Mostrando postagens com marcador a presença. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador a presença. Mostrar todas as postagens

domingo, 12 de agosto de 2012

Velar

Falamos muito neste blog em textos e vídeos sobre a única coisa que interessa ao ser humano: manter A Presença todo o tempo. As tradições autênticas, todas sem excessão falam disso, e usam muitos nomes para a mesma coisa: Presença, O Agora, Estar Alerta, A vigília, Lembrança de Si, Presença de Deus, Atenção, Vigiai e Orai, e por aí afora. Quem quiser, leia as postagens e vai achar esses temas. Só pesquisando a palavra Presença no blog, achei 22 postagens, então tem muita coisa.
Hoje vamos publicar um texto de um escritor austríaco, Gustav Meyrinck (1868 - 1932), contador de histórias, dramaturgo, tradutor e banqueiro (!?), famoso pelo livro chamado O Golem. Foi considerado o mais respeitado escritor da língua alemã no campo da "ficção sobrenatural", como eles chamavam as coisas do espírito.
É um texto do seu livro A Face Verde, provavelmente não traduzido para o Português, e publicado com uma linguagem meio arcaica, na segunda pessoa, no livro O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier.
Vamos lá:
 "A chave que nos tornará mestres da natureza interior ficou enferrujada desde o dilúvio.
Ela chama-se: velar.
Velar é tudo.
O homem está firmemente convencido de que vela; mas na realidade, é apanhado numa rede de sono e de sonho que ele próprio teceu. Quanto mais apertada é essa rede, mais poderosamente reina o sono, Aqueles que estão presos nas suas malhas são os adormecidos que caminham através da vida como rebanhos de animais levados para o matadouro, indiferentes e sem pensamentos.
Os sonhadores vêem através das malhas um mundo quadriculado, só distinguem aberturas enganadoras, agem em consequência e não sabem que esses quadros são apenas os fragmentos insensatos de um todo enorme. Esses sonhadores não são, como talvez o suponhas, os lunáticos e os poetas; são os trabalhadores, os sem repouso do Mundo, os possessos da loucura de agir.
Assemelham-se a escaravelhos feios e laboriosos que se arrastam ao longo de um cano liso para nele mergulharem ao chegar lá acima. Dizem que velam, mas aquilo que julgam uma vida não é em realidade senão um sonho, determinado antecipadamente nos mínimos pormenores e subtraído à influência da sua vontade.
Existiram e ainda existem alguns homens que souberam que sonhavam, os pioneiros que avançaram até aos baluartes atrás dos quais se esconde o eu eternamente desperto -videntes como Descartes, Schopenhauer e Kant (Nota do editor: esses são só os ocidentais. No oriente a lista não acaba mais). Mas eles não possuíam as armas necessárias para a tomada da fortaleza e o seu apelo ao combate não acordou os adormecidos.
Velar é tudo.
O primeiro passo para esse objetivo é tão simples que qualquer criança o pode dar. Só aquele que tem o espírito falsificado esqueceu como se caminha, e mantém-se paralisado sobre os seus dois pés, pois não se quer privar das muletas que herdou dos seus antecessores.
Velar é tudo.
Vela em tudo o que fazes! Não te julgues já desperto. Não.Tu dormes e sonhas.
Reúne todas as tuas forças e espalha um instante pelo teu corpo este sentimento: agora, eu vejo! Se o conseguires, reconhecerás imediatamente que o estado no qual te encontravas surge então como uma modorra e um sono.
É o primeiro passo hesitante do longo, muito longo percurso que leva da servidão ao completo poder.
Desta forma avança, de despertar em despertar.
Não existe pensamento tormentoso que desta maneira não possas banir. Ele fica para trás e já não te pode atingir. Estendeste sobre ele como a copa de uma árvore se eleva por sobre os ramos secos.
As dores afastam-se de ti como folhas mortas quando essa vigília se apossa igualmente do teu corpo.
Os banhos gelados dos brâmanes, as noites de vigília dos discípulos de Buda e dos ascetas cristãos, os suplícios dos faquires não são mais que os ritos estereotipados indicando que ali se erguia outrora o templo daqueles que se esforçavam por velar.
Lê as Escrituras Sagradas de todos os povos da Terra. Em cada uma delas passa como um fio vermelho a ciência dissimulada da vigília. É a escada de Jacob, que combate toda a "noite"com o anjo do Senhor, até que chegue o "dia" e obtenha a vitória.
Deves subir, um após outro, os degraus do despertar, se queres vencer a morte.
O degrau inferior já se chama: gênio.
Como devemos nós chamar os degraus superiores? Ficam desconhecidos da multidão e são tidos como lendas. A história de Tróia foi considerada uma lenda, até que finalmente um homem arranjou coragem de investigar por si próprio.
Sobre esse caminho da vigília, o primeiro inimigo que encontrarás será o teu próprio corpo. Ele lutará contigo até ao primeiro cantar do galo. Mas se vislumbrares a luz da vigília eterna que te afasta dos sonâmbulos que supõem ser homens e ignoram que são deuses adormecidos então o sono do teu corpo desaparecerá também e o Universo submeter-se-á a ti.
Então poderás operar milagres, se quiseres, e já não estarás reduzido, como um humilde escravo, a esperar que um cruel e falso deus seja suficientemente amável para te cumular de presentes ou te cortar a cabeça.
Há evidentemente a felicidade do bom cão fiel: servir um amo. Ela deixará de existir para ti -mas sê franco para contigo próprio: gostarias tu, mesmo agora, de trocar o lugar com teu cão?
Não te deixes apavorar pelo medo de não atingires o objetivo nesta vida. Aquele que descobriu este caminho regressa sempre ao mundo com uma maturidade interior que lhe torna possível a continuação do seu trabalho. Ele nasce como "gênio".
O caminho que te mostro está semeado de acontecimentos estranhos: mortos que conheceste hão de erguer-se e falar-te de erguer-se e falar-te!
São apenas imagens. Silhuetas luminosas aparecer-te-ão para te abençoar. São apenas imagens, formas exaltadas pelo teu corpo que, sob a influência da tua vontade transformada, morrerá de uma morte mágica e se tornará espírito, tal como o gelo, atingido pelo fogo, se dissolve em vapor.
Quando tiveres abandonado em ti o cadáver é que então poderás dizer: agora o sono afastou-se de mim para sempre.
Então dar-se-á o milagre em que os homens não acreditam - porque, enganados pelos seus sentidos, não percebem que matéria e força são a mesma coisa - nem compreendem, esse milagre que, mesmo se o enterrarem, não haverá cadáver no caixão.
Só então poderás diferenciar o que é realidade ou aparência. Aquele que tu encontrares só poderá ser um dos que seguiram o caminho antes de ti.
Todos os outros são sombras.
Até ali tu não sabes se és a criatura mais feliz ou a mais infeliz. Mas nada receies. Nem um sequer dos que seguiram pelo caminho da vigília, mesmo se alguma vez se perdeu, jamais foi abandonado pelos seus guias. Quero dar-te um sinal pelo qual poderás reconhecer se uma aparição é realidade ou miragem: se ela se aproxima de ti, se a tua consciência se perturba, se as coisas do mundo exterior são vagas ou desaparecem, desconfia. Acautela-te! A aparição
não passa de uma parte de ti próprio. Se não a compreendes, é apenas um espectro sem consistência, um gatuno que consome uma parte da tua vida.
Os gatunos que adquirem a força da alma são "piores do que os gatunos do Mundo". Atraem-te como fogos-fátuos nos pântanos de uma esperança enganadora, para te deixarem só nas trevas e desaparecerem para sempre.
Não te deixes enganar por nenhum milagre que eles pareçam fazer por ti, por nenhum nome sagrado que se derem, por nenhuma profecia que exprimam, nem mesmo se esta se realizar; eles são os teus inimigos mortais, expulsos do inferno do teu próprio corpo e com os quais tu lutas pelo domínio.
Sabe que as forças maravilhosas que eles possuem são as tuas próprias - desviadas por eles para te manterem na escravatura. Eles não podem viver fora da tua vida, mas se os venceres ficarão aniquilados, como ferramentas mudas e dóceis que poderás empregar segundo as tuas necessidades.
Inúmeras são as vítimas que eles fizeram entre os homens. Lê a história dos visionários e dos sectários e compreenderás que o caminho que segues está semeado de crânios.
Inconscientemente a humanidade ergueu contra eles um muro: o materialismo. Esse muro é uma defesa infalível, é uma imagem do corpo mas é também o muro de uma prisão que dissimula a vista. Atualmente estão dispersos e a fênix da vida interior ressuscita das cinzas nas quais esteve deitada durante muito tempo, como morta, mas os abutres de outro mundo também começam a bater as asas. É por isso que deves tomar cuidado. A balança sobre a qual deporás a tua consciência mostrar-te-á quanto podes ter confiança nessas aparições. Quanto mais desperta ela estiver, mais se inclinará a teu favor.
Se um guia, um irmão de outro mundo espiritual te quer aparecer, deve poder fazê-lo sem despojar a tua consciência. Podes pousar a mão sobre ele como Tomé, o incrédulo.
Seria fácil evitar as aparições e seus perigos. Basta conduzires-te como um homem vulgar. Mas que ganhas com isso? Continuas a ser um prisioneiro na jaula do teu corpo até que o carrasco "Morte" te conduza ao cadafalso.
O desejo dos mortais de verem os seres sobrenaturais é um grito que desperta até os fantasmas do inferno, porque semelhante desejo não é puro; - porque é mais avidez do que desejo, porque quer "tomar" de qualquer maneira em vez de gritar para aprender a "dar".
Todos aqueles que consideram a Terra como uma prisão, todas as pessoas piedosas que imploram a libertação evocam sem se aperceberem o mundo dos espectros. Fá-lo igualmente tu próprio. Mas conscientemente.
Para aqueles que o fazem inconscientemente existirá uma mão invisível que os possa retirar do pântano onde se atolam? Eu não o acredito. Quando sobre o caminho do despertar atravessarás o reino dos espectros, reconhecerás pouco a pouco que eles são simplesmente pensamentos que de súbito poderás ver com os teus próprios olhos. Eis porque te são estranhos e parecem ser criaturas, pois a linguagem das formas é diferente da do cérebro.
Então chegou o momento em que a transformação se dá: os homens que te rodeiam transformar-se-ão em espectros. Todos aqueles que amaste serão, de súbito, larvas. Mesmo o teu próprio corpo.
Não se pode imaginar mais terrível solidão que a do peregrino no deserto, e quem não sabe encontrar aí a fonte da vida morre de sede!
Tudo o que aqui te digo se encontra nos livros dos homens piedosos de todos os povos: a vinda de um novo reino, a vigília, a vitória sobre o corpo e a solidão.
E no entanto um abismo intransponível nos separa dessas pessoas piedosas: elas supõem que se aproxima o dia em que os bons entrarão no paraíso e os maus serão atirados para o inferno.
Nós sabemos que um tempo virá em que muitos despertarão e serão separados dos adormecidos que não podem compreender o que significa a palavra vigília. Nós sabemos que não existe o bom e o mau, mas apenas o exato e o falso. Eles crêem que velar significa manter os seus sentidos lúcidos e os olhos abertos durante a noite, de forma que o homem possa fazer as suas orações. Nós sabemos que a vigília é o despertar do eu imortal e que a insónia do corpo é uma consequência natural. Eles crêem que o corpo deve ser descurado e desprezado porque é pecador. Nós sabemos que não existe pecado; o corpo é o começo da nossa obra e viemos à Terra para transformá-lo em espírito. Eles crêem que deveríamos viver na solidão com o nosso corpo para purificar o espírito. Nós sabemos que o nosso espírito deve primeiramente isolar-se para transfigurar o corpo.
Só a ti te cabe a escolha do caminho a tomar: ou o nosso ou o deles. Deves agir segundo a tua própria vontade.
Não tenho o direito de te aconselhar. É mais salutar colher segundo a tua própria decisão um fruto amargo sobre uma árvore, do que ver pendurar um fruto doce aconselhado por outrem.
Mas não faças como muitos que sabem que está escrito: examinai tudo e só conservai o melhor. É preciso ir, nada examinar e agarrar a primeira coisa que aparecer"
Gustav Meyrinck: Trecho do romance Le Visage Vert, (A Face Verde) traduzido pelo doutor Etthofen e Mlle. Perrenoud. Ed. Emile-Paul Frères, Paris, 1932.

domingo, 24 de junho de 2012

Diminuir a bagagem

O Louco - Tarot de Marselha
 Hoje o assunto é um bate-papo intimista ao pé do fogo, sobre um tema caro a todas as tradições autênticas: diminuir a bagagem. Aquela que a gente acumula nas nossas experiências de vida, não só dos grandes momentos mas da tralha miúda do dia-a-dia com a labuta, o di-nhei-ro, o outro, a fila do banco e do supermercado, o trânsito infernal, o metrô, as notícias, os políticos, os amigos, inimigos, enfim tudo o que se transforma em hábitos corporais, emocionais, sentimentais, e escondidamente se deposita nos nossos corpos, desde os mais densos até os mais sutis...
Precisamos fazer isso, jogar o excesso de bagagem que acumulamos nessa vida, para passar pelo controlador deste trecho da viagem, que no fundo somos nós mesmos, sorrindo com aquela leveza de quem nada deve. Diferentemente dos vôos de avião, não pagaremos pelo excesso de bagagem, apenas não levaremos nada. Simples assim. Já pensou?  E eles nem avisam na hora do check in. Só quando o avião decola para a viagem é que neguinho nota que a bagagem ficou. Tudinho. Pior que isso, a vítima está nua. Não das suas vestes, mas do próprio corpo mesmo. Só restou uma consciência que está vendo tudo. Cruis credo!
Diminuir a bagagem é só uma força de expressão: precisamos mesmo é zerar tudo. Não vamos precisar de nada no nosso destino do outro lado. Como disse  Armando Torres, o índio descendente dos toltecas, no livro “Encontros com o Nagual”, estamos de passagem, somos viajantes temporários e estamos num mundo-prisão”. Vamos embora sem levar nada". Nem ao menos o corpo e a mente ...Então, uma boa técnica é a gente começar a treinar esse diminuir a bagagem com as coisas pequenas no nosso dia-a-dia.
Algo me diz que a Presença é um meio eficaz de zerar a bagagem antes mesmo de ela se transformar em bagagem, porque percebo que se a gente se dedicar de fato a entender o mecanismo e agir no momento exato em que percebemos que estamos guardando o lixão no sótão, ou seja emoções, mágoas, ódios, más lembranças (para carregar pelo resto da vida) o processo de guardar não acontece.  A gente só acumula quando não está ciente de Si Mesmo, está identificado com as coisas, os bens, as posições, as emoções, as idéias e conceitos. Está distraído, apegado, enfim... está dormindo.
O Apego do ego nos faz guardar as nossas experiências de uma forma tão ciosa e intensa que parece que vamos levá-las para sempre conosco, o que absolutamente não é o caso. A pergunta aqui é “o que vamos de fato levar conosco para a outra encadernação” (rsrs), e que nos obriga a ficar aumentando a bagagem a níveis insuportáveis? Com certeza não levaremos nada que esteja na mente, talvez nem ela própria, mas uma outra mente não individualizada, novinha em folha, zerada. A nossa missão, já dissemos, é gerar Consciência para o grande reservatório do Mar Escuro da Consciência, mas não guardar as experiências vividas para sempre conosco. Como já dissemos em várias postagens, como A Recapitulação, O Mar Escuro da Consciência, O Desnate - O mistério da Percepção desvendado, devemos na hora da morte entregar voluntária e conscientemente as nossas experiências vividas, para poder morrer conservando a Consciência após a morte, na forma conhecida pelos toltecas como “a liberdade total”. Meu grande amigo Constantino, (www.clubedotaro.com.br/) astrólogo e tarólogo, está sempre fazendo essa pergunta incômoda. Um chato... Ele diz: “porque espíritos evoluídos como os grandes lamas tibetanos ao renascerem, mesmo reconhecendo os seus pertences que usaram em outras vidas, tem, como bebês que são, que ser ensinados novamente na vida corriqueira e na tradição budista como um outro ser humano qualquer? O que permaneceu?”. Nem ao menos o corpo, a mente comum, as experiências, o carro importado, o nosso grande amor, o apartamento em Paris, ou Carapicuiba, sei lá...
Eu, particularmente descobri vários aspectos do meu “agarrar e guardar na bagagem”: primeiro sinto que não tenho muita dificuldade com os bens materiais, fato que martiriza muita gente. Posso ter e viver com pouco, e a idéia de perder o que tenho me preocupa,  mas não tira o sono por completo. Mas isso não é vantagem nenhuma, porque a coisa me pega quando se trata de mudar ou aceitar novas idéias, conceitos intelectuais, “princípios”. Na verdade nada de novo, só muda a materialidade da bagagem, porque são as mesmas coisas a que a gente se apega e guarda em alguma fase da vida,  e que passam a formar a estrutura na qual o ego se apóia, dando a falsa noção de identidade, de “eu sou”.  Isso é a bagagem, cumpadre e cumadre. Varia só o tipo da tralha.
Quando se está alerta no presente, a gente vê o processo se desenrolar à nossa frente e passa a ter uma mão no jogo, ou pelo menos a possibilidade, mesmo que remota, de ver os contornos, o gosto desse agarrar, e então tomar a decisão alternativa de não agarrar, ou pelo menos se observar agarrando, ter ciência de que está agarrando e qual é o preço a pagar. Quando não estamos alertas, viramos nós  mesmos o combustível do processo com toda a dor associada a ele. Caímos na “máquina de moer carne” e saímos salsicha do outro lado.
Nada disso aconteceria sem o Apego, simbolizado na mandala da Roda da Vida pelo galo, essa energia alerta e escondida lá no fundo de nós mesmos e que gera e dá combustível ao agarrar. Falamos do Apego em pelo menos 3 postagens, A Ignorância, o Apego, o Ódio, O Apego, como ele nos fisga, como se soltar... , O Sonho - Visão Budista. Nessa última, o Budismo, uma tradição extremamente pragmática e conhecedora profunda dos nossos veículos de expressão e desse “estar no mundo”, chega ao capricho de mostrar o caminho do Apego dentro de nosso corpo físico e energético: um canal que entra na narina esquerda, sobe  contornando o lado do cérebro e desce ao lado da coluna até um ponto interno a 4 dedos abaixo do umbigo. Aí está o mapa do Apego. Quando respiramos o ar juntamente com a Energia Vital (o prana esverdeado), ele faz esse percurso eliminando a energia ruim que é expulsa no topo do canal central no chakra coronário no alto da cabeça e substituindo-a pela nova energia, verdinha em folha.  Aliás, é curioso o fato de que a cor verde-claro do prana ou Energia Vital,  tão querida da Natureza e da Ecologia, é associada ao planeta Vênus, o mesmo que rege o Amor. Coisas do Invisível.
Quanto mais fizermos esse percurso conscientemente na respiração rotineira, presentes no Agora, mais estaremos em contato saudável com o nosso Ser. Beleza pura.
O Tarot, uma das tradições de profundo conhecimento interior mais caras e autênticas da raça humana, tem uma carta inspiradora que ocorre sobre o tema diminuir a bagagem. É a carta O Louco. Afora interpretações contraditórias sobre se essa carta deveria ser a carta 0 (zero), a 21 ou a 22, a letra 21 do alfabeto hebraico, “Shin”, é dita ser atribuída ao Arcano “O Louco” e se acrescentava que o nome esotérico do Arcano é... Amor.
A figura do Arcano O Louco é um homem vestido com a roupa de bobo da corte caminhando apoiado num bastão na mão direita e levando uma pequena trouxa suspensa por outro bastão apoiado no ombro direito. Caminha atacado por trás por um cão que lhe rasga a roupa, do qual não se defende com o bastão. Um louco do bem, associado a figuras como Dom Quixote, o Judeu errante, Dom Juan (o espanhol, não o tolteca), Orfeu, e Fausto (de Goethe).  
Segundo o livro Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô, de um autor profundo e anônimo como os que construíram as catedrais góticas, e que considero o que de melhor já se escreveu sobre o tema, a carta do Louco ensina a habilidade de passar do conhecimento intelectual para o superior, devido ao amor. Como disse acima, foi feito de encomenda para mim, e tantos outros que julgam erroneamente que a bagagem inconveniente é feita só de coisas concretas como dinheiro e posses materiais, e que as idéias não se aplicam ao caso. Na verdade, o que vemos no mundo é que os defensores de idéias são tão ou mais ferrenhos que os das coisas materiais. As guerras provém de idéias geradas pelos seres humanos adormecidos que comandam os povos, segundo Gurdjieff, após um momento astrológico de fricção entre dois corpos celestes.
O Arcano O Louco pode ser compreendido como um modelo com duas vertentes. Ou o intelecto pode ser sacrificado a serviço da consciência transcendental como fizeram Santa Tereza D’Ávila e São João da Cruz, onde ele era absorvido pela Presença Divina em seus arrebatamentos, ou pode ser abandonado simplesmente como fazem os dervixes giradores e monges Zen que experimentam uma parada do intelecto em suas práticas. Ainda nessa linha de abandonar, estão os monges budistas que praticam o Dzogchen, ou seja não se muda nada no mundo,  apenas deixa-se fluir e observa-se no Agora.
A fusão do intelecto com o espiritual é o matrimônio do Sol e da Lua do qual resulta o terceiro princípio, chamado na Alquimia de “pedra filosofal”, que simbolicamente transformava os metais em ouro.
Não há nada de errado com o intelecto, apenas ele deve ser conscientemente “sacrificado” à espiritualidade através da Meditação. Ele deixa de ser o condutor e orientador da vida e é silenciado no vazio, dando um espaço para que algo realmente transcendental desça. O Cristianismo Esotérico chama isso de A Graça. A Meditação é um meio de se despertar a Consciência como um todo para as revelações do alto e não apenas o Intelecto que é uma ferramenta inadequada para isso.
Sacrificar o Intelecto é uma espécie de morrer, o que deixa o ego muito incomodado, mas quem tenta isso com persistência e fluidez começa a perceber em instantes do dia-a-dia sentimentos sutis e fugidios que vem de algum lugar insondável, mas que dão ao praticante uma inefável e agradável certeza de que ele está no caminho certo.
Comece a sacrificar o intelecto para diminuir a bagagem, tentando ficar 30 segundos sem pensar em nada. Pauleira pura, companheiros de jornada...

domingo, 13 de maio de 2012

A Ignorância, o Apego, o Ódio

Na publicação A Roda da Vida falamos do símbolo tibetano mais expressivo do sofrimento, que é, aliás, a condição humana, lembram-se?
“No centro do símbolo há 3 animais, uma cobra, um galo, um porco, ou seja, o ódio/medo (uma unidade), a avidez e a ignorância entrelaçados, um correndo atrás do outro e mordendo avidamente um ao outro como não podia deixar de ser (pois são ligados intrinsecamente). E essa trindade é tingida, pela shenpa, (fisgar, ficar colado) como eles dizem.
É como um átomo do sofrimento, a partícula indivisível que é a fonte da dor, atrelada ao apego, o seu núcleo. Essa é uma redução ao denominador comum, de toda variedade do sofrimento que encontramos desde sempre no planeta. O budismo tibetano fez uma obra prima de sintetização de um dos temas metafísicos de maior complexidade que conhecemos, o sofrimento.  E a partir dessa gênese, em círculos concêntricos a roda se esparrama na diversidade estabelecendo o quadro todo da Vida.”
Essa tríade está conectada com fortes ligações, como um átomo com suas ligações químicas, e uma puxa a outra, num círculo vicioso, ou melhor, num triângulo vicioso.  

Vamos falar disso um pouco mais fundo?
Observemos com atenção todo e qualquer aspecto da nossa vida que tenha algum resquício, por menor que seja, de sofrimento. Ele tem sempre uma dosagem dos três bichos combinados em doses diferentes. Não se preocupem, nem percam muito tempo em procurar exemplos de situações. Peguem o primeiro que aparecer pois são aproximadamente 99,9% dos casos da nossa vida (rsrs). Somos um planeta de expiação, e para isso, um planeta em que a vida é sofrimento, conforme diz o budismo. Sem pessimismo, nós temos é que aceitar o processo, e isso realmente muda tudo. Mas continuando:
Vamos tomar com simplicidade o tema e transportá-lo para dentro de nós através da Presença. Vamos sentir a natureza e o efeito das três coisas (ódio, apego e ignorância), mas de uma forma real e prática, sentindo-as dentro de nós mesmo, do nosso corpo: onde tocam? Em que lugares? O que produzem? Que gosto tem? Como e onde a gente se contrai, como disfarça, como se engana e foge para a TV, cinema, sexo, baladas, fantasias?...
Vejamos o apego, o galo, essa coisa que produz, ou mesmo é, a própria avidez: como ele se combina com os outros dois? Se eu me flagro numa situação de apego, de colamento a algo, seja uma pessoa, uma emoção, um fato, ou o que for, se eu olhar de soslaio (gosto dessa palavra) eu vou identificar o ódio, ou pelo menos o seu germe, o potencial ódio, colado ao apego, pois basta alguém ou algo contrariar o meu apego, e o demônio do ódio desperta, incontrolável. Quando eu consigo ver isso, vejo por tabela que o que me impedia de ver antes era a ignorância. Faz sentido? Aí estão os três, mais unidos que político e corrupção.
Se fizermos a mesma coisa com a raiva, ou ódio, que é simbolizado pela cobra, o processo é muito parecido. Vamos lá: eu me flagro com raiva de alguém ou algo, um fato, uma situação, um imprevisto. Se eu olhar para a gênese da raiva em questão, verei que ela existe pelo fato de que eu estou apegado ao resultado frustrado em relação ao que eu queria, ou não quería, que acontecesse. A pessoa me agrediu, ou me enganou, ou o fato era imprevisto em relação ao que eu apegadamente queria. E do canto do olho eu vejo a ignorância rindo de mim. É a ignorância do fato de que esse evento ruim que aconteceu estava no quadro das possibilidades e eu deveria então desapegadamente prevê-lo como possível de acontecer e não desenhar um futuro já previsto e fixo, ao gosto
do meu ego. O contrário disso chama-se fluir, soltar-se. Como dizia Gurdjieff, "temos direito ao esforço, não ao resultado". Então, é fazer todo o esforço, colocar toda a vontade em conseguir algo, mas sem se apegar ao resultado. Se ele vier, beleza. Se não, vamos em frente. É difícil? É. Mas se fosse fácil você não seria chamado, ora essa. Qualquer um faria (rsrs)
Intervalo para recreio: desci agora para tomar um cafezinho entre uma frase e outra, e fui olhar uma das três misteriosas larvas prateadas que apareceram na parede do quintal. Estava vazia e havia uma esguia borboleta secando as asas. Amarela, rosa e preta. Daí a pouco alçou vôo, pousou uns segundos na samambaia ao sol, e caiu na mata e no mundo...êta mundo velho...
E para fechar o triângulo, a ignorância, o porco. Vamos observá-la dentro de nós. Ela é mais difícil, porque o nosso ego não aceita que ela exista, ele já acha que sabe tudo e portanto não há ignorância para o bonitão do porco. Temos que fazer um esforço para assumir e sentir a ignorância dentro de nós.
Eu olho para qualquer situação, pessoa ou fato e não percebo “o que eu não sei” sobre aquilo. Isso é a ignorância, e eu não sei ficar diante dela impassível e calmo. Eu assumo que só existe o que eu vejo e pronto. Já procuro, com o pouco que percebo da situação, fazer, controlar, decidir, etc., ignorando que só vejo uma pequena parte do iceberg. Então, a partir da falsa premissa de que eu compreendo e comando a situação, a porta está aberta para sentir raiva de quem não concorda comigo, ou sentir apego às minhas idéias, valores, concepções, planos, visão do mundo, etc..
É isso. Estamos numa prisão de 3 paredes, uma colada à outra. Indivisível. Mas transponível. Isso é o sofrimento.

No Budismo Bön, e em todo o Budismo há uma representação da alquimia interna do ser humano que traz esse dilema para dentro do nosso corpo e ensina o caminho para sair da prisão através da respiração, do prana, a energia vital. Já falamos disso na publicação O Sonho – Visão Budista. , mas é sempre bom recordar.
Há 3 canais energéticos interligados que unem as narinas e um ponto abaixo do umbigo, no interior do corpo. Dois ficam nas laterais da coluna, um vermelho e outro branco. Um é ligado à raiva, outro ao apego e começam nas narinas, sobem para o topo da cabeça e descem latralmente até o ponto no baixo ventre onde se unem no centro e sobem num canal azul até o chacra da coroa no topo da cabeça. Nas 9 respirações purificadoras, o prana ou energia vital, é conduzido a partir do nariz para dentro de nós e limpa os 3 canais saindo pelo topo da cabeça com o nosso lixão interior, e nos tornando conscientes do trabalho sobre os 3 animais, e portanto sobre o sofrimento. Como dizem os anúncios na tv: Experimente!...

domingo, 1 de abril de 2012

24 X 7

O assunto é Presença. 
Presença no modo 24X7. E você pergunta: "Então o que faz esse morango aí ao lado?
Vou explicar:
Acho que resolvi  o mistério de “Porque há certas lembranças aparentemente corriqueiras que a gente nunca mais esquece, mesmo que se passem cem anos? E, por outro lado, há outras com jeito de “muito importantes” que a gente não lembra mais daí a cinco minutos, apesar de todo o esforço.”
Tenho sentido e observado muito na Contemplação, e ficou claro para mim que as lembranças que perduram são aquelas que tocaram, mesmo que de leve, uma inteligência e memória  que estão por trás do nosso Estar Presente no Agora e fazem parte dele. Algo assim: se eu estou com um nível mínimo de presença dentro de mim, e algo de qualidade, uma cena, um ensinamento, uma lembrança surge na tela dos sentidos, uma alquimia secreta faz a ligação entre as duas coisas de qualidade e pronto, a lembrança fica permanente, guardada no HD da memória, para consultas posteriores ou mesmo aparecendo espontaneamente na tela como um pequeno flash dizendo  “olhe eu aqui!”
Estou escrevendo isso por duas razões; primeiro porque não tenho mais nada que fazer nesse dia ensolarado, olhando o verde do mato aqui na minha janela na granja, e já que estou na frente do teclado... 
Segundo porque me veio à memória, mais uma vez, a lembrança persistente de uma cena que ouvi há uns 30 ou 40 anos num grupo de “busca interior”. Ficou gravada em cores (principalmente o morango), como um filme. Era uma história Zen contada pelo instrutor da época. Vamos lá:
“Um homem andava pela floresta quando sentiu que um lobo o seguia. Apressou o passo, e o lobo atrás, só na espreita... Começou a correr e viu que eram vários lobos, muitos lobos. E “pernas para quem te quero”, como dizia a Dona Josefina.
A certa altura, já exausto, viu que a trilha terminava e estava de frente para um barranco, ou melhor, estava mais para precipício que um simples barranco,  e não dava para saltar para baixo de tão alto que era. E os lobos uivando ferozes nos calcanhares.
Então ele, sem pensar, resolveu saltar e agarrar uma raiz mais abaixo para não se estatelar lá no chão. Os lobos ficaram acima uivando, um inferno.
Bem - pensou - agora preciso achar um jeito de ir descendo, e ao olhar para baixo, vejam vocês, viu um tigre esperando. Brincadeira. Apavorado, suando de esforço e pavor, ficou olhando em volta para achar uma saída. Decididamente não era um bom dia.
Nisso, à distância de um braço viu sabe o quê? Um morango, redondinho, pontudo, vermelhinho e perfumado entre as folhas verdes, com aqueles furinhos em volta. Uma cena.
Esticou o braço, pegou o morango e fechando os olhos, levando-o à boca sentiu o azedinho suave, a textura macia, o prazer de estar vivo, dentro de si mesmo, mastigando calmamente, sentindo um gosto inesquecível de morango, segurando uma raiz com a outra mão já doendo, e ouvindo uivos de lobos”.
Acabou. 

É... Acabou o conto. Mas não o assunto.
Volta e meia esse conto Zen me volta à lembrança. E eu acho que sei porque. Tenho percebido que não há outra saída para quem quer evoluir de verdade, a não ser a firme, sutil e dedicada intenção de estar presente dentro de si mesmo todo o tempo, a todo instante, 24 horas por dia, 7 dias da semana, sem desculpas esfarrapadas. Presente como o homem ao saborear o morango, apesar da pessão. Não é preciso mais nada, nem livros, nem seminários, conferências, workshops, nada disso. Aliás tenho sempre dito aos meus amigos de busca que a maioria de nós já leu mais do que precisava para o seu despertar. Buda não deve ter lido nada, ou muito pouco, já que a tradição era oral. O que precisamos sim é de agir no Agora, com um bom mestre, um bom ensinamento, energia e Intento. Eu ainda leio porque um bom livro funciona para mim como uma dose extra de motivação para a busca. Puro tesão.
Quando digo 24 horas por dia, você que é uma pessoa sintonizada pergunta: “24 horas por dia? Mas e à noite no sono?”. Os mestres dizem que à noite temos que aprender a estar despertos no sono como faziam e fazem budistas, toltecas e outros, e trabalhá-lo como um mundo de atuação normal, com seres, situações, decisões, projetos, enfim, atuação. O meu prezado Lama Samten disse um dia que organiza o seu dia seguinte ou a semana seguinte no sonho á noite. E confirmando isso, assisti no passado um workshop empresarial de um conhecido palestrante, antropólogo que na sua tese de doutorado esteve na Austrália e disse que “os aborígenes australianos também”sonham a caçada” num ritual na véspera, e no dia seguinte vão apenas “buscar a presa” que já foi caçada antes, no sonho”. Os índios brasileiros também. Todos em modo 24X7.
Eu fico encantado com isso: programar o futuro enquanto dorme, desperto e descansando! Belezura, cumadre.
 Nas publicações anteriores O Sonho, Portal da Consciência, O sonho – Visáo Budista, O Sonho – Visáo tolteca e O Sonho e o Rupigwara, falamos muito do assunto. O mestre do Bön Budismo Tenzin Wangyal Rinpoche em seu livro “Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono” diz que o Sonho é uma área de atividade exatamente como é a vigília acordado. Imagine como se fosse um país estrangeiro. Basta aprender o jeito de viajar para lá, a língua, os costumes, e boa viagem. E como bônus, viver dois mundos num só.
Tenho me proposto esse intento de trabalhar 24X7, inclusive no Sonho, seguindo instruções do mestre Tenzin Wangyal Rinpoche, e tenho notado sutilezas interessantes tanto no sonho como no dia a dia, como se os dois mundos começassem a se relacionar. Talvez por isso tenho me lembrado com frequência do conto Zen do morango. Quem sabe?...
Em breve vamos falar das descobertas e dificuldades de intentar viver a Presença 24X7. Aguardem

domingo, 23 de outubro de 2011

O Despertar e o Agora

Tenho ouvido amigos que há tempos se dedicam à busca interior, essa coisa de acordar, renascer, despertar, liberação, como falam todas as escrituras tradicionais... e há muita reclamação de que “estou há tantos anos na busca e não sinto mudança”, “não tenho entusiasmo, energia”, “não tenho poder algum”, e vai por aí afora... Lembrei-me e ri agora enquanto escrevo, de uma cena inesquecível de um  velho companheiro de busca, num velho grupo num domingo, onde o apoio da nossa prática era a tarefa de reformar uma construção, e nós, um bando de amadores, sofríamos para fazer subir uma caixa d’água com roldanas e alavancas, cada um suando mais que o outro, mas mantendo a proposta difícil de atenção sobre si mesmo. Ele, macaco velho, disparou: “com o tempo que a gente tem de trabalho interior, essa caixa já deveria estar subindo sozinha, por levitação”.
Na verdade quando trabalhamos interiormente, temos uma expectativa de resultados imediatos ou pelo menos futuros, semelhante ao que fazemos na vida comum. Aí está o problema. Aliás dois problemas: expectativas imediatas e objetivo futuro.
Por uma sincronicidade com essas queixas, tenho tido contato e praticado com ensinamentos práticos e simples de dois seres diametralmente diferentes que tocam com grande mestria exatamente no ponto onde dói. Um é um mestre irado americano na linha do Zen, desestruturador, demolidor, e outro, também iluminado, também desestruturador, mas amável, tímido, mansamente doce: Eckhart Tolle.
Hoje, a pedidos de pessoas que preferem textos, o recado é dele, graças à transcrição do texto que já postamos de um vídeo/entrevista com a sua marca: simples e incrivelmente funcional. Mas ainda vamos falar também do primeiro:
* PERGUNTA- Muitos mestres espirituais falam sobre o processo da Iluminação ou Despertar, descrevendo como se o despertar fosse um objetivo a ser atingido no futuro. Como é que você liga o processo de aprender a viver no Agora sem alimentar a idéia de que é um objetivo no futuro?
* Eckhart Tolle - Então, estamos falando sobre aprender a viver no Agora o que implica em tempo, e o tempo não é o Agora. A pergunta é sobre isso: sobre o processo do despertar, e sobre “como não ser levado pela idéia de que estamos nos direcionando a um objetivo no futuro, e assim, é claro, perdendo o Agora”.
Pode acontecer, caso tudo isso seja mal compreendido, quando o processo da iluminação ou de viver no Agora é mal compreendido, que a mente acredite que aparecerá um "eu" futuro imaginário, que estará plenamente no Agora. E assim a mente diz: "um dia eu atingirei o estado de estar plenamente presente, e assim estarei desperta." E dessa forma assegurando que você jamais chegará lá.
Esse é o dilema de muitos buscadores espirituais que estão procurando há muitos e muitos anos, Ninguém é assim por aqui, é claro...(rsrs)
Eles estão procurando há muitos e muitos anos, sem perceber que sua mente criou um estado a ser atingido no futuro, e está aspirando atingir esse estado, e nesse estado ela se vê como uma versão mais perfeita e iluminada de si mesma. E assim, é claro, você nunca atingirá isto pois está sempre acreditando que isso é um estado a ser alcançado. pois você ignora continuamente o único lugar onde esse estado pode ser alcançado, que é no Agora.
Essa é a realização que nós precisamos abandonar, essa idéia de que o despertar é um estado futuro a ser atingido. O despertar só pode acontecer no momento presente.
Não há um ser que você vá alcançar, nenhuma versão aperfeiçoada do seu ser atual. Mas toda vez que nós falamos sobre essa dimensão atemporal da consciência da presença usando essa dimensão que vivemos como referência, nós vamos encontrar algum tipo de paradoxo. É verdade sim, é claro que leva um certo tempo para aprendermos a viver no Agora, ou seja continuamente você não está no Agora. Você perde o Agora, que é a porta para a dimensão atemporal da consciência. Você perde acesso a isso e volta para a sua situação de vida, volta para a sua mente. Volta para o tempo, onde o passado e o futuro encobrem totalmente o momento presente. O estado "normal", por assim dizer, você volta a ser um ser humano "normal"... meio louco... o que é "normal" (rsrs). Então, para  aprender a viver no Agora, sim, há um certo paradoxo aqui porque... leva tempo para conseguir sentir-se "em casa" no Agora, para viver assim continuamente, para você não perder mais o Agora, para não voltar para o mundo do sonho do "não-Agora". Você traz a dimensão atemporal para a dimensão do tempo, e quando as duas se encontram, quando você vai colocar em palavras você encontra algum tipo de paradoxo. Tudo bem. Tudo bem.
O que é importante é perceber que o despertar não é algum tipo de estado futuro. A intensidade precisa ser direcionada não para esse futuro imaginário e desejado... Há muitos buscadores espirituais cheios de intensidade, eles trabalham duro, meditam várias horas por dia e estão realmente determinados a chegar lá. E eles nunca conseguem, pois a intensidade deles flui para o futuro, para a mente. A mesma intensidade pode ser direcionada para o momento presente. Então... isso é sintetizar duas visões aparentemente contraditórias sobre o despertar. Uma diz que “não há nada que você possa fazer que qualquer esforço só vai lhe afastar disso”,e a outra visão diz que “você precisa querer despertar tanto quanto um homem se afogando deseja respirar ou então você não vai conseguir”. Existem as duas, alguns mestres dizem: "não há nada que você possa fazer, virá quando vier, então apenas esteja aqui, aproveite..." Já outros dizem: "não, você tem que trabalhar duro como o homem afogado. E assim você tem essas duas visões conflitantes.
Mas você pode juntar as duas. A intensidade da pessoa que está se afogando,  que quer respirar pode ser dirigida para o Agora em vez de para uma idéia de futuro. E você se torna intenso na presença. Agora. Isso significa que você não precisa mais do futuro. A intensidade vai para a dimensão vertical ao invés de se perder na dimensão horizontal. Então, para os buscadores espirituais que ainda não chegaram lá: eles devem ser intensos... Existem alguns sem nenhuma intensidade que ficam assistindo TV e esperando o despertar. Não vai funcionar também... Alguma intensidade é necessária, mas não uma intensidade que nos leva ao futuro, e sim uma intensidade na presença. E assim. Quando um desafio aparecer em sua vida duas coisas poderão acontecer: ou o desafio lhe coloca nos velhos padrões reacionários, e você começa a reclamar, resistir, lutar... "Oh, tem coisas ruins acontecendo..." ou o desafio pode acordar você. Por exemplo vamos dizer que o seu corretor de valores lhe mande uma carta, ou seus fundos mútuos enviem uma carta, você a abre e vê que seus investimentos foram reduzidos em valor para 65%... Você pode ficar triste e inventar histórias na sua cabeça sobre como sua vida acabou de ficar, como serão ruins os próximos anos e como foi fútil trabalhar tanto e poupar todo esse dinheiro para o futuro e então ver isso reduzido a nada, você acha isso terrível, pensa nisso, fala com outros sobre isso e sente as emoções correspondentes aparecerem em seu corpo... Em outras palavras, o desafio trouxe você à inconsciência. Completamente separado do Agora, da vivacidade do Agora.
Ou o desafio pode despertar você. Você olha e "oh"... Você vê o gráfico na carta "Oh, é isso então"... Você aceita esse momento como ele é, sem criar histórias sobre ele e se torna intensamente presente. Você precisa de intensidade quando um desafio aparece. ou uma pessoa difícil, uma pessoa bastante inconsciente que está tentando lhe levar a algum conflito. É muito fácil sucumbir à isso. Acontece na política sempre, o tempo todo. Um terrorista inconsciente arrasta todo um governo à inconsciência. Então use o desafio para despertar esse estado de alerta que é tão diferente do estado normal de pensamento reacionário.Totalmente alerta no Agora.
Toda vez que a mente aparecer e criar alguma forma de infelicidade, (pois é assim que a infelicidade é criada, a infelicidade não é fruto da situação e sim do que a mente lhe fala sobre a situação) você pode observar o processo em si mesmo, não é a situação, a situação é neutra. É o comentário mental sobre a situação (sua situação de vida ou qualquer outra) que produz o sentimento de infelicidade. A mente julga a situação e diz: "isso não é bom" ou "não é suficiente", ou "estou sendo ameaçada por isso", e imagina um futuro que não será satisfatório, e assim vai... Então, não é a situação e sim o comentário mental que cria a infelicidade, tão normal pra muitos. E eles não percebem isso. Eles confundem o que a mente diz sobre a situação com a situação em si, e acontece com as coisas mais simples por exemplo: "esse é um péssimo dia pois gotas de água estão caindo do céu e... cinza, o céu está cinza." E a pessoa diz: "que dia terrível!" Você está confundindo a simplicidade do que é com o seu julgamento do que é. Você diz que o DIA é terrível... E isso é uma coisa pequena, mas é claro que fazemos isso com tudo. Você não consegue ver que tudo... o simples ser do momento presente, o momento, ele “é o que é”, o resto você adiciona a ele. E ao ver que o momento “é o que é” encontramos um grande poder. Você não precisa ter uma relação reativa com “o que é”. Isso é supérfluo, desequilibrado. Isso é o que todo mestre, todo mestre Zen ensina, essa simplicidade de “ser com o que é”. As pessoas  tentam estudar o Zen, eles vão pros mosteiros e não conseguem entender durante  anos... Por que? Porque é muito simples. O que é Agora, é. Isso é o Zen. Esteja completamente com “o que é”, e você será um mestre Zen. Se você quer ser um mestre Zen, é uma boa profissão, (rsrs) então apenas decida ser com “o que é” a qualquer momento. Você conseguiu. Você chegou lá, não precisa mais do tempo. Não precisa de tempo para “ser com o que é”. É claro que nessa dimensão do tempo é muito raro que alguém entre nesse estado e não saia mais dele. Você pode decidir aqui sentado: "ok, eu vou ser um mestre Zen a partir de agora, “ser com o que é”, totalmente. E eu não vou mais adicionar pensamentos supérfluos ao que é. Eu vou “ser com o que é”, “responder ao que é a partir da presença” a partir da presença alerta, e isso vai ser maravilhoso! Não terei mais problemas pelo resto da vida." E é claro, é verdade! E então você sai daqui ou de onde estiver, e então provavelmente antes de chegar em casa um desafio menor vai se apresentar e pode vir na forma de: "ainda está chovendo... Está chovendo há dias... Por que eu estou vivendo nesse clima?”. Você começou a perder. O mestre não é mais mestre. E quando você começa com esse pensamento, outros vem, sobre sua vida... "Talvez essa coisa sobre a presença não funcione." E assim você vai... “Oh, eu perdi o estado, pensei que eu seria um mestre Zen”. É melhor pensar em outra profissão agora... E por isso você precisa de tempo. Você precisa de tempo porque você perde o estado e assim precisa de tempo para... para aprender a viver de uma forma em que você pare de perder continuamente o estado, para que os velhos padrões mentais não consigam mais tirar você do estado.
Habitualmente os padrões mentais vêm e... levam você aonde eles quiserem. Agora, se você possuir uma intensidade absoluta na presença, e é possível, é possível que alguém que escute-nos, talvez você... ou você... ou você... sim, você também (rsrs)... consiga permanecer presente em uma intensidade que os velhos padrões não o dominem mais. Tudo o que você sentirá serão os velhos padrões aparecendo e dizendo: "ei, aqui, venha pra cá." "Você tem que se preocupar com isso." E você diz: "não”... "Eu vou “estar presente com o que é”, não há nenhum problema agora." Nada a se preocupar, mas pensar talvez, sobre algo prático sim, você será bem focado, mas não precisa ser levado pela mente. "Ok, voltando a presença..." E então haverá outra tentativa, um pequeno desafio aparece. Alguém cruza você no trânsito. Isso “é o que é”, um motorista é como uma rajada de vento, pra quê personalizar um motorista, que fez algo a você, já que você não personaliza ou reclama de uma rajada de vento que empurra seu carro pra lá ou pra cá? É apenas um fenômeno natural “quando você é com o que é”, um motorista inconsciente “é o que é”. Não há um ser interior reclamando sobre isso. Você continua presente, você continua como mestre. Se você tiver essa intensidade então a mente não vai mais dominá-lo, e você poderá seguir carreira como mestre espiritual. Ou apenas ficar livre da infelicidade, e isso já é o bastante.
Mesmo não sendo um mestre, não há como não afetar a vida das pessoas ao seu redor se você viver nesse estado. Você querendo ou não, você pode não ser um mestre no sentido formal, mas você sempre ensinará seu estado de consciência. Se você é inconsciente, ensina inconsciência. E traz outros para a inconsciência. Acontece sempre.
Eu costumo usar esse paradoxo:”você precisa de tempo para despertar, para se iluminar para ficar livre. Você precisa do tempo até você perceber que não precisa do tempo”. Enquanto você acreditar que precisa de tempo você vai precisar de tempo. Então chegará um momento que você dirá: "eu não preciso de tempo para ser quem eu sou." "Eu já sou quem eu sou." "Eu sou quem sou." "A essência sem forma de quem eu sou  não muda." Então, o tempo é descartado. Para você perceber isso completamente talvez precise de um tempinho (rsrs)...