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domingo, 18 de maio de 2014

Dinheiro e Busca Interior


Estamos vendo o tempo todo na mídia uma orquestração insana que mistura todo o tipo de coisa que desestabiliza o frágil equilíbrio emocional do ser humano. É uma mistura de apreensão  turbinada pelos ódios, apegos e ignorância. Ou é isso, ou o chamado “entretenimento”, que parece existir justamente para que o prato aparentemente ruim da balança não penda para o fundo do poço. O entretenimento parece ser uma salvação pois nos faz esquecer a apreensão. Não é.
 Infelizmente o chamado entretenimento não é o prato contrário. Os dois são da mesma natureza. Os dois pratos da balança são produzidos para tirar a possibilidade da vítima, no caso nós, de intentar fazer descer a Presença. Um ajuda o outro na mesma tarefa inglória que é nos adormecer. Aliás a palavra nós é bem adequada. É o que somos: uns nós... cegos (rsrs). Enquanto escrevia, lembrei de uma frase de quem considero o maior humorista brasileiro, o gaúcho Barão de Itararé, pseudônimo de Apparício Torelly, jornalista e  escritor..., que é bem na linha desse humor esculhambado. A frase dele é “O Brasil é feito por nós. Agora só falta desatar os nós”. Quem quiser ler um humor finíssimo procure-o no Google: Barão de Itararé.
Mas voltando ao assunto, o maior impedimento que existe para o ser humano evoluir é a preocupação constante, acordado ou dormindo, com as coisas do seu dia a dia, como dinheiro, a inflação, o futuro e o passado, a segurança, o trânsito, a polícia, os políticos, a corrupção, as drogas, a saúde, os filhos, os pais, a casa (ou a falta dela), a injustiça da Justiça, a violência... dos quais o mais agudo, e que permeia tudo, é o dinheiro. Para contrabalançar, temos então do outro lado a novela, a telinha, o teatro, o cinema, o desfile, o show, a balada, o facebook, o jogo, a Copa.
Os dois pratos da balança acionam o mesmo mecanismo perverso do pensamento, ou o “falar interno”, e pronto: não conseguimos o contato com a Presença, nem o sentir o corpo, as emoções e as energias circulando. Não conseguimos Lucidez.
Não há muita saída. Ou a gente fica cego de preocupação principalmente com o dinheiro e as posses, ou adormece com o entretenimento. É pau puro. Por isso os budistas chamam este de planeta de sofrimento.
Esse tema é exaustivamente tratado por todos os chamados mestres de todas as tradições sem exceção, porque temos que acordar. Ressalvadas as diferentes abordagens para tratar o assunto, o objetivo é o mesmo: estar presente na ação no mundo (enquanto ainda estamos vivos), independentemente das dificuldades que jogam em sentido contrário. Depois desta vida, não há garantias.
Segundo a visão bíblica, o início da preocupação com a sobrevivência, da qual o dinheiro é a versão moderna, foi dado pelo anjo com a espada expulsando Adão e Eva do paraíso terrestre, o lugar onde se vivia conectado com a Unidade, ou o Universo, ou Deus, como se queira chamar. A frase foi “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar." Gênesis 3:19.
Estava plantada a semente do trabalho duro sobre a terra para se sobreviver, da qual o ganhar dinheiro é uma decorrência da sociedade moderna dada a forma como ela se configurou, e elegeu o dinheiro como fator de segurança.
Mas como a coisa sempre pode piorar, além da necessidade de trabalho para sobreviver, nós seres humanos já saímos de fábrica com uma estrutura de ego que tem uma característica perversa, senão diabólica, que é o sentimento de “primeiro, eu”, graças a uma composição mental/emocional influenciada por quase todos os chamados sete pecados capitais. Esta é a chave para a competição desenfreada, para a exploração do outro.
Piorando mais, temos o resíduo da nossa formação em casa e na escola, e o fato de carregarmos o carma de “quem eu já era antes”. Um tipo de dna, se é que se pode falar assim. 
O resultado fatal é “dane-se o outro”, ou seja a exploração do seu semelhante, sempre que possível, para se obter os resultados do que o ego acha conveniente e seguro para a sua manutenção. O grande problema é que o dito cujo ego nunca se acha seguro, então sempre precisa de mais. No caso específico do brasileiro ele além disso herdou dos nobres portugueses o "dna do fidalgo" (que nos conquistou via índios, e nos escravizou via negros) de “viver com o trabalho e suor do outro”...
O dinheiro é mais que apenas dinheiro. Ele representa uma energia que tem que ser entendida, pois representa um papel crucial na vida das pessoas e ao mesmo tempo o seu significado oculto tem que ser trabalhado como um requisito para se harmonizar a vida material concreta com a Presença no Agora, necessária para a evolução. Não é brincadeira. Eu,particularmente, tenho sofrido um aprendizado dramático com isso e sinto que se entendermos o dinheiro o caminho para a evolução fica menos difícil. A concretude inflexível é um caminho eficiente para a evolução.
Na postagem sobre Miyamoto Musashi, o grande mestre samurai, ele dá os 9 pontos da sua mestria, dos quais a gente deve aplicar quatro deles à questão do dinheiro e bens materiais:
5- Aprenda a distinguir ganho de perda nos assuntos materiais. 
6- Desenvolva o julgamento intuitivo e a compreensão de tudo. 
7- Perceba as coisas que não podem ser vistas. 
8- Preste atenção até ao que parece não ter importância.
A gente se detém muito pouco sobre a natureza dele, mas afinal, o que é o dinheiro?
Desde o seu surgimento como um aspecto significador do Valor que se dá às coisas, ele é considerado um instrumento de avaliação para medir e portanto relacionar e comparar as trocas materiais entre pessoas físicas, entidades, estados nacionais, etc. Então está presente em todos os aspectos corriqueiros da nossa vida, o que exige uma grande dose de atenção para nos relacionarmos com ele. Temos que aprender o que é o dinheiro, o que nós somos como “seres humanos”, e o que é esta sociedade que criamos baseada no sistema monetário.
Infelizmente os teóricos da economia, como Adam Smith e outros, faziam parte da elite dominante e nos venderam um peixe e entregaram outro.
Como diz o movimento Zeitgeist, “O Homem ainda é o mesmo de antes. Ainda é bruto, violento, agressivo, acumulador, competitivo. Ele construiu uma sociedade nestes termos. Não é uma demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.
A sociedade de hoje é formada por várias instituições. De instituições políticas, instituições legais, instituições religiosas a instituições de classe social, valores familiares, e especialização profissional. É óbvia a profunda influência que essas estruturas tradicionais possuem sobre a formação de nossas compreensões e perspectivas. Entretanto, de todas as instituições sociais nas quais nascemos, que nos guiam e condicionam, parece não haver nenhum sistema tão subestimado e mal compreendido como o sistema monetário. Tomando proporções quase religiosas, a instituição monetária estabelecida existe como uma das formas mais incontestadas de fé que existem. Como o dinheiro é criado, as políticas que o governam, e como ele realmente afeta a sociedade, são interesses desconhecidos da grande maioria da população. Em um mundo onde 1% da população possui 40% da riqueza do planeta, onde 34 mil crianças morrem diariamente de pobreza e doenças evitáveis, e onde 50% da população vive com menos de 2 dólares por dia... uma coisa está clara: Algo está muito errado.
Estejamos cientes disso ou não, o sangue nas veias de todas as nossas instituições estabelecidas, e portanto da sociedade em si, é o dinheiro. Logo, entender essa instituição de política monetária é essencial para entender porque nossas vidas são como são. Infelizmente, economia é um assunto freqüentemente visto com confusão e tédio. Sequências infinitas de termos financeiros, aliadas a cálculos intimidadores, fazem as pessoas rapidamente desistir de tentar entendê-la. No entanto, o fato é:
A complexidade associada ao sistema financeiro é somente uma máscara criada para ocultar uma das estruturas mais socialmente estagnadoras que a humanidade já tolerou.

Se quisermos entender essa falsa “complexidade”, temos que reduzi-la aos seus pontos mais simples.
 Qualquer boa dona de casa entende a verdadeira economia, que pode (e deve) ser aplicada por qualquer nação:
Pode-se tentar sempre ganhar mais, mas não se pode gastar mais do que se ganha indefinidamente.
Não se pode criar valor a partir de fatos que vão ocorrer no futuro. O futuro não existe.
Só se cria valor real a partir de recursos
Não se cria valor real a partir de crédito. Crédito vem da palavra acreditar, crer. É uma abstração.
Não se deve usar dois, se é necessário só um.
Só se gera filho se se pode sustentá-lo.
Não se pode destruir recursos, sejam eles quais forem.
Os dirigentes das famílias, empresas, países e das economias deveriam seguir esses pontos. Tudo estaria melhor.
Vamos falar mais disso futuramente, mas quem quiser pode já ir vendo (se não viu ainda) o vídeo Zeitgeist Addendum, no youtube. Uma pérola.Está tudo explicado lá.


domingo, 27 de abril de 2014

A Ignorância

"O conflito não é entre o Bem e o Mal, mas entre o Conhecimento e a Ignorância. - Buda

Na postagem O Meu Mestre falamos de Tenzin Wangyal Rinpoche. Hoje esse peregrino tibetano fundador do Instituto Ligmincha Brasil, vai falar da Ignorância, representada na Roda da Vida pelo porco, que ao lado do galo (Apego) e da serpente (Ódio-Medo) formam a tríade do Sofrimento. Vamos lá:
"A totalidade de nossa experiência, incluindo os sonhos, nasce da ignorância". É uma afirmação bem surpreendente no Ocidente, assim vemos de início o que entendemos por ignorância (avydia/ma-rigpa). A tradição tibetana distingue duas variedades: a ignorância inata e a ignorância cultural.
A ignorância inata é a base do samsara (N.R. - samsara é o ciclo contínuo de renascimento e morte dos seres). Ela caracteriza por definição os seres comuns. É a ignorância de nossa verdadeira natureza e da verdadeira natureza do mundo. Sob seu efeito, nos enredamos nas ilusões da mente dualista.
A dualidade reafirma as polaridades e as dicotomias. Ela divide a unidade sem divisão da experiência em isto e aquilo, certo e errado, eu e você. Desenvolvemos a partir dessas divisões conceituais preferências que se traduzem por desejo e repulsa, as respostas habituais que constituem o essencial do que identificamos como "eu". Queremos isto, não aquilo; cremos nisto, não naquilo; respeitamos isto e desprezamos aquilo. Queremos o prazer, o conforto a riqueza, a fama e tentamos evitar a dor, a pobreza, a vergonha o desconforto. Queremos essas coisas para nós e para aqueles que amamos, sem nos preocupar com os outros. Queremos outra coisa diferente do que temos, ou ainda nos agarramos ao que temos e queremos evitar as mudanças inevitáveis que conduzirão a perda.
A segunda variedade da ignorância é condicionada pela cultura. Ela vem, em uma dada cultura, dos desejos e aversões que são instituídas no sistema de valores e são codificadas. Na Índia, por exemplo, os hindus pensam que é incorreto comer carne de vaca mas que podemos comer carne de porco. Os muçulmanos creem que eles podem comer carne de vaca mas lhes é interdito de comer porco. Os tibetanos comem as duas carnes. Quem tem razão? Os indianos pensam que são os indianos, os muçulmanos pensam que são os muçulmanos e os tibetanos pensam que são os tibetanos. As diferentes crenças têm sua origem nos preconceitos e nas crenças próprias à cultura, não na sabedoria fundamental.
Encontramos um outro exemplo nas disputas filosóficas. Muitas doutrinas filosóficas são definidas uma com relação à outra, por desacordo sobre um ponto específico. Ainda que essas doutrinas sejam concebidas para conduzir os seres à sabedoria, elas produzem a ignorância na medida em que seus partidários aderem a uma visão dual da realidade. É inevitável para todo sistema conceitual, qualquer que seja, porque a mente conceitual é em si mesma uma manifestação da ignorância.
A ignorância cultural é promovida e mantida pelas tradições. Ela infiltra toda cultura, opinião, conjunto de valores, conjunto de conhecimentos. Para os indivíduos como para as culturas essas preferências são fundamentais ao ponto de serem consideradas como de bom senso ou lei divina. Crescemos e nos apegamos à crenças variadas, à um partido político, à um sistema médico, à uma religião, à uma opinião sobre como deveriam ser as coisas. Recebemos um ensinamento primário, um ensinamento secundário, até mesmo um ensinamento superior e, de uma certa maneira, cada diploma permite-nos expandir uma ignorância mais refinada. A instrução fortalece o hábito de ver o mundo através de uma certa lente. Podemos nos tornar até experts em visões errôneas, adquirir um conhecimento muito preciso e comunicar-se com outros experts. Pode ser o caso da filosofia, que estuda em detalhe os sistemas intelectuais e faz da mente um instrumento de busca muito refinada. Mas, enquanto a ignorância inata não é compreendida, estamos simplesmente trabalhando para aumentar uma nova tendência, não a sabedoria fundamental.
Nos apegamos até às menores coisas: uma marca de sabão, um estilo de corte de cabelo. Em grande escala, inventamos religiões, sistemas políticos, filosofias, psicologias e ciências. Mas ninguém nasce com a crença que é ruim comer carne de vaca ou de porco, ou que tal sistema filosófico é exato enquanto o outro é errôneo, ou ainda que esta religião é certa e aquela é falsa. Tudo isso deve ser aprendido. A adesão a certos valores resulta de nossa ignorância cultural, enquanto que a tendência em aceitar opiniões limitadas vem da dualidade, que manifesta nossa ignorância inata.
Não é ruim. É simplesmente assim. Nosso apegos podem conduzir-nos à guerra, mas eles se manifestam também sob forma de tecnologias úteis e artes variadas, que são de um grande benefício para o mundo. Enquanto estamos não-despertos, estamos na dualidade, e está muito bem. Um ditado tibetano diz: "Quando tens o corpo de um asno, regozija-te com o sabor da erva". Dito de outra maneira, devemos gozar esta vida e apreciá-la, porque ela é plena de sentidos e preciosa por si-mesma, e porque é a vida que vivemos.
Se não tomamos cuidado, os ensinamentos podem servir para manter nossa ignorância. Podemos dizer que é ruim para alguém obter um grau superior, ou errôneo observar restrições dietéticas, mas a questão não é esta completamente. Ou ainda podemos dizer que a ignorância é má, ou que a vida normal não é mais que uma estupidez samsárica. Mas a ignorância é simplesmente um obscurecimento da consciência. Aí estar apegado, ou repudiá-la, é sempre ainda o velho jogo da dualidade, jogado desta vez no domínio da ignorância. Podemos ver até que ponto ela é invasora. Mesmo os ensinamentos devem transigir com a dualidade – encorajando o apego à virtude, por exemplo, e a aversão pelo não-virtuoso – fazendo paradoxalmente apelo à dualidade da ignorância para triunfar sobre a ignorância. Que nossa compreensão torne-se mais sutil, senão podemos perder-nos facilmente! Eis porque é necessário praticar, para ter uma experiência direta em lugar de apenas estabelecer um outro sistema conceitual para aperfeiçoar e para defender. Vistas do alto, as coisas tem a tendência à se aplainar. Do ponto de vista da sabedoria não-dual, "importante" e "irrisório" não existem.

ATOS E RESULTADOS: CARMA E MARCAS CÁRMICAS
A cultura na qual vivemos nos condiciona, mas somos nós que carregamos as sementes do condicionamento conosco, seja onde formos. Tudo o que nos perturba está na realidade em nossa mente. Acusamos as circunstâncias de nosso mal-estar, ou nossa situação, e acreditamos que seriamos felizes se pudéssemos mudar o estado das coisas. Mas a situação na qual nos encontramos é a causa secundária de nosso sofrimento. A causa primária é a ignorância inata e o desejo que daí resulta de vermos as coisas serem diferentes do que elas são.
Podemos decidir de escapar às tensões urbanas migrando para o oceano ou a montanha. Ou ainda, podemos acabar com o isolamento e as dificuldades do campo pela excitação da cidade. A mudança será talvez agradável porque as causas secundárias são modificadas e poderemos experimentar contentamento. Mas somente por pouco tempo. A raiz de nosso mal-estar muda-se conosco para nosso novo lar, onde dará nascimento a novas insatisfações. Seremos bem rápido novamente presos em um turbilhão de esperança e temor.
Ou então, podemos pensar que com um pouco mais de dinheiro, um melhor companheiro ou uma melhor companheira, ou com um corpo, uma educação, um trabalho melhores, seriamos felizes. Mas sabemos que isto é falso. Os ricos não estão livres do sofrimento, um novo companheiro nos descontentará de uma maneira ou de outra, o corpo envelhecerá, o novo trabalho se tornará menos interessante, e assim por diante. Quando pensamos que a solução para nossa infelicidade se encontra no mundo exterior, nossos desejos podem ser apenas temporariamente satisfeitos. Não compreendendo isso, somos empurrados para cá e para lá pelos ventos do desejo, sempre agitados e insatisfeitos. Somos dirigidos por nosso carma e não cessamos de plantar os grãos de uma futura colheita cármica. Não somente esta maneira de agir nos distrai do caminho espiritual, mas impede-nos além disso de encontrar a satisfação e a felicidade na nossa vida cotidiana.
Enquanto estamos identificados com o desejo e a aversão da mente em movimento, produzimos emoções negativas: elas nascem no espaço que separa o que existe daquilo que queremos. Os atos criados por essas emoções – são praticamente todos os atos de nossa vida comum – deixam marcas cármicas.
Carma significa ação. As marcas cármicas resultam das ações, permanecem na consciência mental e influenciam nosso futuro. Podemos compreender em parte o que elas são aproximando-as daquilo que chamam no ocidente de tendências inconscientes. São inclinações, esquemas de comportamento interior e exterior, de reações inveteradas, das maneiras de pensar habituais. Essas tendências regem nossas reações emotivas aos acontecimentos e nossa compreensão intelectual, do mesmo modo que as emoções habituais que nos caracterizam, e nossa rigidez mental. Elas criam, e condicionam, cada uma das respostas que damos normalmente a cada um dos elementos de nossa experiência.
Eis um exemplo de marcas cármicas grosseiras (mas a mesma dinâmica está trabalhando em níveis os mais sutis e os mais profundos de nossa experiência). Um rapaz cresce em uma família onde discutem muito. Trinta ou quarenta anos talvez após ter deixado a casa, caminhando pela rua, o homem que ele se tornou ouve pessoas que discutem no imóvel ao lado do qual ele passa. Na noite seguinte, ele sonha que discute com sua mulher ou sua companheira. Ao despertar, ele sente-se desgostoso e reservado. Sua companheira nota seu humor e reage, o que o irrita ainda mais.
Essa sucessão de acontecimentos revela-nos alguma coisa das marcas cármicas. O homem, em sua juventude, reagia às altercações familiares com medo, raiva e dor. Ele tinha horror desses conflitos – uma reação normal – e esta aversão deixou uma marca na sua mente. Décadas mais tarde, passando ao lado de uma casa, ouve uma briga; é a condição secundária que estimula a velha marca cármica, a qual manifesta-se por um sonho.
Nesse sonho, o homem reage pelo ódio e a dor à provocação de sua companheira. Esta resposta é comandada pelas marcas cármicas acumuladas na consciência mental da criança e provavelmente muitas vezes reforçada depois. Quando sonha que é provocado pela sua companheira (que não é mais que uma projeção de sua mente), ele reage com aversão, exatamente como quando era criança. Esta reação onírica é uma ação nova, criadora de um grão cármico novo. Ao acordar, ele está mergulhado em emoções negativas que são o fruto de carmas anteriores; ele se sente ferido e afastado de sua mulher. Para complicar ainda mais as coisas, esta reage segundo suas próprias tendências cármicas habituais, talvez enfurecendo-se, ao se sentir ferida, se desculpando, ou humilhando-se, o que encadeia uma nova reação negativa do homem, semeando um outro grão cármico.
Toda reação à qualquer acontecimento – exterior ou interior, estejamos acordados ou sonhando – que tenha por raiz o desejo ou a aversão deixa uma marca na mente. A medida que o carma dita as reações, estas semeiam novos grãos cármicos, que ditarão futuras reações, e assim em seguida. Eis como o carma conduz a mais carma. É a roda do samsara, o ciclo sem fim da ação e reação.
Ainda que este exemplo refira-se ao carma unicamente ao nível psicológico, cada dimensão da existência é de fato determinada por ele. Ele dá forma aos fenômenos emotivos e mentais da vida de um indivíduo, a percepção e a interpretação da existência, o funcionamento do corpo, e a causalidade dinâmica do mundo exterior. Cada aspecto da existência, quer seja pequeno ou grande, é governado pelo carma.
As marcas deixadas pelo carma na mente são como sementes. Como elas, as marcas cármicas requerem certas condições para se manifestar. A semente necessita da combinação adequada de luz, umidade, de nutrientes e da temperatura para germinar e crescer; do mesmo modo, a marca cármica se manifesta quando encontra a situação adequada. Os elementos da situação que favorecem a manifestação do carma são conhecidos com o nome de causas e condições secundárias.
É útil compreender que o carma é a lei da causalidade, porque isso leva a reconhecer que as escolhas feitas em resposta a não importa qual situação, exterior ou interior, tem suas conseqüências. Quando compreendemos verdadeiramente que cada marca cármica leva em germe uma ação futura regida pelo carma, podemos utilizar esse saber para evitar de criar negatividades em nossa vida e para criar ao contrário, as condições que nos orientarão positivamente. Ou seja, se sabemos como fazer, podemos deixar as emoções se auto-liberarem no momento em que elas surgem; nenhum novo carma é mais criado."

Texto do livro "Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono" de Tenzin Wangyal Rinpoche.

domingo, 30 de março de 2014

O Budismo Tenta Acordar os Adormecidos

O templo e a Natureza
Chegou o momento de agir. Vivemos hoje numa época de grave crise, confrontados com os desafios mais sérios que a humanidade alguma vez experimentou: as consequências ecológicas do nosso carma coletivo. 
A constatação unânime dos cientistas é esmagadora: as atividades humanas estão em vias de provocar um desastre ecológico em escala planetária. O aquecimento global, em particular, está acelerando-se a um ritmo mais rápido do que se previa, sendo hoje patente no Polo Norte. Durante centenas de milhares de anos, o Oceano Ártico esteve coberto por uma camada de gelo tão vasta como a Austrália que se encontra atualmente em rápido desaparecimento. Em 2007, o Grupo Intergovernamental de Especialistas em Evolução Climática (GIEC) previu que, por volta de 2100, o derretimento estival dos gelos seria total, mas é hoje evidente que corremos o risco de isso vir a suceder dentro de uma ou duas décadas. A vasta extensão de gelo da Groenlândia está também derretendo mais rapidamente do que se previra. O nível do mar vai aumentar pelo menos um metro ao longo deste século, o que provocará a inundação de inúmeras zonas costeiras, assim como de importantes áreas cultivadas de arroz de vital importância como o Delta do Mekong, no Vietnã. Por todo o mundo, os glaciares diminuem velozmente. Se as políticas econômicas atuais não mudarem, os glaciares do planalto tibetano, que alimentam os grandes rios que fornecem água a milhões de pessoas na Ásia, desaparecerão nos próximos trinta anos.
A Austrália e o Norte da China sofrem neste momento graves períodos de seca e uma diminuição das colheitas. Importantes relatórios, como o do GIEC, das Nações Unidas, da União Europeia e da União Internacional para a Conservação da Natureza, concordam em afirmar que, sem uma mudança de orientação coletiva, a diminuição das reservas de água e dos recursos alimentares, poderá provocar, entre outras consequências, situações de fome, conflitos motivados pela disputa dos recursos, assim como migrações maciças até meados do século – porventura, mesmo, até 2030, segundo o primeiro conselheiro científico do governo britânico.O aquecimento global desempenha um papel essencial em outras crises ecológicas, como o desaparecimento de numerosas espécies vegetais e animais que partilham a Terra conosco. Os oceanógrafos assinalam que metade das emissões de carbono devidas à utilização de combustíveis fósseis já terá sido absorvida pelos oceanos, o que aumentou a sua taxa de atividade em cerca de 30%. Esta acidificação perturba a calcificação das conchas e dos recifes de coral, ameaçando o desenvolvimento do plâncton, base da cadeia alimentar da maioria das espécies que povoam os oceanos.Os relatórios das Nações Unidas concordam com as tomadas de posição de eminentes biólogos que afirmam que a continuação da atual política de cegueira voluntária levará à extinção de cerca de metade das espécies terrestres atualmente existentes. Estamos transgredindo coletivamente o primeiro dos preceitos: “Não prejudicar os seres vivos”, e estamos a fazê-lo na maior escala possível. Somos incapazes de antecipar o impacto biológico sobre a vida humana que será provocado pelo desaparecimento desta infinidade de espécies que, imperceptivelmente, também contribuem para o nosso próprio bem-estar.
Muitos cientistas chegaram já à conclusão de que está hoje em causa a sobrevivência da própria civilização humana. Atingimos um momento crucial da nossa evolução biológica e social. Nunca na história a necessidade da contribuição do budismo para o bem de todos os seres se impôs com tamanha urgência. Por intermédio das quatro nobres verdades dispomos de um quadro que permite traçar um diagnóstico sobre a nossa situação atual e, assim, definir as grandes linhas de uma solução: as ameaças e catástrofes que nos assombram provêm em última instância do espírito humano, pelo que exigem uma fundamental mutação do nosso espírito. Se o sofrimento individual nasce do apego e da ignorância (dos três venenos: apego, ódio e ignorância), o mesmo sucede quanto ao sofrimento que experimentamos em escala coletiva. A urgência ecológica atual confronta-nos com o eterno sofrimento humano, de uma forma desmedida. Nós sofremos como indivíduos mas também como espécie, de um “eu” que se vê como separado não só dos outros mas também da própria Terra. Como diz Thich Nhat Hanh: “Nós estamos aqui para despertar da ilusão da nossa separação”. Devemos acordar e compreender que a Terra é tanto nossa mãe como nossa casa. Desde logo, o cordão umbilical que a ela nos liga não pode ser cortado. Se a terra adoece, nós também adoecemos porque somos parte integrante dela. As nossas atuais relações econômicas e tecnológicas com a biosfera não são viáveis. A fim de sobreviver às duras transformações que se avizinham, os nossos modos de vida e as nossas expectativas devem mudar. Isto supõe não só novos comportamentos, mas também novos valores. O ensinamento budista segundo o qual a saúde global das pessoas e da sociedade depende do bem-estar interior, e não apenas de indicadores econômicos, permite-nos definir as transformações pessoais e sociais que devemos empreender.
No plano individual, devemos adotar comportamentos que manifestem a nossa consciência ecológica no quotidiano, reduzindo assim a nossa pegada de carbono. Para aqueles que vivem em economias desenvolvidas, isto implica modernizar e isolar as casas e os lugares de trabalho para obter um melhor rendimento energético; reduzir o aquecimento no Inverno e o ar condicionado no Verão; utilizar lâmpadas e eletrodomésticos de baixo consumo; desligar os aparelhos elétricos que não estão em uso; conduzir carros que consumam o menos possível; diminuir o consumo de carne, favorecendo uma alimentação vegetariana, mais saudável e mais respeitadora do ambiente.
Estas iniciativas individuais, todavia, por si só, não são suficientes para evitar futuras catástrofes. Devemos igualmente empreender transformações institucionais, no plano tecnológico e no plano econômico. Logo que possível, devemos “descarbonizar” as nossas produções energéticas, substituindo as energias fosseis por fontes de energia renováveis que são ilimitadas, inofensivas e que estão em harmonia com a natureza. Devemos particularmente parar com a construção de novas centrais a carvão, uma vez que esta é, de longe, a fonte mais poluente e mais perigosa de emissões de carbono na atmosfera. Inteligentemente exploradas, as energias eólica, solar, das marés e geotérmica poderiam fornecer toda a eletricidade de que necessitamos sem prejudicar a biosfera. Cerca de um quarto das emissões de carbono mundiais são devidas ao desflorestamento, pelo que deveremos inverter o processo de destruição das florestas, em particular a faixa das florestas tropicais onde vive a maior parte das espécies animais e vegetais.
Torna-se hoje evidente que é igualmente necessário proceder a alterações significativas na organização do nosso sistema econômico. O aquecimento global encontra-se estreitamente ligado às monstruosas quantidades de energia que as nossas indústrias devoram a fim de dar resposta aos níveis de consumo que correspondem às expectativas de tantos de entre nós. De um ponto de vista budista, uma economia sã e duradoura deve reger-se pelo princípio da suficiência: a chave da felicidade encontra-se na satisfação e não numa multiplicação crescente de bens e produtos. O comportamento compulsivo que leva a um consumo crescente é expressão de apego, aquela disposição que o Buda identificou como sendo a principal causa do sofrimento.
No lugar de uma economia submetida à lei do lucro que requer um crescimento ilimitado para não falhar, devíamos fazer evoluir o mundo em direção a uma economia que promovesse um nível de vida satisfatório para todos, permitindo-nos assim desenvolver as nossas plenas potencialidades (incluindo as espirituais) em harmonia com a biosfera, que sustenta e nutre todos os seres, onde se incluem também as gerações futuras. Se os dirigentes políticos não são capazes de reconhecer a urgência desta crise mundial ou se ele não estão dispostos a considerar o bem estar a longo prazo da humanidade acima dos benefícios de curto prazo das companhias que exploram os combustíveis fosseis, talvez seja necessário que os contestemos mediante o desencadear de campanhas persistentes de ação cívica.
Diversos climatologistas, como o Dr. James Hansen, da NASA, definiram recentemente objetivos precisos a fim de evitar que o aquecimento global atinja um limiar crítico catastrófico. Para que a civilização humana seja viável, a taxa aceitável de dióxido de carbono na atmosfera deve ser inferior a 350 ppm (partes por milhão). O cumprimento deste objetivo é recomendado e apoiado pelo Dalai Lama, assim como por outras personalidades agraciadas com o Prêmio Nobel e por prestigiados cientistas. Na situação atual encontramo-nos nos 387 ppm, nível que aumenta ao valor de 2 ppm por ano.  É assim necessário não só reduzir as emissões de carbono mas também eliminar a excessiva quantidade de dióxido de carbono já presente na atmosfera.
Enquanto signatários desta declaração de princípios budista, nós reconhecemos o desafio urgente que o aquecimento global coloca. Juntamo-nos ao Dalai Lama para apoiar o objetivo dos 350 ppm. De acordo com os ensinamentos budistas, e conscientes da nossa responsabilidade individual e coletiva, comprometemo-nos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para atingir esse objetivo, nomeadamente (mas não só) através das ações individuais e sociais aqui sucintamente indicadas.
Dispomos apenas de um curto espaço de tempo para agir, para preservar a humanidade de uma catástrofe iminente e para assegurar a sobrevivência das diversas e belas formas de vida terrestres. As futuras gerações e as outras espécies que partilham a nossa biosfera, não têm voz para nos pedir que demonstremos a nossa compaixão, sabedoria e poder de cisão. Devemos escutar o seu silêncio. E devemos também ser a sua voz e agir em seu nome.

Redigido por David Loy (mestre zen) e pelo venerável Bhikkhu Bodhi (mestre da tradição Theravada), com a contribuição científica do Dr. John Stanley. Esta declaração tem como seu primeiro subscritor Sua Santidade o Dalai Lama.  

domingo, 13 de janeiro de 2013

Viver e Morrer

Sogyal Rinpoche - autor do Livro Tibetano do Viver e do Morrer
Por que não realizamos em vida as práticas específicas que nos preparam para o momento da morte? O que mais temos medo na hora de morrer? O que nos conforta? E qual a melhor maneira de ajudar aqueles que estão morrendo? Aqui, Sogyal Rinpoche responde a essas e outras questões numa entrevista para a revista Bodisatva feita durante a sua estada no Brasil em novembro de 2010.
Bodisatva:
Por que temos tanto medo da morte?
Sogyal Rinpoche:
Porque por trás do medo da morte está o medo de encarar a si mesmo. O instante da morte é o momento da verdade. Ela é como um espelho, no qual o verdadeiro sentido da vida está refletido. Na tradição monástica cristã há uma expressão em latim, memento mori, que significa lembre-se da morte, ou mais especificamente, lembre-se de que vai morrer. Se você se lembrar da morte, vai entender o que é a vida. A morte é a fundação e o verdadeiro coração do caminho espiritual. Se você se recordar de que vai morrer, vai se lembrar da preciosidade da vida – e essa verdade está presente em todas as grandes tradições: budismo, cristianismo, hinduísmo… Pensar na morte é o cerne do caminho espiritual. Milarepa, o grande santo e poeta que inspirou milhões de seres, disse: Aterrorizado pela morte, refugiei-me nas montanhas, meditei muitas e muitas vezes sobre a incerteza da hora da morte. Mas ao conquistar a fortaleza da natureza da mente infinita e imortal, todo o medo acabou para sempre. É por isso que o meu livro fala tanto dessa contemplação da hora da morte. Existe também uma citação de Maomé. Quando perguntaram a ele como você faz para polir o coração, como você se livra da ferrugem, das aparas do coração? Maomé respondeu: Pela lembrança de Deus e por muito pensar na morte. De fato, pensar na morte é muito próximo de se pensar em Deus, porque a morte traz para você o que Deus é. Mas infelizmente, na vida contemporânea as pessoas não veem a vida e a morte como um todo. Com isso ficam muito apegadas à vida e rejeitam e renegam a morte. Hoje em dia as pessoas também pensam na morte como um tipo de derrota ou de perda. Mas do ponto de vista espiritual, a morte não é uma tragédia a ser temida, mas uma oportunidade preciosa para a transformação.
Bodisatva:
Só que nos esquecemos de lembrar da morte durante a vida, estamos ocupados demais para isso.
Sogyal Rinpoche:
Sim, nos mantemos muito atarefados o tempo todo: é uma preguiça ativa (risos). A morte, por sua vez, nos diz que é preciso parar de nos enganar – quando você acertar as contas com a morte você acerta as contas com sua vida. A morte é o sinônimo da vida, o seu prolongamento; na verdade, ela é a parte mais importante da existência, por isso é que ela acontece no final! (risos). É a morte que vai nos apresentar a conta. Tem uma expressão em francês que diz: Agora, a dolorosa, por favor! (risos). Mas com frequência, só começamos a pensar na morte quando estamos para morrer. Não é um pouco tarde demais? Os ensinamentos nos mostram que deveríamos nos preparar para morrer agora, quando estamos bem, com estado mental feliz, principalmente nos momentos em que você está inspirado, predisposto à introspecção, quando começamos a ver a vida e a morte de uma maneira mais profunda.
Bodisatva:
O que dizer ou fazer quando se está ao lado de uma pessoa que vai morrer?
Sogyal rinpoche:
Sempre que você estiver com uma pessoa que está morrendo, enfatize o que ela realizou de bom durante a vida, o que ela fez bem. Ajude-a a se sentir tão construtiva e feliz quanto possível com relação à existência dela. Concentre- se nas suas virtudes e não nos seus defeitos. A pessoa que está morrendo fica muito vulnerável à culpa, ao remorso e à depressão. Permita que ela expresse isso livremente, ouça-a e escute o que ela diz. Mas, ao mesmo tempo, se o momento for apropriado, não deixe de lembrá-la da sua natureza búdica e encorajá-la a repousar na natureza da mente. Em especial, lembre à pessoa que a dor e o sofrimento não são tudo o que ela é. Encontre a maneira mais hábil e sensível de inspirá- la e dar-lhe esperança, ao invés de enfatizar seus erros. Assim ela poderá morrer num estado mental mais pacífico.
Bodisatva:
Qual a melhor maneira de estar ao lado de quem vai morrer?
Sogyal Rinpoche:
Acho muito importante dizer isso: quando você ajudar alguém nessa condição, o mais importante não é o que você diz, mas o que você é, a sua presença. E a sua presença é especialmente importante se você for um praticante que tem a realização da natureza da mente e puder permanecer nesse estado de realização na presença daquele que está morrendo. Isso é extremamente poderoso. Vejo isso por mim mesmo: nessa presença, o amor que é sustentado pela natureza da mente é o amor apoiado pelos budas. Você se torna como um embaixador deles. O amor inspirado pela natureza da mente é tão poderoso que pode eliminar o medo do desconhecido. Se você puder introduzir essa paz – sentindo muita paz, vendo a natureza da mente se manifestando de uma forma muito poderosa, como uma radiação quente – se você conseguir isso será extraordinariamente poderoso e benéfico.
Bodisatva:
O que mais pode contribuir para que a pessoa sinta um maior conforto psicológico e espiritual nesse momento?
Sogyal Rinpoche:
A pessoa que está morrendo precisa ter a coragem de perceber que esse é o tempo da reconciliação com amigos e parentes, e assim eliminar do coração todo ódio e ressentimento. Nem todos creem numa religião formal, mas acho que quase todos acreditam no perdão, e você pode ser de incomensurável utilidade para a pessoa que vai morrer ajudando-a a ver a aproximação da morte como o tempo perfeito para reconciliação e a avaliação de uma vida. Todas as religiões dão ênfase ao poder do perdão, que nunca é tão necessário e tão profundamente sentido como no momento da morte. Por meio do perdoar e do ser perdoado, nos purificamos da escuridão gerada por aquilo que fizemos e nos preparamos para a jornada através da morte. Com base na sua prática espiritual, você pode transformar o ambiente e inspirar sentimentos sagrados como amor, compaixão e devoção na mente da pessoa que está morrendo, no momento da sua morte.
Bodisatva:
E como ajudar uma pessoa assustada que não tem nenhuma crença espiritual?
Sogyal Rinpoche:
Um conselho simples é: olhe nos seus olhos com amor e confiança, seja claro, invoque a presença dos Budas ou de Cristo e dê-lhes o ensinamento essencial porque no momento da morte eles vão estar abertos a isso, particularmente se você for genuíno e autêntico e não estiver pregando. Outra coisa importante quando formos ajudar alguém que está morrendo é dar o nosso amor, com todo o coração, sem quaisquer condições, tão livres quanto possível de apego, sem medo, destemidamente, amar.
Bodisatva:
E se a pessoa não quiser falar sobre a morte ou não aceitar que está morrendo?
Sogyal Rinpoche:
Você ainda pode amá-la, dizer coisas amorosas sem mencionar a morte. Se entramos em contato com a natureza da nossa mente, se a estabilizamos através da nossa prática espiritual e a integramos às nossas vidas, então o amor que temos para dar só pode ser profundo, porque vem de uma fonte mais profunda, do nosso ser mais interno, que é o coração da nossa natureza iluminada. Esse coração tem um poder especial de libertar a nós mesmos ou a alguém que esteja morrendo. Esse tipo de amor, que é o amor além de todo apego, é como o amor divino de que se fala tanto no cristianismo quanto no hinduísmo; é o amor de todos os budas. Nesse estado sem fabricação, mesmo sem pensar, podemos sentir a presença de Buda sem esforço. É como se tivéssemos nos tornado o representante dele, com nosso amor apoiado pelo seu amor e infundido com a sua bênção e compaixão. O amor que brota verdadeiramente da natureza da mente é tão abençoado que tem o poder de dissipar o medo do desconhecido, de dar refúgio à ansiedade e de dar serenidade, paz e, além disso, trazer inspiração na morte e além dela. E descobriremos por nós mesmos que quanto mais conseguirmos purificar nossa prática espiritual, mais natural e mais eficaz será a ajuda espiritual que daremos para os que estão necessitados, porque o modo como nós somos, o nosso ser, a nossa presença é muito mais importante do que o que dizemos ou fazemos. E quando você ajuda desta forma, é extraordinário, não só para a pessoa que está morrendo, mas também para a família.
Bodisatva:
Existe algum treinamento para quem quiser se aperfeiçoar nessa prática?
Sogyal Rinpoche:
Sim. Você pode desenvolver um treinamento chamado cuidado espiritual com elementos emocionais e práticos. São empregados elementos da espiritualidade, mas sempre relacionado à religião da pessoa. Até agora já treinamos cerca de 30 mil pessoas, entre enfermeiros e médicos, sobre como dar esse cuidado espiritual no momento da morte.
Bodisatva:
Além de estar na natureza da mente, para quem tem essa realização, o que mais pode ser feito nesse momento? Como podemos nós mesmos nos preparar para morrer e qual a maneira mais simples de se realizar o phowa?
Sogyal Rinpoche:
Outro ponto essencial é unir a sua mente com a mente iluminada dos budas – é a prática mais importante nesse momento, e é a que eu vou expor agora. Phowa, em tibetano, quer dizer “transferência da consciência”. A prática do phowa é mais poderosa e valiosa no momento da morte de todas que eu já encontrei. Eu vejo um grande número de pessoas praticando-a com entusiasmo durante a vida. E gostaria de enfatizar que qualquer um pode fazer essa prática. Ela é simples, mas é a prática mais essencial que podemos fazer para nos prepararmos para nossa própria morte, e é também a prática principal que eu ensino aos meus alunos para ajudarem os seus amigos e parentes que estejam morrendo.
Bodisatva:
O senhor poderia descrevê-la?
Sogyal Rinpoche:
Sim. No céu à sua frente, você invoca a corporificação de qualquer verdade em que você crê sob a forma de uma luz radiante. Escolha qualquer ser divino ou santo de quem você se sinta próximo: para os cristãos pode ser Deus ou Cristo, para os budistas pode ser Amitaba, que é o Buda de luz ilimitada e a deidade mais associada com o momento da morte. Se você não se sente conectado com nenhuma figura em especial, simplesmente imagine uma forma em pura luz dourada no céu diante de você. O ponto importante é que considere que o ser que você está visualizando ou que sente presente, seja a corporificação da verdade, sabedoria e da compaixão de todos os budas, mestres, santos e seres iluminados. Não se preocupe se você não conseguir visualizá- los claramente; apenas sinta-os em seu coração, preencha o coração com a sua presença e tenha confiança de que eles estão ali. Na segunda parte dessa prática, foque sua mente, seu coração e sua alma nessa presença que você invocou. Reze a ela que por meio de suas bênçãos, graça e orientação, por meio do poder da luz que flui dela para você, que todo o carma negativo dos seus pecados, emoções destrutivas e bloqueios sejam purificados e removidos. Peça para ser perdoado por todo o dano que possa ter pensado ou causado. E que possa realizar essa prática profunda de phowa, da transferência de consciência, e que possa morrer de uma forma boa e pacífica. E por meio do triunfo de sua morte, que você seja capaz de beneficiar todos os seres, vivos ou mortos. Essa é a oração. Na terceira parte, você imagina que a presença de luz que você invocou ficou tão comovida com sua oração sincera que responderá com um sorriso amoroso e emanará compaixão e amor na forma de raios de luz que saem do seu coração. À medida que esses raios de luz tocam e penetram você, eles eliminam todo o seu carma negativo, as suas emoções negativas que são a causa do seu sofrimento. Você vê e sente que está completamente imerso em luz e amor. Em quarto lugar, você sente nesse momento que está completamente purificado e curado pela luz que fluiu daquela presença. Considere agora que seu próprio corpo, criado pelo carma, se dissolve em luz. Esse corpo de luz que você agora é voa até o céu e se funde inseparavelmente com a presença bem aventurada daquela luz. Permaneça nesse estado de união com a presença pelo maior tempo possível.
Bodisatva:
Como podemos fazer o phowa para quem está morrendo?
Sogyal Rinpoche:
O princípio e a sequência dessa prática para ajudar alguém que morre são exatamente os mesmos. A única diferença é que você visualiza o Buda ou o ser espiritual acima da cabeça de quem está morrendo. Você imagina que raios de luz emanam em direção a essa pessoa e que purificam todo o ser dela. Aí a pessoa se dissolve em luz e se funde nessa presença espiritual. Você pode fazer essa prática durante a doença de um ente querido e, particularmente mais importante, quando a pessoa estiver dando o seu último suspiro, no momento exato da morte ou imediatamente após a respiração ter parado, antes que alguém toque o corpo, antes dele ser tocado ou perturbado de qualquer forma. Se a pessoa que está morrendo sabe que você está fazendo essa prática para ela e sabe qual é a prática, isso é uma grande fonte de inspiração e de conforto.
Bodisatva:
E o que não deve ser feito quando nos preparamos para a morte?
Sogyal Rinpoche:
O grande mestre Dzogchen Dodrubchen Jigme Tenpe Nyima, que foi mestre do meu mestre, deu o seguinte ensinamento: “Não se sinta nervoso ou apreensivo a respeito da morte, ao contrário, tente elevar o seu espírito e cultivar um sentimento de clara alegria trazendo à mente todas as coisas positivas e virtuosas que você fez no passado. E sem sentir qualquer traço de orgulho ou arrogância, celebre as suas realizações uma por uma”. O principal é o seguinte: no momento da morte, abra mão de apego e aversão. Mantenha coração e mente puros. E se você é um praticante espiritual, se reconheceu a natureza da mente e praticou em sua vida, no momento da morte, lembre- se da luminosidade básica e da clara luz surgindo. Na verdade, quando um grande praticante morre é isso que se diz a ele. Para os meus alunos que estão no momento da morte, é esse o conselho que eu dou: lembrem- se da natureza da mente, da clara luz. Fiz um dvd sobre isso, que também pode ser mostrado para o praticante que está próximo do processo de morrer. É como se eu estivesse ao seu lado, presente. Pensem em mim e eu estarei ali.


Sogyal Rinpoche – O mestre que nos ensina a viver e a morrer - Bodisatva 
 Por Liane Alves



sábado, 22 de dezembro de 2012

O Problema Econômico


O ser humano está - como réu, vítima e juiz - no centro de uma crise econômica de alcance global, simples de entender. A maior potência do planeta está, como vários outros países, com a faca no pescoço porque entre outras coisas gastou  mais do que ganhou, emitiu moeda sem lastro já que o mundo compra seus ativos, não controlou os bancos, consumiu desenfreadamente,  e valorizou seus ativos ávida e artificialmente acima do valor real. Já a segunda potência, uma auto-proclamada comunidade, além desses pecados todos, pensou que comunidade econômica é um ajuntamento de países sem objetivos comuns, e sem atividades convergentes e, principalmente, sem controles econômicos, financeiros e bancários recíprocos, rígidos e complementares. Basta ter uma moeda única e tudo bem... E todos estão ameaçados por uma potência rival milenarmente focada no poder a qualquer custo, seja custo ecológico, social ou humano,  com um governo ditatorial disfarçado, ferreamente disciplinada, austera, altamente produtora, poupadora e eficaz, dentro dos padrões aceitos pelos “vencedores”. Há mais de 2 mil anos um general romano dizia "devemos administrar o Império, mas sempre com um olho na China".
Mas isso tudo é apenas efeito. O ponto principal é que, no pano de fundo, o que há é um organismo econômico capitalista egoísta e selvagem, apesar dos disfarces, dando sinais inequívocos de esgotamento e incapacidade de se renovar. Orientado por uma busca hedonista do consumo e prazer a qualquer custo, mesmo diante do impasse estrutural e histórico, não quer largar o osso.  Por mais que o conjunto dos ricos acumule riqueza, não consegue atender as demandas da humanidade no seu conjunto. Um belo quadro...  A pedra angular desse jogo é uma premissa curta e grossa do capitalismo: do ut des, que em bom latim significa lacônicamente eu dou se você der. É a peça chave do impasse, a ser mudada por algo de fato justo, e compassivo, se se quiser soluções. 
Se um alienígena descesse aqui e convivesse uns anos conosco no ocidente, diria: “Não é possível esse povo ser tão ignorante, egoísta e agressivo a ponto de por a perder tudo o que construíram a duras penas durante séculos, só por falta de altruismo e adaptação das premissas que já estão antiquadas”... Aliás os budistas vem falando isso há milênios no símbolo dos 3 animais que simbolizam a ignorância, o apego e o ódio, sabiamente aplicáveis ao mecanismo econômico capitalista.
Para agravar, é um constructo econômico que não consegue compatibilizar a geração de resíduos com a saúde física da humanidade, cuja população cresce sem que ninguém controle a natalidade como uma variável crítica central. Quase não se fala no assunto. Só se fala nos efeitos. Uma atitude de avestruz.
Curiosamente um homem muito pouco conhecido e estudado pelos economistas e mais pelos espiritualistas deu as dicas dessa crise no início do século passado em um livro escrito antes da segunda guerra mundial em 1937, chamado A Grande Síntese. Seu nome é Pietro de Alleori Ubaldi, mais conhecido como Pietro Ubaldi, nascido em Foligno, Itália em 1886, e falecido em São Vicente, SP, Brasil, em 1972 após viver anos aqui no Brasil. Os livros escritos por ele foram recebidos por inspiração de alguém que ele chamava “Sua Voz” e abarcavam desde uma cosmogonia abrangente desde o macro ao micro-entendimento da Física e do Espírito do Universo,  até temas singulares como economia, sociologia, psicologia, ciências, amor, compaixão, etc. Um iluminado.
A Grande síntese não é um livro fácil. Exige um pouco de atenção, disciplina e algum conhecimento.  Foi escrito num linguajar de quase cem anos atrás, mas qualquer político pode entender se quiser, mesmo um presidente da república qualquer.  Vamos lá:
O PROBLEMA ECONÔMICO
“Vossa ciência econômica acredita justificar-se, como se partisse de um princípio de justiça original, afirmando, com sua premissa hedonística, a presença de um tipo abstrato de “homo economicus”, como que se pudesse isolar, na realidade, um aspecto, como  se cada  fenômeno  não  estivesse  vinculado  a  todos  os  fenômenos,  na  lei  universal.  Vossas  ciências sociais  baseiam-se facilmente em  qualquer  mentira  piedosa.  Mas,  dizei  a  verdade:  dizei  que  quase  sempre  o  homem  é  realmente  — não  como hipótese econômica — um perfeito hedonista; no campo dos negócios, limita-se a aplicar sua natureza egoísta; que o “do ut des” não é  um  equilíbrio  de  direitos,  mas  um medir  as  forças  para  estrangular-se  mutuamente;  declarai  a  impotência  da  maioria  para compreender uma aproximação, ainda que mínima, do amor evangélico; dizei que o homem é uma fera envernizada de civilização e então tereis as  bases reais do fenômeno econômico. Reconhecei: a ciência que o estuda é a  codificação do egoísmo, isto é, do instinto mais desagregador do complexo social.
A  premissa  hedonística é  o princípio  anticolaboracionista por  excelência;  é  um  princípio  de  dissolução,  que  o  edifício econômico  carrega consigo,  como  insanável  vício  de  origem, reaparecendo sempre  nos momentos  de crise. Egoísmo  de capital, egoísmo  de  trabalho,  egoísmo  de  produtor,  egoísmo  de consumidor;  egoísmo  individual,  de classe,  de  nação  (sistema protecionista);  coalisão  de egoísmos,  organização de egoísmos,  sempre egoísmo!  As  mercadorias,  a  riqueza,  o  trabalho, precipitam-se atraídos (no regime de livre câmbio) ou subjugados por essa grande força, mesmo que seja ilógica e contraste com as supremas exigências das ascensões humanas. No entanto, esta é a meta inderrogável, ética elevada, à qual todas as funções sociais têm de subordinar-se para o objetivo único da evolução. Ao contrário, egoísmo é luta, atrito, dispersão, germe de destruição. É o ponto fraco do mecanismo, um fardo enorme que tem de ser arrastado, e o torna imperfeito, ameaça-lhe a jornada, qual cego que avança entre choques  e reações.  Para  quantas  dores  haveria fácil remédio, “se cada  um  amasse  o próprio semelhante como  a si mesmo!”
Se  o fenômeno econômico é a expressão da lei do menor  esforço, assume sempre a forma de coação. O equilíbrio entre oferta e procura é resultante de uma luta, o oferecimento de uma mercadoria é apenas a exigência de um preço; tudo move-se pela própria  necessidade,  não  pela consciência  das  necessidades  recíprocas;  um sistema carregado de atritos,  um  equilíbrio forçado entre  forças  antagônicas,  tensas  para eliminar-se, sobrecarrega-se  pelo  peso  do  egoísmo.  Não  era  possível  deixar  de chocar-se, mesmo  neste campo,  numa  manifestação  da  lei  universal,  e  não  encontrar  equilíbrios.  Mas,  diante  do princípio  do  ut  des,  da procura e  da  oferta,  o  egoísmo  caminha  triunfante,  seguindo  a  lei  do  menor  esforço,  para equilíbrios  móveis,  mas matematicamente exatos, que  podeis calcular, mas que conservam sempre a marca da premissa original: o egoísmo demolidor. O instinto hedonista, em sua inconsciência de todos os outros valores sociais, caminha calcando todos eles, contanto que se realize a si mesmo. Força primitiva, brutal que, se em vosso nível é impulso de criação, também constitui princípio de destruição, pelo qual sofreis infinitas crises e reveses.
Mas  a evolução, fenômeno  universal, tinha  que funcionar também  neste campo,  com a gradual eliminação do princípio hedonístico,  por  cerceamento,  por  limitações  e elevações  progressivas,  até saber  compreender  os  interesses  de  ordem  geral  no próprio  âmbito.  Encontramos  por  toda  a parte  o  mesmo  processo  ascencional,  pelo qual  a força  tende à  justiça,  o  egoísmo  ao altruísmo, a guerra à paz, o mal ao bem. Na evolução não se pode isolar um campo do outro. Todos os fenômenos sociais porém, devem ser  concebidos  e fundidos  numa ética superior. O  conceito hedonístico,  colocado  como  base  das  ciências  econômicas,  é filho do agnosticismo de outros tempos, já agora superados. Se, num primeiro momento, o perfeito equilíbrio da balança — do ut des — é o máximo de justiça que a psicologia das permutas pode conter, nos momentos superiores o progresso impõe a introdução do fator  moral  no fenômeno  econômico  em  proporção  cada  vez  mais  ampla. Como  na evolução  do  egoísmo,  o  próprio  cálculo utilitário vos  levará a isso,  pois  nele  se exprime a  lei  do  menor  esforço.  Sendo  a  luta cheia  de atritos  que  implicam  enorme dispersão de energia, é vantagem suprimi-los.
Em vosso atual mundo, raramente a riqueza segue a estrada do bem; não é meio para conquistas mais altas, mas fim para gozos  que  premiam  as  aptidões mais rapaces e antisociais. Atenção, porém, porque essa psicologia é supremamente demolidora, mesmo no campo do utilitarismo individual (inconsciência coletiva), o oposto do colaboracionismo (consciência coletiva). Quando um fenômeno nasce envenenado por impulsos negativos, estes, indestrutíveis como todas as forças,  acompanham-no e o corroem até sua destruição; quando uma ação  está infeccionada no momento decisivo do nascimento pelo germe da desonestidade, ele se arrastará corroído por dentro, como um enfermo, até que a desagregação interna o resolva com a morte. Eis porque o vosso mundo econômico  está cheio  de crises  inevitáveis, sem  remédio,  e  porque  elas surgem sobre esses  equilíbrios  instáveis  e fictícios.  A solução  não se encontra  na criação  de  um rebanho  de irresponsáveis,  de mendigos, sustentados  pelo Estado, mas  na criação de uma sociedade de responsáveis, que saiba manejar conscientemente a grande força econômica. Não pressuponho uma mutilação, mas  um  aumento de consciência,  de  poder,  de liberdade,  de confiança,  de responsabilidade. O  homem  não  deve anular-se, mas manejar as forças da vida para aprender; deve correr livremente o risco de errar para que, ao sofrer as consequências, emende-se; deve  bater a cabeça para aprender a não batê-la mais. À força de crises, de derrocadas, de desastres financeiros, aprenderá que o negócio mais estável, mais sábio, mais lucrativo é a honestidade; que a posição mais utilitária é a que leva em conta o interesse de todos, a que se funde e não se isola no organismo coletivo econômico. Estas são as leis da vida e não constituem utopias.
Na  direção  desta  renovação,  o  órgão  máximo  só  pode  ser  a  consciência coletiva:  o  Estado.  O  fenômeno  econômico compete à autoridade  central do Estado, como personificação integral da ética humana,  das inoculações cada vez mais enérgicas de  fator  moral,  constrições  e correções  que  purificam  a  atividade  econômica e a  riqueza,  e as  canalizam  para  objetivos  mais elevados.  Compete ao  Estado  intervir  e corrigir,  introduzindo um  mínimo  ético  cada  vez  mais  alto,  no  fenômeno  econômico, dirigindo de dentro e de fora, o árduo equilíbrio das permutas para um regime de colaboração, que não é apenas compensação, mas compressão  de egoísmos;  não  apenas  coordenação,  mas  fusão  num  organismo  econômico universal.  Uma ciência  econômica diferente da atual que suporta a Lei, mas consciente dela, não deve surgir de bases hedonísticas, mas colaboracionistas porque, numa sociedade  mais  adiantada,  a  fase ética e utilitária é cooperação;  esta é a  revolução  econômica  fundamental  que,  neste campo, exprime vossa atual maturação biológica. Infelizmente, os sistemas que  modernamente dominam no mundo levam a uma seleção às avessas, a do mais astuto e desonesto, enquanto o honesto é eliminado. A sociedade não exalta o homem que dá, porque esse fica pobre, mas  o homem que apanha e acumula, porque esse fica rico. No entanto, o primeiro dá aos outros o que é seu, o segundo  tira  dos  outros  para si.  Este só  poderá justificar-se realizando sua função de conservar  e fecundar  a riqueza com seu trabalho.
Em vosso mundo, os melhores estão escondidos, porque são sensíveis, modestos, endereçados a outras metas, não têm as qualidades  agressivas  que condicionam  o  êxito.  Ao  invés,  os  ambiciosos  e  ávidos sabem  pisotear  tudo  sem  escrúpulos  para consegui-lo. O  que  brilha em  vosso mundo raramente coincide com os valores intrínsecos; o triunfo econômico muito rápido só pode significar ausência de honestidade. Ainda vos moveis no nível da força econômica (princípio hedonístico) e não ainda no da justiça  econômica (colaboracionismo).  Qualquer  crise  no  regime  hedonístico  tem  de  descer  até  o  fundo;  só pode  parar  por saturação, só  pode reerguer-se  por  uma reação  natural  do próprio fenômeno,  depois  de haver sido esgotado o impulso, pois não possui as capacidades compensativas do regime colaboracionista.
Em  vosso  mundo  não  há  proporção  entre  trabalho  e  lucro;  o  furto  é autorizado  na especulação;  parasitismos são inevitáveis  como  consequência  direta  da  premissa  hedonística.  O  princípio  do  do  ut  des gera  luta  para  tirar  o máximo  e  dar  o mínimo. Isto não apenas é o precedente da luta, mas implica toda a psicologia do furto, macula todo o mundo econômico, fazendo nele brilhar o egoísmo em lugar da justiça. Se o ponto de partida é a motivação hedonística, a vontade estará toda voltada para a exclusiva  vantagem  individual,  à  qual  só  se  renuncia  quando  constrangido  pela  vontade alheia,  que está  voltada  para  outra vantagem  individual.  Vossa  oferta  é apenas  um  pedido  de  dinheiro,  oculto  totalmente  pela  mentira;  não visa  o  interesse  do consumidor, mas ao egoísmo do produtor. Por isso, vosso edifício econômico é torturado e desgastado por esse constante atrito de exploração, que arrasa segurança e confiança, que são as bases desse edifício. Por isso, o mundo econômico não é um organismo de justiça, mas um campo de competições sem piedade.
Não existe proporção entre valor e preço. Este, o mais das vezes, não corresponde ao custo da produção, mas à maior ou menor  capacidade  que apresenta  de  suportar  o peso  da exploração.  Verdade,  porém,  que  o poder  esfaimado  da  procura  gera imediatamente a superprodução  e equilibra-se com  a  oferta, mas  esse equilíbrio espontâneo é com frequência ultrapassado pelo desequilíbrio originário do egoísmo, sempre voltado para reassumir a vantagem logo que possa. Além disso, não há quem não veja que  o aumento de preço, pelo simples fato de que a procura é intensa e a oferta escassa, esteja distante da justiça, especialmente quando o consumidor se acha em condição de necessidade e a penúria seja causada pela açambarcação.
Os bens na Terra, não buscam o caminho da necessidade, a riqueza é atraída pela riqueza e foge da pobreza. Ao invés de constituir  uma ajuda,  é frequentemente  um mal na vida social. A psicologia hedonística carreia o dinheiro para onde não serve, afasta-o de  onde  poderia aliviar  uma  dor,  proteger  uma  vida.  Todos fogem  do fraco  e  do  vencido; logo  que se  manifesta  uma fraqueza, tudo ocorre para agravá-la, empurrando-a para a beira do precipício. Para vós, a necessidade do próprio semelhante é um não-valor econômico, enquanto é valor a confiança que vos inspira uma sólida riqueza. Por isso, ela dificilmente executa a função que  deveria ser para ela a primordial, ou seja, um meio de vida e de melhoria. Por vezes, transforma-se até em meio de opressão que absorve e destrói, em lugar de fecundar e soerguer a vida. Essa hipertrofia do egoísmo constitui o mal que onera vosso mundo econômico e o ameaça. É ilógica e prejudicial essa canalização da riqueza para a riqueza, ao invés de sê-lo para a pobreza; essa atração  levada a agigantar  desigualdades  que  são  a  base  dos  desequilíbrios sociais  e  morais,  essa  tendência à  concentração, enquanto a saúde está na descentralização.
Em vosso mundo não existe acordo entre capital e trabalho. Esses dois extremos do campo econômico deveriam estender-se as  mãos  como  irmãos.  Torna-se  inútil  a  determinação  de  leis  e sistemas,  pois  o  capital  está  poluído  em suas  origens  pela desonestidade, que o tornará infecundo; cada remédio e cada controle ficam na superfície, pois na alma não existe a consciência da função social dessa  destilação do produto do trabalho, que é o capital, e se torna um meio de opressão. Para superar os conflitos que  oneram  a  humanidade  neste campo,  é  mister  também  superar  a  inconsciência  egoísta,  elevando-a até à consciência colaboracionista. Os dois pólos, capital e trabalho — como todos os contrários — são complementares, feitos para completar-se, porque cada  um  deles, sozinho,  não se sustenta; são feitos  para  unir-se e fecundar-se  mutuamente,  numa corrente  de  permutas contínuas,  que  devem  ser,  também,  amplexos  de espíritos.  Somente  na compreensão das  duas  forças  podem  praticamente combinar-se os impulsos da balança econômica. O único fato substancial que justifica vossas lutas, é que elas constituem um meio para chegar à compreensão, já que, também neste campo, como em qualquer outro, a evolução é irrefreável."

domingo, 13 de maio de 2012

A Ignorância, o Apego, o Ódio

Na publicação A Roda da Vida falamos do símbolo tibetano mais expressivo do sofrimento, que é, aliás, a condição humana, lembram-se?
“No centro do símbolo há 3 animais, uma cobra, um galo, um porco, ou seja, o ódio/medo (uma unidade), a avidez e a ignorância entrelaçados, um correndo atrás do outro e mordendo avidamente um ao outro como não podia deixar de ser (pois são ligados intrinsecamente). E essa trindade é tingida, pela shenpa, (fisgar, ficar colado) como eles dizem.
É como um átomo do sofrimento, a partícula indivisível que é a fonte da dor, atrelada ao apego, o seu núcleo. Essa é uma redução ao denominador comum, de toda variedade do sofrimento que encontramos desde sempre no planeta. O budismo tibetano fez uma obra prima de sintetização de um dos temas metafísicos de maior complexidade que conhecemos, o sofrimento.  E a partir dessa gênese, em círculos concêntricos a roda se esparrama na diversidade estabelecendo o quadro todo da Vida.”
Essa tríade está conectada com fortes ligações, como um átomo com suas ligações químicas, e uma puxa a outra, num círculo vicioso, ou melhor, num triângulo vicioso.  

Vamos falar disso um pouco mais fundo?
Observemos com atenção todo e qualquer aspecto da nossa vida que tenha algum resquício, por menor que seja, de sofrimento. Ele tem sempre uma dosagem dos três bichos combinados em doses diferentes. Não se preocupem, nem percam muito tempo em procurar exemplos de situações. Peguem o primeiro que aparecer pois são aproximadamente 99,9% dos casos da nossa vida (rsrs). Somos um planeta de expiação, e para isso, um planeta em que a vida é sofrimento, conforme diz o budismo. Sem pessimismo, nós temos é que aceitar o processo, e isso realmente muda tudo. Mas continuando:
Vamos tomar com simplicidade o tema e transportá-lo para dentro de nós através da Presença. Vamos sentir a natureza e o efeito das três coisas (ódio, apego e ignorância), mas de uma forma real e prática, sentindo-as dentro de nós mesmo, do nosso corpo: onde tocam? Em que lugares? O que produzem? Que gosto tem? Como e onde a gente se contrai, como disfarça, como se engana e foge para a TV, cinema, sexo, baladas, fantasias?...
Vejamos o apego, o galo, essa coisa que produz, ou mesmo é, a própria avidez: como ele se combina com os outros dois? Se eu me flagro numa situação de apego, de colamento a algo, seja uma pessoa, uma emoção, um fato, ou o que for, se eu olhar de soslaio (gosto dessa palavra) eu vou identificar o ódio, ou pelo menos o seu germe, o potencial ódio, colado ao apego, pois basta alguém ou algo contrariar o meu apego, e o demônio do ódio desperta, incontrolável. Quando eu consigo ver isso, vejo por tabela que o que me impedia de ver antes era a ignorância. Faz sentido? Aí estão os três, mais unidos que político e corrupção.
Se fizermos a mesma coisa com a raiva, ou ódio, que é simbolizado pela cobra, o processo é muito parecido. Vamos lá: eu me flagro com raiva de alguém ou algo, um fato, uma situação, um imprevisto. Se eu olhar para a gênese da raiva em questão, verei que ela existe pelo fato de que eu estou apegado ao resultado frustrado em relação ao que eu queria, ou não quería, que acontecesse. A pessoa me agrediu, ou me enganou, ou o fato era imprevisto em relação ao que eu apegadamente queria. E do canto do olho eu vejo a ignorância rindo de mim. É a ignorância do fato de que esse evento ruim que aconteceu estava no quadro das possibilidades e eu deveria então desapegadamente prevê-lo como possível de acontecer e não desenhar um futuro já previsto e fixo, ao gosto
do meu ego. O contrário disso chama-se fluir, soltar-se. Como dizia Gurdjieff, "temos direito ao esforço, não ao resultado". Então, é fazer todo o esforço, colocar toda a vontade em conseguir algo, mas sem se apegar ao resultado. Se ele vier, beleza. Se não, vamos em frente. É difícil? É. Mas se fosse fácil você não seria chamado, ora essa. Qualquer um faria (rsrs)
Intervalo para recreio: desci agora para tomar um cafezinho entre uma frase e outra, e fui olhar uma das três misteriosas larvas prateadas que apareceram na parede do quintal. Estava vazia e havia uma esguia borboleta secando as asas. Amarela, rosa e preta. Daí a pouco alçou vôo, pousou uns segundos na samambaia ao sol, e caiu na mata e no mundo...êta mundo velho...
E para fechar o triângulo, a ignorância, o porco. Vamos observá-la dentro de nós. Ela é mais difícil, porque o nosso ego não aceita que ela exista, ele já acha que sabe tudo e portanto não há ignorância para o bonitão do porco. Temos que fazer um esforço para assumir e sentir a ignorância dentro de nós.
Eu olho para qualquer situação, pessoa ou fato e não percebo “o que eu não sei” sobre aquilo. Isso é a ignorância, e eu não sei ficar diante dela impassível e calmo. Eu assumo que só existe o que eu vejo e pronto. Já procuro, com o pouco que percebo da situação, fazer, controlar, decidir, etc., ignorando que só vejo uma pequena parte do iceberg. Então, a partir da falsa premissa de que eu compreendo e comando a situação, a porta está aberta para sentir raiva de quem não concorda comigo, ou sentir apego às minhas idéias, valores, concepções, planos, visão do mundo, etc..
É isso. Estamos numa prisão de 3 paredes, uma colada à outra. Indivisível. Mas transponível. Isso é o sofrimento.

No Budismo Bön, e em todo o Budismo há uma representação da alquimia interna do ser humano que traz esse dilema para dentro do nosso corpo e ensina o caminho para sair da prisão através da respiração, do prana, a energia vital. Já falamos disso na publicação O Sonho – Visão Budista. , mas é sempre bom recordar.
Há 3 canais energéticos interligados que unem as narinas e um ponto abaixo do umbigo, no interior do corpo. Dois ficam nas laterais da coluna, um vermelho e outro branco. Um é ligado à raiva, outro ao apego e começam nas narinas, sobem para o topo da cabeça e descem latralmente até o ponto no baixo ventre onde se unem no centro e sobem num canal azul até o chacra da coroa no topo da cabeça. Nas 9 respirações purificadoras, o prana ou energia vital, é conduzido a partir do nariz para dentro de nós e limpa os 3 canais saindo pelo topo da cabeça com o nosso lixão interior, e nos tornando conscientes do trabalho sobre os 3 animais, e portanto sobre o sofrimento. Como dizem os anúncios na tv: Experimente!...

domingo, 8 de abril de 2012

Dinheiro, Cupins, Suicidas, Guerra, e outros bichos;;;

o suicida lento e paciente
Há poucos dias a vida me deu uma rasteira para eu deixar de ser bocudo e metido a besta: tive que fazer uma “barreira química” contra os cupins subterrâneos que estavam perfurando o concreto da minha nova casa atrás de celulose para comer. Logo eu, ecologista briguento de carteirinha... o fato esticou a corda da incompatibilidade entre interesses e princípios. Tremendo stress.
Barreira química: Esse é o nome que os experts dão ao serviço de furar todo o chão da sua casa e despejar um bocado de veneno no subsolo para matar a rainha do cupinzeiro, diferentemente da chamada dedetização comum. Pelos meus cálculos, só essa empresa faz 500 operações dessas por mês, só na região de São Paulo. Antes de tomar a decisão fui fundo na Internet e aprendi com gente do ramo muita coisa sobre o assunto. Você sabia que o Parque do Ibirapuera é o cupinzeiro central da cidade de São Paulo?
 Só não aprendi como agir com os cupins de uma forma alternativa e sem potenciais danos ao meio ambiente. Ainda não digeri o assunto, apesar de o técnico, um engenheiro simpático, me garantir que “o produto moderníssimo, de alto avanço tecnológico-químico, não apresenta nenhum risco ao meio ambiente”... Lembrei-me do episódio da explosão na Índia da fábrica de produtos químicos Union Carbide em 1984 (hoje Dow Chemical) cujos efeitos maléficos persistem até hoje, segundo o Greenpeace. Também "não havia na época nenhum risco ao meio ambiente”, segundo a empresa.
E esse episódio de dano ambiental me remeteu também ao do vazamento do navio petroleiro da Exxon - Valdez no Alasca (US $ 2,9 bi de prejuízo em dinheiro, e não-se –sabe-quanto de prejuízo ecológico). Sem contar o recente desastre de vazamento de petróleo no Brasil, bola da vez, minimizado pelo governo oportunista e orgulhoso do pré-sal. E outras centenas de outros casos no mundo.
Mas o assunto não é ecologia. É sobre o ser humano em relação ao tema. Há um traço imediatista e suicida do ser humano associado à ganância pessoal e capitalista, que sempre me incomodou. É uma mistura de várias coisas perversas que produzem um resultado desastroso no longo prazo, não só para os agentes, mandantes do crime, e defensores do desastre em vários níveis, mas para os outros, para toda a humanidade.

A base do desastre é a ganância, o apego ao dinheiro, à minha segurança econômica, da família, dos amigos, da minha tribo, sempre nessa ordem.  A humanidade “que se exploda”, como dizia o velho Chico Anísio, crítico bem humorado dos costumes, mas mordaz como sei-lá-o-quê.
Vamos exemplificar isso: você já viu, por exemplo, um porta-voz ou relações públicas de uma indústria química poluidora, automobilística, uma petroleira, fabricante de cigarros, medicamentos, etc., justificando a nobreza de suas intenções e o benefício do produto? É patético.
Pois bem, esse “elemento” como diz a gíria policial, é geralmente um profissional no mínimo de nível superior, inteligente segundo os nossos padrões, “pai de família”, cujos filhos aprendem na escola a serem ecologicamente corretos, e vai por aí afora. Mas por um processo que escapa à nossa compreensão, ele convenientemente falseia a realidade e defende o mau produto que ajuda a vender, a má empresa onde trabalha como um mouro, o mau patrão, o mau chefe, a má circunstância.
Por que?
Ele sabe que aí tem uma mentira, mas por um processo mental cheio de arabescos e justificativas (as crianças, o orçamento doméstico, os credores, o padrão de vida, a viagem à Disney, a sogra, o diabo) à noite, põe a cabeça no travesseiro e... e dorme o sono dos justos. E levanta motivado para mais um dia de labuta na defesa da empresa ou entidade criminosa. Um bom funcionário...
Se questionado, vai alegar uma centena de razões para agir assim. É um suicida letrado e esperto promovendo um suicídio lento e paciente . E homicida também. Um homicida por omissão, no mínimo. O que o hinduismo e o budismo chamam de karma não é uma abstração filosófica ou esotérica é uma realidade concreta: os efeitos dessa ação e omissão vão alcançar o diretor, o gerente, contador, faxineiro, boy, o padre, o rabino, o papa, vixe...nós, certamente, estamos na lista. Há uma gradação de vítimas-réus com diferentes níveis de culpa, desde os mandantes até os omissos, quase todos, que acreditam piamente que “eu não tenho nada a ver com isso”. Eles se esquecem de que a médio prazo não há saída na aldeia global que chamamos de planeta Terra.
A outra face do mesmo processo suicida e homicida que sempre me encasquetou é a guerra. Como nos crimes ecológicos, o dinheiro e o capitalismo amoral continuam por trás da cena, mas diferentemente do caso citado acima, o dinheiro é uma influência que induz quem motiva a guerra, não a jovem vítima que pega o fuzil, matando porque foi induzida a erro.
Quem, como eu, acompanhou o dia a dia da guerra do Vietnã ficava com perguntas sem resposta: por que esse pessoal vai para a guerra? Por que simplesmente não se recusam? Por que se iludem com esse falso patriotismo sabendo que ela é feita por interesses de um conluio industrial-militar acenando com ameaças terríveis, mas mentirosas, do inimigo? Curiosamente quem tinha a visão mais equilibrada sobre o absurdo da guerra do Vietnã eram os hippies, “puxadores de fumo” rejeitados pela sociedade e pelo stablishment da época. Pouca gente faz um raciocínio objetivo sobre quem produz, com que falsos argumentos, e a quem interessa a guerra, e por que.
Eu me lembro quando servi ao Exército ficava incomodado com a letra das músicas militares, usadas para seduzir as emoções jovens dos recrutas. O hino da Infantaria dizia na terceira estrofe:
“És a nobre Infantaria,
Das armas a rainha,
Por ti daria
A vida minha,
E a glória prometida,
Nos campos de batalha,
Está contigo,
Ante o inimigo,
Pelo fogo da metralha!”

Brincadeira hein cumpadre. Ninguém se toca de que a glória prometida ao ser humano não é "o fogo da metralha”, é o Despertar, e “o inimigo” é o meu semelhante. O verdadeiro inimigo é quem produziu a guerra. E ele ainda é meu conterrâneo, provavelmente um político, intelectual, empresário, banqueiro, ou “líder espiritual”
Na passagem abaixo Gurdjieff fala em 
Leningrado (hoje São Petersburgo) para pra seu grupo de discípulos:
Pergunta: “- Pode se deter as guerras?
- Sim, é possível.
- Entretanto, devido às nossas conversas anteriores, eu estava certo que responderia “Não, é impossível”.
- Mas tudo está na pergunta: Como? – continuou. Tem que saber muito para compreender isso. O que é uma guerra? A guerra é um resultado de influências planetárias. Em alguma parte lá em cima, dois ou três planetas se aproximam demais e resulta uma tensão.
- Notou como você se tensiona quando um homem esbarra em você numa rua escura? Entre os planetas se produz a mesma tensão. Para eles talvez não dure um ou mais segundos. Mas aqui sobre a terra, as pessoas começam a se matar e continuam a matança durante anos. Durante todo esse tempo parece a eles que se odeiam uns aos outros, ou que é o seu dever se destroçarem por algum propósito sublime, ou devem defender algo ou alguém, e que é muito nobre fazer isso, ou algo assim.
São incapazes de se dar conta de até que ponto são simples peões de um tabuleiro de xadrez. Se atribuem importância, se acreditam livres de ir e vir a seu critério, pensam que podem decidir o fazer isso ou aquilo, mas em realidade todos os seus movimentos, todas as suas ações são resultados de influências planetárias. Por si mesmos não tem nenhuma influência. Quem tem o papel importante é a Lua. Mas falaremos disso mais tarde.”
Essa influência planetária parece ser só o “gatilho” imediato da guerra. O pano de fundo que está por trás e que fornece combustível para a fogueira é a Lei do Karma, magistralmente explicada pelo Budismo. Sem essa bagagem pesada das ações passadas e do lado sombrio de cada ser vivo, de cada família, país, raça e a própria humanidade como um todo no tempo, nada aconteceria com o gatilho planetário. Só um mal estar passageiro, não uma guerra.
Durante milhares de gerações as duas atitudes do ser humano  de “defesa do indefensável” aqui apresentadas são um reflexo de uma outra situação citada na maioria das tradições autênticas, uma paisagem que permeia a nossa vida neste planeta: é o fato de que “estamos adormecidos”. Mas isso não é o pior. O trágico é que nas profundezas do nosso sono pensamos que estamos acordados, atuando, despertos e no mínimo inteligentes e sagazes. Um espanto!