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domingo, 13 de janeiro de 2013

Viver e Morrer

Sogyal Rinpoche - autor do Livro Tibetano do Viver e do Morrer
Por que não realizamos em vida as práticas específicas que nos preparam para o momento da morte? O que mais temos medo na hora de morrer? O que nos conforta? E qual a melhor maneira de ajudar aqueles que estão morrendo? Aqui, Sogyal Rinpoche responde a essas e outras questões numa entrevista para a revista Bodisatva feita durante a sua estada no Brasil em novembro de 2010.
Bodisatva:
Por que temos tanto medo da morte?
Sogyal Rinpoche:
Porque por trás do medo da morte está o medo de encarar a si mesmo. O instante da morte é o momento da verdade. Ela é como um espelho, no qual o verdadeiro sentido da vida está refletido. Na tradição monástica cristã há uma expressão em latim, memento mori, que significa lembre-se da morte, ou mais especificamente, lembre-se de que vai morrer. Se você se lembrar da morte, vai entender o que é a vida. A morte é a fundação e o verdadeiro coração do caminho espiritual. Se você se recordar de que vai morrer, vai se lembrar da preciosidade da vida – e essa verdade está presente em todas as grandes tradições: budismo, cristianismo, hinduísmo… Pensar na morte é o cerne do caminho espiritual. Milarepa, o grande santo e poeta que inspirou milhões de seres, disse: Aterrorizado pela morte, refugiei-me nas montanhas, meditei muitas e muitas vezes sobre a incerteza da hora da morte. Mas ao conquistar a fortaleza da natureza da mente infinita e imortal, todo o medo acabou para sempre. É por isso que o meu livro fala tanto dessa contemplação da hora da morte. Existe também uma citação de Maomé. Quando perguntaram a ele como você faz para polir o coração, como você se livra da ferrugem, das aparas do coração? Maomé respondeu: Pela lembrança de Deus e por muito pensar na morte. De fato, pensar na morte é muito próximo de se pensar em Deus, porque a morte traz para você o que Deus é. Mas infelizmente, na vida contemporânea as pessoas não veem a vida e a morte como um todo. Com isso ficam muito apegadas à vida e rejeitam e renegam a morte. Hoje em dia as pessoas também pensam na morte como um tipo de derrota ou de perda. Mas do ponto de vista espiritual, a morte não é uma tragédia a ser temida, mas uma oportunidade preciosa para a transformação.
Bodisatva:
Só que nos esquecemos de lembrar da morte durante a vida, estamos ocupados demais para isso.
Sogyal Rinpoche:
Sim, nos mantemos muito atarefados o tempo todo: é uma preguiça ativa (risos). A morte, por sua vez, nos diz que é preciso parar de nos enganar – quando você acertar as contas com a morte você acerta as contas com sua vida. A morte é o sinônimo da vida, o seu prolongamento; na verdade, ela é a parte mais importante da existência, por isso é que ela acontece no final! (risos). É a morte que vai nos apresentar a conta. Tem uma expressão em francês que diz: Agora, a dolorosa, por favor! (risos). Mas com frequência, só começamos a pensar na morte quando estamos para morrer. Não é um pouco tarde demais? Os ensinamentos nos mostram que deveríamos nos preparar para morrer agora, quando estamos bem, com estado mental feliz, principalmente nos momentos em que você está inspirado, predisposto à introspecção, quando começamos a ver a vida e a morte de uma maneira mais profunda.
Bodisatva:
O que dizer ou fazer quando se está ao lado de uma pessoa que vai morrer?
Sogyal rinpoche:
Sempre que você estiver com uma pessoa que está morrendo, enfatize o que ela realizou de bom durante a vida, o que ela fez bem. Ajude-a a se sentir tão construtiva e feliz quanto possível com relação à existência dela. Concentre- se nas suas virtudes e não nos seus defeitos. A pessoa que está morrendo fica muito vulnerável à culpa, ao remorso e à depressão. Permita que ela expresse isso livremente, ouça-a e escute o que ela diz. Mas, ao mesmo tempo, se o momento for apropriado, não deixe de lembrá-la da sua natureza búdica e encorajá-la a repousar na natureza da mente. Em especial, lembre à pessoa que a dor e o sofrimento não são tudo o que ela é. Encontre a maneira mais hábil e sensível de inspirá- la e dar-lhe esperança, ao invés de enfatizar seus erros. Assim ela poderá morrer num estado mental mais pacífico.
Bodisatva:
Qual a melhor maneira de estar ao lado de quem vai morrer?
Sogyal Rinpoche:
Acho muito importante dizer isso: quando você ajudar alguém nessa condição, o mais importante não é o que você diz, mas o que você é, a sua presença. E a sua presença é especialmente importante se você for um praticante que tem a realização da natureza da mente e puder permanecer nesse estado de realização na presença daquele que está morrendo. Isso é extremamente poderoso. Vejo isso por mim mesmo: nessa presença, o amor que é sustentado pela natureza da mente é o amor apoiado pelos budas. Você se torna como um embaixador deles. O amor inspirado pela natureza da mente é tão poderoso que pode eliminar o medo do desconhecido. Se você puder introduzir essa paz – sentindo muita paz, vendo a natureza da mente se manifestando de uma forma muito poderosa, como uma radiação quente – se você conseguir isso será extraordinariamente poderoso e benéfico.
Bodisatva:
O que mais pode contribuir para que a pessoa sinta um maior conforto psicológico e espiritual nesse momento?
Sogyal Rinpoche:
A pessoa que está morrendo precisa ter a coragem de perceber que esse é o tempo da reconciliação com amigos e parentes, e assim eliminar do coração todo ódio e ressentimento. Nem todos creem numa religião formal, mas acho que quase todos acreditam no perdão, e você pode ser de incomensurável utilidade para a pessoa que vai morrer ajudando-a a ver a aproximação da morte como o tempo perfeito para reconciliação e a avaliação de uma vida. Todas as religiões dão ênfase ao poder do perdão, que nunca é tão necessário e tão profundamente sentido como no momento da morte. Por meio do perdoar e do ser perdoado, nos purificamos da escuridão gerada por aquilo que fizemos e nos preparamos para a jornada através da morte. Com base na sua prática espiritual, você pode transformar o ambiente e inspirar sentimentos sagrados como amor, compaixão e devoção na mente da pessoa que está morrendo, no momento da sua morte.
Bodisatva:
E como ajudar uma pessoa assustada que não tem nenhuma crença espiritual?
Sogyal Rinpoche:
Um conselho simples é: olhe nos seus olhos com amor e confiança, seja claro, invoque a presença dos Budas ou de Cristo e dê-lhes o ensinamento essencial porque no momento da morte eles vão estar abertos a isso, particularmente se você for genuíno e autêntico e não estiver pregando. Outra coisa importante quando formos ajudar alguém que está morrendo é dar o nosso amor, com todo o coração, sem quaisquer condições, tão livres quanto possível de apego, sem medo, destemidamente, amar.
Bodisatva:
E se a pessoa não quiser falar sobre a morte ou não aceitar que está morrendo?
Sogyal Rinpoche:
Você ainda pode amá-la, dizer coisas amorosas sem mencionar a morte. Se entramos em contato com a natureza da nossa mente, se a estabilizamos através da nossa prática espiritual e a integramos às nossas vidas, então o amor que temos para dar só pode ser profundo, porque vem de uma fonte mais profunda, do nosso ser mais interno, que é o coração da nossa natureza iluminada. Esse coração tem um poder especial de libertar a nós mesmos ou a alguém que esteja morrendo. Esse tipo de amor, que é o amor além de todo apego, é como o amor divino de que se fala tanto no cristianismo quanto no hinduísmo; é o amor de todos os budas. Nesse estado sem fabricação, mesmo sem pensar, podemos sentir a presença de Buda sem esforço. É como se tivéssemos nos tornado o representante dele, com nosso amor apoiado pelo seu amor e infundido com a sua bênção e compaixão. O amor que brota verdadeiramente da natureza da mente é tão abençoado que tem o poder de dissipar o medo do desconhecido, de dar refúgio à ansiedade e de dar serenidade, paz e, além disso, trazer inspiração na morte e além dela. E descobriremos por nós mesmos que quanto mais conseguirmos purificar nossa prática espiritual, mais natural e mais eficaz será a ajuda espiritual que daremos para os que estão necessitados, porque o modo como nós somos, o nosso ser, a nossa presença é muito mais importante do que o que dizemos ou fazemos. E quando você ajuda desta forma, é extraordinário, não só para a pessoa que está morrendo, mas também para a família.
Bodisatva:
Existe algum treinamento para quem quiser se aperfeiçoar nessa prática?
Sogyal Rinpoche:
Sim. Você pode desenvolver um treinamento chamado cuidado espiritual com elementos emocionais e práticos. São empregados elementos da espiritualidade, mas sempre relacionado à religião da pessoa. Até agora já treinamos cerca de 30 mil pessoas, entre enfermeiros e médicos, sobre como dar esse cuidado espiritual no momento da morte.
Bodisatva:
Além de estar na natureza da mente, para quem tem essa realização, o que mais pode ser feito nesse momento? Como podemos nós mesmos nos preparar para morrer e qual a maneira mais simples de se realizar o phowa?
Sogyal Rinpoche:
Outro ponto essencial é unir a sua mente com a mente iluminada dos budas – é a prática mais importante nesse momento, e é a que eu vou expor agora. Phowa, em tibetano, quer dizer “transferência da consciência”. A prática do phowa é mais poderosa e valiosa no momento da morte de todas que eu já encontrei. Eu vejo um grande número de pessoas praticando-a com entusiasmo durante a vida. E gostaria de enfatizar que qualquer um pode fazer essa prática. Ela é simples, mas é a prática mais essencial que podemos fazer para nos prepararmos para nossa própria morte, e é também a prática principal que eu ensino aos meus alunos para ajudarem os seus amigos e parentes que estejam morrendo.
Bodisatva:
O senhor poderia descrevê-la?
Sogyal Rinpoche:
Sim. No céu à sua frente, você invoca a corporificação de qualquer verdade em que você crê sob a forma de uma luz radiante. Escolha qualquer ser divino ou santo de quem você se sinta próximo: para os cristãos pode ser Deus ou Cristo, para os budistas pode ser Amitaba, que é o Buda de luz ilimitada e a deidade mais associada com o momento da morte. Se você não se sente conectado com nenhuma figura em especial, simplesmente imagine uma forma em pura luz dourada no céu diante de você. O ponto importante é que considere que o ser que você está visualizando ou que sente presente, seja a corporificação da verdade, sabedoria e da compaixão de todos os budas, mestres, santos e seres iluminados. Não se preocupe se você não conseguir visualizá- los claramente; apenas sinta-os em seu coração, preencha o coração com a sua presença e tenha confiança de que eles estão ali. Na segunda parte dessa prática, foque sua mente, seu coração e sua alma nessa presença que você invocou. Reze a ela que por meio de suas bênçãos, graça e orientação, por meio do poder da luz que flui dela para você, que todo o carma negativo dos seus pecados, emoções destrutivas e bloqueios sejam purificados e removidos. Peça para ser perdoado por todo o dano que possa ter pensado ou causado. E que possa realizar essa prática profunda de phowa, da transferência de consciência, e que possa morrer de uma forma boa e pacífica. E por meio do triunfo de sua morte, que você seja capaz de beneficiar todos os seres, vivos ou mortos. Essa é a oração. Na terceira parte, você imagina que a presença de luz que você invocou ficou tão comovida com sua oração sincera que responderá com um sorriso amoroso e emanará compaixão e amor na forma de raios de luz que saem do seu coração. À medida que esses raios de luz tocam e penetram você, eles eliminam todo o seu carma negativo, as suas emoções negativas que são a causa do seu sofrimento. Você vê e sente que está completamente imerso em luz e amor. Em quarto lugar, você sente nesse momento que está completamente purificado e curado pela luz que fluiu daquela presença. Considere agora que seu próprio corpo, criado pelo carma, se dissolve em luz. Esse corpo de luz que você agora é voa até o céu e se funde inseparavelmente com a presença bem aventurada daquela luz. Permaneça nesse estado de união com a presença pelo maior tempo possível.
Bodisatva:
Como podemos fazer o phowa para quem está morrendo?
Sogyal Rinpoche:
O princípio e a sequência dessa prática para ajudar alguém que morre são exatamente os mesmos. A única diferença é que você visualiza o Buda ou o ser espiritual acima da cabeça de quem está morrendo. Você imagina que raios de luz emanam em direção a essa pessoa e que purificam todo o ser dela. Aí a pessoa se dissolve em luz e se funde nessa presença espiritual. Você pode fazer essa prática durante a doença de um ente querido e, particularmente mais importante, quando a pessoa estiver dando o seu último suspiro, no momento exato da morte ou imediatamente após a respiração ter parado, antes que alguém toque o corpo, antes dele ser tocado ou perturbado de qualquer forma. Se a pessoa que está morrendo sabe que você está fazendo essa prática para ela e sabe qual é a prática, isso é uma grande fonte de inspiração e de conforto.
Bodisatva:
E o que não deve ser feito quando nos preparamos para a morte?
Sogyal Rinpoche:
O grande mestre Dzogchen Dodrubchen Jigme Tenpe Nyima, que foi mestre do meu mestre, deu o seguinte ensinamento: “Não se sinta nervoso ou apreensivo a respeito da morte, ao contrário, tente elevar o seu espírito e cultivar um sentimento de clara alegria trazendo à mente todas as coisas positivas e virtuosas que você fez no passado. E sem sentir qualquer traço de orgulho ou arrogância, celebre as suas realizações uma por uma”. O principal é o seguinte: no momento da morte, abra mão de apego e aversão. Mantenha coração e mente puros. E se você é um praticante espiritual, se reconheceu a natureza da mente e praticou em sua vida, no momento da morte, lembre- se da luminosidade básica e da clara luz surgindo. Na verdade, quando um grande praticante morre é isso que se diz a ele. Para os meus alunos que estão no momento da morte, é esse o conselho que eu dou: lembrem- se da natureza da mente, da clara luz. Fiz um dvd sobre isso, que também pode ser mostrado para o praticante que está próximo do processo de morrer. É como se eu estivesse ao seu lado, presente. Pensem em mim e eu estarei ali.


Sogyal Rinpoche – O mestre que nos ensina a viver e a morrer - Bodisatva 
 Por Liane Alves



domingo, 14 de outubro de 2012

Busca Interior e Política


O Padre Eterno também vota (rsrs)
O título parece uma contradição: busca interior e política. Qual é a forma de conciliar a ação normal e corriqueira no mundo exterior, e a busca interior? Conciliar o Espirito e a chamada "concretude" do mundo? 
Há um grande leque de formas de se viver no mundo, desde o desapego do secreto Dzogchen, do qual falamos em O Sonho - Visão Budista e Corpo de Glória, Corpo de Arco-Iris, Terceira Atenção, que afirma que “não há que mudar nada no mundo, porque não vemos a verdadeira realidade, e o que chamamos de mundo é ilusório”, e no outro extremo o caminho transformador da ação, do guerreiro que arregaça as mangas e age.
As pessoas tem me perguntado com frequência sobre como, juntamente com a busca interior, encarar o mundo exterior nas miudezas concretas, esse palco do braço horizontal da cruz: como enfrentar os relacionamentos, o dinheìro, a vocação, família, amor, amigos, inimigos, mudanças, enfim as 12 casas terrenas do zodíaco. Viver o interior e o exterior com presença e atenção simultaneamenteé o grande nó do ser humano. Tenho resistido apesar  da vontade de falar sobre isso, mesmo porque gente muito mais  sábia, competente e capaz já falou, desde que o mundo é mundo. Só pra escolher um dentre milhões, quem já leu o livro “O Profeta” do Gibran Kalil Gibran? Simples e no alvo. Fala com propriedade e clareza desses temas exteriores e como se colocar interiormente frente a eles.
Nos últimos dias vários me perguntaram sobre como enfrentar, em termos concretos e práticos, como buscador da evolução do espírito, a política, os políticos, o voto, as escolhas... enfim, o lixão que está aí, como todos neste mundo estão vendo. Participar ou ignorar?  Perguntam, é claro, influenciados pelo fato de a política e políticos brasileiros estarem atualmente na berlinda,  estressados, e na mira da Justiça e da imprensa sérias, graças aos últimos acontecimentos do julgamento do chamado Mensalão, ou “compra de políticos da oposição pra obter apoio na votação dos temas importantes do partido que está no poder”. Como encarar isso interiormente? Então não resisti e vou colocar a boca no trombone, que também não sou de ferro, ora essa (rsrs). Mas tendo sempre como pano de fundo a visão das tradições autênticas do planeta, que formaram no ser humano responsável o que Gurdjieff chamava de consciência moral. Notem que eu não disse religiões, mas tradições. Há uma grande diferença qualitativa e de conteúdo entre as duas coisas . Tradição é o círculo mais esotérico e interior, religião é o mais exotérico e portanto exterior, secular e corriqueiro.
A rigor acho 99% da política, políticos e partidos, não confiáveis, mas antes de pensar em como se colocar frente ao tema político e qual é a melhor posição política num certo referencial, a primeira coisa que me ocorre claramente é considerar e avaliar um problema anterior, camuflado, aparentemente inocente e útil, de difícil solução e que poucos percebem, e que desafiou a humanidade toda desde as assim chamadas sociedades primitivas nas sua experimentação e escolhas: a representatividade. Ela é o X da questão, uma solução e um problema simultaneamente, à medida que a sociedade cresce e se sofistica. 
O rapaz índigo Matias de Stefano diz que a humanidade na Terra vem experimentando e resolvendo os problemas e contradições desde o início pelo método de tentativa e erro, e vai continuar fazendo isso e agregando conhecimento à aventura de viver neste planeta. Às vezes erra e retrocede, às vezes acerta e a gente avança, e vai ser assim sempre. Não há uma linha contínua ascendente, há só o experimentar, dentro das condições de espaço e tempo. Acho isso incrivelmente bem colocado, mas o grande problema nosso é o apego humano atávico e natural ao resultado da ação, ao sucesso. É isso que nos aprisiona, angustia e frequentemente nos faz tomar partido e sermos competitivos, opositores e agressivos . De fato como dizia Don Juan deveríamos, na experiência, agir por agir sem o olho na recompensa. Parecido com o Dzogchen. Não é fácil...
O grande pepino da representatividade é que quando eu, pelas razões que forem, dou a uma outra pessoa uma parcela ou todo o meu direito ou poder para que ela em meu nome o exerça por mim, o problema já começou. Eu junto os meus demônios com os do meu representante, e não as minhas virtudes com as dele. É só olhar para o que está aí à nossa volta. Não importa que o representante seja uma pessoa, uma entidade, o Estado. É sempre a mesma coisa. 
Não há formas de, ao dar a parcela do meu poder para alguém agir em meu nome, cobrar efetivamente que as suas decisões sejam como seriam as minhas. E se fossem, talvez fosse pior, falíveis que somos aos 7 pecados capitais. Mas voltando, as decisões dos representantes nunca serão as mesmas minhas pelo direito que lhe dei ao votar, pelo menos não totalmente. É uma questão de matemática, de estatística, de probabilidade: na melhor das hipóteses não há duas pessoas ou instituições que tenham as mesmas opiniões sobre tudo, como espelhos uma da outra. Mesmo que o representante seja honesto, ele pode concordar com você no item segurança, ou impostos, mas não no item educação ou transportes. Em se tratando de políticos e representados então, não há a menor possibilidade de representatividade. Esqueça. O político não tem ideais, só interesses. 99% deles só querem exercer o poder como resultado do apego natural do ser humano, do pecado capital do orgulho, e nós entramos na deles. Se elegeu, te esqueceu. A mola propulsora deles é o apego à auto imagem misturado ao do poder, do dinheiro... A gente pode encarar o mundo de uma forma zen, mas não é cego. No caso da política, vi há alguns anos a entrevista de um presidente de uma grande agência global de publicidade dizer sabiamente: “Os políticos só pensam em duas coisas: em si mesmos e nas próximas eleições”. Ponto. E não se iludam que as “plataformas ideárias dos partidos” resolvam isso para você, porque "os partidos são um degrau a mais de representatividade além do representante político, entre você e o mundo, como se já não bastasse" 
Os partidos não são necessários. Você nunca pensou nisso?  Pois é. É a força do hábito, cumpadre e cumadre. Sempre foi assim, né? Se pensar melhor, os partidos não deveriam existir. Eles são aglomerados confusos, indistintos, ávidos, mentirosos e perigosos  de “busca do poder a qualquer preço”, e são todos farinha do mesmo saco (veja o partido que nos governa e todos os outros), e como qualquer ser no universo, ao serem criados, os partidos não querem mais morrer, graças aos interesses e a energia dos seus criadores colocada neles, partidos. A carta 15 do Tarot fala exatamente disso. Veja a imagem dela lá no Tarot de Marselha: os dois seres humanos embaixo criaram algo que os acorrentou. Esse é o Diabo, the true, que passa a dirigi-los. A criação passa a dirigir o criador. Leiam sobre essa carta no livro Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarot. É de uma sabedoria cristalina sobre a natureza mágica da criação dos seres, entidades, grupos, filosofias, idéias, anseios, desejos e o escambau. Nada que foi criado quer morrer, por pior que seja...
E tem mais: hoje com o desenvolvimento e a popularização da informática, o barateamento natural do computador, os projetos de acesso fácil a ele pelos pobres, os aplicativos incríveis, nem os políticos são necessários entre você e o que você gostaria para a sociedade. Fazer leis é uma coisa muito importante para ser deixada nas mãos de políticos. Deve ser deixada nas mãos da sociedade civil, assessorada por alguns doutos juristas. Chega de representantes. Basta um computador ou celular, e você pode votar lá da praia, da beira do rio pescando, ou de uma plataforma no espaço. E mais: pode votar uma vez por mês, ou por semana ou por dia, em alguns segundos, sobre uma diversidade incrível de temas importantes. Um plebiscito único a cada vez. O Brasil tem uma experiência única e campeã no mundo sobre o voto eletrônico que supera os países mais ricos inclusive os EUA cujo sistema  de voto, conteúdo e forma, é da idade da pedra. Então só falta o voto informático. Já pensou? Você poder votar toda semana sobre o que você deseja do Estado e Governo, nos níveis municipal, estadual, e federal, sobre a sua rua, cidade, país, em termos de temas como educação, segurança, economia, impostos, prioridades, etc. É isso aí. Queremos o PSIU – Plebiscito Semanal Informático Único!
Mas o problema não se restringe só à política. É estendido para outras áreas como a religião, associação de classes, os sindicatos, e a rigor para qualquer área do relacionamento humano desde o casamento até a torcida organizada de futebol. Qualquer tipo de representante,  religioso, político, sindical, é farinha do mesmo saco, apesar de os primeiros exibirem maneiras sacerdotais e seu ar sagrado, e os outros se mostrarem como salvadores imprescindíveis dos votantes. Com raras exceções de um mestre autêntico, eu passo o meu poder como uma bola redondinha ao líder religioso e ele o devolve a mim como uma bola quadrada, me castrando com a sua visão do mundo que sei lá de onde veio, e com os interesses mais obscuros e inconfessáveis por trás. É uma prisão com o meu consentimento. Vocês observaram ano a ano como os lideres religiosos, pastores, padres e outros estão ficando mais seculares, interesseiros e negociantes, perdendo a antiga compostura e dando opiniões nas amplas entrevistas na mídia, tentando conduzir o voto dos  fiéis sonsos, conforme os interesses mundanos das “plataformas religiosas” que seguem, tentando conduzir não só votos como as mentes? Só não perdem para os políticos que são mais agressivos, venais e corruptos  e buscam o poder descaradamente a qualquer preço. A religião quer voltar a se unir ao Estado ou governo, mas para comandá-lo. As duas instituições, quando perdem a eleição, tentam conduzir o rebanho que votou neles para outros políticos, sejam até do partido opositor, conforme os interesses dos partidos. Uma geléia geral. Tudo gado. Já pensou no que significa isso? É o ó do borogodó! 
Mas voltando: o representante religioso, sindical ou classista é também o mesmo Demônio da carta 15 do Tarot. Pau neles também.
Vejam os sindicatos, outra entidade que faz a mesma coisa. Você se sindicaliza e dá parte do seu poder a uma cúpula e um líder que, como os políticos, só quer o poder político a qualquer custo. Sindicalismo e política é a união da fome com a vontade de comer, um casamento explosivo e danoso entre gatos do mesmo saco. Você e os seus interesses profissionais ou de classe são irrelevantes para eles. É só olhar em volta e ver.
O sindicalismo sempre foi uma das maiores matrizes da corrupção no mundo. Nos EUA criaram e desenvolveram a máfia nos já poderosos setores portuário e de construção civil. Até na Polônia nos anos 70 e 80 o aparentemente austero e aplaudido sindicato socialista Solidariedade e seu líder Lech Walessa, que serviram de modelo aos líderes sindicais brasileiros em ascenção na época, foram pegos com a boca na botija. Um escândalo inacreditável naqueles anos mais ingênuos. Alta corrupção. Quem gosta de História que veja. Os sindicalistas brasileiros então, no embalo, juntando-se com a “Igreja Progressista”, líderes estudantis (hoje ex-ministros corruptos) e os “intelectuais de esquerda” (eu não entendo como um intelectual pode ser de esquerda ou direita) fundaram o Partido dos Trabalhadores, cuja bandeira era a honestidade. Uma vestal incorruptível, ao contrário dos outros partidos que, sabemos, eram corruptos também, mas não se fingiam de honestos, daí o desencanto de muitas figuras sérias que deixaram o partido. O resto você já sabe. O ex-ministro mais forte dele, condenado por corrupção, sempre se declarou stalinista, porém (pasmem) "um arauto da Democracia". É possível? Aos que não sabem, Stalin sempre foi historicamente conhecido como um genocida, culpado da morte de 4 a 10milhões de pessoas, em grande parte russos. Te'sconjuro, sô!
Uma pena, para um partido que realmente fez algo bom em termos de resgate econômico da classe pobre e sem cultura no Brasil, se bem que de forma clientelista, do tipo “toma lá, dá cá”: eu dou uma Bolsa-Qualquer em dinheiro e você, pobre, dá o seu voto. Não precisava disso.... Mas fica a perguntinha incômoda: o verdadeiro chefão não sabia de nada? Novamente? O Ministério Público parece que vai dar uma olhadinha nisso... Se fosse um diretor de uma empresa, já estaria demitido ou preso, no mínimo por não saber de nada.
Então você, que é esperto pergunta:  “Como resolver o problema enganador e perigoso da representatividade?” Eu não sei. Dei umas idéias acima, mas acho que temos que começar a experimentar as soluções como a humanidade tem feito até hoje, como disse o Matias de Estefano. Mas mesmo que você se envolva nisso para tentar fazer mudanças, aja como no Dzogchen, sem apego ao resultado, “agindo só por agir”, porque além de tudo ser ilusório, o resultado da ação pode não acontecer do jeito que você gostaria, ou pode demorar mais que a sua vida, já que é uma experiência no tempo. Conselho: apesar do possível empenho ou entusiasmo na ação, não se pode deixar arranhar pelo apego ao resultado. O apego emocional faz mal ao fígado, rins e coração, no mínimo...

NOTA: Segue comentário recebido 12 horas após a postagem, de uma leitora lá das Gerais: 
"Oi Arnaldo,
Incrível o seu texto e a sincronicidade!
Pela primeira vez tive que fazer um trabalho de assessoria de imprensa para uma campanha municipal e fiquei muito abalada fisica e mentalmente com as pessoas que convivi, com as situações, e muitas vezes fiquei me perguntando: - meu Deus, por que estou passando por isso?
Parece que minha vida é estar no meio de pessoas adormecidas. Foi um trabalho muito cansativo, por todos esses motivos que você citou no texto e por minha descrença no "segmento".
Foi um desafio me manter equânime, sem me deixar levar pelo furacão. Ainda estou me recuperando...
Sempre maravilhoso te ler, amigo Arnaldo!
Abraços

Flor"

Ela está falando da corja que toca a nossa política. Se as pessoas sérias não ocuparem esses lugares, eles continuarão lá!


domingo, 5 de agosto de 2012

Os cinco elementos no Xamanismo, no Tantra e no Dzogchen do Tibete

Este texto simples e didático foi extraido de um livro do meu mestre Geshe Tenzin Wangyal Rinpoche, chamado A Cura Através da Forma , da Energia e da Luz. É uma pérola. O ideal é lê-lo com calma e atenção, porque em cada frase está despretensiosamente apresentada uma base da compreensão do mundo concreto e sutil em que nos movemos neste planeta, das coisas que nos cercam, e do nosso interior. Um privilégio.
Vamos lá:
"Na cultura tibetana, os cinco elementos – terra, água, fogo, ar e espaço – são considerados a substância de todas as coisas e processos. O estudo de suas interações permeia o pensamento tibetano. O conhecimento dos elementos forma a base da medicina, da astrologia, do calendário e da psicologia, assim como as tradições espirituais do Xamanismo, do Tantra e do Dzogchen.
Os nomes dos elementos são simbólicos. Eles definem qualidades e modos de ação específicos por analogia com os elementos conhecidos do ambiente natural. Como acontece na maioria das culturas, a tradição tibetana usa os elementos naturais como metáforas fundamentais para descrever forças internas e externas. As propriedade físicas, por exemplo, são atribuídas aos elementos: a terra é a solidez, a água é coesão, o fogo é temperatura, o ar é movimento e o espaço é a dimensão espacial que concilia os outros quatro elementos ativos. Além disso os elementos estão associados a diferentes emoções, temperamentos, direções, cores, sabores, tipos de corpo e caráter, doenças e estilos de pensamentos. Dos cinco elementos vem os cinco sentidos e os cinco campos de experiência sensorial; as cinco emoções negativas e as cinco sabedorias; e as cinco extensões do corpo. Eles são os cinco pranas ou energias vitais. São os componentes de todo fenômeno físico, sensorial, mental e espiritual.
O uso metafórico dos cinco elementos também é usual nas línguas ocidentais: uma pessoa pode ser aérea ou ter os pés na terra, pode ser fluida ou fogosa. A raiva é quente, a tristeza é molhada. Uma atitude pode ser arejada ou terra-a-terra.
Mas nas tradições tibetanas os elementos não são entendidos só metaforicamente: os elementos da natureza são uma representação concreta de uma distinção mais sutis e fundamental dos cinco aspectos  da energia primordial da existência. Não existe nada em nenhuma dimensão, que não seja totalmente composto pelas interações desses cinco aspectos da energia. Os processos elementares criam, Mantém e finalmente destroem o universo. Isso vale também para os seres individuais: no nascimento, o jogo dos elementos cria o corpo, a mente e a personalidade.Na hora da morte esses se dissolvem à medida  que os elementos se desorganizam. Além disso, durante a vida, a relação da pessoa com os elementos determina a qualidade da experiência.
A idéia de elementos traz poucos benefícios quando se limita a uma abstração, a uma forma de dividir tudo por cinco. A compreensão dos elementos é útil quando está relacionada à experiência e é usada positivamente para melhorar a qualidade da nossa vida. Mas antes de poder aplicar esse conhecimento temos que nos familiarizar com os elementos, começando a nos relacionar com eles por meio de imagens e metáforas.
O corpo humano evoluiu por centenas de milhares de anos mediante a sua relação com o ambiente físico. Essa história fica evidente na satisfação que sentimos diante da beleza natural; a interação com os elementos naturais pode curar e renovar. Apreciamos a terra limpa do deserto e o solo fértil do jardim. Tiramos férias à beira do mar, perto de um rio ou de um lago. Relaxamos no banho. Ficamos extasiados pela chama e gostamos do calor do sol ou do fogo na lareira. Inspiramos profundamente para nos acalmar, suspiramos para afugentar a trsteza, visitamos as montanhas para nos sentir revigorados pelo ar puro. E o céu, a imagem externa do espaço nos fascina – a cor, as manifestações atmosféricas que ele exibe e a luz que o permeia. Relaxamos em espaços vastos e abertos e nos sentimos seguros em espaços fechados e confortáveis. Ou ficamos ansiosos em espaços amplos e sentimos claustrofobia em espaços fechados. De uma maneira ou outra reagimos. Quando ficamos privados de um dos elementos, ansiamos por ele. No deserto ficamos felizes quando encontramos água. Depois de um longo tempo no mar, temos vontade de beijar a terra quando desembarcamos. Quando estamos com frio, corremos para o fogo. Os cinco elementos nos afetam profundamente num nível profundo e instintivo, mas geralmente nos perdemos na superfície dessas experiências, sem perceber que a intimidade com os elementos pode nos ligar ao sagrado e nos conduzir à cura, ao equilíbrio e ao entendimento mais profundo de nós mesmos.
Pode ser que cinco elementos seja muito pouco para explicar toda a diversidade das coisas e dos seres, mas os cinco elementos são cinco distinções que se ramificam continuamente em outras divisões sutis.
Essa compreensão pode ser aplicada ao corpo, por exemplo. O tronco tem cinco apêndices principais:duas perna, dois braços e uma cabeça. Cada um desses se divide em outros cinco: cada braço e cada perna em cinco dedos, a cabeça nos cinco órgãos dos sentidos.
Uma formulação tradicional define a carne como terra; o sangue e outros fluidos do corpo como água, a energia elétrica e química, bem como o calor do metabolismo como fogo; a respiração, o oxigênio e outros gases como ar; e o espaço que o corpo ocupa, os espaços dentro do corpo e a consciência como elemento espaço. Cada um dos cinco pode ainda ser analisado ainda em termos de elementos: só na carne são encontradas a solidez (terra), a coesão (água), a temperatura (fogo), a motilidade (ar) e a consciência (espaço).Essas divisões também podem ser aplicadas ao sangue: nele há sólidos, fluidez, temperatura, movimento e espaço. Além disso, é claro, cada uma das subdivisões pode ser aplicada a outras decomposições em cinco, até que finalmente, qualquer coisa possa ser reduzida a às cinco energias elementares essenciais.
As interações dos cinco elementos dão origem não apenas a partes do organismo, a corpos, planetas, programas de computador e árvores, como também a todos os domínios da existência em cada dimensão. O dinamismo dos cinco elementos é subjacente a tudo o que existe.

OS TRÊS NÍVEIS DA PRÁTICA ESPIRITUAL
O uso dos elementos na prática espiritual varia, dependendo de a abordagem ser do Xamanismo, do Tantra ou do Dzogchen. Ou seja, o nível externo, interno ou secreto.
EXTERNO
Externamente os elementos não são apenas os elementos brutos da nossa experiência sensorial – a terra onde vivemos, a água que bebemos, o fogo que nos aquece, o ar que respiramos e o espaço através do qual nos movemos: são também os espíritos ligados a eles. Entre estes estão as deusas, os espíritos elementais e outros seres. Trabalhar com esses seres é uma prática muito comum na cultura tibetana e pertence ao domínio do que estou chamando de Xamanismo, embora eu queira deixar claro que não existe a palavra “xamanismo” na linguagem tibetana.
As tradições tibetanas que trabalham com os espíritos vem da Tradição Bön, mas hoje são encontradas em toda a cultura tibetana. No Tibete muitas decisões de dirigentes e altos lamas de mosteiros de todas as seitas são tomadas com base em consultas a oráculos humanos e seres não físicos. Os tibetanos não gostam de igualar essas práticas ao xamanismo, porque para alguns, a palavra está relacionada ao sacrifício de animais ou uma espiritualidade mais primitiva. O que estou discutindo aqui, não tem relação alguma com essas coisas. Trata-se de práticas ensinadas nos quatro primeiros dos nove níveis de ensinamentos do
Tradição Bön dos Tesouros do Sul dos ensinamentos Bön.

INTERNO
Os elementos internos são energias elementares e não suas formas. No corpo, são as energias físicas que bombeiam o sangue, digerem comida e estimulam os neurônios, bem como as energias mais sutis das quais dependem a nossa saúde e as nossas faculdades. Algumas dessas energias sutis são hoje estudadas no Ocidente graças a uma nova familiaridade com os modelos médicos orientais que informam a Acupuntura  e os novos usos que pesquisadores ocidentais da área médica estão descobrindo para diferentes tratamentos vibratórios. Existem também energias muito mais sutis que não podem ser detectadas por medições físicas, mas que estão disponíveis à experiência direta por meio das disciplinas yogues e contemplativas. Esse nível mais sutil da energia elementar não é encontrado apenas dentro do corpo, mas é também a dimensão de energia que os profissionais competentes de Feng Shui – a arte chinesa da disposição dos objetos – sentem no ambienta. São também as manifestações de energia que se avolumam nos fenômenos de grupo como o comportamento das multidões, o patriotismo e coisas assim. O Tantra trabalha com essas energias guiando-as no corpo com propósitos específicos, por meio de métodos yogues diretos que envolvem postura, respiração, visualização e mantra. O Tantra vê as energias como forças divinas.
 

SECRETO
A dimensão secreta dos elementos existe além da dualidade, sendo portanto difícil de descrever por meio da linguagem, que divide necessariamente a experiência em objetos separados. Essa dimensão extremamente sutil da experiência é a radiância do Ser, as “cinco luzes puras” aspectos da luminosidade que, inseparavelmente ligada ao vazio, é a base de tudo. As práticas e ensinamentos ligados a esse nível dos elementos, são extraídos do Dzogchen, a Grande Perfeição.
Essa três dimensões só são separadas conceitualmente. Esse é um ponto importante que deve ser considerado durante a leitura deste livro. É um erro achar que os níveis externo, interno e secreto  podem ser de fatos divididos, ou que a prática externa, o Tantra, e o Dzogchem são mutuamente exclusivos. A confusão sobe esse ponto leva a muitas divisões na crença: religiões que desconsideram a vida do corpo, culturas seculares que desconhecem a natureza sagrada da Terra, ou preocupações com o bem-estar material que negligenciam o desenvolvimento espiritual. A vida como um todo é importante e vem dos elementos sagrados.
A visão do Dzogchen é completa e engloba as outras, mas isso não significa que as visões inferiores devam ser negligenciadas. Acreditar que tudo é luminosidade insubstancial é muito diferente de conseguir atravessar paredes. A prática mais elevada é a mais eficaz e não necessariamente a que é categorizada como “superior”."

domingo, 15 de abril de 2012

Corpo de Glória, Corpo de Arco-Íris, Terceira Atenção


Quando a gente lê a frase “todos os caminhos conduzem ao mesmo lugar”, não faz idéia de o quanto isso é verdade nas tradições de busca interior.  A facilidade das comunicações atuais está mostrando o quanto as tradições autênticas da humanidade são uma coisa só. Só as roupagens e a linguagem parecem diferentes.
Um dos conhecimentos mais misteriosos das tradições é o fenômeno interior que vulgarmente se chama com o nome genérico e simplista de Iluminação. O assunto é inesgotável, pela sua natureza misteriosa, desafiadora e ao mesmo tempo real. Poucos se detém de fato sobre o tema a ponto de fazer as perguntas certas: Isso é real? O que é se iluminar? Como acontece de fato? Qual é o caminho? 

Vamos só dar uma visão despretensiosa dessa convergência das tradições sobre o assunto, e você que é uma pessoa guerreira e persistente, irá mais fundo se gostar e quiser.
O fenômeno é "a transformação de certos seres humanos espiritualmente evoluídos em luz, em energia radiante, quando atingem o estado final da sua evolução”. Você deve estar pensando “esse cara além de crédulo, é doido”, mas acompanhe comigo o assunto nas tradições autênticas e milenares do planeta:


O Corpo de Glória - Cristianismo
Nós, os que tiveram formação cristã, somos tão distraídos que não percebemos que o Cristianismo fala sobre isso todo o tempo. Tem até comemoração. Há poucos dias festejamos a Páscoa (Pesach, a passagem, em hebráico), e no domingo trocamos votos e ovos de chocolate, mas não sabemos que o motivo da festa é que um ser evoluído da nossa tradição teve uma morte física, uma Ressurreição, ou seja nasceu de novo após ter morrido, apareceu durante 40 dias para os amigos incrédulos, e teve uma Ascenção, ou seja, subiu aos céus em “corpo de glória”, ou corpo de luz, com uma platéia enorme olhando, e não voltou mais. Foi embora com roupa e tudo. Esse relato é bíblico e está no Novo Testamento. A mesma coisa teria acontecido com Maria, de quem Ele era filho, mas somente a tradição fala nisso, não a Bíblia. Você pergunta “foi factual ou simbólico?” Não importa. Como alguns afirmam, Jesus pode ter sido "criação de uma escola", pode nem ter existido como pessoa física. O que importa é que a tradição cristã afirma isso exatamente como as outras tradições autênticas que vamos ver, ressalvadas aquelas religiões que estão mais para caça-níqueis do que para tradição de fato. E se olharmos no Velho Testamento, os profetas Enoch, no livro do  Gênesis e Elias no Primeiro Livro dos Reis passaram pelo mesmo processo e foram embora de sandália e tudo, sem deixar rastros...
Muito bem, vamos para a segunda tradição:

 O Corpo de Arco-Íris - Budismo
 “Através das práticas avançadas de Dzogchen (as 3 vias no Budismo Tibetano são Sutra, Tantra e Dzogchen), praticantes realizados podem levar suas vidas a um fim extraordinário e triunfante. Quando morrem, capacitam seu corpo a ser reabsorvido na essência de luz dos elementos que o criaram; em conseqüência, esse seu corpo material se dissolve em luz e desaparece por completo. Esse processo é conhecido como “corpo de arco-íris”, ou “corpo de luz”, por que a dissolução é comumente acompanhada por manifestações espontâneas de luz e de arco-íris. Os antigos tantras do Dzogchen e os escritos dos grandes mestres distinguem diferentes categorias desse fenômeno espantoso e sobrenatural que, numa certa época, embora não habitual, era razoavelmente freqüente.
Via de regra uma pessoa que sabe que está prestes a obter um corpo de arco-íris pede para ser deixada sozinha por sete dias, sem ser perturbada, em um quarto ou tenda. No oitavo dia somente são encontrados os cabelos, as unhas e as impurezas do corpo.
Isso pode ser muito difícil de acreditar atualmente, mas a história dos fatos da linhagem Dzogchen está cheia de exemplos de indivíduos que obtiveram o corpo de arco-íris e, como Dudjom Rinpoche costumava sempre salientar, não se trata apenas de história antiga.
E agora a terceira. Mas há muitas outras tradições que afirmam isso. Não vamos citá-las todas, porque vai ser um tédio. Para confirmar o fenômeno na tradição tolteca, vamos citar vários trechos dos livros da obra de Castaneda e discípulos, já que a tradição tolteca dos Homens de Conhecimento era mais oral e em petroglifos:


A entrada na Terceira Atenção – Toltecas
Uma Esreanha Realidade - Castaneda
A tradição tolteca não só registrou o fenômeno, como o considerava o objetivo final do trabalho dos iniciados, que chamava "a busca da liberdade total". Vejamos trechos desse tema nos textos de Carlos Castaneda e Armando Torres:
“A fim de explicar esses conceitos, Dom Juan fez uma divisão de três partes desiguais da nossa consciência. Chamou à menor "primeira atenção", a consciência que toda pessoa normal desenvolve, a fim de lidar com o mundo diário; ela abrange o conhecimento do corpo físico. À outra parte maior deu o nome de "segunda atenção", o conhecimento de que precisamos para perceber nosso casulo luminoso e para agir como seres luminosos. Disse que a segunda atenção permanece como pano de fundo durante toda a nossa vida, a não ser que seja transportada através de treinamento deliberado ou por um trauma acidental, e que ela abrange o conhecimento do nosso corpo luminoso. Chamou à última parte, a maior, de "terceira atenção", uma consciência incomensurável que envolve aspectos indefiníveis do conhecimento dos corpos físico e luminoso.
Perguntei-lhe se ele próprio tinha experimentado a terceira atenção. Ele respondeu que estava na sua periferia, e que se entrasse nela completamente eu saberia no mesmo instante, pois ele todo se tornaria o que era na realidade, uma explosão de energia. Acrescentou que o campo de batalha dos guerreiros era a segunda atenção, uma  espécie de campo de treinamento para atingir a terceira atenção. Era um estado bem difícil de se chegar, mas muito frutificante quando atingido.”
O Presente da Águia, pág. 20


“Dom Juan explicou que o Regulamento não é uma lenda, e que atravessar para a liberdade não significa uma vida eterna como se entende comumente - quer dizer, “uma vida para sempre”. O que o regulamento declara é que se pode manter a consciência, normalmente abandonada no momento da morte. Dom Juan não podia explicar o que queria dizer “manter a consciência”, ou talvez não pudesse nem mesmo concebê-la. Seu benfeitor tinha lhe dito que no momento da travessia a pessoa entra na terceira atenção, e o corpo, em sua totalidade, é iluminado pelo Conhecimento. Cada célula torna-se de repente consciente de si própria, e também consciente da totalidade do corpo.
Seu benfeitor também lhe disse que o tipo de conscientização é sem significado para nossos espíritos compartimentados.”
O Presente da Águia, pág. 146


“Explicou que ao morrer, nossa conscientização entra na terceira atenção; mas só por um instante, como uma ação purgatória, logo antes da Águia (o Mar Escuro da Consciência ) devorá-la.”
O Presente da Águia, pág. 197


“Ela me assegurou que uma Recapitulação perfeita pode mudar um guerreiro tanto, se não mais, quanto o controle total do Corpo Sonhador. Nesse particular, o Sonho e a Espreita têm a mesma finalidade, entrar na terceira atenção. É importante, entretanto, que o guerreiro saiba e pratique os dois. Disse que para a mulher há configurações diferentes do corpo luminoso para se aperfeiçoar em uma ou em outra. Os homens, ao contrário, podem realizar os dois com facilidade, mas ao mesmo tempo não podem nunca chegar ao grau de eficiência que as mulheres atingem em cada arte.”
O Presente da Águia, pag 228


"- A terceira atenção é atingida quando o brilho da Consciência se transforma no fogo interior: o brilho que acende não uma faixa de cada vez, mas todas as emanações da Águia (o Mar Escuro da Consciência ) no interior do casulo luminoso do homem.
Dom Juan expressou seu respeito pelo esforço deliberado dos novos videntes em atingir a terceira atenção enquanto estão vivos e conscientes de sua individualidade.
Não achava que valesse a pena discutir os casos esparsos de homens e outros seres sencientes que ingressam no desconhecido e no incognoscível sem estarem conscientes disso; referiu-se a tal fato como o presente da Águia. Assegurou que, para os novos videntes, entrar na terceira atenção também é um presente, mas que tem um significado diferente. É mais como uma recompensa por uma realização.
Acrescentou que, no momento de morrer, todos os seres humanos entram no incognoscível, e alguns deles atingem a terceira atenção, embora por um tempo muito breve e apenas para purificar o alimento da Águia.”
O Fogo Interior, pag. 73


"Alguma vez você viu as estátuas dos Atlantes de Tula?"
Disse que sim, e ele me explicou que essas impressionantes figuras do tempo dos toltecas são uma descrição da “partida do nagual”. Sustentou que os dezesseis  sacerdotes em baixo relevo que há nas quatro colunas que estão atrás das estátuas representam o grupo completo de guerreiros, dividido em quatro equipes, um para cada direção cardeal.
" - Eles são viajantes cósmicos e sua missão é fluir com a energia do infinito. Cada uma de suas funções foi simbolizada nos objetos que levam consigo. Esses sacerdotes são uma partida em pleno vôo, uma imagem do objetivo final do caminho que é alcançar a terceira atenção".
Encontros com o Nagual, pág. 184


Parece que a razão final de estarmos aqui não é o sucesso, as posses, a fama, o dinheiro, apesar de que isso tudo pode ser conseguido e é bom, pois podemos então viver a vida sem muito solavanco e desconforto, junto com os nossos queridos. A razão final da nossa existência neste planeta é evoluir e ajudar os outros nessa tarefa. É a busca da liberdade total para viver as experiências indescritíveis desse Universo mágico e misterioso do qual não conhecemos absolutamente nada, absorvidos que estamos pelas pressões geradas pelo apego no dia a dia.

E você pergunta: 
- Tudo bem, o que eu faço com toda essa informação? Bem...há duas hipóteses. Você escolhe: 
  • ou fica ruminando com o seu mental para ver se consegue deslindar o assunto, 
  • ou coloca a sua Presença no Agora, intenta o mental vazio, e... faz sabe-o-quê? O “não fazer”...
Ai você toma contato com essa busca.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Tradição Bön

"Como um grande número de pessoas no Ocidente não conhece a tradição Bön, vou contar um pouco da sua história:
Como acontece com a história de qualquer tradição, povo ou país, existem muitas versões do passado. A tradição oral afirma que a religião Bön teve início há mais de dezessete mil anos, mas os estudiosos modernos acreditam que ela começou muito depois. Em ambos os casos, a tradição Bön é reconhecida como a tradição nativa do Tibete e a origem de muitas tradições espirituais.
O Yungdrung Bön (Bön Eterno) foi o primeiro caminho completo de libertação espiritual no Tibete. Começou com o Buda Tonpa Shenrab, nascido na família Mushen a noroeste do Tibete. Outros afirmam que era na terra mítica de Shambhala,
A tradição afirma que Bön tinha três "portas" ou origens¨: 

  • A primeira era em Tazig Olmo Lung Ring. 
  • A segunda ficava na Ásia Central, possivelmente concentrada na região onde estava situada a antiga Pérsia. Os historiadores acreditam que a religião Bön estava espalhada pela Ásia Central antes de o Islã chegar e dominar as culturas locais, e que muitas antigüidades encontradas na Ásia Central, consideradas budistas, são na verdade Bön. 
  • A terceira era o reino de Zhang Zhung, que englobava uma grande parte do que é hoje o Tibete ocidental.
Os ensinamentos começaram na primeira porta, espalharam-se através da segunda e finalmente foram ensinados em Zhang Zhung e no Tibete.
Conta a lenda que Tonpa Shenrab chegou à terra que é hoje o Tibete meridional em busca de cavalos roubados por um demônio. Ele visitou a montanha sagrada Kong-po, que os peregrinos ainda circundam no sentido anti-horário, à maneira Bön. Quando Tonpa Shenrab chegou, encontrou um povo primitivo cuja prática espiritual se baseava no apaziguamento de espíritos por meio do sacrifício de animais. Ele pôs um fim ao sacrifício, ensinando o uso de formas animais feitas com farinha de cevada nas oferendas, prática até hoje comum entre os tibetanos de todas as tradições.
Como no caso de todos os budas, Tonpa Shenrab ensinava de acordo com a capacidade dos alunos. Ao perceber que o povo de Zhang Zhung não estava preparado para os ensinamentos superiores da libertação, ele só ensinou os veículos inferiores, xamanistas, e rezou para que, por meio da perseverança, da devoção e da aplicação, eles se preparassem para os veículos superiores do Sutra, do Tantra e do Dzogchen. E com o tempo, todos os ensinamentos de Tonpa Shenrab chegaram a Zhang Zhung.
Séculos mais tarde, durante o período do segundo rei tibetano, Mu Khri Tsenpo, muitos ciclos de ensinamentos Bön, tântricos e Dzogchen, foram traduzidos do Zhang Zhung para o tibetano. Embora os ensinamentos já existissem no Tibete há séculos, por transmissão oral, esta era a primeira vez que eram registrados na linguagem escrita tibetana. Durante muito tempo, Zhang Zhung e a linguagem Zhang Zhung foram considerados apenas míticos pelos estudiosos ocidentais, mas essa visão está sendo reavaliada à medida que mais fragmentos da linguagem Zhang Zhung são descobertos.
Segundo a tradição, os sete primeiros reis tibetanos teriam morrido sem deixar um corpo físico, o que é um sinal de grande realização espiritual. Alguns estudiosos acreditam que eles alcançaram o "corpo de luz", um sinal de iluminação específico do Dzogchen, o que sugere que os ensinamentos Dzogchen já existiam no Tibete naquela época. Os eruditos budistas acreditam que a tradição Dzogchen veio da Índia, e o Bön de fato reconhece que uma das tradições Dzogchen chegou ao Tibete através desse país, embora os principais ciclos de ensinamento Dzogchen tenham se originado em Zhang Zhung.
Os principais ensinamentos Bön estão incluídos em Os Nove Caminhos, ou os Nove Veículos. Trata-se de nove categorias de ensinamentos, cada uma com uma visão característica, bem como práticas e resultados próprios. Por exemplo, os veículos inferiores estão relacionados à medicina, à astrologia, à adivinhação e assim por diante. Acima deles estão os ensinamentos do Sutra e do Tantra. Finalmente, o veículo superior é o ensinamento Dzogchen, a Grande Perfeição. Existem tradicionalmente três versões dos Nove Caminhos, conhecidas como Tesouros do Sul, do Centro e do Norte. Neste livro, as informações sobre xamanismo derivam fundamentalmente do Tesouro do Sul. O Tesouro do Centro é muito próximo dos ensinamentos do Budismo Nyingma. O Tesouro do Norte foi perdido. Cada Tesouro abrange alguns aspectos dos ensinamentos do sutra, do tantra e do Dzogchen. Além disso, há quinze volumes que contêm as principais biografias do Buda Tonpa Shenrab.
Segundo estatísticas chinesas, Bön é o segundo grupo mais populoso do Tibete e os Bön-po são encontrados em todas as regiões do país. Os antigos ensinamentos ainda são seguidos por praticantes de yoga monásticos e leigos e, já no século XX, houve mestres Bön que alcançaram o "corpo de arco-íris". Este é o sinal supremo da completa realização na tradição Dzogchen: na hora da morte, o praticante de grande aperfeiçoamento liberta os cinco elementos que constituem o corpo. Ele os dissolve na sua essência, que é a pura luz elementar. Durante o processo, a substancialidade do corpo se dissipa numa exibição de luzes multicores, o que explica o nome de corpo de arco-íris. Às vezes o cadáver desaparece, ficando apenas o cabelo e as unhas. Seja como for, a aparição do corpo de arco-íris é o sinal de que o praticante alcançou o mais elevado nível de realização e não está mais limitado pelos dualismos matéria e mente ou vida e morte.
Depois que os chineses dominaram o Tibete, um rigoroso programa de treinamento para monges Bön teve início no mosteiro Menri, em Dolanji, H. P., na Índia, e no mosteiro Tristsen Norbutse, em Kathmandu, no Nepal. Esse treinamento foi realizado graças ao árduo trabalho de S. S. Lungtok Tenpa’i Nyima Rinpoche, Lopon Tenzin Namdak Rinpoche e dos monges mais antigos. O programa educacional conduz ao grau Geshe. A primeira turma formada fora do Tibete (Nota:da qual fez parte Tenzin Wangyal Rinpoche, autor deste texto), graduou-se em 1986.
Muitas das tradições Bön, ao lado de várias tradições budistas tibetanas, foram perdidas durante a dominação chinesa. Muitas outras tradições estão ameaçadas. No entanto, a religião Bön e o Budismo do Tibete estão lançando raízes no Nepal e começando a se espalhar pelo mundo.
Como alguns leitores talvez saibam, há muitas interpretações incorretas da religião Bön, mesmo entre budistas tibetanos. O Bön teve o destino de muitas religiões nativas, destino esse semelhante ao das religiões da Europa e das Américas quando o Cristianismo foi introduzido. Uma nova religião que se espalha numa cultura, muitas vezes garante seu crescimento referindo-se à religião nativa em termos negativos, como algo a ser superado e rejeitado.
Notei que muitos tibetanos, até mesmo altos lamas que não estão familiarizados com a tradição ou a literatura Bön, costumam passar adiante opiniões negativas mal informadas sobre essa tradição. Eu não entendo essa atitude. É claro que esse preconceito não é dirigido apenas à tradição Bön o preconceito existe entre as escolas do Budismo Tibetano também. Acrescento essa observação para todos os alunos de Bön, para que saibam desse triste preconceito antes de depararem com ele. Agora que as formas de espiritualidade tibetanas estão saindo do Tibete para o resto do mundo, espero que a tacanhice do preconceito seja deixada para trás.
Por sorte, há muitos budistas tibetanos, leigos e monges, chefes de família comuns e altos lamas, que são herdeiros do movimento não-sectário que floresceu no Tibete no século XIX. A mais eminente voz tibetana que defende hoje em dia a tolerância e a compreensão é a de Sua Santidade, o Décimo Quarto Dalai Lama, que reconheceu formalmente a tradição Bön como uma das cinco principais tradições do Tibete. Em várias ocasiões, ele ofereceu apoio a S. S. Lungtok Tenpa'i Nyima Rinpoche e a Lopon Tenzin Namdak Rinpoche, pedindo que trabalhem para preservar a antiga herança Bön como um tesouro para todos os tibetanos.
No Ocidente, as pessoas adotam uma atitude mais aberta diante da tradição Bön na medida em que aprendem mais a seu respeito. Em seus textos e tradições elas encontram um equilíbrio entre estudo e prática, entre fé e questionamento crítico. Elas também descobrem que a tradição Bön, enraizada em tempos anteriores à história registrada, desenvolveu tradições de xamanismo, filosofia e debate, monasticismo, transmissões tântricas e yogas, bem como os mais elevados ensinamentos da Grande Perfeição. Embora este livro ( A Cura Através da Forma da Energia e da Luz) seja basicamente para praticantes, espero que os estudiosos tenham uma idéia da profundidade e da variedade das tradições espirituais Bön.
As práticas do caminho espiritual, quando feitas com o entendimento e a aplicação corretas, trazem resultados. Os resultados desenvolvem a fé. Quando é forte e baseada na certeza, a fé favorece a prática. A fé e a prática juntas conduzem à sabedoria e à felicidade. É meu sincero desejo que este livro contribua para o bem estar e o progresso espiritual de todos os que o lerem."
•    Este texto é do grande e jovem mestre
vivo da tradição xamânica Bön-Budista, Tenzin Wangyal Rinpoche, incansável viajante, que veio duas vezes ao Brazil e fundou o Instituto Ligmincha, já presente em todo o mundo, incluindo São Paulo. O livro, uma pérola do Ensinamento, chama-se "A Cura através da Forma, da Energia, e da Luz". Imperdível.

domingo, 11 de setembro de 2011

O Sonho - Visão Budista

O Budismo é uma das tradições mais amistosas e agregadoras do planeta. Ao chegar da Índia e Nepal ao Tibete, trazido por Padmasambhawa encontrou e fundiu-se com a tradição animista e xamânica local, o Bön-po, cuja coloração gerou o lamaismo dando-lhe uma individualidade diferenciada entre as várias correntes budistas atuais.
O ensinamento tibetano mais elevado destas duas vertentes é o Dzogchen, que não é mais um ensinamento ou prática mas é um estado de ser, desperto, o cume da evolução de um indivíduo. Seu princípio fundamental é que “a realidade e o indivíduo já são perfeitos. Só precisam ser reconhecidos e não mudados”. Não há o que fazer. Só “não fazer”.
Dentro do Dzogchen a prática essencial é a “auto liberação” que se resume em “permitir que tudo o que existe na experiência, exista como é, sem as elaborações da mente dual, apego ou aversão”. É como é. Ponto final. Desapego é isso.
A novidade para nós ocidentais é a seguinte: para se chegar a esse estado de auto liberação é preciso trabalhar a yoga do sonho, e transformar o sonho comum no sonho lúcido que é o meio de se atingir conscientemente o sono profundo onde está a “clara luz”. Você que leu a postagem “O Sonho – Visão Tolteca” deve estar pensando “Como é que esses budistas tibetanos combinaram tudo com os toltecas americanos? É muita coincidência”. Então aguarde logo sobre como os índios brasileiros também trabalham o sonho. É um complô global. (rsrs)
Então você pergunta: "como se trabalha interiormente no sonho e o sono?". 
Trabalha-se com práticas dormindo e acordado, fazendo uma ponte que elimina barreiras entre os dois estados. Ao se afirmar interiormente que a vida "acordada" também é ilusória como um sonho, quebra-se gradualmente a importância e o poder que ela exerce sobre nós. Aos poucos começa a brotar um relaxante desapego em relação à ditadura do tenso e escravizador "mundo real". Nessa prática as coisas ficam mais fáceis na visão bön-budista, porque o budismo é mais didático que a tradição tolteca e outras mais rígidas. Ele é multicultural, adaptou-se melhor à mente ocidental, e tem um exército de monges e lamas espalhados pelo mundo, falando uma linguagem conceitual menos misteriosa, mais simples e homogênea apesar das pequenas diferenças de forma entre as várias correntes budistas.
Vamos então dar um roteiro, uma visão resumida das práticas, conceitos e palavras chaves como foi exposto no livro “Os Yogas Tibetanos do Sonhos e do Sono” pelo respeitado e jovem mestre Tenzin Wangyal Rinpoche, lama da tradição Bön do Tibete, que vive na Virgínia – EUA, e fundou o Ligmincha Institute que tem ramificação no Brasil, onde já tem vindo. Vamos lá:

AS QUATRO PRÁTICAS PRELIMINARES

1 - Modificar os Traços Kármicos
•    Durante o dia todo, dê-se conta continuamente de que toda experiência é um sonho.
•    Perceba todas as coisas como objetos num sonho, todos os eventos como eventos num sonho, todas as pessoas como pessoas num sonho.
•    Veja seu próprio corpo como transparente e ilusório.
•    Imagine que você está num sonho lúcido durante o dia inteiro.
•    Não permita que estes lembretes sejam meramente uma repetição mecânica.
•    Toda vez que disser a si mesmo: "Isto é um sonho" torne-se realmente mais lúcido.
•    Use seu corpo e seus sentidos para se tornar mais presente.

2 - Eliminar o Apego e a Aversão
•    Experimente todas as coisas que geram desejo e apego como fenômenos ilusórios, vazios, luminosos de um sonho.
•    Reconheça suas reações aos fenômenos como um sonho, todas as emoções, julgamentos e preferências como tendo sido inventadas.
•    Você pode se certificar de que está fazendo isto corretamente se, imediatamente depois de se lembrar que sua reação é um sonho, seu desejo e apego diminuírem.

3 - Fortalecer a Intenção
•    Antes de ir dormir, reveja o seu dia como num vídeo, e reflita como foi a prática.
•    Deixe que as lembranças do dia surjam e as reconheça como lembranças oníricas.
•    Desenvolva uma firme intenção de se manter consciente nos sonhos daquela noite.
•    Ponha todo o seu coração nesta intenção e peça intensamente pelo seu sucesso.
 
4 - Cultivar a Memória e o Esforço Alegre
•    Comece o dia com a firme intenção de se manter na prática.
•    Reveja a noite e sinta alegria se você se recordou dos seus sonhos ou se esteve lúcido neles.
•    Retome o compromisso com a prática, com a intenção de se tornar lúcido no sonho - se você não esteve - e de desenvolver ainda mais a lucidez - caso já a tenha experimentado.
•    A qualquer hora do dia ou da noite, é bom pedir pelo sucesso da prática.
•    Gere uma intenção tão forte quanto possível. Esta é a chave para o sucesso da prática.

PRÁTICAS PREPARATÓRIAS ANTES DE DORMIR

1 - As Nove Respirações Purificadoras
•    Na postura preferida de meditação (sentado, lótus, seizá) antes de se deitar para dormir, faça as nove respirações de purificação, em 3 grupos de 3, repetidas:
1ªs 3 respirações - Homens - polegar direito pressionando a base do anular direito, fechando a narina direita, inspirando luz verde pela narina esquerda. Depois, com a mesma mão, fecha a narina esquerda e expira pela direita. Repete 3 vezes. Mulheres tudo ao contrário, trocando direito (a) por esquerdo (a).
2ªs 3 respirações - Homens e mulheres, invertam as mãos e as narinas e façam 3 vezes.

Os 3 canais

3ªs 3 respirações - Homens e mulheres, com as mãos no colo, palmas para cima, a esquerda sobre a direita, inspirem luz verde que desce pelos 2 canais laterais até 4 dedos abaixo do umbigo. Depois sobe pelo canal central, saindo no alto da cabeça expelindo fumaça negra e doenças em potencial (Vixe!). Façam 3 vezes.

2 - Guru Yoga
Pratique o guru yoga:
• Visualize um mestre à sua escolha
• Imagine fluindo dele para você, uma a uma, três feixes de luz, branca (do chakra entre as sombrancelhas), vermelha (do da garganta) e azul (do do coração).
• Gere uma forte devoção, depois funda sua mente com a consciência pura do mestre, representante do mestre último que é a Consciência Primordial, sua verdadeira natureza.

3 - Proteção
•    Deite-se na postura correta do leão, de lado e com uma mão entre o rosto e o travesseiro, apoiando o rosto, e a outra estendida sobre o corpo. Os homens deitados sobre o lado direito, mulheres sobre o lado esquerdo.
•    Visualize seres protetores ou divindades  em volta de você (
no budismo há as dakinis) protegendo-o (a) no seu quarto a noite toda. Use a imaginação para transformar o quarto num ambiente protegido e sagrado.
•    Suavize a sua respiração e acalme a sua mente, observando-a até que você esteja relaxado e presente, contemplando sem se envolver com histórias e fantasias.
•    Crie uma firme intenção de ter sonhos claros, vívidos, recordar-se dos sonho e reconhecê-los como sonhos enquanto sonha.

AS PRÁTICAS PRINCIPAIS

1 - Trazer a Consciência ao canal central

Letra A tibetana
•    É a prática do primeiro período da noite.
•    Focalize o centro da garganta: um “A”  (tibetano ou ocidental) puro, translúcido e cristalino que se tinge de vermelho pela cor das quatro pétalas vermelhas sobre as quais ele repousa.
 •    Funda-se com a luz vermelha. 


2 - Aumentar a claridade

•    Acorde aproximadamente duas horas depois (com
Tiglé branco
ou sem despertador, melhor sem). Na mesma posição do leão, e pratique a respiração abdominal sete vezes. 
•    Focalize o tiglé branco (esfera luminosa) no chakra entre as sobrancelhas, enquanto adormece.
•    Permita que a luz branca dissolva tudo, até que você e a luz sejam uma só coisa. 
3 - Fortalecer a Presença
•    Depois de aproximadamente mais duas horas, acorde novamente.

    Deite-se de costas sobre um travesseiro alto, quase sentado, com as pernas levemente cruzadas.  
Sílaba Hung
•    Focalize a sílaba tibetana HUNG negra no chakra cardíaco. 
•    Respire profunda, plena e suavemente vinte e uma vezes.
•    Funda-se com o HUNG negro e adormeça.

4 - Desenvolver a Intrepidez (coragem)
•    Acorde novamente outras duas horas depois.
•    Não é necessário nenhuma postura ou respiração específica.

Tiglé negro
•    Focalize o tiglé negro e luminoso no chakra secreto, atrás dos genitais.
•    Adormeça fundindo-se à luz negra.
•    A cada despertar tente estar presente e na prática. Pela manhã, no seu último despertar, esteja imediatamente presente.
•    Reveja a noite, gere intenções e continue com a prática durante o dia.
•    Além disso, ajuda muito conseguir tempo para fazer a prática na calma (residir na calma, ou zhiné) durante o dia. Ela vai ajudar a deixar a mente tranqüila e focada e beneficiará todas as outras práticas.

O ponto mais importante tanto das práticas preliminares quanto da prática principal é manter a presença (lembrança de si) de forma tão consistente quanto possível durante todo o dia e toda a noite. Esta é a essência dos yogas do sonho e do sono. 
Sugestão: Imprima este resumo e leve no bolso.

Nota: Quem quiser mais informações sobre o Bön Budismo, consulte:

  • Instituto Ligmincha
https://www.ligmincha.org
email: ligmincha@aol.com
  
  • Ligmincha do Brasil
Rua Apinagés 1646, Vila Madalena, São Paulo, SP
(11) 8902-4045
  • Associação Brasileira de Cultura Tibetana
Rua Engenheiro Rebouças, 1040 - Vila Gerty, São Caetano do Sul
(11) 4232-5630 (11) 4232-5630
E-mail: abct.contato@gmail.com