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quarta-feira, 1 de abril de 2020

A Palavra Agora é Liberdade!

AUTO HEMOTERAPIA

Há cerca de 20 anos atrás, quando no mundo recomeçaram os mesmos sinais de doenças viróticas globais que já haviam assolado a Europa nos séculos passados, eu que sempre resisti a agir pelos parâmetros do rebanho, comecei a procurar uma saída.. 
Eu sempre tive uma preocupação com a saúde física, emocional, mental e espiritual. Fazia Meditação Zen, Yoga, Acupuntura, Homeopatia, e Macrobiótica, esta orientada pelo Kikuchi desde 1970. Evitava proteína animal, medicamentos, açúcar,  caminhava muito... lia e praticava Castaneda e Gurdjieff e não aceitava as soluções do "sistema". 
Então, depois de pesquisar muito a verdadeira saúde, descobri uma técnica simples de bloquear todo e qualquer micro-organismo nocivo antes que ele chegasse a mim. Tanto os leves quanto os fatais. Além do mais, a técnica apresentava um leque de possibilidades inimagináveis contra a maioria das doenças relacionadas com a imunidade.
A técnica chamava-se Auto Hemoterapia, do grego hemos = sangue.
Era, se não me falha a memória, final dos anos oitenta. Alguém, que já  não me lembro quem, indicou na internet um médico do Rio de Janeiro, e eu muito enxerido já fui ligando pra ele...
Descobri então nas minhas buscas, uma rede enorme de gente "off road" operando fora do circuito maldito (médico - laboratório - plano de saúde) e que fazia a "lição de casa correta": prevenir a doença antes de remediar. Eu já sabia como funcionava o diabólico sistema. Agora queria ir além.
O médico chamava-se Dr. Luiz Moura, meu xará de nome e sobrenome, e que gentil e pacientemente me iniciou no assunto. Uma pessoa adorável. Um gentleman. Ao mesmo tempo completamente fora do esquadro dessa coisa chamada "medicina oficial". Um "fora do rebanho" no melhor sentido. Saudades dele. Falamos anos seguidos até a sua passagem para o lado de lá...
Como o nome da técnica indica, era uma terapia com sangue do paciente aplicado imediatamente nele próprio.  Eu já explico. É simples:
Você, ou um aplicador, com uma seringa pequena tira semanalmente pequena quantidade de sangue da veia e injeta no músculo, nas nádegas ou nos braços, até curar a doença. Ponto. Mais simples que isso, só respirar... 
Quando sarar, você percebe que não foi só o corpo que se curou, mas a emoção, a alma... é claro, está tudo ligado... É inacreditável.
Ele era também entusiasta do tratamento com ingestão da solução de Cloreto de Magnésio, que faço até hoje e que todos deveriam fazer conforme já citado neste blog na postagem Falta de Magnésio, Um Horror. Esse artigo você não pode também deixar de ler.
O grande problema na época e ainda hoje era que "O Sistema" entrava em pânico e reagia, principalmente nos meios de comunicação. As pessoas, mal informadas, surtavam só de ouvir falar o nome Hemoterapia. Fazia-se tudo para assustar as pessoas que quisessem conhecer a coisa. Claro. Mas porque isso, já que é comprovadamente saudável, sem custos e sem efeitos colaterais?
A verdade é que a técnica "não dá dinheiro pra ninguém", nem médico, hospital, plano de saúde, laboratório. 
Se você procurar,  fica claro quem é "o sistema": 
É o CFM - Conselho Federal de Medicina, de Enfermagem, Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Laboratórios farmacêuticos, Associações e  Planos de Saúde, de médicos, Laboratórios, e por aí afora. Sem contar o "circuito da corrupção política" associado a essas entidades, é claro!
É muito inimigo junto, meus caros!
Se por um milagre Jesus aparecesse hoje na Terra e novamente começasse a curar, ele não durava uma semana...
Até os amigos torciam o nariz quando eu falava no assunto. Eu parei de falar. Agora está todo mundo feito barata tonta buscando solução para o vírus. E eu, só observando... Então resolvi pôr a minha colher de pau nesse angu. Esta postagem é o início...
Era difícil na época conseguir uma simples enfermeira que se dispusesse a fazer a aplicação. Médico, nem pensar. Então através  de indicações da "rede do bem" que já existia, ligada ao Dr. Luiz Moura,  eu consegui contatar uma "bruxinha", Mara, um anjo do céu, que me aplicou a técnica durante mais um ano a um preço acessível. Aprendi muita coisa com ela sobre tudo.
Poderia falar horas sobre a minha experiência mas o ideal é ouvir o Dr. Luiz Moura, ele próprio, no vídeo que apesar de longo, dá toda a informação necessária nesses tempos bicudos que correm.
Foi o que ele fez comigo pacientemente e não me arrependo de tê-lo ouvido.
Essa angústia mundial que estamos passando cuja autoria está cada vez mais mal explicada por uma imprensa também conivente e criminosa, pode ser por culpa não da China, categoricamente, cujo povo é outra vítima, mas sim do "Politburo Chinês". Ou, segundo outras fontes, culpa de grupos econômicos supra-nacionais liderados por uma poderosa entidade oculta chamada Bilderberg, o berço do globalismo, que substituiu o controle de natalidade pelo de mortalidade. Pavoroso. (pronto! já iniciei uma outra briga sobre teorias de conspiração)
A angústia que estamos vivendo poderia ter sido evitada se as pessoas conhecessem essa técnica simples. 
Vejam abaixo o vídeo em que o dr. Luiz Moura fala sobre tudo. É longo. Porém o tempo é uma das poucas coisas que quase todos temos sobrando nesses tempos atuais de quarentenas obrigatórias.
Pode ser que as vidas das pessoas ou dos entes queridos estejam em jogo. Pensem nisso e tenham paciência para ouvir o vídeo. Eu testei a técnica durante 20 anos... Acho que está bom, não?
Saio na rua sem medo, a não ser de alguns motoristas e motoqueiros que frequentemente gritam "vai pra casa, velho", às vezes acompanhado de algum adjetivo impublicável... novos tempos.
Então vejam o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=scn8_4yP8pA

O vídeo é longo. Quem precisar pesquisar mais e ter informações sobre o tema, acessem os Comentários.
Sugiro também vocês entrarem no Google e Youtube, inicialmente com a expressão Auto Hemoterapia e divirtam-se...

Notem que em nenhum momento usamos o nome oficial do vírus propagado pela imprensa. É proposital. A recomendação dos experts em PNL - Programação Neuro Linguística é, em caso necessário de se referir a ele, substituir o nome dele por umnome deconotação positiva. Por exemplo: COMVIDA20. E não falar e nem pensar mais nele. Boa ideia, não? 

Para complementar, vejam esse outro vídeo atual e simples, quase cômico no Youtube, de dois amigos, um brasileiro radicado nos EUA e outro cubano que foram contaminados pelo vírus em Washington numa viagem. Um foi imediatamente curado pelo outro que era aplicador de Auto Hemoterapia e que, ao se contagiar, também, aplicou em si mesmo e se curou em seguida. 

Vamos lá, amici... e Boa Sorte:










domingo, 18 de novembro de 2012

A Realidade e o Fantástico

Cada vez mais pessoas estão se tocando com os tempos curiosos em que estamos vivendo. Há uma sutileza no ar mostrando que nossas certezas estão se esvaindo a partir do que a realidade gradualmente nos mostra. Uma realidade impessoal que não afaga as nossas crenças, posições e dogmas, e não dá tréguas ao nosso jeitão enviesado, simplista e preconceituoso de ver o mundo. A razão disso tudo é que há um pensar inadequado sobre o que se apresenta à nossa percepção.
A chamada ciência européia, que em 1815 dizia que “nada no mundo tem a velocidade maior que a de um cavalo”, já em 1850 teve que aceitar a velocidade da luz. Einstein então definiu a velocidade da luz como um limite universal, mas há uns tempos atrás o CERN, organização européia para a pesquisa nuclear afirmou que experiências feitas com neutrinos (sub partículas) indicam que essas partículas desobedientes superaram esse limite. Quer saber o que mais os novos cientistas estão dizendo? Que isso permitiria enviar mensagens e informações para o passado. Pode isso?  Na verdade os estudiosos já  perceberam que logo após o Big Bang, a velocidade de expansão do Universo já teria sido maior que a da luz. Me perdoe o Einstein, mas ele errou? Enfim, um imbroglio. O universo está brincando com a gente, pô!
Para aumentar a insegurança intelectual, fruto desse “pensar linear” ocidental, surgiram atualmente mais contradições ainda. A velocidade de expansão do universo não está obedecendo ao combinado, devido a uma tal matéria escura que apareceu sem avisar, que além de ser absurdamente estranha e não detectável pela ciência, a não ser pelos efeitos que causa, é além de tudo irmã da energia escura, mais estranha ainda. É só estranheza. Antes não era assim...
É a chamada sinuca de bico. Já não bastasse o eletro-magnetismo e a gravidade que os físicos e outros cientistas só conseguem quantificar e aproveitar mas  nunca entenderam direito, a Física quântica, com seus spin e números quânticos de estranheza, tem o desplante de afirmar (e de provar, o que é pior) que “um elétron passa por dois lugares diferentes ao mesmo tempo”. Isso já é demais! Estava certa a Igreja de mandar para a fogueira quem dizia que a terra não era o centro do universo. Aboliram isso. Estão vendo no que deu?
A verdade é que a realidade não dá a menor bola para a ciência, e esta tem que ponderar o que está errado com ela, ciência. Já que pensar é de graça, vamos meter a nossa colher nesse angú e dar a nossa opinião: Seria a nossa concepção do mundo e a forma de pensar que está errada? Será que antes de conceituar a priori essa coisa chamada Realidade, devemos é permitir que ela atinja diretamente os nossos sentidos sem tentar agarrá-la com os conceitos e filtros prévios para que ela então se mostre na sua inteireza? Não é fàcil para um cientista, mas qualquer buscador de uma tradição autêntica sabe como fazer isso. O ser humano em todas as suas atividades, talvez por não se deter sobre a natureza dessa sua aberração mental chamada ego, começa já formando uma opinião sobre um fato, e depois inicia o processo de juntar as informações sobre o fato, somente para filtrar intelectualmente quais as informações provam a veracidade da opinião prévia que já tinha formado. Não é muito diferente da inteligência que orientou a Inquisição. Só é mais sofisticada, já que o intelecto é uma prostituta que se vende a qualquer patrão. Vimos isso todo o tempo na história da humanidade inteira.
Mas o preconceito científico assentado no ego arrogante e dogmático dos homens de ciência é somente um dos problemas, e talvez o menor. Há também o pano de fundo da árida visão cartesiana atual do mundo, orientada por uma lógica ultrapassada, fixa e mutuamente exclusiva do “ou é isso, ou aquilo” onde não há espaço para uma abordagem “é isso e aquilo”, a exemplo da tradição budista, xamânica e outras, sem fronteiras definidas, onde coisas se transmutam em outras sem pedir licença à ciência. Essa seria a abordagem correta do pensar, onde a própria Ciência tem ligação com A Consciência.
A matéria está cada vez mais mostrando que há segredos mais fantásticos que a imaginação mais tresloucada dos contos de ficção científica possa conceber, e esse pensar é que de forma crescente está batendo impaciente às porta da ciência moderna com nomes bizarros: singularidade, buracos negros e brancos, horizonte de eventos, anti-matéria, dobras espaciais, buracos de minhoca, mundos paralelos, e por aí afora.
Há mais de cinquenta anos, em 1960, um livro corajoso começou a reintroduzir o insólito na nossa paisagem intelectual, batizando-o de Realismo Fantástico, e acenando com uma outra forma de pensar e encarar o mundo, mais para a abordagem Zen do que para o dogmatismo da Academia. Ele acenava que a realidade é muito mais fantástica que a fantasia, e previu o que estamos vendo acontecer nas ciências. Vamos a ele: 

"Repito: O Fantástico, a nossos olhos, não é o imaginário. Mas uma imaginação poderosamente aplicada ao estudo da realidade descobre que é muito tênue a fronteira entre o maravilhoso e o positivo, ou, se preferem, entre o universo visível e o universo invisível. Existe talvez um ou vários universos paralelos ao nosso. Creio que não teríamos empreendido esta tarefa se, no decorrer da nossa vida, não tivesse acontecido sentirmo-nos, realmente, fisicamente em contato com outro mundo. 
O antropólogo americano Loren Eiseley, cuja forma de pensar se aproxima da nossa, conta uma bela história que exprime bem o que pretendo dizer. 
"Descobrir outro mundo, diz ele, não é apenas um fato imaginário. Pode acontecer aos homens. Aos animais também. 
Por vezes, as fronteiras resvalam ou interpenetram-se : basta estar presente nesse momento. Vi o fato acontecer a um corvo. 
Esse corvo é meu vizinho: nunca lhe fiz mal algum, mas ele tem o cuidado de se conservar no cimo das árvores, de voar alto e de evitar a humanidade. O seu mundo principia onde a minha vista acaba. Ora, uma manhã, os nossos campos estavam mergulhados num nevoeiro extraordinariamente espesso, e eu me dirigia às apalpadelas para a estação. Bruscamente, à altura dos meus olhos, surgiram duas asas negras, imensas, precedidas por um bico gigantesco, e tudo isso passou como um raio, soltando um grito de terror tal que eu faço votos para que nunca mais ouça coisa semelhante. Esse grito perseguiu-me durante toda a tarde. Cheguei a consultar o espelho, perguntando a mim próprio o que teria eu de tão revoltante ... 
Acabei por perceber. A fronteira entre os nossos dois mundos resvalara, devido ao nevoeiro. Aquele corvo, que supunha voar à altitude habitual, vira de súbito um espetáculo espantoso, contrário, para ele, às leis da natureza. Vira um homem caminhar no espaço, bem no centro do mundo dos corvos. Deparara com a manifestação de estranheza mais completa que um corvo pode conceber; um homem voador ... 
Agora, quando me vê, lá do alto, solta pequenos gritos, e reconheço nesses gritos a incerteza de um espírito cujo universo foi abalado. Já não é, nunca mais será como os outros corvos ..."

Esse livro não é um romance, embora a intenção seja romanesca. Não faz parte da ficção científica, embora nele se deparem mitos ,que sustentam esse gênero. Não é um conjunto de fatos estranhos, embora o Anjo do Bizarro nele se sinta à vontade. Também não é uma contribuição científica, o veículo de um ensino desconhecido, um testemunho, um documentário, ou uma efabulação. É a narrativa, por vezes romanceada e por vezes exata de uma primeira viagem pelos domínios do conhecimento ainda quase por explorar. Como nos diários de bordo dos navegadores do Renascimento, o imaginário e o real, a extrapolação audaciosa e a visão exata confundem-se. É que não tivemos nem o tempo nem os meios de aprofundar completamente a exploração. Podemos apenas sugerir hipóteses e indicar as vias de comunicação entre esses diversos domínios que ainda são, por agora, terrenos proibidos. Sobre esses terrenos proibidos apenas fizemos pequenas paradas. Quando tiverem sido mais bem explorados, sem dúvida se verificará que muitas das nossas suposições eram delirantes, como os relatos de Marco Polo. É uma eventualidade que aceitamos calmamente. "Havia uma quantidade de disparates no livro". Eis o que dirão. Mas se este livro provocar a curiosidade de aprofundar o assunto, o nosso fim terá sido atingido. 
Onde estamos nós atualmente? Abriram-se portas em quase todos os edifícios científicos, mas o edifício da física de hoje em diante quase que não tem paredes: é uma catedral cheia de vitrais onde se refletem os clarões de outro mundo, infinitamente próximo. 
A matéria revelou-se tão rica, se não mais rica em possibilidades do que o espírito. Ela contém uma energia incalculável é suscetível de transformações infinitas, tem recursos insuspeitáveis, O termo "materialista", na acepção que lhe dava o século XIX, perdeu todo o sentido, da mesma forma que o termo "racionalista". 
A lógica do "bom senso" já não existe. Na física atual, uma proposição pode ser simultaneamente verdadeira e falsa. A X B já não é igual a B X A. Uma mesma entidade pode ser ao mesmo tempo contínua e descontínua. Já não nos poderíamos referir à física para condenar tal ou tal aspecto do possível 
Nota: Um dos sinais mais espantosos da abertura que se produz no domínio da física é a introdução daquilo que se chama "o número quântico de estranheza". Eis, por alto, de que se trata. No princípio do século XIX, pensava-se ingenuamente que dois números, no máximo três, seriam suficientes para definir uma partícula de matéria. Esse número seria a sua massa, a sua carga elétrica e o seu momento magnético. A verdade estava longe de ser tão simples. Para descrever completamente uma partícula foi necessário acrescentar uma grandeza intraduzível em palavras e que se chamava "spin". A princípio, julgou-se que essa grandeza correspondia a um período da rotação da partícula sobre si mesma, qualquer coisa que para o planeta Terra corresponder!a ao período de vinte e quatro horas, regulando a alternância dos dias e das noites. 
Chegou-se à conclusão de que nenhuma explicação simplista deste gênero poderia manter-se em pé. O spin era simplesmente o spin, uma quantidade de energia ligada à partícula, apresentando-se matematicamente como uma rotação sem que gire, seja o que for, na partícula. (NR. - Uma torção do nada, como já disse alguém, que não me lembro).
Profundos trabalhos, devidos sobretudo ao Professor Louis de Broglie, conseguiram explicar apenas parcialmente o mistério do spin. Mas, bruscamente, descobriu-se que entre as três partículas conhecidas: prótons, elétrons, nêutrons (e as suas imagens no espelho, antipróton, pósitron, antinêutron), existia uma boa trintena de outras partículas. 
Os raios cósmicos, esses grandes aceleradores, produziam-nas em grandes quantidades. Ora, para descrever essas partículas, os quatro números habituais, massa, carga, momento magnético, spin, já não eram suficientes. Era necessário criar um quinto número, talvez um sexto, e assim indefinidamente. E foi de uma forma absolutamente natural que os físicos chamaram a essas novas grandezas "números quânticos de estranheza". Esta saudação ao anjo do Bizarro tem qualquer coisa de imensamente poético. Como muitas outras expressões da física moderna: "Luz Interdita", "Algures Absoluto", o "número quântico de estranheza" prolonga-se para além da física, e tem ligações com as profundezas do espírito humano. 
Peguem uma folha de papel. Façam-lhe dois buracos pouco distanciados. Aos olhos do senso comum, - é evidente que um objeto suficientemente pequeno para passar através desses buracos passará quer por um, quer por outro. Aos olhos do senso comum, um eléctron é um objeto. Possui um peso definido, produz um clarão luminoso quando impressiona uma tela de televisão, um choque quando atinge um microfone. Temos portanto o nosso objeto suficientemente pequeno para passar por um dos dois buracos. Ora, a observação pelo microscópio eletrônico mostra que o eléctron passou simultaneamente pelos dois buracos. Como?! Se passou por um, não pode ter passado ao mesmo tempo pelo outro! Mas a verdade é que ele passou por um e por outro. É absurdo, mas é experimental. 
Das tentativas de explicações nasceram diversas doutrinas, em particular a mecânica ondulatória. Mas a mecânica ondulatória, entretanto, não consegue explicar totalmente um fato semelhante, que se mantém para além das nossas possibilidades de compreensão, a qual só poderá funcionar através de um sim ou um não, A ou B. Era a própria estrutura do nosso entendimento que seria necessário modificar, para que se pudesse compreender. A nossa filosofia exige tese e antítese. É preciso acreditar que, na filosofia do elétron, tese e antítese são simultaneamente autênticas. Parecerá absurdo o que dizemos? O elétron parece obedecer a leis, e a televisão, por exemplo, é uma realidade. 
O eléctron existe ou não? Aquilo que a natureza chama existir não tem existência a nossos olhos. O eléctron faz parte do ser ou do nada? Eis uma pergunta completamente vazia de sentido. Assim desaparecem, devido à ação enérgica do conhecimento, os nossos habituais métodos de pensamento e as filosofias literárias, provenientes de uma visão caduca dos fatos. 
A Terra está ligada ao Universo, o homem não está em contato apenas com o planeta em que habita. Os raios cósmicos, a radioastronomia, os trabalhos de física teórica revelam contatos com a totalidade do cosmo. Já não vivemos num mundo fechado: um espírito verdadeiramente testemunha da sua época não o poderia ignorar. Nessas condições, de que forma pode o pensamento no plano social, por exemplo, continuar preocupado com problemas que nem sequer são planetários, mas estritamente regionais, provinciais? E como pode a nossa psicologia, tal como se exprime no romance, manter-se tão fechada, reduzida aos movimentos infraconscientes da sensualidade e do sentimentalismo? Enquanto milhares de seres civilizados abrem livros, vão ao cinema ou ao teatro para saber de que maneira Françoise se sentirá impressionada por René e como, por outro lado, odeia a amante do pai e se tornará lésbica por surda vingança, vários investigadores, que fazem com que os números entoem uma música celeste, perguntam a si próprios se o espaço se contrai ou não em redor de um veículo espacial. Nesse caso todo o Universo se tornaria acessível: haveria possibilidades, durante o espaço de uma vida humana, de atingir a estrela mais longínqua. Se tais equações fossem confirmadas, o pensamento humano seria alterado. Se o homem não está limitado a esta Terra, novas interrogações terão de fazer-se a respeito do sentido profundo da iniciação e dos eventuais contatos com inteligências do Exterior. 
Em que ponto estamos ainda? Em matéria de pesquisa sobre as estruturas do espaço e do tempo, as nossas noções de passado e de futuro já não servem. Ao nível da partícula, o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos: futuro e passado. A uma velocidade extrema, limite da velocidade da luz, o que é o tempo? 
Estamos em Londres, em outubro de 1944. Um foguete V2, voando a 5000 quilômetros por hora, está sobre a cidade. Ele vai cair. Mas esse "vai" se aplica a quê? Para os habitantes do prédio que será destruído dentro de instantes, e que apenas possuem olhos e ouvidos, o V2 vai cair. Mas para o operador de radar, que se serve de ondas que se propulsionam a 300 mil quilômetros por segundo (velocidade em relação à qual o foguete é uma lesma), a trajetória da bomba já está fixada. Ele observa: mas não pode fazer coisa alguma. Na escala humana, já nada pode interceptar o instrumento de morte, nem evitar seja o que for, Para o operador o foguete já caiu. À velocidade do radar, praticamente o tempo não corre. Os habitantes do prédio vão morrer. No super-olho do radar já estão mortos. 
Outro exemplo: encontram-se nos raios cósmicos, quando estes atingem a superfície da Terra, algumas partículas, os mésons mu, cuja vida sobre o globo não ultrapassa um milionésimo de segundo. Ao fim desse milionésimo de segundo destroem-se a si próprios por meio da radioatividade. Ora, essas partículas nasceram a 30 quilômetros no céu, região onde a atmosfera do nosso planeta começa a ser densa. Para transpor esses 30 quilômetros, elas já ultrapassaram o seu tempo de vida, considerado segundo a nossa escala. Mas o seu tempo não é o nosso. Elas viveram essa viagem na eternidade e apenas entraram no tempo depois de perdida a sua energia, ao chegar ao nível do mar. Prevê-se a construção de aparelhos nos quais se produziria o mesmo efeito. Criar-se-ia desta forma uma espécie de gavetas do tempo, onde estariam arrumados objetos de fraca duração, conservados na quarta dimensão. Essa gaveta seria um anel oco de vidro, colocado num enorme campo de energia e onde as partículas rodariam com tal velocidade que para elas o tempo teria praticamente deixado de correr . Desta forma, uma vida de um milésimo de segundo poderia ser mantida e observada durante minutos ou horas ... 
"Não se deve acreditar que o tempo decorrido regressa ao nada: o tempo é uno e eterno, o passado, o presente e o futuro não passam de aspectos diferentes - gravuras diferentes se se preferir - de um registro contínuo e invariável da existência perpétua. " Para os discípulos atuais de Einstein, apenas existiria realmente um eterno presente. Era o que os antigos místicos diziam. Se o futuro já existe, a preconização é um fato. Toda a aventura do conhecimento antecipado é orientada no sentido de uma descrição das leis da física, mas igualmente da biologia e da psicologia no contínuo de quatro dimensões, quer dizer, no eterno presente. Passado, presente e futuro "são". Talvez seja apenas a consciência que se desloca. Pela primeira vez a Consciência é admitida sem discussão nas equações de física teórica. 
Neste eterno presente, a matéria surge como um delgado fio estendido entre o passado e o futuro. Ao longo desse fio desliza a consciência humana. Por que meios é ela capaz de modificar as tensões desse fio, de forma a controlar os acontecimentos? 
Saberemos um dia e então a psicologia fará parte da física. 
A liberdade é provavelmente conciliável com este eterno presente. "O viajante que sobe o Sena de barco sabe antecipadamente as pontes que encontrará. Nem por isso é menos senhor das suas ações, nem menos capaz de prever o que poderá acontecer inopinadamente." Liberdade de vir a ser, no centro de uma eternidade que é. Visão dupla, admirável visão do destino humano ligado à totalidade do Universo! 
Se eu pudesse recomeçar a minha vida, com certeza não escolheria ser escritor e passar os meus dias numa sociedade retardatária na qual a aventura dormita debaixo das camas, como um cão. Ser-me-ia necessária uma aventura-leão. Seria físico teórico, para viver no âmago ardente do verdadeiro romanesco. 
O moderno mundo da física desmente terminantemente as filosofias do desespero e do absurdo. Ciência sem consciência não passa de uma ruína da alma. Mas consciência sem ciência é ruína idêntica. Aquelas filosofias que atravessaram a Europa no século XX eram fantasmas do século XIX, vestidos à moda atual. 
Um conhecimento real, objetivo, de fato técnico e científico, que cedo ou tarde arrasta o fato social, ensina-nos que há uma direção nítida na história humana, um acréscimo do poder do homem, uma subida, do espírito geral, uma enorme forja das massas que as transforma em consciência ativa, o acesso a uma civilização na qual a vida será tão superior à nossa como a nossa em relação à dos animais. Os filósofos literários disseram-nos que o homem é incapaz de compreender o mundo. Já André Maurois, em Les Nouveaux Discours du Docteur O'Grady, escrevia: "Tem de admitir, no entanto, doutor, que o homem do século XIX podia acreditar que, um dia, a ciência explicaria o mundo. Renan, Berthelot, Taine, também esperavam o mesmo, no princípio da sua vida. O homem do século XX já não tem tais esperanças. Sabe que as descobertas só fazem recuar o mistério. Quanto ao progresso, constatamos que os direitos do homem só provocaram fome, terror, desordem, tortura e confusão de espírito. Que esperança resta? Para que vive, doutor?". Ora, o problema já não se colocava desta forma. Sem que os faladores se apercebessem, o círculo fechava-se à volta do mistério e o progresso incriminado abria as portas do céu. Já não é Berthelot ou Taine a fazer previsões a respeito do futuro da humanidade, mas sim homens como Teilhard de Chardin. De um recente confronto entre cientistas de diversas disciplinas sobressai a seguinte ideia: talvez um dia os derradeiros segredos das partículas elementares nos venham a ser revelados pelo comportamento profundo do cérebro, pois ele é o resultado e a conclusão das mais complexas reações na nossa região do Universo, e talvez contenha em si próprio as leis mais íntimas dessa região. 
O mundo não é absurdo e o espírito não é de forma alguma inapto para compreendê-lo. Antes pelo contrário, pode ser que o espírito humano já tenha compreendido o mundo, mas ainda não o saiba ...



domingo, 21 de outubro de 2012

A Atenção e as Duas Naturezas

Dr. Conge - um raro buscador
Na página  "Quem escreve? Porque?" deste blog, contei que no passado participei de um Grupo em Sampa, que de 1970 a 1984 foi orientado  pelo Dr. Michel Conge na França, ele discípulo de Gurdjieff. Um período de ouro. 
Michel Conge nasceu em Pau, sudoeste da França em 1912. Cedo decidiu devotar-se à “procura do real atrás das aparências”. Sua questão levou-o primeiramente à medicina. Enquanto trabalhava como médico-biólogo no Instituto Pasteur em Paris encontrou o escritor René Daumal que o introduziu a Jeanne de Salzmann. Ela logo o convidou a se juntar a G.I.Gurdjieff. Iniciando em 1948, encorajado por Gurdjieff e Madame de Salzmann, Conge reuniu à sua volta e de sua esposa, Gilles, um núcleo de homens e mulheres cuja busca ele acompanhou e dirigiu até sua morte em 1984.
A palestra abaixo foi dada por Michel Conge em Santiago do Chile em 06 de agosto de 1966. Extraída de “Record of a Search –Working with Michel Conge in France” de Ricardo Guillon. 
A forma do texto é corriqueira, mas não se enganem, é profunda e exige uma leitura com atenção e às vezes com intervalos a fim de metabolizar cada frase. Aliás ela fala de nada mais que A Atenção (rsrs).
Vamos à palestra do Dr. Conge (como ele era conhecido):

"Eu não pretendo dar uma palestra formal, mas prefiro olhar de perto certas idéias que pertencem ao ensinamento de Gurdjieff. Então eu falarei especialmente àqueles que têm procurado por vários anos ou por vários meses e, tendo se familiarizado com estas idéias, sentem sua verdade. Por exemplo, se eu falar a respeito de liberdade ou liberação, é óbvio que pensa que é livre, consciente, tem vontade e pode fazer qualquer coisa que ela queira na vida.
Apenas aquele ser ao qual a vida mostrou o status de dependência dele e que compreendeu que as coisas são feitas através dele – e não por ele – pode realmente querer tornar-se livre e alcançar a Consciência.
Este ensinamento abrange ideias que são muito desagradáveis de ouvir – por exemplo, que nós somos mecânicos. Esta é uma pílula amarga ao nosso amor-próprio, embora seja verdade, e é relativamente fàcil acatar uma ideia assim: nosso ser pode ser comparado a uma mansão com quatro andares, mas nós ocupamos apenas o porão, um lugar escuro no qual somos mantidos prisioneiros, quando há coisas muito importantes nos outros níveis. Inicialmente pode-se pensar que há algo depressivo nesta ideia  Entretanto, se eu estou querendo olhar a minha vida e todos os fracassos que eu experimentei, posso reconhecer que esta perspectiva explica muitas coisas e, no final, oferece grande esperança: eu percebo que se eu pudesse ocupar todos os cômodos da minha mansão, minha vida mudaria. Da mesma forma, quando nos é dito “Eu não sou o que eu sou”, há nisto um convite à totalidade, que me dá coragem.
Meu desejo esta noite é que nós possamos vir a sentir que uma visão ampla da natureza humana é necessária para um trabalho real sobre Si Mesmo.
Se nós falamos em liberação, questões logo surgirão do tipo ‘por que’ da minha escravidão e de ‘como’ da minha liberação.
A fim de nos ajudar a alcançar uma visão ampla, todos ensinamentos oferecem a ideia de escada, embora ela não seja sempre facilmente reconhecida nos textos antigos, os quais são freqüentemente incompletos ou distorcidos pelos copistas. A constituição dos seres humanos não é plana, mas consiste de níveis, andares. O ser humano não corresponde a apenas um nível do universo, mas a muitos. É algumas vezes dito neste ensinamento que um ser humano completo, desenvolvido, de verdade, tem sua cabeça ao nível das estrelas e seus pés na terra, e isto sugere não apenas um símbolo, mas uma verdadeira escada, indicando uma direção, um reto caminho.
Nós precisamos compreender que as duas naturezas do homem estão inscritas nesta escada: na parte superior da escada, a natureza mais alta; na parte inferior, a natureza ordinária na qual nós vivemos todo o tempo e na qual o centro de gravidade de nossa existência inteira se encontra.
Entre estes dois níveis há um intervalo, um espaço que não pode ser ligado. Muitos textos antigos falam deste intervalo; por exemplo, no Velho Testamento, o esforço entre Jacó e o Anjo que tem lugar precisamente no meio de um rio, num banco de areia. É válido considerar todos os elementos da estória: no banco mais alto, o irmão mais velho e, no banco mais baixo, o irmão mais novo que vem com toda sua família, suas cabeças de gado, suas riquezas, e vem com medo. E o esforço, no qual uma nova força aparece na forma de um Anjo, um mensageiro de Deus – a terceira força (Gênesis 32 a 38, creio).
Consciência e vontade, que são realidades pré-existentes, pertencem à natureza mais alta. Todas as manifestações ilusórias – mentira, imaginação, mecanicidade – correspondem à natureza mais baixa, que recebe apenas pálidos raios de consciência filtrados pelo intervalo.
Nós encontramos no Evangelho – na parábola de Cristo no poço do qual a mulher samaritana vem pegar água – esta ideia de que a fonte da vida reside em uma natureza mais profunda. Intervalo, poço, rio - todas imagens simbólicas que fazem-nos compreender que a água da vida deve ser procurada além de onde esperamos encontrá-la (João 4:12-14 19-21, creio.).
Ao preparar esta conversa, eu me recordei de uma estória Zen da antiga China, a qual é válido contar pelo fato de ser muito simples e clara. Um discípulo veio ao seu mestre com a seguinte questão: “Eu gostaria de compreender a natureza humana”. A resposta do mestre foi pegar uma pá, cortar uma minhoca em dois pedaços em um único golpe e justapor as partes tentando, em vão, reuni-las.
Este é exatamente nosso problema: como religar as duas naturezas que constituem nosso ser?
Para conseguir isto, nós devemos absolutamente ter acesso ao conhecimento daqueles que, através dos tempos, tornaram-se conscientes, aqueles que conseguiram esta união e procuraram transmitir todo seu verdadeiro conhecimento – conhecimento que não pertence ao nível da vida ordinária e não pode ser encontrado em universidades.
Este conhecimento diz-nos que a natureza mais alta procura unir-se à natureza mais baixa. Mas como nós somos agora, esta natureza mais alta não pode mais ser encarnada em nós, devido ao intervalo intransponível. A natureza mais baixa também tenta unir-se à natureza mais alta, mas, ao final, perde-se em tentativas que cegamente movem-se em círculos.
Nenhuma natureza é capaz de se unir com a outra, pois um elemento conector de uma densidade, vitalidade ou qualidade de vibração intermediária falta entre ambas.
Quando chegamos a este ponto, se não recebemos a ajuda do conhecimento objetivo e toda a informação prática e teórica oferecida pelo ensinamento, nós estamos perdidos. Para resolver este problema, necessitamos acesso a uma ciência, a ciência do ser, e devemos pedir, e aprender como pedir, esta ciência.
Na verdade, deixados por nós mesmos, podemos tentar resolver o enigma intelectualmente. Mas mesmo se nós chamarmos nossa qualidade de pensamento mais inteligente, não podemos encontrar nosso caminho a esta união, embora o pensamento seja um instrumento que deve eventualmente ser útil. Ou podemos chamar nosso sentimento, mas igualmente será falho. O mesmo é verdade se nós acreditamos que podemos encontrar a chave do problema no corpo, no instinto. As funções são instrumentos, mas o segredo será encontrado numa qualidade inteiramente diferente. Ela é encontrada na Atenção, esta substância viva tão pouco e pobremente compreendida, embora cada um de nós tenha acesso a ela. Eu posso sempre estar atento.
E a ideia fundamental é: Eu sou a Atenção. Onde minha atenção está, lá eu estou. Se minha atenção é fraca, eu sou fraco; se ela é mecânica, eu sou mecânico; se ela é livre, eu sou livre.
É claro que alguém pode também dizer “Eu sou consciência”; mas isto não é verdade para mim hoje. Será apenas verdade quando minhas duas naturezas tiverem, finalmente, se unido. Então a consciência viverá no meu ser inteiro e eu saberei que eu sou consciência e a consciência sou eu.
Devemos então retornar à atenção e compreender que da mesma forma que eu sou um ser dividido em dois, a atenção em mim é, também, dividida em duas. Há uma atenção mais alta, escondida, inacessível, sobre a qual eu não tenho mais poder do que sobre minha consciência. É, deste modo, inútil tentar qualquer coisa em relação a esta atenção, que é livre, pura, não engajada, una.
E há uma atenção que corresponde à minha natureza mais baixa, mas esta atenção encontra-se ‘caída’ e fragmentada, dividida em correntes divergentes. Eu posso conhecer esta atenção muito melhor do que eu a conheço hoje. Posso reconhecer a mim mesmo nela e, graças a isto, encontrar a mim mesmo (lembrar de mim mesmo). Isto penetra nas minhas funções, que são seus canais ‘obrigatórios’. E agora eu começo a compreender por que é dito que o autoconhecimento é, ou começa, com o conhecimento da máquina. Esta máquina, meu corpo, minha psique, foram-me dados de modo que eu possa tentar reconhecer a mim mesmo enquanto ‘atenção’, e estas três correntes de atenção podem se agrupar neste nível mais baixo.
Eu devo compreender que nesta natureza mais baixa cada corrente de atenção pode aparecer em graus de intensidade diferentes. Eu preciso aprender que a atenção pode se manifestar de maneiras completamente instáveis e errantes. Por exemplo, no meu funcionamento intelectual a atenção errante deixa a si mesmo ser varrida por tudo que a atrai; palavras, imagens, lembranças e cada evento no meu dia podem varrê-la, cada um de seu próprio jeito. Eu saio à rua; as vitrines, as pessoas constantemente tomam esta atenção. Ela não tem maior estabilidade do que uma borboleta. Saia para andar com a intenção de pensar a respeito de seus próprios assuntos. Um cachorro late para você e toma toda sua atenção. Este cachorro é mais forte do que você. Tanto melhor para a força deste homem, que pensou que era consciente, pensou que era mestre de sua própria vontade. E o que ocupa lugar no intelecto também ocupa nas funções emocionais e motoras.
Às vezes, quando um problema ou grande dificuldade surge, minha atenção pode ser concentrada, condensada; sua qualidade muda, ela adquire mais força, é sustentada por um elemento de desejo ou interesse. Não mais errática, ela é capturada: um motivo especialmente forte a tomou.
Há, entretanto, uma espécie de atenção muito diferente, uma atenção que é mais consciente, mais voluntária. Algumas vezes, em ocasiões raras, eu descubro o gosto dela.
Se isto ocorre no meu pensamento, eu vejo que meu pensamento se torna claro. E se isto ocorre no meu sentimento, eu conheço o sentimento de ser completamente livre das minhas emoções habituais. Em relação ao meu corpo, posso também experimentar de uma maneira nova o que está acontecendo ao seu nível.
O que é importante é aprender que cada um destes graus ou qualidades de atenção corresponde a um dos três níveis dos meus centros, pois cada centro consiste de três níveis:

  • um nível motor ou mecânico,
  • um nível emocional,
  • um nível intelectual.

O conhecimento da correspondência entre cada gosto específico de atenção e cada um destes níveis é um enorme segredo. Se eu aprender a reconhecer e ver isto, o caminho na direção da unificação ou reunificação da atenção se torna aparente. Mas eu tenho que compreender que estes três caminhos devem ser experimentados simultaneamente. Para praticar, é bom trabalhar primeiro em um centro, depois em outro. Entretanto, no nível da minha natureza ordinária, o retorno à atenção reunificada é possível apenas quando os três centros essenciais da minha natureza mais baixa se encontrarem, ou seja, quando estiverem nos seus níveis mais altos. Apenas neste momento a atenção efetivamente adquire uma nova característica: ela se transforma em atenção verdadeiramente voluntária, atenção consciente. Eu não estou dizendo que isto é consciência ou vontade, mas seu caráter consciente e voluntário ajuda-me a compreender que há algo agora nesta atenção regenerada que pode corresponder às propriedades da natureza mais alta.
Mesmo assim, esta união não é, ainda, possível. Entretanto, eu prossigo vivendo minha vida e compreendo que, graças ao esforço de desengajamento, todos estes esforços ao nível de cada função permitem que a atenção adquira propriedades que estavam faltando antes. E eu compreendo ambos, a razão para este nascimento no corpo e o significado do esforço de retornar à origem.
Ao nível do centro intelectual, a atenção adquire um poder de visão. É como uma luz que sustenta tudo no seu campo de iluminação.
Ao nível do centro emocional, a atenção adquire um calor que estava faltando, graças ao qual o esforço pode ser sustentado por um momento sem enfraquecer.
Ao nível do corpo, a atenção é sustentada por um novo fenômeno, que leva muitos anos para compreender bem: uma sensação de Si Mesmo, uma sensação que não é nem agradável nem desagradável. Eu sei que eu estou aqui
  • por esta visão,
  • por este sentimento,
  • por esta sensação,
e estes são os sinais que antecedem a descida da Consciência e Vontade.
Mas isto ainda não é suficiente. Se for verdade que, graças à sensação, a atenção se beneficia de um suporte sólido que evita que ela vagueie, e se, devido a este novo sentimento e clareza, a atenção pode evitar o estado cativo, eu ainda preciso me familiarizar melhor com fontes adicionais de ajuda. E eu as encontrarei na descoberta das impressões conscientes de Mim Mesmo.
Eu estou realmente dizendo conscientes, impressões intencionais de mim mesmo, do que vive no meu ser. Eu sei tudo sobre impressões, eu as recebo todo o tempo – impressões não intencionais, mecânicas, oriundas do ambiente. Cada coisa, cada pessoa que eu vejo, a temperatura desta sala, toda a comida que eu como – tudo isto causa impressões. Mas se é verdade que estas impressões permitem-me viver, e se é verdade que eu poderia morrer neste mesmo instante se eu parasse de recebê-las, é também verdade que estas impressões lentamente me destroem. Elas capturam minha força de atenção, elas me empurram à reação.
Qual é o significado de impressões conscientes e intencionais de si mesmo?
É, em primeiro lugar, a impressão de mim mesmo recebendo as impressões mecânicas da vida, o impacto da vida, e devo fazer o esforço para experimentar isto freqüentemente. Aqui minha atenção encontra um suporte de modo a não se perder.
Mas eu devo descobrir impressões mais profundas – não ainda as impressões reais e diretas da minha natureza mais alta, mas, de preferência, das partes mais altas dos centros mais baixos.
E, finalmente, uma terceira espécie de impressão – de mim mesmo conhecendo a impressão desta vida profunda e, ao mesmo tempo, recebendo as impressões mecânicas da vida.
Isto ilumina o conceito bem conhecido do Bhagavad Gita – o campo de ação, o conhecedor do campo e aquele que conhece, ao mesmo tempo, o campo e o conhecedor do campo. É exatamente a mesma coisa.
Muito mais poderia ser dito sobre a questão da atenção. Por exemplo, a ideia da mudança de sinais, baseado no conceito de relatividade. O nível mais baixo de cada centro deveria ser passivo e, em relação a ele, o nível mais alto deveria ser ativo. Isto seria normal. Mas no meu modo habitual de ver precisamente o oposto ocorre. Se nós retornarmos à ideia de duas naturezas, a natureza mais alta deveria ser ativa, no comando, e a natureza mais baixa deveria ser passiva, a serviço. Na verdade a natureza mais alta permanece passiva e a agitada natureza mais baixa roga, para si, o papel ativo; e isto porque não há nada que as reconcilie.
É o mesmo em cada um dos meus centros. Mas eu posso compreender que quando eu tento libertar minha atenção, ela aparenta ser ativa (eu aparento ser ativo) em relação ao mecanismo que se torna passivo. Progressivamente, eu vejo a permutação de sinais revelada.
Finalmente, se os níveis mais altos dos centros de tornarem ativos, um grande evento pode acontecer: toda esta natureza, agora unificada e ordenada, pode começar a servir à natureza mais alta. A ordem de sinais é revertida.
Melhor ainda, como eu liberto a mim mesmo das funções e como minha atenção, carregada com novo poder, reveste cada uma das funções, eu descubro que uma nova estrutura está, gradualmente, tomando forma, permeada de qualidades de pensamento, sentimento e sensação que eu não conhecia anteriormente. Esta estrutura – um novo corpo se formando, condensando, organizando – é o elemento intermediário anteriormente perdido capaz de unir as naturezas alta e baixa.
A partir daquele momento, pode-se falar em Vigilância, quer dizer, uma capacidade de viver um esforço de tal modo que o sinal não mais reverta e a ligação verdadeiramente ocorra.
Tudo isto eu devo, agora, tentar viver e carregar na intimidade do meu coração, protegendo-o contra todas as coisas que possam destruí-lo."

domingo, 24 de junho de 2012

Diminuir a bagagem

O Louco - Tarot de Marselha
 Hoje o assunto é um bate-papo intimista ao pé do fogo, sobre um tema caro a todas as tradições autênticas: diminuir a bagagem. Aquela que a gente acumula nas nossas experiências de vida, não só dos grandes momentos mas da tralha miúda do dia-a-dia com a labuta, o di-nhei-ro, o outro, a fila do banco e do supermercado, o trânsito infernal, o metrô, as notícias, os políticos, os amigos, inimigos, enfim tudo o que se transforma em hábitos corporais, emocionais, sentimentais, e escondidamente se deposita nos nossos corpos, desde os mais densos até os mais sutis...
Precisamos fazer isso, jogar o excesso de bagagem que acumulamos nessa vida, para passar pelo controlador deste trecho da viagem, que no fundo somos nós mesmos, sorrindo com aquela leveza de quem nada deve. Diferentemente dos vôos de avião, não pagaremos pelo excesso de bagagem, apenas não levaremos nada. Simples assim. Já pensou?  E eles nem avisam na hora do check in. Só quando o avião decola para a viagem é que neguinho nota que a bagagem ficou. Tudinho. Pior que isso, a vítima está nua. Não das suas vestes, mas do próprio corpo mesmo. Só restou uma consciência que está vendo tudo. Cruis credo!
Diminuir a bagagem é só uma força de expressão: precisamos mesmo é zerar tudo. Não vamos precisar de nada no nosso destino do outro lado. Como disse  Armando Torres, o índio descendente dos toltecas, no livro “Encontros com o Nagual”, estamos de passagem, somos viajantes temporários e estamos num mundo-prisão”. Vamos embora sem levar nada". Nem ao menos o corpo e a mente ...Então, uma boa técnica é a gente começar a treinar esse diminuir a bagagem com as coisas pequenas no nosso dia-a-dia.
Algo me diz que a Presença é um meio eficaz de zerar a bagagem antes mesmo de ela se transformar em bagagem, porque percebo que se a gente se dedicar de fato a entender o mecanismo e agir no momento exato em que percebemos que estamos guardando o lixão no sótão, ou seja emoções, mágoas, ódios, más lembranças (para carregar pelo resto da vida) o processo de guardar não acontece.  A gente só acumula quando não está ciente de Si Mesmo, está identificado com as coisas, os bens, as posições, as emoções, as idéias e conceitos. Está distraído, apegado, enfim... está dormindo.
O Apego do ego nos faz guardar as nossas experiências de uma forma tão ciosa e intensa que parece que vamos levá-las para sempre conosco, o que absolutamente não é o caso. A pergunta aqui é “o que vamos de fato levar conosco para a outra encadernação” (rsrs), e que nos obriga a ficar aumentando a bagagem a níveis insuportáveis? Com certeza não levaremos nada que esteja na mente, talvez nem ela própria, mas uma outra mente não individualizada, novinha em folha, zerada. A nossa missão, já dissemos, é gerar Consciência para o grande reservatório do Mar Escuro da Consciência, mas não guardar as experiências vividas para sempre conosco. Como já dissemos em várias postagens, como A Recapitulação, O Mar Escuro da Consciência, O Desnate - O mistério da Percepção desvendado, devemos na hora da morte entregar voluntária e conscientemente as nossas experiências vividas, para poder morrer conservando a Consciência após a morte, na forma conhecida pelos toltecas como “a liberdade total”. Meu grande amigo Constantino, (www.clubedotaro.com.br/) astrólogo e tarólogo, está sempre fazendo essa pergunta incômoda. Um chato... Ele diz: “porque espíritos evoluídos como os grandes lamas tibetanos ao renascerem, mesmo reconhecendo os seus pertences que usaram em outras vidas, tem, como bebês que são, que ser ensinados novamente na vida corriqueira e na tradição budista como um outro ser humano qualquer? O que permaneceu?”. Nem ao menos o corpo, a mente comum, as experiências, o carro importado, o nosso grande amor, o apartamento em Paris, ou Carapicuiba, sei lá...
Eu, particularmente descobri vários aspectos do meu “agarrar e guardar na bagagem”: primeiro sinto que não tenho muita dificuldade com os bens materiais, fato que martiriza muita gente. Posso ter e viver com pouco, e a idéia de perder o que tenho me preocupa,  mas não tira o sono por completo. Mas isso não é vantagem nenhuma, porque a coisa me pega quando se trata de mudar ou aceitar novas idéias, conceitos intelectuais, “princípios”. Na verdade nada de novo, só muda a materialidade da bagagem, porque são as mesmas coisas a que a gente se apega e guarda em alguma fase da vida,  e que passam a formar a estrutura na qual o ego se apóia, dando a falsa noção de identidade, de “eu sou”.  Isso é a bagagem, cumpadre e cumadre. Varia só o tipo da tralha.
Quando se está alerta no presente, a gente vê o processo se desenrolar à nossa frente e passa a ter uma mão no jogo, ou pelo menos a possibilidade, mesmo que remota, de ver os contornos, o gosto desse agarrar, e então tomar a decisão alternativa de não agarrar, ou pelo menos se observar agarrando, ter ciência de que está agarrando e qual é o preço a pagar. Quando não estamos alertas, viramos nós  mesmos o combustível do processo com toda a dor associada a ele. Caímos na “máquina de moer carne” e saímos salsicha do outro lado.
Nada disso aconteceria sem o Apego, simbolizado na mandala da Roda da Vida pelo galo, essa energia alerta e escondida lá no fundo de nós mesmos e que gera e dá combustível ao agarrar. Falamos do Apego em pelo menos 3 postagens, A Ignorância, o Apego, o Ódio, O Apego, como ele nos fisga, como se soltar... , O Sonho - Visão Budista. Nessa última, o Budismo, uma tradição extremamente pragmática e conhecedora profunda dos nossos veículos de expressão e desse “estar no mundo”, chega ao capricho de mostrar o caminho do Apego dentro de nosso corpo físico e energético: um canal que entra na narina esquerda, sobe  contornando o lado do cérebro e desce ao lado da coluna até um ponto interno a 4 dedos abaixo do umbigo. Aí está o mapa do Apego. Quando respiramos o ar juntamente com a Energia Vital (o prana esverdeado), ele faz esse percurso eliminando a energia ruim que é expulsa no topo do canal central no chakra coronário no alto da cabeça e substituindo-a pela nova energia, verdinha em folha.  Aliás, é curioso o fato de que a cor verde-claro do prana ou Energia Vital,  tão querida da Natureza e da Ecologia, é associada ao planeta Vênus, o mesmo que rege o Amor. Coisas do Invisível.
Quanto mais fizermos esse percurso conscientemente na respiração rotineira, presentes no Agora, mais estaremos em contato saudável com o nosso Ser. Beleza pura.
O Tarot, uma das tradições de profundo conhecimento interior mais caras e autênticas da raça humana, tem uma carta inspiradora que ocorre sobre o tema diminuir a bagagem. É a carta O Louco. Afora interpretações contraditórias sobre se essa carta deveria ser a carta 0 (zero), a 21 ou a 22, a letra 21 do alfabeto hebraico, “Shin”, é dita ser atribuída ao Arcano “O Louco” e se acrescentava que o nome esotérico do Arcano é... Amor.
A figura do Arcano O Louco é um homem vestido com a roupa de bobo da corte caminhando apoiado num bastão na mão direita e levando uma pequena trouxa suspensa por outro bastão apoiado no ombro direito. Caminha atacado por trás por um cão que lhe rasga a roupa, do qual não se defende com o bastão. Um louco do bem, associado a figuras como Dom Quixote, o Judeu errante, Dom Juan (o espanhol, não o tolteca), Orfeu, e Fausto (de Goethe).  
Segundo o livro Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô, de um autor profundo e anônimo como os que construíram as catedrais góticas, e que considero o que de melhor já se escreveu sobre o tema, a carta do Louco ensina a habilidade de passar do conhecimento intelectual para o superior, devido ao amor. Como disse acima, foi feito de encomenda para mim, e tantos outros que julgam erroneamente que a bagagem inconveniente é feita só de coisas concretas como dinheiro e posses materiais, e que as idéias não se aplicam ao caso. Na verdade, o que vemos no mundo é que os defensores de idéias são tão ou mais ferrenhos que os das coisas materiais. As guerras provém de idéias geradas pelos seres humanos adormecidos que comandam os povos, segundo Gurdjieff, após um momento astrológico de fricção entre dois corpos celestes.
O Arcano O Louco pode ser compreendido como um modelo com duas vertentes. Ou o intelecto pode ser sacrificado a serviço da consciência transcendental como fizeram Santa Tereza D’Ávila e São João da Cruz, onde ele era absorvido pela Presença Divina em seus arrebatamentos, ou pode ser abandonado simplesmente como fazem os dervixes giradores e monges Zen que experimentam uma parada do intelecto em suas práticas. Ainda nessa linha de abandonar, estão os monges budistas que praticam o Dzogchen, ou seja não se muda nada no mundo,  apenas deixa-se fluir e observa-se no Agora.
A fusão do intelecto com o espiritual é o matrimônio do Sol e da Lua do qual resulta o terceiro princípio, chamado na Alquimia de “pedra filosofal”, que simbolicamente transformava os metais em ouro.
Não há nada de errado com o intelecto, apenas ele deve ser conscientemente “sacrificado” à espiritualidade através da Meditação. Ele deixa de ser o condutor e orientador da vida e é silenciado no vazio, dando um espaço para que algo realmente transcendental desça. O Cristianismo Esotérico chama isso de A Graça. A Meditação é um meio de se despertar a Consciência como um todo para as revelações do alto e não apenas o Intelecto que é uma ferramenta inadequada para isso.
Sacrificar o Intelecto é uma espécie de morrer, o que deixa o ego muito incomodado, mas quem tenta isso com persistência e fluidez começa a perceber em instantes do dia-a-dia sentimentos sutis e fugidios que vem de algum lugar insondável, mas que dão ao praticante uma inefável e agradável certeza de que ele está no caminho certo.
Comece a sacrificar o intelecto para diminuir a bagagem, tentando ficar 30 segundos sem pensar em nada. Pauleira pura, companheiros de jornada...

domingo, 20 de maio de 2012

O Tao, por Lao Tsé

 Mea culpa. Fizemos mais de 100 publicações e falamos quase nada de Taoismo, só citações esparsas. Falha nossa. Lamentável. Estamos nos redimindo.
O Taoismo, uma das tradições mais vigorosas do planeta, nascido no extremo oriente, carrega no seu bojo conhecimentos milenares, práticas e simbolos valiosas para as pessoas que estao na busca interior. São conhecimentos como o Yin Yang, os oito trigramas,  o I Ching, os meridianos e a Acupuntura, o Tao te Ching, Tai Chi Chuan, Feng Shui, a Alquimia Interior, o Chi Kung (ou Qi Qong), e mais um bocado de coisas com som de sininho tocando, por aí afora...(rsrs).
Hoje vamos apresentar como introdução, a visão do grande mestre Lao Tsé (ou Lu-Tzu) sobre a natureza do Tao, num texto de autoria de um mestre desconhecido:

O mestre Lu-Tzu dizia: "O seu trabalho se tornará concentrado e maduro
. Gradualmente."
"O caminho do Tao não é o da iluminação repentina. Ele não é como o Zen. Zen é iluminação repentina, Tao é crescimento gradual. O Tao não acredita em mudanças repentinas e abruptas. O Tao acredita em respeitar o ritmo da existência, permitindo que as coisas aconteçam por elas mesmas, sem forçar o seu caminho, sem forçar o curso do rio. O Tao diz: não há necessidade de estar com pressa porque a eternidade está disponível para você. Plante as sementes no tempo certo e espere; a primavera virá; ela sempre vem. E quando a primavera vier, as flores aparecerão. Mas espere, não tenha pressa.
Não comece a puxar a árvore para cima, para que ela possa crescer mais rápido. Não tenha esse tipo de mente que pede para que tudo seja como café instantâneo. Aprenda a esperar, porque a natureza tem um movimento muito vagaroso. É devido a esse movimento vagaroso que existe graça na natureza. A natureza é muito feminina, ela se movimenta como uma mulher. Ela não corre nem fica apressada. Ela vai muito devagar, uma música silenciosa. Existe grande paciência na natureza e o Tao acredita no caminho da natureza. 'Tao' significa exatamente natureza. Assim o Tao nunca está com pressa; isto tem que ser entendido.

O ensinamento fundamental do Tao é: aprenda a ser paciente. Se você puder esperar infinitamente, a iluminação pode mesmo acontecer instantaneamente. Mas você não deve pedir para que ela aconteça instantaneamente: se você pedir, pode ser que nunca aconteça. O seu próprio pedido se tornará um obstáculo. O seu próprio desejo criará uma distância entre você e a natureza. Permaneça em sintonia com a natureza, deixe que a natureza tenha o seu próprio curso; e sempre que ela vem, ela é boa; sempre que ela vem, ela é rápida. Mesmo que ela demore séculos para chegar, ainda assim ela não está atrasada; ela nunca está atrasada. Ela sempre chega no momento certo.
O Tao acredita que tudo acontece quando é necessário; quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece. Quando o discípulo está finalmente pronto, o Tao aparece. O seu valor, o seu vazio, a sua receptividade, a sua passividade tornam isto possível; não a sua pressa, não a sua correria, não a sua atitude agressiva. Lembre-se: a verdade não pode ser conquistada. É preciso entregar-se à verdade, é preciso ser conquistado pela verdade.
Mas toda a nossa educação, em todos os países, ao longo dos séculos tem sido de agressividade e de ambição. Nós tornamos as pessoas muito rápidas. Nós as tornamos muito medrosas. Nós lhe dizemos: 'tempo é dinheiro e é muito precioso. Se o tempo for perdido uma vez, ele ficará perdido para sempre, por isso corra; tenha pressa.'
Isto tem levado as pessoas à loucura. Elas correm de um ponto a outro; elas nunca curtem lugar algum. Elas correm ao redor do mundo de um hotel intercontinental a outro hotel intercontinental. E eles são todos iguais, não há diferença, esteja você em Tóquio, em Mumbai, em Nova York ou em Paris. Esses hotéis intercontinental são todos iguais, e as pessoas continuam correndo de um para o outro, pensando que elas estão viajando através do mundo. Elas poderiam ter se hospedado em apenas um hotel intercontinental e não haveria necessidade de ir a nenhum outro mais. Todos eles são iguais. E elas pensam que estão indo a algum outro lugar. A rapidez está tornando as pessoas neuróticas.
 O Tao é o caminho da natureza, do jeito que as árvores crescem e os rios correm e os pássaros e as crianças... exatamente do mesmo jeito crescemos para o Tao.

Não tenha pressa e não se desespere. Se você fracassar hoje, não perca as esperanças. Se você fracassar hoje, isto é natural. Se você continuar fracassando por alguns dias, isto é natural.
 As pessoas têm tanto medo de fracassar que, devido a este medo, elas nunca arriscam fazer tentativas. Existem muitas pessoas que nunca se apaixonaram porque elas têm medo. Quem sabe? Elas podem ser rejeitadas, por isso elas decidiram permanecer sem amar, assim ninguém jamais as rejeitará. As pessoas têm tanto medo de fracassar que elas nunca tentam qualquer coisa nova. Quem sabe? Se elas fracassarem, o que poderá ocorrer?

E naturalmente, para se movimentar no mundo interior, você terá que fracassar muitas vezes, porque você nunca se movimentou ali antes. Toda a sua habilidade e eficiência têm sido nos movimentos externos, na extroversão. Você não sabe como se movimentar internamente. As pessoas escutam as palavras 'movimente-se internamente, vá para dentro', mas isso não faz muito sentido para elas. Tudo o que elas sabem é como ir para fora, é como ir para o outro. Elas não conhecem qualquer caminho de volta para si mesmas. Por causa dos seus velhos hábitos, é muito provável que você fracasse muitas vezes. Não perca as esperanças. A maturidade chega vagarosamente. É certo que ela chega, mas isto leva um tempo. E lembre-se: para cada pessoa ela chegará num ritmo diferente, por isso não compare, não comece a pensar: 'alguém está se tornando tão silencioso, e tão feliz, e eu ainda não alcancei isto. O que está acontecendo comigo?' Não se compare com quem quer que seja, porque cada um viveu de uma maneira diferente em suas vidas passadas. Mesmo nesta vida, as pessoas têm vivido diferentemente. Por exemplo, um poeta pode ter mais facilidade em ir para dentro que um cientista; seus treinamentos são diferentes. Todo o treinamento científico é para ser objetivo, para se preocupar com o objeto, para observar o objeto, para esquecer a subjetividade. Para ser um cientista é preciso colocar-se completamente ausente do seu experimento. Ele não pode estar envolvido no experimento, não pode haver qualquer envolvimento emocional. É preciso estar completamente desapegado, como um computador. Ele não deve ser um humano, de jeito algum. Só assim ele será um verdadeiro cientista e será bem sucedido na ciência.
Um poeta tem uma habilidade totalmente diferente, ele fica envolvido. Quando ele observa uma flor, ele começa a dançar ao redor dela. Ele participa, ele não é um observador desapegado. Um dançarino pode vivenciar isto ainda com mais facilidade porque ele e a sua dança são apenas um e a dança é tão interna que o dançarino pode movimentar-se em seu espaço interior mais facilmente. Então, nas velhas e misteriosas escolas de mistérios do mundo, a dança era um dos métodos secretos. A dança era o fenômeno mais religioso, mas ela perdeu o seu significado tão completamente que ela quase caiu na polaridade oposta. Ela tornou-se um fenômeno sexual; a dança perdeu a sua dimensão espiritual. Mas lembre-se, tudo o que é espiritual, se fracassar, pode se tornar sexual; e tudo o que é sexual, se elevar-se, pode se tornar espiritual. Espiritualidade e sexualidade são irmãs gêmeas. Um músico pode ter mais facilidade que um matemático para entrar na meditação. Vocês têm habilidades diferentes, mentes diferentes e condicionamentos diferentes.
Por exemplo, um cristão pode ter mais dificuldade para meditar que um budista, porque com vinte e cinco séculos de meditação constante, o budismo criou uma certa qualidade em seus seguidores. Assim, quando um budista vem a mim, ele pode entrar em meditação muito facilmente. Quando um cristão vem, a meditação lhe é muito estranha, porque o cristianismo esqueceu-se completamente da meditação; ele só conhece prece.
 A prece é um fenômeno totalmente diferente. Na prece, é necessário o outro; ela nunca pode ser independente. A prece é mais como o amor: ela é um diálogo. A meditação não é um diálogo; ela não é como o amor; ela é exatamente o oposto ao amor. Na meditação você fica totalmente só, nenhum lugar para ir, ninguém com quem se relacionar, nenhum diálogo, porque o outro não existe.Você é simplesmente você mesmo, totalmente você. Esta é uma abordagem completamente diferente.

Assim, tudo depende de suas habilidades, de sua mente, de seu condicionamento, de sua educação, da religião na qual você foi criado, dos livros que tem lido, das pessoas com as quais tem vivido, da vibração que criou dentro de si mesmo. Tudo dependerá de mil e uma coisas, mas é certo que ela chegará. Tudo que se precisa é paciência, trabalho silencioso, trabalho paciente e o centramento acontece e a maturidade chega. Na verdade, a pessoa madura e a pessoa centrada são apenas dois aspectos de um mesmo fenômeno. É por isto que a criança não consegue estar centrada, elas estão constantemente se movimentando, elas não conseguem ficar em um ponto, fixas. Tudo as atrai - um carro que passa, um pássaro que canta, o riso de alguém, o rádio do vizinho, uma borboleta voando - tudo, o mundo inteiro lhe atrai. Elas simplesmente pulam de uma coisa para outra. Elas não conseguem estar centradas, elas não conseguem viver com uma coisa tão totalmente que tudo o mais desapareça e se torne não-existencial.
Com a maturidade, o centramento surge. Maturidade e centramento são dois nomes para uma mesma coisa. Mas a primeira coisa a ser lembrada é que ela chega gradualmente. Não compare e não tenha pressa."