temos habilidade energética e que, em essência, o segundo portão
do sonhar é a porta para o mundo dos seres inorgânicos, e o sonhar é a chave que abre essa porta.
A Arte de sonhar – pág. 125
O caminho do sonhar é cheio de armadilhas, e evitar essas armadilhas ou cair nelas é o problema pessoal e individual de cada sonhador, e devo acrescentar que é um problema definitivo.
- E essas armadilhas são o resultado de sucumbir à adulação ou às promessas de poder?
- Não somente de sucumbir a isso, mas de sucumbir a qualquer coisa oferecida por eles, além de um determinado ponto.
- E qual é esse certo ponto, Dom Juan?
- O ponto depende de nós como indivíduos. O desafio é cada um de nós pegar apenas o que for necessário naquele mundo, e nada mais. Saber o que é necessário é a virtude dos feiticeiros; mas pegar apenas o necessário é sua maior realização. Deixar de compreender essa regra simples é o meio mais seguro de despencar numa armadilha.
- O que acontece quando se cai, Dom Juan?
- Se você cair, você paga o preço, e o preço depende das circunstâncias e do tamanho da queda. Mas realmente não há meio de falar de uma eventualidade dessas, porque não estamos enfrentando um problema de punição. Aqui o que está em jogo são
correntes energéticas; correntes energéticas que criam circunstâncias mais apavorantes do que a morte. Tudo no caminho dos feiticeiros é questão de vida ou morte, mas no caminho do sonhar essa questão é multiplicada por cem.
A Arte de sonhar – pág. 127
O terceiro portão do sonhar é alcançado quando você se pega num sonho olhando para outra pessoa adormecida. E descobre que essa pessoa é você mesmo - disse Dom Juan.
Meu nível de energia estava tão alto, na época, que passei a trabalhar imediatamente na terceira tarefa, apesar de ele não me oferecer mais nenhuma informação além do que dissera. A primeira coisa que percebi, no treinamento de sonhar, foi que um jorro de energia imediatamente rearrumou o foco de minha atenção sonhadora. Ela estava direcionada para que eu acordasse num sonho e me visse dormindo; viajar ao mundo dos seres inorgânicos não estava mais em questão.
Logo depois me encontrei num sonho, olhando para mim mesmo adormecido. Imediatamente informei a Dom Juan. O sonho acontecera enquanto eu estava em sua casa.
- Existem duas fases em cada portão do sonhar - disse ele. - A primeira, como você sabe, é chegar ao portão; a segunda é atravessá-lo. Sonhando o que sonhou, que se viu dormindo, você chegou ao terceiro portão. A segunda fase é movimentar-se assim que vir você mesmo dormindo.
"No terceiro portão do sonhar - prosseguiu ele - você começa deliberadamente a fundir sua realidade de sonho com a realidade do mundo cotidiano. Esse é o exercício, e os feiticeiros chamam-no de completar o corpo energético. A fusão entre as duas realidades tem de ser tão absoluta que você precisa ser mais fluido do que nunca. Examine tudo no terceiro portão com grande cuidado e curiosidade.”
Reclamei, dizendo que essas recomendações eram cifradas demais, e não faziam qualquer sentido para mim.
- O que quer dizer com grande cuidado e curiosidade? perguntei.
- No terceiro portão nossa tendência é ficarmos perdidos nos detalhes. Ver as coisas com grande cuidado e curiosidade significa resistir à tentação quase irresistível de mergulhar no detalhe.
"O exercício no terceiro portão, como eu disse, é consolidar o corpo energético. Os sonhadores começam a forjar o corpo energético fazendo os exercícios do primeiro e do segundo portão. Quando chegam ao terceiro, o corpo energético está pronto para sair, ou talvez seja melhor dizer que ele está pronto para agir. Infelizmente isso também significa que está pronto para ficar hipnotizado pelos detalhes.
- O que significa ficar hipnotizado pelos detalhes?
- O corpo energético é como uma criança que ficou presa durante toda a vida. No momento em que se liberta ela chafurda em tudo que pode encontrar, e estou falando de tudo, mesmo. Cada detalhe minúsculo e irrelevante absorve totalmente o corpo energético.
A Arte de sonhar – pág. 160
- O que é um mundo real, Dom Juan?
- Um mundo que gera energia; o oposto de um mundo fantasmagórico de projeções, onde nada gera energia; como na maioria de nossos sonhos, onde nada tem efeito energético.
Dom Juan me deu outra definição do sonhar: é um processo através do qual os sonhadores isolam condições de sonho em que podem encontrar elementos geradores de energia. Ele deve ter percebido meu espanto. Riu e deu outra definição ainda mais enrolada: sonhar é o processo através do qual intentamos encontrar posicionamentos adequados do ponto de aglutinação, posicionamentos que permitem que percebamos itens geradores de energia em estados de aparência onírica.
Explicou que o corpo energético também é capaz de perceber energias muito diferentes da energia de nosso mundo. Como no caso dos itens do reino dos seres inorgânicos, que o corpo energético percebe como energia crepitante. Acrescentou que em nosso mundo nada crepita; aqui tudo ondula.
- De agora em diante - falou - a questão em seu sonhar será determinar se os itens nos quais você concentra sua atenção sonhadora são geradores de energia ou meras projeções fantasmagóricas, ou se são geradores de energia alienígena.
A Arte de sonhar – pág. 184
- Estou dizendo isso tudo porque agora você está, pela primeira vez, na posição adequada para entender que o sonhar é uma condição geradora de energia. Pela primeira vez você pode entender que os sonhos comuns são os dispositivos usados para treinar o ponto de aglutinação a alcançar o posicionamento que
cria essa condição geradora de energia, que chamamos de o sonhar.
Avisou-me que, como os sonhadores entram em mundo reais - para todos os efeitos inclusivos - eles devem ficar num estado de alerta contínuo e intenso; já que qualquer desvio do estado de alerta absoluto põe o sonhador em perigos mais do que apavorantes.
Nesse ponto comecei de novo a experimentar um movimento na cavidade torácica, exatamente como sentira no dia em que minha consciência mudara de nível sozinha. Dom Juan sacudiu meu braço com força.
- Veja o sonhar como uma coisa extremamente perigosa! - ordenou. - E comece isso agora! Não venha com nenhuma de suas manobras suspeitas.
Seu tom de voz foi tão insistente que parei o que quer que estivesse inconscientemente fazendo.
- O que está acontecendo comigo, Dom Juan?
- O que está acontecendo é que você consegue deslocar o ponto de aglutinação rápida e facilmente. Mas essa facilidade tem a tendência de tornar o deslocamento errático. Controle sua facilidade. E não se permita nem mesmo um milímetro de folga.
A Arte de sonhar – pág. 194
- A primeira parte desta lição do sonhar é que a masculinidade e a feminilidade não são estados definitivos, e sim o resultado de um ato específico de posicionamento do ponto de aglutinação. E esse ato de rearrumar o ponto de aglutinação é, naturalmente, questão de vontade e treinamento. Como era um tema caro aos feiticeiros da antigüidade, apenas eles podem lançar alguma luz sobre isso.
Talvez porque fosse a única coisa racional a fazer, comecei a discutir com Dom Juan.
- Não posso aceitar nem acreditar no que está dizendo falei sentindo o calor me subir ao rosto.
- Mas você viu a mulher - respondeu Dom Juan. - Acha que tudo isso é um truque?
- Não sei o que pensar.
-" Aquele ser na igreja é uma mulher verdadeira - ele disse num tom decidido. - Por que isso deveria perturbá-lo tanto? O fato dela ter nascido como homem somente atesta o poder das maquinações dos feiticeiros antigos. Isso não deveria surpreendê-lo. Você já incorporou todos os princípios da feitiçaria.”
Minhas entranhas estavam em vias de explodir de tensão. Num tom acusatório Dom Juan disse que eu só estava querendo discutir. Com paciência forçada e pomposidade real expliquei a ele o fundamento biológico do masculino e do feminino.
- Eu compreendo tudo isso - ele disse. - E você está certo no que está falando. Sua falha é tentar universalizar suas avaliações.
- Nós estamos falando é de princípios básicos - gritei. Eles serão pertinentes para o homem aqui ou em qualquer outro lugar do universo.
- Certo, certo - ele disse em voz baixa. - Tudo que você está dizendo é verdade enquanto nosso ponto de aglutinação permanecer em seu posicionamento habitual. Mas no momento em que ele se desloca para além de certas fronteiras, e nosso mundo cotidiano não funciona mais, nenhum dos princípios que você nutre com carinho tem esse valor absoluto do qual está falando.
A Arte de sonhar – pág. 233
A arte de sonhar é a capacidade de utilizar nossos sonhos comuns e transformá-los numa consciência controlada por uma forma especial de atenção chamada a atenção sonhadora.
A roda do tempo, pág. 196
- Não, não é sonhar - disse ele enfaticamente. - Isto é algo mais direto e mais misterioso. Aliás, tenho uma nova definição de sonhar para você hoje, mais de acordo com seu estado de ser. Sonhar é o ato de mudar o ponto de ligação com o mar escuro da consciência. Se você olhar para isso dessa forma, é um conceito e uma manobra muito simples. Requer tudo de você para percebê-lo, mas não é uma impossibilidade nem algo cercado de nuvens místicas.
"Sonhar é um termo que sempre me incomodou muito, porque enfraquece um ato muito poderoso. Faz com que pareça arbitrário; dá uma sensação de ser uma fantasia, e isso é a única coisa que não é. Tentei mudar o termo eu mesmo, mas ele está muito arraigado. Talvez algum dia você mesmo possa mudá-lo, apesar de que, como em tudo na feitiçaria, temo que quando você realmente puder fazê-lo não se importará mais com isso porque não fará mais nenhuma diferença como chamá-lo."
Dom Juan explicara amplamente, durante todo o tempo que eu o conheci, que sonhar era uma arte, descoberta pelos feiticeiros do México antigo, por meio da qual os sonhos comuns eram transformados em entradas legítimas para outros mundos de percepção. Sustentava, de todas as maneiras que podia, o advento de algo que ele chamava de atenção do sonhar, que era a capacidade de dar um tipo de atenção especial, ou de colocar um tipo especial de consciência nos elementos de um sonho comum.
Seguira meticulosamente todas as suas recomendações e tinha conseguido comandar minha consciência para permanecer fixada nos elementos de um sonho. A idéia que Dom Juan propunha era não começar deliberadamente a ter um sonho desejado, mas de fixar a atenção nos elementos componentes de qualquer sonho que se apresentasse.
Depois Dom Juan mostrara-me energeticamente o que os feiticeiros do México antigo consideravam ser a origem do sonhar: o deslocamento do ponto de aglutinação. Disse que o ponto de aglutinação se deslocava muito naturalmente durante o sono, mas ver o deslocamento era um tanto difícil porque requeria um temperamento agressivo, e que esse temperamento agressivo tinha sido a predileção dos feiticeiros do México antigo. Aqueles feiticeiros, segundo Dom Juan, encontraram todas as premissas de suas feitiçarias através desse humor.
O Lado Ativo do infinito, pág. 221
"Visto que sonhar, para a mulher, é uma questão de ter energia à sua disposição, o importante é convencê-la da necessidade de modificar a sua socialização profunda a fim de adquirir essa ener
gia. O ato de utilizar essa energia é automático; as mulheres sonham sonhos de feiticeiros no instante em que têm a energia.
Ela confessou que uma consideração séria a respeito dos sonhos de feiticeiros, que surgia de suas próprias falhas, era a dificuldade de incutir nas mulheres a coragem para abrir caminho num novo campo. A maioria das mulheres - e ela afirmou que era dessas prefere seus grilhões seguros ao pavor de novos.
- Sonhar é só para as mulheres corajosas - murmurou ela, em meu ouvido. Depois deu uma gargalhada e acrescentou: - Ou para as mulheres que não têm outra opção, porque suas circunstâncias são insuportáveis - categoria a que pertence a maioria das mulheres, mesmo sem o saber.
O som de sua risada áspera teve um efeito estranho sobre mim. Senti como se, de repente, tivesse acordado de um sonho profundo e me lembrei de uma coisa de que me esquecera inteiramente enquanto dormia.
Sonhos Lúcidos, pág. 256
- Como é que partilhamos os nossos sonhos? - tomei a perguntar.
Zuleica parou de se balançar. Sacudiu a cabeça e, depois, levantou os olhos, num sobressalto, como se tivesse acordado de repente.
- É impossível eu explicar isso agora - declarou ela. - Sonhar é incompreensível. A gente tem de alimentar isso e não discuti-lo. Como no mundo cotidiano, antes de explicar e analisar alguma coisa, é preciso experimentá-lo. - Ela falava devagar e com ponderação. Reconheceu que é importante explicar à medida que se avança. - No entanto, por vezes, as explicações são prematuras. Esta é uma dessas ocasiões. Um dia tudo isso fará sentido para você - prometeu Zuleica, vendo a decepção em meu rosto.
Sonhos Lúcidos, pág. 263
- Agora estou sonhando!
Aquela declaração pronunciada em voz alta deslanchou alguma coisa dentro de mim; uma nova avalancha de recordações diferentes me inundou. Sabia o que havia de errado comigo: tinha errado e não tinha energia para sonhar. Todas as noites, desde a minha chegada, sonhara o mesmo sonho, de que me esquecera até aquele momento. Sonhara que as feiticeiras iam ao meu quarto e me exercitavam nos raciocínios dos feiticeiros. Elas me disseram, vezes e mais vezes, que sonhar é a função secundária do útero sendo a primeira a reprodução e o que estiver relacionado com isso. Disseram-me que sonhar é uma função natural nas mulheres, corolário puro da energia. Tendo suficiente energia, o corpo da mulher, por si só, desperta as funções secundárias do útero, e a mulher sonhará sonhos inconcebíveis.
No entanto, essa energia necessária é como o auxilio a um país subdesenvolvido: não chega nunca. Alguma coisa na ordem geral de nossas estruturas sociais impede que essa energia se libere para que as mulheres possam sonhar.
Se essa energia fosse livre, as feiticeiras me disseram, chegaria a derrubar a ordem "civilizada" das coisas. Mas a grande tragédia das mulheres é que a sua consciência social domina completamente a sua consciência individual. As mulheres têm medo de serem diferentes e não querem se afastar demais dos confortos do conhecido.
As pressões sociais impostas a elas, para não se desviarem, são fortes demais e, em vez de mudarem, concordam com o que lhes foi ordenado: as mulheres existem para estar às ordens dos homens. Assim, nunca podem sonhar sonhos de feitiçaria, embora possuam disposição orgânica para tal. A feminilidade destruiu as oportunidades das mulheres
Sonhos Lúcidos, pág. 263
"O melhor modo de desdobrar nossa percepção é através do ensonhar. Como método, o ensonhar é igualmente simples, mas menos arriscado; é mais inclusivo e, principalmente, muito mais natural.
"O objetivo do aprendiz é tomar as rédeas de seu ponto de aglutinação. Uma vez que consegue deslocá-lo, está obrigado a repetir esses movimentos sem ajuda externa, por meio de disciplina e impecabilidade. Então pode ser dito que o guerreiro encontrou um aliado".
Encontros com o Nagual, pág. 122
Explicou que a fixação do ponto de aglutinação consome enormes quantidades de energia e produz uma visão estática do mundo. A energia processada desse modo se esparrama por toda nossa luminosidade e termina acumulando-se em suas bordas, onde forma massas densas que criam um reflexo do eu. Em tais circunstâncias, mover essa fixação se torna uma tarefa exaustiva.
"Para romper a armadilha da fixação é válido, em princípio, apelar a qualquer recurso. Na maioria dos casos, só um empurrão proveniente do exterior pode provocar em uma pessoa o movimento do ponto de aglutinação. Quando nós temos muita, mas muita sorte, esse empurrão nos chega pelo golpe de um nagual.
"Uma vez conseguido o deslocamento inicial, o guerreiro dever lutar pelo domínio de sua atenção, e deve fazê-lo por meio do exercício do intento e a prática do ensonho. Ensonhar é a porta de escape para a raça humana e é a única coisa que dá à nossa existência sua dimensão apropriada"
Encontros com o Nagual, pág. 124








quinta-feira, 19 de abril de 2012

O “Não fazer” (Leitura Transversal)

As Atlantas em Tula - Imagens do não fazer
O Não fazer é um mistério. À primeira vista parece que é “não fazer nada”, ou “deixar de fazer algo” ou qualquer outra coisa nessa linha. Mas não é.
Sob esse nome disfarçado de não fazer, se esconde uma técnica e disciplina poderosa usada pelos xamãs toltecas do Antigo México para engendrar um estado que induz a entrada do aprendiz na chamada Segunda Atenção. Nela temos o poder de “ver” o mundo (do jeito que os videntes vêem) e cujo poder de ver/sentir engloba não só perceber o corpo e o mundo físicos, mas perceber o corpo e o mundo energéticos, ou seja, "ver" o ovo luminoso que todos nós somos e não percebemos habitualmente, "ver" os filamentos luminosos dotados de inteligência que permeiam todo o Universo e que ao serem sensibilizados pelo nosso “ponto de aglutinação” formam o mundo que vemos e onde vivemos, e mais uma pá de coisas...
Vamos falar disso hoje (o texto é longo – preparem-se para ler em partes), mas tem um formato didático e simples, algo como ler pelo avesso, batizado de Leitura Transversal, e inventado por um louquinho que anda por aí escrevendo blogs. Leitura Transversal é nada mais do que “ler apenas o tema  que interessa dentro de  uma obra qualquer”.  Quem já leu os índices remissivos da Bíblia, do Alcorão, da Torá, ou qualquer obra extensa, sabe o que é. Imaginem: eu quero saber na Bíblia tudo sobre o assunto "a Graça”, por exemplo. Vou ao índice e acho todas as passagens sobre “a graça”. Legal, não é? A Leitura Transversal é o não fazer de ler (rsrs).

A informática facilitou essa operação porque hoje no Word ou outro editor de texto onde estão as obras digitalizadas, pode-se selecionar pelo comando “localizar” todas as vezes que um palavra ou expressão está escrita. Então é só ler o texto indicado pelo “localizar”. Nós fizemos isso na obra completa de Castaneda e “cruzamos” transversalmente a obra obtendo um a um vários temas importantes que estavam dispersos nela. Um deles é o não fazer. Quem se interessar pode se aprofundar lendo os próprios livro inteiros.
Grande parte das citações do não fazer fazem parte do capítulo 15 inteiro do livro Viagem a Ixtlan que aborda exclusivamente o tema. Para os interessados  é muito interessante lê-lo inteiro de uma vez só, no livro. Muitas outras citações estão no livro O Presente da Águia.
Vamos lá:

CITAÇÕES

“- Já lhe disse que o segredo de um corpo forte não está no que você faz com ele, mas no que não lhe faz - falou, por fim.
- Agora, chegou a hora de você não fazer o que faz sempre. Fique aqui sentado até partirmos e não faça.
- Não estou entendendo, Dom Juan.
Pôs as mãos sobre meus apontamentos e os tirou de mim. Cuidadosamente, fechou as páginas de meu caderno, prendeu-o com seu elástico e depois atirou-o como um disco dentro do chaparral.
Fiquei chocado e comecei a protestar, mas ele tapou minha boca com a mão. Apontou para um arbusto grande e disse-me que fixasse a atenção não nas folhas, mas nas sombras das folhas. Disse que correr no escuro não precisava de ser provocado pelo temor, e podia ser uma reação muito natural de um corpo jubilante que sabia o que não fazer. Ficou repetindo em meu ouvido direito que não fazer o que eu sabia como fazer" era a chave do poder. No caso de olhar para uma árvore, o que eu sabia como fazer era focalizar imediatamente a folhagem. As sombras das folhas ou os espaços entre as folhas nunca me ocupavam. Suas últimas advertências foram para começar a focalizar as sombras das folhas de um único galho e depois, aos poucos, passar a toda a árvore e não deixar que meus olhos voltassem para as folhas, pois o primeiro passo propositado para armazenar o poder pessoal era permitir ao corpo não fazer.
Talvez fosse devido à minha fadiga ou excitação nervosa, mas fiquei tão absorto nas sombras das folhas que, quando Dom Juan se levantou, eu conseguia quase agrupar as massas escuras de folhagens tão bem como eu normalmente agrupava a folhagem. O efeito geral era espantoso. Eu disse a Dom Juan que gostaria de me demorar mais. Ele riu e deu um tapinha em meu chapéu.
- Já lhe disse - falou ele. - O corpo gosta de coisas como esta.
Depois, explicou que eu devia deixar que meu poder armazenado me guiasse pelas moitas até meu caderno. Empurrou-me delicadamente para o chaparral. Andei a esmo por um momento e depois encontrei-o. Pensei que, subconscientemente, eu devia estar lembrado da direção em que Dom Juan o atirara. Esclareceu o fato, dizendo que eu fora diretamente ao caderno porque meu corpo estivera mergulhado durante horas em não fazer.
Viagem a Ixtlan, pág. 172

“Eu estava escrevendo minhas impressões das vizinhanças quando Dom Juan, depois de um longo silêncio, falou num tom dramático.
- Eu o trouxe aqui para lhe ensinar uma coisa - disse ele. - Você vai aprender a não fazer. Mais vale falar a respeito porque não há outro meio de você prosseguir. Achei que você poderia pegar o não fazer sem eu ter de dizer nada. Mas enganei-me.
- Não sei de que está falando, Dom Juan.
- Não faz mal. Vou dizer-lhe uma coisa que é muito simples, mas muito difícil de fazer; vou falar-lhe sobre não fazer, a despeito do fato de não haver meio de falar sobre isso, pois é o corpo que o faz.
Olhou de relance e depois disse que eu tinha de prestar a maior atenção ao que ele ia falar. Fechei o caderno, mas, para assombro meu, ele insistiu para eu continuar a escrever
- Não fazer é tão difícil e tão possante que você nem deve mencioná-lo - continuou ele. - Só pode fazê-lo quando tiver parado o mundo; só então é que você pode falar a respeito livremente, se é isso que você quer”
Dom Juan olhou em volta e apontou para uma pedra grande. - Aquela pedra ali é uma pedra por causa de fazer – disse ele.
Nós nos olhamos e ele sorriu. Esperei uma explicação, mas ele ficou calado. Por fim, tive de falar que não havia entendido o que ele queria dizer
- Isso é fazer! - exclamou.
- Como?
- Isso também é fazer
- De que é que está falando, Dom Juan?
- Fazer é o que torna aquela pedra uma pedra e um arbusto um arbusto. Fazer é o que torna você você e eu eu.
Disse-lhe que a explicação dele não esclarecia coisa alguma. Ele riu e coçou as têmporas.
- É este o problema de se falar - disse ele. - Sempre faz a gente confundir as questões. Se a gente começa a falar a respeito de fazer, sempre se acaba abordando outro assunto. É melhor apenas agir
"Tome aquela pedra, por exemplo. Olhar para ela é fazer, mas vê-la é não fazer"
Tive de confessar que as palavras dele não estavam fazendo sentido para mim.
- Mas fazem, sim! - exclamou. - Mas você está convencido do contrário porque isso é você fazendo. É assim que você age em relação a mim e ao mundo. - Tornou a apontar para a pedra.
- Aquela pedra é uma pedra por causa de todas as coisas que você sabe fazer em relação a ela - continuou. - Chamo isso de fazer. Um homem de conhecimento, por exemplo, sabe que aquela pedra só é uma pedra por causa de fazer, de modo que, se não quiser que a pedra seja uma pedra, basta ele não fazer. Entende o que eu digo?
Eu não estava entendendo nada. Ele riu e fez uma nova tentativa para explicar
- O mundo é o mundo porque você conhece o fazer necessário para torná-lo o mundo - disse ele. - Se você não soubesse o seu fazer, o mundo seria diferente.
Examinou-me com curiosidade. Parei de escrever. Só queria escutá-lo. Continuou a explicar que, sem esse certo "fazer", não haveria nada de conhecido naquele ambiente.”
Viagem a Ixtlan, pág. 178

.”- Digo que você torna isto uma pedrinha porque conhece o fazer necessário para isso - falou. - Agora, para poder parar o mundo você tem de parar de fazer.
. Ele parecia saber que eu continuava sem entender e sorriu, sacudindo a cabeça. Depois, pegou um galhinho e apontou para a borda irregular da pedrinha.
- No caso desta pedrinha - continuou - a primeira coisa que fazer lhe faz é diminuí-la até este tamanho. Por isso, a coisa certa a fazer, o que um guerreiro faz quando quer para o mundo, é aumentar a pedrinha, ou qualquer outra coisa, não fazendo.
Levantou-se e colocou a pedrinha num rochedo e depois disse que eu me aproximasse para examiná-la. Recomendou que eu olhasse para os buracos e depressões da pedrinha e tentasse distinguir seus mínimos detalhes. Falou que, se eu conseguisse distinguir os detalhes, os buracos e depressões desapareceriam e eu entenderia o que significa não fazer.
- Esse raio de pedrinha ainda vai deixá-lo maluco hoje - disse ele.”
Viagem a Ixtlan, pág. 179

“- Fazer o leva a separar a pedrinha da pedra maior - continuou. - Se quiser aprender a não fazer, digamos que você tem de uni-las.
Apontou para a sombrinha que a pedrinha lançava na pedra grande e disse que não era uma sombra, e sim uma cola que ligava as duas. Depois, virou-se e afastou-se, dizendo que mais tarde me viria controlar.
Fiquei olhando para a pedrinha por muito tempo. Não conseguia focalizar minha atenção nos mínimos detalhes dos buracos e depressões, mas a pequena sombra que a pedrinha lançava sobre a pedra grande tornou-se um ponto muito interessante. Dom Juan tinha razão: era como uma cola. Movia-se e variava. Eu tinha a impressão de que estava sendo espremida de debaixo da pedrinha.
Quando Dom Juan voltou, eu lhe contei o que tinha observado sobre a sombra.
- É um bom começo - disse ele. - Um guerreiro pode descobrir uma porção de coisas através das sombras. - Depois, ele sugeriu que eu pegasse a pedrinha e a enterrasse em algum lugar
- Por quê? - perguntei.
- Está olhando para ela há muito tempo. Ela agora tem alguma coisa de você. Um guerreiro sempre tenta mudar a força de fazer transformando-o em não fazer. Fazer seria deixar a pedrinha por aí, pois não é mais do que uma pedrinha. Não fazer seria proceder com essa pedrinha como se fosse alguma coisa mais do que uma simples pedra. Nesse caso, aquela pedra o absorveu por muito tempo e agora é você, e, sendo assim, não a pode deixar por aí, e tem de enterrá-la.
Se quiser ter poder pessoal, porém, não fazer seria transformar aquela pedra em um objeto de poder
- Posso fazer isso agora?
- Sua vida não está bastante ajustada para fazer isso. Se você visse, saberia que sua preocupação transformou aquela pedrinha em uma coisa bem sem atrativo; e, portanto, a melhor coisa que você pode fazer é cavar um buraco e enterrá-la e deixar que a terra absorva seu peso.
- Tudo isso é verdade, Dom Juan?
- Dizer que sim ou que não seria fazer. Mas como você está aprendendo a não fazer, devo dizer-lhe que realmente não tem importância se tudo isso é verdade ou não. É aqui que o guerreiro leva vantagem sobre o homem comum. O homem, comum se, importa em saber se as coisas são verdadeiras ou falsas, mas um guerreiro não. Um homem comum procede de maneira específica com as coisas que ele sabe serem verdade e de maneira diversa com o que sabe não ser verdade. Se se supõe que as coisas são verdadeiras, ele age e acredita no que faz. Mas se as coisas são supostamente falsas, ele não quer agir, ou não crê no que faz. Um guerreiro, ao contrário, age em ambos os casos. Se se supõe que as coisas são verdadeiras, ele age a fim de estar fazendo. Se se supõe que as coisas são falsas, ele ainda assim age, a fim de não fazer. Entende o que digo?
- Não. Não estou entendendo nada - respondi.      “
Viagem a Ixtlan, pág. 180

“- Eu estava implicando um pouco com você - disse Dom Juan, quando voltei e tornei a me sentar - Mas sei que, se você não falar, não entende. Falar para você é fazer, mas falar não serve e, se você quiser entender o que eu quero dizer com não fazer, tem de executar um exercício simples. Como estamos interessados em não fazer, não importa que faça o exercício agora ou daqui a dez anos.
Mandou que eu me deitasse e pegou meu braço direito, dobrando-o no cotovelo. Depois, virou minha mão para a palma ficar voltada para a frente; curvou meus dedos, de modo que minha mão ficou na posição de quem está segurando uma maçaneta e depois começou a mover meu braço para a frente e para trás, num movimento circular que parecia o ato de empurrar e puxar uma alavanca presa a uma roda.
Dom Juan disse que um guerreiro executava esse "movimento cada vez que queria expulsar alguma coisa de seu corpo, como uma doença ou uma sensação desagradável. A intenção era empurrar e puxar uma força adversa imaginária até a pessoa sentir um objeto pesado, um corpo sólido, opondo-se aos movimentos livres da mão. No caso do exercício, não fazer consistia em repeti-lo até se sentir o corpo pesado com a mão, a despeito do fato de a pessoa não poder acreditar que fosse possível senti-lo.
Comecei a mover o braço e, dali a pouco, minha mão ficou gelada. Comecei a sentir uma espécie de polpa em volta dela. Era como se eu estivesse remando numa substância líquida, pesada e viscosa.
Dom Juan fez um movimento súbito e agarrou meu braço para parar o movimento. Meu corpo todo tremia como se abalado por alguma força oculta. Examinou-me quando me sentei e, depois, andou em volta de mim, antes de tornar a sentar-se onde estava antes.
- Já fez bastante - disse ele. - Pode executar esse exercício em outra ocasião, quando tiver mais poder pessoal.
- Fiz alguma coisa errada?
- Não. Não fazer é só para guerreiros muito fortes e você ainda não tem o poder de lidar com isso. Agora, só vai apanhar coisas horrendas com as mãos. Portanto, faça-o pouco a pouco, até sua mão não ficar mais fria. Quando ficar quente, você chega a poder sentir as linhas do mundo com ela.”
Viagem a Ixtlan, pág. 181

“Parou para me dar tempo de perguntar a respeito das linhas.
Mas antes de eu ter oportunidade, começou a explicar que havia um número infinito de linhas que nos ligavam às coisas. Disse que o exercício de não fazer que ele acabava de descrever ajudaria a qualquer pessoa a sentir uma linha que saísse da mão que se movia, uma linha que a pessoa poderia colocar ou lançar sempre que quisesse. Dom Juan disse que aquilo não passava de um exercício porque as linhas formadas pela mão não eram suficientemente duráveis para ter um valor real numa situação de fato.
- Um homem de conhecimento utiliza outras partes de seu corpo para produzir linhas duráveis - explicou.
- Que partes, Dom Juan?
- As linhas mais duráveis que o homem de conhecimento produz partem do meio do corpo. Mas ele também as pode fazer com os olhos.
- São linhas de verdade?
 - Por certo.
- Pode-se vê-las e tocá-las?
- Digamos que se pode senti-las. A parte mais difícil do modo de vida de um guerreiro é entender que o mundo é uma sensação.
Quando a pessoa está não fazendo, sente o mundo, e o consegue por meio dessas linhas.
Ele parou e me examinou com curiosidade. Ergueu as sobrancelhas, abriu os olhos e piscou. O efeito foi como os olhos de uma ave piscando. Quase imediatamente, senti uma sensação de desconforto e repugnância. Era como se alguma coisa estivesse fazendo pressão sobre minha barriga.
- Entende o que digo? - perguntou Dom Juan, desviando o olhar.
Falei que estava com náuseas e ele respondeu, displicentemente, que sabia disso e que estava tentando fazer com que eu sentisse as linhas do mundo com os olhos dele. Eu não podia admitir a idéia de que ele mesmo me estivesse fazendo sentir daquele jeito. Exprimi minhas dúvidas. Eu não podia conceber a idéia de que ele estava causando minha sensação de náusea, pois ele não tinha tido qualquer contato físico comigo.
- Não fazer é muito simples, mas muito difícil - disse ele. - Não é uma questão de entender, mas de dominar a coisa. “Ver”, naturalmente, é a realização final de um homem de conhecimento, e ver só é conseguido quando a pessoa parou o mundo pela técnica de não fazer
Sorri, sem querer. Não tinha entendido o que ele queria dizer
- Quando a gente faz alguma coisa com as pessoas - continuou - o interesse devia ser só de apresentar o caso aos corpos delas. E isso que tenho feito com você até agora, deixando que seu corpo saiba. Quem se importa se você entende ou não?
- Mas isso não é justo, Dom Juan. Quero entender tudo, pois, do contrário, vir aqui seria uma perda do meu tempo.
-. Uma perda do seu tempo! - exclamou, imitando meu tom de voz. - Você é mesmo convencido.”
Viagem a Ixtlan, pág. 182

“A escalada foi um negócio terrível. Era um verdadeiro alpinismo, só que não tínhamos cordas para nos ajudar e proteger. Dom Juan me disse repetidamente que não olhasse para baixo; e teve de me puxar umas duas vezes, quando comecei a deslizar pela pedra. Eu estava muito vexado porque Dom Juan, tão velho, tinha de me ajudar. Disse-lhe que estava em má forma física porque tinha muita preguiça de fazer exercício. Respondeu que uma vez que a pessoa alcançasse um certo nível de poder pessoal, os exercícios ou qualquer treinamento desse tipo não eram necessários, pois a única coisa que se precisava, para estar numa forma impecável, era empenhar-se em não fazer
Viagem a Ixtlan, pág. 183

Apontou para uma grande pedra bem diante de nós.
- Olhe para a sombra daquela pedra - falou. - A sombra é a pedra e, no entanto, não é. Observar a pedra a fim de saber o que é a pedra é fazer, mas observar a sombra é não fazer
"As sombras são como portas, as portas de não fazer. Um homem de conhecimento, por exemplo, sabe dos sentimentos mais íntimos dos homens observando suas sombras."
- Há movimento nelas? - perguntei.
- Pode-se dizer que há movimento nelas, ou pode-se dizer que as linhas do mundo aparecem nelas, ou pode-se dizer que os sentimentos vêm delas.
- Mas como é que os sentimentos podem vir de sombras, Dom Juan?
- Acreditar que as sombras são apenas sombras é fazer - explicou. - Essa idéia é um pouco burra. Pense nisso assim. Há tanto mais em tudo no mundo que, obviamente, deve haver mais nas sombras também. Afinal de contas, o que as torna sombras é apenas o nosso fazer
Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer
Viagem a Ixtlan, pág. 184
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Esclareceu suas instruções dizendo que, ao procurar um lugar de repouso, a pessoa tinha de olhar sem focalizar, mas, ao observar as sombras, era preciso olhar atravessado, conservando, porém, focalizada uma imagem nítida. A idéia era deixar que uma sombra se superpusesse à outra, atravessando-se os olhos. Explicou que, por este processo, a pessoa podia verificar uma certa sensação que emanava das sombras. Comentei que suas palavras eram vagas, mas ele garantiu que não havia realmente meio de descrever o que queria dizer
Minha tentativa de fazer o exercício foi vã. Esforcei-me até ficar com dor de cabeça. Dom Juan não ligou a mínima a meu fracasso.
Escalou um pico em forma de domo e gritou lá de cima para eu procurar duas pedras estreitas e compridas. Mostrou com as mãos o tamanho das pedras que queria..
Encontrei dois pedaços de pedra e dei-os a ele. Dom Juan colocou cada pedra em uma fenda, a uma distância de uns 30 centímetros, mandou que eu me postasse por cima delas, virado para o oeste, dizendo para eu fazer o mesmo exercício com as sombras delas.
Dessa vez, a coisa foi totalmente diferente. Quase imediatamente, consegui atravessar os olhos e percebi suas sombras individuais como se estivessem fundidas numa só. Reparei que o fato de olhar sem convergir as imagens dava à sombra única que eu tinha formado uma profundidade incrível e uma espécie de transparência. Fiquei olhando, sem poder acreditar. Cada buraco da pedra, na área em que meus olhos estavam focalizados, era nitidamente distinguível; e a sombra composta, superposta neles, era como uma película de uma transparência indescritível.
Eu não queria piscar, com medo de perder a imagem que estava mantendo tão precariamente. Por fim, meus olhos doloridos me obrigaram piscar mas não perdi em absoluto a visão do detalhe verdade, ao umedecer a córnea, a imagem ficou ainda mais nítida. Nessa altura, reparei que era como se eu estivesse olhando de uma altura imensa para um mundo que eu nunca vira. Também reparei que podia percorrer as vizinhanças da sombra sem perder o foco de minha percepção visual. Então, por um instante, perdi a noção de estar olhando para uma pedra. Senti que estava chegando a um mundo, vasto além de tudo o que jamais eu concebera. Essa percepção extraordinária só durou um segundo e depois tudo se desligou. Automaticamente, ergui os olhos e vi Dom Juan de pé, logo acima das pedras, olhando para mim. Ele tapara o Sol com o corpo.
Descrevi a sensação rara que tivera e ele explicou que fora obrigado a interrompê-la porque "viu" que eu ia me perder nela. Acrescentou que era uma tendência natural em todos nós termos caprichos quando ocorriam sentimentos daquela natureza, e que, cedendo a esse capricho, eu quase tinha transformado não fazer em meu velho conhecido fazer. Disse que o que eu devia ter feito era manter a vista sem sucumbir a ela, pois, de certo modo, fazer era uma maneira de sucumbir.”
Viagem a Ixtlan, pág. 185

“Tive de confessar que estava mais aturdido do que nunca com esse não fazer. Os comentários de Dom Juan foram que eu deveria estar satisfeito com o que tinha feito, pois uma vez na vida tinha agido corretamente, que reduzindo o mundo eu o aumentara, e que, embora estivesse longe de sentir as linhas do mundo, havia usado corretamente a sombra das pedras como uma porta para não fazer
A declaração de que eu aumentara o mundo reduzindo-o intrigou-me profundamente. O detalhe da rocha porosa, na pequena área em que meus olhos estavam focalizados, era tão vívido e tão precisamente definido que o topo do pico redondo se tornava um vasto mundo para mim; e, no entanto, era realmente uma visão reduzida da pedra. Quando Dom Juan tapou a luz e eu me encontrei olhando como faria normalmente, o detalhe preciso embaciou-se, os buraquinhos na pedra porosa tornaram-se maiores, a coloração marrom da lava seca tornou-se opaca e tudo perdeu a transparência brilhante que fazia da rocha um mundo verdadeiro.
Viagem a Ixtlan, pág. 186

“Ficamos calados por muito tempo. Depois, comemos, também em silêncio. Foi só depois que o Sol se pôs que ele, de repente, se virou e me perguntou sobre meus progressos em matéria de "sonhar".
Respondi que tinha sido fácil no princípio, mas que, no momento, eu tinha deixado completamente de encontrar minhas mãos
nos sonhos.
- Quando você começou a sonhar, estava usando meu poder pessoal, por isso era mais fácil - disse ele.
- Agora, você está vazio. Mas tem de continuar a tentar até ter suficiente poder seu. Entende, sonhar é o não fazer dos sonhos e, à medida que você progredir em seu não fazer, também progredirá no sonhar. O truque é não deixar de procurar suas mãos, apesar de não acreditar que aquilo que está fazendo tem sentido. Na verdade, como já lhe disse, um guerreiro não precisa acreditar, pois, enquanto continuar a agir sem acreditar, estará não fazendo.
- Nós nos olhamos.
Não há mais nada que lhe possa dizer a respeito de sonhar - continuou ele. - Tudo o que eu possa dizer será apenas não fazer. Mas, se lidar com não fazer diretamente, você mesmo saberá o que fazer no sonhar. Porém, a essa altura, encontrar suas mãos no sonho é essencial, e estou certo de que você as encontrará."
- Não sei, Dom Juan. Não confio em mim.
- Não é questão de confiar em ninguém. Tudo isso é assunto da luta de um guerreiro; e você continuará a lutar, se não sob seu próprio poder, então talvez, sob o impacto de um adversário valoroso, ou com o auxílio de alguns aliados, como o que já o está seguindo.
Fiz um movimento brusco e involuntário com o braço direito. Dom Juan disse que meu corpo sabia muito mais do que eu suspeitava, pois a força que nos estava seguindo estava à minha direita. Falou, em voz baixa e confidencial, que, por duas vezes naquele dia, o aliado tinha chegado tão junto de mim que ele tivera de intervir e detê-lo.
- Durante o dia as sombras são as portas de não fazer - disse ele. - Mas, à noite, como muito pouco fazer prevalece no escuro, tudo é sombra, inclusive os aliados. Já lhe falei sobre isso quando lhe ensinei o passo do poder
Ri alto e meu próprio riso me assustou.
"Tudo o que lhe ensinei até agora foi um aspecto de não fazer - continuou ele. - Um guerreiro aplica não fazer a tudo no fundo e, no entanto, não lhe posso dizer mais a respeito do que Já lhe falei hoje. Deve deixar que seu próprio corpo descubra o poder e a sensação de não fazer"
Tive outro acesso de cacarejar nervoso.
“É burrice sua escarnecer dos mistérios do mundo simplesmente porque conhece fazer o escárnio" - disse ele, com uma cara séria.
Falei que não estava escarnecendo de nada ou ninguém, mas que era mais nervoso e incompetente do que ele pensava.
- Sempre fui assim - disse eu. - E, no entanto, quero modificar-me e não sei como. Sou muito inadequado.
- Já sei que você acha que não presta - disse ele. – Isso é seu fazer. Agora, para afetar esse fazer, vou recomendar que você aprenda outro fazer. De hoje em diante, e por um período de oito dias, quero que você minta para si mesmo. Em vez de se dizer a verdade, que você é podre, feio e inadequado, você se dirá que é o oposto, sabendo que está mentindo e que é completamente sem esperança.
- Mas qual a finalidade de mentir assim, Dom Juan?
- Pode prendê-lo a outro fazer e então pode compreender que ambos os fazeres são mentiras, irreais, e que prendê-lo a qualquer deles é uma perda de tempo, pois a única coisa que é real é o ser em você, que vai morrer. Chegar a esse ser é o não fazer do eu.”
Viagem a Ixtlan, pág. 186

- Digamos que, quando cada um de nós nasce, traz consigo um circulozinho de poder. Esse pequeno círculo é posto em uso quase que imediatamente. Assim, cada um de nós já está preso desde que nasce e os nossos círculos de poder são ligados aos de todos os outros. Em outras palavras, os nossos círculos de poder são ligados ao fazer do mundo a fim de formar o mundo.
- Dê um exemplo que eu possa entender
- Por exemplo, nossos círculos de poder, o seu e o meu, estão ligados neste momento ao fazer esta sala. Estamos formando esta sala. Nossos círculos de poder estão girando e formando esta sala neste momento mesmo.
- Espere, espere - disse eu. - Esta sala está aqui sozinha. Não a estou criando. Não tenho nada a ver com ela.
Dom Juan não parecia estar interessado em meu protesto. Assegurou calmamente que a sala em que estávamos era criada e conservada no lugar por causa da força do círculo de poder de todos.
- Entende, - continuou - cada um de nós conhece o fazer de salas porque, de uma maneira ou de outra, já passamos grande parte de nossas vidas nas salas. Um homem de conhecimento, por outro lado, desenvolve outro círculo de poder. Eu o chamaria o círculo de não fazer, pois é ligado a não fazer. Com esse círculo, portanto, ele pode fazer girar outro mundo.
- O problema com você é que ainda não desenvolveu seu círculo de poder extra e seu corpo não conhece o não fazer - disse ele.
- Nós todos fomos ensinados a concordar sobre fazer – disse ele baixinho. - Você não tem idéia do poder que essa concordância acarreta. Mas, felizmente, não fazer é igualmente milagroso e poderoso.”
Viagem a Ixtlan, pág. 197

“- Você é muito esperto - disse ele por fim. - Volte para onde sempre esteve. Mas dessa vez você está liquidado. Não tem para onde voltar. Não lhe vou explicar mais nada. O que Genaro lhe fez ontem, fez a seu corpo, por isso deixe seu corpo resolver como são as coisas.
O tom de voz de Dom Juan era amistoso mas singularmente indiferente e aquilo me deu uma tremenda sensação de solidão. Exprimi minha tristeza. Ele sorriu. Seus dedos pegaram de leve a parte de cima de minha mão.
- Nós dois somos seres que vamos morrer - disse ele, baixinho. - Não há mais tempo para o que costumávamos fazer. Agora, tem de usar todo o não fazer que lhe ensinei e parar o mundo.
Tornou a pegar minha mão. Seu toque era firme e amistoso; era como uma reafirmação de que ele se interessava e tinha afeição por mim e, ao mesmo tempo, me dava a impressão de um propósito inabalável.
- Este é meu gesto por você - falou, conservando-se agarrado a minha mão por um instante. - Agora, tem de ir sozinho para aquelas montanhas amigas. - Apontou com o queixo para a cadeia de montanhas distante, para sudeste.
Disse que eu teria de ficar lá até meu corpo me mandar parar e então voltar para casa dele. Deixou-me saber que não queria que eu dissesse qualquer coisa, nem esperasse mais, empurrando-me delicadamente na direção de meu carro.
- O que devo fazer lá? - perguntei.
Ele não respondeu, e ficou olhando para mim, sacudindo a cabeça.
- Isso já acabou - disse ele por fim. Em seguida, apontou o dedo para sudeste. - Vá para lá - concluiu, com rispidez.”
Viagem a Ixtlan, pág. 229

- Depois que o aprendiz recebe sua tarefa de feitiçaria, está pronto para outro tipo de instrução - continuou ele. - Aí ele é um guerreiro. No seu caso, como você não era mais aprendiz, eu lhe ensinei as três técnicas que ajudam a sonhar: romper as rotinas da vida, o passo do poder, e não fazer. Você era muito constante, burro como aprendiz e burro como guerreiro. Anotava conscienciosamente tudo o que eu dizia e tudo o que lhe acontecia, mas não agia exatamente conforme eu mandava. De modo que eu ainda tinha de bombardeá-lo com plantas de poder.
Dom Juan então deu-me uma descrição detalhada de como desviar a minha atenção de sonhar, fazendo-me acreditar que o problema importante era uma atividade muito difícil que ele chamara de não fazer, que consistia de um jogo de percepção, de focalizar a atenção em coisas do mundo que normalmente são desprezadas, tais como as sombras das coisas. Dom Juan disse que a sua estratégia fora destacar o não-fazer, impondo a isso o maior segredo.
- Não fazer, como tudo o mais, é uma técnica muito importante, mas não era o ponto principal- disse ele. - Você foi atraído pelo segredo. Você, uma língua de trapo, ter de guardar um segredo.
Ele riu e disse que podia imaginar o trabalho que eu devia ter tido para ficar de boca calada.
Explicou que romper as rotinas, o passo do poder e não-fazer eram alamedas para aprender novos meios de perceber o mundo, e que davam ao guerreiro um vislumbre de incríveis possibilidades de ação. A idéia de Dom Juan era que o conhecimento de um mundo separado e pragmático de sonhar era possibilitado pelo uso dessas três técnicas.”
Porta para o Infinito, pág. 220

“- Dom Juan lhes contou mais algumas coisas sobre as pirâmides, Pablito? - perguntei.
Minha intenção era desviar a conversa sobre a questão específica das Atlantas e ao mesmo tempo ficar próximo dela.
- Disse que uma certa pirâmide lá em Tula era uma guia replicou Pablito ansiosamente.
Pelo tom da sua voz deduzi que ele realmente queria falar. E a atenção dos outros aprendizes me convenceu de que, dissimuladamente, todos queriam trocar opiniões.
- O nagual disse que era uma guia da segunda atenção - continuou Pablito - mas que foi explorada e que destruíram tudo. Ele me falou que algumas pirâmides eram gigantescos lugares de não fazer. Não eram moradas, mas lugares dos guerreiros desenvolverem seus sonhos e exercitarem sua segunda atenção. O que quer que fizessem era registrado em desenhos e figuras nas paredes.
Depois, uma nova espécie de guerreiro deve ter aparecido, uma espécie que não aprovava o que os feiticeiros da pirâmide tinham feito com a segunda atenção, e destruíram a pirâmide com tudo o que havia dentro.
"O nagual acreditava que os novos guerreiros deviam ser guerreiros da terceira atenção, como ele próprio era; guerreiros que ficavam horrorizados com o mal da fixação da segunda atenção. Os feiticeiros das pirâmides estavam ocupados demais com sua fixação para perceberem o que estava acontecendo. Quando perceberam, era tarde demais.”
Pablito tinha uma platéia. Todos na sala, inclusive eu, estavam fascinados com o que ele dizia. Compreendi as idéias que ele apresentava porque Dom Juan já as tinha explicado a mim.
Tinha dito que nosso ser total consiste em dois segmentos perceptíveis. O primeiro é o corpo físico conhecido que todos nós podemos perceber; o segundo é o corpo luminoso, um casulo que só os videntes conseguem perceber, um casulo que nos dá a aparência de ovos luminosos gigantescos. Tinha dito também que uma das metas mais importantes da feitiçaria é alcançar o casulo luminoso, uma meta que é conseguida pelo uso sofisticado do "sonho" e por um empreendimento rigoroso e sistemático a que ele dava o nome de não fazer. Definia o não fazer como um ato pouco familiar, que envolve todo o nosso ser ao forçá-lo a se tornar consciente do seu segmento luminoso.
O Presente da Águia, pág. 19

“Ele enfatizou que todas as ruínas arqueológicas do México, especialmente as pirâmides, eram nocivas ao homem moderno. Descreveu as pirâmides como expressões estranhas de pensamento e ação. Disse que todos os itens, todos os desenhos delas, eram um esforço calculado de recordar aspectos de atenção que eram completamente estranhos a nós. Para Dom Juan não só as ruínas das culturas do passado continham um elemento perigoso; qualquer coisa que fosse o objeto de uma preocupação obsessiva tinha um potencial nocivo.
Ele discutira isso detalhadamente uma vez. Foi uma reação que teve a uns comentários que eu fiz sobre não saber onde guardar minhas notas de campo com segurança. Eu as via de uma maneira muito obsessiva, e estava obcecado com a segurança delas.
- O que eu devo fazer? - tinha perguntado a ele.
- Genaro uma vez lhe deu uma solução - respondera ele.
-Você pensou, como sempre pensa, que ele estava brincando. Ele nunca brinca. Disse que você deveria escrever com a ponta dos dedos em vez de escrever a lápis. Você não o levou a sério sobre isso porque não pode imaginar que este seja o não fazer de tomar notas.
Eu argumentei
Dom Juan argumentou novamente. Disse que tomar notas era um modo de envolver a primeira atenção na tarefa de se lembrar, e que eu tomava notas a fim de me lembrar do que era dito e feito. A recomendação de Dom Genaro não era uma brincadeira, pois escrever com a ponta do meu dedo num pedaço de papel, como não fazer de tomar notas, forçaria minha segunda atenção, a focalizar a minha lembrança sem acumular folhas de papel. Dom Juan achava que o resultado final seria mais preciso e de mais valor que tomar notas. Nunca tinha sido feito, ao que ele soubesse, mas o princípio era sólido.
Pressionou-me a fazer isso por algum tempo. Eu fiquei perturbado. Tomar notas não só funcionava como um método mnemônico
 como também me acalmava. Era minha mania mais construtiva. Acumular folhas de papel me dava uma sensação de objetivo e equilíbrio.
- Quando você se preocupa com o que fazer com as suas folhas - explicou Dom Juan - está focalizando uma parte muito perigosa de você mesmo nelas. Todos nós temos esse lado perigoso, essa fixação. Quanto mais forte ficamos, mais perigosa essa parte se torna. A recomendação para os guerreiros é não ter nenhuma coisa material na qual focalizar seu poder, mas focalizá-lo no espírito, no verdadeiro vôo ao desconhecido, e não em campos triviais. No seu caso, suas notas são o seu escudo. Elas não o deixarão viver em paz.
Senti seriamente que não tinha nenhum modo possível de me dissociar das minhas notas. Dom Juan então concebeu uma tarefa para mim em lugar do não fazer característico. Disse que, para alguém tão altamente possessivo como eu, o modo mais apropriado de me libertar do meu caderno de notas seria desmantelá-lo, jogá-lo pelos ares e escrever um livro. Pensei, naquela época, que aquilo era uma brincadeira maior que a de tomar notas com a ponta dos dedos.
O Presente da Águia, pág. 22

“Don Juan tinha me descrito o sonho de várias maneiras. A mais obscura delas todas me parece agora ser aquela que o define do melhor modo. Ele disse que o sonho é intrinsecamente o não fazer de dormir.
Um não fazer básico designado a ajudar o sonho, era o não fazer de falar, chamado "parar o diálogo interno". Os dois se combinam no sentido de que parar o diálogo interno traz a paz necessária e descansa a mente dos praticantes, e isso por sua vez ajuda-os a controlar seus sonhos. Como o não fazer de dormir, o sonho dá aos praticantes a utilização daquela porção de suas vidas gastas no cochilo. É como se os sonhadores não mais dormissem. Mesmo assim não há mal nisso. Os sonhadores não sentem falta de sono, mas o efeito de sonhar parece ser o aumento do tempo através do uso de um pretenso corpo extra, o corpo sonhador.
Dom Juan explicou-me que o corpo sonhador é às vezes chamado de "o sósia" ou "o outro", porque é uma réplica perfeita do corpo do sonha o outro, dor. É basicamente a energia de um ser luminoso, um esbranquiçado, uma emanação fantasmagórica, que é projetada pela fixação da segunda atenção numa imagem tridimensional do corpo. Explicou que o corpo sonhador não é um fantasma; é tão real quanto qualquer coisa com que lidamos no mundo. Disse que a segunda atenção é inevitavelmente levada a focalizar sobre nosso ser total como um campo de energia, e que transforma essa energia em qualquer coisa apropriada. A coisa mais fácil é, naturalmente, a imagem do corpo físico com o qual já estamos perfeitamente familiarizados em nossa vida diária, através do uso da nossa primeira atenção. O que canaliza a energia do nosso ser total a produzir qualquer coisa que esteja dentro dos limites de possibilidades é conhecido como "vontade". Dom Juan não sabia dizer quais eram esses limites, a não ser que a nível dos seres luminosos os parâmetros são tão amplos que é bobagem tentar estabelecer limites; desta forma a energia de um ser luminoso pode ser transformada, através da vontade, em qualquer coisa.
- O nagual disse que o corpo sonhador se envolve e se prende a qualquer coisa - disse Benigno. - Ele não tem sentido. Disse-me que os homens são mais fracos que as mulheres porque o corpo sonhador do homem é mais possessivo.”
O Presente da Águia, pág. 24

“Uma noite sentamo-nos e muito casualmente começamos a discutir o que sabíamos sobre o sonho. Tornou-se óbvio para nós que havia alguns assuntos-chave aos quais Dom Juan dera ênfase especial.
Primeiro era o ato de sonhar. Na nossa opinião ele começava como um estado de consciência único, ao qual se chegava aprendendo a focalizar o resíduo de consciência que a pessoa ainda tem enquanto dorme, sobre os elementos ou os detalhes dos sonhos da pessoa.
O resíduo de consciência, a que Dom Juan chamava segunda atenção, era levado à ação, ou era aproveitado através de exercícios do não fazer. Achávamos que o não fazer essencial do sonho era um estado de quietude mental, ao qual Dom Juan chamava de "parar o diálogo interno", ou o não fazer de falar. A fim de me ensinar como manejá-lo ele costumava me fazer andar quilômetros com os olhos fixos e fora de foco a um nível logo ao fim da linha do horizonte, permitindo assim que eu tivesse uma visão periférica. Seu método era eficiente por dois motivos: permitia-me parar meu diálogo interno depois de ter tentado durante anos, e treinava minha atenção. Forçando-me a concentrar-me na minha visão periférica, Dom Juan reforçava minha capacidade de me concentrar por longo tempo em uma única atividade.
Mais tarde, quando eu tinha conseguido controlar minha atenção e podia trabalhar durante horas em qualquer tarefa a que me impunha sem me distrair - coisa que nunca antes fora capaz de fazer - ele me disse que o melhor modo de buscar um sonho era me concentrar na área próxima à ponta do esterno, na boca do estômago. Falou que a atenção que um homem necessita para sonhar deriva-se daquela área, mas que a energia a fim de se mover e procurar no sonho origina-se da área a uns três a seis centímetros abaixo do umbigo. Ele chamava a essa energia "vontade" ou poder de selecionar, de acumular. Numa mulher tanto a atenção quanto a energia para o sonho originam-se do ventre.
- O sonho de uma mulher tem de vir do seu ventre porque é esse o seu centro - disse La Gorda. - Para que eu comece a sonhar ou parar o sonho, tudo o que tenho a fazer é colocar minha atenção no ventre. Aprendi a sentir o seu interior. Vejo um brilho avermelhado por um instante e então se dá o seu início.”
O Presente da Águia, pág. 112

“La Gorda disse que Dom Juan lhe falou que qualquer coisa pode servir como um não fazer para ajudar o sonho, desde que force a atenção a permanecer fixa. Ele fazia com que ela e todos os outros aprendizes, por exemplo, olhassem para as folhas e pedras, e encorajava Pablito a formar seu próprio dispositivo de não fazer. Pablito começou com o não fazer de andar para trás. Para se movimentar dava olhadas rápidas para os lados a fim de saber para onde ia e evitar obstáculos no caminho. Dei-lhe a idéia de usar um espelho retrovisor, e ele desenvolveu essa idéia, construindo um capacete de madeira com uma parte que prendia dois espelhos pequenos, a uns doze centímetros do rosto e quatro centímetros abaixo do nível dos olhos. Os dois espelhos não interferiam com sua visão frontal, e, devido ao ângulo lateral no qual estavam presos, cobriam toda a área atrás dele. Pablito se gabava de ter uma visão periférica do mundo de 360º. Auxiliado pelo seu dispositivo podia andar para trás a qualquer distância, ou durante qualquer tempo.”
O Presente da Águia, pág. 114

“Para nosso primeiro não fazer, Silvio Manuel construiu um engradado de madeira grande o suficiente para acomodar La Gorda e eu, de modo a ficarmos sentados de costas um para o outro, com o joelho para o alto. O engradado tinha uma tampa de treliça para deixar passar o ar. La Gorda e eu tínhamos de entrar e sentar na escuridão, em silêncio total, sem dormir. Ele começou fazendo-nos entrar na caixa por breves períodos; depois aumentou o tempo à medida que nos acostumávamos com a coisa, até podermos passar toda uma noite dentro, sem nos mover ou dormir.
A mulher nagual ficou conosco para se certificar de que não mudaríamos nossos níveis de conscientização devido ao cansaço. Silvio Manuel disse que nossa tendência natural sob condições incomuns seria mudar do elevado estado de conscientização para o estado normal, e vice-versa.
O efeito geral do não fazer, toda vez que agíamos, era nos dar uma inigualável sensação de repouso, o que me deixava inteiramente intrigado, já que não podíamos dormir durante nossas longas noites de vigília. Atribuí a sensação de repouso ao fato de estarmos em estado de elevada conscientização, mas Silvio Manuel disse que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, que a sensação de repouso era resultado de sentarmos com os joelhos para cima.
O segundo não fazer consistia em nos fazer deitar no chão como se fôssemos cachorros enroscados, quase que em posição fetal, apoiados no lado esquerdo, na testa e nos braços dobrados. Silvio Manuel insistiu que fechássemos os olhos tanto quanto possível, abrindo-os apenas quando ele nos mandasse trocar de posição e virar para o lado direito. Disse-nos que o objetivo desse não fazer era forçar nosso sentido de audição a se separar da nossa visão. Como antes, aumentou gradualmente o tempo até que passássemos toda uma noite em vigília.
Silvio Manuel estava então pronto para nos passar para outra área de atividade. Explicou que nos primeiros dois não fazeres tínhamos quebrado uma certa barreira de percepção enquanto ficávamos presos ao chão. Por analogia, comparou os seres humanos às árvores. Somos como que árvores móveis, tendo de alguma forma raízes no chão, raízes essas que nos permitem mover mas que não nos separam do chão. Disse que a fim de estabelecermos equilíbrio tínhamos de desenvolver o terceiro não fazer pendurados no ar. Se tivéssemos êxito enquanto suspensos de uma árvore dentro de um arreio de couro, faríamos um triângulo com nossa intenção, triângulo com base no chão e no seu vértice no ar. Silvio Manuel achava que tínhamos reunido nossa atenção com os dois primeiros não fazeres a ponto de podermos realizar o terceiro perfeitamente, desde o início.”
O Presente da Águia, pág. 187

“Sua alegação era que a percepção sofre um choque profundo quando estamos colocados em estado de quietude no escuro. Nossa audição toma a frente então e os sinais de todas as entidades vivas e existentes à nossa volta podem ser detectados - não apenas com nossa audição, mas por uma combinação dos sentidos auditivos e visuais, nessa ordem. Disse que na escuridão, especialmente enquanto suspensos, os olhos se tornam secundários aos ouvidos.
Ele estava absolutamente certo, como La Gorda e eu descobrimos. Com o exercício do terceiro não fazer Silvio Manuel nos deu uma nova dimensão à nossa percepção do mundo que nos rodeia.
Ele então disse a La Gorda e a mim que o próximo conjunto de não fazer seria intrinsecamente diferente e mais complexo. Relacionava-se ao aprendizado de como lidar com o outro mundo. Era necessário maximizar o esforço, mudando nosso tempo de ação para o início da noite ou o início da madrugada. Disse-nos que o primeiro não fazer do segundo conjunto tinha dois estágios. No primeiro estágio tínhamos de atingir nosso estado mais alerta de elevada conscientização a fim de detectarmos a parede de névoa. Uma vez feito isso, o segundo estágio consistiria em fazer aquela parede parar de girar, a fim de nos aventurarmos no mundo entre as linhas paralelas.
A visou-nos que o que pretendia era nos colocar diretamente na segunda atenção, sem qualquer preparação intelectual. Queria que aprendêssemos os detalhes sem uma compreensão racional do que estávamos fazendo. Sua alegação era que um veado mágico ou um coiote mágico manipula a segunda atenção sem ter nenhum intelecto.
Através da prática forçada de passarmos para trás da parede de névoa, iríamos empreender, mais cedo ou mais tarde, uma permanente alteração no nosso ser total, alteração essa que nos faria aceitar que o mundo entre as linhas paralelas é real, pois é parte do mundo total, como nosso corpo luminoso é parte do nosso ser total.”
O Presente da Águia, pág. 189

“La Gorda e eu tínhamos estado tão envolvidos em nossas viagens por trás da parede de névoa que tínhamos nos esquecido que estava na hora da nossa próxima série de não fazer com Silvio Manuel. Ele nos disse que ela poderia ser devastadora e que consistia em atravessar as linhas paralelas com as três irmãzinhas e os três Genaros, diretamente para a entrada no mundo de total conscientização. Não incluiu Dona Soledad porque seus não fazeres eram destinados apenas a sonhadoras, e ela era espreitadora.
Silvio Manuel acrescentou que esperava que nós nos tornássemos familiarizados com a terceira atenção se nos colocássemos ao pé da Águia (O Mar Escuro da Consciência) diversas vezes. Ele nos preparou para o choque; explicou que as viagens de um guerreiro às dunas de areia desolados eram um passo preparatório para a verdadeira travessia das fronteiras. Aventurar-se para além da parede de névoa num estado de elevada conscientização ou durante um sonho implicava apenas uma porção muito pequena de nossa conscientização total, enquanto que atravessar corporalmente para o outro mundo implicava o comprometimento do nosso ser total.
Silvio Manuel concebera a idéia de usar uma ponte como símbolo de uma verdadeira travessia. Argumentou que a ponte era adjacente a um lugar de poder; e os lugares de poder eram aberturas, passagens para o outro mundo. Achava que seria possível que La Gorda e eu adquiríssemos força suficiente para enfrentar um vislumbre da Águia.”
O Presente da Águia, pág. 192

“- Desculpe - disse. - Você falou que vai me contar sobre sua vida pessoal?
- Por que não? - perguntou ela.
Respondi, usando a explicação que me fora dada por Dom Juan sobre a força negativa da história pessoal e da necessidade que o guerreiro tinha de apagá-la. Terminei dizendo que ele tinha me proibido de falar qualquer coisa sobre a minha vida.
Ela riu com uma voz alta de falsete. Parecia encantada.
- Isso só se aplica aos homens - disse. - O não fazer da sua vida pessoal é contar histórias sem fim, mas nenhuma sobre sua vida real. Como homem, você tem uma história sólida por trás. Uma família, amigos, conhecidos, e todos eles com uma idéia definida sua. Como homem você é responsável. Não pode desaparecer tão facilmente. Para se apagar teria de ter muito trabalho. Meu caso é diferente. Sou mulher, o que me traz muita vantagem. Não sou responsá-vel. Você não sabe que as mulheres não são responsáveis?
- Não entendo o que quer dizer com responsável - falei.
- Quero dizer que a mulher pode desaparecer facilmente replicou. - A mulher pode se casar, por exemplo. Ela pertence ao marido. Numa família com muitos filhos, as filhas são descartadas muito cedo. Ninguém conta com elas, e há possibilidade de umas desaparecerem, sem deixarem vestígio e esses desaparecimentos serem facilmente aceitos.
"O filho, ao contrário, é alguém com quem se conta. Não é fácil para o filho eclipsar-se e desaparecer. E mesmo se fizer isso, deixará vestígios. Ele sente-se culpado se desaparecer. A filha não.
"Quando o nagual o treinou a ficar de boca fechada em relação à sua vida pessoal, pretendia ajudá-lo a superar seu sentimento de ter cometido um erro com sua família e amigos, que contavam com você de uma forma ou de outra.
"Depois de toda uma vida de luta o guerreiro termina apagando-se, naturalmente, mas essa luta tem um preço para o homem. Ele se torna misterioso, sempre em guarda contra si próprio. A mulher já está preparada para se desintegrar no ar. Na verdade, espera-se isso dela.
Como mulher, não sou obrigada ao segredo. Não dou a mínima para isso. Segredo é o preço que vocês homens têm de pagar por serem importantes para a sociedade. A luta é só para os homens, porque eles se ressentem de terem de se apagar e encontrariam modos curiosos de surgirem em algum lugar, de alguma forma. Veja o seu exemplo; você vive fazendo conferências.”
O Presente da Águia, pág. 214

“Disse que seu benfeitor considerava as três técnicas básicas da espreita - o engradado, a lista de acontecimentos a serem recapitulados, e a respiração do espreitador - como sendo as tarefas talvez mais importantes de um guerreiro. Ele achava que uma recapitulação profunda era o meio mais eficiente para se perder a forma humana. Portanto, seria fácil para os espreitadores, depois de recapitularem suas vidas, fazer uso de todos os não fazeres do seu eu, tais como apagar sua história pessoal, perder a auto-importância, quebrar as rotinas, e assim por diante.”
O Presente da Águia, pág. 230

“Dom Juan disse que a função dos não fazeres é criar uma obstrução na focalização habitual da nossa primeira atenção. Os não fazeres são, nesse sentido, manobras designadas a preparar a primeira atenção para o bloqueio funcional do primeiro anel de poder. Ele explicou que esse bloqueio funcional, o único método de utilizar sistematicamente a capacidade latente do primeiro anel de poder é uma interrupção temporária que o benfeitor cria na capacidade de desnatar dos seus discípulos. É uma intromissão artificial; uma invasão deliberada e forçada à primeira atenção, designada para empurrá-la além do verniz superficial dos vestígios familiares; uma intromissão atingida por meio da obstrução da intenção do primeiro anel de poder.”
O Presente da Águia, pág. 258

“Devo ter parecido cético a Don Juan, pois ele explicou que o mundo de nossa auto-reflexão ou de nossa mente era muito inconsistente e era mantido coeso por algumas poucas idéias-chave que serviam como sua ordem subjacente. Quando essas idéias falhavam, a ordem subjacente parava de funcionar.
- Quais são essas idéias-chave, Don Juan?
- Em seu caso, naquela instância em particular, como no caso da audiência daquela curandeira sobre a qual falamos, a continuidade era a idéia-chave.
- O que é continuidade?
- A idéia de que somos um bloco sólido. Em nossas mentes, o que sustenta o nosso mundo é a certeza de que somos imutáveis. Podemos aceitar que nosso comportamento pode ser modificado, que nossas reações e opiniões podem ser modificadas, mas a idéia de que somos maleáveis a ponto de mudar de aparência, a ponto de ser alguma outra pessoa, não é parte da ordem subjacente de nossa auto-reflexão. Sempre que um feiticeiro interrompe essa ordem, o mundo da razão pára.
Desejei perguntar-lhe se quebrar a continuidade de um indivíduo era suficiente para causar o movimento do ponto de aglutinação. Ele pareceu antecipar minha pergunta. Disse que essa quebra era apenas um suavizador. O que ajudava o ponto de aglutinação mover-se era a implacabilidade do nagual.
Comparou então os atos que executara naquela tarde em Guaymas com os atos da curandeira que havíamos discutido previamente. Explicou que a curandeira havia estraçalhado a auto-reflexão das pessoas de sua audiência com uma série de atos para os quais eles não tinham equivalentes em suas vidas diárias - a dramática possessão do espírito, mudança de vozes, abertura do corpo do paciente. Assim que a continuidade da idéia deles próprios foi quebrada, seus pontos de aglutinação estavam prontos para ser movidos.
Lembrou-me de que havia descrito para mim no passado o conceito de parar o mundo. Comentara que parar o mundo era tão necessário para os feiticeiros quanto ler e escrever o eram para mim. Consistia em introduzir um elemento dissonante no tecido do comportamento cotidiano para deter o fluxo de outro modo suave dos eventos ordinários - eventos que eram catalogados em nossas mentes por nossa razão.
O elemento dissonante era chamado não fazer, ou o oposto de fazer. "Fazer" era tudo que fosse parte de um todo para o qual tínhamos um valor cognitivo. Não fazer era um elemento que não pertencia àquele todo mapeado.
- Os feiticeiros, por serem espreitadores, compreendem bem o comportamento humano - disse ele. - Compreendem, por exemplo, que os seres humanos são criaturas de inventários. Saber os itens que entram ou não entram em um inventário em particular é o que torna o homem um estudioso ou especialista em seu campo.
"Os feiticeiros sabem que quando o inventário de uma pessoa comum falha, a pessoa ou aumenta seu inventário ou o mundo de sua auto-reflexão entra em colapso. A pessoa comum está disposta a incorporar novos itens em seu inventário se estes não contradisserem a ordem subjacente do inventário. Mas se os itens contradisserem essa ordem, a mente da pessoa entra em colapso. O inventário é a mente. Os feiticeiros contam com isso quando tentam quebrar o espelho da auto-reflexão.”
O Poder do Silêncio, pág. 165

“- Parece que não vamos conseguir nos livrar dele – disse num tom de resignação. - Vamos caminhar com calma, como se estivéssemos dando um belo passeio no parque, e você me contará a história de sua infância. Este é o momento e o cenário certos para isso. Um jaguar está atrás de nós com um apetite voraz, e você está se lembrando sobre o passado: o perfeito não fazer para estar sendo caçado por um jaguar.
Ele riu alto. Mas quando lhe falei que havia perdido completamente o interesse em contar a história, ele dobrou-se de risos.
- Está me punindo agora por não querer ouvi-lo, não é mesmo?
E eu, é claro, comecei a defender-me. Disse-lhe que sua acusação era definitivamente absurda. De fato perdi o fio da meada.
- Se um feiticeiro não tem auto-estima, não dá uma bosta por ter perdido o fio da história - disse ele com um brilho malicioso nos olhos. - Como você não tem mais qualquer auto-estima, deve contar sua história agora. Conte-a ao espírito, ao jaguar, e a mim, como se não tivesse perdido o fio em momento algum.”
O Poder do Silêncio, pág. 197

“O tópico inicial foi o que definiu como não fazer, uma atividade especialmente projetada para banir de nossas vidas todo o vestígio de cotidianidade. Afirmou que o não fazer é o exercício favorito dos aprendizes, porque os introduzem em um ambiente de maravilha e desconcerto muito refrescante para a energia, cujo efeito sobre a consciência eles chamam de "parar o mundo"
Respondendo a algumas questões, explicou que o não fazer não pode ser racionalizado. Qualquer esforço para tentar entendê-lo, é na realidade uma interpretação do ensino e cai automaticamente no campo de fazer.
"A premissa dos bruxos para tratar com este tipo de prática é o silêncio mental. E a qualidade de silêncio requerido para algo tão descomunal quanto parar o mundo, só pode vir de um contato direto com a grande verdade de nossa existência: que todos nós vamos morrer".
Ele nos aconselhou:
"Se vocês querem conhecer a si mesmos, sejam conscientes de sua morte pessoal. Ela não é negociável e é a única coisa que vocês realmente têm. Todo o resto poderá falhar, mas a morte não, a ela podem dar por certo. Aprendam a usá-la para produzir efeitos verdadeiros em suas vidas.
"Também, parem de acreditar em contos da carochinha, ninguém os quer lá fora. Nenhum de nós é tão importante para que hajam inventado algo tão fantástico como a imortalidade. Um bruxo que tem humildade sabe que o destino dele é o de qualquer outro ser vivo desta terra. Assim, em vez de se iludir com falsas esperanças, ele trabalha concreta e duramente para sair de sua condição humana e tomar a única saída que nós temos: a quebra de nossa barreira perceptual.
"Ao mesmo tempo em que escutam o conselho da morte, façam-se responsáveis por suas vidas, da totalidade das suas ações. Explorem-se, reconheçam-se e vivam intensamente, como vivem os bruxos. A intensidade é a única coisa que pode nos salvar do aborrecimento.
"Uma vez alinhados com a morte, estarão em condições de dar o seguinte passo: reduzir ao mínimo a bagagem. Este é um mundo prisão e é necessário sair como fugitivos, sem levar nada.
Os seres humanos são viajantes por natureza. Voar e conhecer outros horizontes é nosso destino. Por acaso você sai de viagem com sua cama ou com a mesa em que come? Sintetiza sua vida!".
Encontros com o Nagual, pág. 51

"Um método infalível para conseguir o silêncio é através do não fazer, uma atividade que nós programamos com nossa mente, mas que tem a virtude de silenciar os pensamentos uma vez que é começado. Don Juan chamava esse tipo de técnica de 'tirar um espinho com outro'".
Apresentou como exemplos de não fazer: escutar na escuridão, trocando a prioridade de nossos sentidos e o comando que nos força a dormir assim que nós fechamos os olhos. Também, conversar com as plantas, parar de ponta cabeça, caminhar para trás, observar as sombras, a distância ou os espaços entre as folhas das árvores.
"Todas essas atividades são das mais efetivas para silenciar nosso diálogo interno, mas elas têm um defeito: não as podemos sustentar durante muito tempo. Depois de um momento, somos forçados a recuperar nossas rotinas. Um não fazer que é exagerado, automaticamente perde o poder e cai dentro de fazer.
"Se o que nós queremos é acumular silêncio profundo, de efeitos duradouros, o melhor não fazer é a solidão. Junto com a economia da energia e o abandono desses que nos dão por feitos. Aprender a estar só é o terceiro princípio prático do caminho.
"O mundo do guerreiro é a coisa mais solitária que há. Até mesmo quando vários aprendizes se unem para viajar pelas rotas do poder, cada um sabe que está sozinho, que não pode esperar nada do outro nem depender de ninguém. O máximo que ele pode fazer é compartilhar o caminho com aqueles que o acompanham.
"Estar só requer um grande esforço, porque nós ainda não aprendemos a superar o comando genético da socialização. No princípio, o aprendiz deve ser forçado a isto pelo seu mestre, através de armadilhas se for necessário. Mas com o tempo aprende a desfrutá-lo. É normal que os bruxos busquem o silêncio na solidão da montanha ou do deserto e que vivam sozinhos durante longos períodos".
Alguém comentou que essa era "uma perspectiva horrorosa"
Carlos respondeu:
"Horroroso é chegar à velhice como umas crianças choronas!
Encontros com o Nagual, pág. 93