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domingo, 15 de abril de 2012

Corpo de Glória, Corpo de Arco-Íris, Terceira Atenção


Quando a gente lê a frase “todos os caminhos conduzem ao mesmo lugar”, não faz idéia de o quanto isso é verdade nas tradições de busca interior.  A facilidade das comunicações atuais está mostrando o quanto as tradições autênticas da humanidade são uma coisa só. Só as roupagens e a linguagem parecem diferentes.
Um dos conhecimentos mais misteriosos das tradições é o fenômeno interior que vulgarmente se chama com o nome genérico e simplista de Iluminação. O assunto é inesgotável, pela sua natureza misteriosa, desafiadora e ao mesmo tempo real. Poucos se detém de fato sobre o tema a ponto de fazer as perguntas certas: Isso é real? O que é se iluminar? Como acontece de fato? Qual é o caminho? 

Vamos só dar uma visão despretensiosa dessa convergência das tradições sobre o assunto, e você que é uma pessoa guerreira e persistente, irá mais fundo se gostar e quiser.
O fenômeno é "a transformação de certos seres humanos espiritualmente evoluídos em luz, em energia radiante, quando atingem o estado final da sua evolução”. Você deve estar pensando “esse cara além de crédulo, é doido”, mas acompanhe comigo o assunto nas tradições autênticas e milenares do planeta:


O Corpo de Glória - Cristianismo
Nós, os que tiveram formação cristã, somos tão distraídos que não percebemos que o Cristianismo fala sobre isso todo o tempo. Tem até comemoração. Há poucos dias festejamos a Páscoa (Pesach, a passagem, em hebráico), e no domingo trocamos votos e ovos de chocolate, mas não sabemos que o motivo da festa é que um ser evoluído da nossa tradição teve uma morte física, uma Ressurreição, ou seja nasceu de novo após ter morrido, apareceu durante 40 dias para os amigos incrédulos, e teve uma Ascenção, ou seja, subiu aos céus em “corpo de glória”, ou corpo de luz, com uma platéia enorme olhando, e não voltou mais. Foi embora com roupa e tudo. Esse relato é bíblico e está no Novo Testamento. A mesma coisa teria acontecido com Maria, de quem Ele era filho, mas somente a tradição fala nisso, não a Bíblia. Você pergunta “foi factual ou simbólico?” Não importa. Como alguns afirmam, Jesus pode ter sido "criação de uma escola", pode nem ter existido como pessoa física. O que importa é que a tradição cristã afirma isso exatamente como as outras tradições autênticas que vamos ver, ressalvadas aquelas religiões que estão mais para caça-níqueis do que para tradição de fato. E se olharmos no Velho Testamento, os profetas Enoch, no livro do  Gênesis e Elias no Primeiro Livro dos Reis passaram pelo mesmo processo e foram embora de sandália e tudo, sem deixar rastros...
Muito bem, vamos para a segunda tradição:

 O Corpo de Arco-Íris - Budismo
 “Através das práticas avançadas de Dzogchen (as 3 vias no Budismo Tibetano são Sutra, Tantra e Dzogchen), praticantes realizados podem levar suas vidas a um fim extraordinário e triunfante. Quando morrem, capacitam seu corpo a ser reabsorvido na essência de luz dos elementos que o criaram; em conseqüência, esse seu corpo material se dissolve em luz e desaparece por completo. Esse processo é conhecido como “corpo de arco-íris”, ou “corpo de luz”, por que a dissolução é comumente acompanhada por manifestações espontâneas de luz e de arco-íris. Os antigos tantras do Dzogchen e os escritos dos grandes mestres distinguem diferentes categorias desse fenômeno espantoso e sobrenatural que, numa certa época, embora não habitual, era razoavelmente freqüente.
Via de regra uma pessoa que sabe que está prestes a obter um corpo de arco-íris pede para ser deixada sozinha por sete dias, sem ser perturbada, em um quarto ou tenda. No oitavo dia somente são encontrados os cabelos, as unhas e as impurezas do corpo.
Isso pode ser muito difícil de acreditar atualmente, mas a história dos fatos da linhagem Dzogchen está cheia de exemplos de indivíduos que obtiveram o corpo de arco-íris e, como Dudjom Rinpoche costumava sempre salientar, não se trata apenas de história antiga.
E agora a terceira. Mas há muitas outras tradições que afirmam isso. Não vamos citá-las todas, porque vai ser um tédio. Para confirmar o fenômeno na tradição tolteca, vamos citar vários trechos dos livros da obra de Castaneda e discípulos, já que a tradição tolteca dos Homens de Conhecimento era mais oral e em petroglifos:


A entrada na Terceira Atenção – Toltecas
Uma Esreanha Realidade - Castaneda
A tradição tolteca não só registrou o fenômeno, como o considerava o objetivo final do trabalho dos iniciados, que chamava "a busca da liberdade total". Vejamos trechos desse tema nos textos de Carlos Castaneda e Armando Torres:
“A fim de explicar esses conceitos, Dom Juan fez uma divisão de três partes desiguais da nossa consciência. Chamou à menor "primeira atenção", a consciência que toda pessoa normal desenvolve, a fim de lidar com o mundo diário; ela abrange o conhecimento do corpo físico. À outra parte maior deu o nome de "segunda atenção", o conhecimento de que precisamos para perceber nosso casulo luminoso e para agir como seres luminosos. Disse que a segunda atenção permanece como pano de fundo durante toda a nossa vida, a não ser que seja transportada através de treinamento deliberado ou por um trauma acidental, e que ela abrange o conhecimento do nosso corpo luminoso. Chamou à última parte, a maior, de "terceira atenção", uma consciência incomensurável que envolve aspectos indefiníveis do conhecimento dos corpos físico e luminoso.
Perguntei-lhe se ele próprio tinha experimentado a terceira atenção. Ele respondeu que estava na sua periferia, e que se entrasse nela completamente eu saberia no mesmo instante, pois ele todo se tornaria o que era na realidade, uma explosão de energia. Acrescentou que o campo de batalha dos guerreiros era a segunda atenção, uma  espécie de campo de treinamento para atingir a terceira atenção. Era um estado bem difícil de se chegar, mas muito frutificante quando atingido.”
O Presente da Águia, pág. 20


“Dom Juan explicou que o Regulamento não é uma lenda, e que atravessar para a liberdade não significa uma vida eterna como se entende comumente - quer dizer, “uma vida para sempre”. O que o regulamento declara é que se pode manter a consciência, normalmente abandonada no momento da morte. Dom Juan não podia explicar o que queria dizer “manter a consciência”, ou talvez não pudesse nem mesmo concebê-la. Seu benfeitor tinha lhe dito que no momento da travessia a pessoa entra na terceira atenção, e o corpo, em sua totalidade, é iluminado pelo Conhecimento. Cada célula torna-se de repente consciente de si própria, e também consciente da totalidade do corpo.
Seu benfeitor também lhe disse que o tipo de conscientização é sem significado para nossos espíritos compartimentados.”
O Presente da Águia, pág. 146


“Explicou que ao morrer, nossa conscientização entra na terceira atenção; mas só por um instante, como uma ação purgatória, logo antes da Águia (o Mar Escuro da Consciência ) devorá-la.”
O Presente da Águia, pág. 197


“Ela me assegurou que uma Recapitulação perfeita pode mudar um guerreiro tanto, se não mais, quanto o controle total do Corpo Sonhador. Nesse particular, o Sonho e a Espreita têm a mesma finalidade, entrar na terceira atenção. É importante, entretanto, que o guerreiro saiba e pratique os dois. Disse que para a mulher há configurações diferentes do corpo luminoso para se aperfeiçoar em uma ou em outra. Os homens, ao contrário, podem realizar os dois com facilidade, mas ao mesmo tempo não podem nunca chegar ao grau de eficiência que as mulheres atingem em cada arte.”
O Presente da Águia, pag 228


"- A terceira atenção é atingida quando o brilho da Consciência se transforma no fogo interior: o brilho que acende não uma faixa de cada vez, mas todas as emanações da Águia (o Mar Escuro da Consciência ) no interior do casulo luminoso do homem.
Dom Juan expressou seu respeito pelo esforço deliberado dos novos videntes em atingir a terceira atenção enquanto estão vivos e conscientes de sua individualidade.
Não achava que valesse a pena discutir os casos esparsos de homens e outros seres sencientes que ingressam no desconhecido e no incognoscível sem estarem conscientes disso; referiu-se a tal fato como o presente da Águia. Assegurou que, para os novos videntes, entrar na terceira atenção também é um presente, mas que tem um significado diferente. É mais como uma recompensa por uma realização.
Acrescentou que, no momento de morrer, todos os seres humanos entram no incognoscível, e alguns deles atingem a terceira atenção, embora por um tempo muito breve e apenas para purificar o alimento da Águia.”
O Fogo Interior, pag. 73


"Alguma vez você viu as estátuas dos Atlantes de Tula?"
Disse que sim, e ele me explicou que essas impressionantes figuras do tempo dos toltecas são uma descrição da “partida do nagual”. Sustentou que os dezesseis  sacerdotes em baixo relevo que há nas quatro colunas que estão atrás das estátuas representam o grupo completo de guerreiros, dividido em quatro equipes, um para cada direção cardeal.
" - Eles são viajantes cósmicos e sua missão é fluir com a energia do infinito. Cada uma de suas funções foi simbolizada nos objetos que levam consigo. Esses sacerdotes são uma partida em pleno vôo, uma imagem do objetivo final do caminho que é alcançar a terceira atenção".
Encontros com o Nagual, pág. 184


Parece que a razão final de estarmos aqui não é o sucesso, as posses, a fama, o dinheiro, apesar de que isso tudo pode ser conseguido e é bom, pois podemos então viver a vida sem muito solavanco e desconforto, junto com os nossos queridos. A razão final da nossa existência neste planeta é evoluir e ajudar os outros nessa tarefa. É a busca da liberdade total para viver as experiências indescritíveis desse Universo mágico e misterioso do qual não conhecemos absolutamente nada, absorvidos que estamos pelas pressões geradas pelo apego no dia a dia.

E você pergunta: 
- Tudo bem, o que eu faço com toda essa informação? Bem...há duas hipóteses. Você escolhe: 
  • ou fica ruminando com o seu mental para ver se consegue deslindar o assunto, 
  • ou coloca a sua Presença no Agora, intenta o mental vazio, e... faz sabe-o-quê? O “não fazer”...
Ai você toma contato com essa busca.

domingo, 11 de março de 2012

O Mar Escuro da Consciência, Mundos Gêmeos, Seres Inorgânicos, a Morte, "y otras cositas más"


Se me perguntassem “qual o melhor livro que você leu na sua vida?” eu diria sem dúvida “16 livros da obra de Castaneda e discípulos” (rsrs).
Exagero? O editor do New York Times, um "jornalzinho lá da matriz", sério, e parcimonioso em distribuir elogios, disse em 2001, quando foi editado o 12º livro do autor, O Lado Ativo do Infinito: “Somos incrivelmente afortunados em ter os livros de Carlos Castaneda.Tomados em conjunto formam uma obra que está entre o melhor que a ciência da Antropologia já produziu.
Por essa você não esperava, né?...Eu acrescentaria: "e o melhor que a tradição do Xamanismo produziu, também".
Infelizmente há um porém: grande parte da compreensão da obra foi comprometida pelo trabalho de “tradutores-traidores” que juntaram o seu desconhecimento do tema à “marquetagem” oportunista das editoras. Quer um exemplo?: O 1º livro da obra, que em inglês chama-se “The Teachings of Don Juan” ou Os Ensinamentos de Don Juan, foi traduzido e publicado no Brasil como “A Erva do Diabo”, para linkar a obra às drogas e a cultura hippie dos anos 60, que dava mais dinheiro que chuchu na serra. Isso deu resultado comercial  imediato, mas comprometeu a divulgação da valiosa tradição dos videntes toltecas de conhecimento interior. Muita gente torce o nariz até hoje, achando que a obra é uma apologia das drogas e ervas alucinógenas, apesar das explicações claras de Don Juan. Mas isso é outra história...
Vamos ver então Don Juan falando a Castaneda dessa energia descomunal, incompreensível e eterna que os homens de conhecimento toltecas chamava o Mar Escuro da Consciência (outros chamam de Deus), e falando também de mundos gêmeos, seres inorgânicos, morte “y otras cositas”: 

Os xamãs videntes toltecas "viam" essa energia como A Águia, uma incomensurável fonte de energia eterna, que estava ligada a cada esfera individual de Consciência humana ou de qualquer ser senciente no Universo , pois ela empresta Vida a todos os seres e no final da vida pede a consciência adquirida de volta. Muito aqui entre nós, os videntes, através de um processo chamado Recapitulação, faziam uma cópia da Consciência que adquiriram na vida, entregavam-na à Águia na hora da morte e mantinham a sua consciência individual depois da morte. E diziam que qualquer um poderia fazer isso (com muito trabalho, claro. Quer moleza?). Ops, contei o final do filme...
Vamos lá:
“- Enquanto estavam no auge de seus poderes de percepção, os videntes toltecas viam algo que os fazia tremer nas calças, se estivessem vestindo uma. Viam que o Mar Escuro da Consciência é responsável não só pela consciência dos organismos, mas também pela consciência das entidades que não têm um organismo.
- O que é isso, Dom Juan, seres sem um organismo, e que têm consciência? - perguntei, surpreso, pois ele nunca mencionara essa idéia antes.
- Os xamãs antigos descobriram que todo o universo é composto de forças gêmeas - ele começou -, forças que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre si. É inevitável que o nosso mundo seja um mundo gêmeo. Seu mundo oposto e complementar é habitado por seres que têm consciência, mas não um organismo. Por essa razão, os xamãs antigos os chamam de seres inorgânicos.
- E onde está esse mundo, Dom Juan?
- Aqui, onde você e eu estamos sentados - respondeu com naturalidade, mas rindo abertamente de meu nervosismo. - Eu disse a você que esse era o nosso mundo gêmeo, portanto está intimamente relacionado a nós. Os feiticeiros do México antigo não pensavam como você pensa em termos de espaço e tempo. Pensavam exclusivamente em termos de consciência. Dois tipos de consciência coexistem sem nunca colidir uma com a outra, pois cada tipo é completamente diferente do outro. Os xamãs antigos enfrentavam esse problema de coexistência sem se preocuparem com tempo e espaço. Raciocinavam que o grau de consciência dos seres orgânicos e o grau de consciência dos seres inorgânicos eram tão diferentes que ambos poderiam coexistir com o mínimo possível de interferência.
- Nós podemos perceber esses seres inorgânicos, Dom Juan? - perguntei.
- Com certeza - respondeu ele. - Os feiticeiros os percebem quando querem. As pessoas comuns fazem isso, mas não se dão conta que o fazem porque não são conscientes da existência do mundo gêmeo. Quando pensam em um mundo gêmeo, entram em todo tipo de masturbação mental, mas nunca lhes ocorre que as suas fantasias têm sua origem num conhecimento subliminar que todos nós temos: que não estamos sós.
Fiquei preso às palavras de Dom Juan.
- A dificuldade de se perceber as coisas em termos de tempo e espaço - continuou ele - é que você só nota se alguma coisa desembarcou no tempo e no espaço que está à sua disposição, e isso é muito limitado. Os feiticeiros, por outro lado, possuem um vasto campo onde podem notar se algo estranho desembarcou. Muitas entidades do universo como um todo, entidades que possuem consciência mas não um organismo, desembarcam no campo de consciência de nosso mundo, ou no campo de consciência de seu mundo gêmeo, sem que um ser humano comum jamais os perceba. As entidades que desembarcam em nosso campo de consciência, ou no campo de consciência de nosso mundo gêmeo, pertencem a outros mundos que existem além do nosso mundo e de seu gêmeo. O universo como um todo está abarrotado até a borda de mundos de consciência, orgânicos e inorgânicos.”
Curiosamente, aqui entre nós (mais a Dona Dolores e os meninos da escola) a “ciência de plantão” fala hoje nos Discovery, NatGeo e outros, de mundos gêmeos não mais como “coisa pseudo-científica inventada” mas como “coisa da vanguarda do conhecimento”. Os índios toltecas falavam do assunto já há milhares de anos em volta da fogueira. É mole?  A história do verdadeiro conhecimento da humanidade precisa ser reescrita.
“Dom Juan continuou falando e disse que aqueles feiticeiros sabiam quando a consciência inorgânica dos outros mundos além de nosso mundo gêmeo tinha desembarcado nos seus campos de consciência. Disse que, como todos os seres humanos nessa terra fariam, aqueles xamãs faziam intermináveis classificações dos diferentes tipos dessa energia que possui consciência. Elas eram conhecidas pelo termo genérico de seres inorgânicos.
- Esses seres inorgânicos têm vida como a nossa vida? perguntei.
- Se você pensa que Vida é ter Consciência, então eles têm vida - disse ele. - Suponho que seria correto dizer que se a vida pode ser medida pela intensidade, pela agudeza, pela duração daquela consciência, posso sinceramente dizer que eles são mais vivos do que você e eu.
- Esses seres inorgânicos morrem, Dom Juan? - perguntei. Dom Juan deu um risinho antes de responder.
- Se você chama morte o término da consciência, sim, eles morrem. Sua consciência acaba. Sua morte é como a morte de um ser humano e, ao mesmo tempo, não é, porque a morte dos seres humanos tem uma opção oculta. É algo como uma cláusula num documento legal, uma cláusula que é escrita em letras muito pequenas que mal se consegue enxergar. Você precisa usar uma lente de aumento para ler, porém é a cláusula mais importante do documento.
- Qual é a opção oculta, Dom Juan?
- A opção oculta para a morte é exclusiva dos feiticeiros. Eles são os únicos, que eu saiba, que leram as letrinhas. Para eles, a opção é pertinente e funcional. Para os seres humanos comuns, morte significa o fim de sua consciência, o fim de seu organismo. Para os seres inorgânicos, morte significa o mesmo: o fim de sua consciência. Em ambos os casos, o impacto da morte é o ato de ser sugado para o Mar Escuro da Consciência. As suas consciências individuais, carregadas com as suas experiências de vida, quebram as suas fronteiras, e a consciência enquanto energia se perde no Mar Escuro da Consciência.
- Mas o que é a opção oculta da morte que somente os feiticeiros captam, Dom Juan? - perguntei.
- Para um feiticeiro, a morte é um fator unificador. Em vez de desintegrar o organismo, como comumente acontece, a morte o unifica.
- Como pode a morte unificar alguma coisa? - protestei.
- A morte para um feiticeiro - disse ele - termina o reino dos temperamentos individuais no corpo. Os feiticeiros antigos acreditavam que era o domínio de diferentes partes do corpo que regia os temperamentos e as ações do corpo total; partes que se tornaram disfuncionais arrastavam o resto do corpo para o caos, como, por exemplo, quando você fica doente por comer porcaria. Nesse caso, o estado do seu estômago afeta todo o resto. A morte erradica o domínio dessas partes individuais. Ela unifica a sua consciência em uma única unidade.
- Você quer dizer que depois que os feiticeiros morrem ainda são conscientes? - perguntei.
- Para os feiticeiros, a morte é um ato de unificação que emprega cada parte da energia deles. Você está pensando na morte como um cadáver à sua frente, um corpo que começa a se decompor. Para os feiticeiros, quando o ato de unificação ocorre, não há cadáver. Não há decomposição. Seus corpos, na sua totalidade, se transformaram em energia, e a energia que possui consciência não é fragmentada. Os limites que são causados pelo organismo são interrompidos pela morte e ainda estão funcionando no caso dos feiticeiros, apesar de não serem mais visíveis a olho nu.
"Sei que você está morrendo de vontade de me perguntar - continuou ele com um amplo sorriso - se o que eu estou descrevendo é a alma que vai para o céu ou para o inferno. Não, não é a alma. O que acontece com os feiticeiros, quando eles escolhem essa opção oculta da morte, é que eles se tornam seres inorgânicos, muito especializados, seres inorgânicos de alta velocidade, seres capazes de manobras estupendas de percepção. Os feiticeiros entram então no que os xamãs do México antigo chamavam de sua viagem definitiva. O infinito se torna o seu reino de ação."
- Você quer dizer com isso, Dom Juan, que eles se tornam eternos?
- Minha sobriedade como um feiticeiro me diz - disse ele - que a consciência deles terminará da maneira como a consciência dos seres inorgânicos termina, mas eu não vi isso acontecer. Não tenho um conhecimento de primeira mão sobre isso. Os feiticeiros antigos acreditavam que a consciência desse tipo de ser inorgânico duraria o tempo que a Terra estiver viva. A Terra é a matriz deles. Enquanto ela prevalecer, sua consciência continua. Para mim, essa é uma afirmação bem razoável.
A continuidade e a ordem da explicação de Dom Juan tinham sido, para mim, magníficas. Eu não tinha mais nada a contribuir. Ele me deixou com uma sensação de mistério e expectativas não expressas a serem preenchidas.”

É interessante o paralelo entre e a visão tolteca e a visão de Gurdjieff sobre a imortalidade, colhida em suas andanças misteriosas pela Europa oriental e Ásia. Ele dizia naquele seu estilo obscuro, que  "o ser humano poderia atingir a  imortalidade, mas dentro dos
limites do sistema solar".

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Meditar? Orar? Para que?

A juntada é proposital. Meditar e orar são a mesma coisa: conexão, não só no Budismo como em quase todas as tradições de busca interior. Ouvi isso de um lama, brasileiro, gaúcho torcedor do Grêmio, físico, amável e bem humorado: Lama Samten, fundador do CEBB – Centro de estudos Budistas Bodisatwa. Grande mestre.
A primeira vez que ouvi isso não ficou muito claro. Meditar, para mim, era algo muito sério, formal e sizudo, algo do tipo “contato com a divindade”, de preferência de roupa domingueira, terno e gravata (rsrs). Orar, por outro lado, era um “pedir algo”, de preferência sem muita pretensão e arrogância, submisso, para agradar a quem ia conceder o pedido. A ficha foi caindo devagarzinho pela vida. Faltava a palavra conexão: meditar é orar.
E ele dizia mais: quando a gente medita e amplia a consciência, não é só a consciência individual que está sendo ampliada, é também a Grande Consciência Universal, que os toltecas aliás chamavam O Mar Escuro da Consciência (ou A Águia), e os cristãos chamam de Deus. Já pensou na responsabilidade? Mas você que medita, não precisa ficar cheio de vaidade não, esse esforço todo de meditação-oração feito na Terra, é só uma foto 3X4 de um grãozinho de pó no Universo. Uma coisica. Por outro lado pode ficar cheio de vaidade, sim: você está contribuindo para A Grande Obra. Pouquinho, mas tá.
Posto isto, vamos agregar uma novidade ao raciocínio, essa já é  do conhecimento tolteca e hindu, entre outros: o Universo é o resultado constante da luta eterna de 2 forças simultâneas, criação e destruição, e por isso a função dos seres vivos com suas experiências de vida, sejam quais forem,  é alimentar esse processo contínuo e crescente de formação da  Consciência, senão babau, não tem Consciência nem Universo. Isso responde à pergunta do Caetano na música Cajuina: ♫ “Existir, a que será que se destina?” ♫... Destina-se a isso: gerar consciência para o Grande Reservatório Cósmico. Isso é feito por tudo que possui vida, desde um vírus até a forma mais sofisticada de vida, passando pelos seres inorgânicos, e outros que nem supomos que existam.
Dizem os toltecas que uma das suas descobertas como videntes foi que essas experiências que a gente adquire pelo fato de viver e “passar por” no mundo, é que na hora da morte temos que entregar isso tudo de volta ao Mar Escuro da Consciência (À Águia), como pagamento pelo fato de termos recebido a dádiva da vida. Uma troca justa. Mas o grande segredo é que eles descobriram que não é necessário entregar a vida na hora da morte junto com as experiências vividas, já que elas são ligadas. Basta separar as duas e entregar só uma cópia das lembranças conscientes adquiridas, e ficar com a vida. Isso significa ficar com a vida após a morte, ou seja uma forma alternativa de morrer. Você não deve estar acreditando, né?...mas não importa, pois o processo para conseguir a cópia não tem muita moleza, não. Vou dar uma dica. Chama-se Recapitulação. É pau puro. Já falamos disso há uns tempos atrás.
Agora para fechar o raciocínio, que você deve estar achando no mínimo bizarro, vem uma frase de um escritor americano, Dannion Brinkley que, atingido por um raio quando falava ao telefone, passou por uma experiência de “quase morte” e ouviu de um Ser do lado de lá:
"Vocês humanos são heróis. Aqueles que vão para a Terra são heróis e heroínas, porque estão fazendo algo que nenhum outro ser espiritual tem coragem de fazer. Vocês foram à Terra criar junto com Deus.....Nós aqui consideramos todos os que vão à Terra como grandes aventureiros. Vocês tem a coragem de ir, expandir sua vida e assumir seu lugar na grande aventura que Deus criou,conhecida como mundo".
Agora entendi a expressão cristã “sentar-se à direita de Deus Todo Poderoso”...
Ler isso me fez estufar o peito: - Sou um deles. Você também. Somos heróis e não sabemos. Estamos ajudando a construção da Divina Obra... Compreendo agora várias coisas: o por que da afirmação budista de que  “a vida é sofrimento”; a fala do Dalai Lama para não levar a vida  a sério porque ela é só um palco, uma viagem e não a nossa casa; o porque até aqui, na descida do raio de criação, viemos no “piloto automático" e agora começa a difícil subida consciente na nossa evolução; o porque, segundo os hindus,  é um privilégio nascer com a forma humana. 

E vamos nessa pessoal...

ATENÇÃO! ATENÇÃO!: Vai começar um ciclo de 10 postagens (diárias) sobre a experiência de "Quase Morri e Voltei"! Coisa finíssima. Não dá pra perder. Recomendamos ler desde o início, para fazer sentido. Boa leitura!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A Espreita

As habilidades da Espreita e do Sonhar (o sonho lúcido, não o comum) são dois dos pilares do caminho de evolução dos toltecas do Antigo México. Como o assunto é complexo vamos tentar um vôo rasante e compacto, senão ninguém lê. Quem se interessar avise, que a gente dá o caminho com mais vagar.
A Espreita é a habilidade de eu me relacionar no mundo, com o outro, meu semelhante, conseguindo habilmente os objetivos interiores e exteriores com o mínimo de energia e exposição, fluindo sem a interferência do ego. Por que com o mínimo de energia? Porque eu preciso dela para a minha evolução. Não posso ficar despediçando como eu faço o tempo todo. Espreitar não é fingir algo na relação com o outro, mas é usar a necessidade da convivência como uma alavanca de aprendizado interior e evolução, não como um fardo. É um assunto eternamente atual porque o outro é o nosso espelho, ou mais ainda, eu sou o outro. Quem dirige a atividade não deve ser o ego, mas o Intento, outro nome do Espírito.
Espreitar se relaciona fortemente, além do sonhar, com muitas outras unidades de significado desse conhecimento ancestral, como: o tonal, o nagual, o ponto de aglutinação, o pequeno tirano, a impecabilidade, a importância pessoal, os hábitos e rotinas, a loucura controlada, a energia sexual, a consciência intensificada, a recapitulação, e por aí afora...vamos ainda falar disso tudo. São os elementos da sintaxe tolteca.
A arte da espreita, já que lida com pessoas e comportamento é aparentemente exterior, mas por outro lado tem raízes profundas num lado oculto do ser humano, incompreensível à razão habitual, que é o corpo energético.
A Arte da Espreita está ligada ao coração, assim como a Mestria da Consciência está ligada á mente, e a Mestria do Intento ao espírito.
O propósito da atividade de espreitar é deslocar gradual, firme e seguramente o ponto de aglutinação, que é a sede da percepção no ser humano, e fixá-lo além do chamado inventário humano, que é tudo o que nos foi inculcado desde o nosso nascimento pela socialização.
Não deixe passar despercebido o fato de que o desenvolvimento da percepção humana, e portanto da consciência, está atrelado à relação com o seu semelhante. Nada de trabalhar isolado, sair do convívio, ir para uma caverna, ou outro lugar...a gente tem que aceitar o convívio com o outro. O Quarto Caminho também insiste em que o melhor lugar e condição de trabalho interior é onde eu estou agora. Mesmo porque não adianta deixar tudo e ir para Paris, ou Katmandu só porque lá eu acredito que as condições são melhores. Sabe por que? Porque eu levo o meu ego junto...
Com o deslocamento do ponto de aglutinação, a percepção toma contato com um outro estado de consciência muito mais amplo e abarca mundos insuspeitados no Invisível. Só consegue quem tem disciplina e, principalmente acredita no Invisível. Como disse Shakespeare em Hamlet – Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que pode sonhar a tua vã filosofia.
A espreita pode ser aplicada a tudo, mas espreitar a si mesmo é a sua expressão mais fina e valiosa. Eu fico de olho em mim mesmo. Só espreitando... Lembra o personagem do livro O Lobo da Estepe do grande Herman Hesse.
Se fôssemos resumir e condensar os pontos importantes das considerações sobre a espreita, diríamos:
-    É a habilidade de fixar o ponto de aglutinação numa nova posição.
-    É uma batalha silenciosa para conseguir os objetivos da melhor forma em cada situação.
-    É um controle sistemático do comportamento.
-    É uma forma de se relacionar com as pessoas, mas sua atuação tem o objetivo de afinar a percepção do próprio praticante.
-    É colocar-se em "situações limite" (perigo, medo, saturação sensorial, agressão) e se observar para se conhecer a fundo.
-    A espreita é focada no tonal, corpo direito, primeira atenção. O sonho é o oposto (nagual, corpo esquerdo, segunda atenção).
-    Ela move devagar e mantém o ponto de aglutinação na nova posição conseguida (coesão). O sonho é o oposto. Move rápido e não o mantém. Daí a dificuldade habitual de se lembrar dos sonhos.
-    As mulheres são naturalmente mais afeitas à espreita que os homens.
-    Ela é regida por 7 princípios (falaremos mais tarde disso)
-    Tem 4 passos de aprendizado: implacabilidade, esperteza, paciência e doçura.
-    Seus resultados práticos são: rir de si mesmo, não se levar a sério, e uma capacidade infinita de improvisação.
-    Sua estratégia mais eficaz tem 6 pontos: controle, disciplina, paciência, oportunidade, vontade e o pequeno tirano.
-    Espreita-se tudo, até as próprias fraquezas, mas o estado da arte é espreitar a si mesmo.
-    A espreita é o enigma do coração; a consciência é o da mente; o intento é o do espírito.
-   É um comportamento secreto, furtivo e enganoso para produzir um choque (em si mesmo).
-    Para espreitar é preciso ter um propósito, ser impecável, sair da auto-importância, banir hábitos e rotinas e praticar a loucura controlada (que é fingir-se imerso na ação, mas sem se identificar, nem ser notado).
-    A recapitulação é o ponto forte dos espreitadores. É uma forma especializada de espreitar as rotinas internas. É passar a vida a limpo revivendo-a.
-    Curiosamente, apesar de ser uma atividade de relação, a espreita é melhor aprendida em consciência intensificada do que na consciência comum, sem o inconveniente da tralha do inventário humano.
-    Ela se liga à energia sexual de forma individual. O sonhador usa a energia sexual para sonhar. O espreitador não.
Como dissemos, é só um voo rasante. Agora a sequência é com você, caso se interesse pelo assunto.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Recapitulação

A Recapitulação é uma atividade tolteca especializada do espreitador (aquele que busca a compreensão pela via da ação no mundo, diferentemente do sonhador). No cristianismo esotérico monástico aquele era chamado ativo em contrapartida a este, o contemplativo. Na conceituação gurdjieffiana aquele era o obyvatel, o dono de casa, o mantenedor. A recapitulação existe de formas parecidas na maioria das tradições autênticas e genuinas. É um tipo de "video tape", uma cópia que nos é permitida para refazer a "lição de casa" da nossa vida com atenção. Através da recapitulação você revive de fato (não é só um recordar) as experiências passadas, desta vez com o crivo da atenção, e então as rotinas da sua vida e relacionamento são impiedosamente expostas a si mesmo, para serem dissecadas e neutralizadas pela Consciência. É um "se dar conta" da prisão mecânica individual em que estamos e procurar escapulir. Há um prazer atávico em escapulir da prisão. É a vocação e o prêmio para o ser humano que busca o Si Mesmo. Mas poucos conseguem.
Você já percebeu como as pessoas gostam de filmes e histórias de prisioneiros que escapam? A Fuga de Alcatraz, Papillon, O Conde de Monte Cristo, ou mesmo Robinson Crusoe são exemplos fascinantes e mágicos dessa aventura da fuga da prisão...
A componente da socialização em nossas vidas, ao nos cristalizar num jeitão específico e política e socialmente corretos, nos torna padronizados e monotonamente repetitivos no nosso relacionamento com as pessoas, com o mundo que nos cerca, e também conosco mesmo. É um círculo vicioso sem fim. A prisão da socialização é a morte em vida, mas temos que passar inicialmente por ela, e só depois buscar a liberdade. Conscientemente.
A recapitulação é uma prática que traz isso à tona e inicia gradualmente o processo de transformação. 
A recapitulação se resume em um reviver, como um flash back, cada pessoa e situação da nossa vida. A prática está associada a um ritual de respiração onde eu vivo novamente a cena do passado ao inspirar e a descarto ao expirar, e com isso me livro das amarras de energia que recebi e dei na ocasião. Já que é um trabalho para a vida inteira e mais além, a recapitulação exige no início muita energia, determinação e paciência. Os aprendizes xamânicos no antigo México passavam muito tempo recapitulando. Nossa tendência é sempre adiar, procurar uma ocasião mais propícia para iniciar a prática, mas o Nagual (o mestre tolteca) deixa claro que o melhor momento para começar é sempre agora...
Ele diz que a totalidade de um caminho se resume em seu primeiro passo. Isso significa que as condições ideais são aqui e agora.
Se atentarmos para o fato de que através da recapitulação o espreitador engendra um meio de atender uma exigência inexorável do Mar Escuro da Consciência (a Águia), dando a ele as experiências pessoais vividas, e reivindicadas na hora da morte – e espertamente ficando com a vida (consciência), – não há dúvida de que essa é a atividade mais importante de nossas vidas, ou seja, procurar manter a consciência individual em evolução, mesmo sem mais possuir o corpo físico. Alguns chamam isso de imortalidade.
Com a passagem dos anos, o inevitável sentimento de urgência que sutilmente começa a aparecer  no ser humano comum, vai deixar claro que não estamos atendendo nesta vida a nossa mais alta vocação e potencialidade de ser humano, que é levar nossa consciência ao infinito. A recapitulação é uma oportunidade e como tal não deve ser ignorada ou subestimada. Da mesma forma que os hindus afirmam que é um privilégio nascer com a forma humana, é também um privilégio ter tido contato com tal ensinamento e prática nesta atual existência.
No livro O Poder do Silêncio, leitura fascinante, página 64, Don Juan diz a Carlos Castaneda:
“- Asseguro que durante nossas vidas ativas nunca temos a chance de ir além do nível da mera preocupação, porque desde tempos imemoriais a rotina dos afazeres diários nos entorpeceu. É apenas quando nossas vidas quase se encontram por terminar que nossa preocupação com o destino começa a assumir um caráter diferente. Começa a fazer-nos ver através da neblina das ocupações diárias. Infelizmente, esse despertar sempre vem de mãos dadas com a perda de energia causada pelo envelhecimento, quando não temos mais força para transformar nossa preocupação em descoberta pragmática e positiva. Nesse ponto, tudo o que nos é deixado é uma angústia amorfa e penetrante, um desejo por algo indescritível, e a simples raiva por ter errado o alvo.”
Deu um frio na espinha, né?
Então, como diz o Gil na música: "Se oriente rapaz..."

domingo, 7 de novembro de 2010

A auto importância

A auto importância, ou importância pessoal, ou o pecado capital do orgulho, a grande arma do ego, é um dos temas de maior relevância no caminho de evolução proposto em todas as tradições, uma delas os toltecas do Antigo México.
Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras interiores e se permitir  trilhar o caminho da liberdade total. A moderna psicologia está agora começando a tatear o conhecimento da percepção, atenção e consciência humanas para chegar onde eles já chegaram há milhares de anos sem a ajuda da tecnologia atual. Só com trabalho interior.
A prática de abandonar o senso de auto importância, ao lado de outras abaixo, é uma condição sem a qual não se pode progredir no caminho da busca interior, o caminho da evolução real.
A prática de Tensegridade (Passes Mágicos) ensinada pelos toltecas antigos e modernos, redistribui e portanto fornece energia ao praticante, mas para que?
Se não aplicarmos essa energia obtida com a prática dos Passes Mágicos incansavelmente nas outras tarefas destinadas a nos modificar, corremos o risco de nos transformarmos em seres fortes, porém mais auto importantes e arrogantes ainda, pelo simples fato de sermos fortes.
Não se entra em nenhum céu, nirvana, satori, reino dos deuses, ou em qualquer estado superior de consciência conservando o jeitão interior que nós adquirimos a partir do consenso social. Todas as tradições indistintamente falam em mudar, acordar, transformar-se, renascer...
A nossa sugestão, como guerreiros que somos por vocação, é tomar essas práticas e começar a desenvolver exercícios concretos, diários, e então impecavelmente nos espreitarmos nessa luta diária conosco mesmos. É disso que trata a obra de Castaneda dentro da linhagem dos toltecas do antigo México.
Vamos então nos perguntar:
- Tomei consciência de que eu preciso mudar? Estou praticando todo o dia, o dia inteiro, a todo o instante? Estou fazendo a prática a partir da minha vontade, do meu hara, do meu umbigo? Estou fugindo, disfarçando, justificando? Estou me avaliando regularmente nas anotações do meu Diário de Navegação? Estou me colocando pacientemente no agora, que é o único lugar possível ao ser humano que busca?
Essas práticas podem e devem ser acompanhadas pacientemente pelo buscador.
Como técnica de auto-espreita , pode-se tentar formular exercícios simples para cada prática listada abaixo. Elas estão interligadas e mobilizam nossos três principais centros, mental, emocional e físico, e são o decálogo do trabalhar sobre o ego::

1- procurar de uma forma simples e concreta abandonar o senso de auto importância em nossas ações rotineiras,

2- recapitular regular e imparcialmente os fatos da minha vida (o dia, o ano, o passado, a vida toda),

3 - reorganizar a vida pessoal em função da busca. A busca é o mais importante, a vida é só o meio.Esse é o significado oculto do lema da Escola Iniciática de Sagres: Navegar é preciso, viver não é preciso...

4 - tentar apagar a história pessoal, que nos aprisiona.

5 - quebrar as rotinas e hábitos. Eles nos cristalizam em torno do ego.

6 - assumir toda a responsabilidade pelos nossos atos.

7 - usar a morte como conselheira.

8 - praticar o não fazer.

9 - levar a atenção à sensação, à respiração.

10 - praticar o relaxamento.


É muito? Claro que é. Vamos fazer pelo menos uma. Devegar. Há muitos caminhos...