A menos que você acesse a frequência consciente da Presença, todos os relacionamentos, principalmente os mais íntimos, vão apresentar defeitos profundos. Durante um tempo eles podem dar a impressão de serem perfeitos, como quando estamos apaixonados, mas, invariavelmente, essa perfeição aparente acaba destruída por discussões, conflitos, insatisfações e até mesmo por violência física e emocional, que passa a acontecer com uma frequência cada vez maior. Parece que a maioria dos "relacionamentos amorosos" não leva muito tempo para se transformar numa relação de amor e ódio.
O amor pode se transformar em agressões furiosas, em sentimentos de hostilidade, ou num piscar de olhos, em um completo recuo da afeição. Isso é visto como normal. Os relacionamentos oscilam, então, por um tempo, por alguns meses ou anos, entre as polaridades de 'amor' e ódio, e nos trazem muito prazer e muita dor. Não é pouco comum que os casais se tornem viciados nesses ciclos. Este tipo de drama nos faz sentir vivos. Quando o equilíbrio entre as polaridades negativa e positiva é desfeito e os ciclos negativos e destrutivos acontecem com frequência e intensidade crescentes, não demora muito para o relacionamento acabar.
Pode parecer que tudo se resolveria se conseguíssemos eliminar os ciclos negativos e destrutivos, permitindo que o relacionamento florescesse sem problemas, mas isso não é possível. As polaridades são mutuamente interdependentes. Não podemos ter uma sem a outra. A positiva já contém dentro de si a negativa não manifestada. Ambas são, na verdade, aspectos diferentes de um mesmo sistema defeituoso. Estou tratando aqui dos chamados relacionamentos românticos, não do verdadeiro amor, que não possui opositores porque nasce além da mente. O amor como um estado permanente ainda é raro de encontrar, tão raro quanto a consciência nos seres humanos. Entretanto é possível haver lampejos breves e ilusórios de amor, sempre que existir um espaço nos fluxo da mente.
O lado negativo de um relacionamento é mais facilmente reconhecido como um defeito ou anormalidade do que o positivo. E é muito mais fácil reconhecer a fonte da negatividade no parceiro do que vê-la em nós mesmos. Ela pode se manifestar de várias formas, tais como possessividade, ciúme, controle, ressentimento, insensibilidade e egocentrismo, cobranças emocionais e manipulação, raiva e violência física, necessidade de ter sempre razão, de discutir, criticar, julgar, culpar, agredir, irritar, ou se vingar, inconscientemente de uma sofrimento do passado imposto por um dos pais.
Pelo lado positivo, há uma paixão pela outra pessoa. No primeiro momento, esse é um estado altamente gratificante. Sentimos que estamos intensamente vivos. Nossa existência passa a ter um significado porque, de repente, alguém precisa de nós, nos deseja, e nos faz sentir especial. Além disso, provocamos as mesmas sensações no outro, o que faz com que os dois se sintam completos. O sentimento pode se tornar tão intenso que o resto do mundo perde o significado.
Você deve ter percebido que existe uma certa dependência nessa intensidade. Ficamos viciados na outra pessoa, que age sobre nós como uma droga. Quando a droga está disponível, nos sentimos muito bem. Mas a possibilidade, mesmo que remota, de que ela não esteja mais ali, disponível para nós, pode levar ao ciúme, à possessividade, a tentativas de manipulação, através de chantagem emocional, culpa ou acusações - o que, no fundo, é o medo da perda. Se a outra pessoa nos abandonar mesmo, pode fazer nascer a mais intensa hostilidade, ou um profundo desespero. Em segundos a ternura amorosa pode dar lugar à agressão selvagem ou um desgosto terrível. Onde é que está o amor agora? Será que o amor pode se transformar no seu oposto em segundos? Será que era amor de verdade ou um vício, uma dependência?
O VÍCIO E A BUSCA DE PLENITUDE
Porque nos viciaríamos na outra pessoa?
O desejo de ter uma relacionamento amoroso é universal porque as pessoas acreditam que a paixão, o "amor", pode libertá-lo do medo, da necessidade e do vazio que fazem parte da condição humanaem seu estado de pecado e não iluminação. Existe uma dimensão física e outra psicológica para esse estado.
No nível físico, é óbvio que não somos um todo, nem jamais seremos. Cade um de nós é homem ou mulher, o que vale dizer, uma metade de um todo. Nesse nível, o desejo de ser completo, de retornar à unidade, se manifesta através da atração entre homem e mulher. É um impulso irresistível de união com a polaridade oposta de energia. A raiz desse impulso físico é espiritual, porque nele está o desejo ardente do fim de uma dualidade, de um retorno ao estado de completude. A união sexual é o estado mais perto que podemos chegar deste estado no nível físico. Essa é a razão pela qual ela é a experiência mais satisfatória que o nível físico pode nos oferecer. Mas a união sexual não passa de um lampejo breve de plenitude, um instante abençoado. Enquanto ela for vista inconscientemente como um meio de salvação, você a verá como o fim da dualidade no nível da forma, um lugar onde ela não pode ser encontrada. Você tve um lampejo do paraíso, mas não pode ficar ali e se percebe, de novo, em um corpo separado. No nível psicológico, a sensação de falta, de não estar completo, é até maior do que no nível físico. Enquanto houver uma identificação com a mente, o sentido do eu interior é dado pelas coisas externas. Isso significa que você extrai o sentido do que você é de coisas que não tem nada a ver com quem você realmente é, como o seu papel na sociedade, suas propriedades, sua aparência externa, seus sucessos e fracassos, seus sistemas de crenças, etc.
Esse seu eu interior falso, o ego construído pela mente, sente-se vulnerável, inseguro, e está sempre em busca de coisas novas com as quais se identificar, para obter a sensação de que ele existe. Mas nada é suficiente para lhe dar uma satisfação duradoura. O medo permanece. A sensação de falta e de necessidade permanecem. Então acontece aquele relacionamento especial. Parece ser a resposta para todos os problemas do ego, parece preencher todas as necessidades. Todas aquelas coisas das quais você tinha extraído o sentido do eu interior se tornam relativamente insignificantes. Você tem agora um ponto focal que substitui todos os outros, que dá sentido à sua vida e até define a sua identidade: a pessoa por quem você se "apaixonou". Você não é mais um fragmento isolado em um mundo insensível. Seu mundo tem agora um centro, a pessoa amada. O fato de que o centro está fora de você - , e portanto você tem ainda um sentido do seu eu interior derivado das coisas externas - parece não importar muito num primeiro momento. O que importa aquelas sensações de medo, falta, vazio, insatisfação não estão mais presentes. Ou será que estão? Será que elas desapareceram ou continuam a existir por baixo da aparente felicidade?
Se em seus relacionamentos você vivenciou tanto o "amor" quanto o seu oposto, então é provável que você esteja confundindo o apego do ego e a dependência com o amor. Não se pode amar alguém em um momento e atacar essa pessoa no momento seguinte. O verdadeiro amor não tem oposto. Se o seu "amor" tem oposto, então não é amor, mas uma grande necessidade do ego de obter um sentido mais profundo e mais completo do seu eu interior, uma necessidade que a outra pessoa preenche temporariamente. É uma forma de substituição que o ego encontrou e, por um curto período, ela parece ser mesmo a salvação.
Chega então um momento em que o outro passa a se comportar de um modo que deixa de preencher as nossas necessidades, ou melhor, as necessidades do nosso ego. As sensações de medo, sofrimento e falta, que estavam encobertas pelo "relacionamento amoroso", voltam a parecer. Como acontece com qualquer vício, ficamos muito bem enquanto a droga está disponível, mas chega um momento em que a droga não funciona mais. Quando essas dolorosas sensações de medo reaparecem, nós as sentimos mais fortes que antes e passamos a ver o outro como a causa dessas sensações. Isso significa que estamos projetando no outro essas sensações, por isso nós o agredimos com toda a violência que é parte do nosso sofrimento.
Essa agressão pode despertar o sofrimento do outro, que é induzido a contra-atacar. Nesse ponto, o ego ainda está, inconscientemente, esperando que a agressão ou a tentativa de manipulação seja suficiente para levar o outro a mudar o comportamento, de forma que possa usá-lo de novo, para encobrir o seu sofrimento.
Todo o vício surge de uma recusa inconsciente de encararmos nossos próprios sofrimentos. Todo o vício começa no nosso sofrimento e termina nele. Qualquer que seja o vício - álcool, comida, drogas legais ou ilegais, ou mesmo uma pessoa - , ele é um meio que usamos para encobrir o sofrimento. Essa é a razão porque, passada a euforia inicial, existe, tanta infelicidade, tanto sofrimento nos relacionamentos íntimos. Eles não causam o sofrimento e a infelicidade. Eles trazem à superfície o sofrimento e a infelicidade que já estão dentro de nós. Todo vício faz isso. Todo vício chega a um ponto em que já não funciona mais para nós e, então, sentimos o sofrimento mais forte do que nunca. Essa é a razão pela qual muitas pessoas estão sempre tentando escapar do momento presente e buscando algum tipo de salvação no futuro. A primeira coisa que devem encontrar, caso focalizem a atenção no Agora, é o próprio sofrimento que carregam, e é isso o que mais temem. Se ao menos soubessem como, no Agora, é fácil acessar o poder da presença que dissolve o passado e o sofrimento. Se ao menos soubessem como estão perto da própria realidade, como estão perto de Deus.
Evitar se relacionar como uma tentativa de evitar o sofrimento também não é a resposta. O sofrimento está lá, de qualquer jeito. Três relacionamentos infelizes em alguns anos tem mais probabilidade de forçar você acordar que três anos em uma ilha deserta ou trancafiado em seu quarto. Mas, se você pudesse colocar uma presença intensa em sua solidão, isso também funcionaria para você.
Extraído de O Poder do Agora, de Eckhart Tolle
A vocação deste blog é ajudar os leitores, e o próprio autor, a preparar o terreno para o "estar presente", que acontece somente no momento fugidio do Agora - a porta estreita - de que as tradições falam. A diversidade de temas é proposital e tem dois objetivos: mostrar que não há só uma tradição exclusiva, e, se houver Intento, qualquer situação corriqueira da Vida é adequada para quem busca interiormente, até mesmo a de uma passista no desfile da escola de samba. - Arnaldo Preto
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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Amor e Ódio
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sábado, 28 de janeiro de 2012
Êta sofrimento...
Nesta semana a vida me pegou de jeito e eu pensei “Não vai dar para publicar o texto de domingo”, mas resolvi fazer um esforço no meio da pressão das coisas, e postar algo que li há uns tempos e achei muito bom. Só não vou contar o autor para evitar a "síndrome do já conhecido” que tira antecipadamente o frescor das coisas. Leiam sem referência, com o coração, como se faz com as catedrais góticas e templos antigos de autores desconhecidos. É bom para desenvolver a justa apreciação. Quem quiser tentar acertar o autor depois de ler, diga nos comentários e se acertar eu confirmo. "Ou não", como diz o Caetano (rsrs). Vamos lá:
DISSOLVER O SOFRIMENTO
A maior parte do sofrimento humano é desnecessária. Ele se forma sozinho, enquanto a mente superficial governa a nossa vida. O sofrimento que sentimos neste exato momento é sempre alguma forma de não-aceitação, uma forma de resistência inconsciente ao que é.
No nível do pensamento, a resistência é uma forma de julgamento. No nível emocional, ela é uma forma de negatividade. O sofrimento varia de intensidade de acordo com o nosso grau de resistência ao momento atual, e isso, por sua vez, depende da intensidade com que nos identificamos com as nossas mentes. A mente procura sempre negar e escapar do Agora.
Em outras palavras, quanto mais nos identificamos com as nossas mentes, mais sofremos. Ou ainda, quanto mais respeitamos e aceitamos o Agora, mais nos libertamos da dor, do sofrimento e da mente egóica.
Alguns ensinamentos espirituais dizem que todo sofrimento é, em última análise, uma ilusão, e isso é verdade. A questão é se isso é uma verdade para você. Acreditar simplesmente não transforma nada em verdade. Você quer sofrer para o resto da vida e permanecer dizendo que é uma ilusão? Será que essa atitude livra você do sofrimento? O que nos interessa aqui é o que podemos fazer para vivenciar essa verdade, ou seja, torná-la real em nossas vidas.
Enquanto estivermos identificados com as nossas mentes, o que significa dizer enquanto estivermos inconscientes espiritualmente, o sofrimento será inevitável. Refiro-me aqui ao sofrimento emocional, que é também a causa principal do sofrimento físico e a doença. O ressentimento, o ódio, a autopiedade, a culpa, a raiva, a depressão, o ciúme e até mesmo uma leve irritação são formas de sofrimento. E qualquer prazer ou forte emoção contêm em si a semente do sofrimento. É o inseparável oposto, que se manifestará com o tempo.
Quem já tomou bebidas alcoólicas ou drogas para ficar "alto" sabe que o alto se transforma em baixo, que o prazer se transforma em alguma forma de sofrimento. A maioria das pessoas também sabe, por experiência própria, como uma relação íntima pode se transformar, de modo fácil e rápido, de fonte de prazer em fonte de sofrimento. Vistas de uma perspectiva mais ampla, tanto a polaridade negativa quanto a positiva são lados de uma mesma moeda, são partes de um sofrimento que está oculto, inseparável do estado de consciência identificado com a mente.
Existem dois níveis de sofrimento: o que você cria agora e o que tem origem no passado que ainda vive em sua mente e no seu corpo. Enquanto não somos capazes de acessar o poder do Agora, vamos acumulando resíduos de sofrimento emocional. Esses resíduos se misturam ao sofrimento do passado e se alojam em nossa mente e em nosso corpo. Isso inclui o sofrimento vivido em nossa infância, causado pela falta de compreensão do mundo em que nascemos.
Todo esse sofrimento cria um campo de energia negativa que ocupa a mente e o corpo. Se olharmos para ele como uma entidade invisível com características próprias, estaremos chegando bem perto da verdade. E o sofrimento emocional do corpo.
Apresenta-se sob duas modalidades: inativo e ativo. O sofrimento pode ficar inativo 90 por cento do tempo, ou 100 por cento ativado em alguém profundamente infeliz. Algumas pessoas atravessam a vida quase que inteiramente tomadas pelo sofrimento, enquanto outras passam por ele em algumas ocasiões que envolvem relações familiares e amorosas, lesões físicas ou emocionais, perdas do passado, abandono, etc.
Qualquer coisa pode ativá-lo, especialmente se encontrar ressonância em um padrão de sofrimento do passado. Quando o sofrimento está pronto para despertar do estágio inativo, até mesmo uma observação inocente feita por um amigo, ou um pensamento, é capaz de ativá-lo.
DESFAZER A IDENTIFICAÇÃO COM O SOFRIMENTO
O sofrimento não quer que nós o observemos diretamente e vejamos o que ele realmente é. No momento em que o observamos, sentimos seu campo energético dentro de nós e desfazemos a nossa identificação com ele, surge uma nova dimensão da consciência.
Chamo isso de presença. Passamos a ser testemunhas ou observadores do sofrimento. Isso significa que ele não pode mais nos usar, fingindo ser nosso eu interior. Então, não temos mais como realimentá-lo. Aqui está nossa mais profunda força interior.
Alguns sofrimentos são irritantes, mas inofensivos, como é o caso de uma criança que não para de chorar. Outros são monstros destrutivos e mórbidos, verdadeiros demônios. Alguns são fisicamente violentos; outros, emocionalmente violentos. Eles podem atacar tanto as pessoas à nossa volta quanto a nós mesmos, seus hospedeiros. Os pensamentos e sentimentos relativos à nossa vida tornam-se, então, profundamente negativos e autodestrutivos. Doenças e acidentes frequentemente acontecem desse modo. Alguns sofrimentos podem até levar uma pessoa ao suicídio.
Às vezes levamos um choque ao descobrir uma faceta detestável em alguém que pensávamos conhecer bem. Entretanto, é mais importante observar essa situação em nós mesmos do que nos outros.
Preste atenção a qualquer sinal de infelicidade em você, qualquer que seja a forma, pois talvez seja o despertar do sofrimento. Ele pode se manifestar como uma irritação, um sinal de impaciência, um ar sombrio, um desejo de ferir, sentimentos de raiva, ira e depressão ou uma necessidade de criar algum tipo de problema em seus relacionamentos. Agarre o sinal no momento em que ele despertar de seu estado inativo.
O sofrimento deseja sobreviver, mas, para isso, precisa conseguir que nos identifiquemos inconscientemente com ele. Então poderá nascer, nos dominar, "tornar-se nós" e viver através de nós.
Ele retira seu "alimento" de nós. Vale-se de qualquer experiência sintonizada com o seu próprio tipo de energia, qualquer coisa que provoque um sofrimento adicional sob qualquer forma: raiva, destruição, rancor, desgostos, problemas emocionais, violência e até mesmo doenças. Portanto, quando o sofrimento toma conta de nós, cria uma situação em nossas vidas que reflete a própria frequência de energia da qual ele se alimenta. Sofrimento só se alimenta de sofrimento. Não consegue se alimentar de alegria. Acha-a indigesta.
Quando o sofrimento nos domina, faz com que desejemos ter mais sofrimento. Passamos a ser vítimas ou agressores. Queremos infligir sofrimento, ou senti-lo, ou ambos. Na verdade, não há muita diferença entre os dois. E claro que não ternos consciência disso e afirmamos que não queremos sofrer. Mas preste bem atenção e verá que o seu pensamento e o seu comportamento estão programados para continuar com o sofrimento, tanto para você quanto para os outros. Se você estivesse consciente disso, o padrão iria se desfazer, porque desejar mais sofrimento é uma insanidade, e ninguém é insano conscientemente.
O sofrimento, a sombra escura projetada pelo ego, tem medo da luz da nossa consciência. Teme ser descoberto. Sobrevive graças à nossa identificação inconsciente com ele, assim como do medo inconsciente de enfrentarmos o sofrimento que vive dentro de nós. Mas, se não o enfrentarmos, se não direcionarmos a luz da nossa consciência para o sofrimento, seremos forçados a revivê-lo.
O sofrimento pode parecer um monstro perigoso, mas eu garanto que se trata de um fantasma frágil. Ele não pode prevalecer sobre o poder da nossa presença.
Quando passamos a observadores e começamos a deixar de nos identificar, o sofrimento ainda continua a agir por um tempo e vai tentar fazer com que voltemos a nos identificar com ele. Embora não esteja mais recebendo a energia originada da nossa identificação com ele, o sofrimento ainda tem sua força, como uma roda-gigante que continua a girar mesmo quando deixa de receber o impulso. Nesse estágio, o sofrimento pode até ocasionar dores em diversas partes do corpo, mas elas não vão durar.
Esteja presente, fique consciente. Vigie o seu espaço interior. Você vai precisar estar presente e alerta para ser capaz de observar o sofrimento de um modo direto e sentir a energia que emana dele. Agindo assim, o sofrimento não terá força para controlar o seu pensamento.
No momento em que o seu pensamento se alinha com o campo energético do sofrimento, você está se identificando com ele e, de novo, alimentando-o com os seus pensamentos. Por exemplo, se a raiva é a vibração de energia que predomina no sofrimento e você alimenta esse sentimento, insistindo em pensar no que alguém fez para prejudicá-lo ou no que você vai fazer em relação a essa pessoa, é porque você já não está mais consciente, e o sofrimento se tornou "você". Onde existe raiva existe sempre um sofrimento oculto.
Quando você começa a entrar em um padrão mental negativo e a pensar como a sua vida é horrorosa, isso quer dizer que o pensamento se alinhou com o sofrimento e você passou a estar inconsciente e vulnerável a um ataque do sofrimento.
Utilizo a palavra "inconsciência" no presente contexto para significar uma identificação com um padrão mental ou emocional. Isso implica uma ausência completa do observador.
TRANSFORMAR O SOFRIMENTO EM CONSCIÊNCIA
Manter-se em um estado de alerta consciente destrói a ligação entre o sofrimento e o mecanismo do pensamento e aciona o processo de transformação. É como se o sofrimento se tornasse o combustível para a chama da consciência, resultando em um brilho de mais intensidade.
Esse é o significado esotérico da antiga arte da alquimia: a transformação do metal não precioso em ouro, do sofrimento em consciência. A separação interior cicatriza, e você se torna inteiro outra vez. Cabe a você, então, não criar um sofrimento adicional.
Concentre a atenção ao sentimento dentro de você. Reconheça que é o sofrimento. Aceite que ele esteja ali. Não pense a respeito. Não permita que o sentimento se transforme em pensamento. Não julgue nem analise. Não se identifique com o sentimento. Esteja presente e observe o que está acontecendo dentro de você.
Perceba não só o sofrimento emocional, mas também a presença "de alguém que observa", o observador silencioso. Esse é o poder do Agora, o poder da sua própria presença consciente. Veja, então, o que acontece.
A IDENTIFICAÇÃO DO EGO COM O SOFRIMENTO
O processo que acabei de descrever é extremamente poderoso, embora simples. Poderia ser ensinado a uma criança, e tenho a esperança de que um dia será uma das primeiras coisas a serem aprendidas na escola. Uma vez entendido o princípio básico do que significa estar presente observando o que acontece dentro de nós -e "entendemos" isso quando passamos pela experiência -, teremos à nossa disposição a mais poderosa ferramenta de transformação.
Não nego que podemos encontrar uma forte resistência interna tentando nos impedir de pôr um fim à identificação com o sofrimento. Isso acontecerá particularmente se tivermos vivido intimamente identificados com o sofrimento emocional durante a maior parte da vida e se tivermos investido nele uma grande parte ou mesmo todo o nosso sentido de eu interior. Isso significa que construímos um eu interior infeliz por conta do nosso sofrimento e acreditamos que somos essa ficção fabricada pela mente. Nesse caso, nosso medo inconsciente de perder a identidade vai criar uma forte resistência a qualquer forma de não-identificação. Em outras palavras, você preferiria viver com o sofrimento - ser o sofrimento - a saltar para o desconhecido, correndo o risco de perder o seu infeliz mas familiar eu interior.
Observe a resistência dentro de você. Observe o seu apego ao sofrimento. Esteja muito alerta. Observe como é estranho ter prazer em ser infeliz. Observe a compulsão de falar ou pensar a esse respeito. A resistência deixará de existir se você torná-la consciente.
Poderá então dar atenção ao sofrimento, estar presente como testemunha e iniciar a transformação.
Só você pode fazer isso. Ninguém pode fazer por você. Mas, caso tenha bastante sorte para encontrar alguém intensamente consciente, se puder estar com essa pessoa e juntar-se a ela no estado de presença, isso poderá ser de grande utilidade, acelerando o processo. Se isso acontecer, a sua própria luz logo brilhará mais forte.
Quando colocamos um pedaço de lenha que tenha começado a queimar há pouco tempo perto de outro que está queimando vigorosamente e, depois, separamos os dois novamente, o primeiro tronco passará a queimar com uma intensidade muito maior. Afinal de contas, é o mesmo fogo. Ser um fogo dessa natureza é uma das funções de um mestre espiritual. Alguns terapeutas estão aptos a preencher essa função, desde que tenham alcançado um ponto além do nível de consciência e sejam capazes de criar e sustentar um estado de presença intensa e consciente enquanto estiverem trabalhando com você.
A primeira coisa para lembrar é que, enquanto você construir a sua identidade em função do sofrimento, não conseguirá se livrar dele. Enquanto investir uma parte do seu sentido de eu interior no seu sofrimento emocional, você vai resistir ou sabotar, inconscientemente, cada tentativa para curar o sofrimento.
Por quê? Porque você quer se manter inteiro e o sofrimento se tornou uma parte essencial de você. Esse é um processo inconsciente, e o único caminho para superá-lo é torná-lo consciente.
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
O Poder do Agora
Eckhart Tolle nasceu na Alemanha, estudou e lecionou em Cambridge e trabalhou como um executivo normal. Até aí tudo bem... Hoje é líder espiritual de milhares de pessoas, escritor iluminado, conhecido pela mídia mundial. Quando não está dando conferências no mundo, vive no Canadá. Qual o segredo da mudança?
Aos 29 anos, ansioso, depressivo e suicida, acordou á noite em pânico odiando o mundo e a si mesmo. Sua mente “deu um vazio” e ele entrou apavorado num vórtice de energia. “Não resista” dizia uma voz, e ele obedeceu e soltou-se no vazio e... nasceu de novo. Ao acordar do apagão percebeu os sons e imagens corriqueiras do dia, mas maravilhosamente reais e lindos. Sua mente estava “em branco”, sem pensar em nada e ele percebeu que tinha acabado a sua identificação com a infelicidade: “sobrou a sua verdadeira natureza, aquele estado puro inicial antes da identificação com a forma”. Aprendeu a entrar,sempre que quisesse, nessa dimensão eterna e imortal de paz e bem aventurança.
Deixou tudo, família, amigos, emprego e passou dois anos sentado em parques em Londres em estado de profunda alegria. Voltou, retomou, assumindo a sua nova vocação, mas a paz continuou ao seu lado. Passou 10 anos em grupos na Europa ensinando as pessoas a eliminar a inconsciência, o sofrimento e a ilusão: uma Nova Consciência, um ensinamento espiritual atemporal que afirma “você não é a sua mente” .
Hoje quando as pessoas desejam o que ele obteve, diz “Você já tem, mas não sente porque sua mente faz muito barulho”...
Segue uma entrevista dada em vídeo a um rapaz anônimo que afirma: "Quando eu estava no fundo do poço, li “O Poder do Agora”. O que Eckhart Tolle escreveu sobre a felicidade foi o que me impulsionou a partir nesta jornada. Eu fui para Vancouver para conhecê-lo.”
A entrevista
- Você ficou dois anos num banco de parque? Você dormia no banco do parque?
- Raramente, mas passava a maioria dos dias em bancos de parques, de diferentes parques de Londres.
- Você fazia três refeições por dia?
- Não, não. Uma refeição por dia, se tinha sorte (risos). Sentado aqui, é possível você simplesmente...observar o que acontece ao seu redor...sem dar nenhuma interpretação. Apenas esteja presente no momento, então vai ter uma amostra do que é ficar num banco de parque, sem que nada precise ser acrescentado a este momento, os sons, as visões, as pessoas, o som da água, a luz. Permita que tudo seja como é. Com isso vem a paz. Não se deixe atrair pelos acontecimentos, pensamentos, emoções, reações. Você é o espaço mais amplo onde as coisas acontecem. Você é a Consciência por Trás Disso, sem a qual nada disso estaria aqui. Seriam só átomos e moléculas no espaço. Você é a consciência que permite que tudo exista.
- E quanto à busca pelo significado das coisas?
- Você nota que um momento atrás estava em estado de presença alerta, e nunca demora para outro pensamento surgir e fazer uma pergunta, porque o pensamento não pode tolerar um estado de presença. Você não precisa ser dominado pelos seus pensamentos, porque os pensamentos podem obscurecer a presença da vida neste momento.
- Porque eu não sabia disso? (risos)
- Um hábito sedimentado. Estar totalmente identificado com os pensamentos é condição humana. Que poderia ser descrita como “perdido em pensamentos”. Porque até agora a evolução foi inconsciente, era automática, mas agora a evolução é uma escolha consciente de uma espécie, e isso é algo revolucionário. Você faz parte disso.
- E quanto à dor? Dor física ou emocional, ou perder alguém?
- A maior parte da dor é psicologicamente criada. Existe muita dor psicológica. Sofrimento, eu chamo. Quando o sofrimento cessar, e há uma chance de os homens agora viverem sem sofrimento, ainda pode haver dor física. Você pode ter uma dor de dente, ou no corpo de vez em quando. O sofrimento é outro nível que está acima da dor. Sofrimento implica em uma história, um eu que é infeliz, uma entidade criada na mente, o pequeno eu que tem uma história infeliz, que é a sua identidade (risos). E isso cria uma enorme quantidade de sofrimento. Não só você sofre, mas faz aqueles ao seu redor sofrerem. Estar em união com a vida é estar em união com o momento presente, porque só nele a vida pode ser encontrada. Você não pode fugir do agora. Ele está com você, faça o que fizer e aonde for. Sua vida nunca foi “não-agora”, e nunca será. Você está transformando o momento presente em um inimigo, internamente, pensando em algo que não tem nada a ver com o agora, como “preciso entender uma coisa...”. Primeiro esteja aqui totalmente, e aquilo que você precisa na vida virá. Ele vem do poder do agora, que habita o momento presente e a maioria das pessoas ignora. Há um enorme poder aqui, É o poder da vida em si, e a maioria das pessoas procura algo e ignora isto. E o poder da vida é inseparável de quem você é, no âmago do seu ser. Muitas vezes você vai até esquecer, mas quando perceber que se esqueceu, há a possibilidade de dizer “sim, perdi o momento presente”, e escolher voltar para ele.
A primeira coisa que acontece quando você volta, é que fica mais consciente dos seus sentidos. De repente você fica mais alerta. Então você fica mais consciente de que está vivo. Você sente a vida pulsar. É como se a freqüência vibratória do seu corpo mudasse quando você fica presente. È um estado diferente de consciência. Mais alerta. Mais vivo. E muitas vezes você vai perder isso. Então vai se lembrar. Isso já está bom.
Não acredite na mente quando ela diz “você não pode fazer isso agora, tem muita coisa na cabeça. Não pode se preocupar com o presente”. São só pensamentos, e não há necessidade de seguir esses pensamentos. Apenas os observe. São pensamentos que a mente despeja, não precisa acreditar neles, porque eles não são verdade. Quando a mente diz “você não pode estar presente agora, porque tem muita coisa na cabeça” você pode dizer “vamos ver se isso é verdade”. Então você sente “tem vida na minha mão, tem vida no meu corpo, tem beleza ao meu redor”. Então volta a ficar presente. O estado de alerta retorna, e quando houver tempo para você pensar, você pensa, você senta e pensa: “que avião eu vou pegar amanhã? A que horas vou para o aeroporto? O que preciso fazer, pegar o telefone, fazer uma ligação?” Ótimo, isso é bom, você não está se perdendo no futuro, são questões práticas, e depois de ter resolvido as questões práticas, depois de ter planejado a sua próxima semana, você volta para o agora.
Transformação interna não é encontrar respostas para as suas perguntas, mas é encontrar uma nova relação com o seu pensamento, em que nem todo o pensamento o seduza mais. E se uma mulher bonita passar e você olhar para ela, não precisa pensar “não devia olhar para ela, porque sou espiritualizado agora”. Não. Deixe para lá só por um momento, não pelo resto da vida, só por este momento Deixe para lá a necessidade entender algo, para ficar realmente presente neste momento. Só agora. Só no presente, mas não se esqueça de si, pois você é a consciência por trás disso. Você é o espaço, a presença...A vida quer ajudá-lo, mas você tem que estar aberto à vida.
Você está aqui porque é o personagem principal da história da sua vida. A história em parte funcionou e em parte não funcionou, e então o personagem da história veio aqui e quer saber como fazer para a história funcionar melhor. Não é isso?
- É.
- Sejam quais forem as respostas que lhe derem, há coisas que você pode fazer para as coisas funcionarem melhor, mas nada disso ajuda se você não chegar ao âmago da história. O “eu” da história. Então se você mantiver contato com isso durante toda a sua vida, a história se desenrolará com muito mais facilidade, porque há uma dimensão mais profunda aí. O personagem principal dessa história, você, nunca reconhece o seu “eu” mais profundo, a presença atemporal que é a consciência que você é, alerta, ampla...
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