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domingo, 15 de junho de 2014

A Roda Da Vida - 2

Na postagem A Roda da Vida falamos deste conceito no budismo. Hoje vamos continuar a partir de textos didáticos e simples dos lamas Samten e Chagdud compilados por Kalma Tenpa Dharguye:

A Roda da Vida (sânsc. Bhavachakra), também conhecida com a Roda da Existência, Roda do Devir e do Vir-a-ser, foi criada pela extinta escola Sarvastivada, precursora do buddhismo Mahayana. Este diagrama geralmente é encontrado nas portas de entrada dos monastérios tibetanos. Suas ilustrações representam simbolicamente a os doze elos da existência interdependente, os seis reinos da existência cíclica e os três venenos da mente. Segundo a tradição, a Roda da Vida foi desenhada pela primeira vez na época do Buda Shakyamuni. Depois de pedir um conselho ao Buda, o diagrama teria sido desenhado por ordem do rei Bimbisara de Magadha. Ele o enviou ao rei Udayana em retribuição a um manto de jóias preciosas que tinha recebido de presente. O rei Udayana teria atingido uma profunda realização espiritual após estudar este diagrama.

A assustadora figura que segura a roda é Yama, o demônio da morte da mitologia indiana. Aqui, sua terrível presença simboliza a impermanência; nenhum ser vivo pode escapar de suas garras. Entretanto, o Buda está flutuando no céu e apontando para a lua cheia; isto representa que os seus ensinamentos apontam o caminho para a liberação.

A maioria das pessoas vive negando a morte; praticantes budistas vivem com a constante consciência de sua existência. A morte, para eles, é uma poderosa diretriz para encontrar o significado essencial da vida. Na prática Vajrayana tibetana, os símbolos da morte — copas de crânio, tambores de crânio, trombetas de fêmur, malas [rosários] de osso, dançarinos em indumentárias que simbolizam esqueletos — nos relembram nitidamente de sua proximidade. A utilização de tais implementos durante os rituais não quer dizer que os praticantes Vajrayana sejam insensíveis à morte, ou que não se aflijam com a morte de familiares e amigos, porém o cheiro e a textura de ossos envelhecidos, por exemplo, evocam o pensamento: "Sim, eu também terminarei como ossos espalhados ou cinzas num cemitério. Possa eu usar bem este corpo e não desperdiçar o tempo que me resta". (Chagdud Khadro, Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana)

Na borda da roda, doze ilustrações representam os “Doze elos da existência condicionada”:

3 ELOS DA VIDA PASSADA:

  • Uma velha mulher cega, andando com uma bengala, representa a ausência de visão ou ignorância;
  • Um oleiro fazendo um pote representa as formações mentais;
  • Um macaco pulando de galho em galho representa a consciência;
7 ELOS DA VIDA ATUAL:

  • Um barco com duas pessoas representa o nome e forma;
  • Uma casa com seis janelas representa o conjunto dos seis sentidos;
  • Um casal se abraçando representa o contato;
  • Um homem ferido por uma flecha no olho representa a sensação;
  • Um homem tomando uma bebida representa o desejo;
  • Um homem ou um macaco agarrando uma fruta em uma árvore representa o apego;
  • Uma mulher grávida representa a existência;
2 ELOS DA VIDA FUTURA:

  • Uma mulher dando à luz representa o nascimento;
  • Uma pessoa carregando um cadáver representa o envelhecimento e morte.
A parte principal da roda é dividida em seis partes, representando os seis reinos da existência cíclica (sânsc. samsara).

Na parte de baixo, estão os três reinos inferiores:
  • seres dos infernos (sânsc. naraka, nairayika);
  • fantasmas famintos (ou espíritos carentes, sânsc. preta);
  • animais (sânsc. tiryak, tiryagyona).

Na parte de cima, estão os três reinos superiores:
  • deuses (sânsc. deva);
  • semideuses (ou deuses invejosos, titãs, sânsc. asura);
  • humanos (sânsc. manushya).

Existem seis reinos onde nós podemos ter renascimento, um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito de experiência específico, ainda assim podemos vivenciar em corpo humano — embora com muito menos intensidade — as experiências dos seis reinos. Por exemplo, o reino dos infernos é vivido por nós através da experiência de que todas as pessoas que nos cercam são ruins, o filho, o marido, o chefe... Para todo lado que olhamos as coisas são difíceis e só há sofrimento. Através da raiva e da aversão nos conectamos com esse reino. No reino dos seres famintos há uma experiência de carência incessante, eles têm sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Nos conectamos a essa experiência através da avareza e aquisitividade. Assim como nos infernos, esses seres também não praticam. Os seres nos infernos dizem: "estou sofrendo, tudo é horrível, como eu vou praticar?" Os seres famintos dizem "eu preciso disso e disso, como posso praticar?". Depois há o reino dos animais, eles não praticam porque tão logo eles estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Dharma.

Entre os reinos superiores, há os deuses. Não é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponde àqueles que andam de carro importado, jatinho, não tem problemas de dinheiro, desfrutam de todas felicidades do mundo material. Os deuses têm corpos específicos sutis, se deslocam no espaço e produzem benefícios para os seres humanos em dificuldades. O problema é que são benefícios condicionados, e não do tipo que produz liberação. Esse reino é o que os seres humanos buscam em seus sonhos, é a sua perdição... Vivemos almejando chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Nos conectamos com esse reino através do orgulho.

Já os semi-deuses têm poder, mas são competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. A conexão se dá através da inveja. Os deuses não praticam porque estão imersos em facilidades e felicidades, então, por quê praticar? Os semi-deuses, como estão sempre guerreando, também não têm tempo para praticar.
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)
  
Não é um processo que necessariamente precise ser monitorado. As ações se desenrolam do seu próprio modo, sem que ninguém controle o resultado. Não é como se alguém tivesse que contabilizar tudo para que cada qual fosse parar no reino certo, etc. As ações de cada ser determinam as experiências futuras desse ser. [...]

A idéia de que podemos vivenciar estes reinos de sofrimento que chamamos de infernos deixa muitas pessoas céticas ou enraivecidas. Elas não acreditam em inferno; pensam que este conceito não passa de uma tática que algumas religiões empregam para assustar e controlar as pessoas. Em certo sentido, é verdade que o inferno não existe. Se fizermos uso de toda a tecnologia do mundo para tentar chegar ao centro da Terra, nunca acharemos o inferno. No entanto, muitos seres estão sofrendo no reino dos infernos neste exato momento.

O inferno é o fluxo dos enganos e fantasias da mente, dos pensamentos e interações raivosos, e das palavras e ações nocivas que eles produzem. Se não forem controlados, não há como deixarmos de vivenciar o inferno. [...] Algumas pessoas experimentam o inferno mesmo enquanto contam com um corpo humano. Muitas delas ocupam nossos hospitais. [...] Poderíamos estar sentados no mesmo quarto que elas, e não enxergar nada do que sofrem. Ao mesmo tempo, podemos estar bem ao lado de um grande meditador que vivencia o céu, a terra pura, sem que nós mesmos enxerguemos isso. [...]

Embora grandes meditadores consigam vislumbrar outros reinos, nós não temos prova absoluta sequer de que o nosso mundo fenomênico humano exista além das nossas mentes individuais e coletivas. Ainda assim, da mesma forma que tomamos nossos sonhos como reais enquanto estamos dormindo, consideramos real o nosso reino humano. E os cinco outros reinos são tão reais para os seres que neles existem quanto a nossa experiência é para nós. O inferno parece tão real para um ser no inferno, o reino dos fantasmas famintos tão real para um fantasma faminto, quanto o reino humano para nós. Em última análise, o sofrimento provém não dos fenômenos desses reinos, mas do fato dos seres conferirem realidade a eles. Assim, não é contraditório dizer que nossa experiência é real ou verdadeira, e ao mesmo tempo falsa. Nem é contraditório dizer o mesmo de qualquer outro reino. Se insistirmos que o reino humano é real, então todos os demais reinos são reais, porque os seres que neles existem os experimentam como reais. [...]

Quando tomamos consciência do sofrimento e das limitações da existência cíclica, passamos a ter motivação para encontrar uma saída, da mesma forma que, quando nos damos conta de que estamos doentes, buscamos algum remédio. Ao compreender que a virtude e a não-virtude determinam se a nossa experiência será de felicidade ou tristeza, prazer ou dor, cabe-nos uma escolha: podemos mudar nossas ações e cultivar qualidades virtuosas, buscando a liberação para nós mesmos e para os outros seres, ou podemos continuar a criar não-virtude, perpetuando sofrimento sem fim.
 (Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista)
  
No centro da roda há três animais que representam os três venenos (sânsc. klesha) da mente, a origem dos seis reinos e dos doze elos: o desejo (apego) é representado por um galo; o ódio (aversão) é representado por uma serpente; e a ignorância (conhecimento errôneo), a fonte dos outros dois venenos, é representada por um porco ou javali. O galo e a serpente geralmente aparecem saindo da boca do porco, indicando que o apego e a aversão surgem da ignorância. Ao transcendermos estes três venenos, podemos nos libertar do sofrimento dos seis reinos e extinguir os doze elos que nos prendem a ele.

Ao redor do círculo com estes três animais, há dois semicírculos que representam a virtude e a não-virtude. O semicírculo negro representa o karma negativo, que conduz aos reinos inferiores. O semicírculo branco representa o karma positivo, que conduz aos reinos superiores.

Observando a roda da vida, é possível contemplar os quatro pensamentos que transformam a mente: a preciosidade do nascimento humano, a impermanência, o karma e o sofrimento. Esta contemplação é muito eficaz para despertar a compaixão, o amor, a alegria e a equanimidade.

Os humanos têm maior vantagem. As nossas felicidades e sofrimentos não são tão duradouras. E quando cruzamos de uma felicidade para uma infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso é a vida humana comum. Ainda assim ela é muito rara. Se compararmos a nossa vida com outros seres, eles são muito mais numerosos. O corpo humano é raro e improvável. Como nós somos geridos pelo karma, o nosso renascimento é construído pela nossa condição kármica. Nós não conseguimos dirigir esse processo. É como a tartaruga cega, que a cada cem anos vêm à superfície do oceano, de águas revoltas, onde há um aro boiando. O renascimento humano é tão improvável quanto esta tartaruga, justamente no momento em que sobe à superfície, conseguir colocar sua cabeça dentro do aro que estava boiando.

A nossa condição humana hoje é favorável. Os seres humanos têm a possibilidade de praticar. Temos a liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Temos tempo livre. Isso significa méritos. Já a "vida humana preciosa" tem características peculiares que transcendem em muito a vida humana típica. Quando vivemos em épocas em que os seres de luz não se manifestam, nos sentimos perdidos e a vida parece sem sentido. Na época atual os seres de sabedoria vieram; vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Esses ensinamentos chegaram até nós e estamos numa região onde esses ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade para ouvi-los. Dizem que há uma vida humana preciosa quando, além desses fatores, estamos engajados em transformar a nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob domínio de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos. Se não estamos sob essas condições, isso completa as características da vida humana preciosa. Se a vida humana é numerosa como as estrelas no céu noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto estrelas que são vistas no céu diurno. A pessoa está engajada em produzir benefícios para todos os seres.

O segundo pensamento é sobre a impermanência. Todas as coisas são impermanentes. Nós estamos sempre buscando o que é estável, mas nos enganamos. Onde estão os meus amigos "inseparáveis" da escola? A gente nem sabe onde eles estão hoje. Onde está a casa da nossa infância? A nossa mãe, pai, irmãos? O primeiro namorado, que foi maravilhoso, mas sumiu. A nossa experiência é de instabilidade e transformação constantes. Se diz no buddhismo que o planeta Terra vai desaparecer. O que dizer então das nossas pequenezas? Estamos aqui por um curto espaço. Esse ensinamento vem para aprendermos a olhar com o olho correto à cada momento. O olho incorreto é pensar que tudo é estável. Quando entendemos a preciosidade da nossa vida, e a usamos para produzir benefícios aos outros seres, este é o sinal de que os ensinamentos produziram as transformações que buscávamos. A seguir, o karma. Estamos sujeitos a impulsos internos com os quais não podemos lidar. Esses impulsos produzem as dez ações não-virtuosas ou as correspondentes dez ações virtuosas. As ações virtuosas vão produzir experiências favoráveis — isso também é karma, karma favorável ou positivo, mérito. São experiências de felicidade condicionada. O karma se manifesta em quatro níveis: imediato, a curto, médio e longo prazo. Por exemplo, se desejamos que alguém morra, naquele exato instante estamos esquecidos da nossa condição búddhica, luminosa, perfeita, e isso já é sofrimento. O de curto alcance, é que de novo e de novo vemos a morte de alguém como solução para nossos problemas. O de médio alcance vai se prolongar por essa vida e por outras: a pessoa não se sente digna, sente-se impura por dentro, inferior, e tem uma marca de aversão pelos outros.

Pior que pensar é planejar como fazer. Aí a perturbação se intensifica. A pessoa vai ter sentimentos mais perturbadores, pode começar a ter pesadelos. Se fez isso e executou, a experiência que é muito intensa, vai haver uma intranqüilidade muito grande. E se o ser morreu, é pior ainda. Ela vai se sentir perseguida. Por um longo tempo vai sofrer. Então temos essas quatro etapas kármicas que acompanham cada ação.

Nós temos uma multiplicidade de possibilidades tanto positivas quanto negativas. Tanto uma quanto outra são condicionadas, podem flutuar, estamos sempre pulando de um ponto para outro. Estamos presos nisso, é automático. Esses impulsos estão a nosso serviço, mas quando eles começam a andar por si, são karma. Temos vários mecanismos condicionados, o nosso cabelo cresce, as unhas crescem, sem que a gente faça alguma coisa. E por causa do karma surge a etapa seguinte, o quarto pensamento, que é o sofrimento. Sempre que operamos com referenciais duais, o sofrimento é inevitável. Aí surge o pensamento final que é: eu gostaria de me liberar disso, revelar minha natureza luminosa, usar de forma positiva as relações que estou vivendo, beneficiar os seres.

Em meio às confusões do mundo e tendências kármicas, toda vitória que podemos ter é como vitória no campo de futebol, frágil, impermanente. Agora mudamos, queremos descobrir a nossa natureza completa. Quando olhamos na vida, a nossa vontade de mudar é testada várias vezes, isso é prática espiritual. Aí nossa paisagem ao redor se transforma de samsara, lugar de sofrimento e enganos, em terra pura, que é onde praticamos, recebemos ensinamentos e nos sentimos protegidos pelos seres de sabedoria.

Os Budas olham o que chamamos de samsara e vêem a perfeição que ali existe. Somos como formigas num palácio, não conseguimos reconhecê-lo com nossos olhos de formiga. Há, então, uma longa etapa de transformação dos nossos olhos, até que possamos reconhecê-lo. Em geral, não conseguimos perceber o valor do benefício real que estamos recebendo. Paralelamente ao processo de transformação das tendências kármicas, o Buda ensinou a prática ininterrupta das "quatro qualidades incomensuráveis", que são o método positivo de manifestação no cotidiano solucionando as confusões e conflitos.

A primeira é a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de ‘pena’. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações. A segunda é o amor, o desejo que o outro seja feliz, completamente. Não exclui ex-maridos, ex-esposas, ex-sócios... Depois a alegria, a capacidade de se alegrar com as alegrias e vitórias dos outros, pequenas ou grandes. É um poderoso antídoto contra a inveja. Finalmente a equanimidade: perceber as flutuações das alegrias e tristezas da vida; num momento se tem uma grande alegria, em outro aquilo mesmo vira uma grande tristeza. Surge uma serenidade estável frente a essas flutuações e uma fé permanente, inabalável na natureza de todos os Buddhas, que é a sua própria natureza.

O Buddha ensinou também os meios de produzir felicidade nas relações humanas: casamento, namoro, filhos, trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao invés de pensar ‘o quê vou obter do outro’, pensar ‘o que posso oferecer’. Alegrar-se em oferecer! Se estivermos na dependência do comportamento do outro para obter felicidade, eventualmente pode até funcionar, mas quando surgir a impermanência e o outro flutuar, entramos em crise. S.S. o 14º Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz, sempre brinca, ‘que tipo de amor é o de vocês, aquele que só existe se o outro sorrir?’ Esse tipo de amor está baseado em quanto estamos recebendo e, por isso, é frágil. Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana como caminho espiritual, superando os conflitos internos e trazendo benefícios a todos os seres. Alegria!
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)

Lembre-se que, nos infernos inferiores, os seres queimam como o sol, e que nos infernos superiores, eles congelam. Lembre-se de como os fantasmas e espíritos sofrem com a fome, a sede e o ambiente. Lembre-se de como os animais sofrem as conseqüências de sua estupidez. Abandone as causas kármicas de tais misérias e cultive as causas da alegria. A vida humana é rara e preciosa; não faça dela uma causa para o sofrimento. Tome cuidado; use-a bem.
(Nagarjuna, citado em Path to Enlightenment)

Adaptado da página: www.dharmanet.com.br


domingo, 6 de outubro de 2013

Vipassana

Kiran Bedi
Quem leu a postagem  Ho´oponopono do escritor Joe Vitale, viu a experiência famosa de como um médico havaiano da tradição Kahuna conseguiu curar um presídio inteiro de criminosos perigosos no Havaí através de um processo xamânico de cura ligado ao perdão.
Hoje vamos mostrar um processo com resultados semelhantes aplicado em um presídio da Índia mas proveniente de uma outra tradição oriental, o budismo. É chamado Vipassana e trata-se de uma meditação que orienta os presidiários, em grandes grupos, a ficarem de frente, na meditação, com seus demônios durante 10 dias inicialmente. Depois disso a prática torna-se regular. O resultado foi tão efetivo que é aplicado hoje em dia em muitos presídios e está revolucionando o sistema prisional indiano habitualmente agressivo, cruel e corrupto tanto ou mais que os outros países do mundo.
Vipassana, que significa “ver as coisas como realmente são”, é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia. Foi redescoberta por Gautama Buda há mais de 2500 anos e ensinada por ele como um remédio universal para males universais, uma “Arte de Viver”.
Essa técnica visa a total erradicação das impurezas mentais e a resultante suprema felicidade da liberação completa. A cura, não a mera cura de doenças, mas a cura essencial do sofrimento humano, é o seu propósito.
Vipassana é um caminho de auto-transformação que utiliza a auto-observação. Foca a profunda interconexão entre mente e corpo, que pode ser experimentada diretamente pela atenção disciplinada às sensações físicas, que, por sua vez, constituem a vida do corpo e continuamente se interconectam e permitem a vida da mente. É essa jornada de autoconhecimento baseada na observação — que objetiva a raiz comum da mente e do corpo — a responsável pela dissolução das impurezas mentais, resultando numa mente em equilíbrio, cheia de amor e compaixão.
As leis científicas que regulam os pensamentos, sentimentos, julgamentos e sensações se tornam claras. Pela experiência direta, compreende-se a natureza de como se progride ou regride, como se produz ou se liberta do sofrimento. A vida começa a se caracterizar por consciência, libertação de ilusões, autocontrole e paz cada vez maiores.
É o mais ambicioso projeto na historia do sistema carcerário indiano. Isso pode modificar todo sistema prisional do planeta. É a primeira oportunidade onde Vipassana é usado no sistema penitenciário e mostrou grande resultado. O curso leva 10 dias. 10 dias é o básico, é a mínima quantidade de tempo necessário para obter a faísca que irá acender a vela, e algumas vezes aquela faísca não acende; necessita mais algumas vezes e aos poucos aparece uma pequena chama que acaba se expandindo. Os detentos se modificaram visivelmente. Há um reconhecimento de porque estão ali na prisão, porque eles mesmos causaram isso a si mesmos. Os sentimentos de raiva, de vingança, diminuem aos poucos até desaparecerem. Toda mudança leva tempo. Podem ser chamados de monges em vez de prisioneiros,  que eram. Não é fácil. As regras do Vipassana são mais rígidas que as regras da prisão. Inicialmente os presos não estão receptivos para esse curso Mas agora o governo central encoraja a prática do Vipassana em todas as penitenciarias na índia. As pessoas que estão sendo libertadas não mais voltam, porque não está havendo retrocesso. A técnica é eficiente, e será eficiente em qualquer lugar do mundo. Nos presídios no ocidente e no oriente, os seres humanos são iguais. As tradições, as culturas são diferentes mas o ser humano não é diferente. Suas atitudes são as mesmas.
O projeto Vipassana continua se expandindo nos presídios de toda índia. Agora são mantidos cursos nas penitenciárias em Taiwan e nos Estados Unidos com resultados impressionantes 
A iniciadora do processo foi uma mulher indiana, Kiran Bedi, ativista social, ex-tenista e ex-policial, e administradora de um presídio. Frente à dificuldade de resolver os problemas, ela não teve medo de aplicar uma mescla de criatividade, bom senso  e tradição a esse dilema mundial que é a aplicação de penas aos criminosos com vistas à recuperação para que não continuem a delinqüir seja na prisão ou quando voltarem à liberdade após o cumprimento das penas. Esse “não delinqüir” está ligado não só à segurança da sociedade que se quer proteger, mas principalmente à recuperação individual de cada um destes seres para interromper o karma inevitável gerado por suas ações no Samsara, esse difícil mundo de sofrimento contínuo e circular em que todos vivemos. Essa é a vantagem de se nascer em um país de tradição milenar como a Índia, apesar dos contrastes.
Optamos por pouco texto e mais imagem na publicação. É a imagem de um filme fascinante, instrutivo e cheio de compaixão como vocês poderão ver. Vamos lá:

Recomendamos  aos interessados a consulta do termo Vipassana no Google ou outro mecanismo de pesquisa.

domingo, 22 de setembro de 2013

DNA, Karma e Justiça

 Um dos problemas mais difíceis que as pessoas enfrentam no plano físico,  material, em que vivemos é a compreensão do conceito de Direito. A amplitude dele esbarra em outros conceitos de alta complexidade ligados à convivência entre os seres humanos em sociedade. Para ilustrar, estamos vivendo exatamente agora um período turbulento no Brasil onde as instituições estão sendo questionadas nesse aspecto: corrupção política desenfreada, injustiças, sarcasmo das autoridades, inversão de valores, crimes, julgamentos controversos, enfim...
Quem recebeu em casa dos pais as noções básicas  de Direito se pergunta: “qual é o objetivo do Direito na sociedade?” Quem estudou um pouco de Direito e/ou tem bom-senso responde: “É fazer Justiça, é claro”. A cada desvio de conduta equivale uma pena e ela deve ser aplicada para que o Direito faça Justiça, não é? Mas não é isso o que se vê por aí. Porquê? 
 Essa contradição de que estamos falando ocorre no plano material, físico, mas já percebemos que ela não se resolve nesse plano.  O Direito deveria produzir a Justiça, mas o problema é que atrás de tudo está o homem. A História está repleta dessa falta de sintonia entre o Direito e a Justiça. Basta olhar agora para o mundo em torno para vermos como é verdadeira essa afirmação. A mídia só fala disso. Do crime e da falta de castigo, reafirmando consistentemente a constatação de que o crime compensa. Essa é a instância do direito e da Justiça no plano físico. E não adianta espernear. A questão não se resolve nesse plano, pelo menos não no nível de evolução em que nos humanos nos encontramos. A conta “não fecha”.
Se vivemos num cosmos em vez de caos, a única explicação para esse aparente contra-senso é que a ação e reação não se equalizam neste plano mas numa instância que normalmente não estamos vendo, e que não é essa do plano físico. Há uma outra instância fora do plano material, portanto não-física, mas metafísica, como diria Sócrates (ao organizar os assuntos de sua biblioteca) onde o saldo dá zero entre a ação no plano físico e a reação que “faz Justiça”. Incorporando-se o resultado desse contínuo aprendizado da experiência nos dois níveis, isso permite a evolução para cada um de nós, mas aos poucos num ciclo de muitas existências . Se não for assim tudo no plano físico parece injusto, tudo se permite, tudo se justifica, e só resta apertar a tecla do “dane-se”, para se usar uma expressão um pouco mais educada...
Os casos típicos extremos que nos deixam atônitos são os dos crimes contra a humanidade como foram os de Hitler, Stalin, a Santa Inquisição e modernamente outros como os contra o ambiente. Como a Humanidade abordou essa contradição na História conhecida? Ou seja, a contradição do fato de a ação estar num nível do tempo e a reação aparentemente estar em outro? A dívida e o pagamento não se encontram, pô!
Na  compreensão da tal instância metafísica temos uma contribuição interessante da tradição do Budismo, que nos dá uma certa tranqüilidade por não ser uma religião, acompanhada com seu tradicional enxoval de dogmas e condicionamentos.
O Budismo cujas verdades foram difundidas por um homem que obteve a Compreensão através da Lucidez, obtida pelo exercício persistente do Vazio da Mente no Agora, tem uma visão simples sobre o assunto, um conceito chamado Karma, ou seja: eu sou o resultado de uma sequência interminável de vidas como as contas de um colar, entrelaçada com as vidas da minha família, amigos, inimigos,  nação, raça, e toda a Humanidade. O Cristianismo oficial desconversa sobre o assunto, mas curiosamente fala em “pecado original”. Original de onde? Usando-se  o próprio raciocínio e linguagem cristãos, se há uma origem do “pecado” pelo qual estamos pagando nesta vida, há o pressuposto claro de que essa origem está em outro ciclo anterior da existência da vítima (no caso, nós). Em resumo isso é uma outra forma de o cristianismo aceitar disfarçadamente o conceito de reencarnação. 
Particularmente eu acredito no ciclo de vidas mas me incomoda o conceito da reencarnação, mas por outra razão: é porque o ser humano é malandro pela própria natureza  e deixa para depois a sua busca interior que deveria ocorrer no Agora, já que existe essa possibilidade de adiar essa tarefa dura e buscar a si mesmo mais tarde, em outra vida mais fácil que esta, e quando estiver mais disposto.
Aliás sobre isso convém saber que a Reencarnação, que era antes aceita em todas as tradições orientais passou a ser condenada pela Igreja Católica após o Concílio de Constantinopla – 553 D.C, pois até meados do século VI, todo o Cristianismo aceitava a Reencarnação que a cultura religiosa oriental já proclamava há milênios antes da era cristã, como fato incontestável, norteador dos princípios da Justiça Universal, que dá oportunidade ao homem para rever e pagar seus erros e recomeçar o trabalho de sua regeneração, em nova existência.
Aconteceu, porém, que o 2º Concílio de Constantinopla , atual Istambul, na Turquia, em decisão política, para atender exigências do Império Bizantino, resolveu abolir tal convicção,  substituindo-a pela ressurreição. É que Teodora, esposa do Imperador Justiniano, escravocrata e cruel, temia retornar ao mundo, como uma escrava negra e, por isso, pressionou o papa da época, Virgílio, eleito através de criminosa intervenção do general Belisário, para quem os desejos de Teodora eram lei... Aí tem coisa cumpadre.
As decisões do Concílio condenaram, inclusive, a reencarnação admitida pelo próprio Cristo, em várias passagens do Evangelho, sobretudo quando identificou em João Batista o Espírito do profeta Elias, falecido séculos antes, e que deveria voltar como precursor do Messias (Mateus 11:14 e Malaquias 4:5). Qualquer semelhança com a reencarnação dos Dalai Lamas não é mera coincidência. 
Muito aqui entre nós, foi também um concílio que decidiu escolher entre dezenas de evangelhos existentes, os 4 únicos que estão aí (Mateus, Marcos, Lucas e João) e descartou todos os outros, alguns dos quais estão voltando.
Mas voltando ao Budismo, cada ação no Samsara, este mundo de sofrimento, seja na vigília ou no sonho, gera um karma a menos que o “desinfeliz” tenha apreendido persistentemente a agir sem gerar karma. Posto isto, quando numa outra “encadernação” do ciclo de evolução (ou involução, se for o caso) a  conta chega, o réu se depara com a contradição de uma pena para si sem se lembrar do crime que cometeu. Dureza, cumpadre.
Quando nos deparamos com as situações de injustiça veiculadas na mídia ou ocorridas conosco precisamos de muita lucidez para acatarmos a realidade com o espírito aberto. Isso não significa desanimadamente “deixar tudo na mão do destino”. Devemos sim é usar a energia que se levanta com razão dentro da gente para construir um caminho mais compassivo para com o semelhante e a humanidade, mas sem nos identificarmos apegadamente com o resultado da ação, e sem culparmos os outros pelo fracasso. se observarmos bem, para muitos dos seres há casos em que o karma pessoal é não conseguir resultado nas ações e conviver portanto com a aceitação da impotência. A Astrologia kármica da obra de Martin Schulman mostra isso de uma maneira clara e pedagógica.
Buda dizia que “não existe a vítima e o réu. A vítima é o réu, e o réu é a vítima”. E também o juiz. É duro de engolir. 
Essa sequência de contas do colar da reencarnação não é reconhecida como um conjunto coerente de aprendizado pelo ser humano adormecido. Ele acha que caiu de paraquedas nessa vida, nessa dimensão e, deslumbrado, quer desfrutar. Tadinho.
Com o grande desenvolvimento atual da ciência, principalmente da medicina e dentro dela principalmente a medicina genética, que está decodificando o complexo  genoma humano e animal, alguém diria, para contestar: “Não existe essa coisa de reencarnação. O problema é que as pessoas são condicionadas pelo DNA”. Elas estão certas mas não sabem os detalhes,  o porquê estão certas: O DNA é o karma! O Karma por escrito.O Karma registrado em Akasha. E também nas nossas células do corpo, que portanto fazem parte intrínseca de Akasha.
O DNA é um aspecto pelo qual o Karma, que é só uma abstração na nossa mente, se concretiza física e quimicamente numa sequência detectável pelos instrumentos científicos e se apresenta como aquela linda forma helicoidal citada por Fibonacci, aliás presente em toda vida orgânica da terra, na Matemática, Física, Química, Biologia e nos símbolos esotéricos das tradições como o caduceu de Mercúrio, a serpente da Kundalini e outros. É um presente poder ver o Karma na sua forma física de DNA: tudo o que fizemos, juntamente com nossos pais e o eixo de nossos ancestrais está lá gravado e nos influenciando em cada existência, quer a gente se lembre ou não. 
A idéia do Juizo Final que temos está equivocada: não há um julgamento num certo dia ou numa certa situação, mas uma avaliação on line, em tempo real, feita por cada um de nós mesmos, contínuamente, conforme nossas ações e sonhos vão gerando karma. O julgamento é feito por nós mesmos, pois nós ajudamos a criar essa sinfonia toda, principalmente a partitura que individualmente nos compete dentro da sinfonia. Aquele que avalia e julga não é um Deus que está dentro de nós mesmos, mas sim É NÓS MESMOS, mas não conseguimos ter acesso a ele porque falta a ponte, aquela que temos que construir no Agora. 
Como acenamos na postagem  O Quinto Elemento - Akasha, que interessante seria comparar o nosso Karma com os registros akáshicos do que fizemos em nossas vidas passadas e ter um vislumbre de Causa e Efeito. Isso daria a compreensão de um Direito que transcende a fronteira do plano físico e nos remete para uma Justiça mais abrangente, cósmica, algo como uma Justiça  Atemporal e Universal, aliás feita por cada um de nós mesmos para julgar a si mesmo. 
Se for assim, vamos parar de reclamar, aceitar o peso da mochila e fazer o novo caminho no Agora. Agora.

domingo, 4 de novembro de 2012

Os ciganos, Tarot, Quiromancia, Mistério

Índia - O Berço Cigano
 Já que este blog tem uma afinidade natural com o Mistério, não poderia deixar de falar do povo cigano, envolto desde a aurora dos tempos numa aura de enigmas, segredo e magia . Dizem que foram os responsáveis pela difusão do tarot no mundo inteiro. Dizem. Se for verdade, é um bom cartão de visita.
Cigano quer dizer "intocável". Vem do grego athinganoi, que se transformou em atsigan e tsigane. E reflete a relativa  incomunicabilidade que existiu entre esse povo e os demais. Na Espanha, seu nome é gitano, resquício da crença em sua origem egípcia (gitano vem de egiptano), o que também acontece com a denominação húngara de Faraonemtség, que quer dizer “raça do faraó”. A crença foi disseminada pelos próprios ciganos, que, ao chegarem à Europa, se apresentavam como nobres egípcios. Mas, na verdade, os ciganos têm ascendência hindu.

Semelhanças indicam a origem
Ruppa, em prakiti (dialeto hindu da casta Domba), significa prata. Rup, em romani (língua cigana), quer dizer a mesma coisa.  A coincidência ocorre entre muitas outras palavras das linguas prakiti e romani. Inclusive Roma, que os ciganos usam para nomear-se, é muito parecido com Domba, nome da casta hindu.
Não haveria parentesco entre os dois povos?  O costume das danças e do canto, a estatura média, a cor morena, os cabelos e olhos negros são comuns aos dois povos. Todos esses indícios respondem de modo afirmativo à interrogação.

Migração
O ramo Domba (que se transformaria nos ciganos) deslocou-se do centro da Índia para o noroeste, no séc. I a.C. Quatro séculos depois, migrava 
O Caminho Cigano no Mundo
novamente, dessa vez para o oeste em direção a Pérsia. Lá permaneceu até a invasão mongol, verificada no século XIII. Então, dividiu-se em dois grupos, dos quais um rumou para a Grécia, através da Armênia, e o outro para a Síria, a Palestina e o Egito. Os primeiros acabaram por atravessar o Danúbio, quando os turcos invadiram a Europa Oriental (século XIV). A partir de então, até por volta de 1460, difundiram-se pela Hungria, Áustria, Boêmia (parte da atual Checoslováquia), Hamburgo (atual Alemanha), França e Suíça.
 Apesar de se declararem nobres, eram escravizados logo que chegavam a esses países. Só a partir de 1496 puderam usufruir de alguma liberdade. O primeiro a favorecê-los foi Vladislau II, rei da Hungria, que lhes concedeu livre trânsito em território húngaro. 

Reações e perseguições
Da segunda metade do século XVI em diante, as coisas ficaram piores: começou a perseguição aos ciganos, primeiro movida pelos camponeses, depois pelos prefeitos das cidades e até pelos reis. No Ducado de Milão, em 1663, foi publicado um édito que proibia a entrada dos ciganos nos domínios milaneses, sob pena de sete anos de cárcere para os homens e de uma orelha cortada para as mulheres. Maria Teresa, da Áustria, em 1768 tornou ilegal a permanência de ciganos em seu país a menos que eles morassem em casas, trajassem à maneira dos camponeses e trabalhassem em ofícios definidos. Mas nem em Milão, nem na Áustria, nem no resto da Europa eles mudaram seu modo de vida. A América e a Austrália só os receberam na segunda metade do século XX.

Usos e costumes
Tradicionalmente, os ciganos levam vida nômade, deslocando-se em grupos de tamanhos diversos, compostos por um conjunto de núcleos familiares mais ou menos extensos, sob a liderança de um chefe vitalício escolhido. A maioria dos ciganos, até poucas décadas atrás, ainda formavam caravanas puxadas por cavalos; abrigavam-se em tendas, pedreiras e minas. Em fogueira, ao ar livre, cozinhavam seus frangos, ovos e vegetais. Seus alimentos, afirmam os comentaristas mais críticos, eram "quase sempre roubados, já que eles não plantam, nem criam animais para o abate". "Sua profissão é a mentira", diz preconceituosamente Cervantes. "Mas há uma lei cigana que proíbe roubar... alguém mais pobre." 
Viviam principalmente da criação e comércio de cavalos, do artesanato em metal, vime e madeira, e das artes divinatórias, como cartomancia e quiromancia. A música dos ciganos, executada em público apenas pelos homens, permanece muito popular e é uma atividade rendosa na Europa Central. Não abandonam a quiromancia, embora professem a religião dominante no país em que se instalam.
As adivinhações têm terminologia própria e algumas vezes utilizam as cartas como acessório. Através dos ciganos, o baralho (tarot) foi difundido pela Europa. Assimilam facilmente as artes do lugar onde habitam, em especial a música e as danças folclóricas. Interpretam-nas com um estilo próprio, que inclui o uso do violino, seu instrumento por excelência. Cada grupo tem um chefe natural, escolhido, não hereditário.
Na família, o membro central é a mãe, que exerce autoridade sobre os filhos e é dona do patrimônio. O mesmo sistema se aplica à tribo, que tem uma mãe tribal, a puri dai,  guardiã do código moral.  Os infratores são julgados por um júri de "condes". E, nos casos mais graves, a pena é o banimento da tribo. Alguns estudos dão nuances diferentes da organização social dos ciganos, possivelmente em razão da diversidade dos grupos estudados. Quanto à posição das mulheres dizem que "segundo os costumes ciganos, as mulheres devem subserviência aos homens, e as mulheres casadas sempre usam um lenço para cobrir a cabeça". 

A questão política
Várias foram as tentativas de agrupar os ciganos sob o poder de um só governante. Uma delas foi o aparecimento da dinastia Kwick, inaugurada por Gregory Kwick, cigano polonês que, por volta de 1883, se declarou "rei dos ciganos". Durante seu reinado, realizou-se, em 1909, o único recenseamento cigano de que se tem notícia; o censo informou que havia então na Europa 600 mil ciganos. Gregory abdicou em 1930 em favor de seu filho Michael II, que, após sete anos de governo, foi sucedido por Janusz I. Este proclamou-se administrador dos ciganos da Hungria, Espanha, Alemanha, Bulgária, Iugoslávia e Polônia. Planejou ir a Genebra reivindicar um país para seu povo, mas o projeto foi vetado por uma assembléia cigana. Seu "reinado" durou apenas um ano. Sucedeu-o Mathew Kwick, do qual não se tem maiores 
Em 1933, foi cogitada, sem êxito, a possibilidade de agrupar todos os ciganos do mundo (aproximadamente 2 milhões) nas ilhas da Polinésia, com subvenção da Liga das Nações. A idéia não se concretizou. Pouco depois, eclodiu a II Guerra Mundial (1939) e cerca de 20 mil ciganos foram exterminados nos campos de concentração. 
Os regimes comunistas da Europa Oriental do pós-guerra forçaram os ciganos a se fixarem em cidades industriais e residirem em grandes edifícios de apartamentos, desmembrando os grupos familiares extensos e obrigando-os a trabalhar em fábricas, fazendo-os abandonar o modo de vida tradicional.
A tendência dos governos pós-comunistas mais recentes foi permitir aos ciganos que se organizassem politicamente para encontrar os meios de reivindicar seus direitos como minoria étnica. 
Formaram-se associações e grupos de pressão, como é o caso dos phralip (em romani, "irmandade") da Hungria, para lutar por escolas especiais e adoção de livros pedagógicos na língua romani. A grande maioria do povo cigano, ainda enfrenta discriminação social, está sujeita a más condições habitacionais, desemprego e expectativa de vida mais baixa que a de seus compatriotas.
Hoje, eles estão espalhados em quase todo o mundo. E alguns relatos dão conta da inevitável mudança de costumes. "Cigano dos Estados Unidos não viaja mais de carroça: usa trailer motorizado; nem prepara mais sua refeição: come enlatados." 
Na União Soviética e na Iugoslávia, são publicados jornais em língua cigana. A Sociedade Cigana Lore, na Inglaterra, preocupa-se em recolher todas as informações possíveis sobre esse povo. A biblioteca da Universidade de Liverpool, também na Inglaterra, tem em seu acervo um conjunto de livros sobre os ciganos. Assim, esse povo se torna cada vez menos estranho aos demais.

Relato de Sarani Barrios: os ciganos Dohm 
O relato de Sarani Barrios sobre a cultura cigana do grupo Dohm foi compilado por Bete Torii a partir de entrevista realizada no segundo semestre de 2008, acrescida de referências feitas por Sarani no correr dos cursos que, no mesmo período, desenvolveu com o Clube do Tarô. Conhecer um pouco essa base cultural ajuda a compreender a atitude e o modo como os ciganos Dohm praticam as mancias.
Foi encantador entrever a força comunitária dos bandos, o processo orgânico e direto de transmissão do conhecimento tradicional, acompanhado do bom humor espontâneo que se fazia nos grupos ao tratar de certas particularidades da cultura Dohm, como foi o caso, por exemplo, da autoridade matriarcal, da magia, da sedução.
É muito confortador reconhecer a existência discreta mas muito viva, neste mundo e neste Brasil, de núcleos guiados pela solidariedade e pela sabedoria tradicional. Que suas boas vibrações alcancem a todos nós. (C.K.R.)

Apresentação
"Sou cigana  dohm, de pai e mãe ciganos. Meu nome de nascimento é Sarani Barrios, mas uso um nome brasileiro na minha vida profissional porque, assim como árabes ou outros povos que de alguma forma sofrem algum tipo de preconceito, recebemos um nome gaidji (não cigano) para não sermos pré-julgados na vida masbarra (fora do grupo). Já vivi em acampamentos, em vários países, e agora vivo em um apartamento. Mas continuo tendo estreito contato com o acampamento dohm mais próximo de São Paulo, que fica em Jundiaí, em uma propriedade particular. Levo uma vida normal, trabalhando e interagindo com gaidjis, mas mantenho hábitos que são exclusivos da minha cultura, como me basear pela Lua e louvá-la, prestar atenção aos sinais da Natureza e às estações do ano etc.

Povo cigano
Somos um povo muito antigo, e nos dividimos há pouco mais de 5.200 anos em dois grandes grupos: dohm e rohm. No Brasil, há uma concentração muito maior de rohm. Somos muito diferentes,  inclusive fisicamente. O dohm tem pele muito clara, cabelos escuros, olhos escuros, nariz sempre reto. O rohm tem cabelos e olhos claros, pele morena, nariz pequeno. Outra diferença é que, enquanto os rohm vivem em acampamentos pequenos, que migram juntos (o grupo todo) e acampam em áreas públicas ou livres, os dohm têm acampamentos fixos em áreas compradas e muradas, com infraestrutura construída para durar – e quem migra são as pessoas individualmente, conforme seu projeto de vida.
 Nosso ano novo é no dia 21 de maio. Nossa língua é o romani, que lembra o húngaro; não a ensinamos a nenhum gaidji. Como nossa tradição é oral, para pertencer ao povo cigano é necessário nascer e ser educado na nossa cultura. Ciganos nascem de ciganas; não há tradição passada apenas por pai cigano. Há aprendizados que não são transmitidos e outros podem ser levados adiante.  Aprendemos a leitura do tarot e a quiromancia desde a infância. Aprendemos a cultivar a beleza em nós mesmos e em tudo que nos rodeia. Essa é nossa tônica.

A posição da mulher e alguns costumes
Mulher Cigana - Espanha
Na vida daimarra (dentro do grupo) as mulheres são soberanas. Nossa sociedade é matriarcal e a mulher é o elemento mais importante, pois detém o poder de gerar homens e por isso desenvolve os elos de conexão com a natureza e os elementos fundamentais da vida. A essa força, chamamos dahom, a intuição. Toda mulher é vista dentro do acampamento como um ser superior. Tanto por uma questão fisiológica, como de delicadeza, de vivência, de sabedoria. 
Nós somos consideradas mais sábias e os homens aceitam isso com reverência, não existe uma resistência a nos aceitar. Tanto que no casamento cigano a mulher pode devolver o marido, se ela não gostar. O ideal para o casamento é juntar potenciais, então o marido tem que corresponder, se não correspondeu, a mulher devolve. 
A questão do dote da cigana no casamento é uma lenda; o “dote” dela é o que ela tem para oferecer por suas qualidades e sua educação. O nosso legado é justamente contra o apego material, que para nós não faz sentido. Nós achamos que alguém que precisa de jóias ou de uma bolsa de cinco mil reais tem um grande problema. Para nós o adorno é apreciado no sentido de criar beleza ao redor, mas não pelo valor da jóia em si. 
A história da virgindade das ciganas também é um mito. Nos acampamentos existe namoro, e a moça é estimulada a viver a primeira relação sexual com o homem de quem gosta, justamente para ter a vivência: como é que você vai casar com alguém se não sabe se combina com ele?  A sexualidade é vista sem tabu e também sem supervalorização. Por exemplo, quando eu tinha quatro anos minha avó já me ensinava como tocar um homem. Ela ensinava a delicadeza do toque feminino, dizendo: “um homem tem que ser tocado como se toca a superfície de um lago, sem formar ondas” – e isso era feito de uma maneira boa, sem erotismo gratuito. Quando aprendemos a dançar, aprendemos danças que são feitas para o homem – para que ele conheça as nossas delicadezas e o controle que temos sobre o corpo. Se eu tiver controle sobre o meu corpo eu vou ser uma boa mãe, não vou me deixar levar pela emoção. Se eu consigo seduzi-lo pelo olhar, eu sou franca com ele...     Esse é o nosso aprendizado, e é por isso que a mulher é considerada tão superior, porque ela tem um aparato que um homem não tem. A fisiologia feminina é muito estudada dentro do acampamento e a primeira menstruação é uma festa, porque é a abertura de outro canal. 
Uma menina que menstruou tem mais conhecimento para a leitura de qualquer mancia do que uma que ainda não menstruou, pois abre-se uma outra percepção: ela entra em mais um ciclo, entra em harmonia com a natureza. É um florescer.
Não existe cigana fumante, porque a gente não consegue entender o cheiro do cigarro, é algo impensável. Mulher tem que ser cheirosa, e não pode ser cheirosa uma mulher que fuma. Cigana não tem roupa de ficar em casa, não anda de chinelo, não anda despenteada. A gente nem olha no espelho se estiver desarrumada. Mulheres andam arrumadas sempre, no acampamento, e o contrário é uma vergonha, porque significa que ela está deixando de valorizar o fato de ser mulher. 
A roupa feminina tem toda uma simbologia, e a gente se rodeia de sedas de toque feminino, de flores perfumadas etc. A mulher cigana tem até que tomar cuidado fora do acampamento, porque para ela a sedução é uma coisa muito fácil e é necessário restringi-la ao que vale a pena. A gente aprende a cozinhar, aprende massagem, aprende tudo do universo feminino, não tem meio termo. E, aliás, eu não conheço homossexuais nos acampamentos. Possivelmente porque é tão clara a diferença e é tão cheio de orgulho o homem ser homem e a mulher ser mulher, que não existe a necessidade ou a vontade de experimentar o outro mundo. 
 Assim também, os relacionamentos são mais duradouros porque os ritos de passagem são claros. O adolescente não é rebelde, porque existe um rito de passagem da infância para a idade adulta. Não há dúvida ou necessidade de afirmação: ou você é adulto ou não é adulto. Tudo é tão claro e tão celebrado, que dá uma tranqüilidade para as pessoas viverem a vida sem se preocuparem com auto-afirmações, cada um sabe em que estágio da vida está. E cada momento é visto como uma festa, não existe melhor ou pior, existe um momento diferente do outro.

Destino, talento, felicidade
Os ciganos veem o destino da seguinte maneira: cada um de nós nasce com a missão de ir de A até B; esse destino, diferente para cada um, pode ser grandioso ou simples. Uma outra maneira de colocar a idéia é dizer que cada um de nós nasce com um dom ou talento que orienta o caminho que tem a percorrer.
Em romani, existe uma palavra que significa ao mesmo tempo dom e destino. Isso explica tudo: são a mesma coisa.. O dom é aquilo que fazemos com facilidade. Se você não sabe com que finalidade está no mundo, uma indicação é: o que você faz que lhe é fácil? O que você faz fácil é o seu talento e, portanto, é o seu destino. Se formos espertos, perceberemos logo nosso dom e faremos esse caminho em linha reta. Se não prestarmos atenção, ficaremos dando voltas e deixaremos coisas a resolver em outra vida. Há religiões que identificam isso como karma. 
Por que fazer coisas difíceis se o caminho da facilidade é o mais agradável? Uma das coisas do mundo de fora que nós ciganos não entendemos é: por que as pessoas dificultam tanto a vida? Se as suas habilidades e tudo aquilo que você faz sem esforço e com alegria constituem o seu destino, quanto mais você pratica sua alegria no dia a dia, mais perto você está de cumprir a sua missão, e quanto mais rápido você cumpre a sua missão, mais tempo vai ter para fazer outras coisas. Ser feliz é a grande contribuição que você pode dar para o mundo e a maior que pode dar a você mesmo. Esse é o destino: ser feliz, de forma simples.

Descobertas
Aqui entra a quiromancia, pois as mãos mostram quais são as nossas habilidades e quais os campos que devemos explorar. A expressão “ver o destino nas mãos” não se refere a ver o futuro, mas sim a identificar habilidades e fraquezas, pois isso abre um leque de coisas a serem feitas e mostra um caminho. Seu destino é o seu talento, é onde você vai chegar se prestar atenção a si mesmo. 
Para os ciganos, é muito mais interessante ser plural do que especialista. Quando a gente percebe que está se tornando muito especialista em alguma coisa, sente que está fechando as janelas e então vai fazer uma coisa oposta ou tenta mudar de área, para desenvolver as próprias capacidades e o autoconhecimento. O que mais eu sei fazer bem? Será que eu só sei fazer isso? É muito triste a gente achar que só tem um talento. Às vezes a gente se sente assim e a matriarca começa a fazer perguntas “qual foi a última coisa que você fez e que achou legal? quem você conhece que faz alguma coisa que você gostaria de fazer? como seria o seu dia se você não fosse quem é? onde você estaria agora se pudesse num clique aparecer em qualquer lugar? Se você fosse criança, se fosse velho, se fosse rico, se fosse pobre, se morasse na Bélgica, se você...”
Essa é uma prática que começa com as crianças, nas rodas. Por que é assim que a gente vai identificar os talentos. Às vezes a matriarca anda pelo acampamento e faz  perguntas às crianças, do tipo “onde você gostaria de estar agora?”. E a espontaneidade da resposta vai mostrando tendências.  
A gente treina isso e não se permite perder a espontaneidade quando é adulto. Existe um jogo entre os adultos, no acampamento. Quando duas pessoas se cruzam, caminhando, uma lança uma pergunta à outra: “o filme que você mais gostou, 3 segundos”; “um livro que você quer ler”; “uma pessoa que você quer conhecer”; e assim por diante. É uma maneira de a gente se conhecer, de olhar para dentro, de perceber as próprias inclinações.

O aprendizado
Procuramos identificar na criança os talentos naturais, para que ela não sofra para conquistar a sua missão. Se a vida da criança está difícil é porque ela – ou a gente, como educador – não está conseguindo identificar o que ela faz de modo fácil. Nossa perspectiva de educação é completamente oposta a forçar uma criança a aprender algo por mera obrigação. Se a criança está pintando e fazendo isso com prazer, a gente não a tira disso para que vá aprender matemática, não faz sentido pra nós. 
O nosso sistema de aprendizado também é muito diferente: a distância de pai e mãe para uma criança de dois anos é muito maior, no mundo cigano, do que no mundo fora. Nos acampamentos, uma criança de dois é ensinada por uma de quatro, que é ensinada por uma de seis, que é ensinada por uma de oito... Por que? Porque a memória da dificuldade de um certo estágio é muito maior em quem acabou de passar por ele. Uma criança que acabou de ser alfabetizada ensina a ler de maneira muito diferente de alguém que já lê há muito tempo. O adulto não lembra como era difícil; como vai ensinar? A criança sabe como é, esteve no mesmo lugar há pouco tempo. E se ela não está ensinando certo, tem alguém muito próximo para corrigir. É sempre escalonado. E se chega alguma coisa até o pai ou a mãe, é porque se trata de alguma coisa muito grave, que ninguém em toda essa escala conseguiu passar. 
Quanto à quiromancia e o tarô, todas as crianças aprendem desde muito cedo; continuam as que se destacam – geralmente, mulheres. 

Origens das mancias
Há mais de cinco mil anos nosso povo vem acumulando um conhecimento que começou com a observação do que a gente é. Os antigos viram que alguns indicativos do nosso corpo batiam com algumas características da personalidade, e começaram a estudar esse fato. 
Observando as características das crianças pequenas e a evolução delas, conseguiram ver como é que as diferentes personalidades se impunham.
A percepção dos “desenhos” que temos nas pontas dos dedos é uma coisa cigana, porque a gente já usava isso há milhares de anos: já marcávamos objetos com a impressão digital, como um carimbo, porque já sabíamos que não havia dois dedos iguais.
Das digitais evoluímos para todo o aspecto das mãos, porque começamos a ver que não existem mãos iguais; a gente vê os montes, o formato dos dedos e unhas, coloração etc. E desse estudo de comparação se foi criando um método que é passado da matriarca do bando para as meninas, e as meninas vão passando para as mais jovens. 
O conhecimento do tarô também se iniciou lá atrás, quando começamos a observar o ciclo da vida, pois o tarô representa esses ciclos. Depois de identificado os ciclos de vida é que esse conhecimento virou um baralho. A gente já jogava com os ciclos, já entendia as fases da vida e qual a regra que estava lidando com uma certa pessoa, desde o seu nascimento, que a gente identifica ao Mago, até a volta ao ponto zero – a infância ou a morte – que identificamos ao Louco.


Tarô - O Pendurado
Quiromancia - As linhas da mão
 Quiromancia e tarô: diferenças
A quiromancia mostra a personalidade, o jeito de ver a vida, pontos fracos e pontos fortes: as coisas que não podemos mudar em nós mesmos, mas aproveitar. O tarô é um momento, uma situação específica. O ideal é começar com a leitura da mão, que muitas vezes acaba esclarecendo muito do momento que a pessoa está vivendo: quanto mais nos conhecemos, mais fácil fica lidar com os acontecimentos da vida. O tarô é um instantâneo.
A leitura da mão é uma maneira de autoconhecimento, de saber quem sou eu, como eu lido com a minha vida, qual é o meu talento, meu destino. O tarô mostra um momento, uma foto daquilo que está acontecendo – e, então, ele tem um prazo de validade. É lógico que ele traz referências de quem você é, do que aconteceu, mas principalmente ele diz como é que está agora. A gente não é a mesma pessoa que era dez anos atrás, ou um ano atrás. Então, o tarô é uma ferramenta para nos guiar dentro de momentos, passo a passo. Consideramos o tarô uma escada: cada vez que você joga, você sobe um degrau. Quanto mais você conhece suas mãos, mais fácil é a subida e talvez você precise de menos degraus para chegar aonde quer. Geralmente, uma pessoa que tem uma boa leitura de mãos, que se conhece, usa muito pouco o tarô. Só usa o tarô em momentos de dúvida, de procura de orientação – mas não como uma coisa prática, de curiosidade. E quanto mais idosa, menos a pessoa usa o tarô e mais confia na própria mão.

Quiromancia 
A forma das mãos
Em um trabalho há alguns anos, na Alemanha, fiz estágio num hospital, fiquei meses lá, e consegui a permissão de ver as mãos das crianças que nasciam. Esse hospital atendia a elite da cidade ‘X’ em que eu estava, mas tinha também todo um trabalho de atender crianças que nasciam de mães drogadas, e muitas mães que não tinham condições de ter filhos vinham para Alemanha, porque a Alemanha proporcionava esse atendimento. E as crianças que foram mais negadas demoravam muito tempo para abrir a mão. 
Pois bem, o vínculo entre mãe e filho só acontece quando a criança consegue tocar a mãe de mãos abertas. Ela reconhece a confiança, a primeira pessoa para quem ela abre a mão é a mãe. Isso foi a coisa que mais me chamou a atenção e tem a ver com algo que nós ciganos falamos: que o que mais marca a vida de uma pessoa é o amor. Um amor não correspondido ou correspondido, uma crise, perda ou grande felicidade amorosa marcam mais uma mão do que a morte de um filho. Isso para mim é uma coisa impressionante. E a mão de quem lida bem com o amor é uma mão plana, aberta. 
Todo o nosso aprendizado foca muito mais isso do que as linhas. Vemos se os dedos são alongados ou largos, se a temperatura é quente ou fria, como é a cor, se a mão é grande ou pequena, como são as marcas e os montes e assim por diante. Eu também observo muito a postura de mãos... Por exemplo, pessoas muito desconfiadas e pessoas que têm muitos segredos relaxam com as mãos semi-fechadas. Mão fechada é agressão; quando você se defende, é justamente o oposto. Enfim, as mãos falam uma linguagem e dentro dessa linguagem a gente começa a entender a amplitude de cada ser. 
  Existe ainda a questão da habilidade manual, que é o domínio sobre as mãos. Geralmente são pessoas mais amorosas que lidam bem com agulhas, pincéis etc., e que se relacionam bem com o amor e conseguem entender a linguagem dele.
A mesma linguagem da mão a gente também traz nos pés, no rosto... Existem ciganos que se especializaram em leitura do rosto (fisiognomia), porque o rosto também é único. A propósito, uma cigana não tira a sobrancelha, porque com isso estaria tirando a força do olhar e deixando de ser quem é. Alterar a fisionomia seria o mesmo que fazer uma cicatriz na própria mão. O nariz adunco, por exemplo, tem um valor tremendo para o meu povo, jamais imagino uma cirurgia plástica para corrigir o nariz. A gente até brinca que diminuindo o nariz a pessoa está tirando uma parte da sabedoria, ou “ela não é sábia, pois se fosse não fazia a cirurgia”. 
A beleza, para nós, é muito fora da beleza convencional. Não vemos uma pessoa pelo modelo da beleza tradicional, mas mais ou menos assim: “essa boca assim é porque traz boas notícias, o queixo é assim porque encara a vida com coragem...” É assim que funciona.

Da infância à vida adulta
A mão conta a sua história, e quando eu começo a ler a mão de alguém eu começo lá na infância, porque tenho que pegar a pessoa pela mão e trazer para o momento em que ela está, e então mostrar aonde ela pode chegar dentro das suas potencialidades. É muito satisfatório ver pessoas que realmente evoluíram. Mas quando a gente começa, lá na infância, e a pessoa se reconhece inteiramente, isso pode ser um indicativo de uma demora muito grande para evoluir. Será que faltou experiência, ou será que ela não está usando todo o potencial que trouxe? 
Ninguém deveria permanecer igual ao que era na infância. Se uma pessoa de cinqüenta anos ainda está na primeira fase da mão, eu já prevejo ou muita agitação nos anos seguintes, ou um retorno em outra vida para poder fazer o que ficou para trás. Então é preciso esclarecer: olhe até onde você pode chegar, será que você está fazendo direito?  
Outra explicação para uma mão que não muda é que se trate de uma pessoa de alma velha, que tenha vindo com a mão mais pronta, isso acontece. Mas é um caso de “velhice”, não é um caso que a gente detecta como sendo um caso de infância ainda.

Explorar potenciais; o contrário da especialização
É muito comum eu dizer a alguém: “a sua mão mostra que você tem facilidade para fazer tal coisa” – e a pessoa responder: “ah isso eu tenho, de fato, mas preciso melhorar tal outra coisa”. Não é essa a função da mão. Não é a melhoria do ponto fraco, mas a potencialização do ponto forte. Por que você vai insistir em fazer melhor uma coisa para a qual você não tem aptidão? Não faz sentido para a gente. O que você tem de bom? A parte boa, se for desenvolvida, vai suprir aquilo que é uma parte não boa. Então, não perca tempo. É lógico que todo mundo está aqui para melhorar, mas vamos melhorar aquilo que já é bom.
Tentar desenvolver uma aptidão inexistente é mais ou menos como reformar uma casa. Se vai fazer uma casa nova, você já constrói tudo certo, enquanto uma casa reformada nunca vai ser perfeita. Não fique reformando a casa. Você é uma boa pianista? Não se preocupe com sua falta de aptidão para línguas ou se alguém acha que você precisa estudar mais inglês. Não se afaste de seus talentos, vá estudar piano.
Mas não estou falando de especialização. Para o cigano a especialização é um problema, não uma solução. Para nós, muitos talentos dão a liberdade de se poder ir para diversos lugares. Uma pessoa de vários talentos é geralmente considerada alma mais velha, porque ela consegue ter liberdade, não precisa passar pela dificuldade. 
Todo mundo tem pelo menos um talento, se você não conseguir detectar mais de um, use esse. Se você se vê com vários talentos, aproveite a delícia que é ser uma pessoa assim. E lembre que não existe talento melhor ou menor. 
Outra imagem que usamos: ter um talento é ter a mala pronta pra embarcar numa determinada viagem; e é claro que é melhor ter várias malas prontas. Você pode embarcar a qualquer momento, pois tem uma mala de verão, uma mala de inverno uma mala para o campo, uma mala para a praia... Se você só tem uma mala de inverno, torça para passar um trem para a Sibéria. Se tem várias, aproveite quando passar o primeiro trem em que você ache que vai se sentir bem e entre nesse trem. 
Também pode acontecer de você ter uma mala para ir à praia, mas não vai. Fica naquela atitude: “eu tenho esse talento, mas não é ele que eu quero desenvolver, prefiro outro”. O que acontece muito é que há pessoas que estão com a mala pronta, têm um talento imenso todo ali, mas passa o trem e elas falam “mas esse trem é verde e eu não queria essa cor”. E perdem a oportunidade. Se você não tem uma outra mala, entre no trem. Não fique esperando a sorte perfeita. Ainda que não saiba o caminho, entre no trem, a vida vai te levar, e a vida é fluidez. Agora se você tem outras malas, ótimo, você pode ficar lá o dia todo esperando o trem que te falar o coração, é essa a idéia.

Cortes, cicatrizes, marcas
Um machucado na mão sempre é algum acontecimento, alguma mudança, geralmente é a pessoa dando um olé no destino, mudando o caminho. Um grande amor faz muito isso. Outro dia eu cruzei com um amigo meu - eu fui ao casamento dele, mas saí cedo porque tinha um outro compromisso – e ele disse que na hora do brinde tinha machucado a mão. E ficou uma cicatriz, que é uma cicatriz da realização do amor da vida dele.

Tarô - Tarólogo versus cartomante
Para nós, ciganos, tarológo é um estudioso da ferramenta, mas não necessariamente usa a ferramenta, e cartomante é aquele que usa as cartas para a mancia. Existe uma diferença; e apesar de eu saber que hoje existem muitos tarólogos que são também cartomantes, não é essa leitura que a gente tem. Dentro do bando, geralmente os homens são tarólogos e as mulheres são cartomantes. Eles aprofundam o estudo até para questionar, para conhecer a história, e se você perguntar qualquer coisa eles vão saber tudo, mas nunca colocam as cartas. 
Ou seja, o tarólogo não necessariamente é um cartomante, mas todo cartomante é um tarólogo. Porque para ser um cartomante é preciso passar pela fase tarólogo. Mas eu entendo, pelo que o Constantino e outros me disseram, que algumas pessoas passaram a adotar o nome de tarólogo justamente para se diferenciar dos muitos cartomantes que não passaram por essa fase de estudo.
Não são só as mulheres que lêem o tarô, entre os ciganos. Os homens também aprendem e alguns lêem bem, mas a gente sempre acredita que a mulher tem um pouquinho mais de sensibilidade para ligar os pontos. Porque o tarô é vivência; o aprendizado completo de determinadas cartas está ligado à possibilidade de se identificar com essas vivências, e existem coisas que só a mulher vive por completo. Os ciclos são femininos. As mulheres menstruam, engravidam, amamentam, cuidam – coisas que são fisicamente impossíveis ao homem. É por isso que as mulheres têm uma habilidade maior, não porque sejam espiritualmente mais evoluídas. 

Como ocorre o aprendizado do tarô
Para nós o tarô conta uma evolução, uma história. No acampamento, as crianças aprendem o tarô desde muito pequenas. Cada um dos arcanos maiores é apresentado de uma forma individual, em sequência, e a gente tem que viver aquela carta. As cartas primeiras são as cartas da infância, situações que acontecem na infância, e a gente só passa uma carta quando viveu alguma situação que nos faz entender o que é aquilo. 
 Por exemplo, o momento das perguntas, quando a criança já fala e começa a perguntar “o que é isto? o que é aquilo?” corresponde ao Mago. Por que é essa a postura de vida que o Mago traz: querer saber, ter curiosidade, olhar o que está por trás, de onde vem etc.
 O aprendizado do tarô não é obrigatório, é para as crianças que se interessam. Mas é uma coisa que quase todas querem, porque elas mesmas consideram mais evoluídas aquelas que dominam as cartas. E é um aprendizado que ajuda na concepção da vida, nas pequenas crises, nas situações de disputa, no primeiro amor, tudo.  
 Como já disse, a gente começa carta por carta e vai passando pelos arcanos maiores e os menores, e geralmente o fim do aprendizado ocorre aos 10 ou 11 anos, mais ou menos. Esse é o tempo que levamos para fazer o baralho todo e que acreditamos que as situações todas tenham sido vividas ou aprendidas de uma forma mais ou menos intensa. Muitos dos aprendizados são pautados em exemplos: quando acontece alguma coisa significativa no acampamento, a matriarca chama todo mundo e fala “isso que está acontecendo é a carta tal”. Dessa forma, mesmo não tendo vivido a situação, a gente assimila aquele conhecimento. 

Jogar para si mesmo
Uma coisa inaceitável para nós é o cartomante que não joga para si mesmo, porque se o aprendizado está ligado à vivência, como é que você vai jogar se não viveu, ou se não sabe que carta saiu na situação em que você estava vivendo aquilo? Nós usamos a metáfora “você tem que se sentir na tenda do outro”; se eu não me sinto na sua tenda, como vou orientá-lo? O aprendizado dos nossos médicos – a gente tem uma espécie de um xamã – é diferente; um médico não precisa ter passado por todas as doenças, só precisa ter passado pelo conhecimento das ervas. Mas o cartomante precisa ter passado pela vivência, é como se ele precisasse ter passado por todas as doenças para poder entender. E tirar cartas para si mesma nas diferentes situações é uma forma de identificar um conhecimento: “quando eu estava passando por aquele problema eu tirei esta carta”. 
Dentro do acampamento, as pessoas de alma velha, como eu, são as mais procuradas quando as ciganas querem saber do jogo, pois quanto mais velha a sua alma, mais assertivo o seu tarô. Por que? Porque eu vivi 400 anos, então deu para passar por todas as situações. É mais ou menos essa a percepção, tudo está ligado ao quanto você viveu. As pessoas mais sofridas e as que tiveram grandes acontecimentos na vida estão numa hierarquia mais alta, então quando acontece uma grande tragédia na vida de uma cigana, os outros falam “vamos jogar com ela, porque agora seu tarô deve estar bom”. A lógica é a seguinte: aquele sofrimento faz com que aumente o grau de compreensão que ela tem de algo que a toca."

Compilação de Constantino K. Riemma - www.clubedotaro.com.br 

domingo, 8 de abril de 2012

Dinheiro, Cupins, Suicidas, Guerra, e outros bichos;;;

o suicida lento e paciente
Há poucos dias a vida me deu uma rasteira para eu deixar de ser bocudo e metido a besta: tive que fazer uma “barreira química” contra os cupins subterrâneos que estavam perfurando o concreto da minha nova casa atrás de celulose para comer. Logo eu, ecologista briguento de carteirinha... o fato esticou a corda da incompatibilidade entre interesses e princípios. Tremendo stress.
Barreira química: Esse é o nome que os experts dão ao serviço de furar todo o chão da sua casa e despejar um bocado de veneno no subsolo para matar a rainha do cupinzeiro, diferentemente da chamada dedetização comum. Pelos meus cálculos, só essa empresa faz 500 operações dessas por mês, só na região de São Paulo. Antes de tomar a decisão fui fundo na Internet e aprendi com gente do ramo muita coisa sobre o assunto. Você sabia que o Parque do Ibirapuera é o cupinzeiro central da cidade de São Paulo?
 Só não aprendi como agir com os cupins de uma forma alternativa e sem potenciais danos ao meio ambiente. Ainda não digeri o assunto, apesar de o técnico, um engenheiro simpático, me garantir que “o produto moderníssimo, de alto avanço tecnológico-químico, não apresenta nenhum risco ao meio ambiente”... Lembrei-me do episódio da explosão na Índia da fábrica de produtos químicos Union Carbide em 1984 (hoje Dow Chemical) cujos efeitos maléficos persistem até hoje, segundo o Greenpeace. Também "não havia na época nenhum risco ao meio ambiente”, segundo a empresa.
E esse episódio de dano ambiental me remeteu também ao do vazamento do navio petroleiro da Exxon - Valdez no Alasca (US $ 2,9 bi de prejuízo em dinheiro, e não-se –sabe-quanto de prejuízo ecológico). Sem contar o recente desastre de vazamento de petróleo no Brasil, bola da vez, minimizado pelo governo oportunista e orgulhoso do pré-sal. E outras centenas de outros casos no mundo.
Mas o assunto não é ecologia. É sobre o ser humano em relação ao tema. Há um traço imediatista e suicida do ser humano associado à ganância pessoal e capitalista, que sempre me incomodou. É uma mistura de várias coisas perversas que produzem um resultado desastroso no longo prazo, não só para os agentes, mandantes do crime, e defensores do desastre em vários níveis, mas para os outros, para toda a humanidade.

A base do desastre é a ganância, o apego ao dinheiro, à minha segurança econômica, da família, dos amigos, da minha tribo, sempre nessa ordem.  A humanidade “que se exploda”, como dizia o velho Chico Anísio, crítico bem humorado dos costumes, mas mordaz como sei-lá-o-quê.
Vamos exemplificar isso: você já viu, por exemplo, um porta-voz ou relações públicas de uma indústria química poluidora, automobilística, uma petroleira, fabricante de cigarros, medicamentos, etc., justificando a nobreza de suas intenções e o benefício do produto? É patético.
Pois bem, esse “elemento” como diz a gíria policial, é geralmente um profissional no mínimo de nível superior, inteligente segundo os nossos padrões, “pai de família”, cujos filhos aprendem na escola a serem ecologicamente corretos, e vai por aí afora. Mas por um processo que escapa à nossa compreensão, ele convenientemente falseia a realidade e defende o mau produto que ajuda a vender, a má empresa onde trabalha como um mouro, o mau patrão, o mau chefe, a má circunstância.
Por que?
Ele sabe que aí tem uma mentira, mas por um processo mental cheio de arabescos e justificativas (as crianças, o orçamento doméstico, os credores, o padrão de vida, a viagem à Disney, a sogra, o diabo) à noite, põe a cabeça no travesseiro e... e dorme o sono dos justos. E levanta motivado para mais um dia de labuta na defesa da empresa ou entidade criminosa. Um bom funcionário...
Se questionado, vai alegar uma centena de razões para agir assim. É um suicida letrado e esperto promovendo um suicídio lento e paciente . E homicida também. Um homicida por omissão, no mínimo. O que o hinduismo e o budismo chamam de karma não é uma abstração filosófica ou esotérica é uma realidade concreta: os efeitos dessa ação e omissão vão alcançar o diretor, o gerente, contador, faxineiro, boy, o padre, o rabino, o papa, vixe...nós, certamente, estamos na lista. Há uma gradação de vítimas-réus com diferentes níveis de culpa, desde os mandantes até os omissos, quase todos, que acreditam piamente que “eu não tenho nada a ver com isso”. Eles se esquecem de que a médio prazo não há saída na aldeia global que chamamos de planeta Terra.
A outra face do mesmo processo suicida e homicida que sempre me encasquetou é a guerra. Como nos crimes ecológicos, o dinheiro e o capitalismo amoral continuam por trás da cena, mas diferentemente do caso citado acima, o dinheiro é uma influência que induz quem motiva a guerra, não a jovem vítima que pega o fuzil, matando porque foi induzida a erro.
Quem, como eu, acompanhou o dia a dia da guerra do Vietnã ficava com perguntas sem resposta: por que esse pessoal vai para a guerra? Por que simplesmente não se recusam? Por que se iludem com esse falso patriotismo sabendo que ela é feita por interesses de um conluio industrial-militar acenando com ameaças terríveis, mas mentirosas, do inimigo? Curiosamente quem tinha a visão mais equilibrada sobre o absurdo da guerra do Vietnã eram os hippies, “puxadores de fumo” rejeitados pela sociedade e pelo stablishment da época. Pouca gente faz um raciocínio objetivo sobre quem produz, com que falsos argumentos, e a quem interessa a guerra, e por que.
Eu me lembro quando servi ao Exército ficava incomodado com a letra das músicas militares, usadas para seduzir as emoções jovens dos recrutas. O hino da Infantaria dizia na terceira estrofe:
“És a nobre Infantaria,
Das armas a rainha,
Por ti daria
A vida minha,
E a glória prometida,
Nos campos de batalha,
Está contigo,
Ante o inimigo,
Pelo fogo da metralha!”

Brincadeira hein cumpadre. Ninguém se toca de que a glória prometida ao ser humano não é "o fogo da metralha”, é o Despertar, e “o inimigo” é o meu semelhante. O verdadeiro inimigo é quem produziu a guerra. E ele ainda é meu conterrâneo, provavelmente um político, intelectual, empresário, banqueiro, ou “líder espiritual”
Na passagem abaixo Gurdjieff fala em 
Leningrado (hoje São Petersburgo) para pra seu grupo de discípulos:
Pergunta: “- Pode se deter as guerras?
- Sim, é possível.
- Entretanto, devido às nossas conversas anteriores, eu estava certo que responderia “Não, é impossível”.
- Mas tudo está na pergunta: Como? – continuou. Tem que saber muito para compreender isso. O que é uma guerra? A guerra é um resultado de influências planetárias. Em alguma parte lá em cima, dois ou três planetas se aproximam demais e resulta uma tensão.
- Notou como você se tensiona quando um homem esbarra em você numa rua escura? Entre os planetas se produz a mesma tensão. Para eles talvez não dure um ou mais segundos. Mas aqui sobre a terra, as pessoas começam a se matar e continuam a matança durante anos. Durante todo esse tempo parece a eles que se odeiam uns aos outros, ou que é o seu dever se destroçarem por algum propósito sublime, ou devem defender algo ou alguém, e que é muito nobre fazer isso, ou algo assim.
São incapazes de se dar conta de até que ponto são simples peões de um tabuleiro de xadrez. Se atribuem importância, se acreditam livres de ir e vir a seu critério, pensam que podem decidir o fazer isso ou aquilo, mas em realidade todos os seus movimentos, todas as suas ações são resultados de influências planetárias. Por si mesmos não tem nenhuma influência. Quem tem o papel importante é a Lua. Mas falaremos disso mais tarde.”
Essa influência planetária parece ser só o “gatilho” imediato da guerra. O pano de fundo que está por trás e que fornece combustível para a fogueira é a Lei do Karma, magistralmente explicada pelo Budismo. Sem essa bagagem pesada das ações passadas e do lado sombrio de cada ser vivo, de cada família, país, raça e a própria humanidade como um todo no tempo, nada aconteceria com o gatilho planetário. Só um mal estar passageiro, não uma guerra.
Durante milhares de gerações as duas atitudes do ser humano  de “defesa do indefensável” aqui apresentadas são um reflexo de uma outra situação citada na maioria das tradições autênticas, uma paisagem que permeia a nossa vida neste planeta: é o fato de que “estamos adormecidos”. Mas isso não é o pior. O trágico é que nas profundezas do nosso sono pensamos que estamos acordados, atuando, despertos e no mínimo inteligentes e sagazes. Um espanto!