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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Meditação No Agora - Passo A Passo Sem Mistério


Não é uma meditação onde você precisa ficar imóvel, porque às vezes no momento que alguém fala meditação as pessoas ficam imóveis (rsrs). Você pode não sentar assim imóvel o tempo todo, mas é sempre do Presente que se trata.
Então, com a “meditação do momento presente” há algo um pouco diferente. É uma coisa incrível o presente. Geralmente menosprezada...
A coisa mais incrível - eu chamo de coisa, mas é claro que não é uma coisa - para a maior parte das pessoas no seu estado normal de consciência, e “normal” aqui significa talvez um pouco ou até mesmo muito insano, no estado normal de consciência o presente é geralmente menosprezado, habitualmente.
Inconscientemente, as pessoas foram condicionadas a menosprezar a coisa mais importante que já existiu, já que a sua vida inteira de fato consiste do Presente. E nunca houve nenhuma outra coisa. Tudo acontece no presente. Quando você lembra é no presente, e quando você pensa no futuro, que é claro, nunca chega como futuro, só pode chegar como o presente. Mas as pessoas vivem como se o presente fosse indesejado ou um obstáculo ou o desprezam. E algumas pessoas habitualmente vivem constantemente desgostando o “ser do momento presente”. É esse é o estado normal de consciência das pessoas, às vezes escondido por um sorriso...
Quando você se torna ciente do presente, e as vezes as pessoas entendem quando eu falo disso, é claro que todos vocês já sabem disso, mas tem pessoas que ainda não sabem, pois se conectam através das mídias que ainda não sabem.. E quando você percebe que isso é tudo que existe, sua vida inteira consiste do Agora e só pode se desenrolar no Agora... Que é agora (rsrs). Qualquer emoção que você sinta, qualquer coisa que pensa, qualquer experiência, é tudo inseparável do Agora.
Mas para algumas pessoas o Agora é abstrato, não é interessante o suficiente. Então, vamos ver o que isso significa, e vamos fazer um acordo nessa meditação e vamos chamar a meditação desta tarde “a jornada no Agora”.
Geralmente quando você fala com as pessoas sobre o Agora ele é normalmente associado com a primeira coisa que aparece, talvez seja o ambiente à sua volta e isso já é um grande passo no Agora. É o primeiro passo importante no Agora para ficar ciente de tudo o que esteja ao seu redor, independente de onde estiver e o que estiver acontecendo nesse espaço.
E você pode notar que quando você fica ciente das percepções dos seus sentidos, porque é o que faz com que você perceba o que for que acontece ao seu redor que envolve visão e audição e alguns outros sentidos ampliados, a gente entra no Agora. Nós nos tornamos mais cientes do nosso espaço, primeiro passo pra dentro do Agora.
E quando você faz isso e vamos fazer agora, e não vamos fazer como um pensamento. Não precisamos praticar o Agora, você só precisa ficar mais ciente do espaço ao seu redor. E não é uma ação. É ficar ciente do que tem nessa sala: as pessoas na sala, o homem falando na cadeira, as luzes, o arranjo bonito, esse é o espaço do Agora.
E então o que você faz é admitir “O que é”. E junto da admissão você vai um pouco mais à fundo, e você aprecia o que é, o que antes você provavelmente nem notou, e isso já uma coisa maravilhosa.
Existem algumas pessoas que ainda não estão prontas pra ir mais fundo que isso, e não tem problema. É o suficiente dar somente 2 passos até o Agora, vamos dizer 3. As pessoas gostam da ideia de passos.
Vamos chamar de primeiro passo você se tornar mais ciente do espaço ao seu redor. Passo 2, você compreende. E com a compreensão vem o senso da bondade, do jeito que as coisas manifestam a vida ao seu redor. Tem uma vida em tudo, até no meio da cidade. Você pode dizer, ah, eu prefiro a floresta ou a praia, ou as montanhas, mas até mesmo no meio da cidade tudo que acontece, todo o movimento no meio da cidade são manifestações da vida: como seres humanos andando por ai, como carros, e casas ou prédios. E tem também algo ali que é ok, uma compreensão da vida.
E então vem uma apreciação...
Você pode ver algo que antes não apreciava. O céu por exemplo. Quantas vezes você esta ciente do céu? E ele é lindo, até mesmo num dia nublado, as luzes sendo filtradas pelas nuvens. E você pode notar que quando você se torna mais ciente do que eu gosto de chamar de “superfície do Agora” que é a percepção dos seus sentidos, O mundo se revela pra você.
Aí já acontece uma mudança no consciente, porque você não esta “pensando” tanto.
Você não pode estar realmente ciente dos seus sentidos, apreciar o céu ou uma arvore ou uma flor, até as cenas na rua, e... estar “pensando” muito. Você tem que realmente estar lá como a presença. Então você simplesmente admite a totalidade dessa sala. E isso é lindo, e então o próximo passo, te leva mais a fundo. E então você pode se perguntar: o que mais tem no Agora fora as coisas que aparecem na minha percepção sensorial? Isso que é o Agora?
Não. Isso é o que aparece no Agora, mas não é ainda o Agora. Então pra se tornar ciente do presente, se tornar ciente do seu ambiente é importante, e é um grande passo.
E algumas pessoas estão tão fora de contato com o seu redor, que elas nunca estão onde elas estão. Elas estão no fluxo do seus pensamentos apenas com atenção o suficiente para não bater nas coisas, mas essa é toda a atenção que eles dão. Elas conseguem manobrar entre os moveis e pelas ruas e a maior parte da atenção tá no fluxo de pensamentos - grande parte por sinal, inútil, vocês podem notar - e muito desses pensamentos, são negativos também, criticas e reclamações, tendo problemas com isso ou aquilo, pensamento numa pessoa desagradável ontem, ou 10 anos atrás, e pensando “o que pode dar errado amanha”, ou esta noite... e isso constantemente, essa consciente esta sendo absorvida pelo pensamento.
As pessoas estão na teia do fluxo do pensamento. Ele te puxa amplificado pelas coisas digitais. Nós podemos falar sobre isso depois na pegada do pensamento compulsivo. Uma coisa atrás da outra chega na sua mente e você se identifica com tudo que aparece na sua cabeça, amplificado, como eu disse, pelos aparelhos digitais, que chamam a sua atenção com extrema importância... “outro e-mail chegando, oh, uma mensagem de texto, deve ser importante, alguém acabou de postar uma foto no Facebook, dai você abre e... é um prato, alguém esta jantando”, e é claro que você tem que responder. Legal, legal!
E isso absorve toda a sua atenção, constantemente. Já era ruim o suficiente antes dos smartphones, mas agora tá amplificado, mais coisas na sua cabeça, coisas e coisas e você acaba se afogando em coisas... Não fisicamente, algumas pessoas se afogam fisicamente, mas você se afoga em coisas mentais. Um pensamento após o outro. Uma mensagem atrás da outra, um post do Facebook atrás do outro, uma memoria desagradável atrás da outra, uma reclamação atrás da outra, o que outras pessoas fizeram, ou falharam em fazer, deviam ter feito, mas não fizeram, não tem fim pra essas coisas e você acaba perdendo o presente. Ainda, a sua atenção é constantemente absorvida por pensamentos compulsivos e inúteis. Imagine viver assim por 10, 20, 30, 40 anos, o que isso não faz com você...
Ter esse estado de consciência... Que tipo de pessoa esse estado de consciência produz? Ansioso, irritado, qualquer que seja o seu estado constantemente insatisfeito, precisando desesperadamente da próxima coisa que nunca é o suficiente. Então é isso que estamos absorvendo. Só queria mostrar uma pequena demonstração do estado chamado de “normal”.
Então, vamos voltar para o presente, e quando você se torna mais ciente da sua percepção sensorial.
O seu estado de alerta - e quando eu falo alerta, não deixe isso ser só uma coisa conceitual, alerta é algo que só você pode saber, e você só pode saber o que é estar alerta através da experiência - você não consegue entender o que é.
E eu acredito que todo mundo aqui já sabe e pode verificar nas suas próprias experiências a diferença entre ser absorvido, se identificar com a voz na sua cabeça que é o habito do pensamento compulsivo, e o “estado ciente de alerta” que só se parece com isso.
Ah, e por sinal, teve muita conversa sobre “mindfullness” (mente completa) aqui, e eu nunca uso essa palavra, exceto quando eu vou dizer que não uso, e explico o porquê de não usar: não tem nada de errado com a palavra eu só prefiro usar a palavra “Presença”, e a razão é que para mim, “mindfullness” se refere a “mente cheia”, e nós não queremos isso, então. Mas você pode perfeitamente usar essa palavra, é só uma preferência minha...
Na “Presença” você se torna mais ciente de si, precisa haver menos pensamento e mais Presença. Então, o pensamento diminui com aquele alerta ciente. E não deixe serem somente palavras que eu faço agora enquanto eu falo.
Você pode verificar em si mesmo que pode haver uma troca sutil entre estar envolvido no pensamento, para estar aqui com a sua atenção total. Então, tem pouco pensamento agora, porque você não pode estar 100% ciente e ao mesmo tempo pensando.
O próximo passo até o Agora é que a medida que você se torna mais ciente das sua percepção sensorial você pode também sentir, o simples mas lindo fato de que “você esta vivo”.
E como isso vem? Às vezes vem naturalmente à medida que o pensamento fica de lado e o alerta continua, e você sente que existe uma vida prevalecendo. No seu corpo inteiro. Sutil, em algum lugar, mas você pode sentir que em seus braços e suas pernas existe uma vida. E isso pode se tornar parte da sua experiência. Do Agora. Então agora você começa a ficar presente. O que podemos chamar Presente por dentro. E presente por fora. Então você pode sentir sua própria vida. Se você não consegue, se pergunte. Para essas poucas pessoas aqui, provavelmente pouca gente que não consegue sentir o campo de energia do corpo, o que eu chamo de corpo interno. Eu pergunto às vezes. Se você fechar seus olhos e colocar as suas mãos assim e se perguntar: Como você pode saber que são suas mãos, sem movê-las ou vê-las? Como sei que elas ainda estão ali? É uma pergunta engraçada... Como eu posso saber, sem tocar, mover ou ver as minhas mãos, como eu sei que elas ainda estão ali?
E nesse momento, você não consegue ter uma resposta conceitual, você só pode sentir. Você sabe por sentir uma vida dentro de suas mãos. E a sua atenção se moveu do “estar pensando” e desengatou do movimento do pensamento e o Agora está fluindo em suas mãos
E do mesmo jeito, se você consegue sentir as suas mãos você pode sentir seus pés pode sentir o corpo inteiro como um sutil campo de energia. E esse é um lugar ótimo para estar. E você começa a ficar mais centrado no Agora. E você esta presente. Por dentro e por fora
O corpo, eu chamo as vezes de uma âncora que o mantem presente, e isso ajuda, porque a mente egocêntrica, a mente inconsciente é muito esperta. E se você não praticar a presença, especialmente quando você começa, se você não tiver uma âncora para o presente, a mente vai rapidamente vir com um pensamento e esse pensamento pode ser qualquer coisa, mas vai vir dizendo ser de extrema importância, e vai dizer, “me siga, você precisa pensar sobre isso, isso requer a sua atenção imediatamente”... às 3 horas da manha, na cama...
E esse pensamento, é claro pode se proliferar em outros pensamentos, ansiosos e arrependimento. “E se aquilo for sobre a minha vida inteira? Eu tenho que... Eu tenho que dar um jeito na minha vida. Foi tudo, tudo... inútil, o que eu fiz com a minha vida”.
Mas o que é a minha vida? É uma construção mental que você chama de vida, quando na verdade você esta perdendo a vida no presente! Mas então você precisa saber que esse seu pensamento, que é muito sedutor e hipnótico, ele vai vir e pegar a sua atenção novamente se você não souber o que ele está fazendo. Mas se você sabe que é isso que ele esta fazendo, então você pode falar: ah...
Mas não só falar, mas estar ciente que tem um novo pensamento querendo entrar. E no momento que você fica ciente, você não precisa seguir mais o pensamento. Você pode simplesmente permitir que ele passe pela sua mente e então ele se foi novamente. E você pode dizer que “minha escolha é manter a minha atenção no meu corpo” e você nem precisa verbalizar, a escolha vem e você sabe.
E então, você não esta mais sofrendo de uma noite indesejável de sono. Você na verdade esta tendo uma ótima meditação e não pedindo que esse momento deva ser diferente do que ele é. E você sente a sua vida e o seu campo energético. Isso é a sua vida. A vida do presente.
E então talvez agora nós possamos ir um pouco mais fundo...  Percepções sensoriais... Aceitando e apreciando o sentir do campo de energia do corpo. Todas essas coisas emergem do presente, e... Tá faltando alguma coisa? O que é que forma a totalidade do presente é... A percepção, sentimentos. Pode haver pensamentos também.
Vindo e saindo. Você não precisa segui-los, mas eles ainda vêm e vão... Alguns pensamentos, e então há espaço entre os pensamentos. E isso é extremamente importante: descobrir que existe tal coisa em você, como um espaço entre um pensamento e outro. E então não tem uma linha de pensamento interrupta.
De repente, você se torna ciente desse espaço. E isso dá uma sensação extremamente boa e poderosa. E você sente, realmente... Você vem para você mesmo. Não o “você” que tem uma história, não o você que se identifica com seu histórico pessoal, mas algo que transcende esse histórico pessoal, algo que transcende também tudo o que se percebe com os sentidos sensoriais, o que é o estado mais profundo do Agora, e na verdade a essência do Agora...É isso! O que te possibilita estar ciente dos seus sentidos, ter um pensamento, sentir teu corpo. Então, tem algo a mais que não é uma coisa. E nos podemos chamar isso de “a sua Presença”.
Nós podemos chamar isso de um espaço de estar ciente, ou a consciência em si, e a coisa mais incrível na sua meditação é a descoberta de você mesmo. Não como uma pessoa com um histórico limitado, Isso também, ainda existe, essa dimensão, mas existe uma dimensão mais profunda em você, aonde o que quer que tenha acontecido à pessoa, boa ou ruim, transcendeu e se torna irrelevante.
Há um senso profundo de se você mesmo quando você pode perceber que aquilo que faz a sua percepção sensorial possível, qualquer pensamento possível, qualquer emoção possível é o fato de que existe uma luz de presença em você. Nessa luz de presença você percebe essa sala... Nessa luz de presença um pensamento vem e vai. Se muitos pensamentos vierem e você não tiver mais espaço entre eles, essa luz de presença se torna obscura... Ela ainda está ali, mas é como um dia totalmente nublado. Você não consegue mais ver o sol. O sol ainda esta entrando pelas nuvens, mas você não sabe. Tudo que você vê são as nuvens. E isso é o normal. O destino de milhões de humanos aqui na terra. Tudo que eles sabem são as coisas nas suas cabeças. Todo o seu senso de si mesmo vem das coisas nas suas cabeças. Destino terrível. Mas ninguém nos diz que é terrível. É normal.
Se você nascer dentro de um manicômio, então você não sabe que todos são loucos, porque todos são loucos. Então, isso é... Nós estamos indo além de quando emerge essa possibilidade de entrar em um estado diferente de consciência.
Não só como uma coisa isolada, com uma meditação.
Mas pra trazer essa - vamos recapitular agora - o estar ciente de que você esta ciente. Isso parece um pouco engraçado. Você consegue estar ciente, agora mesmo que, tudo o que você corre atrás ou pensa ou sente, só pode estar ali porque você esta ali como o espaço para eles. O espaço da consciência no qual ele surge.
Outra pergunta que eu poderia fazer
Para apontar a vocês essa realidade é perguntar... Como que é ser você? Sem ter que usar alguma memoria. Você AGORA. Não é lembrar-se do seu histórico. Porque isso é só uma história na cabeça. Mas, como é ser você? E não existe uma resposta conceitual, porque eu estou perguntando sobre uma verdadeira experiência ou realização agora mesmo, aqui, agora. Como você se sente?
Qual é a essência de quem você é? Você consegue sentir a sua própria presença? Agora, quando eu digo, sua própria, não está totalmente correto. Não é SUA, mas vamos colocar assim por um momento.
Você consegue sentir a presença real? O que é a essência de quem você é? E não tem uma forma, é apenas estar ciente, desse espaço, e isso é uma coisa incrível. Você conhecer você mesmo como um “espaço de consciência” que te liberta da crença de que o seu passado é quem você é, porque, o seu passado não é tão legal assim. Pelo menos o meu não é. Seria frustrante se eu pensasse no meu passado.
Quem eu sou transcende o meu histórico. Não é também o meu passado mostrando essas grandes coisas e realizações. Não. É entender a real insignificância do meu passado
Para algumas pessoas, um ponto funciona melhor do que o outro, por isso estou dando opções para que você possa se perguntar, ou eu posso perguntar a você “Você é capaz de estar ciente do fato de que você está ciente de que você esta consciente?”
Isso ainda parece entrar em conflito, porque eu estou usando a linguagem, mas é só por eu estar usando a linguagem. O que realmente acontece quando você esta ciente da sua consciente, não é
Aqui estou eu e aqui esta o “eu estou ciente da minha consciência”. Não é assim que funciona, você não pode estar ciente da consciência assim (dividido). Você só pode estar ciente da sua consciência como você mesmo, como o sujeito principal. Sua consciência nunca pode se tornar uma coisa, um objeto na consciência. Todo o resto é, sim, um objeto em consciência, mas você não pode estar ciente da consciência Como um objeto. Porque a consciência é você. A essência de você. E essa essência é a essência do presente.
Então quando nós vamos até o nível mais profundo do presente, quando você vai até o nível mais profundo do presente o que você acha que você descobre? Você mesmo. A essência de você.
ENTÃO A ESSÊNCIA DE VOCÊ, QUE É UM ESPAÇO, CONSCIENTE, É INSEPARÁVEL DA ESSÊNCIA DO PRESENTE.
Então quando você vai fundo no presente que é a dimensão vertical - a maior parte da vida vivemos numa dimensão horizontal, associada com as coisas na sua cabeça, passado e futuro... Eu preciso fazer tal coisa pra chegar a tal lugar... - e isso mantem você preso. Mas aqui, de repente, no Agora - A dimensão vertical é Agora – leva você mais para o fundo dentro do Agora, até o ponto de descoberta de que A ESSÊNCIA DO AGORA É ACIMA DE TUDO, QUEM VOCÊ É. E isso é uma incrível e libertadora realização, porque te liberta de uma falsa sensação de si mesmo!
Se você não entender a essência de quem você é, você passa a sua vida inteira numa falsa ilusão de si mesmo, a qual eu chamo de EGO. É uma ilusão falsa de si mesmo que é derivada da atividade mental mais as emoções
E porque você se identifica tanto com a mente, um completo senso de si mesmo, que é o ego, é derivado de certos hábitos e repetitivos padrões de pensamento mais os padrões também de emoção.
Esse pacote que se repete de pensamentos inconscientes e compulsivos, mais os padrões de reação emocional, esse pacote - as pessoas que não conhecem aquele nível profundo de quem elas são - isso é denominado de A Pessoa. O pacote de pensamentos habituais que te dizem a tua história e você conta pra outros também - Quer ouvir minha história? Você sofreu? Não? Escuta aqui a minha história... Seu sofrimento não é nada...
Como meu pai costumava dizer sobre dor: alguém dizia ter uma dor e ele dizia: Você tem uma dor? Eu tenho uma dor há anos e nem falo dela.
Você pode melhorar o seu senso de si mesmo, e mesmo assim, é sempre um falso senso de si mesmo. E você está preso nisso. No que  o Buda chamou de “O si mesmo ilusório”. O si mesmo que não tem uma realidade real. Então o Buda disse - E isso esta gravado nas escrituras antigas - a falta de realidade de si mesmo, essa entidade feita pela mente.
E claro os ensinamentos do Buda eram, eles apontavam - uma das essenciais nos ensinamentos budistas é o Vazio. O que isso te lembra? Estar ciente do espaço consciente. Presença, sem forma. Jesus disse a mesma coisa.
O reino dos céus não vem com placas para ser procurado. O que isso significa? Significa que você nunca pode dizer: Ah lá esta. E por que não? Porque você é ele. Nunca pode se tornar um objeto na sua consciência, porque é a consciência em si.
E as pessoas tem repetido as palavras de Jesus por 2 mil anos. E quem realmente as entendeu? Praticamente ninguém. Talvez 1 ou 2 budistas (risos).
Então esse é o segredo da vida. E é tão simples. É saber quem você é. Quem você é além do que aparece na superfície. E isso não significa que você não pode se lembrar do seu histórico. Claro que você pode se lembrar do seu passado pessoal. Isso é ok, porém você não se sente mais preso naquele exclusivo senso de MIM.
Um jeito tão frustrante de viver.
Com esse pequeno mim sempre se sente ameaçado pelas coisas e precisa se identificar com outras coisas e nunca se sente completo ou satisfeito. Sempre uma sensação de não ter o suficiente. Jeito terrível de viver. Então nós estamos transcendendo e essa é a mudança de consciência, e então quando você traz isso para o seu dia a dia, esse estar ciente dos espaços, e estar ciente de si mesmo, como um espaço consciente. Você também pode chamar de estado imóvel.
Até quando você fala você ainda pode sentir por baixo a presença. No plano de frente, você fala e escuta, mas no plano de fundo, esta ciente. Ciente de si. Em outras palavras, você sente a sua própria presença. Que não é sua, é apenas uma presença junto da presença universal.
Você pode notar que eu não uso a palavra Deus, porque no momento que você usa a palavra, deus se torna um conceito na sua mente. Então o Buda sabiamente também evitava. Quando eles perguntavam “Você nunca fala de Deus. Existe um Deus?” E é claro - esse é o final de nossa meditação - a resposta do Buda foi como reportada nas escrituras... Quando ele foi perguntado, existe um Deus?
Buda manteve um nobre silencio... Essa foi a resposta

Advinhem de quem é esse texto?


domingo, 9 de março de 2014

O Estado Natural da Mente

Nas postagens "Sun Gazing - A Medicina Gratuita do Futuro" e "A Roda da Vida", citamos este tulku ( que significa reencarnado, em tibetano) que fixou-se nos EUA e é um dos responsáveis pela difusão do budismo tibetano no ocidente, como são Trung Pa, Tenzin Wangyal Rinpoche e tantos outros. A palavra está com ele:
"Os que não estão acostumados à meditação entendem, não raro, que ela é uma coisa estranha, inusitada, não natural - uma experiência exótica a ser realizada - ou que a meditação é uma coisa diferente da pessoa que medita, ou que é, pura e simplesmente, outra faceta da psicologia ou da filosofia oriental, que deve ser pesquisada, estudada e explorada. A meditação, todavia, não é algo estranho, separado ou externo. A meditação é o estado natural da mente, e a natureza inteira da mente pode ser a nossa meditação.
A meditação começa quando permitimos ao nosso corpo e à nossa mente que se relaxem de um modo profundo e pleno... o que fazemos ao vivenciar o sentimento que vem com o simples soltar, sem mesmo haver dito a nós mesmos para fazê-lo. Quando deixamos tudo ser exatamente como é, e atentamos para o silencio das nossas mentes - isso passa a ser a nossa meditação. Este silêncio não é apenas a ausência do som nem mesmo a liberdade da distração; é a abertura plena, a presença da mente. Quando simplesmente permanecemos silenciosos no interior do momento - sem nos apegarmos à segurança, sem tentarmos compreender os nossos problemas - tudo o que resta é percepção.
A meditação é o processo do auto-descobrimento. Em certo nível, a experiência da meditação nos mostra os padrões das nossas vidas - a maneira com que carregamos nossas características emocionais desde a infância. Em outro nível, porém, ela nos liberta desses padrões, facilitando para nós a visão dos nossos potenciais interiores.
Quando examinamos, olhando para trás, os padrões dos nossos pensamentos, podemos, às vezes, observar e identificar as decepções criadas por nossas auto-imagens.
Podemos aprender a enxergar através das atitudes e do faz-de-conta da mente e através de todas as nossas explicações e escusas. Podemos compreender que estamos apenas disputando jogos e que estamos longe do genuíno conhecimento de nós mesmos.
Estamos sempre fixando limites e restrições arbitrárias a nós mesmos, olhando para o mundo e vivenciando-o a partir de pontos de vista rígidos; achamos que uma experiência não-relacionada com nossos sentimentos ou projeções não tem valor. Mas, quando passamos além da objetivação de conceitos, além do dualismo, além do espaço e do tempo, o que teremos a perder? Se perdermos alguma coisa, perderemos, quando muito, nossos medos, nossas idéias-fixas, o nosso tenso apego a um "eu" imaginado e à imaginada segurança desse "eu". O estado de espírito natural nada tem para perder. É só por causa da nossa alienação de nós mesmos que deixamos de compreender antes que podemos ficar dentro da atenção, que é a nossa natureza intrínseca, nosso próprio lar.
Embora "falemos" a respeito da nossa natureza intrínseca, isso não significa necessariamente que a vivenciamos. Ao invés disso, quase todos somos continuamente surpreendidos no processo de gerar idéias e explicações... de modo que a nossa mente prossegue nesse curso, interminavelmente. O "eu" está se associando com várias emoções, sentimentos, conceitos e reflexões psicológicas. O ego está sempre esperando para perguntar-nos se realizamos alguma coisa; de modo que temos de "responder" a nós mesmos o tempo todo - e nos vemos fora da nossa experiência, olhando para dentro.
Conquanto tentemos, com todo o nosso empenho, ser atentos e perceptivos, nossos diálogos interiores e projeções criam obstáculos que estragam a imediação da nossa experiência. Quanto mais tentamos interpretar uma experiência e vesti-la com palavras, tanto mais nos apartamos dela. Quedamo-nos com conceitos "fixos" e opiniões dualísticas acerca do mundo, de modo que nossas respostas e reações a situações cotidianas não fluem de um estado natural. É como se fôssemos viver no meio de um formoso jardim de flores - e, não obstante, não déssemos atenção a ele. Podemos gastar anos e anos explicando, pensando e analisando, sem nunca descobrir esse estado natural.
Compreender esse estado mental é difícil, porque acreditamos que nossos pensamentos, emoções e sentimentos são "meus"; julgamo-los em relação com a "minha" situação, a "minha" vida. Mas pensamentos e sentimentos não são "eu". Um pensamento simplesmente é associado a outro pensamento, que depois se associa a um terceiro. Cada pensamento envolve várias palavras e imagens, como as imagens de uma fita de cinema, que se movem continuamente, para a frente e para trás, de tal sorte que a série de imagens ocupa a nossa percepção e drena a nossa energia. Finalmente, perde-se a percepção. Ficamos como crianças que assistem a um desenho animado - perdidas ali, com os olhos arregalados pregados à tela.
Quando observamos as nossas mente, vemos que a nossa consciência se fixa com facilidade em pensamentos ou em entradas sensoriais. Por exemplo: quando ouvimos de repente o bater de uma porta ou o guinchar do tráfego, nossas mentes projetam imediatamente uma imagem ou conceito; e, associada a essa idéia ou imagem, há uma experiência de tons de sentimentos muito preciosos e exatos. Estando dentro do momento imediato, é possível entrar "dentro" dessa experiência. Nesse momento descobrimos certo tipo de atmosfera ou ambiente interior que não tem forma, nem formato, nem característica específica, nem estrutura. Não há palavras, imagens, conceitos ou posições para manter - visto que qualquer posição - uma posição de manutenção, uma posição de exame ou uma posição "além"- ainda estaria se referindo a algo que se encontra, em última análise, relacionado conosco como o sujeito. Por conseguinte, para libertar-nos dos padrões dualísticos da nossa mente é importante passar "além" das compreensões e crenças relativas, olhar "para dentro" e, tanto quanto possível permanecer dentro do primeiro momento da experiência.
Visto que a mente, em sua verdadeira natureza, não tem dualidade, não está separada da unidade de tudo o que existe, nossas vidas tornam-se a nossa meditação. A meditação não é uma técnica para fugir deste mundo - é um bom amigo e um bom professor que podem guiar, amparar e ajudar a nossa mente a tocar diretamente nosso ser mais íntimo, sem paredes que nos separem da nossa percepção, da nossa inspiração e da nossa intuição. Através dessa experiência podemos estabelecer contato com a nossa própria inteireza.
Por conseguinte, a qualquer momento podemos fazer amizade com a meditação; e, na visão que nasce da meditação, experimentamos toda a existência como plena e bela - pois tudo tem beleza, o modo com que trabalhamos, pensamos, falamos - cada situação tem o seu próprio valor inerente e o seu significado. Quando trazemos a luz da meditação para a nossa vida, esta se torna mais rica, mais significativa e mais expressiva, e somos capazes de lidar aberta e diretamente com todas as situações.
Essa percepção natural é simples e direta, aberta e receptiva, imediata e espontânea, sem obscurecimento; não há medo nem sentimento de culpa, não há problema sem desejo de escapar ou de ser de outro modo. "Natural" quer dizer "não-fixo", quer dizer não ter expectativas, nem compulsões, nem interpretações, nem planos predeterminados.
Quando a meditação se aprofunda, não há necessidade de fixá-la, melhorá-la ou aperfeiçoa-la. Não há necessidade de progredir, visto que tudo se move no estado natural da realidade.
Uma vez que somos capazes de vivenciar essa percepção imediata, não há nada entre a nossa mente e a meditação. A experiência é sempre nova, inédita, clara e bela. Se bem esteja além do nosso senso comum de tempo, ainda há continuidade. Tudo é exatamente "como é", sem que nada lhe seja acrescentado nem subtraído.
Se, na nossa meditação, pudermos ficar em nosso momento presente, é possível experimentar esse estado mais elevado de percepção. Mas quando nos agarramos às projeções mentais ou tentamos recordar instruções específicas ou certos processos, apenas continuamos a seguir os movimentos da mente no nível da consciência. Podemos estudar e praticar durante anos num nível conceitual, executar inúmeras ações positivas e reunir uma grande quantidade de informações mas, ainda assim, não chegar muito mais perto da verdadeira compreensão. Portanto, é necessário expandir a percepção para fora do domínio do diálogo interior, alargar-nos e abrir-nos o mais que pudermos, e ficarmos muito silenciosos. Estes ainda são apenas conceitos; porém, mais tarde, com a prática, podemos passar, além dessas idéias e padrões conceituais, a um estado de todo destituído de um centro, porque todas as limitações que exigem um centro se dissolveram - e isso é meditação.
À proporção que desenvolvemos a meditação, já não precisamos apoiar-nos em explicações intelectuais para justificar quem somos, pois a nossa auto-identidade redutora se dissipa, como o nevoeiro tocado pela luz do sol. Depois que tivermos compreendido isso, não precisamos lutar com o nosso ego e nossas emoções negativas - ou com discriminações entre o bem e o mal, o positivo e o negativo, o caminho espiritual ou a ação habitual. Dentro da experiência da meditação, a percepção espontânea surge por si mesma, e os conflitos emocionais e os problemas começam a perder seu domínio e tornam-se muito enevoados. Depois que deixamos de alimentar nossos problemas, eles desaparecem dentro da própria percepção. Durante todo esse tempo, podemos ver efetivamente que toda a natureza da mente é a nossa meditação. E, através disso, a nossa mente se torna iluminada de uma energia poderosa e preciosa, e nós vivenciamos diretamente uma compreensão indescritível e onisciente."

Do livro "GESTOS DE EQUILÍBRIO" de Tarthang Tulku

domingo, 20 de outubro de 2013

O Ensonhar

Falamos do sonho em pelo menos 5 postagens :
O Sonhar, O Sonho, Portal da Consciência, O Sonho - Visão ToltecaO Sonho - Visão Budista, e finalmente O Sonho e o Rupigwara. Hoje vamos falar do "ensonho", na visão de Dom Juan no livro Passes Mágicos, de Carlos Castaneda:

"Dom Juan Matus definia sonhar como o ato de usar sonhos normais como uma autêntica entrada para a consciência nos outros domínios de percepção. Para ele, essa definição implicava que os sonhos comuns podiam ser usados como uma portinhola que conduzia a percepção para outras regiões de energia diferente da energia do mundo da vida cotidiana e, no entanto, absolutamente semelhante a ela em um núcleo básico. Para os feiticeiros, o resultado de uma tal entrada era a percepção de mundos verdadeiros nos quais eles podiam viver ou morrer, mundos que eram estarrecedoramente diferentes dos nossos e, no entanto, absolutamente semelhantes.
Pressionado por uma explicação linear sobre essa contradição, Dom Juan Matus reiterava a posição padrão dos feiticeiros: de que as respostas para todas essas perguntas estavam na prática e não na inquisição intelectual. Ele dizia que, para conversarmos sobre tais possibilidades, precisaríamos usar a sintaxe da linguagem, qualquer que fosse a linguagem que falássemos, e que aquela sintaxe, pela força da utilização, limita as possibilidades de expressão. A sintaxe de qualquer linguagem só se refere a possibilidades perceptivas encontradas no mundo em que vivemos.
Dom Juan fazia uma importante diferenciação entre dois verbos em espanhol: um era sonhar ( soñar) e o outro era ensonhar (ensoñar), que é “sonhar da maneira que os feiticeiros sonham”, ou seja, o sonho lúcido, consciente, uma abertura para outros mundos e uma área de atuação e evolução como é este.
De acordo com o que Dom Juan ensinava, a arte de sonhar se originou de uma observação muito casual que os feiticeiros do antigo México fizeram quando viam pessoas que estavam adormecidas. Eles notaram que durante o sono o "ponto de aglutinação" era deslocado, de uma maneira muito natural e simples, da sua posição habitual e que se movia para qualquer lugar ao longo da periferia da esfera luminosa ou para qualquer lugar no interior dela. 
(NR – o ponto de aglutinação é o ponto luminoso onde a percepção e interpretação dos dados sensoriais é agrupada no corpo energético dos seres) 
Correlacionando a sua visão com os relatos das pessoas que tinham observado dormindo, eles perceberam que, quanto maior o deslocamento observado do ponto de aglutinação, mais estarrecedores eram os relatos dos acontecimentos e cenas vivenciados em sonhos.
Após essa observação se apoderar deles, os feiticeiros começaram a procurar avidamente oportunidades para deslocarem os seus próprios pontos de aglutinação. Acabaram usando plantas psicotrópicas para conseguir isso. Muito rapidamente perceberam que o deslocamento ocasionado pelo uso dessas plantas era errático, forçado e fora de controle. Contudo, no meio desse fracasso, descobriram uma coisa de grande valor. Chamaram-na de atenção ao sonhar.
Dom Juan explicava esse fenômeno referindo-se primeiro à consciência diária dos seres humanos como a atenção colocada nos elementos do mundo da vida cotidiana. Ele salientava que os seres humanos só lançavam um olhar superficial e, contudo, sustentado para todas as coisas que os cercavam. Mais do que examinar as coisas, os seres humanos simplesmente estabeleciam a presença daqueles elementos através de um tipo especial de atenção, um aspecto específico da sua consciência geral. A sua 
legação era que o mesmo tipo de "olhar", por assim dizer, superficial mas sustentado podia ser aplicado aos elementos de um sonho comum. Ele chamava esse outro aspecto específico da consciência geral de atenção ao sonhar ou da capacidade que os praticantes adquirem de manter a consciência inflexivelmente fixada nos itens dos seus sonhos.
O cultivo da atenção ao sonhar deu aos feiticeiros da linhagem de Dom Juan uma classificação básica dos sonhos. Descobriram que a maior parte dos seus sonhos era imaginação, produtos da cognição do seu mundo diário. Entretanto havia alguns que escapavam a essa classificação. Tais sonhos eram estados verdadeiros de consciência intensificada nos quais os elementos do sonho não eram simples imaginação, mas ocorrências geradoras de energia. Para os xamãs, os sonhos que tinham elementos geradores de energia eram sonhos em que eles eram capazes de ver a energia como ela fluía no universo.
Esses xamãs eram capazes de focalizar sua atenção ao sonhar em qualquer elemento dos seus sonhos e, dessa forma, descobriram que existem dois tipos de sonhos. Um são os sonhos com os quais todos nós estamos familiarizados, nos quais elementos fantasmagóricos entram em ação, algo que poderíamos categorizar como produto da nossa mentalidade, da nossa psique; talvez algo que tenha a ver com a nossa constituição neurológica. O outro tipo de sonhos eles chamavam de sonhos geradores de energia. Dom Juan dizia que aqueles xamãs dos tempos antigos se descobriram em sonhos que não eram sonhos e sim verdadeiras visitas feitas, em um estado parecido com o sonho, a lugares autênticos que não eram deste mundo - lugares reais, exatamente como o mundo no qual vivemos; lugares onde os objetos do sonho geravam energia assim como, para um feiticeiro vidente, as árvores, os animais ou até mesmo as rochas geram energia no nosso mundo diário.
Entretanto, para os xamãs, suas visões de tais lugares eram efêmeras demais, temporárias demais para lhes serem de algum valor. Eles atribuíam essa falha ao fato de que os seus pontos de aglutinação não podiam ser mantidos fixos por qualquer tempo considerável na posição para a qual tinham sido deslocados. As suas tentativas de remediar a situação resultaram na outra arte magna da feitiçaria: a arte de hastear.
Um dia Dom Juan definiu as duas artes com muita clareza quando me disse que a arte de sonhar, consistia em deslocar propositadamente o ponto de aglutinação da sua posição habitual. A arte de hastear consistia em voluntariamente fazê-lo permanecer fixado na nova posição para a qual tinha sido deslocado.
Essa fixação permitia aos feiticeiros do antigo México a oportunidade de testemunharem outros mundos em toda a sua extensão. Dom Juan dizia que alguns desses feiticeiros nunca voltaram de suas viagens. Em outras palavras, optaram por permanecer lá, onde quer que "lá" possa ter sido.
- Quando os antigos feiticeiros acabaram de mapear os seres humanos como esferas luminosas - disse-me Dom Juan certa vez -, eles tinham descoberto nada menos que seiscentos locais na esfera luminosa total que eram locais de mundos genuínos. Isso queria dizer que, se o ponto de aglutinação se fixasse em qualquer um daqueles lugares, o resultado era a entrada do praticante em um mundo totalmente novo.
- Mas existem esses outros seiscentos mundos, Dom Juan? perguntei.
- A única resposta para essa pergunta é incompreensível - disse ele rindo. - Ela é a essência da feitiçaria, contudo não significa nada para a mente comum. Esses seiscentos mundos estão na posição do ponto de aglutinação. Para que tal resposta faça sentido, são necessárias incalculáveis quantidades de energia. Nós temos a energia. O que nos falta é a facilidade ou a disposição de usá-la.
Eu acrescentaria que nada poderia ser mais verdadeiro do que todas essas declarações e, no entanto, nada poderia fazer menos sentido.
Dom Juan explicava a percepção comum nos termos em que os feiticeiros da sua linhagem a entendiam: em sua localização habitual, o ponto de aglutinação recebe um influxo de campos de energia do universo como um todo na forma de filamentos luminosos, chegando ao número dos trilhões. Uma vez que sua posição é consistentemente a mesma, o raciocínio lógico dos feiticeiros era que os mesmos campos de energia, na forma de filamentos luminosos, convergem para o ponto de aglutinação e o atravessam proporcionando, como um resultado consistente, a percepção do mundo que conhecemos. Esses feiticeiros chegaram à inevitável conclusão de que, se o ponto de aglutinação fosse deslocado para uma outra posição, um outro conjunto de filamentos energéticos o atravessaria resultando na percepção de um mundo que, por definição, não era o mesmo do mundo da vida cotidiana.
Na opinião de Dom Juan, o que os seres humanos consideram normalmente como sendo perceber é mais o ato de interpretar dados sensoriais. Ele mantinha que, desde o momento do nascimento, todas as coisas ao nosso redor nos supriam com uma possibilidade de interpretação e que, com o tempo, essa possibilidade se transforma em um sistema completo através do qual conduzimos todas as nossas transações perceptivas no mundo.
Ele salientava que o ponto de aglutinação não era apenas o centro onde a percepção é agrupada, mas também o centro onde a interpretação de dados sensoriais é realizada. Sendo assim, se mudasse a localização, interpretaria o novo influxo de campos de energia nos mesmíssimos termos que interpreta o mundo da vida cotidiana. O resultado dessa nova interpretação é a percepção de um mundo estranhamente semelhante ao nosso e, no entanto, intrinsecamente diferente. Dom Juan dizia que, energeticamente, aqueles outros mundos são tão diferentes do nosso quanto poderiam ser. Só a interpretação do ponto de aglutinação é que é responsável pelas aparentes semelhanças:
Dom Juan sentia necessidade de uma nova sintaxe que pudesse ser usada para expressar essa assombrosa qualidade do ponto de aglutinação e as possibilidades de percepção ocasionadas pelo sonhar. No entanto ele admitia que, se essa experiência se tornasse disponível a qualquer um de nós e não simplesmente aos xamãs iniciados, a sintaxe atual da nossa linguagem talvez pudesse ser forçada a abrangê-la.
Uma coisa relacionada ao sonhar que era de tremendo interesse para mim, mas que me deixou completamente confuso até o final, era a afirmação de Dom Juan de que realmente não havia nenhum procedimento que ensinasse alguém como sonhar. Dizia que, mais do que qualquer outra coisa, sonhar era um esforço árduo por parte dos praticantes para se porem em contato com a indescritível força que a tudo permeia, que os feiticeiros do antigo México chamavam de intento. Uma vez que essa ligação estivesse estabelecida, sonhar também se estabeleceria misteriosamente. Dom Juan afirmava que essa ligação poderia ser realizada seguindo qualquer padrão que implicasse disciplina.
Quando lhe pedi que me desse uma explicação sucinta dos procedimentos envolvidos, ele riu de mim.
- Aventurar-se no mundo dos feiticeiros - disse ele - não é como aprender a dirigir um carro. Para dirigir um carro, você precisa de manuais e de instruções. Para sonhar, você precisa intentá-la.
- Mas como posso intentá-la? - insisti.
- A única maneira como você poderia intentá-la é intentando-o
- declarou ele. - Uma das coisas mais difíceis para um homem dos nossos dias aceitar é a falta de procedimentos. O homem moderno está nos paroxismos dos manuais, das praxes, dos métodos, dos passos que conduzem a alguma coisa. Está incessantemente tomando notas, fazendo diagramas, profundamente envolvido em saber como fazer. Porém, no mundo dos feiticeiros, os procedimentos e os rituais são meros esquemas para atrair e focalizar a atenção. São estratagemas usados para forçar uma concentração de interesse e determinação. Não têm nenhum outro valor.
Para sonhar, o que Dom Juan considerava ser de suprema importância é a execução rigorosa dos passes mágicos: o único estratagema que os feiticeiros da sua linhagem usavam para auxiliar o deslocamento do ponto de aglutinação. A execução dos passes mágicos dava àqueles feiticeiros a estabilidade e a energia necessárias para suscitar a sua atenção ao sonhar, sem o que, para eles, não havia nenhuma possibilidade de sonhar. Sem a emergência da atenção ao sonhar, o máximo que os praticantes poderiam aspirar era ter sonhos lúcidos sobre mundos fantasmagóricos. Talvez pudessem ter visões de mundos que geram energia, mas, para eles, elas não fariam nenhum sentido na ausência de um fundamento lógico abrangente que as categorizasse adequadamente.
Uma vez que os feiticeiros da linhagem de Dom Juan tinham desenvolvido a sua atenção ao sonhar, eles perceberam que tinham tocado nas portas do infinito. Tinham sido bem-sucedidos na ampliação dos parâmetros da sua percepção normal. Descobriram que o seu estado normal de consciência era infinitamente mais variado do que tinha sido antes do advento da sua atenção ao sonhar. Daquele ponto em diante, os feiticeiros poderiam verdadeiramente se aventurar no desconhecido.
- O aforismo "o céu é o limite" - disse Dom Juan - era mais aplicável aos feiticeiros dos tempos antigos. Certamente, eles se superaram.
- Para eles, era realmente verdade que o céu era o limite, Dom Juan? - perguntei.
- Essa pergunta só poderia ser respondida por cada um de nós individualmente - disse ele sorrindo efusivamente. - Eles nos deram as ferramentas. Depende de nós, individualmente, usá-las ou rejeitá-las. Em essência, estamos sozinhos diante do infinito e a questão de sermos ou não capazes de alcançarmos os nossos limites precisa ser respondida pessoalmente."

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Pássaro da Liberdade

Na tradição tolteca mexicana a palavra tolteca tem um significado diferente do conceito antropológico usual. Naquela, o tolteca é o Homem de Conhecimento, o buscador de si mesmo, o xamã, ou então o bruxo ou feiticeiro, como as pessoas comuns os chamavam ao não compreendê-los. Na história da humanidade, aliás, o bruxo ou feiticeiro é sempre aquele que eu não entendo e por isso o segrego. E se puder, o queimo na fogueira.
 Na verdade o feiticeiro era um buscador sofisticadíssimo e incansável do mistério do Ser, da imortalidade, da liberdade, um guerreiro impecável que chamava a sua busca interior de um Namoro com o Conhecimento... Evolução e poesia. Mercúrio e Vênus.
O que os feiticeiros toltecas sabiam sobre os conceitos complexos da Consciência, Percepção e Atenção, as ciências atuais da Psicologia e Parapsicologia estão hoje apenas começando a arranhar. Com todo o respeito.
Quem ouve Don Juan falando na obra de Castaneda não acredita. É muita areia para o nosso caminhãozinho. Como era possível? Eles não eram índios? Atrasados? Esse conceito está mudando...
O pássaro da liberdade ou da sabedoria, era um dos conteúdos concretos e importantes e ao mesmo tempo simbólicos e poéticos que adornavam essa cultura milenar.
Diziam que a feitiçaria, o xamanismo, essa busca, era um pássaro mágico e misterioso que interrompia seu vôo por um momento, de modo a dar esperança e propósito a poucos seres humanos que buscavam a si mesmos. E que os feiticeiros vivem sob a asa desse pássaro, e o alimentam com sua dedicação e impecabilidade. Seu vôo era sempre uma linha reta. Uma vez que não havia maneira de fazer uma volta quando passava, ele podia fazer apenas duas coisas: levar o feiticeiro consigo, ou deixá-lo para trás. A escolha era do feiticeiro. Sem muita conversa.
O discípulo teria que seguir o nagual, o mestre, incondicionalmente, pois é ele que atraia o pássaro da liberdade e o levava a lançar sua sombra sobre o caminho do guerreiro, que não podia ter dúvidas nem problemas em deixar tudo para trás. Ele já compreendera perfeitamente que não havia uma segunda oportunidade. O pássaro da liberdade ou os levava consigo ou deixava-os para trás. O pássaro da liberdade tinha muito pouca paciência com indecisão e, quando voava para longe, nunca regressava. Nunca.
O mundo dos feiticeiros é um mundo mítico, separado do cotidiano por uma barreira misteriosa feita de sonhos e compromissos, mas ao mesmo tempo muito pragmático, muita ação e pouco mental. Somente se o nagual for apoiado e sustentado por seus companheiros sonhadores é que pode guiá-los a outros mundos viáveis, de onde pode atrair o pássaro da liberdade. Ele precisava da energia dos sonhos lúcidos, não sentimentos e atos mundanos.
Eles diziam que o preço da liberdade interior é muito alto. A liberdade só pode ser obtida sonhando-se sem esperança, estando-se disposto a perder tudo, mesmo o sonho. Para alguns de nós, sonhar sem esperança, é o único meio de acompanhar o pássaro da liberdade...
Coisa de gente grande.

domingo, 7 de novembro de 2010

A auto importância

A auto importância, ou importância pessoal, ou o pecado capital do orgulho, a grande arma do ego, é um dos temas de maior relevância no caminho de evolução proposto em todas as tradições, uma delas os toltecas do Antigo México.
Eles se auto identificaram como feiticeiros, mas quem já leu a obra de Carlos Castaneda e outros, percebe que são buscadores sofisticadíssimos dos segredos da percepção humana com o objetivo prático de se libertar de suas amarras interiores e se permitir  trilhar o caminho da liberdade total. A moderna psicologia está agora começando a tatear o conhecimento da percepção, atenção e consciência humanas para chegar onde eles já chegaram há milhares de anos sem a ajuda da tecnologia atual. Só com trabalho interior.
A prática de abandonar o senso de auto importância, ao lado de outras abaixo, é uma condição sem a qual não se pode progredir no caminho da busca interior, o caminho da evolução real.
A prática de Tensegridade (Passes Mágicos) ensinada pelos toltecas antigos e modernos, redistribui e portanto fornece energia ao praticante, mas para que?
Se não aplicarmos essa energia obtida com a prática dos Passes Mágicos incansavelmente nas outras tarefas destinadas a nos modificar, corremos o risco de nos transformarmos em seres fortes, porém mais auto importantes e arrogantes ainda, pelo simples fato de sermos fortes.
Não se entra em nenhum céu, nirvana, satori, reino dos deuses, ou em qualquer estado superior de consciência conservando o jeitão interior que nós adquirimos a partir do consenso social. Todas as tradições indistintamente falam em mudar, acordar, transformar-se, renascer...
A nossa sugestão, como guerreiros que somos por vocação, é tomar essas práticas e começar a desenvolver exercícios concretos, diários, e então impecavelmente nos espreitarmos nessa luta diária conosco mesmos. É disso que trata a obra de Castaneda dentro da linhagem dos toltecas do antigo México.
Vamos então nos perguntar:
- Tomei consciência de que eu preciso mudar? Estou praticando todo o dia, o dia inteiro, a todo o instante? Estou fazendo a prática a partir da minha vontade, do meu hara, do meu umbigo? Estou fugindo, disfarçando, justificando? Estou me avaliando regularmente nas anotações do meu Diário de Navegação? Estou me colocando pacientemente no agora, que é o único lugar possível ao ser humano que busca?
Essas práticas podem e devem ser acompanhadas pacientemente pelo buscador.
Como técnica de auto-espreita , pode-se tentar formular exercícios simples para cada prática listada abaixo. Elas estão interligadas e mobilizam nossos três principais centros, mental, emocional e físico, e são o decálogo do trabalhar sobre o ego::

1- procurar de uma forma simples e concreta abandonar o senso de auto importância em nossas ações rotineiras,

2- recapitular regular e imparcialmente os fatos da minha vida (o dia, o ano, o passado, a vida toda),

3 - reorganizar a vida pessoal em função da busca. A busca é o mais importante, a vida é só o meio.Esse é o significado oculto do lema da Escola Iniciática de Sagres: Navegar é preciso, viver não é preciso...

4 - tentar apagar a história pessoal, que nos aprisiona.

5 - quebrar as rotinas e hábitos. Eles nos cristalizam em torno do ego.

6 - assumir toda a responsabilidade pelos nossos atos.

7 - usar a morte como conselheira.

8 - praticar o não fazer.

9 - levar a atenção à sensação, à respiração.

10 - praticar o relaxamento.


É muito? Claro que é. Vamos fazer pelo menos uma. Devegar. Há muitos caminhos...