domingo, 11 de setembro de 2011

O Sonho - Visão Budista

O Budismo é uma das tradições mais amistosas e agregadoras do planeta. Ao chegar da Índia e Nepal ao Tibete, trazido por Padmasambhawa encontrou e fundiu-se com a tradição animista e xamânica local, o Bön-po, cuja coloração gerou o lamaismo dando-lhe uma individualidade diferenciada entre as várias correntes budistas atuais.
O ensinamento tibetano mais elevado destas duas vertentes é o Dzogchen, que não é mais um ensinamento ou prática mas é um estado de ser, desperto, o cume da evolução de um indivíduo. Seu princípio fundamental é que “a realidade e o indivíduo já são perfeitos. Só precisam ser reconhecidos e não mudados”. Não há o que fazer. Só “não fazer”.
Dentro do Dzogchen a prática essencial é a “auto liberação” que se resume em “permitir que tudo o que existe na experiência, exista como é, sem as elaborações da mente dual, apego ou aversão”. É como é. Ponto final. Desapego é isso.
A novidade para nós ocidentais é a seguinte: para se chegar a esse estado de auto liberação é preciso trabalhar a yoga do sonho, e transformar o sonho comum no sonho lúcido que é o meio de se atingir conscientemente o sono profundo onde está a “clara luz”. Você que leu a postagem “O Sonho – Visão Tolteca” deve estar pensando “Como é que esses budistas tibetanos combinaram tudo com os toltecas americanos? É muita coincidência”. Então aguarde logo sobre como os índios brasileiros também trabalham o sonho. É um complô global. (rsrs)
Então você pergunta: "como se trabalha interiormente no sonho e o sono?". 
Trabalha-se com práticas dormindo e acordado, fazendo uma ponte que elimina barreiras entre os dois estados. Ao se afirmar interiormente que a vida "acordada" também é ilusória como um sonho, quebra-se gradualmente a importância e o poder que ela exerce sobre nós. Aos poucos começa a brotar um relaxante desapego em relação à ditadura do tenso e escravizador "mundo real". Nessa prática as coisas ficam mais fáceis na visão bön-budista, porque o budismo é mais didático que a tradição tolteca e outras mais rígidas. Ele é multicultural, adaptou-se melhor à mente ocidental, e tem um exército de monges e lamas espalhados pelo mundo, falando uma linguagem conceitual menos misteriosa, mais simples e homogênea apesar das pequenas diferenças de forma entre as várias correntes budistas.
Vamos então dar um roteiro, uma visão resumida das práticas, conceitos e palavras chaves como foi exposto no livro “Os Yogas Tibetanos do Sonhos e do Sono” pelo respeitado e jovem mestre Tenzin Wangyal Rinpoche, lama da tradição Bön do Tibete, que vive na Virgínia – EUA, e fundou o Ligmincha Institute que tem ramificação no Brasil, onde já tem vindo. Vamos lá:

AS QUATRO PRÁTICAS PRELIMINARES

1 - Modificar os Traços Kármicos
•    Durante o dia todo, dê-se conta continuamente de que toda experiência é um sonho.
•    Perceba todas as coisas como objetos num sonho, todos os eventos como eventos num sonho, todas as pessoas como pessoas num sonho.
•    Veja seu próprio corpo como transparente e ilusório.
•    Imagine que você está num sonho lúcido durante o dia inteiro.
•    Não permita que estes lembretes sejam meramente uma repetição mecânica.
•    Toda vez que disser a si mesmo: "Isto é um sonho" torne-se realmente mais lúcido.
•    Use seu corpo e seus sentidos para se tornar mais presente.

2 - Eliminar o Apego e a Aversão
•    Experimente todas as coisas que geram desejo e apego como fenômenos ilusórios, vazios, luminosos de um sonho.
•    Reconheça suas reações aos fenômenos como um sonho, todas as emoções, julgamentos e preferências como tendo sido inventadas.
•    Você pode se certificar de que está fazendo isto corretamente se, imediatamente depois de se lembrar que sua reação é um sonho, seu desejo e apego diminuírem.

3 - Fortalecer a Intenção
•    Antes de ir dormir, reveja o seu dia como num vídeo, e reflita como foi a prática.
•    Deixe que as lembranças do dia surjam e as reconheça como lembranças oníricas.
•    Desenvolva uma firme intenção de se manter consciente nos sonhos daquela noite.
•    Ponha todo o seu coração nesta intenção e peça intensamente pelo seu sucesso.
 
4 - Cultivar a Memória e o Esforço Alegre
•    Comece o dia com a firme intenção de se manter na prática.
•    Reveja a noite e sinta alegria se você se recordou dos seus sonhos ou se esteve lúcido neles.
•    Retome o compromisso com a prática, com a intenção de se tornar lúcido no sonho - se você não esteve - e de desenvolver ainda mais a lucidez - caso já a tenha experimentado.
•    A qualquer hora do dia ou da noite, é bom pedir pelo sucesso da prática.
•    Gere uma intenção tão forte quanto possível. Esta é a chave para o sucesso da prática.

PRÁTICAS PREPARATÓRIAS ANTES DE DORMIR

1 - As Nove Respirações Purificadoras
•    Na postura preferida de meditação (sentado, lótus, seizá) antes de se deitar para dormir, faça as nove respirações de purificação, em 3 grupos de 3, repetidas:
1ªs 3 respirações - Homens - polegar direito pressionando a base do anular direito, fechando a narina direita, inspirando luz verde pela narina esquerda. Depois, com a mesma mão, fecha a narina esquerda e expira pela direita. Repete 3 vezes. Mulheres tudo ao contrário, trocando direito (a) por esquerdo (a).
2ªs 3 respirações - Homens e mulheres, invertam as mãos e as narinas e façam 3 vezes.

Os 3 canais

3ªs 3 respirações - Homens e mulheres, com as mãos no colo, palmas para cima, a esquerda sobre a direita, inspirem luz verde que desce pelos 2 canais laterais até 4 dedos abaixo do umbigo. Depois sobe pelo canal central, saindo no alto da cabeça expelindo fumaça negra e doenças em potencial (Vixe!). Façam 3 vezes.

2 - Guru Yoga
Pratique o guru yoga:
• Visualize um mestre à sua escolha
• Imagine fluindo dele para você, uma a uma, três feixes de luz, branca (do chakra entre as sombrancelhas), vermelha (do da garganta) e azul (do do coração).
• Gere uma forte devoção, depois funda sua mente com a consciência pura do mestre, representante do mestre último que é a Consciência Primordial, sua verdadeira natureza.

3 - Proteção
•    Deite-se na postura correta do leão, de lado e com uma mão entre o rosto e o travesseiro, apoiando o rosto, e a outra estendida sobre o corpo. Os homens deitados sobre o lado direito, mulheres sobre o lado esquerdo.
•    Visualize seres protetores ou divindades  em volta de você (
no budismo há as dakinis) protegendo-o (a) no seu quarto a noite toda. Use a imaginação para transformar o quarto num ambiente protegido e sagrado.
•    Suavize a sua respiração e acalme a sua mente, observando-a até que você esteja relaxado e presente, contemplando sem se envolver com histórias e fantasias.
•    Crie uma firme intenção de ter sonhos claros, vívidos, recordar-se dos sonho e reconhecê-los como sonhos enquanto sonha.

AS PRÁTICAS PRINCIPAIS

1 - Trazer a Consciência ao canal central

Letra A tibetana
•    É a prática do primeiro período da noite.
•    Focalize o centro da garganta: um “A”  (tibetano ou ocidental) puro, translúcido e cristalino que se tinge de vermelho pela cor das quatro pétalas vermelhas sobre as quais ele repousa.
 •    Funda-se com a luz vermelha. 


2 - Aumentar a claridade

•    Acorde aproximadamente duas horas depois (com
Tiglé branco
ou sem despertador, melhor sem). Na mesma posição do leão, e pratique a respiração abdominal sete vezes. 
•    Focalize o tiglé branco (esfera luminosa) no chakra entre as sobrancelhas, enquanto adormece.
•    Permita que a luz branca dissolva tudo, até que você e a luz sejam uma só coisa. 
3 - Fortalecer a Presença
•    Depois de aproximadamente mais duas horas, acorde novamente.

    Deite-se de costas sobre um travesseiro alto, quase sentado, com as pernas levemente cruzadas.  
Sílaba Hung
•    Focalize a sílaba tibetana HUNG negra no chakra cardíaco. 
•    Respire profunda, plena e suavemente vinte e uma vezes.
•    Funda-se com o HUNG negro e adormeça.

4 - Desenvolver a Intrepidez (coragem)
•    Acorde novamente outras duas horas depois.
•    Não é necessário nenhuma postura ou respiração específica.

Tiglé negro
•    Focalize o tiglé negro e luminoso no chakra secreto, atrás dos genitais.
•    Adormeça fundindo-se à luz negra.
•    A cada despertar tente estar presente e na prática. Pela manhã, no seu último despertar, esteja imediatamente presente.
•    Reveja a noite, gere intenções e continue com a prática durante o dia.
•    Além disso, ajuda muito conseguir tempo para fazer a prática na calma (residir na calma, ou zhiné) durante o dia. Ela vai ajudar a deixar a mente tranqüila e focada e beneficiará todas as outras práticas.

O ponto mais importante tanto das práticas preliminares quanto da prática principal é manter a presença (lembrança de si) de forma tão consistente quanto possível durante todo o dia e toda a noite. Esta é a essência dos yogas do sonho e do sono. 
Sugestão: Imprima este resumo e leve no bolso.

Nota: Quem quiser mais informações sobre o Bön Budismo, consulte:

  • Instituto Ligmincha
https://www.ligmincha.org
email: ligmincha@aol.com
  
  • Ligmincha do Brasil
Rua Apinagés 1646, Vila Madalena, São Paulo, SP
(11) 8902-4045
  • Associação Brasileira de Cultura Tibetana
Rua Engenheiro Rebouças, 1040 - Vila Gerty, São Caetano do Sul
(11) 4232-5630 (11) 4232-5630
E-mail: abct.contato@gmail.com

5 comentários:

  1. Quando estudamos Carl Gustav Jung entendemos um pouco sobre arquétipos. Seriam imagens primordias, presentes em todas as culturas da humanidade (para falar superficialmente). Assim, as coincidências dos vários povos em relação a vida em sonho pode ser isto. Acredito convictamente que quando acordamos, dormimos, e quando dormimos, acordamos. No Livro Memórias, Sonhos e Reflexões de Carl Jung ele narra um sonho que viu a si mesmo, se meditando, e ele disse: "eis o que me medita". Esse seria o Self. Agora lendo o seu artigo, vi novamente a mesma mensagem sobre o manto do budismo, assim como também tem a dos índios que você disse, e a da psicologia analítica de Jung. Tudo isso demonstra a existência dos arquétipos. Além disso, aquelas palavras sábias que nós vemos seguidamente: "acorda do sono", "desperta", etc, são demonstraçõs que vem sendo passadas a séculos para que tomemos essa consciência. Gostei muito do seu posto, é muito interessante, revelador da realidade. Muito obrigado por compartilhar essas lúcidas palavras. Não digo isso simplesmente porque penso de forma similar, mas sim porque sei que é assim, porque sou o que sou. Com carinho, profunda admiração e respeito, Rodrigo Freitas dos Santos. http://santuariointerior.blogspot.com/

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  2. que bela sequência de postagens sobre os sonhos. parte fundamental do nosso existir e que tão pouco conhecemos!

    Quero dar minha sugestão: que tal uma leitura transversal e algum post sobre o *não-fazer*?

    Meus agradecimentos e parabéns por suas partilhas.

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  3. Será que essa oração cantada que o lama Padma Samten pronuncia no último video dele é o Odaimoku, aquele mantra sagrado? Tem Odaimoku cantado pelo Dalai Lama e outros no youtube, mas não dá pra saber se esse do Samten seria o referido. De qualquer forma, muuito interessante e a oraçao de deicação também.
    Luara

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  4. Vou responder 3 em 1 (rsrs)porque houve uma mudança que não percebi, e acumularam os comentários. Sorry
    Rodrigo - Obrigado pelas palavras. Vou ler o seu blog
    Pedro Aquino - Vou postar sim. Estou em falta com esse tema.
    Luara - Não sei se é,mas pelo jeitão deve ser
    ABRAÇO A TODOS

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  5. Obrigada por resumir, compilar tudo isso rapidamente e objetivamente.

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