domingo, 27 de março de 2011

O mundo mágico tolteca de Don Juan e Castaneda

Don Juan, o índio yaqui mexicano, nagual e xamã, dizia que o “fato energético”, era o alicerce do conhecimento dos xamãs do México Antigo, e significava que “cada nuance do cosmo é uma expressão de energia”. Nós vemos as coisas no mundo, mas atrás delas, no Invisível, elas são energia. Tudo é energia. A partir do seu nível de xamãs, de onde “viam a energia diretamente como ela flui no Universo”, eles chegaram à conclusão (que é também um fato energético) de que o cosmo inteiro é composto de duas forças gêmeas que são ao mesmo tempo opostas e complementares entre elas. Eles chamavam essas duas forças de “energia animada e energia inanimada”. É o Ying e Yang do Taoismo.
Eles viram que a energia inanimada não tem consciência. Consciência, para os xamãs, é uma condição vibratória da energia animada. Don Juan dizia que os xamãs do México antigo foram “os primeiros a ver que todos os organismos da Terra são possuidores de energia vibratória”. Eles os chamavam de "seres orgânicos", e viram que os próprios organismos determinam o grau da força de coesão e os limites dessa energia. Eles também viram que existem conglomerados de energia vibratória, energia animada, que têm uma coesão própria, livres das amarras de um organismo. Eles os chamavam de "seres inorgânicos", e os descreviam como pedaços de energia com coesão própria,  que são invisíveis ao olho humano, "energias cônscias de si mesmas" e que possuem uma unidade determinada por uma força aglutinadora diferente da força aglutinadora de um organismo.
Os xamãs da linhagem de Don Juan viram que a condição essencial da energia animada, orgânica ou inorgânica, é "transformar a energia no universo como um todo, em dados sensoriais", ou seja, dados percebidos pelos 5 sentidos e depois transformadas em "informações úteis no mundo em que vivemos". Essa é a função dos seres orgânicos e inorgânicos. No caso de seres orgânicos, estes dados sensoriais “brutos” são então transformados em um sistema no qual “a energia como um todo é classificada”, e há um produto final designado e percebido, para cada classificação, qualquer que ela possa ser. Em resumo, o sistema transforma qualquer energia nova e impensável que chega do "mar escuro da consciência" para nós, em algo conhecido no nosso mundo rotineiro. Temos então uma “consciência de segunda mão”. Depois disso há ainda um filtro chamado “desnate” pelo qual eu elimino determinados aspectos de uma dada percepção, que então já chega a mim “interpretada”, graças ao filtro do aprendizado social, e fico com uma cópia barata e simplificada dela.
De acordo com a lógica dos xamãs, no caso de seres humanos, “o sistema de interpretação de dados sensoriais é o conhecimento deles sobre o mundo que os rodeia”. Eles sustentam que esse conhecimento humano pode ser temporariamente interrompido, já que ele é apenas um sistema classificatório no qual o produto final, ou “o que é o mundo” é gerado a partir da interpretação de dados sensoriais. Quando essa interrupção ocorre, os feiticeiros afirmam que “a energia pode ser percebida por nós diretamente enquanto flui no universo”, sem interpretação nenhuma. É um fato chocante que pode ser o êxtase que os místicos em busca da divindade experimentam. Os feiticeiros descrevem o ato de perceber a energia diretamente como um feito semelhante a “ver com os olhos”, embora estes estejam minimamente envolvidos no processo.
Perceber a energia diretamente permitiu aos feiticeiros da linhagem de Don Juan “ver” os seres humanos como “conglomerados de campos de energia que têm a aparência de bolas luminosas”. Esse é o “ver” dos feiticeiros videntes. Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas como dissemos nas postagens A Auto Importância e no Pássaro da Liberdade, quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que eles “são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras. O que os feiticeiros toltecas sabiam sobre os conceitos complexos da Consciência, Percepção e Atenção, as ciências atuais da Psicologia e Parapsicologia estão hoje apenas começando a arranhar”, com todo o respeito. Observar os seres humanos dessa maneira levou esses xamãs a conclusões energéticas extraordinárias. Eles notaram que “cada uma dessas bolas luminosas está individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo; uma massa que eles chamaram de o Mar Escuro da Consciência (ou A Águia)”. Eles observaram que cada bola individual está ligada ao mar escuro da consciência por um ponto que é ainda mais luminoso que a própria bola luminosa. Esses xamãs o chamaram de “ponto de aglutinação”, porque perceberam que “é neste local, fora do corpo, que a percepção é aglutinada, e acontece”. O fluxo de energia como um todo é transformado, nesse ponto, em dados sensoriais, e “esses dados são então interpretados e formam o mundo que chamamos de mundo, e que nos rodeia”.
Quando Castaneda pediu a Don Juan para explicar como esse processo de transformação do fluxo de energia em dados sensoriais ocorria, ele respondeu que a única coisa que os xamãs sabem a respeito disso é que a imensa massa de energia chamada mar escuro da consciência (ou A Águia) abastece os seres humanos com o que quer que lhes seja necessário para converter essa transformação de energia em dados sensoriais, e que tal processo não poderia jamais ser decifrado devido à imensidão da sua fonte original.
O que os xamãs do México antigo descobriram quando focalizaram seu “ver” no mar escuro da consciência foi a revelação de que “o cosmo inteiro é feito de filamentos luminosos que se estendem infinitamente”. Os xamãs os descrevem como "filamentos luminosos que vão em todas as direções sem jamais tocar uns nos outros". Eles viram que existem filamentos individuais, e que, ao mesmo tempo, esses filamentos se agrupam em massas inconcebivelmente colossais.
Outra dessas massas de filamentos, além do mar escuro da consciência que os xamãs observaram e apreciaram por causa de sua vibração, era algo que eles chamaram “Intento”. E chamaram de “intentar” o ato de xamãs individuais focalizarem sua atenção nessa massa. Eles viram que “o universo inteiro era um universo de intento, e intento, para eles, era o equivalente a Inteligência”. Uma outra forma de chamar a Consciência.
O universo, portanto, era para eles um universo de suprema inteligência. A conclusão, que se tornou parte do mundo de conhecimento deles, foi que a energia vibratória, consciente de si própria, era inteligente ao extremo. Eles viram que a massa de intento no cosmo era responsável por todas as mutações possíveis, todo tipo de variações que aconteciam no universo, “não por causa de circunstâncias cegas e arbitrárias, mas por causa do intentar feito pela energia vibratória, no nível do próprio fluxo de energia”.
Don Juan salientou que no mundo da vida cotidiana que vivemos, "os seres humanos realizam intento e intentar, através da maneira pela qual eles interpretam o mundo". Don Juan, por exemplo, alertou Castaneda para o fato que “meu mundo cotidiano não era regido pela minha percepção, mas pela interpretação da minha percepção”. Ele deu como exemplo o conceito corriqueiro de "universidade", que àquela época era um conceito de suprema importância para Castaneda. Ele disse a ele  que universidade não era algo que se podia perceber com os sentidos, porque nem minha visão, nem a audição, nem o paladar, nem os sentidos táteis ou olfativos forneciam alguma pista sobre universidade. "Universidade acontecia, e fazia sentido somente no meu intentar", e para que eu pudesse construí-la ali, precisava de tudo que sabia pelo aprendizado social como uma pessoa civilizada, de uma forma consciente ou subliminar.
O fato energético de o universo ser composto de filamentos luminosos deu origem à conclusão dos xamãs de que "cada um desses filamentos que se estendem infinitamente é um campo de energia". Eles observaram que os filamentos luminosos, ou melhor dizendo, os campos de energia de tal natureza, convergiam e passavam através do ponto de aglutinação. Já que o tamanho do ponto de aglutinação no ser humano foi determinado como sendo o equivalente a uma bola de tênis moderna, somente um número finito de campos de energia, mas ainda assim numa quantidade incalculável, convergiam e passavam através daquele ponto.
Quando os feiticeiros do México antigo viram o ponto de aglutinação, descobriram o fato energético de que “o impacto dos campos de energia que passavam através do ponto de aglutinação era transformado em dados sensoriais”; dados que eram então interpretados e transformados no mundo da vida cotidiana que vemos. Estes xamãs atribuíram a homogeneidade do conhecimento entre os seres humanos ao fato de que "o ponto de aglutinação de toda a raça humana está localizado no mesmo lugar nas respectivas esferas luminosas energéticas que nós somos: na altura das omoplatas, à distância de um braço por trás delas, nos limites da bola luminosa."
Suas observações sobre ver o ponto de aglutinação levaram os feiticeiros do México antigo a descobrirem que "o ponto de aglutinação mudava de posição sob condições de sono normal ou extrema fadiga, doença ou ingestão de plantas psicotrópicas". Esses feiticeiros viram que "quando o ponto de aglutinação estava numa nova posição, um feixe diferente de campos de energia passava através dele, forçando o ponto de aglomeração a transformar estes campos de energia em dados sensoriais e interpretá-los, trazendo como resultado um outro mundo novo e real para se perceber, mundo esse diferente do que usualmente conhecemos". Esses xamãs afirmavam que cada novo mundo que surgia dessa maneira era um mundo totalmente inclusivo, real e abrangente, diferente do mundo da vida cotidiana, mas absolutamente similar a ele no fato de que “se podia viver, ter filhos, e morrer nele”.
Para xamãs como Don Juan Matus, "o exercício mais importante de intentar, resulta no movimento voluntário do ponto de aglutinação", para que ele atinja áreas predeterminadas no conglomerado total de campos de energia que compõem um ser humano. Isso significa que depois de milhares de anos de investigação, os feiticeiros da linhagem de Don Juan descobriram que existem posições-chave no interior da bola luminosa total que é o ser humano, onde o ponto de aglutinação pode estar localizado e onde o bombardeio resultante dos campos de energia sobre  o ponto pode produzir um mundo totalmente novo e real.
Don Juan me assegurou que "isso é um fato energético e que a possibilidade de viajar para qualquer um desses mundos, ou para todos eles, é a herança de todos os seres humanos". Ele disse que "estes mundos estão lá à vontade, da mesma forma que as questões às vezes estão pedindo para serem perguntadas, e que tudo o que um feiticeiro ou um ser humano precisa para chegar até esses mundos é intentar o movimento do ponto de aglutinação".
Outro item relacionado ao intento, mas transposto para o nível do intentar universal, era, para os xamãs do México antigo, o fato energético de que estamos sendo continuamente puxados, empurrados e testados pelo próprio universo. Para eles era um fato energético que "o universo em geral é predatório ao máximo, mas não predatório no sentido em que entendemos esse termo: o ato de saquear ou roubar, agredir ou explorar os outros em benefício próprio. Para os xamãs do México antigo, a condição predatória do universo significava que “o intentar do universo é estar continuamente testando a consciência”. Eles viram que "o universo cria quantidades incalculáveis de seres orgânicos e de seres inorgânicos". Exercendo pressão sobre todos esses seres, o universo os força a expandir a própria consciência deles, e dessa forma "o universo se esforça para se tornar mais consciente de si próprio". No mundo cognitivo dos xamãs, portanto, “a consciência é o resultado final”.
Don Juan Matus e os xamãs de sua linhagem consideram consciência como “o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem”, não apenas as possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros. Don Juan sustentava que liberar a capacidade perceptiva total dos seres humanos não interferiria de nenhuma forma em seu comportamento funcional. Na verdade, o comportamento funcional poderia se tornar um resultado extraordinário, porque iria adquirir um novo valor. A função, o propósito, nessas circunstâncias, se torna uma necessidade das mais prementes. Livre das idealidades e das falsas metas, o homem só tem a função como sua força guia. Os xamãs chamam isso de “impecabilidade”. Para eles, ser impecável significa “dar o seu melhor, e mais um pouco, mas sempre economizando energia”. Eles então obtinham a função ao "ver a energia diretamente, conforme ela flui do universo". Se a energia flui de uma certa maneira, seguir o fluxo da energia é, para eles, ser funcional, pragmático. Função é, portanto, o denominador comum através do qual os xamãs encaram os fatos energéticos de seu mundo de conhecimento.
O exercício de todas as unidades de conhecimento dos feiticeiros permitia a Don Juan e a todos os xamãs de sua linhagem chegarem a conclusões energéticas estranhas que, à primeira vista, pareciam fazer sentido apenas a eles e às suas circunstâncias pessoais, mas que, se examinadas com cuidado, podiam ser aplicadas a qualquer um de nós. De acordo com Don Juan, a culminação da busca dos xamãs é algo que ele considerava como sendo o fato energético supremo, não apenas para os feiticeiros, mas para todos os seres humanos da Terra. Ele o chamava de “jornada definitiva”.
"A jornada definitiva é a possibilidade que a consciência individual, ampliada ao seu limite máximo pela adesão do indivíduo ao mundo de conhecimento dos xamãs, poderia ser sustentada além do ponto no qual o organismo é capaz de funcionar como uma unidade coesiva, o que quer dizer “além da morte”". Essa consciência transcendental era compreendida pelos xamãs do México antigo como sendo a possibilidade de que a consciência dos seres humanos ultrapassasse tudo que é conhecido, e chegasse, dessa forma, ao nível de energia que flui no universo. Xamãs como Don Juan Matus definiam sua busca como “a busca de se tomar, no final, um ser inorgânico”, significando que "essa energia cônscia de si mesma continuava após a morte, atuando como uma unidade viva, mas sem um organismo, um corpo como o conhecemos". Eles chamavam esse aspecto da cognição deles de liberdade total, um estado no qual a consciência existe livre das imposições de socialização e sintaxe".

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