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domingo, 21 de outubro de 2012

A Atenção e as Duas Naturezas

Dr. Conge - um raro buscador
Na página  "Quem escreve? Porque?" deste blog, contei que no passado participei de um Grupo em Sampa, que de 1970 a 1984 foi orientado  pelo Dr. Michel Conge na França, ele discípulo de Gurdjieff. Um período de ouro. 
Michel Conge nasceu em Pau, sudoeste da França em 1912. Cedo decidiu devotar-se à “procura do real atrás das aparências”. Sua questão levou-o primeiramente à medicina. Enquanto trabalhava como médico-biólogo no Instituto Pasteur em Paris encontrou o escritor René Daumal que o introduziu a Jeanne de Salzmann. Ela logo o convidou a se juntar a G.I.Gurdjieff. Iniciando em 1948, encorajado por Gurdjieff e Madame de Salzmann, Conge reuniu à sua volta e de sua esposa, Gilles, um núcleo de homens e mulheres cuja busca ele acompanhou e dirigiu até sua morte em 1984.
A palestra abaixo foi dada por Michel Conge em Santiago do Chile em 06 de agosto de 1966. Extraída de “Record of a Search –Working with Michel Conge in France” de Ricardo Guillon. 
A forma do texto é corriqueira, mas não se enganem, é profunda e exige uma leitura com atenção e às vezes com intervalos a fim de metabolizar cada frase. Aliás ela fala de nada mais que A Atenção (rsrs).
Vamos à palestra do Dr. Conge (como ele era conhecido):

"Eu não pretendo dar uma palestra formal, mas prefiro olhar de perto certas idéias que pertencem ao ensinamento de Gurdjieff. Então eu falarei especialmente àqueles que têm procurado por vários anos ou por vários meses e, tendo se familiarizado com estas idéias, sentem sua verdade. Por exemplo, se eu falar a respeito de liberdade ou liberação, é óbvio que pensa que é livre, consciente, tem vontade e pode fazer qualquer coisa que ela queira na vida.
Apenas aquele ser ao qual a vida mostrou o status de dependência dele e que compreendeu que as coisas são feitas através dele – e não por ele – pode realmente querer tornar-se livre e alcançar a Consciência.
Este ensinamento abrange ideias que são muito desagradáveis de ouvir – por exemplo, que nós somos mecânicos. Esta é uma pílula amarga ao nosso amor-próprio, embora seja verdade, e é relativamente fàcil acatar uma ideia assim: nosso ser pode ser comparado a uma mansão com quatro andares, mas nós ocupamos apenas o porão, um lugar escuro no qual somos mantidos prisioneiros, quando há coisas muito importantes nos outros níveis. Inicialmente pode-se pensar que há algo depressivo nesta ideia  Entretanto, se eu estou querendo olhar a minha vida e todos os fracassos que eu experimentei, posso reconhecer que esta perspectiva explica muitas coisas e, no final, oferece grande esperança: eu percebo que se eu pudesse ocupar todos os cômodos da minha mansão, minha vida mudaria. Da mesma forma, quando nos é dito “Eu não sou o que eu sou”, há nisto um convite à totalidade, que me dá coragem.
Meu desejo esta noite é que nós possamos vir a sentir que uma visão ampla da natureza humana é necessária para um trabalho real sobre Si Mesmo.
Se nós falamos em liberação, questões logo surgirão do tipo ‘por que’ da minha escravidão e de ‘como’ da minha liberação.
A fim de nos ajudar a alcançar uma visão ampla, todos ensinamentos oferecem a ideia de escada, embora ela não seja sempre facilmente reconhecida nos textos antigos, os quais são freqüentemente incompletos ou distorcidos pelos copistas. A constituição dos seres humanos não é plana, mas consiste de níveis, andares. O ser humano não corresponde a apenas um nível do universo, mas a muitos. É algumas vezes dito neste ensinamento que um ser humano completo, desenvolvido, de verdade, tem sua cabeça ao nível das estrelas e seus pés na terra, e isto sugere não apenas um símbolo, mas uma verdadeira escada, indicando uma direção, um reto caminho.
Nós precisamos compreender que as duas naturezas do homem estão inscritas nesta escada: na parte superior da escada, a natureza mais alta; na parte inferior, a natureza ordinária na qual nós vivemos todo o tempo e na qual o centro de gravidade de nossa existência inteira se encontra.
Entre estes dois níveis há um intervalo, um espaço que não pode ser ligado. Muitos textos antigos falam deste intervalo; por exemplo, no Velho Testamento, o esforço entre Jacó e o Anjo que tem lugar precisamente no meio de um rio, num banco de areia. É válido considerar todos os elementos da estória: no banco mais alto, o irmão mais velho e, no banco mais baixo, o irmão mais novo que vem com toda sua família, suas cabeças de gado, suas riquezas, e vem com medo. E o esforço, no qual uma nova força aparece na forma de um Anjo, um mensageiro de Deus – a terceira força (Gênesis 32 a 38, creio).
Consciência e vontade, que são realidades pré-existentes, pertencem à natureza mais alta. Todas as manifestações ilusórias – mentira, imaginação, mecanicidade – correspondem à natureza mais baixa, que recebe apenas pálidos raios de consciência filtrados pelo intervalo.
Nós encontramos no Evangelho – na parábola de Cristo no poço do qual a mulher samaritana vem pegar água – esta ideia de que a fonte da vida reside em uma natureza mais profunda. Intervalo, poço, rio - todas imagens simbólicas que fazem-nos compreender que a água da vida deve ser procurada além de onde esperamos encontrá-la (João 4:12-14 19-21, creio.).
Ao preparar esta conversa, eu me recordei de uma estória Zen da antiga China, a qual é válido contar pelo fato de ser muito simples e clara. Um discípulo veio ao seu mestre com a seguinte questão: “Eu gostaria de compreender a natureza humana”. A resposta do mestre foi pegar uma pá, cortar uma minhoca em dois pedaços em um único golpe e justapor as partes tentando, em vão, reuni-las.
Este é exatamente nosso problema: como religar as duas naturezas que constituem nosso ser?
Para conseguir isto, nós devemos absolutamente ter acesso ao conhecimento daqueles que, através dos tempos, tornaram-se conscientes, aqueles que conseguiram esta união e procuraram transmitir todo seu verdadeiro conhecimento – conhecimento que não pertence ao nível da vida ordinária e não pode ser encontrado em universidades.
Este conhecimento diz-nos que a natureza mais alta procura unir-se à natureza mais baixa. Mas como nós somos agora, esta natureza mais alta não pode mais ser encarnada em nós, devido ao intervalo intransponível. A natureza mais baixa também tenta unir-se à natureza mais alta, mas, ao final, perde-se em tentativas que cegamente movem-se em círculos.
Nenhuma natureza é capaz de se unir com a outra, pois um elemento conector de uma densidade, vitalidade ou qualidade de vibração intermediária falta entre ambas.
Quando chegamos a este ponto, se não recebemos a ajuda do conhecimento objetivo e toda a informação prática e teórica oferecida pelo ensinamento, nós estamos perdidos. Para resolver este problema, necessitamos acesso a uma ciência, a ciência do ser, e devemos pedir, e aprender como pedir, esta ciência.
Na verdade, deixados por nós mesmos, podemos tentar resolver o enigma intelectualmente. Mas mesmo se nós chamarmos nossa qualidade de pensamento mais inteligente, não podemos encontrar nosso caminho a esta união, embora o pensamento seja um instrumento que deve eventualmente ser útil. Ou podemos chamar nosso sentimento, mas igualmente será falho. O mesmo é verdade se nós acreditamos que podemos encontrar a chave do problema no corpo, no instinto. As funções são instrumentos, mas o segredo será encontrado numa qualidade inteiramente diferente. Ela é encontrada na Atenção, esta substância viva tão pouco e pobremente compreendida, embora cada um de nós tenha acesso a ela. Eu posso sempre estar atento.
E a ideia fundamental é: Eu sou a Atenção. Onde minha atenção está, lá eu estou. Se minha atenção é fraca, eu sou fraco; se ela é mecânica, eu sou mecânico; se ela é livre, eu sou livre.
É claro que alguém pode também dizer “Eu sou consciência”; mas isto não é verdade para mim hoje. Será apenas verdade quando minhas duas naturezas tiverem, finalmente, se unido. Então a consciência viverá no meu ser inteiro e eu saberei que eu sou consciência e a consciência sou eu.
Devemos então retornar à atenção e compreender que da mesma forma que eu sou um ser dividido em dois, a atenção em mim é, também, dividida em duas. Há uma atenção mais alta, escondida, inacessível, sobre a qual eu não tenho mais poder do que sobre minha consciência. É, deste modo, inútil tentar qualquer coisa em relação a esta atenção, que é livre, pura, não engajada, una.
E há uma atenção que corresponde à minha natureza mais baixa, mas esta atenção encontra-se ‘caída’ e fragmentada, dividida em correntes divergentes. Eu posso conhecer esta atenção muito melhor do que eu a conheço hoje. Posso reconhecer a mim mesmo nela e, graças a isto, encontrar a mim mesmo (lembrar de mim mesmo). Isto penetra nas minhas funções, que são seus canais ‘obrigatórios’. E agora eu começo a compreender por que é dito que o autoconhecimento é, ou começa, com o conhecimento da máquina. Esta máquina, meu corpo, minha psique, foram-me dados de modo que eu possa tentar reconhecer a mim mesmo enquanto ‘atenção’, e estas três correntes de atenção podem se agrupar neste nível mais baixo.
Eu devo compreender que nesta natureza mais baixa cada corrente de atenção pode aparecer em graus de intensidade diferentes. Eu preciso aprender que a atenção pode se manifestar de maneiras completamente instáveis e errantes. Por exemplo, no meu funcionamento intelectual a atenção errante deixa a si mesmo ser varrida por tudo que a atrai; palavras, imagens, lembranças e cada evento no meu dia podem varrê-la, cada um de seu próprio jeito. Eu saio à rua; as vitrines, as pessoas constantemente tomam esta atenção. Ela não tem maior estabilidade do que uma borboleta. Saia para andar com a intenção de pensar a respeito de seus próprios assuntos. Um cachorro late para você e toma toda sua atenção. Este cachorro é mais forte do que você. Tanto melhor para a força deste homem, que pensou que era consciente, pensou que era mestre de sua própria vontade. E o que ocupa lugar no intelecto também ocupa nas funções emocionais e motoras.
Às vezes, quando um problema ou grande dificuldade surge, minha atenção pode ser concentrada, condensada; sua qualidade muda, ela adquire mais força, é sustentada por um elemento de desejo ou interesse. Não mais errática, ela é capturada: um motivo especialmente forte a tomou.
Há, entretanto, uma espécie de atenção muito diferente, uma atenção que é mais consciente, mais voluntária. Algumas vezes, em ocasiões raras, eu descubro o gosto dela.
Se isto ocorre no meu pensamento, eu vejo que meu pensamento se torna claro. E se isto ocorre no meu sentimento, eu conheço o sentimento de ser completamente livre das minhas emoções habituais. Em relação ao meu corpo, posso também experimentar de uma maneira nova o que está acontecendo ao seu nível.
O que é importante é aprender que cada um destes graus ou qualidades de atenção corresponde a um dos três níveis dos meus centros, pois cada centro consiste de três níveis:

  • um nível motor ou mecânico,
  • um nível emocional,
  • um nível intelectual.

O conhecimento da correspondência entre cada gosto específico de atenção e cada um destes níveis é um enorme segredo. Se eu aprender a reconhecer e ver isto, o caminho na direção da unificação ou reunificação da atenção se torna aparente. Mas eu tenho que compreender que estes três caminhos devem ser experimentados simultaneamente. Para praticar, é bom trabalhar primeiro em um centro, depois em outro. Entretanto, no nível da minha natureza ordinária, o retorno à atenção reunificada é possível apenas quando os três centros essenciais da minha natureza mais baixa se encontrarem, ou seja, quando estiverem nos seus níveis mais altos. Apenas neste momento a atenção efetivamente adquire uma nova característica: ela se transforma em atenção verdadeiramente voluntária, atenção consciente. Eu não estou dizendo que isto é consciência ou vontade, mas seu caráter consciente e voluntário ajuda-me a compreender que há algo agora nesta atenção regenerada que pode corresponder às propriedades da natureza mais alta.
Mesmo assim, esta união não é, ainda, possível. Entretanto, eu prossigo vivendo minha vida e compreendo que, graças ao esforço de desengajamento, todos estes esforços ao nível de cada função permitem que a atenção adquira propriedades que estavam faltando antes. E eu compreendo ambos, a razão para este nascimento no corpo e o significado do esforço de retornar à origem.
Ao nível do centro intelectual, a atenção adquire um poder de visão. É como uma luz que sustenta tudo no seu campo de iluminação.
Ao nível do centro emocional, a atenção adquire um calor que estava faltando, graças ao qual o esforço pode ser sustentado por um momento sem enfraquecer.
Ao nível do corpo, a atenção é sustentada por um novo fenômeno, que leva muitos anos para compreender bem: uma sensação de Si Mesmo, uma sensação que não é nem agradável nem desagradável. Eu sei que eu estou aqui
  • por esta visão,
  • por este sentimento,
  • por esta sensação,
e estes são os sinais que antecedem a descida da Consciência e Vontade.
Mas isto ainda não é suficiente. Se for verdade que, graças à sensação, a atenção se beneficia de um suporte sólido que evita que ela vagueie, e se, devido a este novo sentimento e clareza, a atenção pode evitar o estado cativo, eu ainda preciso me familiarizar melhor com fontes adicionais de ajuda. E eu as encontrarei na descoberta das impressões conscientes de Mim Mesmo.
Eu estou realmente dizendo conscientes, impressões intencionais de mim mesmo, do que vive no meu ser. Eu sei tudo sobre impressões, eu as recebo todo o tempo – impressões não intencionais, mecânicas, oriundas do ambiente. Cada coisa, cada pessoa que eu vejo, a temperatura desta sala, toda a comida que eu como – tudo isto causa impressões. Mas se é verdade que estas impressões permitem-me viver, e se é verdade que eu poderia morrer neste mesmo instante se eu parasse de recebê-las, é também verdade que estas impressões lentamente me destroem. Elas capturam minha força de atenção, elas me empurram à reação.
Qual é o significado de impressões conscientes e intencionais de si mesmo?
É, em primeiro lugar, a impressão de mim mesmo recebendo as impressões mecânicas da vida, o impacto da vida, e devo fazer o esforço para experimentar isto freqüentemente. Aqui minha atenção encontra um suporte de modo a não se perder.
Mas eu devo descobrir impressões mais profundas – não ainda as impressões reais e diretas da minha natureza mais alta, mas, de preferência, das partes mais altas dos centros mais baixos.
E, finalmente, uma terceira espécie de impressão – de mim mesmo conhecendo a impressão desta vida profunda e, ao mesmo tempo, recebendo as impressões mecânicas da vida.
Isto ilumina o conceito bem conhecido do Bhagavad Gita – o campo de ação, o conhecedor do campo e aquele que conhece, ao mesmo tempo, o campo e o conhecedor do campo. É exatamente a mesma coisa.
Muito mais poderia ser dito sobre a questão da atenção. Por exemplo, a ideia da mudança de sinais, baseado no conceito de relatividade. O nível mais baixo de cada centro deveria ser passivo e, em relação a ele, o nível mais alto deveria ser ativo. Isto seria normal. Mas no meu modo habitual de ver precisamente o oposto ocorre. Se nós retornarmos à ideia de duas naturezas, a natureza mais alta deveria ser ativa, no comando, e a natureza mais baixa deveria ser passiva, a serviço. Na verdade a natureza mais alta permanece passiva e a agitada natureza mais baixa roga, para si, o papel ativo; e isto porque não há nada que as reconcilie.
É o mesmo em cada um dos meus centros. Mas eu posso compreender que quando eu tento libertar minha atenção, ela aparenta ser ativa (eu aparento ser ativo) em relação ao mecanismo que se torna passivo. Progressivamente, eu vejo a permutação de sinais revelada.
Finalmente, se os níveis mais altos dos centros de tornarem ativos, um grande evento pode acontecer: toda esta natureza, agora unificada e ordenada, pode começar a servir à natureza mais alta. A ordem de sinais é revertida.
Melhor ainda, como eu liberto a mim mesmo das funções e como minha atenção, carregada com novo poder, reveste cada uma das funções, eu descubro que uma nova estrutura está, gradualmente, tomando forma, permeada de qualidades de pensamento, sentimento e sensação que eu não conhecia anteriormente. Esta estrutura – um novo corpo se formando, condensando, organizando – é o elemento intermediário anteriormente perdido capaz de unir as naturezas alta e baixa.
A partir daquele momento, pode-se falar em Vigilância, quer dizer, uma capacidade de viver um esforço de tal modo que o sinal não mais reverta e a ligação verdadeiramente ocorra.
Tudo isto eu devo, agora, tentar viver e carregar na intimidade do meu coração, protegendo-o contra todas as coisas que possam destruí-lo."

domingo, 29 de maio de 2011

O Ser e o Caminho de Volta

O Ser
Tenho pensado muito sobre esse mistério de “ser”. Ele está aparente quando a gente lê as tradições autênticas, como por exemplo,  o livro "A Tábua de Esmeralda” de Hermes Trismegistos e outros, mas ele também me ocorre em momentos os mais corriqueiros do dia, como no trânsito, no banco...naquela hora em que surge uma quase-pergunta, tão sutil que se desfaz ao menor estímulo em torno da gente, como na hora em que chega a nossa vez no caixa. É uma questão do tipo “quem sou eu?”, ou “o que eu estou fazendo nessa fila, neste país, neste planeta?”, "qual é a minha missão?" O Chico Anísio fez uma música meio surrealista em que, cantando,no meio dela perguntava num dado momento, meio entre parênteses: “o que que eu estou fazendo nesse disco?”. Lembra?
O que faz algo ou alguém “ser”? Seja um ser humano, um vírus, uma pedra... Está aí o mistério. Eu só pressinto a resposta, mas nada me impede de ter idéias a respeito, já que aprendi tanta coisa na vida. O Millôr dizia; “Livre pensar, é só pensar...” Ué.
Então me ocorre:
Não sabemos  a razão pela qual o Universo existe. Só supomos. As tradições antigas dizem porém que na sua manifestação ele é regido por duas leis. A primeira “A lei de 3”, que criou o Universo, é a trindade, nascida do Absoluto que é o nível 1. Ele é o presidente de tudo, mas é discretíssimo, não aparece para ninguém. A trindade logo abaixo dele faz o papel executivo (produção do universo, delivery e controle de qualidade).  Após a criação entra em cena a segunda lei, chamada “A lei de 7” que passa então a reger o seu desenvolvimento, a sua fenomenologia, como dizem os filósofos e intelectuais de plantão do ramo. Falaremos dessas duas leis primordiais em breve neste blog. O Universo mostra a “lei de 7” todo o tempo para nós, mas poucos a vêem. Ela está na luz, na música, na física, na química...
Independente do jeito que o Universo nasceu, seja um Big Bang, ou um caminho mais light,  silencioso, contínuo e comportado, parece que existe um processo, sim. Tudo nasce, cresce, definha e morre, mas há um conjunto do qual fazemos parte, a Humanidade, o Universo, que continua por muito mais tempo. É... às vezes eu pressinto que eu vim de há muito tempo evoluindo. Já fui uma pedra, um vírus,  lagartixa, texugo, e talvez muitas versões de ser humano, nesses 14 bilhões de anos deste Universo, e outros tantos atrás dele. O Budismo tibetano diz que Buda levou 3 “aéons” para se iluminar desde o início. Note que um “aéon” é o tempo de vida de um universo inteiro desde o nascimento até a morte. É tempo que não acaba mais, cumpadre...
Os ciclos de todos os fenômenos do Universo são sempre 7. Se pensarmos nos 7 níveis do Raio de Criação desde os mais rarefeitos energeticamente aos mais densos ( Absoluto, Todos os Universos, Todas as estrelas, O Sol, Todos os planetas, A Terra, A Lua) fica razoavelmente claro que estamos numa viagem de evolução desde as energias mais finas até as mais densas, para conhecer o leque da coisa toda. Eu, ou o meu espírito, saí da “casa do pai” e sem esforço nenhum da minha parte, estou fazendo automaticamente um caminho até o mundo mais denso. E cheguei aqui em Sampa. Foi uma Grande Descida. O espírito por trás de cada Ser, porém, não aprecia a falta de liberdade dos mundos de materialidade densa, sujeitos a cada vez mais leis limitadoras. Ele quer escapulir. Mas por uma lei incompreensível a nós, tem que ser assim. Temos que “passar por”. Dizem que fomos nós mesmos que escolhemos. E sempre esquecemos disso a cada vez que nascemos, seja em que mundo for...

O Caminho de Volta
E o que fazer para voltar “à casa do pai” de onde saímos? Para voltar aos mundos de materialidade fina que o Espírito tanto aprecia, e que são a sua casa? Agora a história é outra: só é possível essa volta com grandes esforços individuais. É a Grande Subida. Não tem mais a moleza do piloto automático. Ninguém vai ajudar nessa tarefa, muito pelo contrário. A Natureza, que aliás somos nós mesmos, foi formatada com barreiras e filtros que só permitem a evolução para aqueles que agora fizerem grandes esforços conscientes. Por que? Porque a Grande Consciência precisa disso, de gente evoluindo. Ela cria obstáculos quase intransponíveis para os buscadores porque conhece a nossa preguiça desde outros carnavais, mas premia os dedicados e teimosos. Nós somos Ela. Quem não fizer esforço, parece que volta ao pó. Parece. Gurdjieff dizia que a evolução é um trabalho contra a Natureza, contra Deus. Estamos bem, em termos de adversário, hein? Fora o fato de estarmos na borda de uma galáxia pequena e longe da Luz do centro, num sistema orbitando um Sol pequeno, num planeta minúsculo e, para complicar, jogando contra a equipe do Chefe! Uma tremenda zebra...
E agora, o que fazer para sair da mecanicidade e conscientemente fazer esse super esforço para evoluir?
É trabalhar duro. Mas não é por falta de tradição genuína que morreremos pagãos neste planeta. Em cada continente tem pelo menos umas quatro ou cinco tradições ainda vivas (mais ou menos vivas, né?), e a partir da nossa cultura específica não teremos dificuldades em abraçar uma tradição que nos seja familiar, com uma linguagem e formato compatível com o nosso DNA espiritual de busca interior. Mas não podemos nos iludir. Vai ser dureza desde o início. Depois melhora porque começamos a gostar. Mas nunca será fácil. A cada degrau o desafio do buscador aumenta, mas nada que não possamos enfrentar. A gente é que é auto-condescendente...
Precisamos de 3 coisas; lucidez, desapego e vontade. Elas correspondem aos nossos 3 centros de funcionamento: mental, emocional e físico. Em outras palavras, silêncio no mental, calma no emocional, e relaxamento no físico, mas é ao-mesmo-tempo!. Isso é o que as tradições chamam de “lembrança de si” e você só consegue se estiver firmemente ancorado na sensação do seu corpo, atento e recebendo conscientemente as impressões mentais (pensamentos), emocionais (emoções, sentimentos) e físicas (sensações). Essa geometria interior corresponde ao que as tradições do Quarto Caminho (ou caminho do Homem Esperto) chamam de “a pílula”, que abrevia o percurso.  Há três grandes caminhos para se trabalhar na busca interior: o da disciplina do Físico, chamado de o caminho do faquir, o do Emocional, chamado de o caminho do monge, e o do Mental, chamado de o caminho do yogui. Mas nossa vida é muito curta para fazê-los um após o outro. O Quarto Caminho junta os três simultaneamente. O pano de fundo, que é a condição por trás de todo o “esforço”, é essa “lembrança de Si Mesmo” (Self). Só quando estamos atentos, ocupando os nossos 3 corpos, começando pelo físico, estamos de fato evoluindo. Esse é “O” segredo, escondido onde menos se espera. Na simplicidade.
Quem administra essa tríade desconectada e rebelde deve ser você, a partir da orientação do mestre, guru, ou orientador. Isso tudo tem um nome simples que está na moda até mesmo entre as socialites: Contemplação, ou Meditação. Você começa fazendo a prática aos poucos, na calma em casa, mas o objetivo final é passar a fazer na vida, no trânsito, na fila do supermercado, discutindo com o outro, ouvindo música, lendo, namorando, dormindo, sonhando. É isso mesmo, dormindo, sonhando. Mas sonhos lúcidos, porque não viemos aqui para “apagar” 8 horas por dia. Tem trabalho à noite também. Há uma “yoga do
sonho e do sono ”. O livro, do mestre Tenzin Wangyal Rinpoche, anda por aí...
O budismo tibetano ensina que para se chegar à compreensão final, ou iluminação, é preciso além de um discípulo aplicado, um mestre genuíno, dentro de uma corrente de tradição genuína. Em resumo, essa é A Volta.  Você vê? É simples. Mais fácil do que você pensava... (rsrs)