Mostrando postagens com marcador história pessoal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história pessoal. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Castaneda, "Ver", Poder Pessoal, O Sonho, A Morte, Os Animais...

Esta é uma transcrição de um encontro de 1972, que Carlos Castaneda concedeu para a revista Psychology Today. Ela saiu a partir da publicação de Viagem a Ixtlan, um dos seus livros mais incríveis.  Castaneda estava procurando fugir da imagem de guru-ícone da droga psicodélica com a qual foi rotulado a partir da publicação dos primeiros livros, e que lhe custou problemas com o FBI. Eu me lembro perfeitamente de como a moçada fazia essa ligação equivocada entre ele, os livros e as drogas na época. O entrevistador, Sam Keen, talvez tenha sido o entrevistador mais competente na formulação de perguntas. Sua formação em filosofia e teologia em Harvard e Princeton o fazem buscar paralelos entre os ensinamentos e as tradições ocidentais e orientais já conhecidas, coisa que não era muito frequente na época. Aparece aqui uma curiosa afirmação de Don Juan a respeito do filósofo austríaco Wittgenstein. Vamos lá:

Sam Keen:
Como eu acompanhei Don Juan através de seus três livros, suspeitei, que ele era uma criação sua. Ele é bom demais para ser verdade . Um índio velho e sábio cujo conhecimento da natureza do humano é superior ao de quase todo mundo.
Carlos Castaneda:
A idéia de que eu forjei uma pessoa como Don Juan não é convincente. Ele dificilmente seria o tipo de figura que minha  intelectualidade de
tradição da Europa levaria a conceber. A verdade é sempre algo muito estranho. Eu não estava sequer preparado para fazer as mudanças na minha vida que a minha associação com Don Juan requisitou.
SK:
Como você encontrou Don Juan e tornou-se seu aprendiz?
CC:
Eu estava terminando meu trabalho de conclusão na UCLA e planejando ir para a graduação em antropologia. Estava interessado em me tornar professor e pensei que poderia começar de maneira apropriada publicando um ensaio curto sobre plantas medicinais. Não podia ter me importado menos por encontrar um esquisitão como Don Juan. Eu estava em uma estação de ônibus no Arizona com um amigo do tempo do colégio. Ele apontou um velho índio yaqui e disse que ele tinha conhecimento sobre peiote e plantas medicinais. Fiz a melhor cara que pude e me apresentei a Don Juan dizendo: Entendo que você sabe muito acerca do peiote. Eu sou um especialista em peiote (Eu tinha lido o livro de Weston La Barre's, O ritual do peiote) e pode ser gratificante para você almoçar e passar um tempo comigo.. Bem, ele apenas me lançou um olhar e minha audácia dissolveu-se.
Fiquei completamente tímido e paralizado. Eu normalmente era muito vigoroso e falante, e foi um negócio sério ser silenciado com um olhar. Depois disso, comecei a visitá-lo e cerca de um ano depois ele disse-me que gostaria de me repassar o conhecimento da feitiçaria que tinha obtido com seu mestre.
SK:
Don Juan não é um fenômeno isolado, mas faz parte de um grupo de feiticeiros que compartilham um conhecimento secreto?
CC:
Certamente. Conheço três feiticeiros e sete aprendizes e existem muitos mais. Se você pesquisar a história da conquista espanhola no México, encontrará que os inquisidores católicos tentaram acabar com a feitiçaria porque a consideraram como uma coisa do demônio. Ela tem estado por aí há muitos milhares de anos. A maioria das técnicas que Don Juan me ensinou é muito antiga.
SK:
Algumas das técnicas que os feiticeiros usam é amplamente usada também por outros grupos secretos. As pessoas às vezes usam os sonhos para encontrar objetos perdidos, e vão para jornadas fora-do-corpo durante seu sono. Mas quando você diz como Don Juan e seu amigo Don Genaro fizeram o carro desaparecer durante a plena luz do dia, eu poderia apenas coçar a cabeça. Eu sei que um hipnotista pode criar a ilusão de presença ou ausência de um objeto. Você acredita que foi hipnotizado?
CC:
Talvez, alguma coisa deste tipo. Mas temos que começar por perceber, como diz Don Juan, que existe muito mais no universo do que normalmente confessamos conhecer. Nossas expectativas usuais acerca da realidade são criadas por um consenso social. Nos ensinam como ver e perceber o mundo. A truque da socialização consiste em nos convencer que as descrições que estamos de acordo definem os limites do mundo real. O que chamamos de realidade é apenas um modo de ver o mundo, um modo que é sustentando pelo consenso social.
SK:
Então um feiticeiro ou xamã, como um hipnólogo, cria um mundo alternativo construindo diferentes expectativas e fornecendo pistas premeditadas para produzir um consenso social.
CC:
Exatamente. Eu comecei a entender feitiçaria nos termos da idéia de interpretação [gloss] de Talcott Parsons. Uma interpretação é um sistema completo de percepção e linguagem. Por exemplo, esta sala e é uma interpretação. Nós reunimos juntos uma série de percepções isoladas "chão, teto, janela, luzes, tapete, etc" para compor uma totalidade. Mas nós temos que ser ensinados a dispor o mundo junto desta forma. Uma criança experimenta o mundo com poucos pré-conceitos até que é ensinada a vê-lo de uma forma que corresponde à descrição que todos compartilham. O sistema de interpretações parece um pouco com caminhar. Nós temos que aprender a caminhar, mas uma vez que aprendemos ficamos sujeitos à sintaxe da linguagem e ao modo de percepção que ela contém.
SK:
Então a feitiçaria, assim como a arte, ensina um novo sistema de anotações. Quando, por exemplo, Van Gogh rompe com a tradição artística e pinta O Céu Estrelado, ele estava efetivamente dizendo: aqui está uma nova maneira de ver as coisas. As estrelas estão vivas e rodam em volta de seus campos energéticos.
CC:
De uma certa forma. Mas existe uma diferença. Um artista normalmente apenas rearranja as velhas anotações que são apropriadas para seu grupo.
SK:
Don Juan estava lhe dessocializando ou ressocializando? Ele estava lhe ensinando um novo sistema de significados ou apenas um método para esvaziar o antigo sistema para que assim você pudesse ver o mundo como uma criança fascinada?
CC:
Dom Juan e eu discordamos quanto a isto. Eu digo que ele está me reinterpretando. Ensinando-me feitiçaria me deu um novo conjunto de interpretações, uma nova linguagem e uma nova maneira de ver o mundo. Uma vez eu li um pouco da filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein e ele riu e disse "Seu amigo Wittgenstein amarrou o nó com muita força em torno de próprio pescoço, assim ele não pode ir muito longe"...
SK:
Wittgenstein é um dos poucos filósofos que poderia ter entendido Don Juan. Sua noção de que existem muitos tipos diferentes de jogos de linguagem ciência, política, poesia, religião, metafísica, cada um com sua própria sintaxe e regras, poderia ter permitido a ele entender a feitiçaria como um sistema alternativo de percepção e entendimento.
CC:
Mas Don Juan pensa que o que ele chama de "ver" é apreender o mundo sem nenhuma interpretação. Este é o fim almejado pela feitiçaria. Para quebrar a certeza do mundo que sempre lhe foi ensinado, você deve aprender uma nova descrição do mundo, ou feitiçaria e então manter a velha e a nova juntas. Então você percebe que nenhuma das duas é final. No momento que você desliza entre as descrições; você para o mundo e . Você é deixado com o assombro, o verdadeiro assombro de ver o mundo sem nenhuma interpretação.
SK:
Você pensa que é possível ultrapassar as interpretações usando drogas psicodélicas?
CC:
Eu penso que não. Está é minha briga com gente como Timothy Leary. Eu penso que ele estava improvisando dentro da sociedade européia e rearrumando meramente velhos sistemas de interpretação. Eu nunca tomei LSD, mas o que entendi dos ensinamentos de Don Juan é que os psicotrópicos são usados para interromper o fluxo das interpretações ordinárias, para aumentar as contradições dentro das interpretações e para romper as certezas. Mas somente as drogas não possibilitam você parar o mundo. Por isso que Don Juan teve de me ensinar feitiçaria.
SK:
Existe uma realidade normal que nós, ocidentais, pensamos que é "o" único mundo, e existe também a realidade à parte do feiticeiro. Quais as diferenças essenciais entre elas?
CC:
Na sociedade européia "o mundo é construído em grande parte pelo que os olhos informam à mente". Na feitiçaria "o corpo todo é usado como percebedor". Como europeus vemos o mundo ao redor de nós e falamos sobre ele. Nós estamos aqui e o mundo está lá. Os nossos olhos alimentam a razão e não temos conhecimento direto das coisas. De acordo com a feitiçaria esta sobrecarga dos olhos é desnecessária.
Nós percebemos com o corpo total.
SK:
Ocidentais partem do pressuposto que sujeito e objeto são separados. Nós existimos a parte do mundo e temos de cruzar o vácuo para chegar até ele. Para Don Juan e a tradição dos feiticeiros, o corpo já está no mundo. Nós estamos unidos ao mundo, e não alienados dele.
CC:
Isso mesmo. A feitiçaria tem uma teoria diferente de personificação. O problema da feitiçaria é o de harmonizar e arrumar seu corpo para ser um bom receptor. Os europeus lidam com seus corpos como se eles fossem um objeto. Nós os enchemos de álcool, comida ruim e inquietações. Se alguma coisa está errada nós pensamos que germes de fora invadiram o corpo e então importamos algum medicamento para curá-lo. A doença não é parte de nós. Don Juan não acreditava nisso. Para ele a doença é a desarmonia entre um homem e seu mundo. O corpo é consciente e deve ser tratado impecavelmente.
SK:
Isto parece similar à idéia de Norman O. Brown's onde as crianças, esquizofrênicos e aqueles com loucura  divina da consciência  dionisíaca estão cientes das coisas e das outras pessoas como extensões de seu corpo. Don Juan sugere algo do tipo quando diz que os homens de conhecimento têm fibras de luz que conectam seu plexo solar ao mundo.
CC:
Minha conversa com o coiote é um bom exemplo das diferentes teorias de personificação. Quando ele chegou para mim eu disse: "Olá, pequeno coiote Como você está?". E ele respondeu de volta: "Estou bem. E você?". Aqui eu não escutei as palavras da forma normal. Mas meu corpo sabia que o coiote estava dizendo alguma coisa e eu traduzi isto em um diálogo. Como um intelectual, minha relação com o diálogo é tão profunda que meu corpo automaticamente transpôs para palavras o sentimento que o animal estava comunicando a mim. Nós sempre vemos o desconhecido nos termos do conhecido.
SK:
Quando você estava no modo mágico de consciência onde os coiotes falam e tudo é adequado e entendido parece que o mundo todo está vivo e o ser humano está em comunicações que incluem animais e plantas. Se abandonarmos nossas concepções arrogantes de que somos a única forma de vida que conhece e comunica talvez conseguíssemos perceber toda a sorte de coisas se comunicando conosco. John Lilly falava com os golfinhos. Talvez nos sentíssemos menos alienados se pudéssemos acreditar que não somos a única forma inteligente de vida.
CC:
Nós podemos nos tornar capazes de falar com qualquer animal. Para Don Juan e os outros feiticeiros não havia nada de estranho na minha conversa com o coiote. Na verdade eles disseram que eu deveria ter pegado um animal mais confiável para amigo.Coiotes são trapaceiros e não pode se confiar neles.
SK:
Quais animais são os melhores para serem amigos?
CC:
Cobras são amigos estupendos.
SK:
Uma vez conversei com uma cobra. Uma noite sonhei que havia uma cobra no sótão da casa onde eu vivia quando era criança. Peguei um pau e tentei matá-la. De manhã falei sobre o sonho a um amigo e ela me disse que não era uma coisa boa matar cobras, mesmo se elas estivessem no sótão em um sonho. Ela me sugeriu que na próxima vez que aparecesse uma cobra em sonho eu deveria alimentá-la ou fazer alguma coisa para atrair sua amizade. Cerca de uma hora depois eu estava dirigindo meu patinete motorizado numa estrada pouco usada e lá, esperando por mim, estava uma cobra de quatro pés, estirada no seu banho de sol. Eu a contornei e ela não se mexeu Depois de nos olharmos um nos outros por um tempo eu pensei que deveria fazer algum gesto para mostrar que estava arrependido de ter matado seu irmão em meu sonho. Eu cheguei perto e toquei sua cauda. Ela se enrolou mostrando que eu havia invadido sua intimidade. Então eu voltei e fiquei apenas olhando. Cinco minutos depois lá se foi ela atrás dos arbustos.
CC:
Você não a espetou?
SK:
Não.
CC:
Era uma amiga muito boa. Um homem pode aprender a chamar as serpentes. Mas você precisa estar em excelente forma, calmo, controlado, com um humor amigável, sem nenhuma dúvida ou assuntos pendentes.
SK:
A cobra me ensinou que eu sempre tinha pensamentos paranóicos em relação à natureza. Eu considerava animais e cobras perigosos. Após meu encontro jamais mataria outra cobra e começou a ser mais plausível para mim que nós possamos ter uma espécie de conexão viva. Nosso ecossistema pode muito bem incluir comunicações com outras formas de vida.
CC:
Don Juan tinha uma teoria muito interessante acerca disso. As plantas, assim como os animais, sempre afetam você. Ele dizia que se você não pedisse desculpas para as plantas por colhê-las você provavelmente ficaria doente ou sofreria um acidente.
SK:
Os índios americanos tem crenças similares sobre os animais que eles matam. Se você não agradece o animal por dar a vida para que você possa viver, seu espírito pode lhe causar problemas.
CC:
Nós temos uma associação com toda forma de vida. Alguma coisa se altera toda vez que machucamos a vida vegetal ou animal. Nós tiramos a vida para sobreviver mas devemos querer abrir mão de nossa própria vida sem ressentimentos quando chegar nossa vez. Nós somos tão importantes e nos levamos tão a sério que esquecemos que o mundo é um grande mistério que pode nos ensinar se escutarmos.
SK:
Talvez as drogas psicodélicas momentaneamente limpem o ego isolado e permitam uma fusão mítica com a natureza. A maior parte das culturas que conservam um senso de união entre o homem e a natureza também fez uso cerimonial das drogas psicodélicas. Você estava usando peiote quando falou com o coiote?
CC:
Não, de maneira alguma.
SK:
Esta experiência foi mais intensa das que teve quando Don Juan lhe ministrou plantas psicotrópicas?
CC:
Muito mais intensa. Todas as vezes que eu tomei plantas psicotrópicas eu sabia que havia ingerido algo e sempre podia questionar-me acerca da validade das minhas experiências. Mas quando o coiote falou comigo eu não tinha desculpas. Não podia explicar isso. Eu realmente parei o mundo e, saí completamente do meu sistema de interpretações europeu.
SK:
Você acredita que Don Juan vive neste estado de atenção a maior parte do tempo?
CC:
Sim, ele vive num tempo mágico e ocasionalmente volta para o tempo normal. Eu vivo no tempo normal e ocasionalmente entro no tempo mágico.
SK:
Qualquer um que tenha viajado tão longe além do desgastado consenso deve ser alguém muito solitário.
CC:
Penso que sim. Don Juan vive num mundo impressionante e deixou as pessoas rotineiras bem longe. Uma vez eu estava junto com Don Juan e seu amigo Don Genaro e vi a solidão que eles dividiam e sua tristeza em deixar para trás os enfeites e pontos de referência da sociedade normal. Penso que Don Juan transformou sua solidão em arte. Ele contém e controla seu poder, mistério e solidão e os transforma em arte. Sua arte é o caminho metafórico em que ele vive. É por causa disso que seus ensinamentos tem tanta carga dramática e unidade. Ele deliberadamente constrói sua arte e sua maneira de ensinar. 
SK:
Por exemplo, quando Don Juan levou-o às montanhas para caçar animais estava conscientemente encenando uma alegoria?
CC:
Sim. Ele não estava interessado em caçar por esporte ou por comida. Há 10 anos  que o conheço, e o vi matar apenas quatro animais, e apenas nas vezes em que ele viu que suas mortes eram um presente para ele, assim como sua própria morte um dia será um presente para alguma coisa. Uma vez apanhamos um coelho numa armadilha, ficamos imóveis e Don Juan achou que eu devia matá-lo, pois seu tempo havia acabado. Fiquei desesperado porque eu tinha a sensação de que eu mesmo era o coelho. Eu tentei libertá-lo mas não conseguia abrir a armadilha. Então eu pisei na armadilha e quebrei acidentalmente o pescoço do coelho. Don Juan estava tentando me ensinar a assumir a responsabilidade por estar neste mundo maravilhoso. Ele inclinou-se e sussurrou no meu ouvido: "Eu lhe disse que este coelho não tinha mais tempo para vagar por este lindo deserto". Ele conscientemente construiu a metáfora para me ensinar sobre os caminhos de um guerreiro. Um guerreiro é alguém que caça e acumula poder pessoal. Para fazer isto ele deve desenvolver a paciência e se mover deliberadamente sobre o mundo. Don Juan usou a situação dramática da caçada para me ensinar porque estava se dirigindo diretamente ao meu corpo.
SK:
Em seu livro mais recente, Viagem a Ixtlan, você revê a impressão dada nos primeiros livros de que o uso de plantas psicotrópicas era o método principal usado por Don Juan no intuito de ensiná-lo sobre a feitiçaria. Como você vê agora o lugar dos psicotrópicos em seus ensinamentos?
CC:
Don Juan usou plantas psicotrópicas no período intermediário do meu aprendizado porque eu era muito estúpido, sofisticado e arrogante. Eu me agarrava à minha descrição do mundo como se ela fosse a única verdade. Os psicotrópicos criaram um vácuo no meu sistema de interpretações. Eles destruíram minha certeza dogmática. Mas eu paguei um enorme preço. Quando a cola que segurava meu mundo unido foi dissolvida, meu corpo estava fraco e eu demorei meses para me recuperar. Eu fiquei ansioso e funcionava a um nível muito baixo.
SK:
Don Juan usa drogas psicotrópicas regularmente para parar o mundo?
CC:
Não. Ele pode agora mesmo pará-lo com a sua vontade. Ele me disse que para mim a tentativa de ver sem a ajuda das plantas seria inútil. Mas se eu me comportasse como um guerreiro e assumisse a responsabilidade não precisaria delas; elas apenas enfraqueceriam meu corpo.
SK:
Isso pode soar um pouco chocante para vários admiradores seus. Você é uma espécie de santo patrono da revolução psicodélica.
CC:
Eu tenho seguidores e eles têm idéias estranhas a respeito de mim. Eu estava andando para dar uma palestra no Califórnia State, em Long Beach, outro dia e um rapaz que me conhecia me apontou para uma garota e disse "Ei, esse é o Castaneda". Ela não acreditou nele porque tinha a idéia de que eu deveria parecer muito sobrenatural. Um amigo estava reunindo algumas das histórias que circulavam sobre mim. O consenso era que eu havia feito uma façanha mística.
SK:
Façanha mística?
CC:
Sim, que eu andava de pés descalços como Jesus e não tinha calos. As pessoas acham que devo estar doidão a maior parte do tempo. Eu também cometi suicídio e morri em vários lugares diferentes. Um colega de departamento quase fez um escândalo quando eu comecei a falar sobre fenomenologia e sociedade e explorar o conceito de percepção e socialização. Eles queriam que eu falasse pausadamente, os deixasse altos e fizesse suas cabeças. Mas para mim o entendimento é importante.
SK:
Os rumores voam no vácuo de informações. Sabemos alguma coisa de Don Juan e muito pouco de Castaneda.
CC:
Isto é uma parte proposital da vida do guerreiro. Para escapulir dentro e fora de diferentes mundos você deve permanecer discreto. Quanto mais você ser conhecido e identificado, mais sua liberdade vai ser reduzida. Quando as pessoas tiverem idéias definitivas sobre quem é você e como você vai agir, você não poderá mais se mexer. Uma das primeiras coisas que Don Juan me ensinou foi que eu tinha que apagar minha história pessoal. Se aos poucos você criar uma névoa em torno de si então você não vai ser tomado como garantia e você tem mais espaço para se mexer. É por causa disso que eu impeço gravações de áudio e fotografias quando dou palestras.
SK:
Talvez possamos ser pessoais sem sermos históricos. Você agora minimizou a importância da experiência psicodélica em relação ao seu aprendizado. E você não parece sair por aí fazendo o tipo de truques disponíveis no estoque dos feiticeiros. Que elementos dos ensinamentos de Don Juan são importantes para você? Você foi mudado por eles?
CC:
Para mim as idéias de ser um guerreiro e um homem de conhecimento, com a esperança de eventualmente parar o mundo e ver, têm sido as mais adequadas. Elas tem me dado paz e confiança na minha capacidade de controlar minha vida. Na época que encontrei Don Juan eu tinha muito pouco poder pessoal. Minha vida havia sido muito errática. Eu percorri um longo caminho desde o local do meu nascimento no Brasil. Exteriormente eu era agressivo e arrogante, mas interiormente era indeciso e incerto acerca de mim. Estava sempre forjando desculpas para mim mesmo. Don Juan uma vez me acusou de ser uma criança profissional porque eu estava cheio de auto-piedade. Eu me sentia como uma folha ao vento. Como com a maioria dos intelectuais, minhas costas estavam contra o muro. Eu não tinha lugar para ir. Eu não podia perceber nenhuma forma de vida que realmente me excitasse. Eu pensei que tudo o que poderia fazer era uma acomodação amadurecida para uma vida de tédio ou encontrar formas mais complexas de entretenimento como usar drogas psicodélicas, maconha e ter aventuras sexuais. Tudo isso era aumentado pelo meu hábito de ser introspectivo. Eu estava sempre olhando para dentro de mim e falando comigo mesmo. O diálogo interno raramente parava.
Don Juan abriu meus olhos para o exterior e ensinou-me a acumular poder pessoal.
Não creio que haja outro pode de vida para alguém que queira estar cheio de energia.
SK:
Parece que ele fisgou você com o velho truque dos filósofos de segurar a morte diante dos seus olhos. Eu estava impressionado em perceber quão clássica a abordagem de Don Juan é. Eu ouvia ecos da idéia de Platão de que um filósofo deve estudar a morte antes que possa ganhar acesso ao mundo real e da definição de Martin Heidegger de um homem como um ser-para-a-morte.
CC:
Sim, mas a abordagem de Don Juan tem um aspecto diferente, que vem da tradição da feitiçaria, que é o de considerar a morte como uma presença física que pode ser sentida e vista. Uma das interpretações da feitiçaria é: a morte está à sua esquerda, à distância de um braço. A morte é um juiz imparcial que lhe dirá a verdade e lhe dará conselhos precisos.  Afinal, a morte não está com pressa. Ela lhe pegará em um dia, uma semana, ou 50 anos. Não faz diferença para ela. No momento que você pensa que eventualmente deve morrer está reduzindo o lado direito, o controlador.
Eu acho que ainda não tornei esta idéia vívida o bastante. A interpretação "A morte está a sua esquerda" não é uma questão intelectual na feitiçaria, é percepção. Quando seu corpo está adequadamente sintonizado com o mundo e você vira os olhos para  a esquerda, você pode testemunhar um evento extraordinário, a presença sombria da morte.
SK:
Na tradição existencial, as discussões sobre responsabilidade geralmente se seguem às discussões sobre a morte.
CC:
Então Don Juan é um bom existencialista. Se não há como saber se eu tenho apenas mais minuto de vida, devo agir como se cada instante fosse o último. Cada ato é a última batalha do guerreiro. Então tudo deve ser feito impecavelmente. Nada pode ser deixado pendente. Esta idéia foi muito libertadora para mim. Eu estou aqui falando com você e talvez nunca volte para Los Angeles. Mas não importa porque eu cuidei de tudo antes de vir para cá.
SK:
Este caminho de morte e determinação é distante da utopia psicodélica na qual a percepção do final do tempo destrói a qualidade trágica da escolha.
CC:
Quando a morte permanece à sua esquerda você deve criar o mundo a partir de uma série de decisões.
Não existem grandes ou pequenas, apenas decisões que devem ser tomadas agora. E não há tempo para dúvidas ou remorsos. Se eu passar o meu tempo lamentando o que fiz ontem eu evito as decisões que tenho de tomar hoje.
SK:
Como Don Juan lhe ensinou a ser determinado?
CC:
Ele falou com meu corpo através de atos. Meu modo antigo de ser deixava tudo pendente e nunca decidia nada. Para mim, tomar decisões era algo feio. Parecia injusto para um homem sensível ter de decidir. Um dia Don Juan me perguntou: "Você acha que você e eu somos iguais?" Eu era um estudante universitário e um intelectual e ele era um velho índio, mas eu fui condescendente e disse: "Claro que somos iguais". Ele disse: "Eu não acho que somos. Eu sou um caçador e um guerreiro e você é um frouxo. Eu estou pronto a abreviar minha vida a qualquer instante. Seu mundo débil de indecisão e tristeza não é igual ao meu".  Eu fiquei muito insultado e teria voltado, mas nós estávamos no meio do nada. Então eu sentei e fiquei absorvido nas armadilhas do meu ego. Eu ia esperar até ele decidir voltar. Após várias horas percebi que Don Juan ficaria ali para sempre se precisasse. Por que não? Para um homem sem assuntos pendentes este é o seu poder. Eu finalmente percebi que este homem não era como meu pai, que podia tomar 20 resoluções de ano-novo e não cumprir nenhuma. As decisões de Don Juan eram irrevogáveis enquanto durasse seu interesse. Elas podiam ser canceladas apenas por outras decisões. Então cheguei perto e o toquei, ele desistiu e voltamos para casa. O impacto deste ato foi tremendo. Ele me convenceu de que o caminho do guerreiro é um modo de vida poderoso e vigoroso.
SK:
O conteúdo da decisão não é tão importante quanto o ato de ser determinado.
CC:
Isto é o que Don Juan entende por fazer um gesto. Um gesto é um ato deliberado que é responsável pelo poder que advém de tomar uma decisão. Por exemplo, se um guerreiro encontra uma cobra que está dormente e fria, ele pode esforçar-se por levar a cobra para um lugar quente sem ser mordida. O guerreiro pode decidir fazer um gesto sem nenhum motivo. Mas ele vai fazê-lo perfeitamente.
SK:
Parecem existir muitos paralelos entre a filosofia existencialista e os ensinamentos de Don Juan.
O que você disse sobre decisões e gestos sugere que Don Juan, como Nietzsche e Sartre, acredita que a vontade, ao invés da razão, é a faculdade mais fundamental do homem.
CC:
Acho que sim. Deixe-me falar por mim mesmo. O que eu quero fazer, e talvez consiga executar, é superar o controle da minha razão. Minha mente tem estado no controle a minha vida toda e ela preferiria me matar a abandonar este controle. Em um dado ponto de meu aprendizado, eu fiquei profundamente deprimido. Eu estava cheio de medo, obscuridade e pensamento sobre suicídio. Então Don Juan me alertou que este é um dos truques da razão para manter o controle. Ele disse que minha razão estava fazendo meu corpo sentir que não havia sentido na vida. Uma vez que minha mente travou esta última batalha e perdeu, a razão começou a assumir o local apropriado de ser apenas uma ferramenta do corpo.
SK:"O coração tem razões que a própria razão desconhece", e também o resto do corpo.
CC:
Este é o ponto. O corpo tem vontade própria. Ou melhor, a vontade é a voz do corpo. Este é o motivo de Don Juan consistentemente colocar suas lições em uma forma dramática. Meu intelecto poderia facilmente descartar o mundo da feitiçaria como sem sentido. Mas meu corpo foi atraído por este mundo e este modo de vida.
E quando o corpo toma o controle, um reino novo e mais saudável se estabelece.
SK:
As técnicas de Don Juan para lidar com os sonhos me interessam porque ele sugeste a possibilidade de voluntariamente controlar as imagens do sonho. Dessa forma ele propõe estabelecer um observatório estável e permanente dentro do espaço interior. Fale-me sobre o treinamento de sonhos de Don Juan.
CC:
O truque nos sonhos é sustentar as imagens tempo o bastante para que possamos examiná-las cuidadosamente. Para adquirir este controle você deve escolher uma coisa antes e aprender a encontrá-la nos seus sonhos. Don Juan sugeriu que eu usasse minhas mãos como ponto fixo e alternasse entre elas e as imagens. Após alguns meses eu aprendi a usar minhas mãos e parar o sonho. Fiquei tão fascinado por esta técnica que espero ansioso pela hora de dormir.
SK:
Parar as imagens nos sonhos é parecido com parar o mundo?
CC:
É similar. Mas existem diferenças. Uma vez que você se torna capaz de achar suas mãos quando quiser, você percebe que isto é apenas uma técnica. O que você quer na verdade é o controle. Um homem de conhecimento deve acumular poder pessoal. Mas isto não é suficiente para parar o mundo. É necessário algum abandono. Você precisa parar a conversa que está ocorrendo internamente e render-se ao mundo exterior.
SK:
Das várias técnicas que Don Juan lhe ensinou para parar o mundo, qual você ainda pratica?
CC:
Minha maior técnica no momento está em romper as rotinas. Eu sempre fui uma pessoa muito rotineira. Eu comia e dormia sempre nos mesmos horários. Em 1965 comecei a mudar meus hábitos. Eu escrevia nas horas quietas da noite e dormia quando sentia necessidade. Agora eu desmantelei tanto meus hábitos usuais que posso me tornar imprevisível e surpreendente até mesmo para mim.
SK:
 Sua disciplina me lembrou de uma história Zen de dois discípulos vangloriando-se de feitos milagrosos. Um dos discípulos alegava que o fundador da seita a que pertencia podia ficar em uma das margens do rio e escrever Buda num pedaço de papel segurado por seu assistente do outro lado do rio. Um outro discípulo alegava que esse milagre não era muito impressionante. "Meu milagre", disse ele, "é que quando tenho fome, eu como, e quando tenho sede, eu bebo".
CC:
É este elemento de compromisso com o mundo que me mantém seguindo o caminho que Don Juan me mostrou. Não há necessidade de transcender o mundo. Tudo o que você precisa saber está aqui defronte nós, se prestarmos atenção. Se você entrar num estado de realidade extraordinária, como faz quando usa plantas psicotrópicas, está apenas usando a força que precisa para ver o caráter milagroso da realidade ordinária. Para mim o modo se viver o caminho com coração não é introspectivo ou de transcendência mística, mas a presença no mundo. Este mundo é o campo de caçada do guerreiro.
SK:
O mundo que você  e Don Juan pintaram é cheio de coiotes mágicos, corvos encantados, e magníficos guerreiros. É fácil de ver como ele pode lhe atrair. Mas, e em relação ao mundo de uma pessoa urbana moderna? Onde está a mágica nele? Se todos nós pudéssemos viver em montanhas talvez conseguíssemos manter o mistério vivo. Mas como poderemos fazer isso se estamos perto de uma estrada?
CC:
Uma vez formulei a mesma questão para Don Juan. Nós estávamos sentados em um café em Yuma e eu insinuei que eu poderia me tornar apto a parar o mundo e ver se pudesse viver no ermo junto com ele. Ele olhou para a janela, viu os carros passando e disse: "Ali, lá fora, é o seu mundo". Eu vivo em Los Angeles agora e sinto que posso usar o mundo para favorecer minhas necessidades. É um desafio viver sem rotinas em um mundo rotineiro. Mas é possível.
SK:
O nível do barulho e a pressão constante de massas de pessoas parecem destruir o silêncio e a solidão que poderiam ser essenciais para parar  o mundo.
CC:
Não de todo. Na verdade, o barulho pode ser usado. Você pode usar o barulho da buzina para treinar a si mesmo ouvir o mundo exterior. Quando paramos o mundo, o mundo que paramos geralmente é o que é mantido pelo diálogo interno. Uma vez que você para o blá-blá-blá interno você para de manter este mundo. A descrição entra em colapso. É quando começa nossa mudança de personalidade.
Quando você se concentra nos sons, percebe que é difícil para o cérebro categorizar todos os sons, e em pouco tempo você para de tentar. Não é como a percepção visual que nos mantém formando categorias e pensando. É tão revigorante quando você consegue parar de falar, categorizar e julgar.
SK:
O mundo interno muda, mas e em relação ao externo? Nós podemos revolucionar a consciência individual, mas ainda assim não conseguir tocar as estruturas sociais que criam nossa alienação. Existe um lugar para a reforma social e política no seu pensamento?
CC:
Eu vim da América Latina onde os intelectuais estão sempre falando sobre revolução política e social e onde um muitas bombas são lançadas. Mas a revolução não mudou muita coisa. Requer pouca coragem bombardear um prédio, mas para desistir de cigarros, parar de ser ansioso ou parar a tagarelice interna, você tem que reconstruir-se. É  aí que começa a verdadeira reforma. Don Juan e eu estávamos em Tucson não muito tempo atrás quando estava tendo a Semana da Terra. Alguns homens estavam palestrando sobre ecologia e os males da guerra do Vietnã. Enquanto isto, eles fumavam. Don Juan disse: "Não posso imaginar como eles podem se preocupar com os outros se eles não se gostam de si". Nossa primeira preocupação deve ser com nós mesmos. Eu posso gostar dos meus semelhantes apenas quando estiver no auge do meu vigor e sem depressão. Para estar nesta condição devo manter meu corpo preparado. Toda revolução deve começar aqui, neste corpo. Eu posso mudar minha cultura mas apenas através de um corpo impecavelmente sintonizado com este mundo estranho. Para mim, a verdadeira realização é a arte de ser um guerreiro, a qual, como diz Don Juan, é o único meio de balancear o terror de ser um homem com a maravilha de ser um homem.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Brasileira entrevista Castaneda - 1996

Castaneda, Luz e Sombra

No final dos anos 60, surgiu o livro “A Erva do Diabo” (original -The Teachings of Don Juan). Puro xamanismo tolteca, foi escrito por Carlos Castaneda, um latino, estudante de Antropologia da UCLA – Universidade da California em Los Angeles. Ele foi pesquisar plantas de poder in loco e foi “fisgado” por um universo mágico, onde, o “brujo” Dom Juan, um índio yaqui de Sonora, México, lhe transmitiu um estranho ensinamento milenar sobre o homem e o universo. Tudo indica que D. Juan já “o esperava há anos” para encerrar uma linhagem milenar de xamãs e divulgar o segredo da tradição para o grande público, e a importância desse caminho de busca interior. Cartas marcadas pelos mistérios do Invisível.
Os livros venderam milhares de cópias, tornando-o famoso, mas o ensinamento, que seguiu à risca, previa uma disciplina contra a auto importancia (ego): apagar a sua história pessoal, fugir da mídia, não usufruir a fama, abandonar as rotinas de vida, não se expor. Por isso suas poucas entrevistas, como essa, são valiosas. A mídia americana, após endeusá-lo, não o perdoou por isso, e contribuiu juntamente com o FBI para apagá-lo persistentemente quando a juventude da época passou equivocadamente a considerá-lo, à sua revelia, como mais um ícone do movimento hippie de libertação, drogas e rock’n roll.
Castaneda seguiu à risca as orientações lançando cada vez mais sombra sobre a sua escassa biografia, embaralhando os dados da sua história.
Segundo reportagem da revista Time de 1973, Carlos Cesar Araña, seu verdadeiro nome, teria entrado nos Estados Unidos em 1951. E vinha da América Latina, nascido em Cajamarca no Perú em 1925, o que dá uma diferença de dez anos em sua incerta idade. Seu pai não seria um acadêmico como afirmava, mas um relojoeiro artesão chamado Cesar Araña Burungaray. Sua mãe Susana Castaneda Navoa teria morrido não quando ele tinha 6 anos, mas quando tinha 25.
Na entrevista que Castaneda concedeu a Patricia Aguirre, buscadora incansável dos ensinamentos de D. Juan, publicada  em 1996 na revista Mais Vida da EditoraTres, ele conta porém,  que ele nasceu no Brasil, em Juqueri (Cajamar), cidade próxima a São Paulo, em 1935. Patrícia checou se existe algum registro de seu nascimento na Comarca de Franco da Rocha, atual nome da cidade, e descobriu que até o destino parece conspirar a  favor do segredo: uma inundação apagou todo e qualquer vestígio de quem nasceu nessa cidade antes de 1949. Há outras poucas entrevistas que oportunamente publicaremos.
Questionar sobre a veracidade da minha vida, citando datas e registros, rouba a magia do mundo e afasta os marcos de todos nós”, alerta ele.

O curso desse aprendizado foi se transformando em 12 livros com muitos milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Carlos Castaneda tornou-se então um novo “nagual” (termo que define a função do xamã junto a seus iniciados) na linhagem de Dom Juan.
Sempre envolto em mistério, Castaneda desapareceu em meados dos anos 70. Seu contato com o mundo se dava apenas pelos livros, sendo que “A Arte do Sonhar”de 1993, saiu após 6 anos de um longo silêncio.
No entanto em 95, voltou à tona realizando workshops para transmitir o conhecimento adquirido pela longa e intensa convivência com o feiticeiro Dom Juan. Foi no seminário  realizado na Universidade de Los Angeles onde o “nagual” Castaneda estudou antropologia que minha amiga Patricia o entrevistou. Patricia relata que com extrema leveza e grande senso de humor, ele não parecia preocupado em vender imagem de guru nem de santo. Mas, coerente com uma as premissas dos ensinamentos que recebeu do xamã Dom Juan, fez questão de apagar a sua história pessoal, mantendo fora de alcance a sua vida privada. Mesmo assim conseguimos confirmar que, sim, o misterioso xamã e antropólogo, segundo o que disse, nasceu mesmo no Brasil.

A entrevista:

Patrícia Aguirre – Existem referências contraditórias sobre o local de seu nascimento, se foi no Perú ou no Brasil...
Carlos CastanedaEu nasci no Brasil, Em São Paulo, numa cidade chamada Juqueri. Por causa do sanatório mudaram o nome da cidade, que hoje se chama Branco da Rocha (corrijo o Branco para Franco, mas ele continua, sem dar muita importância). Perguntas desse tipo dão uma importância desmedida ao homem. Além do mais, Carlos Castaneda não existe. Dom Juan limpou tudo o que havia do homem Carlos, deixando-o apenas como o “possuidor” de um conhecimento. A capa não tem significado. A única coisa que interessa são as credenciais para a viagem em direção ao infinito e os dados vitais necessários: tripas de aço e culhões.
PA – O senhor permaneceu inacessível durante anos. Porque resolveu mudar essa condição e dar workshops?
CC – Não é mais possível um grupo se perpetuar em termos tradicionais. Não é mais possível ensinar um a um. Além do que nós somos o último elo de uma linhagem. É como se a fechássemos com cadeado. Como o próprio Dom Juan dizia, eu não tenho a mesma configuração energética que ele tinha, portanto tem que ser diferente. Ele também falava da fluidez, condição essencial do mundo. Nada no mundo do feiticeiro é permanente, assim como no nosso cotidiano também não o é, apesar de insistirmos em fixá-lo. Não podemos simplesmente ir embora com todo esse conhecimento. Acreditamos ter pouco tempo aqui e resolvemos assumir a responsabilidade de passar adiante tudo o que aprendemos, sem restrição, e a forma que encontramos é esta: grandes workshops públicos.
PA – No que os ensinamentos de Dom Juan diferem dos movimentos espiritualistas?
CC – Na força de seus atos. Nós não somos espiritualistas, somos extremamente práticos. Estamos interessados em tudo o que se refere à energia. Se, em última hipótese, somos energia, tratemos desta. Não estamos interessados em buscar Deus, os santos, a pureza...Aliás, no fundo, ninguém está realmente interessado em buscar, ou melhor, em fazer o básico – encontrar a liberdade total.
PA – E o que é a liberdade total?
CC – É a consciência de “ser” do homem, o existir livre dos conceitos, da cultura e do social. A liberdade é o lado sublime do homem. Os xamãs dizem que só há tempo de viver para a liberdade, pois somos seres a caminho da morte. A energia é irredutível e é com ela que temos que tratar. Somos seres temporais. Que falta de sinceridade conosco mesmos quando atuamos como se fôssemos seres imortais. Que pobreza de espírito a nossa.
PA – O que significa estar livre de conceitos?
CC – Os xamãs dizem que o “eu” não é o homem, e que existe algo de muito estranho em nós, como se esse mental, ou “eu” que discursa, fosse algo alheio ao indivíduo. Todos os nossos comandos são baseados em conceitos... Por exemplo dizer “eu te amo” é puro conceito. Os feiticeiros se definam como navegadores no mar do desconhecido. Para eles navegar é uma coisa prática, e navegar significa mover-se de um mundo pra outro, sem perder a sobriedade nem a força. Para alcançar essa realização não pode haver procedimentos ou passos a serem seguidos, mas apenas um ato que define tudo: o ato de reforçar o elo com a força que permeia todo o universo, uma força que os feiticeiros chamam de Intento. O homem era um ser que viajava. A consciência era a sua grande arma. Mas isso foi se perdendo e o brilho intenso da sua consciência ficou na altura dos calcanhares. Agora é só isso o que temos, e nesse lugar há um ponto em que estamos fixados... Esse é o eu (Nota: é o que chamamos de ego). Aqui ficamos todos, inclusive os homens religiosos. É só o que conseguimos enxergar, o nosso próprio reflexo. Por não usarmos a nossa própria consciência, agora só temos os valores sociais e os prazeres comuns que a sociedade nos proporciona, e que não levam a nada. A vida só é excitante quando atuamos frente a frente ao nosso encontro final, a morte.
PA- Estar presente no dia-a-dia, e não viver em função de um futuro, não seria uma postura desejável para os nossos dias?
CC – Estar de fato presente no dia-a-dia só é possível quando você sabe que não é um ser imortal. Quando assume a responsabilidade de que vai morrer, tudo muda. O guerreiro que tem a consciência da sua morte, tem consciência da armadilha social em que se encontra, da armadilha da auto-importância.
PA – Esse é um caminho espiritual, uma busca de Deus?
CC - Para um feiticeiro não existe um Deus, na concepção usual que se tem dele. A idéia de Deus é renascentista, é a idéia de Leonardo da Vinci, de Michelângelo... Leonardo da Vinci o desenha com a sua visão de italiano, de florentino – um Deus muito bonito, bem-cuidado, de barba aparada...O que é Deus para um bruxo? É o infinito, não pode ser representado, e também não é amigável. Para “Ele” nós não temos a menor importância. É a nossa arrogância que nos transforma em imagens de Deus. E as perguntas que realmente interessam nunca são feitas.
PA - E que perguntas são essas?
CC – Porque essa insistência terrível com o “eu”? Essa é a única preocupação que existe. Eu, eu e mais eu. Essa homogeneidade entre os humanos não é estranha? Independente da origem étnica, cultural, os seres humanos tem as mesmas reações egóicas. Essa não é uma questão interessante? De que “eu” estamos falando , se somos tão iguais? Que individualidade é essa, se não existem diferenças entre nós?
PA – Como podemos recuperar a consciência para enxergar além do próprio reflexo?
CC – É necessário restaurar nossa energia. Aumentá-la para gerar mais calma, eficiência e propósito. Dom Juan dizia que um dos maiores males da nossa civilização é a falta de propósito, de meta e a incapacidade de tomar decisões. Gastamos energia nos defendendo. Nossa auto importância é tamanha que direcionamos toda a nossa energia para defender o conceito que temos de nós mesmos! E nem percebemos que funcionamos assim!
PA – O senhor afirma que dizer “eu te amo” é puro conceito. Como então expressar afetos verdadeiros?
CC – As pessoas não sabem amar, buscam sempre o auto-reflexo. Mas o nosso verdadeiro ser, sim, pode sentir amor.
PA – O que é o amor para um bruxo?
CC – É o ato de sentir afeto por outra pessoa, ou por uma abstração, com a liberdade, sem limitações. Porém sentir tal afeto sem transformá-lo em investimento, senti-lo sem esperar recompensa. Dom Juan dizia que os bruxos de sua linhagem presenteavam seu amor a quem desejassem e que jamais esperavam algo em troca. Essa condição de afeto total, dado sem nenhum interesse, pode ser aplicada não somente a seres viventes, mas também a situações abstratas. A isso Dom Juan chamava de “Caminho com Coração”: enfocar o afeto total a algo que não é pessoal.
PA - Existe hoje algo autêntico em termos de caminho espiritual?
CC – Dom Juan me incitou a procurar gurus para ver se eram autênticos. Talvez eu os tenha procurado mal, mas não encontrei.Como é possível um mestre permitir a idolatria, permitir que seus objetos se tornem “santificados”, que sua cadeira se transforme em algo sagrado? Não, não encontrei nada real. Esses gurus são tiranos do mundo. 
PA – O senhor combate a idéia do guru e da procura do homem pelo conhecimento fora de si mesmo. Mas o xamã ou o nagual não teriam essa mesma função: ser um guia espiritual para a sua gente?
CC – Dom Juan não era um mestre. Era um feiticeiro transmitindo conhecimento a seus discípulos para a continuação de sua linhagem. Como essa linhagem chega ao fim, ele mesmo me aconselhou a escrever sobre o conhecimento. É passar o mapa para a frente. Os feiticeiro dizem que o único mestre possível, ou guia que podemos ter, é o Espírito, significando uma força abstrata e impessoal que permeia o universo. É através do silêncio interior que podemos alcançar essa força. Por isso, o único elo ou ligação que devemos ter, é com essa força, não com uma pessoa.
PA – O senhor contou durante o workshop que ficou muito doente e quase morreu...
CC – Para mim não é mais possível morrer como meu avô. Partir sozinho é a derrota de um bruxo. Por quê? Porque não tem paixão. O triunfo é ir com minhas três companheiras (Carol Tiggs, Florinda Donner-Grau e Taisha Abelar, que também foram instruídas por Dom Juan).
PA – O que é a morte para um xamã?
CC – A boa morte para um xamã é partir com a consciência total, inclusive levando seu corpo físico, e não deixando rastro. É como passar de um mundo para outro atravessando uma brecha. (foi assim que, de acordo com o relato de Castaneda, partiram os 15 integrantes do grupo de Dom Juan – e, segundo os mayas e egípcios, muitos dos seus ancestrais)

Nota: A obra completa de Castaneda e seus discípulos Florinda Donner-Grau, Taisha Abelar, e Armando Torres está listada nesse blog em “Nossos bons livros"

domingo, 7 de novembro de 2010

A auto importância

A auto importância, ou importância pessoal, ou o pecado capital do orgulho, a grande arma do ego, é um dos temas de maior relevância no caminho de evolução proposto em todas as tradições, uma delas os toltecas do Antigo México.
Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras interiores e se permitir  trilhar o caminho da liberdade total. A moderna psicologia está agora começando a tatear o conhecimento da percepção, atenção e consciência humanas para chegar onde eles já chegaram há milhares de anos sem a ajuda da tecnologia atual. Só com trabalho interior.
A prática de abandonar o senso de auto importância, ao lado de outras abaixo, é uma condição sem a qual não se pode progredir no caminho da busca interior, o caminho da evolução real.
A prática de Tensegridade (Passes Mágicos) ensinada pelos toltecas antigos e modernos, redistribui e portanto fornece energia ao praticante, mas para que?
Se não aplicarmos essa energia obtida com a prática dos Passes Mágicos incansavelmente nas outras tarefas destinadas a nos modificar, corremos o risco de nos transformarmos em seres fortes, porém mais auto importantes e arrogantes ainda, pelo simples fato de sermos fortes.
Não se entra em nenhum céu, nirvana, satori, reino dos deuses, ou em qualquer estado superior de consciência conservando o jeitão interior que nós adquirimos a partir do consenso social. Todas as tradições indistintamente falam em mudar, acordar, transformar-se, renascer...
A nossa sugestão, como guerreiros que somos por vocação, é tomar essas práticas e começar a desenvolver exercícios concretos, diários, e então impecavelmente nos espreitarmos nessa luta diária conosco mesmos. É disso que trata a obra de Castaneda dentro da linhagem dos toltecas do antigo México.
Vamos então nos perguntar:
- Tomei consciência de que eu preciso mudar? Estou praticando todo o dia, o dia inteiro, a todo o instante? Estou fazendo a prática a partir da minha vontade, do meu hara, do meu umbigo? Estou fugindo, disfarçando, justificando? Estou me avaliando regularmente nas anotações do meu Diário de Navegação? Estou me colocando pacientemente no agora, que é o único lugar possível ao ser humano que busca?
Essas práticas podem e devem ser acompanhadas pacientemente pelo buscador.
Como técnica de auto-espreita , pode-se tentar formular exercícios simples para cada prática listada abaixo. Elas estão interligadas e mobilizam nossos três principais centros, mental, emocional e físico, e são o decálogo do trabalhar sobre o ego::

1- procurar de uma forma simples e concreta abandonar o senso de auto importância em nossas ações rotineiras,

2- recapitular regular e imparcialmente os fatos da minha vida (o dia, o ano, o passado, a vida toda),

3 - reorganizar a vida pessoal em função da busca. A busca é o mais importante, a vida é só o meio.Esse é o significado oculto do lema da Escola Iniciática de Sagres: Navegar é preciso, viver não é preciso...

4 - tentar apagar a história pessoal, que nos aprisiona.

5 - quebrar as rotinas e hábitos. Eles nos cristalizam em torno do ego.

6 - assumir toda a responsabilidade pelos nossos atos.

7 - usar a morte como conselheira.

8 - praticar o não fazer.

9 - levar a atenção à sensação, à respiração.

10 - praticar o relaxamento.


É muito? Claro que é. Vamos fazer pelo menos uma. Devegar. Há muitos caminhos...

sábado, 30 de outubro de 2010

A Morte como conselheira

A morte é a única coisa que modera os nossos espíritos.
Por mais que fujamos do assunto, a morte é um tema central das tradições autênticas do trabalho interior, como a dos videntes toltecas do Antigo México a exemplo das outras tradições antigas genuínas como o budismo, cristianismo, islamismo, hinduismo, o judaísmo, o taoísmo, a egípcia, etc..
Aparentemente diferentes na forma exterior e ritos, para o observador atento, todas essas tradições revelam porém um eixo comum de pressupostos, conceitos e portanto da própria essência de que ele é formado. A idéia da morte sempre está presente no eixo do conceito das tradições de busca interior.
Qual será a razão? Porque uma idéia tão negativa, desconfortante e desafiadora para nós, é acatada por todas as tradições como tão importante? Mesmo a tradição cristã tinha um ritual chamado A Boa Morte, simulando concretamente o bardo da passagem de um estado para outro, como faz a Maçonaria e outras tradições, mas logo se apressaram a excluí-lo das práticas cristãs nas igrejas. É muito mais confortável violão na Missa. Muito mais maneiro, mais políticamente correto. Morte está fora de moda...
Uma perda, meus caros. Uma perda...
A visão tolteca da morte apresentada por Don Juan na obra de Castaneda, porém, dá indícios dessa importância e acrescenta pontos inesperados de compreensão a partir da nossa mente habitual.
Como aprendizes desta tradição, somos desafiados a não só encará-la de frente sem medos nem escapes mas, o que é mais desconcertante, devemos nos aproximar da Morte como uma amiga e conselheira!
Para um ocidental, que desconhece a impermanência das coisas, criado numa paisagem que valoriza o sucesso, a propriedade, o ter ao invés de ser, a idéia é inaceitável. É a antítese da vida. O avesso do avesso como diz o Caetano.  O ocidental, porém, não percebe que esses valores comuns e corriqueiros reforçam a idéia de que eu sou imortal, de que a morte é sempre a dos outros e não a minha. No máximo ela me incomoda mais de perto quando leva um amigo, um parente próximo, mas em seguida estamos refeitos. Basta umas boas férias. E como "imortais que somos", nunca estamos preparados para o espetáculo da nossa morte individual, específica, pessoal como no Bardo Thodol, o livro da morte tibetano. Porque "imortal não tem que se preparar para nada, ora"...  Nem aprendemos o que fazer nessa hora da passagem. Muito menos durante e depois.
Para o aprendiz tolteca, rompida essa barreira pela aproximação voluntária com a morte, somos instigados depois a usá-la consistente e disciplinadamente como instrumento crucial de despojamento rotineiro do ego e de desapego dos valores socialmente aprendidos. Só então poderemos abrir uma brecha na nossa estrutura cristalizada de hábitos, história pessoal e auto-importância de seres comuns. Isso é essencial para o aprendizado da liberdade.
É um desafio monumental.
Os 12 livros que compõem a obra de Castaneda, mais os três outros dos seus seguidores definem os contornos do conceito da morte na visão tolteca e fornecem visões sugestivas, contam fatos e feitos dos guerreiros, e nos jogam no meio de uma fogueira de idéias inesperadas e instigantes.
Castaneda disse uma vez a através de Armando Torres, índio descendente dos toltecas, bruxo e escritor, que a árvore da qual será construído o nosso caixão, provavelmente já foi cortada...já pensou nisso?
Don Juan dizia a Castaneda que não há poder que garanta que você vai viver mais um minuto. E que a sua morte individual está do seu lado esquerdo à distância de um braço. Aprenda a conversar com ela. Peça conselhos nas horas difíceis.
Na melhor das hipóteses, temos pouco tempo...então o que fazemos?