Mostrando postagens com marcador qi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador qi. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Prana e cura

Jasmuheen
“Vai chegar um momento em que a ciência fará avanços tremendos, não por causa de instrumentos melhores para descobrir e medir coisas, mas porque algumas pessoas terão a seu dispor poderes espirituais maravilhosos que, no presente, raramente são usados. Daqui a alguns séculos, a arte da cura espiritual será cada vez mais desenvolvida e usada universalmente.” Gustaf Stromberg, astrônomo

Jasmuheen é uma autora australiana que já publicou dezenas de livros, inclusive o "Embaixadores da Luz" do qual é extraído o texto abaixo, e dedicou a sua vida a pesquisas e estudos profundos sobre meditação e metafísica.
Desde 1992 canaliza o seu trabalho através das instruções dos Mestres Alquimistas e, orientada por eles, presta um serviço à humanidade.
Em 1993 passou por um processo de iniciação chamado "processo de 21 dias" usado por adeptos de tradições antigas para dar uma alternativa ao processo comum de se alimentar com comida. Seu livro "Viver de Luz" explica o conceito e o delicado processo. Vale a pena ler seus livros. Ela  cita muitos outros seguidores e médicos e diz:

"Incluímos aqui a obra de Choa Kok Sui, pois a Global Pranic Healing Association (Associação de Cura Prânica Global) envolveu-se durante algum tempo com experimentos para testar os efeitos da energia prânica na cura de doenças. Segue-se um trecho extraído de seu livro Miracles through Pranic Healing (Os Milagres da Cura Prânica), que ele me mandou no ano passado junto com seu outro livro maravilhoso, The Ancient Science and Art of Crystal Healing (A Antiga Ciência e Arte de Curar com Cristais). A leitura de ambos os livros vale a pena para qualquer pessoa interessada no poder medicinal do prana. 

PRANA, CHI, QI ou KI 
“Prana ou ki é aquela energia vital que mantém o corpo vivo e saudável. Em grego, é chamada de pneuma, em polinésio é mana e em hebraico ruah, que significa “sopro de vida”... Existem basicamente três grandes fontes de prana: o prana solar, o prana aéreo e o prana terrestre. O prana solar é o prana da luz do Sol. Revigora o corpo inteiro e promove a boa saúde. Pode ser obtido com banhos de sol ou exposição à luz solar de cinco a dez minutos, e com a ingestão de água que foi exposta à luz do Sol. A exposição prolongada ou excesso de prana solar lesa o corpo todo, pois é muito potente. O prana contido no ar é chamado de prana do ar ou glóbulo da vitalidade do ar. O prana do ar é absorvido pelos pulmões através da respiração, e também é absorvido diretamente pelos centros de energia do corpo bioplasmático. Esses centros de energia são chamados de chacras. É possível obter uma quantidade maior de prana do ar pela respiração rítmica lenta e profunda do que pela respiração superficial e curta. Também pode ser absorvido pelos poros da pele por pessoas que passaram por um certo treinamento. 
O prana contido na terra é chamado de prana do solo ou glóbulo da vitalidade da terra. É absorvido pelas plantas dos pés de forma automática e inconsciente. Caminhar descalço aumenta a quantidade de prana do solo absorvido pelo corpo. É possível absorver mais prana do solo conscientemente a fim de aumentar a vitalidade, a capacidade de trabalho e a capacidade de pensar com mais clareza. A água absorve o prana da luz do sol, do ar e da terra com que entra em contato. As plantas e as árvores absorvem prana da luz do Sol, da água e da terra. Os homens e os animais obtêm prana da luz do Sol, do ar, da terra, da água e da comida. Os alimentos frescos contêm mais prana que a comida conservada.
 O prana também pode ser projetado para uma outra pessoa com o objetivo de curá-la. As pessoas que dispõem de excesso de prana tendem a fazer com que as outras à sua volta se sintam melhor e mais vigorosas, embora aquelas que estão esgotadas tendam a absorver prana dos outros de forma inconsciente. Você talvez tenha conhecido pessoas que tendem a fazer você se sentir cansado ou esgotado sem nenhuma razão aparente para isso. 
Certas árvores, como os pinheiros ou árvores saudáveis gigantescas e antigas, irradiam grandes quantidades do excesso de prana que têm. Pessoas cansadas ou doentes beneficiam-se muito descansando ou simplesmente se deitando embaixo dessas árvores. Melhores resultados podem ser obtidos quando se pede verbalmente ao ser da árvore que ajude a pessoa doente a ficar boa. Qualquer um também pode aprender a absorver conscientemente o prana dessas árvores através das palmas das mãos, de tal modo que o corpo pode formigar e ficar dormente por causa da tremenda quantidade de prana que foi absorvida. Essa capacidade pode ser adquirida depois de praticar apenas algumas vezes. 
Certas áreas ou lugares tendem a ter mais prana do que outros. Algumas dessas regiões extremamente energizadas tendem a se transformar em centros terapêuticos. 
Quando o tempo está ruim, muita gente adoece, e não é só por causa das mudanças de temperatura, mas também por causa da redução do prana solar e do ar (energia vital). Assim sendo, muitas pessoas se sentem mental e fisicamente apáticas, ou ficam suscetíveis a doenças infecciosas. Isso pode ser contrabalançado pela absorção consciente de prana ou ki do ar e da terra. Alguns videntes já observaram que há mais prana durante o dia do que à noite. O prana atinge um nível muito baixo por volta das 3 ou 4 horas da manhã.” 
Exercícios para absorver a energia do ar, da terra e das árvores também são discutidos neste livro, e seu autor diz: 
“A respiração prânica energiza a pessoa numa tal medida que sua aura se expande temporariamente em 100% ou mais. A aura interior expande-se em até 20 cm, a aura da saúde chega a 1,20 m ou mais, a aura exterior chega a 2,5 m ou mais.” 
Segundo o mestre Choa Kok Sui, para fazer a respiração prânica, você precisa: 

  • encostar a língua no céu da boca; 
  • fazer respiração abdominal (através das narinas); 
  • inspirar lentamente e segurar a respiração enquanto conta 1; 
  • expirar lentamente e segurar a respiração enquanto conta 1 antes de inspirar, o que é chamado de “retenção vazia”; 
  • você também pode inspirar enquanto conta até 7 e segurar a respiração enquanto conta 1, depois expirar contando até 7 e segurar enquanto conta 1, ou contar até 6 e segurar enquanto conta até 3. 
Ao fazer a respiração abdominal, você expande o abdômen ligeiramente ao inspirar e o contrai ligeiramente ao expirar. Não exagere ao expandi-lo nem ao contraí-lo.” 
Em outros capítulos, Choa Kok Sui diz: “Embora a ciência não seja capaz de detectar e medir a energia vital ou prana, isso não significa que o prana não existe ou que não afeta a saúde e o bem-estar do corpo. Nos tempos antigos, as pessoas não sabiam da existência da eletricidade, de suas propriedades e usos práticos. Mas isso não significava que a eletricidade não existia. A ignorância não muda a realidade; só muda a percepção da realidade, resultando em distorções e conceitos errôneos do que existe e do que não existe, do que pode ser feito e do que não pode ser feito.” 
Nota de Jasmuheen: uma descrição do prana como Energia ou Força Vital Universal consta em meu primeiro livro, Viver de Luz – A Fonte de Alimento para o Novo Milênio."


domingo, 27 de maio de 2012

Alquimia Interior Taoista - Michael Winn


Alquimia Interior - Manuscrito antigo taoista
 Na postagem anterior, O Tao - por Lao Tsé,  falamos do Tao, se é que é possivel falar dele, porque o Tao versa sobre algo chamado a Verdade Natural, e ela só pode ser conhecida pela experiência (conduzida por um mestre autêntico) e não por crença, pensamentos, palestras, workshops. O Qigong (ou Chi Kung – melhor uso da energia) é a sua linguagem.
Segue o texto completo da entrevista com Michael Winn, um competente buscador taoista,
reproduzida pela publicação Empty Wessel (Vaso Vazio). Vamos lá:

Empty Wessel (EW): “ - Muitas pessoas estão familiarizadas com as práticas taoistas, como Tai Chi Chuan (ou Tai Chi), Chi Kung e Medicina Chinesa. Mas há um aspecto totalmente diferente da cultura taoista, e da busca espiritual taoista, que é muitas vezes referida como a Alquimia Interior. Talvez possamos começar falando um pouco sobre o que esta alquimia interior realmente é”.

Michael Winn : “Essa é a minha área de interesse mais profunda, que eu venho investigando nos últimos dezoito anos. Foi assim que eu entrei nas práticas taoistas. Eu costumava fazer principalmente kundalini yoga e meditação hindu. Fui apresentado a Mantak Chia por um professor de Tai Chi  (prática externa da energia Chi) com quem eu estava começando a estudar. O professor decidiu deixar o ensino da classe depois que Mantak Chia lhe disse que o caminho mais rápido para aprender os aspectos internos do Tai Chi era primeiro aprender a circular seu Chi, ou Ki, ou Qi (energia vital) através da Órbita Microcósmica. Então eu decidi, já que a classe de Tai Chi foi cancelada, que gostaria de ir até Chinatown e ver quem era esse  tal de Mantak Chia”.
 

EW: Eu acho que a maioria das pessoas que praticam Tai Chi neste país nem sequer sabem que têm uma órbita microcósmica.


Michael: É verdade. A órbita microscosmica realmente deve ser o alicerce da prática. Então eu me encontrei com Mantak Chia e ele começou a falar sobre a imortalidade. Eu sempre tinha ouvido falar sobre a iluminação, mas eu nunca tinha ouvido ninguém falar sobre a imortalidade. Eu era muito cético, mas aquilo fez despertar a minha curiosidade. Eu decidi investigar mais profundamente e continuei a fazer minhas práticas de kundalini por muitas horas por dia. Eu tinha tido algumas experiências muito poderosas de kundalini e sabia que havia coisas como o corpo sutil.
Eu já tinha alcançado um certo nível de consciência e eu pensei que tudo que eu tinha que fazer era continuar a fazer kundalini yoga e, eventualmente, eu conseguiria em outro lugar. Mas eu realmente não sabia onde eu estava indo. Eu estava usando o modelo de chakras onde você está apenas tentando se elevar e sair do seu chakra coronal para ir a algum lugar. Fiquei esperando os anjos descerem e me levarem para o resto do caminho ou algo assim. Mantak Chia fez um comentário sobre a minha  kundalini yoga. Ele disse que eu estava apenas aquecendo a sala. Em outras palavras, o meu Chi estava saindo da minha cabeça, meus ouvidos e minha coroa para fora e eu não estava reciclando-o. Eu tinha notado que as minhas glândulas supra-renais estavam começando a ficar mais fracas e eu estava começando a ficar mais friorento no inverno. Foi quando eu comecei a ter um olhar mais atento em saber se eu estava roubando meu corpo físico, a fim de bombear Ki para meu corpo sutil.
Desde então, tenho estudado com muitas pessoas, mas Mantak Chia me deu uma base sólida na alquimia interior. Seu professor era um taoista chamado Nuvem Branca, eremita que aparentemente havia atingido o nível de respiratoriano (pessoa que se alimenta exclusivamente de prana (ou Chi) através da respiração) nas montanhas em algum lugar no norte da China. Quando os japoneses começaram a bombardear a China, ele desceu das montanhas e chegou a uma aldeia, e começou a comer novamente com os moradores de lá. Ele acabou migrando para baixo para Hong Kong e tornou-se um eremita nas montanhas de lá.
Ele tinha sete fórmulas alquímicas, sete estágios da alquimia interior e transmitiu as fórmulas para Mantak Chia. Eu comecei a estudá-las, bem como Tai Chi, ao mesmo tempo. Parei de fazer gradualmente kundalini yoga porque as práticas taoistas eram mais fáceis e mais fundamentadas. Uma vez que você as tem, segue por elas mesmo. Toda a ênfase em “sem esforço” me atraiu. Quando comecei a praticar Tai Chi, Chi Kung da Camisa de Ferro, e Alquimia Interior, eu também fiquei muito mais forte e “enraizado”, o que me impressionou.
Outro termo que é usado muito é imortal, (vide a Lenda dos 8 Imortais taoistas) cujo significado pode ser tomado  de uma série de maneiras diferentes.
Comecei a investigar a diferença entre a iluminação e a imortalidade. Cheguei à conclusão de que muitos professores estavam realmente ensinando a iluminação preocupados com a conexão de sua mente com o universo de uma determinada maneira. Mas eu acho que a imortalidade é algo como dissolver as fronteiras entre sua mente e seu corpo e o corpo-mente do universo. O corpo é a parte difícil de realmente integrar. Simplificando, uma coisa é abrir o seu terceiro olho e ter uma visão do universo, outra é integrar todos os três tan tiens (centros) com o “Wu Ji” (vazio), que alquimicamente representa a integração do seu jing (substância do corpo), qi (energia) e shen (espírito). Um monte de boas práticas de iluminação apenas desenvolvem o shen.
 O shen pessoal ("alma" no pensamento ocidental) pode até se expandir e se conectar com o "Grande Shen" ("espírito" no nível cósmico), mas isso não significa que você transformou suas emoções negativas, concluíu o seu desejo pelo sexo, encerrou seus julgamentos dos outros, ou curou sua doença. Na verdade, a expansão do seu shen pode até ampliar o seu chamado ”baixo eu”. Imortalidade pela minha definição é a integração de jing  e shen dentro de sua matriz no Wu Ji, o Supremo Desconhecido.
Algumas das práticas hindus até mesmo negam o corpo para o shen ou espírito e algumas das práticas ascéticas realmente mortificam o corpo a fim de libertar o espírito.
Basicamente não há nenhum valor ligado ao corpo. Você pode ignorar o corpo, a fim de obter a libertação ou transcender. Isso está bem a partir do ponto de vista tradicional hindu ou budista. Do ponto de vista taoista é que não é OK. Mudei para o Tao, porque eu percebi que meu corpo não era apenas espiritualmente importante para mim, mas que a maioria dos ocidentais valorizam seus corpos. Você pode cultivar o corpo e trazer o espírito para ele, ao invés de se livrar do corpo para que você possa ir além. Eu acho que é por isso que o chinês colocou tanta ênfase sobre a longevidade, porque leva muito tempo para cultivar e aperfeiçoar o shen, o espírito escondido dentro do corpo.
As fórmulas que comecei a estudar tinham três níveis diferentes: o Menor, o Maior, e a Maior Iluminação da Água e do Fogo (Kan e Li). Estas práticas tocam em diferentes campos da energia yin yang polarizada para dissolver jing e construir a energia original yuan e shen yuan. Você aprende como recolher o Menor Elixir e o Maior Elixir, a essência de sua consciência destilada a partir de "cozinhar" o jing, qi e shen do microcosmo e do macrocosmo. Isso cria um corpo de energia yang.
A Água Menor e o Fogo Menor é chamada Alquimia Sexual, à medida que casa as essências do masculino interior e feminino interior dentro do corpo físico. Isto cria um tremendo campo de cura e bem aventurança de energia yuan que é utilizado para dissolver os bloqueios em todos os meridianos, canais principais, e tan tiens, bem como a limpeza dos órgãos vitais, sistemas nervoso, linfático da medula óssea, e do sistema circulatório do sangue. Você abre seu olho interior em cada centro ou tan tien e aprende a gerir a sua família de almas interiores. Se você recebe a transmissão desta fórmula, outras fórmulas, muitas vezes se desdobram de forma espontânea.
O Kan Li Maior é chamado de Alquimia Sol-Lua, à medida que casa as essências solares e lunares para dissolver a fronteira entre seu corpo de energia pessoal e o corpo de energia do planeta Terra. Nós meditamos no próprio núcleo do planeta, a sua central de tan tien é a porta de entrada para o shen original do Ser Terra. Nós conectamos nossas almas pessoais internas com os poderes da alma planetárias das cinco direções (norte, sul, leste, oeste e centro).
O Grande Kan Li chama-se Alquimia Alma-Coração, uma vez que abre uma relação direta entre o seu coração pessoal shen e o Grande Shen do Sol (ou Logos Solar no Ocidente). Esta prática libera seu medo da morte e dissolve as influências cármicas, genéticas e planetárias de sua astrologia pessoal. Nós aprendemos a ouvir os tons planetários e a corrente de som central que flui através do sol. O Selamento dos Sentidos (Alquimia das Estrelas) diz respeito ao tan tien superior, a estrela polar e o buraco negro no centro deste nosso universo. O Congresso do Céu e da Terra e a União do Homem com o Tao, são as fórmulas finais. Estas últimas três fórmulas conectam os três níveis de imortalidade além da iluminação. Tradicionalmente, os chineses são proibidos de ensinar esses abertamente, para que não caiam em mãos erradas e possam trazer a ira dos céus.
Eu sinto que a era do sigilo é coisa do passado. Os rigorosos treinamentos por si só já descartam o que é sem valor e pouco sério. Parte do meu trabalho reinterpretando esses métodos taoistas, é torná-los acessíveis para os ocidentais. A maioria dos chineses têm dificuldades de linguagem no ensino destas práticas sutis para os ocidentais. A terminologia é confusa e difícil.

EW: Os termos usados pelos alquimistas taoistas são semelhantes aos utilizados na medicina chinesa, mas seus significados são muito diferentes.

Michael: Quando eu comecei, havia realmente muito pouco ensinamento disponível em Inglês. Agora há muito mais disponível, mas ele não faz nenhum bem se você não tem as fórmulas e um professor. Eu não vejo ainda muita informação sobre o que A Alquimia Interior realmente é. Eu acho que estamos no meio de uma transferência de conhecimento, e que a Alquimia Interior será revivida como uma “ciência popular de consciência” no próximo século.

EW: Há uma série de livros agora sobre alquimia interior. Eles mais ou menos descrevem a alquimia, mas na verdade eles não ensinam o processo.

Michael: Esse é o problema. Alguns dos livros mais recentes, como Guia de Eva Wong ou Taoísmo (Shambhala) oferece uma visão excelente, mas não "como fazer". Quando eu comecei, o único livro disponível era Yoga Taoista  de Charles Luk. Ele descreve as práticas, mas a tradução é ambígua, então você não pode realmente praticar a partir desse livro se você não sabe como fazer os processos internos. Yan Xin, um professor famoso da China continental, atestou para um dos meus alunos que as fórmulas Kan Li que eu ensino são autênticas. A sua prática alquímica usa diferentes métodos de fogo interior e de água interior, mas é semelhante, em princípio.

EW: Você acha que é possível aprender práticas alquímicas de um livro?

Michael: Eu acho que é muito difícil, a menos que você tenha algum lastro. Eu, é claro, escrevi muitos livros sobre Neigong junto com (e para) Mantak Chia, mas não temos publicado nenhum livro sobre as fórmulas de alquimia interior. Nós publicamos livros sobre os seis sons de cura, as práticas sexuais, respiração da medula óssea, o método Camisa de Ferro, Tai Chi, a Órbita Microcósmica, e outros. Esses todos apenas lançam as bases. Somente a Fusão dos Cinco Elementos começa a explorar alguns dos processos alquímicos, com algumas técnicas baixadas (downloaded) incorporadas a partir das práticas Kan e Li.
“Na alquimia interior  você está  separando seu Shen/alma, o seu qi/energia, e seu jing/essência-corpo com a finalidade de aperfeiçoar e recombiná-los juntos novamente em uma pura essência espiritual”. A premissa básica é que a sua consciência tem uma substância ou essência que pode ser refinada, congelada ou cristalizada. A alquimia acelera a evolução natural ou desdobramento de sua essência.
É muito diferente de simplesmente expandir a sua consciência ou transcender o plano físico. Ela exige uma compreensão multi-dimensional completa de como sua consciência se move entre corpos sutis e físico e em seus pensamentos, sentimentos e desejos. O universo local é um caldeirão alquímico vasto que já separou-se em diferentes densidades e dimensões que chamamos de corpo, mente e espírito. A vida é o processo pelo qual eles se refinam uns aos outros, e se tornam uns em outros, até que todos os três aspectos são experimentados como um.
O yin yang e a teoria dos cinco elementos subjaz a todo Chi Kung e Medicina Chinesa, e é encontrado na Alquimia Interior também. Mas há um Tao exotérico ou exterior e um ensinamento esotérico ou interior do Tao. O exotérico ou popular é aquele em que o Tao é aprendido como harmonizar e equilibrar o seu fluxo de Qi para uma vida longa e feliz. Mas que, infelizmente, ainda leva à morte e um conseqüente medo do desconhecido. Mas ensina a harmonizar-se com o pós nascimento, ou o reino posterior do céu.
Na alquimia interior, você está realmente decidindo acelerar o processo de evolução e retorno à origem, mas antes de sua morte. Eu acredito que este é um conhecimento muito antigo que é muitos milhares de anos mais velho que os 3.500 anos de idade dos textos médicos ou as escolas que reviveram a alquimia interior no século III. Eu acho que é mais velho do que o I Ching ou símbolos escritos. A Alquimia Interior é a memória muito profunda de como originalmente nós nos regeneramos e renascemos. Alusões são feitas a um período anterior de ouro quando espírito e matéria, espíritos yin e yang criavam em conjunto sem desarmonia ou sensação de separação.

EW: Quando lemos os textos taoistas, lemos sobre alcançar a imortalidade, acerca do refinamento de jing qi para obter shen no Tao, e de pessoas com poderes milagrosos. Você acha que estes tipos de coisas ainda acontecem para os buscadores de hoje?

Michael: Eu só posso falar da minha própria experiência. Eu tive uma experiência em 1981 que ainda me impulsiona no caminho da Alquimia Interior. Eu estava na África trabalhando como correspondente de guerra freelancer. Eu tinha um compromisso com a revista Outside para passar uma noite dentro da Câmara do Rei da Grande Pirâmide. Eu tinha acabado de fazer uma missão oculta na Etiópia envolvendo judeus brancos e  judeus negros lá, quando de repente fiquei muito doente. Eu sentia calor, tonturas, náuseas e diarréia de uma só vez. Eu pensei que eu estava tendo uma recaída de hepatite, então fui ao hospital, mas eles disseram que eu estava bem. Eu estranhamente não me sentia mal, mas eu tinha todos esses sintomas. Meu corpo estava indo mal e estava superaquecido. Durante três dias, eu fiquei lá e estava tendo alucinações e vi todos os tipos de formas astrais e visões em espiral. Eu tinha que continuar  toda hora indo para o chuveiro. Eu estava muito quente.
Finalmente, uma figura veio flutuando à minha frente. Eu estava muito surpreso e não sabia o que pensar disso. Olhei mais de perto e vi que era um homem chinês muito velho em meditação, com uma túnica e barba branca longa e fina. Ele parecia ter dois mil anos de idade. Enquanto flutuava em meu campo de visão, eu ficava olhando para ele perguntando quem ele era. De repente, a partir de seu baixo tan tien veio um feixe como laser que acertou em meu baixo tan tien. Uma onda de energia subiu pelo meu corpo e explodiu em cima da minha coroa, como uma nuvem em forma de um grande cogumelo. Ela derramou-se e o calor e os sintomas da doença pararam completamente. Eu estava deitado na bem-aventurança. Então o ser desapareceu.
Gostaria de saber quem era esse chinês. Eu não sabia sobre os Imortais Taoistas na época. Agora acredito que foi uma visita de um imortal taoista que provavelmente induziu a condição ardente em mim como uma espécie de purificação antes de eu ir para a Grande Pirâmide. Então eu tive uma experiência muito intensa na Grande Pirâmide, mas isso é outra história. Meu ponto é que os seres que atingiram um estado de imortalidade existem. Essa é a minha experiência. Minha especulação é que eles sejam “seres que conseguiram” e que permanecem na fronteira entre o Wu Ji, o Vazio, e o Reino do Cosmos ou Grande Shen. Eles podem optar por interagir com este plano, embora raramente o fazem porque as vibrações aqui são muito toscas e desagradáveis para eles. Mais tarde eu tive contatos com outros seres que provavelmente eram imortais.

EW: E você sente que, mesmo nesta era moderna, é possível atingir esses níveis?

Michael: Sim, eu sinto que é definitivamente possível. Caso contrário eu não estaria perdendo meu tempo praticando alquimia e ensinando as pessoas. Minha conclusão é que em um nível pessoal é a coisa mais valiosa que você pode fazer, porque é a única coisa que você pode levar com você. Você não pode levar o seu dinheiro ou sua reputação ou os seus filhos ou sua casa ou qualquer coisa. Você só pode levar a sua essência. E se você não estiver integrado, você não pode nem mesmo levar os fragmentos de sua essência com você na hora da morte. Até se integrar, você nem sequer possui a si mesmo, você é apenas uma composição temporária de vários espíritos.
Em um nível coletivo, se até mesmo um ser humano moderno alcançar a imortalidade, ele vai abrir a porta para todos seguirem. Eu acredito que isto cosmicamente quebra o gargalo no ciclo de encarnação. Há muito shen (espírito) preso dentro do nosso jing, nossa substância do corpo físico, e dentro do corpo da terra em si.
Há outras aparições de imortais nos tempos modernos. A tradição da Kriya Yoga foi iniciada por um imortal que eles chamam de Babaji, que de repente se manifesta em um engenheiro ferroviário chamado Lahiri Mahasay em 1861. Curiosamente, o primeiro ensinamento kriya dado por Babaji (e popularizado por Yogananda no Ocidente) é a Órbita Microcósmica. Você não encontrará nenhuma referência a esta meditação da órbita microcósmica nos Vedas, Upanishads, ou mais tarde na literatura tântrica. Será que Babaji permaneceu com os imortais taoistas nos planos intermediários, que o incitaram a difundir a prática da órbita na Índia como base para a imortalidade?

Tradução livre, de Arnaldo Preto


domingo, 18 de dezembro de 2011

O Apego, como ele nos fisga, como se soltar...

O apego é o nosso estado "normal", e junto com a raiva, forma a dupla que se associa aos dois canais laterais à coluna, por onde passa o Prana (ou Qi, ou Energia Vital) quando respiramos. Já pensou? A pura energia sutil universal passa pelos canais associados ao apego e à raiva: um presente para a nossa evolução. Basta estar atento e consciente, limpando-os a cada respiração...
Já o terceiro canal, central, por onde o Prana, verde e luminoso, leva embora as energias negativas depositadas nos chakras  pelo nosso karma diário e as manda embora no alto da cabeça, é ligado à Ignorância. Então, Apego, Raiva e Ignorância formam o tripé do sofrimento, como mostra a figura tibetana dos 3 animais, o galo, a serpente e o porco. Os 3 canais são banhados pelo prana desde a nossa primeira até a última respiração.
Pema Chodron fala então do apego (o galo), chamado shenpa no budismo tibetano: como ele nos “fisga” como um anzol, e como se desvencilhar gradualmente dele na prática do nosso dia-a-dia. Vamos lá:
“Você está tentando tratar uma questão com seu colega de trabalho ou com sua companheira. Num momento, o rosto dela está aberto, ela está sorrindo. No momento seguinte, uma nuvem embaça seus olhos e seu queixo enrijece de tensão.
O que você está percebendo?
Alguém o critica. Criticam seu trabalho, sua aparência ou seu filho. Em momentos como esse, o que você sente? Há um gosto familiar na sua boca, há um cheiro familiar. Ao se dar conta disso, você sente que essa experiência vem acontecendo desde sempre.
A palavra tibetana para isso é shenpa. Geralmente é traduzida como "apego", mas uma tradução mais apropriada poderia ser "a fisgada". Quando a shenpa nos fisga é como se ficássemos "colados".  Poderíamos chamar de shenpa de essa sensação de "colamento". É uma experiência de todo instante. Mesmo um pontinho no seu casaco novo pode conduzir a ela. Num nível mais sutil sentimos um aperto, uma tensão, uma sensação de fechamento. Em seguida, vem uma vontade enorme de nos retirar dali, não queremos mais estar onde estamos. Essa é a qualidade da fisgada. Aquela sensação de aperto tem o poder de nos fisgar para a auto depreciação, culpa, raiva, ciúmes e outras emoções que levam a palavras e ações que acabam por nos envenenar.
Lembra daquele conto de fadas em que sapos pulavam da boca da Princesa cada vez que ela dizia coisas más? É como a sensação de ser fisgado. Contudo não paramos – não podemos parar – porque ainda estamos habituados a associar o que quer que estejamos fazendo ao alívio do nosso próprio desconforto. Essa é a síndrome da shenpa. A palavra "apego" não traduz completamente o que está acontecendo. É uma qualidade de experiência que não é fácil de descrever mas que todo mundo conhece bem. Geralmente a shenpa  é involuntária e vai direto à raiz do porque sofremos.
Alguém nos olha de certa maneira, ou ouvimos uma certa canção, sentimos um certo cheiro, entramos em certo aposento e pronto!. A sensação não tem nada a ver com o presente, e apesar disso ela está lá. Quando estivemos praticando para reconhecer a shenpa, descobrimos que alguns de nós podiam senti-la até mesmo quando uma determinada pessoa simplesmente sentava próximo de nós na mesa.
A shenpa floresce na insegurança motivada por  vivermos num mundo que está sempre mudando, impermanente. Experimentamos essa insegurança como um fundo de leve desconforto  e inquietação. Todos nós queremos alguma espécie de alívio para esse desconforto, então nos voltamos para o que nos dá prazer – comida, diversão, álcool, drogas, sexo, trabalho ou as compras. Com moderação o que nos dá prazer pode ser muito delicioso. Podemos apreciar seu sabor e sua presença em nossa vida. Mas quando lhe atribuímos poder com a idéia de que nos trará conforto, removerá nossa inquietude, aí somos fisgados.
Desse modo, também poderíamos chamar de shenpa  o "impulso" – o impulso de fumar um cigarro, de comer demais, de tomar outro drinque, de saciar nossa dependência qualquer que seja ela. Às vezes a shenpa é tão forte que sentimos vontade de morrer ao obter esse alivio de curto prazo dos sintomas. O momento atrás do impulso é tão forte que nós nunca nos livramos do padrão habitual de buscar o conforto no veneno.  Este não necessariamente tem que envolver uma substância; pode ser dizer coisas mesquinhas ou se aproximar de tudo com uma mente crítica. Essa é a maior fisgada. Alguma coisa aciona o gatilho de um velho padrão que preferiríamos não sentir, nos retesamos e engatamos em críticas e queixumes. Isso nos proporciona uma satisfação ofegante e uma sensação de controle que oferece alivio de curto prazo ao desconforto.
Aqueles de nós com dependências fortes sabem que trabalhar com padrões habituais começa com a disposição de reconhecer completamente nosso impulso e em seguida disposição de não atuar a partir dele. Esse não atuar é chamado abster-se. Tradicionalmente é  conhecido como renúncia. Não renunciamos ou nos abstemos da comida, do sexo, do trabalho ou de relacionamentos em si. Renunciamos e nos abstemos da shenpa. Quando falamos sobre abster-se da shenpa, não estamos falando de tentar jogá-la fora; estamos falando de tentar ver a shenpa claramente e experimentá-la. Se pudermos ver a shenpa exatamente quando começamos a nos fechar, quando sentirmos o aperto, existe a possibilidade de agarrar o impulso de fazer a coisa habitual e não fazê-la.
Sem a prática da meditação isso é quase impossível de fazer. Geralmente, não capturamos o aperto até que tenhamos saciado o impulso de coçar nosso comichão de alguma maneira habitual. E, a menos que equiparemos o abster-se com bondade amorosa e amizade para conosco, abster-se dá a impressão de vestir uma camisa de força. Lutamos contra ela. A palavra Tibetana para renúncia é shenlock, que significa "virar a shenpa de cabeça para baixo, sacudindo-a".
Quando sentirmos o aperto, de alguma forma temos que saber como abrir o espaço sem sermos fisgados para nosso padrão habitual.
Ao praticar com a shenpa, primeiro tentamos admiti-la. O melhor lugar para fazê-lo é na almofada de meditação. A prática da meditação sentada nos ensina como nos abrir e relaxar para o que quer que surja, sem escolher ou selecionar. Ela nos ensina a experimentar o desconforto, o aperto, a coceira da shenpa. Treinamos em sentar quietos com nosso desejo de coçar. É assim que aprendemos a interromper a reação em cadeia dos padrões habituais que de outra maneira governarão nossas vidas. É assim que enfraquecemos os padrões que nos mantêm fisgados no desconforto que nós confundimos com conforto. Nós rotulamos isso através do "pensar" e voltamos para o momento presente. Até mesmo na meditação experimentamos a shenpa.
Vamos supor, por exemplo que na meditação você se sentiu sereno e aberto. 
Os pensamentos vierem e se foram mas não o fisgaram. Eram como nuvens no céu que se dissolviam quando você os reconhecia. Você foi capaz de voltar ao momento sem uma sensação de luta. Em seguida você é fisgado naquela experiência tão agradável: "Eu fiz certo, consegui acertar. É como tinha que ser, é o modelo." Ser apanhado dessa maneira constrói arrogância e no reverso dela constrói pobreza, porque sua próxima sessão não será nada daquilo. Na verdade sua sessão "má" é muito pior agora porque você foi fisgado na "boa". Você sentou lá e foi discursivo: ficou obcecado por alguma coisa em casa, no trabalho. Você se preocupou e se atormentou; foi apanhado com medo ou raiva. No fim da sessão você se sentiu desanimado – foi "mau", e só há você para culpar.
Há alguma coisa inerentemente errada ou certa na experiência da meditação?
Somente a shenpa. A shenpa que sentimos para a "boa" meditação nos fisga no que ela "deve" ser e com isso somos conduzidos pela shenpa a como ela não "deve" ser. No entanto a meditação é apenas o que ela é. Somos apanhados não nela, mas em "nossa idéia dela": isso é a shenpa. Essa colada é a raiz da shenpa. Nós a chamamos “pegada do ego” ou auto-absorção. Quando somos fisgados na idéia da experiência má, a auto-absorção fica mais forte. É por isso que, como praticantes, somos ensinados a não nos julgar, para não sermos apanhados no bom ou mau.
O que realmente precisamos fazer é tratar as coisas como elas são. Aprender a admitir a shenpa nos ensina o significado de não estar apegado a esse mundo. Não estar apegado não tem nada a ver com esse mundo. Tem a ver com a shenpa – sermos fisgados pelo que associamos com conforto. Tudo o que estamos tentando fazer é não sentir nosso desconforto. Mas quando fazemos isso nunca chegamos à raiz da prática. A raiz é experimentar a coceira, assim como o impulso de coçar e então não atuar sobre ele.
Se estamos dispostos a praticar dessa  maneira todo o tempo, o prajna começa a aparecer. Prajna é a visão clara. É a nossa inteligência inata, nossa sabedoria. Com o prajna, começamos a ver claramente toda a reação em cadeia. À medida que praticarmos, a sabedoria se torna uma força mais poderosa que a shenpa.
Por si só, ela tem o poder de interromper a reação em cadeia.
O prajna não está envolvido com o ego. Sua sabedoria se baseia na bondade fundamental, na abertura, na equanimidade – que corta a auto-absorção. Com o prajna podemos ver o que o espaço vai nos mostrar. Ação habitual, que está baseada no ego é exatamente o oposto – a compulsão de preencher o espaço ao nosso estilo particular. Alguns de nós fechamos o espaço martelando nossos mesmos pontos; outros tentando suavizar as águas.
Fomos ensinados que tudo que surge é fresco, a essência da realização. Esta é a visão básica. Mas como ver  tudo que surge como a essência da realização quando a realidade é que temos um trabalho a fazer? A chave é olhar para dentro da shenpa. O trabalho que temos que fazer é descobrir se estamos tensos, fisgados ou "excitados". Essa é a essência da realização. Quanto mais cedo  captarmos isso, mais fácil será trabalhar com a shenpa, mas até mesmo captar isso quando já estivermos excitados é bom. Às vezes temos que percorrer todo ciclo até que vejamos o que estamos fazendo. O impulso é tão forte, a fisgada tão profunda, o padrão habitual tão colado que tem vezes que não podemos fazer nada sobre isso.
Entretanto, há alguma coisa que podemos fazer na realidade. Podemos sentar na almofada de meditação e repassar a história. Talvez comecemos lembrando a sensação de excitamento e entremos em contato com ela. Olhamos claramente a shenpa em retrospecto; também ajuda muito ver a shenpa surgindo em habitozinhos, quando a fisgada ainda não é tão profunda.
Os budistas estão falando da shenpa quando dizem, "Não se deixe apanhar no contentamento: observe a qualidade que está por trás  - a colada, o desejo, o apego". A meditação sentada nos ensina a ver aquela tangente antes de cair nela. Ela basicamente se resume à instrução "rotule a coisa pensando". Treinar isso na almofada onde é relativamente fácil e agradável fazê-lo, é a maneira de nos preparar para quando estivermos excitados.
Em seguida podemos treinar em ver a shenpa onde quer que estejamos. Diga alguma coisa a outra pessoa e talvez você sentirá aquela tensão. Em vez de ser apanhado numa história sobre como você está certo ou como você está errado, tome isso como uma oportunidade de estar presente com a qualidade da fisgada.
Use isso como uma oportunidade de estar com o aperto sem atuar sobre ele. Deixe o treinamento ser a sua base.
Você também pode praticar reconhecendo a shenpa na natureza. Praticar se sentando quieto e captando o momento em que se fecha. Ou praticar numa multidão, olhando uma pessoa de cada vez. Quando você está em silêncio, o que o fisga é o diálogo mental. Você fala consigo mesmo sobre maldade ou bondade: eu-mau ou eles-maus, isso-certo ou aquilo-errado. Simplesmente veja isso como uma prática. Você ficará intrigado como  involuntariamente se fechará e será fisgado de uma maneira ou de outra. Apenas continue rotulando aqueles pensamentos e volte para a imediatez da sensação. É a maneira de  não seguir a reação em cadeia.
Uma vez que estejamos conscientes da shenpa, começamos a notá-la em outras pessoas,  nós as vemos se fechando. Vemos que elas foram fisgadas e que nada irá penetrá-las agora. Naquele momento temos o prajna. A inteligência básica surge quando não somos apanhados escapando do nosso próprio desconforto. Com o prajna podemos ver o que está acontecendo com os outros; podemos ver quando eles estão sendo fisgados. Em seguida podemos dar algum espaço à situação. Uma maneira de fazê-lo é abrindo o espaço no local através da meditação. Fique quieto e coloque sua mente na respiração. Segure sua mente no lugar com grande abertura e curiosidade para com essa pessoa. Fazer uma pergunta é outra maneira de criar espaço em volta daquela sensação de colamento. Assim como adiar a discussão para outra hora.
No mosteiro, temos muita sorte de todo mundo estar entusiasmado em trabalhar com a shenpa. Muitas palavras que tenho tentado usar se tornaram munição para as pessoas usarem contra elas próprias. Mas sentimos uma espécie de alegria trabalhando com a shenpa, talvez porque a palavra não nos seja familiar. Podemos reconhecer o que está acontecendo com visão clara, sem nos apontarmos. Como ninguém gosta de ter sua shenpa apontada, as pessoas no mosteiro combinaram, "Quando você me vir sendo fisgado, só puxe sua orelha e se eu o vir sendo fisgado, farei o mesmo. Ou se você o vir em você mesmo e eu não tiver captado, pelo menos dê um sinalzinho de que talvez esta não seja a hora de continuarmos a discussão". É dessa maneira que estamos nos ajudando uns aos outros a cultivar prajna, visão clara.
Poderíamos pensar em todo esse processo em termos dos 4 “R”:
 
•    reconhecer a shenpa,
•    refrear (abster-se) o coçar,
•    relaxar no impulso que motiva o coçar, e então
•    resolver continuar  interrompendo nossos padrões habituais como esse pelo resto de nossas vidas.
O que você faz quando não faz a coisa habitual? Você se deixa ficar com seu impulso. É como você se põe mais em contato com a avidez e com a vontade de fugir. Você relaxa nele. Em seguida, resolve continuar praticando dessa maneira.
Trabalhar com a shenpa nos suaviza. Uma vez que vemos como somos fisgados e como somos arrastados pelo momento, não tem como ser arrogantes. O segredo é continuar vendo. Não deixar que a suavidade e a humildade se transformem em auto-depreciação. É apenas uma outra fisgada. Como viemos fortalecendo toda a situação habitual por um longo, longo tempo não podemos espera desfazê-la do dia para a noite. Não é um assunto para um tiro só. É preciso bondade amorosa para reconhecer; é preciso prática para abster-se; é preciso disposição para relaxar; é preciso determinação para continuar treinando dessa maneira. Ajuda lembrar que podemos experimentar dois bilhões de espécies de coceiras ou sete quatrilhões de tipos de comichão, mas só existe realmente uma única raiz da shenpa – a aderência do ego. Nós a experimentamos como aperto e auto-absorção.
Ela tem graus de intensidade. As ramificações shenpas são todos os nossos diferentes estilos de coçar o comichão.
Recentemente vi um cartoon com três peixes nadando em volta de um anzol. Um peixe está dizendo para o outro, "o segredo é não grudar". É um cartoon shenpa: o segredo é – não morda o anzol. Se nós pudermos nos apanhar no lugar onde o impulso de morder é forte podemos, pelo menos, ter uma perspectiva maior do que está acontecendo. Praticando dessa maneira, ganhamos confiança em nossa própria sabedoria. Isso começa a nos conduzir a um aspecto fundamental do nosso ser – amplidão, calor e espontaneidade.”

Pema Chödron,  nascida Deirdre Blomfield-Brown (Nova York, 1936) é uma monja budista tibetana na tradição Vajrayana, e é instrutora residente no templo Gampo Abbey, em Cape Breton Nova Escócia, Canadá, fundado pelo grande Chögyam Trungpa em 1984. Veja www.pemachodronfoundation.org