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domingo, 2 de junho de 2019

Ulysses e o canto das sereias - 2

A lenda de Ulysses e as sereias
Há quase nove anos atrás, em setembro de 2010, publicamos esta postagem abaixo, a primeira do blog. Foi um sucesso! 
Por que? 
Porque ela fala da vida de nós seres humanos.
A partir de sugestões dos leitores percebemos porém que eles não tem tempo, paciência ou disposição para procurar e ler assuntos "antigos" e, dessa forma os novos leitores perdem alguns temas a nosso ver fascinantes, que ficam relegados ao esquecimento.

Para dar um jeito nisso, vamos reeditar algumas dessas postagens, com o mesmo nome inicial, seguidas do algarismo 2 como pode ser visto no título acima.

É só clicar no link abaixo.
Boa leitura!

https://serluminoso.blogspot.com/2010/09/de-herbert-james-drapper-1909-ulisses-e.html

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Meditar? Orar? Para que?

A juntada é proposital. Meditar e orar são a mesma coisa: conexão, não só no Budismo como em quase todas as tradições de busca interior. Ouvi isso de um lama, brasileiro, gaúcho torcedor do Grêmio, físico, amável e bem humorado: Lama Samten, fundador do CEBB – Centro de estudos Budistas Bodisatwa. Grande mestre.
A primeira vez que ouvi isso não ficou muito claro. Meditar, para mim, era algo muito sério, formal e sizudo, algo do tipo “contato com a divindade”, de preferência de roupa domingueira, terno e gravata (rsrs). Orar, por outro lado, era um “pedir algo”, de preferência sem muita pretensão e arrogância, submisso, para agradar a quem ia conceder o pedido. A ficha foi caindo devagarzinho pela vida. Faltava a palavra conexão: meditar é orar.
E ele dizia mais: quando a gente medita e amplia a consciência, não é só a consciência individual que está sendo ampliada, é também a Grande Consciência Universal, que os toltecas aliás chamavam O Mar Escuro da Consciência (ou A Águia), e os cristãos chamam de Deus. Já pensou na responsabilidade? Mas você que medita, não precisa ficar cheio de vaidade não, esse esforço todo de meditação-oração feito na Terra, é só uma foto 3X4 de um grãozinho de pó no Universo. Uma coisica. Por outro lado pode ficar cheio de vaidade, sim: você está contribuindo para A Grande Obra. Pouquinho, mas tá.
Posto isto, vamos agregar uma novidade ao raciocínio, essa já é  do conhecimento tolteca e hindu, entre outros: o Universo é o resultado constante da luta eterna de 2 forças simultâneas, criação e destruição, e por isso a função dos seres vivos com suas experiências de vida, sejam quais forem,  é alimentar esse processo contínuo e crescente de formação da  Consciência, senão babau, não tem Consciência nem Universo. Isso responde à pergunta do Caetano na música Cajuina: ♫ “Existir, a que será que se destina?” ♫... Destina-se a isso: gerar consciência para o Grande Reservatório Cósmico. Isso é feito por tudo que possui vida, desde um vírus até a forma mais sofisticada de vida, passando pelos seres inorgânicos, e outros que nem supomos que existam.
Dizem os toltecas que uma das suas descobertas como videntes foi que essas experiências que a gente adquire pelo fato de viver e “passar por” no mundo, é que na hora da morte temos que entregar isso tudo de volta ao Mar Escuro da Consciência (À Águia), como pagamento pelo fato de termos recebido a dádiva da vida. Uma troca justa. Mas o grande segredo é que eles descobriram que não é necessário entregar a vida na hora da morte junto com as experiências vividas, já que elas são ligadas. Basta separar as duas e entregar só uma cópia das lembranças conscientes adquiridas, e ficar com a vida. Isso significa ficar com a vida após a morte, ou seja uma forma alternativa de morrer. Você não deve estar acreditando, né?...mas não importa, pois o processo para conseguir a cópia não tem muita moleza, não. Vou dar uma dica. Chama-se Recapitulação. É pau puro. Já falamos disso há uns tempos atrás.
Agora para fechar o raciocínio, que você deve estar achando no mínimo bizarro, vem uma frase de um escritor americano, Dannion Brinkley que, atingido por um raio quando falava ao telefone, passou por uma experiência de “quase morte” e ouviu de um Ser do lado de lá:
"Vocês humanos são heróis. Aqueles que vão para a Terra são heróis e heroínas, porque estão fazendo algo que nenhum outro ser espiritual tem coragem de fazer. Vocês foram à Terra criar junto com Deus.....Nós aqui consideramos todos os que vão à Terra como grandes aventureiros. Vocês tem a coragem de ir, expandir sua vida e assumir seu lugar na grande aventura que Deus criou,conhecida como mundo".
Agora entendi a expressão cristã “sentar-se à direita de Deus Todo Poderoso”...
Ler isso me fez estufar o peito: - Sou um deles. Você também. Somos heróis e não sabemos. Estamos ajudando a construção da Divina Obra... Compreendo agora várias coisas: o por que da afirmação budista de que  “a vida é sofrimento”; a fala do Dalai Lama para não levar a vida  a sério porque ela é só um palco, uma viagem e não a nossa casa; o porque até aqui, na descida do raio de criação, viemos no “piloto automático" e agora começa a difícil subida consciente na nossa evolução; o porque, segundo os hindus,  é um privilégio nascer com a forma humana. 

E vamos nessa pessoal...

ATENÇÃO! ATENÇÃO!: Vai começar um ciclo de 10 postagens (diárias) sobre a experiência de "Quase Morri e Voltei"! Coisa finíssima. Não dá pra perder. Recomendamos ler desde o início, para fazer sentido. Boa leitura!

sábado, 2 de outubro de 2010

A cruz

A gente vê a cruz e mecanicamente já a associa ao Cristianismo, à figura de Cristo torturado, e perde a amplitude e profundidade do seu significado oculto, esotérico, que transcende o tempo (essa palavra esotérico está tão avacalhada, não? Uma pena.). Contudo, a cruz estava presente em todas as tradições genuínas de busca interior do planeta, todas. Uma delas é a tradição dos índios Oglala-Sioux americanos, bem como todas as outras tribos que conheciam, respeitavam e utilizavam a cruz em seus rituais tradicionais e mágicos.O símbolo da cruz é anterior a Cristo e se perde nos tempos imemoriais da Humanidade.
Havia uma cerimônia xamânica índia sioux chamada Implorar por uma Visão (cry for a vision). Nela o guerreiro deveria fazer um jejum de três dias para fazer contato com Wakan-Tanka, o grande espírito simbolizado pelo touro, outro símbolo presente na maioria das tradições. O guerreiro ficava nu no alto de uma montanha, ao lado de um mastro, seu eixo vertical, sua coluna, andando de sol a chuva em cima do desenho oculto de uma cruz cardeal no solo, atento à respiração e orando mantras para limpar o diálogo interno do mental, e ... bingo! Tinha uma visão. Então ele via o arco da velha, o impensável, com os olhos de vidente que se abriam para ele. Era a iniciação do xamã.
Os livros Os sete Ritos dos Oglala-Sioux, e Black Elk Speaks (Alce Negro Fala - acho que não existe versão em português) são duas pérolas esquecidas de busca interior, um escrito por Joseph Epes Brown, pesquisador do Smithsonian Institute,  que entrevistou o chefe índio-xamã e homem santo nos seus últimos dias nos anos 40, outro por J. G. Neihardt, escritor. Neles há a cerimônia de iniciação feminina na primeira menstruação, ciclo considerado sagrado, mágico e poderoso, e não impuro e detestado como a TPM hoje.
Os aborígenes americanos cultuavam o símbolo da cruz muitos séculos antes de Cristo e foram massacrados pelos protestantes cristãos em sua própria terra em nome d’Ele porque não eram cristãos, seriam ignorantes, atrasados e não tinham títulos legais das terras.
Os quakers ingleses, acompanhados dos degredados das prisões, que juntos colonizaram os EUA, sequer perceberam que estavam massacrando uma cultura e tradição superior e “mais cristã” que eles...
A cruz é um dos símbolos mais fortes da magia interior porque mostra a encruzilhada presente no fato de a gente ser humano. A vítima, ou seja, aquele que tem de passar por, deve viver o braço horizontal da cruz, o dia a dia da luta pela sobrevivência, da relação com o outro, a sogra, o filho, o chefe, subordinado, credor, devedor, os pequenos tiranos. Ao mesmo tempo, deve viver o braço vertical, o chamado do Espírito, a Escada de Jacó. Este é o significado oculto de ser crucificado, viver os dois chamados ao mesmo tempo, senão não vale, senão uma hora eu medito tranqüilo em posição de lótus e na outra encho de palavrão ou porrada o cara que me fechou no trânsito. Ser crucificado é outra coisa. É administrar mansamente o conflito.
O desenho clássico de Da Vinci de um ser humano com os braços abertos deixa claro que o centro da cruz é o plexo solar, nosso centro emocional e cardíaco. É onde dói.
Se preferir e gostar de Astrologia, a cruz de plantão hoje é o atual Cardinal Climax (veja no Google, mas sem catastrofismo). É a cruz dos signos cardeais que significa o começo tenso de um processo de mudança que vem por aí. Vai doer na humanidade, segundo alguns astrólogos, até o final de 2010. A partir daí começa a produzir os frutos por um longo tempo. Fique atento, “Sempre alerta!”, como dizem os escoteiros, ou “Vigiai e orai” como nas Escrituras...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ulysses e o canto das sereias



Você já leu a Ilíada e Odisséia? Então deve ter sentido, no desenrolar da aventura, aquela saudade inexplicável de algo mágico e profundo, um perfume de alguma coisa indefinível, um mistério familiar ao espírito, como a gente sente em As Mil e Uma Noites... Na passagem pelas sereias, o esforço incansável do herói é semelhante ao do príncipe na lenda da Bela Adormecida, ao de Orfeu buscando Eurídice, Dom Quixote buscando Dulcinéia, Dante buscando Beatriz. Parece historinha, mas é "pau puro", como se diz na Bahia.
O guerreiro Ulysses, ou Odisseu, acompanhado por um grupo de amigos, vagou por muitos anos em busca do contato com sua alma adormecida, personificada pela mulher Penélope da qual tinha se separado um dia e tudo o que queria era voltar para ela, e se esforçou feito um mouro.
A nossa chama de busca interior reconhece na lenda um vestígio do caminho da Verdade e se delicia. Sabe por que? Porque cada um de nós é Ulysses. A viagem dele é a nossa viagem. Penélope é a nossa alma esquecida. Precisamos voltar a ela... O reencontro. A tarefa da nossa busca. É só o que interessa.
A passagem pelas sereias é uma obra prima de símbologia. O herói é desafiado pelo Destino a passar pelo lugar onde elas cantam, seduzem e enlouquecem os marinheiros, afogando-os nas profundezas do mar.
Como é esperto e protegido pelos deuses, como todos os que buscam o Si Mesmo, o herói arma a estratégia... Convence os amigos, símbolo das nossas energias interiores, a o amarrarem no mastro do navio e se blindarem da sedução colocando cera nos ouvidos para não ouvir o canto irresistível, nem os gritos dele próprio, Ulisses, pedindo desesperadamente que os amigos o desamarrem na hora da sedução da passagem, do "vamos ver".


Astuto, ele conhecia a encrenca intuitivamente. Não era bobo. Só deveria ser desamarrado depois da passagem pelo rochedo onde elas cantavam as melodias arrebatadoras, depois de sofrer o processo de “passar por”. A quente. Sem anestesia. É o chamado sofrimento voluntário do buscador, segundo ensina O Quarto Caminho ou O Caminho do Homem Esperto.
Então ele é amarrado no mastro, a coluna vertebral do navio que também é o eixo da respiração e do seu corpo. Nessa atitude de centrar a atenção à sensação do corpo com os ouvidos limpos e, portanto livres, passa pelo lugar onde estão as sereias e ouve tudo, sofrendo sem anestesia a experiência concreta da sedução do mundo. E então compreende tudo. Cabra macho...
O canto é o processo de sedução com que o mundo horizontal, representado apropriadamente pelas sereias fascinantes mas estéreis, nos anestesia e nos adormece evitando a Presença nosso contato vertical com o Espírito, com o Intento. A nossa relação com o mundo é o braço horizontal da cruz. O braço vertical é o Chamado do Espírito, símbolo presente em todas as tradições de busca interior deste planetazinho insignificante mas valioso. 
Ele, Ulysses, vive os dois  chamados ao mesmo tempo. Vale um tostão para quem adivinhar como. E ele sai ileso e vitorioso. Coisa de herói.
A lenda foi feita para nós. Por alguma razão...