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domingo, 2 de março de 2014

A Prática do Silêncio

A totalidade dos caminhos e técnicas que conduzem ao estado de despertar, que é a vocação do ser humano, falam da mesma coisa de formas diferentes: “calar a mente”. As palavras é que variam, desde silêncio mental, acalmar a mente, presença, atenção, e por aí afora. Vimos isso em Eckhart Tolle, Gurdjieff, Castaneda, mestres budistas, taoistas, etc., e é curiosa a diversidade de caminhos usando o mesmo conceito com técnicas diferentes.
O texto abaixo é de Armando Torres. Poucas pessoas o conhecem, um índio mexicano, xamã e escritor que foi aprendiz de Carlos Castaneda. Em seu livro Encontros Com o Nagual, editado por seu amigo Juan Yoliliztli, de quem fiquei amigo, Armando fala de uma série de temas caros ao buscadores da verdade. Um deles é como praticar o silêncio. O texto é seco como um índio do deserto, mas é no ponto. Cada frase pode ser uma reflexão. Vamos lá:

"Como base para o silêncio mental, Carlos me sugeriu que lutasse contra o que chamou minha "condição doméstica", quer dizer, o fato de que pertenço a um meio social. Referiu-se a isso como um primeiro passo para a liberdade."
"Pôr em relevo nossas interações significa analisar de novo uma grande quantidade de coisas que nós sempre demos por certo, começando por nossos hábitos sexuais, e terminando pelos compromissos familiares, religiosos e cívicos que costumamos contrair. Não se trata de julgar ou subverter nada, mas de observar. A observação, por si mesma, tem um efeito sobre as coisas".
 Eu lhe pedi que explicasse como o ato passivo de observar pode modificar as coisas.
Respondeu que a atenção nunca é passiva por mais tênue que seja, porque é formada da mesma matéria que forma o universo. O simples ato de exercitá-la implica uma transferência de energia.
"É como a velocidade que, ao ser aplicada a um objeto, aumenta sua massa. Similarmente, o enfoque da atenção acrescenta realidade às coisas, e essa realidade tem um limite depois do qual o mundo que conhecemos se desintegra.
"O segredo dos prodígios dos bruxos é a canalização da atenção. Não importa como a apliquem, seja para bem ou para o mal, o que difere é a intenção, não a força do enfoque. Para os novos videntes, a magia da bruxaria não está nos seus resultados, mas nos modos como chegamos a eles. Então, seu melhor intento como aprendiz é calar sua mente".
Quando eu o vi novamente, admiti que embora já levasse um bom tempo tentando seguir seu conselho, ainda não notava  nenhum avanço significativo quanto à realização de um estado de silêncio interior. Pelo contrário, tinha notado que meus pensamentos estavam mais agitados e confusos do que nunca.
Explicou que essa sensação era uma conseqüência normal da prática.
"Como todo novato, você está tentando classificar o silêncio como um elemento a mais de seu inventário de crenças.
"O objetivo de seu inventário foi de fazer com que se desse conta do peso que têm os nossos preconceitos. Usamos quase toda a energia disponível para sustentar um esquema do mundo, e conseguimos isso por meio de sugestões conscientes ou inconscientes.
"Quando um aprendiz é liberado dessa prisão, a sensação que tem é que caiu em um oceano de paz e silêncio. Não importa que fale, cante, chore ou medite, essa sensação permanece.
"Nas primeiras fases do caminho é muito difícil de encarar o silêncio como prática, pois assim que nós descobrimos a ausência de pensamentos, surge uma voz travessa que nos felicita pelo logro. Isso automaticamente rompe o estado.
"O problema ocorre porque você confunde o objetivo dos bruxos com um ideal. O conceito de 'silêncio' é demasiado tênue para uma mente como a sua, acostumada às classificações. É óbvio que você pensou no exercício em termos auditivos, como falta de som. Mas não é assim.
"O que os bruxos querem é algo mais simples. Eles tentam resistir às sugestões, só isso. Se você pode ser o dono de sua mente e pensar corretamente, sem preconceitos nem falsas convicções, você poderá cancelar a parte doméstica de sua natureza. Uma realização suprema.
Caso contrário, você nem mesmo vai entender o que é o exercício.
"Uma vez que aprendemos a eliminá-los, sem nos batermos com eles, nem prestar-lhes qualquer tipo de atenção, os comandos da mente ficarão em nosso interior durante algum  tempo e depois partirão. Assim, não se trata de 'tirá-los' dali, mas de matá-los de aborrecimento.
"Para alcançar esse estado você tem que sacudir seu “inventário de ideias”. Eu pedi que você começasse por suas crenças, mas teria funcionado igual se, por exemplo, você listasse todas as suas relações e afetos, ou os elementos mais atrativos de sua história pessoal, ou suas esperanças, objetivos e preocupações, ou seu gostos, preferências e aversões. O importante é que você se dê conta de seus esquemas de pensamento.
"A magia de todo o inventário está baseado na ordem de seus componentes. Quando nós sacudimos essa ordem, quando falta alguma das peças que nós sempre damos por certo, todo o esquema começa a desmoronar. Assim se dá com as rotinas da mente; você muda um parâmetro e de repente há uma porta aberta onde deveria ter uma parede, e isso muda tudo. A mente se estremece!
"Isso é o que você tem experimentado como uma ativação extraordinária de seu diálogo interior. Antes você nem mesmo o notava, mas agora você sabe que está aí'. Algum dia essa presença será tão pesada que você fará algo a esse respeito. Nesse dia você deixará de ser um homem comum e normal e se tornará um bruxo".

Quem quiser baixar o livro clique aqui:


domingo, 21 de outubro de 2012

A Atenção e as Duas Naturezas

Dr. Conge - um raro buscador
Na página  "Quem escreve? Porque?" deste blog, contei que no passado participei de um Grupo em Sampa, que de 1970 a 1984 foi orientado  pelo Dr. Michel Conge na França, ele discípulo de Gurdjieff. Um período de ouro. 
Michel Conge nasceu em Pau, sudoeste da França em 1912. Cedo decidiu devotar-se à “procura do real atrás das aparências”. Sua questão levou-o primeiramente à medicina. Enquanto trabalhava como médico-biólogo no Instituto Pasteur em Paris encontrou o escritor René Daumal que o introduziu a Jeanne de Salzmann. Ela logo o convidou a se juntar a G.I.Gurdjieff. Iniciando em 1948, encorajado por Gurdjieff e Madame de Salzmann, Conge reuniu à sua volta e de sua esposa, Gilles, um núcleo de homens e mulheres cuja busca ele acompanhou e dirigiu até sua morte em 1984.
A palestra abaixo foi dada por Michel Conge em Santiago do Chile em 06 de agosto de 1966. Extraída de “Record of a Search –Working with Michel Conge in France” de Ricardo Guillon. 
A forma do texto é corriqueira, mas não se enganem, é profunda e exige uma leitura com atenção e às vezes com intervalos a fim de metabolizar cada frase. Aliás ela fala de nada mais que A Atenção (rsrs).
Vamos à palestra do Dr. Conge (como ele era conhecido):

"Eu não pretendo dar uma palestra formal, mas prefiro olhar de perto certas idéias que pertencem ao ensinamento de Gurdjieff. Então eu falarei especialmente àqueles que têm procurado por vários anos ou por vários meses e, tendo se familiarizado com estas idéias, sentem sua verdade. Por exemplo, se eu falar a respeito de liberdade ou liberação, é óbvio que pensa que é livre, consciente, tem vontade e pode fazer qualquer coisa que ela queira na vida.
Apenas aquele ser ao qual a vida mostrou o status de dependência dele e que compreendeu que as coisas são feitas através dele – e não por ele – pode realmente querer tornar-se livre e alcançar a Consciência.
Este ensinamento abrange ideias que são muito desagradáveis de ouvir – por exemplo, que nós somos mecânicos. Esta é uma pílula amarga ao nosso amor-próprio, embora seja verdade, e é relativamente fàcil acatar uma ideia assim: nosso ser pode ser comparado a uma mansão com quatro andares, mas nós ocupamos apenas o porão, um lugar escuro no qual somos mantidos prisioneiros, quando há coisas muito importantes nos outros níveis. Inicialmente pode-se pensar que há algo depressivo nesta ideia  Entretanto, se eu estou querendo olhar a minha vida e todos os fracassos que eu experimentei, posso reconhecer que esta perspectiva explica muitas coisas e, no final, oferece grande esperança: eu percebo que se eu pudesse ocupar todos os cômodos da minha mansão, minha vida mudaria. Da mesma forma, quando nos é dito “Eu não sou o que eu sou”, há nisto um convite à totalidade, que me dá coragem.
Meu desejo esta noite é que nós possamos vir a sentir que uma visão ampla da natureza humana é necessária para um trabalho real sobre Si Mesmo.
Se nós falamos em liberação, questões logo surgirão do tipo ‘por que’ da minha escravidão e de ‘como’ da minha liberação.
A fim de nos ajudar a alcançar uma visão ampla, todos ensinamentos oferecem a ideia de escada, embora ela não seja sempre facilmente reconhecida nos textos antigos, os quais são freqüentemente incompletos ou distorcidos pelos copistas. A constituição dos seres humanos não é plana, mas consiste de níveis, andares. O ser humano não corresponde a apenas um nível do universo, mas a muitos. É algumas vezes dito neste ensinamento que um ser humano completo, desenvolvido, de verdade, tem sua cabeça ao nível das estrelas e seus pés na terra, e isto sugere não apenas um símbolo, mas uma verdadeira escada, indicando uma direção, um reto caminho.
Nós precisamos compreender que as duas naturezas do homem estão inscritas nesta escada: na parte superior da escada, a natureza mais alta; na parte inferior, a natureza ordinária na qual nós vivemos todo o tempo e na qual o centro de gravidade de nossa existência inteira se encontra.
Entre estes dois níveis há um intervalo, um espaço que não pode ser ligado. Muitos textos antigos falam deste intervalo; por exemplo, no Velho Testamento, o esforço entre Jacó e o Anjo que tem lugar precisamente no meio de um rio, num banco de areia. É válido considerar todos os elementos da estória: no banco mais alto, o irmão mais velho e, no banco mais baixo, o irmão mais novo que vem com toda sua família, suas cabeças de gado, suas riquezas, e vem com medo. E o esforço, no qual uma nova força aparece na forma de um Anjo, um mensageiro de Deus – a terceira força (Gênesis 32 a 38, creio).
Consciência e vontade, que são realidades pré-existentes, pertencem à natureza mais alta. Todas as manifestações ilusórias – mentira, imaginação, mecanicidade – correspondem à natureza mais baixa, que recebe apenas pálidos raios de consciência filtrados pelo intervalo.
Nós encontramos no Evangelho – na parábola de Cristo no poço do qual a mulher samaritana vem pegar água – esta ideia de que a fonte da vida reside em uma natureza mais profunda. Intervalo, poço, rio - todas imagens simbólicas que fazem-nos compreender que a água da vida deve ser procurada além de onde esperamos encontrá-la (João 4:12-14 19-21, creio.).
Ao preparar esta conversa, eu me recordei de uma estória Zen da antiga China, a qual é válido contar pelo fato de ser muito simples e clara. Um discípulo veio ao seu mestre com a seguinte questão: “Eu gostaria de compreender a natureza humana”. A resposta do mestre foi pegar uma pá, cortar uma minhoca em dois pedaços em um único golpe e justapor as partes tentando, em vão, reuni-las.
Este é exatamente nosso problema: como religar as duas naturezas que constituem nosso ser?
Para conseguir isto, nós devemos absolutamente ter acesso ao conhecimento daqueles que, através dos tempos, tornaram-se conscientes, aqueles que conseguiram esta união e procuraram transmitir todo seu verdadeiro conhecimento – conhecimento que não pertence ao nível da vida ordinária e não pode ser encontrado em universidades.
Este conhecimento diz-nos que a natureza mais alta procura unir-se à natureza mais baixa. Mas como nós somos agora, esta natureza mais alta não pode mais ser encarnada em nós, devido ao intervalo intransponível. A natureza mais baixa também tenta unir-se à natureza mais alta, mas, ao final, perde-se em tentativas que cegamente movem-se em círculos.
Nenhuma natureza é capaz de se unir com a outra, pois um elemento conector de uma densidade, vitalidade ou qualidade de vibração intermediária falta entre ambas.
Quando chegamos a este ponto, se não recebemos a ajuda do conhecimento objetivo e toda a informação prática e teórica oferecida pelo ensinamento, nós estamos perdidos. Para resolver este problema, necessitamos acesso a uma ciência, a ciência do ser, e devemos pedir, e aprender como pedir, esta ciência.
Na verdade, deixados por nós mesmos, podemos tentar resolver o enigma intelectualmente. Mas mesmo se nós chamarmos nossa qualidade de pensamento mais inteligente, não podemos encontrar nosso caminho a esta união, embora o pensamento seja um instrumento que deve eventualmente ser útil. Ou podemos chamar nosso sentimento, mas igualmente será falho. O mesmo é verdade se nós acreditamos que podemos encontrar a chave do problema no corpo, no instinto. As funções são instrumentos, mas o segredo será encontrado numa qualidade inteiramente diferente. Ela é encontrada na Atenção, esta substância viva tão pouco e pobremente compreendida, embora cada um de nós tenha acesso a ela. Eu posso sempre estar atento.
E a ideia fundamental é: Eu sou a Atenção. Onde minha atenção está, lá eu estou. Se minha atenção é fraca, eu sou fraco; se ela é mecânica, eu sou mecânico; se ela é livre, eu sou livre.
É claro que alguém pode também dizer “Eu sou consciência”; mas isto não é verdade para mim hoje. Será apenas verdade quando minhas duas naturezas tiverem, finalmente, se unido. Então a consciência viverá no meu ser inteiro e eu saberei que eu sou consciência e a consciência sou eu.
Devemos então retornar à atenção e compreender que da mesma forma que eu sou um ser dividido em dois, a atenção em mim é, também, dividida em duas. Há uma atenção mais alta, escondida, inacessível, sobre a qual eu não tenho mais poder do que sobre minha consciência. É, deste modo, inútil tentar qualquer coisa em relação a esta atenção, que é livre, pura, não engajada, una.
E há uma atenção que corresponde à minha natureza mais baixa, mas esta atenção encontra-se ‘caída’ e fragmentada, dividida em correntes divergentes. Eu posso conhecer esta atenção muito melhor do que eu a conheço hoje. Posso reconhecer a mim mesmo nela e, graças a isto, encontrar a mim mesmo (lembrar de mim mesmo). Isto penetra nas minhas funções, que são seus canais ‘obrigatórios’. E agora eu começo a compreender por que é dito que o autoconhecimento é, ou começa, com o conhecimento da máquina. Esta máquina, meu corpo, minha psique, foram-me dados de modo que eu possa tentar reconhecer a mim mesmo enquanto ‘atenção’, e estas três correntes de atenção podem se agrupar neste nível mais baixo.
Eu devo compreender que nesta natureza mais baixa cada corrente de atenção pode aparecer em graus de intensidade diferentes. Eu preciso aprender que a atenção pode se manifestar de maneiras completamente instáveis e errantes. Por exemplo, no meu funcionamento intelectual a atenção errante deixa a si mesmo ser varrida por tudo que a atrai; palavras, imagens, lembranças e cada evento no meu dia podem varrê-la, cada um de seu próprio jeito. Eu saio à rua; as vitrines, as pessoas constantemente tomam esta atenção. Ela não tem maior estabilidade do que uma borboleta. Saia para andar com a intenção de pensar a respeito de seus próprios assuntos. Um cachorro late para você e toma toda sua atenção. Este cachorro é mais forte do que você. Tanto melhor para a força deste homem, que pensou que era consciente, pensou que era mestre de sua própria vontade. E o que ocupa lugar no intelecto também ocupa nas funções emocionais e motoras.
Às vezes, quando um problema ou grande dificuldade surge, minha atenção pode ser concentrada, condensada; sua qualidade muda, ela adquire mais força, é sustentada por um elemento de desejo ou interesse. Não mais errática, ela é capturada: um motivo especialmente forte a tomou.
Há, entretanto, uma espécie de atenção muito diferente, uma atenção que é mais consciente, mais voluntária. Algumas vezes, em ocasiões raras, eu descubro o gosto dela.
Se isto ocorre no meu pensamento, eu vejo que meu pensamento se torna claro. E se isto ocorre no meu sentimento, eu conheço o sentimento de ser completamente livre das minhas emoções habituais. Em relação ao meu corpo, posso também experimentar de uma maneira nova o que está acontecendo ao seu nível.
O que é importante é aprender que cada um destes graus ou qualidades de atenção corresponde a um dos três níveis dos meus centros, pois cada centro consiste de três níveis:

  • um nível motor ou mecânico,
  • um nível emocional,
  • um nível intelectual.

O conhecimento da correspondência entre cada gosto específico de atenção e cada um destes níveis é um enorme segredo. Se eu aprender a reconhecer e ver isto, o caminho na direção da unificação ou reunificação da atenção se torna aparente. Mas eu tenho que compreender que estes três caminhos devem ser experimentados simultaneamente. Para praticar, é bom trabalhar primeiro em um centro, depois em outro. Entretanto, no nível da minha natureza ordinária, o retorno à atenção reunificada é possível apenas quando os três centros essenciais da minha natureza mais baixa se encontrarem, ou seja, quando estiverem nos seus níveis mais altos. Apenas neste momento a atenção efetivamente adquire uma nova característica: ela se transforma em atenção verdadeiramente voluntária, atenção consciente. Eu não estou dizendo que isto é consciência ou vontade, mas seu caráter consciente e voluntário ajuda-me a compreender que há algo agora nesta atenção regenerada que pode corresponder às propriedades da natureza mais alta.
Mesmo assim, esta união não é, ainda, possível. Entretanto, eu prossigo vivendo minha vida e compreendo que, graças ao esforço de desengajamento, todos estes esforços ao nível de cada função permitem que a atenção adquira propriedades que estavam faltando antes. E eu compreendo ambos, a razão para este nascimento no corpo e o significado do esforço de retornar à origem.
Ao nível do centro intelectual, a atenção adquire um poder de visão. É como uma luz que sustenta tudo no seu campo de iluminação.
Ao nível do centro emocional, a atenção adquire um calor que estava faltando, graças ao qual o esforço pode ser sustentado por um momento sem enfraquecer.
Ao nível do corpo, a atenção é sustentada por um novo fenômeno, que leva muitos anos para compreender bem: uma sensação de Si Mesmo, uma sensação que não é nem agradável nem desagradável. Eu sei que eu estou aqui
  • por esta visão,
  • por este sentimento,
  • por esta sensação,
e estes são os sinais que antecedem a descida da Consciência e Vontade.
Mas isto ainda não é suficiente. Se for verdade que, graças à sensação, a atenção se beneficia de um suporte sólido que evita que ela vagueie, e se, devido a este novo sentimento e clareza, a atenção pode evitar o estado cativo, eu ainda preciso me familiarizar melhor com fontes adicionais de ajuda. E eu as encontrarei na descoberta das impressões conscientes de Mim Mesmo.
Eu estou realmente dizendo conscientes, impressões intencionais de mim mesmo, do que vive no meu ser. Eu sei tudo sobre impressões, eu as recebo todo o tempo – impressões não intencionais, mecânicas, oriundas do ambiente. Cada coisa, cada pessoa que eu vejo, a temperatura desta sala, toda a comida que eu como – tudo isto causa impressões. Mas se é verdade que estas impressões permitem-me viver, e se é verdade que eu poderia morrer neste mesmo instante se eu parasse de recebê-las, é também verdade que estas impressões lentamente me destroem. Elas capturam minha força de atenção, elas me empurram à reação.
Qual é o significado de impressões conscientes e intencionais de si mesmo?
É, em primeiro lugar, a impressão de mim mesmo recebendo as impressões mecânicas da vida, o impacto da vida, e devo fazer o esforço para experimentar isto freqüentemente. Aqui minha atenção encontra um suporte de modo a não se perder.
Mas eu devo descobrir impressões mais profundas – não ainda as impressões reais e diretas da minha natureza mais alta, mas, de preferência, das partes mais altas dos centros mais baixos.
E, finalmente, uma terceira espécie de impressão – de mim mesmo conhecendo a impressão desta vida profunda e, ao mesmo tempo, recebendo as impressões mecânicas da vida.
Isto ilumina o conceito bem conhecido do Bhagavad Gita – o campo de ação, o conhecedor do campo e aquele que conhece, ao mesmo tempo, o campo e o conhecedor do campo. É exatamente a mesma coisa.
Muito mais poderia ser dito sobre a questão da atenção. Por exemplo, a ideia da mudança de sinais, baseado no conceito de relatividade. O nível mais baixo de cada centro deveria ser passivo e, em relação a ele, o nível mais alto deveria ser ativo. Isto seria normal. Mas no meu modo habitual de ver precisamente o oposto ocorre. Se nós retornarmos à ideia de duas naturezas, a natureza mais alta deveria ser ativa, no comando, e a natureza mais baixa deveria ser passiva, a serviço. Na verdade a natureza mais alta permanece passiva e a agitada natureza mais baixa roga, para si, o papel ativo; e isto porque não há nada que as reconcilie.
É o mesmo em cada um dos meus centros. Mas eu posso compreender que quando eu tento libertar minha atenção, ela aparenta ser ativa (eu aparento ser ativo) em relação ao mecanismo que se torna passivo. Progressivamente, eu vejo a permutação de sinais revelada.
Finalmente, se os níveis mais altos dos centros de tornarem ativos, um grande evento pode acontecer: toda esta natureza, agora unificada e ordenada, pode começar a servir à natureza mais alta. A ordem de sinais é revertida.
Melhor ainda, como eu liberto a mim mesmo das funções e como minha atenção, carregada com novo poder, reveste cada uma das funções, eu descubro que uma nova estrutura está, gradualmente, tomando forma, permeada de qualidades de pensamento, sentimento e sensação que eu não conhecia anteriormente. Esta estrutura – um novo corpo se formando, condensando, organizando – é o elemento intermediário anteriormente perdido capaz de unir as naturezas alta e baixa.
A partir daquele momento, pode-se falar em Vigilância, quer dizer, uma capacidade de viver um esforço de tal modo que o sinal não mais reverta e a ligação verdadeiramente ocorra.
Tudo isto eu devo, agora, tentar viver e carregar na intimidade do meu coração, protegendo-o contra todas as coisas que possam destruí-lo."

domingo, 12 de agosto de 2012

Velar

Falamos muito neste blog em textos e vídeos sobre a única coisa que interessa ao ser humano: manter A Presença todo o tempo. As tradições autênticas, todas sem excessão falam disso, e usam muitos nomes para a mesma coisa: Presença, O Agora, Estar Alerta, A vigília, Lembrança de Si, Presença de Deus, Atenção, Vigiai e Orai, e por aí afora. Quem quiser, leia as postagens e vai achar esses temas. Só pesquisando a palavra Presença no blog, achei 22 postagens, então tem muita coisa.
Hoje vamos publicar um texto de um escritor austríaco, Gustav Meyrinck (1868 - 1932), contador de histórias, dramaturgo, tradutor e banqueiro (!?), famoso pelo livro chamado O Golem. Foi considerado o mais respeitado escritor da língua alemã no campo da "ficção sobrenatural", como eles chamavam as coisas do espírito.
É um texto do seu livro A Face Verde, provavelmente não traduzido para o Português, e publicado com uma linguagem meio arcaica, na segunda pessoa, no livro O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier.
Vamos lá:
 "A chave que nos tornará mestres da natureza interior ficou enferrujada desde o dilúvio.
Ela chama-se: velar.
Velar é tudo.
O homem está firmemente convencido de que vela; mas na realidade, é apanhado numa rede de sono e de sonho que ele próprio teceu. Quanto mais apertada é essa rede, mais poderosamente reina o sono, Aqueles que estão presos nas suas malhas são os adormecidos que caminham através da vida como rebanhos de animais levados para o matadouro, indiferentes e sem pensamentos.
Os sonhadores vêem através das malhas um mundo quadriculado, só distinguem aberturas enganadoras, agem em consequência e não sabem que esses quadros são apenas os fragmentos insensatos de um todo enorme. Esses sonhadores não são, como talvez o suponhas, os lunáticos e os poetas; são os trabalhadores, os sem repouso do Mundo, os possessos da loucura de agir.
Assemelham-se a escaravelhos feios e laboriosos que se arrastam ao longo de um cano liso para nele mergulharem ao chegar lá acima. Dizem que velam, mas aquilo que julgam uma vida não é em realidade senão um sonho, determinado antecipadamente nos mínimos pormenores e subtraído à influência da sua vontade.
Existiram e ainda existem alguns homens que souberam que sonhavam, os pioneiros que avançaram até aos baluartes atrás dos quais se esconde o eu eternamente desperto -videntes como Descartes, Schopenhauer e Kant (Nota do editor: esses são só os ocidentais. No oriente a lista não acaba mais). Mas eles não possuíam as armas necessárias para a tomada da fortaleza e o seu apelo ao combate não acordou os adormecidos.
Velar é tudo.
O primeiro passo para esse objetivo é tão simples que qualquer criança o pode dar. Só aquele que tem o espírito falsificado esqueceu como se caminha, e mantém-se paralisado sobre os seus dois pés, pois não se quer privar das muletas que herdou dos seus antecessores.
Velar é tudo.
Vela em tudo o que fazes! Não te julgues já desperto. Não.Tu dormes e sonhas.
Reúne todas as tuas forças e espalha um instante pelo teu corpo este sentimento: agora, eu vejo! Se o conseguires, reconhecerás imediatamente que o estado no qual te encontravas surge então como uma modorra e um sono.
É o primeiro passo hesitante do longo, muito longo percurso que leva da servidão ao completo poder.
Desta forma avança, de despertar em despertar.
Não existe pensamento tormentoso que desta maneira não possas banir. Ele fica para trás e já não te pode atingir. Estendeste sobre ele como a copa de uma árvore se eleva por sobre os ramos secos.
As dores afastam-se de ti como folhas mortas quando essa vigília se apossa igualmente do teu corpo.
Os banhos gelados dos brâmanes, as noites de vigília dos discípulos de Buda e dos ascetas cristãos, os suplícios dos faquires não são mais que os ritos estereotipados indicando que ali se erguia outrora o templo daqueles que se esforçavam por velar.
Lê as Escrituras Sagradas de todos os povos da Terra. Em cada uma delas passa como um fio vermelho a ciência dissimulada da vigília. É a escada de Jacob, que combate toda a "noite"com o anjo do Senhor, até que chegue o "dia" e obtenha a vitória.
Deves subir, um após outro, os degraus do despertar, se queres vencer a morte.
O degrau inferior já se chama: gênio.
Como devemos nós chamar os degraus superiores? Ficam desconhecidos da multidão e são tidos como lendas. A história de Tróia foi considerada uma lenda, até que finalmente um homem arranjou coragem de investigar por si próprio.
Sobre esse caminho da vigília, o primeiro inimigo que encontrarás será o teu próprio corpo. Ele lutará contigo até ao primeiro cantar do galo. Mas se vislumbrares a luz da vigília eterna que te afasta dos sonâmbulos que supõem ser homens e ignoram que são deuses adormecidos então o sono do teu corpo desaparecerá também e o Universo submeter-se-á a ti.
Então poderás operar milagres, se quiseres, e já não estarás reduzido, como um humilde escravo, a esperar que um cruel e falso deus seja suficientemente amável para te cumular de presentes ou te cortar a cabeça.
Há evidentemente a felicidade do bom cão fiel: servir um amo. Ela deixará de existir para ti -mas sê franco para contigo próprio: gostarias tu, mesmo agora, de trocar o lugar com teu cão?
Não te deixes apavorar pelo medo de não atingires o objetivo nesta vida. Aquele que descobriu este caminho regressa sempre ao mundo com uma maturidade interior que lhe torna possível a continuação do seu trabalho. Ele nasce como "gênio".
O caminho que te mostro está semeado de acontecimentos estranhos: mortos que conheceste hão de erguer-se e falar-te de erguer-se e falar-te!
São apenas imagens. Silhuetas luminosas aparecer-te-ão para te abençoar. São apenas imagens, formas exaltadas pelo teu corpo que, sob a influência da tua vontade transformada, morrerá de uma morte mágica e se tornará espírito, tal como o gelo, atingido pelo fogo, se dissolve em vapor.
Quando tiveres abandonado em ti o cadáver é que então poderás dizer: agora o sono afastou-se de mim para sempre.
Então dar-se-á o milagre em que os homens não acreditam - porque, enganados pelos seus sentidos, não percebem que matéria e força são a mesma coisa - nem compreendem, esse milagre que, mesmo se o enterrarem, não haverá cadáver no caixão.
Só então poderás diferenciar o que é realidade ou aparência. Aquele que tu encontrares só poderá ser um dos que seguiram o caminho antes de ti.
Todos os outros são sombras.
Até ali tu não sabes se és a criatura mais feliz ou a mais infeliz. Mas nada receies. Nem um sequer dos que seguiram pelo caminho da vigília, mesmo se alguma vez se perdeu, jamais foi abandonado pelos seus guias. Quero dar-te um sinal pelo qual poderás reconhecer se uma aparição é realidade ou miragem: se ela se aproxima de ti, se a tua consciência se perturba, se as coisas do mundo exterior são vagas ou desaparecem, desconfia. Acautela-te! A aparição
não passa de uma parte de ti próprio. Se não a compreendes, é apenas um espectro sem consistência, um gatuno que consome uma parte da tua vida.
Os gatunos que adquirem a força da alma são "piores do que os gatunos do Mundo". Atraem-te como fogos-fátuos nos pântanos de uma esperança enganadora, para te deixarem só nas trevas e desaparecerem para sempre.
Não te deixes enganar por nenhum milagre que eles pareçam fazer por ti, por nenhum nome sagrado que se derem, por nenhuma profecia que exprimam, nem mesmo se esta se realizar; eles são os teus inimigos mortais, expulsos do inferno do teu próprio corpo e com os quais tu lutas pelo domínio.
Sabe que as forças maravilhosas que eles possuem são as tuas próprias - desviadas por eles para te manterem na escravatura. Eles não podem viver fora da tua vida, mas se os venceres ficarão aniquilados, como ferramentas mudas e dóceis que poderás empregar segundo as tuas necessidades.
Inúmeras são as vítimas que eles fizeram entre os homens. Lê a história dos visionários e dos sectários e compreenderás que o caminho que segues está semeado de crânios.
Inconscientemente a humanidade ergueu contra eles um muro: o materialismo. Esse muro é uma defesa infalível, é uma imagem do corpo mas é também o muro de uma prisão que dissimula a vista. Atualmente estão dispersos e a fênix da vida interior ressuscita das cinzas nas quais esteve deitada durante muito tempo, como morta, mas os abutres de outro mundo também começam a bater as asas. É por isso que deves tomar cuidado. A balança sobre a qual deporás a tua consciência mostrar-te-á quanto podes ter confiança nessas aparições. Quanto mais desperta ela estiver, mais se inclinará a teu favor.
Se um guia, um irmão de outro mundo espiritual te quer aparecer, deve poder fazê-lo sem despojar a tua consciência. Podes pousar a mão sobre ele como Tomé, o incrédulo.
Seria fácil evitar as aparições e seus perigos. Basta conduzires-te como um homem vulgar. Mas que ganhas com isso? Continuas a ser um prisioneiro na jaula do teu corpo até que o carrasco "Morte" te conduza ao cadafalso.
O desejo dos mortais de verem os seres sobrenaturais é um grito que desperta até os fantasmas do inferno, porque semelhante desejo não é puro; - porque é mais avidez do que desejo, porque quer "tomar" de qualquer maneira em vez de gritar para aprender a "dar".
Todos aqueles que consideram a Terra como uma prisão, todas as pessoas piedosas que imploram a libertação evocam sem se aperceberem o mundo dos espectros. Fá-lo igualmente tu próprio. Mas conscientemente.
Para aqueles que o fazem inconscientemente existirá uma mão invisível que os possa retirar do pântano onde se atolam? Eu não o acredito. Quando sobre o caminho do despertar atravessarás o reino dos espectros, reconhecerás pouco a pouco que eles são simplesmente pensamentos que de súbito poderás ver com os teus próprios olhos. Eis porque te são estranhos e parecem ser criaturas, pois a linguagem das formas é diferente da do cérebro.
Então chegou o momento em que a transformação se dá: os homens que te rodeiam transformar-se-ão em espectros. Todos aqueles que amaste serão, de súbito, larvas. Mesmo o teu próprio corpo.
Não se pode imaginar mais terrível solidão que a do peregrino no deserto, e quem não sabe encontrar aí a fonte da vida morre de sede!
Tudo o que aqui te digo se encontra nos livros dos homens piedosos de todos os povos: a vinda de um novo reino, a vigília, a vitória sobre o corpo e a solidão.
E no entanto um abismo intransponível nos separa dessas pessoas piedosas: elas supõem que se aproxima o dia em que os bons entrarão no paraíso e os maus serão atirados para o inferno.
Nós sabemos que um tempo virá em que muitos despertarão e serão separados dos adormecidos que não podem compreender o que significa a palavra vigília. Nós sabemos que não existe o bom e o mau, mas apenas o exato e o falso. Eles crêem que velar significa manter os seus sentidos lúcidos e os olhos abertos durante a noite, de forma que o homem possa fazer as suas orações. Nós sabemos que a vigília é o despertar do eu imortal e que a insónia do corpo é uma consequência natural. Eles crêem que o corpo deve ser descurado e desprezado porque é pecador. Nós sabemos que não existe pecado; o corpo é o começo da nossa obra e viemos à Terra para transformá-lo em espírito. Eles crêem que deveríamos viver na solidão com o nosso corpo para purificar o espírito. Nós sabemos que o nosso espírito deve primeiramente isolar-se para transfigurar o corpo.
Só a ti te cabe a escolha do caminho a tomar: ou o nosso ou o deles. Deves agir segundo a tua própria vontade.
Não tenho o direito de te aconselhar. É mais salutar colher segundo a tua própria decisão um fruto amargo sobre uma árvore, do que ver pendurar um fruto doce aconselhado por outrem.
Mas não faças como muitos que sabem que está escrito: examinai tudo e só conservai o melhor. É preciso ir, nada examinar e agarrar a primeira coisa que aparecer"
Gustav Meyrinck: Trecho do romance Le Visage Vert, (A Face Verde) traduzido pelo doutor Etthofen e Mlle. Perrenoud. Ed. Emile-Paul Frères, Paris, 1932.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Contemplar ou Agir?

Temos o prazer e a dor de viver num mundo dual que é esse nível de evolução onde estamos: bom e mau, mocinho e bandido, homem e mulher, dia e noite, capitalismo e comunismo, ditadura e democracia, e por aí afora. A lição de casa é harmonizar os opostos para passar para o segundo ano, coisa que deve levar no mínimo algumas vidas (rsrs).
Na busca interior também é assim. Temos duas formas de estar no mundo: agindo e contemplando. É claro que isso é uma forma didática de apresentar a coisa. A rigor temos que conciliar as duas no Agora. A nossa tarefa é estar presente e contemplar na ação, ao mesmo tempo em que ela ocorre. Temos que “agitemplar”, ou contemplagir” (rsrs), Coisa de gente “louquinha”
Sempre se falando didaticamente, contemplar na ação já é um segundo estágio, pois o primeiro é só “contemplar na calma”, ou seja o que vulgarmente chamamos de meditar, seja na posição que for. Qualquer pessoa que já tentou meditar conhece a dificuldade de centrar a atenção no seu interior mesmo que seja por alguns segundos, pois a “tarefa” é sabotada pelo diálogo interno e pelos apelos e acenos de uma mente ocidental que nunca aprendeu nada sobre o vazio. Contemplar na ação é a segunda fase de dificuldade mas pode perfeitamente ser o ponto de partida, ou seja a vítima age e observa ao mesmo tempo em que está agindo. Nesse ponto ela toma contato com o mistério da Atenção. A gente se pergunta “que coisa é essa que observa a ação e ao mesmo tempo observa a si mesmo num estado além da mente e sem a participação habitual dela?” Quem já fez os complicados movimentos Gurdjieffianos e por um instante se flagrou íntegro internamente observando–se na ação corporal, sabe exatamente do que se trata isso.
 O Cristianismo monástico apontava essas duas abordagens da realidade, a contemplação e a ação, comparando as formas com que Maria e Marta atuavam ao lado de Jesus Cristo. A primeira era uma contemplativa que apreendia o mundo olhando com os olhos do corpo e da alma, a segunda uma ativa, lidando com a concretude da vida, e que reclamava da atuação da primeira. É sempre assim: o ativo sempre julga e critica o contemplador quieto e recolhido. A grande Santa Teresa D’Ávila, uma contempladora soberba sofreu essa discriminação de seus pares e contemporâneos de uma forma aguda e impiedosa. O mesmo fato ocorreu com outros verdadeiros santos cristãos, mesmo estando já recolhidos em mosteiros ou isolados da turba em florestas ou desertos. Acho que é um viés que temos de valorizar a ação, o movimento. o convívio. O show da vida tem para nós mais charme que o recolhimento observador, e isso tudo agravado pela síndrome da incompreensão do desconhecido que leva as pessoas em torno a segregar os “diferentes”, no caso os contemplativos. A Inquisição é o resultado desse comportamento intolerante levado ao extremo.
Os toltecas do Antigo México também “viam”, com seus olhos de videntes, que os discípulos eram ou sonhadores ou espreitadores, cada um com uma atuação diferente, mas empenhados na mesma causa: atingir o que chamavam de liberdade total. A Espreita  e o Sonho são os dois pilares, as duas disciplinas dessa busca dos chamados “bruxos” toltecas, nome impróprio para definir esses formidáveis “homens de conhecimento” do Antigo México, que nos deixaram através de monumentos e dos 15 livros de Castaneda e discípulos, um legado inestimável de conhecimento interior.
O sonhador, discreto, arredio e inacessível,  estabelece uma conexão estreita entre o sonho lúcido e a vigília e então passa a viver conscientemente nos dois mundos como se fossem o mesmo. Executa proezas sofisticadíssimas e inacreditáveis de percepção, cura, ubiqüidade e transformação física que sequer podemos imaginar.
Já o espreitador tem uma natureza prática e dada ao convívio e relacionamento com o outro. Ele organiza sua vida concreta e material com praticidade e com uma visão real do mundo que o cerca, Esse palco é o seu campo de atuação. Observa, aprende e age discretamente, “na moita”, sem se expor, conseguindo os seus objetivos interiores ou exteriores gastando o mínimo de energia. Tem uma visão real do mundo, sem ilusões e fantasias. Isso é o que eles chamavam de impecabilidade. Don Juan dizia que, no relacionamento com o outro, “nunca se deve bater de frente”, mas sempre não perder o foco do objetivo proposto, seja lá o que for. Um desafio para o ego cheio de apego.  Esse princípio da espreita, de ficar atrás da cena, é altamente valorizado no taoísmo chinês e gerou a arte marcial do Tai Chi onde a força do golpe do adversário é apanhada num movimento “sem resistência” e é envolvida num gesto redondo e acolhedor, mente vazia de pensamentos, sem raiva, medo ou apego, aproveitando-se a força do adversário  para dominá-lo. Puro Yin Yang.
Os sonhadores e espreitadores correspondiam no universo dos homens de conhecimento toltecas aos contemplativos e ativos do cristianismo. As duas tradições conheciam bem essa dualidade como um divisor da natureza e atuação dos buscadores, um contraponto  gerador de atritos internos e externos imprescindíveis ao desenvolvimento interior do ser que está na busca.
Gurdjieff conceituava o espreitador com o nome de “obyvatel”, uma palavra russa que pode ser traduzida livremente por “dono de casa”, um servidor sem ego, um tipo que deliberadamente sustentava sua família, agregados ou outras pessoas de forma séria mas não sizuda, responsável, realista, pés no chão, e que se ria das pessoas que se julgavam importantes e acreditavam que “faziam as coisas acontecerem”.
Se contemplarmos o símbolo do Ying Yang poderemos ter uma compreensão da atuação dessas duas naturezas se complementando no Agora e formando a Unidade.
Um abraço

domingo, 8 de janeiro de 2012

Quem Você É - Eckhart Tolle

Há tempos atrás editamos um vídeo de Eckhart Tolle  sobre O que é a Meditação. Agora vamos falar da prática da  Meditação, mas de "quem você é" abaixo da superfície, escondido atrás da "pessoa". É a transcrição de uma reunião de Eckhart Tolle. Vamos lá:
"- Onde quer que você esteja, este momento é o Agora, o momento presente...
O tempo e as datas, coisas desse tipo, são coisas que nós impomos sobre a realidade. Em si mesmas, elas não têm nenhuma existência real, são um tipo de referência que nós impomos para que possamos funcionar no mundo, e não há problema nisso.
Então em última análise, em um certo nível, é verdadeiro dizer que hoje é tal dia de tal mês, tal hora e tantos minutos, seja qual for a hora, mês e ano. Em um certo nível, isso é verdadeiro. em outro nível, isso não é verdade, porque só existe a presença deste momento.
Da mesma forma que não existe Linha do Equador! Eu me lembro de visitar o país Equador e lá existe uma atração turística que é uma linha que diz:"Aqui é a linha do equador.", e as pessoas vêm e tiram fotos do equador, que é uma linha desenhada.É claro que é uma linha imaginária, por acaso aquele é o ponto equidistante entre  o pólo norte e o pólo sul, mas não existe nenhum equador, nós impomos isso, sobrepomos isso sobre a realidade.
Então em última análise não existe nenhuma Linha do Equador, não existe o tempo do relógio, nós podemos funcionar dentro dele, sem ficar presos nele, e sem acreditar por  completo que ele seja a realidade absoluta.
E nós impomos muitas outras coisas sobre a realidade, sobre nós mesmos, como por exemplo nosso senso de identidade, um nome, uma história, a história pessoal, todos os tipos de medos e desejos, e muitas outras coisas que constroem o nosso senso psicológico de identidade.
Elas possuem alguma realidade, mas não são a realidade absoluta. Então se você observar o tempo, a hora do relógio, se você se aprofundar nele, você acaba no momento presente, onde não existe tempo, existe sempre apenas isto.
E aqui estamos em nossa meditação hoje, estamos aqui para ir mais fundo pra dentro de nós mesmos, para que possamos descobrir esse nível mais profundo de “quem nós somos”, que não é relativo, mas que é absolutamente verdadeiro. Tudo o mais é então reconhecido como relativo.
Essas coisas têm seu lugar: sua história pessoal, seu passado, seu futuro, sua situação de vida, sua situação de saúde, situação financeira, de moradia, seus problemas e preocupações. Sim, está tudo lá, mas a sua vida se reduz a isso somente? Isso é tudo que você conhece? A sua situação de vida, suas circunstâncias pessoais?
Você está consciente de alguma outra dimensão na sua vida? A maioria das pessoas não está. Elas estão consumidas por suas situações de vida, e elas estão completamente identificadas com um senso de personalidade, que é derivado da atividade mental, o fluxo de pensamento, todas as coisas que a voz dentro da sua cabeça, está te dizendo, sobre quem você é.
E tudo isso, é claro, é condicionado pelo passado.
A pergunta mais importante na vida de qualquer pessoa, na sua vida é:"Existe algo mais em quem eu sou, do que o que os olhos podem ver
"Existe mais em quem eu sou do que o que meus sentidos percebem, ou sabem sobre mim mesmo, do que os pensamentos flutuando na minha mente? Existe um nível mais profundo em quem eu sou? Porque se existe, e eu nem sequer investiguei isso, nem sequer tentei chegar num nível mais profundo dentro de mim mesmo, então eu estive perdendo uma oportunidade maravilhosa, o propósito mais profundo da minha vida.
Eu não estou pedindo a você que acredite em nada, eu não estou pedindo que você acredite na dimensão transcendente de quem você é, mas eu estou te convidando a abrir a mente e estar aberto à possibilidade, Este é o ponto inicial: estar aberto à possibilidade de que possa existir um nível mais profundo em quem você é.
Algo mais profundo do que "a pessoa", que existe no tempo, e é condicionada pelo tempo, pelos eventos que aconteceram, que se tornam lembranças acumuladas, memórias conscientes e inconscientes.
E esse acúmulo de memórias, para a maioria das pessoas, é a base do seu senso de existência, e elas estão presas nisso. Então a questão é”Existe uma dimensão mais profunda em mim?” Ou existe apenas a história sobre mim mesmo, na minha mente? Existe algo além das minhas preocupações pessoais? Existe algo que talvez seja mais importante do que todas as coisas que eu penso serem extremamente importantes na minha vida? Meu problemas, minhas circunstâncias, todas essas coisas.Existirá algo talvez que seja mais importante que isso?. Não estou dizendo pra você negligenciar esse nível da realidade, mas existe algo mais profundo? E tudo o que você precisa dizer, é  claro, é: “Estou aberto a essa possibilidade”,'Pode ser que exista, pode ser que não.' Isso é tudo.
Mas se você já começar dizendo: “Eu não acredito em nada mais profundo.', então você já está fechado.É claro que, nesse caso, você nem estaria aqui, escutando isso.
Então, nesta meditação, ou em qualquer meditação verdadeira, e, aliás, esta não é uma meditação convencional, não iremos usar nenhuma técnica, senão a experiência direta. Em qualquer meditação sua intenção é de.contatar esse espaço mais profundo dentro de você.
Qual é nosso ponto inicial? Nosso ponto inicial tem que ser sempre a realidade deste momento.Se você quiser se aprofundar, você tem que começar sempre a partir da realidade deste momento, a simples realidade deste momento.
Qual é a realidade deste momento para você? agora? A percepção sensorial está acontecendo, você vê essa imagem minha, você ouve a voz, você está percebendo isso, na periferia disso, você está consciente do seu arredor, apesar de você estar mais concentrado em mim e em ouvir minha voz, porque esta é a direção para a qual você  está escolhendo levar sua atenção neste momento, mas você também tem consciência periférica do seu ambiente,é claro, isso tudo ainda está aí.
Você talvez esteja consciente do seu corpo, sentado  na cadeira, ou onde quer que esteja, a percepção sensorial. E talvez você esteja consciente de certos sentimentos que você pode estar tendo, e pensamentos passando pela sua cabeça, ocasionalmente, ainda.
Eles vêm e vão. Alguns pensamentos podem querer tomar a sua atenção por completo, e então você perde o foco das minhas palavras, isso pode estar acontecendo com alguns de vocês, alguns pensamentos vêm e levam sua atenção embora daqui. E tudo o que você precisa fazer é trazer  a sua atenção de volta, quando você perceber isso, traga sua atenção de volta para este momento. Nós chamamos isso de "se tornar presente", neste momento.
Você está consciente de o que quer que esteja surgindo no espaço deste momento,e você o aceita como ele é, porque ele já é. Este é um bom ponto de entrada para qualquer meditação que você queira fazer. O portal para o estado meditativo, para a consciência de presença é “permitir que a realidade deste momento seja como ela é”.
Por que? Porque ela já é. Este momento já é como ele é.
Internamente, você não exige que este momento seja diferente, por exemplo:você não precisa dizer 'Porque você não pára de falar, nós deveríamos estar meditando!'ou então "Eu não estou experienciando o meu eu  mais profundo, do que você está falando. Tudo o que precisamos fazer para nos tornarmos presentes, que é onde a meditação nos leva,é nos tornarmos presentes com o simples fato do “ser deste momento”. Isto é o que é.
Desde tempos remotos os filósofos e sábios, alguns escritores, têm discutido a possibilidade de que o que nós experienciamos como nossas vidas possa ser um tipo de sonho. Então, seja lá o que for que você esteja experienciando agora, neste momento, você não pode saber, em termos absolutos, que isto não é um sonho. E, de algumas formas, a vida possui uma qualidade onírica, seja lá o que for que você estiver experienciando, porque tudo passa muito rapidamente, se evapora como um sonho.
Onde está o jantar de ontem à noite? Evaporou como um sonho! Mas mesmo se for um sonho, deve haver algo que possibilita este sonho.
Se é um sonho, ou esta coisa parecida com um sonho, que são todos os conteúdos que existem no momento presente, deve haver algo que possibilite a existência deste sonho! Deve haver algo que possibilite que a realidade deste momento exista! E seja conhecida. E é claro, “você” é esse algo.
Neste momento, eu estou pedindo que você sinta, por assim dizer, dentro de você mesmo, o simples fato de que “você é a fundação, por assim dizer, da realidade deste momento”, seja qual for a forma deste momento à sua volta.
Em outras palavras, você pode sentir o simples fato de que você existe? 'Existir' pode não ser a palavra certa. Você pode sentir o simples fato de que você É?. Sua “seidade”, sua presença, através da qual, todas essas coisas estão sendo percebidas! Aqui, neste momento, até mesmo a minha voz...
Você pode sentir? Isso é algo muito imediato, eu estou pedindo que você direcione a sua atenção, o foco de sua atenção, para longe das percepções sensoriais, apesar delas permanecerem onde estão, mas não colocar a sua atenção nelas, nem sequer  colocar a sua atenção na minha voz, ou na imagem na tela. Sim, ela ainda está aqui, você ainda está percebendo a imagem, mas o que eu estou te pedindo é que coloque sua atenção no próprio fato de que você está consciente. Pode-se dizer, colocar a atenção na própria atenção.
A consciência que antes estava nos pensamentos e na percepção sensorial, agora se volta para si.E a consciência que antes estava em todo tipo de coisa, incluindo pensamentos, que também são coisas, a consciência se volta para dentro, para si mesma, e percebe aquela presença, aquela presença atemporal inata, que subjaz a tudo que você estiver experienciando.
Você já sabe, eu mencionei isso no livro 'Um Novo Mundo', que em Delphi, na Grécia antiga, o templo de Apolo, havia a inscrição, acredito que ainda esteja lá, 'Conhece-te a ti mesmo'.
O que é menos conhecido do que essa inscrição,é que nesse mesmo templo, há também outra inscrição, e isso remonta a anos atrás, há também a inscrição: 'VOCÊ É'' Você é o que?' VOCÊ É! É isso que está inscrito lá.Quando você lê isso, ou ouve isso, ou isso faz sentido pra você, ou não. Se faz sentido, você por um momento faz: 'Ah!
'Porque nesse momento, essas duas palavras, Você É,  direcionam a sua atenção para a própria atenção. Ou pode-se dizer: direcionam sua consciência para o fato de que você está consciente, ou seja: você se reconhece como consciência, sem forma, atemporal. você é! Não isso ou aquilo, mas simplesmente você se conscientiza de que “você é”.
E é para isso que os antigos sábios já apontavam, há anos. Não é incrível essa inscrição no templo dizendo: 'Você é'? Você não pode entender a verdade disso através da mente pensante, como você não pode entender a verdade do que  eu estou falando através da mente pensante. Porque a mente pensante, a mente conceitual lê isso da seguinte forma: 'Você é'. 'O que isso deveria significar? Não consigo descobrir. 'você é?' deve haver algo faltando aqui.
'Mas apenas através da verdade do 'você é',  ou seja, a verdade do 'eu sou', (porque quando você percebe a verdade do 'você é', ela se torna a verdade do 'eu sou'), a verdade do 'eu sou' não é conceitual, em absoluto, não tem nada a ver com o pensamento e só pode ser percebida fora do pensar.
Então eu estou apontando com a nossa meditação aqui para a possibilidade de se tornar consciente desse nível mais profundo de “quem você é”, que não tem nada a ver com a sua história, ou seus pensamentos.
E quando você percebe que, essencialmente, você é essa consciência não-condicionada, que não tem forma, quando você percebe que, em essência, você é a luz da consciência, a que Jesus chamava 'a luz do mundo', quando você percebe que você é isso, não apenas uma vez, e depois você passa o resto da sua vida:'Eu tive essa experiência incrível há dez anos, eu percebi quem eu sou! Mas agora eu esqueci!'. Não.
É bom ver a possibilidade de viver, ou existir, simultaneamente em dois níveis:
•    o nível do mundo,(em que as coisas precisam ser feitas, e você lida com elas dentro do tempo, sua situação de vida, você tem que lidar com isso e aquilo, sem ser consumido por isso) e é um destino horrendo ser consumido pelas circunstâncias da sua vida, terrível, mas o impulso é muito forte!.
•    a consciência contínua desse nível sem forma de pura consciência, ou “seidade”, o puro 'eu sou', enquanto você está lidando com as coisas deste mundo,  para que você não se perca nelas.
Eu vejo, quando observo as pessoas, o quão facilmente elas se perdem, continuamente, em tudo que surge:  'Tenho que pensar nisso!' E primariamente elas estão se perdendo nas suas mentes, em seus pensamentos,'Tenho que pensar nisso, tenho que lidar com aquilo, tenho que fazer aquele telefonema.' É claro que você tem que fazer os seus telefonemas! Mas, você está se perdendo no mundo? O que é o mesmo que dizer: se perdendo dentro da sua mente! Porque você experiencia o mundo dentro da sua mente e com a sua mente, e esse é o estado do qual, para usar a terminologia cristã, você precisa ser salvo.
Temos esse termo cristão 'salvação'. 'Salvo do quê?' Salvo de estar se perdendo no mundo, estar se perdendo na sua mente! É disso que se trata a salvação.
Infelizmente a maioria das igrejas não entendem mais isso ou não entendem faz muito tempo, entenderam errado o que é salvação.
A salvação é a verdade que vos libertará, outra coisa que Jesus disse: 'A verdade vos libertará. 'Mas antes de dizer isso, ele disse mais uma coisa. Ele disse:'Conheça a verdade, e a verdade vos libertará'. A verdade já é a verdade. Você precisa conhecê-la, e qual é a verdade? A verdade é quem você é, ou “o quê você é por baixo da forma”. É a verdade do 'eu sou'.
Então você existe em duas dimensões simultaneamente, você ainda está no mundo, lidando com as coisas, até mesmo pensando sobre as coisas, se relacionando com outros seres humanos, mas, no plano de fundo da sua vida, por assim dizer, você possui aquele nível do que poderíamos chamar de espaço da consciência, de presença consciente. Ou, poderíamos dizer, você sente a sua “seidade essencial”, a presença essencial, sob todas as coisas que estão continuamente acontecendo.E você pode levar uma vida harmoniosa, e a sua vida é.completamente satisfatória.
Ela só pode ser satisfatória se você não mais procurar satisfação nas coisas deste mundo, o emprego, o relacionamento, as finanças, o sucesso, tudo que as pessoas procuram, posses, todas as coisas nas quais as pessoas procuram satisfação, nenhuma dessas coisas é definitivamente satisfatória como muitos de vocês sabem, já experienciaram isso.
A vida te satisfaz quando você está enraizado na seidade essencial do 'eu sou', e ela não tem nada a ver com o pensamento.Ela é só um espaço de consciência, e isso forma o pano de fundo da sua vida, e você lida com as coisas, sem se perder nelas.
Você traz esse estado de consciência, que se pode chamar de “estado de consciência expandido”, você o traz para dentro das suas interações com as outras pessoas. Isso é de grande importância, e é somente então que você vai parar de tratar as outras pessoas como possíveis fontes de satisfação, ou como uma ameaça, o que é muito normal neste mundo.
Se você não estiver conectado a essa dimensão mais profunda dentro de si mesmo, você olha para as outras pessoas como uma fonte de realização, em outras palavras, você quer que elas façam algo pra você, em algum nível, ou você olha para as outras pessoas como uma  possível ameaça ao seu senso de identidade. Você se aproxima das pessoas com algum medo ou algum desejo, sempre. Ou há algum desejo, ou há algum medo.Terrível!.
E é claro que os relacionamentos não conseguem  funcionar muito bem nesse estado de consciência! Existe conflito contínuo, porque a outra pessoa também está esperando algo de você, seja por algum desejo ou alguma ameaça que você representa.
Quando você não está mais procurando por satisfação nas outras pessoas, ou procurando satisfação nas coisas do mundo, então as coisas do mundo e as pessoas se tornam bem agradáveis! Mas você só encontra isso quando você adquire a sua satisfação continuamente da sua seidade essencial! Em vez de obtê-la das coisas, ou das pessoas.
A realização é sentir. As palavras não captam exatamente o que quero dizer, vamos dizer assim: é sentir a vivacidade da sua essência.
Neste momento, não importa se você está num palácio ou numa cela de prisão, para você experienciar a realidade da sua essência, o lugar onde você está é irrelevante. Também é irrelevante se você falhou totalmente em todos os seus esforços, ou se você é um grande sucesso, aos olhos do mundo. Isso é irrelevante para a realização disso que eu estou falando.
Isso não é um alívio? Bem, é um alívio maior se você falhou em tudo, mas se você tivesse sido bem-sucedido em tudo,  você não estaria nem vendo este vídeo. Você teria que esperar durante mais alguns anos, até que  as coisas entrassem em colapso à sua volta, porque nada neste mundo é tão estável assim.
Então, a vida te realiza porque o momento presente, e aqui nós voltamos àquele portal essencial, o que nós chamamos de momento presente é, em essência, aquele senso do 'eu sou'. O senso do 'eu sou' é o significado mais profundo do agora.É o espaço da própria consciência, no qual tudo acontece. Vem e vai embora.
A realização vem de conhecer quem você é. De se conhecer enquanto a própria presença que fundamenta as coisas que você experiência como sendo o mundo, tanto externamente como na sua mente.
Na Índia, os sábios antigos chamavam isso de 'a felicidade de ser consciente', a felicidade de SER consciente, ou de ser a consciência. a palavra 'ser' é 'sat' em sânscrito,'Sat – Chit - Ananda', quer dizer: “Conhecer a felicidade de estar consciente”, a profunda realização de se conhecer enquanto consciência. E você é isso, em primeiro lugar, em segundo lugar você é a pessoa como a qual você está atuando na sua existência presente neste planeta. E sabe lá qual papel você tem vivido na sua existência presente. Você pode estar vivendo um papel muito trágico, ou você pode estar vivendo uma comédia, ou, em muitos casos, é uma mistura dos dois. Esse é o papel que você vive, seu nome, suas circunstâncias, sua situação de vida. Mas quem é você por trás disso, além disso?.
Você se conhece enquanto o 'eu sou' subjacente?. Isso é tudo. Essa foi nossa meditação, por hoje. Eu  aconselho a, ao sair daqui, não se deixar ser imediatamente arrastado de volta às coisas sobre as quais você tem que pensar e lidar, mas sim, enquanto você estiver fazendo as coisas, a permanecer consciente de si mesmo, no plano de fundo. Consciente de estar consciente. Você sente a consciência.
Quando eu pego alguma coisa, existe espaço no plano de fundo,e não apenas a ação que está acontecendo.
Outra palavra que posso usar é paz. Existe uma  paz no plano de fundo da sua vida. E com isso a sua forma de lidar com as coisas é pacífica! Se você não está conectado consigo mesmo, a sua forma de lidar com as coisas não pode ser pacífica, porque você fica aborrecido e reativo, muito rapidamente.
E você contribui para os problemas do mundo, mesmo se você estiver falando sobre alguma coisa espiritual maravilhosa. Você estará contribuindo negativamente, se você não lidar com as coisas e com  as pessoas de forma pacífica, você estará contribuindo para os problemas do mundo, você não é parte da solução, mas sim parte do problema.
Que coisa maravilhosa que é ver que a forma mais natural de viver é estar conectado com quem você é. A forma anti-natural é estar desconectado. O mundo está essa bagunça tão grande porque  muitos milhões estão vivendo dessa forma anti-natural, em desconexão. Esse é o porquê de estarmos aqui.
Antes de eu me despedir, vamos fazer um breve momento de simples quietude.
Fique bem.
Fique presente.
E não se esqueça de que VOCÊ É."