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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Meditação No Agora - Passo A Passo Sem Mistério


Não é uma meditação onde você precisa ficar imóvel, porque às vezes no momento que alguém fala meditação as pessoas ficam imóveis (rsrs). Você pode não sentar assim imóvel o tempo todo, mas é sempre do Presente que se trata.
Então, com a “meditação do momento presente” há algo um pouco diferente. É uma coisa incrível o presente. Geralmente menosprezada...
A coisa mais incrível - eu chamo de coisa, mas é claro que não é uma coisa - para a maior parte das pessoas no seu estado normal de consciência, e “normal” aqui significa talvez um pouco ou até mesmo muito insano, no estado normal de consciência o presente é geralmente menosprezado, habitualmente.
Inconscientemente, as pessoas foram condicionadas a menosprezar a coisa mais importante que já existiu, já que a sua vida inteira de fato consiste do Presente. E nunca houve nenhuma outra coisa. Tudo acontece no presente. Quando você lembra é no presente, e quando você pensa no futuro, que é claro, nunca chega como futuro, só pode chegar como o presente. Mas as pessoas vivem como se o presente fosse indesejado ou um obstáculo ou o desprezam. E algumas pessoas habitualmente vivem constantemente desgostando o “ser do momento presente”. É esse é o estado normal de consciência das pessoas, às vezes escondido por um sorriso...
Quando você se torna ciente do presente, e as vezes as pessoas entendem quando eu falo disso, é claro que todos vocês já sabem disso, mas tem pessoas que ainda não sabem, pois se conectam através das mídias que ainda não sabem.. E quando você percebe que isso é tudo que existe, sua vida inteira consiste do Agora e só pode se desenrolar no Agora... Que é agora (rsrs). Qualquer emoção que você sinta, qualquer coisa que pensa, qualquer experiência, é tudo inseparável do Agora.
Mas para algumas pessoas o Agora é abstrato, não é interessante o suficiente. Então, vamos ver o que isso significa, e vamos fazer um acordo nessa meditação e vamos chamar a meditação desta tarde “a jornada no Agora”.
Geralmente quando você fala com as pessoas sobre o Agora ele é normalmente associado com a primeira coisa que aparece, talvez seja o ambiente à sua volta e isso já é um grande passo no Agora. É o primeiro passo importante no Agora para ficar ciente de tudo o que esteja ao seu redor, independente de onde estiver e o que estiver acontecendo nesse espaço.
E você pode notar que quando você fica ciente das percepções dos seus sentidos, porque é o que faz com que você perceba o que for que acontece ao seu redor que envolve visão e audição e alguns outros sentidos ampliados, a gente entra no Agora. Nós nos tornamos mais cientes do nosso espaço, primeiro passo pra dentro do Agora.
E quando você faz isso e vamos fazer agora, e não vamos fazer como um pensamento. Não precisamos praticar o Agora, você só precisa ficar mais ciente do espaço ao seu redor. E não é uma ação. É ficar ciente do que tem nessa sala: as pessoas na sala, o homem falando na cadeira, as luzes, o arranjo bonito, esse é o espaço do Agora.
E então o que você faz é admitir “O que é”. E junto da admissão você vai um pouco mais à fundo, e você aprecia o que é, o que antes você provavelmente nem notou, e isso já uma coisa maravilhosa.
Existem algumas pessoas que ainda não estão prontas pra ir mais fundo que isso, e não tem problema. É o suficiente dar somente 2 passos até o Agora, vamos dizer 3. As pessoas gostam da ideia de passos.
Vamos chamar de primeiro passo você se tornar mais ciente do espaço ao seu redor. Passo 2, você compreende. E com a compreensão vem o senso da bondade, do jeito que as coisas manifestam a vida ao seu redor. Tem uma vida em tudo, até no meio da cidade. Você pode dizer, ah, eu prefiro a floresta ou a praia, ou as montanhas, mas até mesmo no meio da cidade tudo que acontece, todo o movimento no meio da cidade são manifestações da vida: como seres humanos andando por ai, como carros, e casas ou prédios. E tem também algo ali que é ok, uma compreensão da vida.
E então vem uma apreciação...
Você pode ver algo que antes não apreciava. O céu por exemplo. Quantas vezes você esta ciente do céu? E ele é lindo, até mesmo num dia nublado, as luzes sendo filtradas pelas nuvens. E você pode notar que quando você se torna mais ciente do que eu gosto de chamar de “superfície do Agora” que é a percepção dos seus sentidos, O mundo se revela pra você.
Aí já acontece uma mudança no consciente, porque você não esta “pensando” tanto.
Você não pode estar realmente ciente dos seus sentidos, apreciar o céu ou uma arvore ou uma flor, até as cenas na rua, e... estar “pensando” muito. Você tem que realmente estar lá como a presença. Então você simplesmente admite a totalidade dessa sala. E isso é lindo, e então o próximo passo, te leva mais a fundo. E então você pode se perguntar: o que mais tem no Agora fora as coisas que aparecem na minha percepção sensorial? Isso que é o Agora?
Não. Isso é o que aparece no Agora, mas não é ainda o Agora. Então pra se tornar ciente do presente, se tornar ciente do seu ambiente é importante, e é um grande passo.
E algumas pessoas estão tão fora de contato com o seu redor, que elas nunca estão onde elas estão. Elas estão no fluxo do seus pensamentos apenas com atenção o suficiente para não bater nas coisas, mas essa é toda a atenção que eles dão. Elas conseguem manobrar entre os moveis e pelas ruas e a maior parte da atenção tá no fluxo de pensamentos - grande parte por sinal, inútil, vocês podem notar - e muito desses pensamentos, são negativos também, criticas e reclamações, tendo problemas com isso ou aquilo, pensamento numa pessoa desagradável ontem, ou 10 anos atrás, e pensando “o que pode dar errado amanha”, ou esta noite... e isso constantemente, essa consciente esta sendo absorvida pelo pensamento.
As pessoas estão na teia do fluxo do pensamento. Ele te puxa amplificado pelas coisas digitais. Nós podemos falar sobre isso depois na pegada do pensamento compulsivo. Uma coisa atrás da outra chega na sua mente e você se identifica com tudo que aparece na sua cabeça, amplificado, como eu disse, pelos aparelhos digitais, que chamam a sua atenção com extrema importância... “outro e-mail chegando, oh, uma mensagem de texto, deve ser importante, alguém acabou de postar uma foto no Facebook, dai você abre e... é um prato, alguém esta jantando”, e é claro que você tem que responder. Legal, legal!
E isso absorve toda a sua atenção, constantemente. Já era ruim o suficiente antes dos smartphones, mas agora tá amplificado, mais coisas na sua cabeça, coisas e coisas e você acaba se afogando em coisas... Não fisicamente, algumas pessoas se afogam fisicamente, mas você se afoga em coisas mentais. Um pensamento após o outro. Uma mensagem atrás da outra, um post do Facebook atrás do outro, uma memoria desagradável atrás da outra, uma reclamação atrás da outra, o que outras pessoas fizeram, ou falharam em fazer, deviam ter feito, mas não fizeram, não tem fim pra essas coisas e você acaba perdendo o presente. Ainda, a sua atenção é constantemente absorvida por pensamentos compulsivos e inúteis. Imagine viver assim por 10, 20, 30, 40 anos, o que isso não faz com você...
Ter esse estado de consciência... Que tipo de pessoa esse estado de consciência produz? Ansioso, irritado, qualquer que seja o seu estado constantemente insatisfeito, precisando desesperadamente da próxima coisa que nunca é o suficiente. Então é isso que estamos absorvendo. Só queria mostrar uma pequena demonstração do estado chamado de “normal”.
Então, vamos voltar para o presente, e quando você se torna mais ciente da sua percepção sensorial.
O seu estado de alerta - e quando eu falo alerta, não deixe isso ser só uma coisa conceitual, alerta é algo que só você pode saber, e você só pode saber o que é estar alerta através da experiência - você não consegue entender o que é.
E eu acredito que todo mundo aqui já sabe e pode verificar nas suas próprias experiências a diferença entre ser absorvido, se identificar com a voz na sua cabeça que é o habito do pensamento compulsivo, e o “estado ciente de alerta” que só se parece com isso.
Ah, e por sinal, teve muita conversa sobre “mindfullness” (mente completa) aqui, e eu nunca uso essa palavra, exceto quando eu vou dizer que não uso, e explico o porquê de não usar: não tem nada de errado com a palavra eu só prefiro usar a palavra “Presença”, e a razão é que para mim, “mindfullness” se refere a “mente cheia”, e nós não queremos isso, então. Mas você pode perfeitamente usar essa palavra, é só uma preferência minha...
Na “Presença” você se torna mais ciente de si, precisa haver menos pensamento e mais Presença. Então, o pensamento diminui com aquele alerta ciente. E não deixe serem somente palavras que eu faço agora enquanto eu falo.
Você pode verificar em si mesmo que pode haver uma troca sutil entre estar envolvido no pensamento, para estar aqui com a sua atenção total. Então, tem pouco pensamento agora, porque você não pode estar 100% ciente e ao mesmo tempo pensando.
O próximo passo até o Agora é que a medida que você se torna mais ciente das sua percepção sensorial você pode também sentir, o simples mas lindo fato de que “você esta vivo”.
E como isso vem? Às vezes vem naturalmente à medida que o pensamento fica de lado e o alerta continua, e você sente que existe uma vida prevalecendo. No seu corpo inteiro. Sutil, em algum lugar, mas você pode sentir que em seus braços e suas pernas existe uma vida. E isso pode se tornar parte da sua experiência. Do Agora. Então agora você começa a ficar presente. O que podemos chamar Presente por dentro. E presente por fora. Então você pode sentir sua própria vida. Se você não consegue, se pergunte. Para essas poucas pessoas aqui, provavelmente pouca gente que não consegue sentir o campo de energia do corpo, o que eu chamo de corpo interno. Eu pergunto às vezes. Se você fechar seus olhos e colocar as suas mãos assim e se perguntar: Como você pode saber que são suas mãos, sem movê-las ou vê-las? Como sei que elas ainda estão ali? É uma pergunta engraçada... Como eu posso saber, sem tocar, mover ou ver as minhas mãos, como eu sei que elas ainda estão ali?
E nesse momento, você não consegue ter uma resposta conceitual, você só pode sentir. Você sabe por sentir uma vida dentro de suas mãos. E a sua atenção se moveu do “estar pensando” e desengatou do movimento do pensamento e o Agora está fluindo em suas mãos
E do mesmo jeito, se você consegue sentir as suas mãos você pode sentir seus pés pode sentir o corpo inteiro como um sutil campo de energia. E esse é um lugar ótimo para estar. E você começa a ficar mais centrado no Agora. E você esta presente. Por dentro e por fora
O corpo, eu chamo as vezes de uma âncora que o mantem presente, e isso ajuda, porque a mente egocêntrica, a mente inconsciente é muito esperta. E se você não praticar a presença, especialmente quando você começa, se você não tiver uma âncora para o presente, a mente vai rapidamente vir com um pensamento e esse pensamento pode ser qualquer coisa, mas vai vir dizendo ser de extrema importância, e vai dizer, “me siga, você precisa pensar sobre isso, isso requer a sua atenção imediatamente”... às 3 horas da manha, na cama...
E esse pensamento, é claro pode se proliferar em outros pensamentos, ansiosos e arrependimento. “E se aquilo for sobre a minha vida inteira? Eu tenho que... Eu tenho que dar um jeito na minha vida. Foi tudo, tudo... inútil, o que eu fiz com a minha vida”.
Mas o que é a minha vida? É uma construção mental que você chama de vida, quando na verdade você esta perdendo a vida no presente! Mas então você precisa saber que esse seu pensamento, que é muito sedutor e hipnótico, ele vai vir e pegar a sua atenção novamente se você não souber o que ele está fazendo. Mas se você sabe que é isso que ele esta fazendo, então você pode falar: ah...
Mas não só falar, mas estar ciente que tem um novo pensamento querendo entrar. E no momento que você fica ciente, você não precisa seguir mais o pensamento. Você pode simplesmente permitir que ele passe pela sua mente e então ele se foi novamente. E você pode dizer que “minha escolha é manter a minha atenção no meu corpo” e você nem precisa verbalizar, a escolha vem e você sabe.
E então, você não esta mais sofrendo de uma noite indesejável de sono. Você na verdade esta tendo uma ótima meditação e não pedindo que esse momento deva ser diferente do que ele é. E você sente a sua vida e o seu campo energético. Isso é a sua vida. A vida do presente.
E então talvez agora nós possamos ir um pouco mais fundo...  Percepções sensoriais... Aceitando e apreciando o sentir do campo de energia do corpo. Todas essas coisas emergem do presente, e... Tá faltando alguma coisa? O que é que forma a totalidade do presente é... A percepção, sentimentos. Pode haver pensamentos também.
Vindo e saindo. Você não precisa segui-los, mas eles ainda vêm e vão... Alguns pensamentos, e então há espaço entre os pensamentos. E isso é extremamente importante: descobrir que existe tal coisa em você, como um espaço entre um pensamento e outro. E então não tem uma linha de pensamento interrupta.
De repente, você se torna ciente desse espaço. E isso dá uma sensação extremamente boa e poderosa. E você sente, realmente... Você vem para você mesmo. Não o “você” que tem uma história, não o você que se identifica com seu histórico pessoal, mas algo que transcende esse histórico pessoal, algo que transcende também tudo o que se percebe com os sentidos sensoriais, o que é o estado mais profundo do Agora, e na verdade a essência do Agora...É isso! O que te possibilita estar ciente dos seus sentidos, ter um pensamento, sentir teu corpo. Então, tem algo a mais que não é uma coisa. E nos podemos chamar isso de “a sua Presença”.
Nós podemos chamar isso de um espaço de estar ciente, ou a consciência em si, e a coisa mais incrível na sua meditação é a descoberta de você mesmo. Não como uma pessoa com um histórico limitado, Isso também, ainda existe, essa dimensão, mas existe uma dimensão mais profunda em você, aonde o que quer que tenha acontecido à pessoa, boa ou ruim, transcendeu e se torna irrelevante.
Há um senso profundo de se você mesmo quando você pode perceber que aquilo que faz a sua percepção sensorial possível, qualquer pensamento possível, qualquer emoção possível é o fato de que existe uma luz de presença em você. Nessa luz de presença você percebe essa sala... Nessa luz de presença um pensamento vem e vai. Se muitos pensamentos vierem e você não tiver mais espaço entre eles, essa luz de presença se torna obscura... Ela ainda está ali, mas é como um dia totalmente nublado. Você não consegue mais ver o sol. O sol ainda esta entrando pelas nuvens, mas você não sabe. Tudo que você vê são as nuvens. E isso é o normal. O destino de milhões de humanos aqui na terra. Tudo que eles sabem são as coisas nas suas cabeças. Todo o seu senso de si mesmo vem das coisas nas suas cabeças. Destino terrível. Mas ninguém nos diz que é terrível. É normal.
Se você nascer dentro de um manicômio, então você não sabe que todos são loucos, porque todos são loucos. Então, isso é... Nós estamos indo além de quando emerge essa possibilidade de entrar em um estado diferente de consciência.
Não só como uma coisa isolada, com uma meditação.
Mas pra trazer essa - vamos recapitular agora - o estar ciente de que você esta ciente. Isso parece um pouco engraçado. Você consegue estar ciente, agora mesmo que, tudo o que você corre atrás ou pensa ou sente, só pode estar ali porque você esta ali como o espaço para eles. O espaço da consciência no qual ele surge.
Outra pergunta que eu poderia fazer
Para apontar a vocês essa realidade é perguntar... Como que é ser você? Sem ter que usar alguma memoria. Você AGORA. Não é lembrar-se do seu histórico. Porque isso é só uma história na cabeça. Mas, como é ser você? E não existe uma resposta conceitual, porque eu estou perguntando sobre uma verdadeira experiência ou realização agora mesmo, aqui, agora. Como você se sente?
Qual é a essência de quem você é? Você consegue sentir a sua própria presença? Agora, quando eu digo, sua própria, não está totalmente correto. Não é SUA, mas vamos colocar assim por um momento.
Você consegue sentir a presença real? O que é a essência de quem você é? E não tem uma forma, é apenas estar ciente, desse espaço, e isso é uma coisa incrível. Você conhecer você mesmo como um “espaço de consciência” que te liberta da crença de que o seu passado é quem você é, porque, o seu passado não é tão legal assim. Pelo menos o meu não é. Seria frustrante se eu pensasse no meu passado.
Quem eu sou transcende o meu histórico. Não é também o meu passado mostrando essas grandes coisas e realizações. Não. É entender a real insignificância do meu passado
Para algumas pessoas, um ponto funciona melhor do que o outro, por isso estou dando opções para que você possa se perguntar, ou eu posso perguntar a você “Você é capaz de estar ciente do fato de que você está ciente de que você esta consciente?”
Isso ainda parece entrar em conflito, porque eu estou usando a linguagem, mas é só por eu estar usando a linguagem. O que realmente acontece quando você esta ciente da sua consciente, não é
Aqui estou eu e aqui esta o “eu estou ciente da minha consciência”. Não é assim que funciona, você não pode estar ciente da consciência assim (dividido). Você só pode estar ciente da sua consciência como você mesmo, como o sujeito principal. Sua consciência nunca pode se tornar uma coisa, um objeto na consciência. Todo o resto é, sim, um objeto em consciência, mas você não pode estar ciente da consciência Como um objeto. Porque a consciência é você. A essência de você. E essa essência é a essência do presente.
Então quando nós vamos até o nível mais profundo do presente, quando você vai até o nível mais profundo do presente o que você acha que você descobre? Você mesmo. A essência de você.
ENTÃO A ESSÊNCIA DE VOCÊ, QUE É UM ESPAÇO, CONSCIENTE, É INSEPARÁVEL DA ESSÊNCIA DO PRESENTE.
Então quando você vai fundo no presente que é a dimensão vertical - a maior parte da vida vivemos numa dimensão horizontal, associada com as coisas na sua cabeça, passado e futuro... Eu preciso fazer tal coisa pra chegar a tal lugar... - e isso mantem você preso. Mas aqui, de repente, no Agora - A dimensão vertical é Agora – leva você mais para o fundo dentro do Agora, até o ponto de descoberta de que A ESSÊNCIA DO AGORA É ACIMA DE TUDO, QUEM VOCÊ É. E isso é uma incrível e libertadora realização, porque te liberta de uma falsa sensação de si mesmo!
Se você não entender a essência de quem você é, você passa a sua vida inteira numa falsa ilusão de si mesmo, a qual eu chamo de EGO. É uma ilusão falsa de si mesmo que é derivada da atividade mental mais as emoções
E porque você se identifica tanto com a mente, um completo senso de si mesmo, que é o ego, é derivado de certos hábitos e repetitivos padrões de pensamento mais os padrões também de emoção.
Esse pacote que se repete de pensamentos inconscientes e compulsivos, mais os padrões de reação emocional, esse pacote - as pessoas que não conhecem aquele nível profundo de quem elas são - isso é denominado de A Pessoa. O pacote de pensamentos habituais que te dizem a tua história e você conta pra outros também - Quer ouvir minha história? Você sofreu? Não? Escuta aqui a minha história... Seu sofrimento não é nada...
Como meu pai costumava dizer sobre dor: alguém dizia ter uma dor e ele dizia: Você tem uma dor? Eu tenho uma dor há anos e nem falo dela.
Você pode melhorar o seu senso de si mesmo, e mesmo assim, é sempre um falso senso de si mesmo. E você está preso nisso. No que  o Buda chamou de “O si mesmo ilusório”. O si mesmo que não tem uma realidade real. Então o Buda disse - E isso esta gravado nas escrituras antigas - a falta de realidade de si mesmo, essa entidade feita pela mente.
E claro os ensinamentos do Buda eram, eles apontavam - uma das essenciais nos ensinamentos budistas é o Vazio. O que isso te lembra? Estar ciente do espaço consciente. Presença, sem forma. Jesus disse a mesma coisa.
O reino dos céus não vem com placas para ser procurado. O que isso significa? Significa que você nunca pode dizer: Ah lá esta. E por que não? Porque você é ele. Nunca pode se tornar um objeto na sua consciência, porque é a consciência em si.
E as pessoas tem repetido as palavras de Jesus por 2 mil anos. E quem realmente as entendeu? Praticamente ninguém. Talvez 1 ou 2 budistas (risos).
Então esse é o segredo da vida. E é tão simples. É saber quem você é. Quem você é além do que aparece na superfície. E isso não significa que você não pode se lembrar do seu histórico. Claro que você pode se lembrar do seu passado pessoal. Isso é ok, porém você não se sente mais preso naquele exclusivo senso de MIM.
Um jeito tão frustrante de viver.
Com esse pequeno mim sempre se sente ameaçado pelas coisas e precisa se identificar com outras coisas e nunca se sente completo ou satisfeito. Sempre uma sensação de não ter o suficiente. Jeito terrível de viver. Então nós estamos transcendendo e essa é a mudança de consciência, e então quando você traz isso para o seu dia a dia, esse estar ciente dos espaços, e estar ciente de si mesmo, como um espaço consciente. Você também pode chamar de estado imóvel.
Até quando você fala você ainda pode sentir por baixo a presença. No plano de frente, você fala e escuta, mas no plano de fundo, esta ciente. Ciente de si. Em outras palavras, você sente a sua própria presença. Que não é sua, é apenas uma presença junto da presença universal.
Você pode notar que eu não uso a palavra Deus, porque no momento que você usa a palavra, deus se torna um conceito na sua mente. Então o Buda sabiamente também evitava. Quando eles perguntavam “Você nunca fala de Deus. Existe um Deus?” E é claro - esse é o final de nossa meditação - a resposta do Buda foi como reportada nas escrituras... Quando ele foi perguntado, existe um Deus?
Buda manteve um nobre silencio... Essa foi a resposta

Advinhem de quem é esse texto?


sábado, 21 de março de 2015

Por que os Budistas Rezam?

Elizabeth-Mattis Namgyel, mestra budista americana
Na postagem Meditar? Orar? Para que? falamos da Conexão entre essas duas coisas, meditar e orar. Hoje apresentamos uma visão budista da razão de orar, rezar. Curiosamente o budismo é uma "religião sem Deus". Só há Buda, um ser que se iluminou depois de muitas vidas, e então tomou contato com a fonte de onde emana tudo, as causas, os universos. Na verdade a oração nos auxilia no caminho dessa "barra pesada" que é viver, usando-a para despertar ao invés de vez de lutar contra ela. Vamos lá:

Quando reconhecemos o quanto ficamos perdidos no ímpeto habitual de nossos pensamentos e emoções, percebemos como temos pouca força para nos mover em direção à sanidade. Isso pode nos inspirar a compreender e apreciar a força da oração. A oração corta a atividade selvagem e discursiva da mente, nos direcionando e provendo meios para aproximar nossas ações das nossas intenções.

Porque o budismo é uma religião não-teísta, temos a tendência de descartar a oração como sendo dualista. Afinal, ao colocar a responsabilidade pelo nosso desenvolvimento espiritual em algo fora de nós, não estamos tentando fugir? Para quem estamos rezando? Nesse momento e nessa era,  geralmente a oração é vista como superstição e com embaraço. Esquecemo-nos que funcionamos com a mente dual na maior parte do tempo e que há benefícios em saber o que queremos e saber pedir por isso no caminho espiritual.

Temos que pensar com praticidade sobre a espiritualidade. Simplesmente esperar que um dia nós iremos acordar “totalmente iluminados” não fará o trabalho por nós. Sem uma intenção definida, caímos na imprecisão e operamos através da falta de clareza. Devemos nos perguntar, onde estamos indo? O que realmente queremos? A oração é como andar de bicicleta: nossa direção sempre vai naturalmente seguir nosso olhar. Como o Buda disse nos sutras: “Você é seu próprio mestre. Você faz seu próprio futuro; não há outro refugio”. A direção que seguimos é por nossa conta. Se direcionarmos nossa mente na direção de ganhar dinheiro, tem maior chance de isso acontecer. Se não, é questionável que seremos capazes de pagar o aluguel. O mesmo é verdade com a nossa vida espiritual. O progresso espiritual – progresso humano – requer uma intenção clara.”

Pedir

Nós suplicamos porque, na vida, geralmente não sabemos o que fazer. Rezar pode ser um jeito de nos entregar para o mistério e o movimento da vida. Expressa uma aceitação de que não sabemos nada e nunca saberemos – que apenas enxergamos uma pequena parcela das coisas. Não enxergamos a teia infinita do relacionamento interconectado do qual fazemos parte. Ainda assim, por outro lado, temos nosso papel para desempenhar no todo, e tudo o que fazemos na vida é importante. Esse é um paradoxo interessante, não é? É preciso uma mente ampla para viver no coração desse paradoxo – estar alerta e receptivo, e ao mesmo tempo, aceitar a natureza indeterminada das coisas, os fatos que não sabemos. Esse é o espírito da oração.

Podemos rezar por qualquer coisa. Mas para o que rezamos influencia na direção em que vamos e na natureza transformativa da prática. Rezar para a felicidade e para nos livrar do sofrimento nos mantém dentro dos limites da mente comum. As orações não têm a mesma agudeza e liberação quando estamos tentando evitar a vida e deixar de sentir o mundo em nossa volta. Se nos distanciamos do nosso desejo individual de sermos livres do sofrimento dentro do todo, onde reconhecemos que o sofrimento é parte da vida nesse corpo e nesse mundo, temos a experiência da profundidade da oração. Aceitar a beleza e a dor do nosso mundo é a fundação do caminho do Buda.

Então o que significa rezar sem as limitações de nossas preferências individuais? Significa que estamos rezando para um despertar profundo e incondicional não baseado nas preferências do ego. Só em pedir nós experienciamos uma mente poderosa e humilde. Permitimos que a vida nos toque, e sentimos o desejo de seguir em frente com compaixão e amor.

Como praticar a oração?

Duas vezes por ano, minha comunidade se reúne para um retiro em grupo – drupcho – onde recitamos cem mil preces de renomados mestres de meditação de nossa linhagem, Kunchyen Jigme Lingpa. Porque essa é uma prática em grupo, e nós recitamos a prece em voz alta, várias e várias vezes, há uma grande demanda de energia, foco, criatividade, e visão. Quando não prestamos atenção e nos esquecemos de fazer nossa prece de forma pessoal, nossa prática se torna vaga e apenas um hábito, e a energia na sala diminui.

Com a oração, sempre existem os altos e baixos. A prática demanda força e insistência. Quando a mente habitual quer se fechar, a oração serve como uma negação teimosa em cair no mundo cansativo e familiar do ego. Em outras horas, a mente flui sem esforço. Quando isso acontece em um grupo, toda a atmosfera volta à vida e o poder a oração é palpável e forte.

Então, como rezamos? Você pode recitar uma prece em particular ou rezar de modo espontâneo, usando suas próprias palavras. Apesar de tudo, é importante tornar nossa oração pessoal. As pessoas geralmente comentam que ajuda fazer a suplicação de forma específica para que a prática não se torne abstrata. Você pode começar focando em um amigo que está sofrendo de alguma doença ou num animal maltratado. Ou você pode suplicar para uma forma de sair de um hábito prejudicial ou vício. Às vezes, a oração naturalmente vai se desenvolver para um descanso, além de palavras e ideias, dentro da natureza insondável do ser.

Nos retiros em grupos falamos para as pessoas mandarem pedidos de oração. Elas as enviam via e-mail e uma vez por dia nós as lemos em voz alta. Todo mundo escuta com tanta atenção enquanto suas orações estão sendo lidas que você poderia escutar um alfinete caindo. Algumas das orações são bem generalistas: para o bem-estar dos animais, para os idosos, crianças em situações abusivas, soldados lutando em guerras, pessoas vivendo em prisões, ou sofrendo de depressão. Algumas vezes, os pedidos de oração incluem nomes e descrições de situações pessoais.

Sempre me surpreende quantos pedidos de oração nós recebemos, os quão pessoais eles são e quanta coragem as pessoas têm, em pedir. Quando escutamos os pedidos, sentimos a presença de todas aquelas pessoas como se elas estivessem sentadas reunidas conosco. Suas orações nos emocionam e catalisam a nossa prática, gerando uma atmosfera geral de cura e positividade, que fala do poder da interdependência. Às vezes, eles nos escrevem de volta, dizendo como se sentiram tocados e como isso fez diferença para eles e suas pessoas queridas.

Imaginação

Quando rezamos, pode ser para uma imagem do Buda ou de nosso professor. Ou você pode rezar para a natureza de sua própria mente, como sendo inseparável da natureza da deidade. Às vezes você pode até não saber a quem direcionar suas orações, mas o pedido por si só tem seu próprio poder. De fato, se você pensar sobre isso, você realmente tem que saber de tudo? Você tem a capacidade de saber? A natureza do Buda, do professor, ou de qualquer coisa no mundo é insondável, misteriosa, e não se presta a ser conhecida de uma forma conclusiva.

E é particularmente importante refletir sobre isso, porque no mundo moderno, rezar para um objeto pode parecer artificial. Podemos até querer acreditar em uma deidade ou no Buda, mas parece afetado. Um dos aspectos mais importantes e únicos dessa tradição é a compreensão de que nada possui uma existência intrínseca. Muitas vezes presumimos que nós – quem somos realmente – estamos rezamos para uma deidade imaginária. Mas na verdade, mesmo o que chamamos de “eu” surge de um complexo infinito de relacionamentos que ficam surgindo e caindo a cada momento. Tudo é imaginário, e nisso há a resistência à definição, tudo é dinâmico e aberto à interpretação – ou, em termos budistas, tudo é vazio.

A oração é um meio que nos ajuda a seguir em frente com alguma sanidade – uma prática que nos ajuda a utilizar o mundo para despertar. Podemos rezar para nosso professor ou para o Buda como uma maneira de seguir em frente no nosso caminho. Não temos necessariamente que ver esse dualismo como um problema. Na verdade, enxergar o dualismo como um problema é dualista. O que chamamos de caminho é uma forma de navegar pelo dualismo utilizando positivamente nossa vida e experiências.

Texto escrito por Elizabeth-Mattis Namgyel, originalmente publicado na revista Buddhadharma Magazine edição de outono de 2014 e reproduzido no site da autora. Tradução de Rafaela Batista. Elizabeth Namgyel é uma das muitas mestras budistas norte-americanas contemporâneas (leia “A Face Feminina de Buda”), estuda e pratica o budismo por 30 anos sob a orientação de seu professor e marido, Dzigar Köngtrul Rinpoche.

domingo, 15 de junho de 2014

A Roda Da Vida - 2

Na postagem A Roda da Vida falamos deste conceito no budismo. Hoje vamos continuar a partir de textos didáticos e simples dos lamas Samten e Chagdud compilados por Kalma Tenpa Dharguye:

A Roda da Vida (sânsc. Bhavachakra), também conhecida com a Roda da Existência, Roda do Devir e do Vir-a-ser, foi criada pela extinta escola Sarvastivada, precursora do buddhismo Mahayana. Este diagrama geralmente é encontrado nas portas de entrada dos monastérios tibetanos. Suas ilustrações representam simbolicamente a os doze elos da existência interdependente, os seis reinos da existência cíclica e os três venenos da mente. Segundo a tradição, a Roda da Vida foi desenhada pela primeira vez na época do Buda Shakyamuni. Depois de pedir um conselho ao Buda, o diagrama teria sido desenhado por ordem do rei Bimbisara de Magadha. Ele o enviou ao rei Udayana em retribuição a um manto de jóias preciosas que tinha recebido de presente. O rei Udayana teria atingido uma profunda realização espiritual após estudar este diagrama.

A assustadora figura que segura a roda é Yama, o demônio da morte da mitologia indiana. Aqui, sua terrível presença simboliza a impermanência; nenhum ser vivo pode escapar de suas garras. Entretanto, o Buda está flutuando no céu e apontando para a lua cheia; isto representa que os seus ensinamentos apontam o caminho para a liberação.

A maioria das pessoas vive negando a morte; praticantes budistas vivem com a constante consciência de sua existência. A morte, para eles, é uma poderosa diretriz para encontrar o significado essencial da vida. Na prática Vajrayana tibetana, os símbolos da morte — copas de crânio, tambores de crânio, trombetas de fêmur, malas [rosários] de osso, dançarinos em indumentárias que simbolizam esqueletos — nos relembram nitidamente de sua proximidade. A utilização de tais implementos durante os rituais não quer dizer que os praticantes Vajrayana sejam insensíveis à morte, ou que não se aflijam com a morte de familiares e amigos, porém o cheiro e a textura de ossos envelhecidos, por exemplo, evocam o pensamento: "Sim, eu também terminarei como ossos espalhados ou cinzas num cemitério. Possa eu usar bem este corpo e não desperdiçar o tempo que me resta". (Chagdud Khadro, Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana)

Na borda da roda, doze ilustrações representam os “Doze elos da existência condicionada”:

3 ELOS DA VIDA PASSADA:

  • Uma velha mulher cega, andando com uma bengala, representa a ausência de visão ou ignorância;
  • Um oleiro fazendo um pote representa as formações mentais;
  • Um macaco pulando de galho em galho representa a consciência;
7 ELOS DA VIDA ATUAL:

  • Um barco com duas pessoas representa o nome e forma;
  • Uma casa com seis janelas representa o conjunto dos seis sentidos;
  • Um casal se abraçando representa o contato;
  • Um homem ferido por uma flecha no olho representa a sensação;
  • Um homem tomando uma bebida representa o desejo;
  • Um homem ou um macaco agarrando uma fruta em uma árvore representa o apego;
  • Uma mulher grávida representa a existência;
2 ELOS DA VIDA FUTURA:

  • Uma mulher dando à luz representa o nascimento;
  • Uma pessoa carregando um cadáver representa o envelhecimento e morte.
A parte principal da roda é dividida em seis partes, representando os seis reinos da existência cíclica (sânsc. samsara).

Na parte de baixo, estão os três reinos inferiores:
  • seres dos infernos (sânsc. naraka, nairayika);
  • fantasmas famintos (ou espíritos carentes, sânsc. preta);
  • animais (sânsc. tiryak, tiryagyona).

Na parte de cima, estão os três reinos superiores:
  • deuses (sânsc. deva);
  • semideuses (ou deuses invejosos, titãs, sânsc. asura);
  • humanos (sânsc. manushya).

Existem seis reinos onde nós podemos ter renascimento, um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito de experiência específico, ainda assim podemos vivenciar em corpo humano — embora com muito menos intensidade — as experiências dos seis reinos. Por exemplo, o reino dos infernos é vivido por nós através da experiência de que todas as pessoas que nos cercam são ruins, o filho, o marido, o chefe... Para todo lado que olhamos as coisas são difíceis e só há sofrimento. Através da raiva e da aversão nos conectamos com esse reino. No reino dos seres famintos há uma experiência de carência incessante, eles têm sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Nos conectamos a essa experiência através da avareza e aquisitividade. Assim como nos infernos, esses seres também não praticam. Os seres nos infernos dizem: "estou sofrendo, tudo é horrível, como eu vou praticar?" Os seres famintos dizem "eu preciso disso e disso, como posso praticar?". Depois há o reino dos animais, eles não praticam porque tão logo eles estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Dharma.

Entre os reinos superiores, há os deuses. Não é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponde àqueles que andam de carro importado, jatinho, não tem problemas de dinheiro, desfrutam de todas felicidades do mundo material. Os deuses têm corpos específicos sutis, se deslocam no espaço e produzem benefícios para os seres humanos em dificuldades. O problema é que são benefícios condicionados, e não do tipo que produz liberação. Esse reino é o que os seres humanos buscam em seus sonhos, é a sua perdição... Vivemos almejando chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Nos conectamos com esse reino através do orgulho.

Já os semi-deuses têm poder, mas são competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. A conexão se dá através da inveja. Os deuses não praticam porque estão imersos em facilidades e felicidades, então, por quê praticar? Os semi-deuses, como estão sempre guerreando, também não têm tempo para praticar.
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)
  
Não é um processo que necessariamente precise ser monitorado. As ações se desenrolam do seu próprio modo, sem que ninguém controle o resultado. Não é como se alguém tivesse que contabilizar tudo para que cada qual fosse parar no reino certo, etc. As ações de cada ser determinam as experiências futuras desse ser. [...]

A idéia de que podemos vivenciar estes reinos de sofrimento que chamamos de infernos deixa muitas pessoas céticas ou enraivecidas. Elas não acreditam em inferno; pensam que este conceito não passa de uma tática que algumas religiões empregam para assustar e controlar as pessoas. Em certo sentido, é verdade que o inferno não existe. Se fizermos uso de toda a tecnologia do mundo para tentar chegar ao centro da Terra, nunca acharemos o inferno. No entanto, muitos seres estão sofrendo no reino dos infernos neste exato momento.

O inferno é o fluxo dos enganos e fantasias da mente, dos pensamentos e interações raivosos, e das palavras e ações nocivas que eles produzem. Se não forem controlados, não há como deixarmos de vivenciar o inferno. [...] Algumas pessoas experimentam o inferno mesmo enquanto contam com um corpo humano. Muitas delas ocupam nossos hospitais. [...] Poderíamos estar sentados no mesmo quarto que elas, e não enxergar nada do que sofrem. Ao mesmo tempo, podemos estar bem ao lado de um grande meditador que vivencia o céu, a terra pura, sem que nós mesmos enxerguemos isso. [...]

Embora grandes meditadores consigam vislumbrar outros reinos, nós não temos prova absoluta sequer de que o nosso mundo fenomênico humano exista além das nossas mentes individuais e coletivas. Ainda assim, da mesma forma que tomamos nossos sonhos como reais enquanto estamos dormindo, consideramos real o nosso reino humano. E os cinco outros reinos são tão reais para os seres que neles existem quanto a nossa experiência é para nós. O inferno parece tão real para um ser no inferno, o reino dos fantasmas famintos tão real para um fantasma faminto, quanto o reino humano para nós. Em última análise, o sofrimento provém não dos fenômenos desses reinos, mas do fato dos seres conferirem realidade a eles. Assim, não é contraditório dizer que nossa experiência é real ou verdadeira, e ao mesmo tempo falsa. Nem é contraditório dizer o mesmo de qualquer outro reino. Se insistirmos que o reino humano é real, então todos os demais reinos são reais, porque os seres que neles existem os experimentam como reais. [...]

Quando tomamos consciência do sofrimento e das limitações da existência cíclica, passamos a ter motivação para encontrar uma saída, da mesma forma que, quando nos damos conta de que estamos doentes, buscamos algum remédio. Ao compreender que a virtude e a não-virtude determinam se a nossa experiência será de felicidade ou tristeza, prazer ou dor, cabe-nos uma escolha: podemos mudar nossas ações e cultivar qualidades virtuosas, buscando a liberação para nós mesmos e para os outros seres, ou podemos continuar a criar não-virtude, perpetuando sofrimento sem fim.
 (Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista)
  
No centro da roda há três animais que representam os três venenos (sânsc. klesha) da mente, a origem dos seis reinos e dos doze elos: o desejo (apego) é representado por um galo; o ódio (aversão) é representado por uma serpente; e a ignorância (conhecimento errôneo), a fonte dos outros dois venenos, é representada por um porco ou javali. O galo e a serpente geralmente aparecem saindo da boca do porco, indicando que o apego e a aversão surgem da ignorância. Ao transcendermos estes três venenos, podemos nos libertar do sofrimento dos seis reinos e extinguir os doze elos que nos prendem a ele.

Ao redor do círculo com estes três animais, há dois semicírculos que representam a virtude e a não-virtude. O semicírculo negro representa o karma negativo, que conduz aos reinos inferiores. O semicírculo branco representa o karma positivo, que conduz aos reinos superiores.

Observando a roda da vida, é possível contemplar os quatro pensamentos que transformam a mente: a preciosidade do nascimento humano, a impermanência, o karma e o sofrimento. Esta contemplação é muito eficaz para despertar a compaixão, o amor, a alegria e a equanimidade.

Os humanos têm maior vantagem. As nossas felicidades e sofrimentos não são tão duradouras. E quando cruzamos de uma felicidade para uma infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso é a vida humana comum. Ainda assim ela é muito rara. Se compararmos a nossa vida com outros seres, eles são muito mais numerosos. O corpo humano é raro e improvável. Como nós somos geridos pelo karma, o nosso renascimento é construído pela nossa condição kármica. Nós não conseguimos dirigir esse processo. É como a tartaruga cega, que a cada cem anos vêm à superfície do oceano, de águas revoltas, onde há um aro boiando. O renascimento humano é tão improvável quanto esta tartaruga, justamente no momento em que sobe à superfície, conseguir colocar sua cabeça dentro do aro que estava boiando.

A nossa condição humana hoje é favorável. Os seres humanos têm a possibilidade de praticar. Temos a liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Temos tempo livre. Isso significa méritos. Já a "vida humana preciosa" tem características peculiares que transcendem em muito a vida humana típica. Quando vivemos em épocas em que os seres de luz não se manifestam, nos sentimos perdidos e a vida parece sem sentido. Na época atual os seres de sabedoria vieram; vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Esses ensinamentos chegaram até nós e estamos numa região onde esses ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade para ouvi-los. Dizem que há uma vida humana preciosa quando, além desses fatores, estamos engajados em transformar a nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob domínio de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos. Se não estamos sob essas condições, isso completa as características da vida humana preciosa. Se a vida humana é numerosa como as estrelas no céu noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto estrelas que são vistas no céu diurno. A pessoa está engajada em produzir benefícios para todos os seres.

O segundo pensamento é sobre a impermanência. Todas as coisas são impermanentes. Nós estamos sempre buscando o que é estável, mas nos enganamos. Onde estão os meus amigos "inseparáveis" da escola? A gente nem sabe onde eles estão hoje. Onde está a casa da nossa infância? A nossa mãe, pai, irmãos? O primeiro namorado, que foi maravilhoso, mas sumiu. A nossa experiência é de instabilidade e transformação constantes. Se diz no buddhismo que o planeta Terra vai desaparecer. O que dizer então das nossas pequenezas? Estamos aqui por um curto espaço. Esse ensinamento vem para aprendermos a olhar com o olho correto à cada momento. O olho incorreto é pensar que tudo é estável. Quando entendemos a preciosidade da nossa vida, e a usamos para produzir benefícios aos outros seres, este é o sinal de que os ensinamentos produziram as transformações que buscávamos. A seguir, o karma. Estamos sujeitos a impulsos internos com os quais não podemos lidar. Esses impulsos produzem as dez ações não-virtuosas ou as correspondentes dez ações virtuosas. As ações virtuosas vão produzir experiências favoráveis — isso também é karma, karma favorável ou positivo, mérito. São experiências de felicidade condicionada. O karma se manifesta em quatro níveis: imediato, a curto, médio e longo prazo. Por exemplo, se desejamos que alguém morra, naquele exato instante estamos esquecidos da nossa condição búddhica, luminosa, perfeita, e isso já é sofrimento. O de curto alcance, é que de novo e de novo vemos a morte de alguém como solução para nossos problemas. O de médio alcance vai se prolongar por essa vida e por outras: a pessoa não se sente digna, sente-se impura por dentro, inferior, e tem uma marca de aversão pelos outros.

Pior que pensar é planejar como fazer. Aí a perturbação se intensifica. A pessoa vai ter sentimentos mais perturbadores, pode começar a ter pesadelos. Se fez isso e executou, a experiência que é muito intensa, vai haver uma intranqüilidade muito grande. E se o ser morreu, é pior ainda. Ela vai se sentir perseguida. Por um longo tempo vai sofrer. Então temos essas quatro etapas kármicas que acompanham cada ação.

Nós temos uma multiplicidade de possibilidades tanto positivas quanto negativas. Tanto uma quanto outra são condicionadas, podem flutuar, estamos sempre pulando de um ponto para outro. Estamos presos nisso, é automático. Esses impulsos estão a nosso serviço, mas quando eles começam a andar por si, são karma. Temos vários mecanismos condicionados, o nosso cabelo cresce, as unhas crescem, sem que a gente faça alguma coisa. E por causa do karma surge a etapa seguinte, o quarto pensamento, que é o sofrimento. Sempre que operamos com referenciais duais, o sofrimento é inevitável. Aí surge o pensamento final que é: eu gostaria de me liberar disso, revelar minha natureza luminosa, usar de forma positiva as relações que estou vivendo, beneficiar os seres.

Em meio às confusões do mundo e tendências kármicas, toda vitória que podemos ter é como vitória no campo de futebol, frágil, impermanente. Agora mudamos, queremos descobrir a nossa natureza completa. Quando olhamos na vida, a nossa vontade de mudar é testada várias vezes, isso é prática espiritual. Aí nossa paisagem ao redor se transforma de samsara, lugar de sofrimento e enganos, em terra pura, que é onde praticamos, recebemos ensinamentos e nos sentimos protegidos pelos seres de sabedoria.

Os Budas olham o que chamamos de samsara e vêem a perfeição que ali existe. Somos como formigas num palácio, não conseguimos reconhecê-lo com nossos olhos de formiga. Há, então, uma longa etapa de transformação dos nossos olhos, até que possamos reconhecê-lo. Em geral, não conseguimos perceber o valor do benefício real que estamos recebendo. Paralelamente ao processo de transformação das tendências kármicas, o Buda ensinou a prática ininterrupta das "quatro qualidades incomensuráveis", que são o método positivo de manifestação no cotidiano solucionando as confusões e conflitos.

A primeira é a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de ‘pena’. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações. A segunda é o amor, o desejo que o outro seja feliz, completamente. Não exclui ex-maridos, ex-esposas, ex-sócios... Depois a alegria, a capacidade de se alegrar com as alegrias e vitórias dos outros, pequenas ou grandes. É um poderoso antídoto contra a inveja. Finalmente a equanimidade: perceber as flutuações das alegrias e tristezas da vida; num momento se tem uma grande alegria, em outro aquilo mesmo vira uma grande tristeza. Surge uma serenidade estável frente a essas flutuações e uma fé permanente, inabalável na natureza de todos os Buddhas, que é a sua própria natureza.

O Buddha ensinou também os meios de produzir felicidade nas relações humanas: casamento, namoro, filhos, trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao invés de pensar ‘o quê vou obter do outro’, pensar ‘o que posso oferecer’. Alegrar-se em oferecer! Se estivermos na dependência do comportamento do outro para obter felicidade, eventualmente pode até funcionar, mas quando surgir a impermanência e o outro flutuar, entramos em crise. S.S. o 14º Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz, sempre brinca, ‘que tipo de amor é o de vocês, aquele que só existe se o outro sorrir?’ Esse tipo de amor está baseado em quanto estamos recebendo e, por isso, é frágil. Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana como caminho espiritual, superando os conflitos internos e trazendo benefícios a todos os seres. Alegria!
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)

Lembre-se que, nos infernos inferiores, os seres queimam como o sol, e que nos infernos superiores, eles congelam. Lembre-se de como os fantasmas e espíritos sofrem com a fome, a sede e o ambiente. Lembre-se de como os animais sofrem as conseqüências de sua estupidez. Abandone as causas kármicas de tais misérias e cultive as causas da alegria. A vida humana é rara e preciosa; não faça dela uma causa para o sofrimento. Tome cuidado; use-a bem.
(Nagarjuna, citado em Path to Enlightenment)

Adaptado da página: www.dharmanet.com.br


domingo, 8 de junho de 2014

Por Que Existe Vida?

Por Que Existe Vida? 
- Osho, eu nunca fui capaz de encontrar resposta para essa pergunta. É uma pergunta estúpida, mas mesmo assim eu queria muito saber a resposta.
Você poderia nos dizer qual é o propósito da criação? Por que a vida existe? Por que todas as coisas existem? Eu não acredito que seja acidental.

- "Patrick, a pergunta é certamente estúpida...  Você está absolutamente certo a respeito disso. E a pergunta não é respondível. Qualquer pessoa que respondê-la irá somente criar alguns questionamentos a mais em você. Você não foi capaz de encontrar qualquer resposta porque não existe resposta. A vida é um mistério, por isso essa pergunta não pode ser respondida. Você não pode perguntar o porquê. Se o porquê for respondido, a vida deixa de ser um mistério. 
        Esse é todo o esforço da ciência: destruir o mistério da vida. E a maneira é encontrar respostas para todos os porquês.  E a ciência acredita, naturalmente com arrogância e ignorância, que um dia ela será capaz de responder a todos os porquês. Isso não é possível. Mesmo se nós respondermos a todos os porquês, o último dos porquês permanecerá: por que a vida existe, afinal? Qual o significado da existência? Qual é o propósito de tudo isso? Essa pergunta é a última e ela não pode ser respondida.
        Se alguém lhe der uma resposta, ela simplesmente irá criar um novo questionamento. E respostas já têm sido dadas... Algumas pessoas acreditam que Deus criou o mundo porque queria ajudar a humanidade. Agora, que tipo de resposta é essa? Ele criou a humanidade para ajudar a humanidade. Qual era a necessidade de criar? Alguns outros dizem que Deus criou o mundo porque ele estava se sentindo muito solitário. Se Deus estava se sentindo mal muito só, então não existe qualquer possibilidade de alguém se tornar um Buda.
        E se Deus de repente começou a se sentir solitário, então o que ele estava fazendo antes de criar o mundo? Por toda a eternidade ele tem estado só... então de repente , num dia, numa manhã, ele ficou enlouquecido, ou o que? De repente ele começou a se sentir solitário depois do almoço. E qual era a necessidade de criar todo o mundo? Apenas uma mulher já teria sido o suficiente!
        E agora, como ele está se sentindo hoje? Muito cheio de gente? Gente em demasia pelas ruas? Deve estar planejando destruir o mundo em breve. Sobre que tipo de Deus você está falando? O seu Deus é uma pessoa que pode se sentir solitário?
        Todas essas são respostas tolas para perguntas tolas. 
        Então existem pessoas que dirão: isso é um jogo de Deus, a sua brincadeira. Ele não poderia ter ficado sentado em silêncio? Que espécie de jogo é esse? Adolf Hitler e Mussolini e Joseph Stalin e Mao-Tse-Tung, Gengis Khan, Tamurlaine, Nadir Shah... Brincadeira de Deus? Seis milhões de judeus assassinados por Adolf Hitler, e Deus está brincando com um jogo? Por que ele não vai jogar golfe? ou xadrês? Por que torturar pessoas? Tanta miséria no mundo e esses tolos seguem dizendo que isso é brincadeira de Deus? Crianças que nascem paralíticas, cegas, surdas, mudas... Brincadeira de Deus? Que espécie de Deus é esse? Ou ele não é Deus, ou pelo menos ele não é divino. Ele deve ser muito mau.
        Essas perguntas não ajudam. Elas criam mais perguntas. Patrick, o máximo que eu posso dizer é que a vida não tem propósito algum, ela não pode ter qualquer propósito.
        Todos os propósitos estão no meio da vida. Sim, um carro tem um propósito: ele pode levá-lo de um lugar ao outro. O alimento tem um propósito: ele pode nutri-lo, ele pode mantê-lo vivo. Uma casa tem um propósito: ela pode lhe dar abrigo quando está chovendo e quando está quente. As roupas têm propósito... Todos os propósitos estão dentro da vida, mas a vida em si mesma não pode ter qualquer propósito porque ela não é um meio para algum fim. Um carro é um meio, a casa é um meio.
      A vida não tem qualquer objetivo, a vida não está indo para lugar algum. A vida está simplesmente aqui! Ela nunca foi criada. Esqueça essa idéia de criação. Isso cria muitas perguntas estúpidas na mente. Ela nunca foi criada, ela sempre esteve aqui e ela sempre estará aqui. Com formas diferentes, de maneiras diferentes, a dança continuará. Ela é eterna. Ais dhammo sanantano - assim é a lei última.
        Não há qualquer propósito e essa é a beleza da vida. Se houvesse alguns propósitos, então a vida não seria tão bonita, então haveria uma motivação, então ela seria como um negócio, então ela seria muito séria. Olhe para as rosas, para as flores de lótus, para os lírios. Qual o propósito? O lótus de manhã cedo, o sol nascendo, o cuco começando a cantar...Qual o propósito? Isso não é intrinsecamente lindo? Todas as coisas precisam de propósitos fora de si mesmas?
        A vida é intrinsecamente linda. Ela não tem qualquer propósito extrínseco. Ela não é propositada. Ela é exatamente como uma canção de um pássaro na escuridão da noite, ou o som da água, ou o som do vento passando através dos pinheiros...
        O homem é voltado para objetivos. E porque a sua mente é voltada para objetivos, ela cria perguntas como esta: "Qual o objetivo da vida? Deve haver algum objetivo." Mas se alguém disser, "esse é o objetivo da vida", então você irá perguntar: "Qual o objetivo desse objetivo? Por que nós devemos alcançá-lo? A que propósito ele irá servir?" E se alguma outra pessoa disser "Esse é o objetivo desse objetivo", as mesmas perguntas irão surgir novamente e você vai voltar ao mesmo ponto, ad infinitum. 
      Você me pergunta: "Você poderia nos dizer qual é o propósito da criação?"
      O mundo nunca foi criado. A palavra "criação" não é correta. O mundo sempre esteve aqui, ele é eterno. Não existe criador. Deus não é o criador do mundo. Deus é a própria energia criativa da existência. É mais criatividade do que um criador. Ele não é o poeta, mas sim a poesia; não o dançarino, mas a dança; não a flor, mas a fragrância.
        Você me pergunta: "Por que a vida existe?"
        Essas perguntas parecem muito filosóficas, e podem torturá-lo muito, mas elas são absurdas. É como perguntar "Qual o sabor da cor verde?" Isso é irrelevante. A cor verde não tem qualquer sabor. Cor e sabor não estão relacionados absolutamente. "Por que a vida existe?" Veja que as palavras "vida" e "existência" significam a mesma coisa. Isso é tautologia. Você está perguntando: "Por que a vida é vida?" Assim fica mais claro para você. Mas quando você pergunta "Por que a vida existe?", as palavras enganam você.
        Você está perguntando "Por que a vida é vida?". Você está perguntando "Por que uma rosa é uma rosa?" Você ficaria satisfeito se uma rosa fosse uma margarida? Então você poderia perguntar "Por que uma margarida é uma margarida?" De que maneira você fica mais satisfeito? 
        Se a vida não existir, você ficará mais satisfeito? Simplesmente imagine você mesmo sem o corpo, sem a mente, um fantasma perguntando "Por que a vida não existe? O que aconteceu com a vida? Por que ela desapareceu?". Essas perguntas sempre irão persistir e perseguir você.
        A vida é um mistério. Não existe qualquer porquê, qualquer propósito, qualquer razão. Ela está simplesmente aqui. Aproveite-a ou abandone-a, mas ela está simplesmente aqui. E estando ela aqui, por que não aproveitá-la? Por que desperdiçar seu tempo filosofando? Por que não dançar, cantar, amar e meditar? Por que não se aprofundar mais e mais nessa coisa chamada "vida"?  Talvez no centro mais profundo você irá saber a resposta. Mas a resposta vem de uma tal maneira que ela não pode ser expressada. É como um homem mudo que experimenta açúcar. É doce, ele sabe que é doce, mas ele não consegue falar.
        Os Budas sabem, mas eles não conseguem dizer. E os idiotas não sabem e seguem falando, seguem dando respostas a você. Os idiotas são muito espertos nesse sentido de encontrar, de fabricar, de manufaturar respostas. Faça qualquer pergunta e eles terão uma resposta para você.
        Quando Gautama Buda costumava viajar por este país de um lugar a outro, alguns poucos discípulos iam à frente e anunciavam na cidade: "Buda está chegando, mas por favor não façam aquelas onze perguntas". E uma daquelas onze perguntas era "Por que a vida existe?". Uma outra era "Quem criou o mundo?" Naquelas onze perguntas, toda a filosofia estava contida. Na verdade, se você abandonar aquelas onze perguntas, nada sobra para ser perguntado. 
        Buda costumava dizer que essas eram perguntas inúteis. Elas não eram respondíveis, não porque ninguém soubesse a resposta. Elas eram irrespondíveis pela própria natureza das coisas. 
        Um grande filósofo, Maulingaputta, veio até Buda e começou a fazer algumas perguntas... Perguntas após perguntas. Buda ouviu silenciosamente por meia hora. Maulingaputta começou a se sentir um pouco embaraçado porque Buda não estava respondendo, ele estava simplesmente sentado ali, sorrindo, como se nada tivesse acontecido, e ele havia formulado perguntas tão importantes, tão significativas.
        Finalmente Buda disse: "Você realmente quer saber a resposta?"
        Maulingaputta disse: "Se eu não quisesse, por que eu teria vindo até você? Eu viajei pelo menos mil milhas para vê-lo"..."Por que eu teria vindo de tão longe? Foi um longo sofrimento. Parece que eu estive viajando por toda a minha vida! E você está perguntando se eu realmente quero saber a resposta?"
        Buda disse: "Eu estou perguntando de novo: você realmente quer a resposta? Diga sim ou não, porque irá depender muito disso".
        Maulingaputta disse "Sim!"
        Então Buda disse: "Por dois anos sente-se silenciosamente ao meu lado, não pergunte, não questione, não converse, simplesmente sente-se silenciosamente por dois anos ao meu lado. E após dois anos você poderá perguntar o que você quiser e eu prometo que irei respondê-lo."
        Um discípulo, um grande discípulo de Buda, Manjusri, que estava sentado na sombra de uma outra árvore, começou a rir muito alto e começou a rolar pelo chão. Maulingaputta disse: "O que aconteceu com esse homem? Você está falando comigo, você não dirigiu uma simples palavra a ele, ninguém disse nada para ele... Estará ele contando piadas para si mesmo?"
        Buda disse: "Vá lá e pergunte a ele".
        Ele perguntou a Manjusri. Manjusri disse"Senhor, se você quiser realmente fazer a pergunta, faça-a agora. Essa é a maneira dele enganar as pessoas. Ele me enganou. Eu costumava ser um filósofo tolo, exatamente como você. A resposta dele foi a mesma quando eu cheguei. Você viajou mil milhas e eu havia viajado duas mil milhas."
        Manjusri era certamente o maior filósofo, o mais conhecido do país. Ele tinha milhares de discípulos. Quando ele chegou, com ele vieram mil discípulos. Um grande filósofo chegando com seus seguidores.
        E Buda disse, "Sente-se silenciosamente por dois anos." E eu me sentei silenciosamente por dois anos, mas então eu não podia fazer uma pergunta sequer. Aqueles dias de silêncio... Devagar, devagar, todas as perguntas foram se desfazendo. E uma coisa eu vou dizer a você: ele manteve sua promessa, ele é um homem de palavra. Após os exatos dois anos, eu tinha me esquecido completamente, eu tinha perdido a noção do tempo, por que quem vai se preocupar em lembrar? Na medida em que o silêncio ficou mais profundo, eu perdi toda a noção de tempo."
        "Quando os dois anos se passaram, eu nem estava me dando conta disso. Eu estava curtindo o silêncio e a presença dele. Eu estava bebendo a presença dele. E isso foi tão incrível. Na verdade, no fundo do meu coração eu não queria nunca que aqueles dois anos fossem concluídos, porque uma vez que eles se concluíssem, ele iria dizer: "Agora ceda o lugar para alguma outra pessoa sentar ao meu lado, e você afaste-se um pouco. Agora você já é capaz de estar só, você não precisa tanto de mim. Exatamente como uma mãe afasta a criança quando ela pode comer e digerir por si mesma e não precisa mais se alimentar do peito materno. Assim, Manjusri disse, eu estava esperando que ele se esquecesse de toda essa história a respeito dos dois anos, mas ele se lembrou. Exatamente após os dois anos, ele me disse: "Manjusri, agora você pode formular as suas perguntas". Eu olhei para dentro de mim e não havia nenhuma pergunta, nem ninguém para formular perguntas, era um silêncio total. Eu ri, ele riu, ele deu um tapinha nas minhas costas e disse, "Agora, afaste-se um pouco."
        "Assim, Maulingaputta, é por isso que eu comecei a rir, porque agora ele está de novo aplicando o mesmo golpe. E esse pobre Maulingaputta vai se sentar por dois anos silenciosamente e vai se perder para sempre, nunca mais será capaz de formular uma pergunta sequer. Por isso, Maulingaputta, eu insisto: se você quer realmente perguntar, pergunte agora!"
        Mas, Buda disse: "Minhas condições têm que ser atendidas."
        Então, Patrick, a minha resposta para você é a mesma: atenda às minhas condições, medite, sente-se silenciosamente, simplesmente esteja aqui e todas as perguntas irão desaparecer. Eu não estou interessado em respondê-lo. Eu estou interessado em dissolver as suas perguntas. E quando todas as perguntas desaparecerem, aquele que pergunta também desaparecerá, ele não pode existir sem as perguntas. Quando nenhuma pergunta mais existir, nem aquele que pergunta... quantas bênçãos, quanto êxtase! Neste exato momento, você nem pode imaginar, você nem pode sonhar, você nem pode compreender. Então, todo o mistério da vida se abrirá, mistérios e mais mistérios... e isso não tem fim."

OSHO - The Book of the Books - Tradução: Sw. Bodhi Champak

domingo, 20 de abril de 2014

Carnívoro ou Vegetariano? - por Yogananda

Yogananda
Como muita gente nesse mundo eu passei a comer só vegetais não porque não goste de carne, mas porque sinto claramente no corpo que ela não é saudável para mim, e também porque não quero proximidade com esse carma obscuro da matança dos animais. Fiquei muito impressionado quando assisti há anos atrás no Youtube alguns videos chocantes sobre como são normalmente sacrificados os animais para satisfazer o consumo das pessoas. Um horror. Muita gente que viu fez o mesmo, porque não adianta se fingir de morto e desvincular as duas coisas: o pacote de carne na prateleira do supermercado e animal vivo na natureza. Eles são a mesma coisa. Um morto e outro vivo. Infelizmente há muita gente assim, mas acredito que a ignorância sobre a ligação das duas coisas não nos livra dos efeitos.
Constatei também que tanto vegetarianos como carnívoros, são igualmente opiniáticos, senão radicais, e tem visões e argumentos pouco fundamentados sobre o assunto, e frequentemente uma certa dose de partidarismo. 
A visão de Albert Einstein, que era vegetariano, se concilia com a opinião de ecologistas e cientistas de que as pastagens de animais usam de forma improdutiva uma área desnecessária de terras para produzir menos alimentos que a agricultura. Essa visão é produto do fato de ele ser um ser muito evoluído vivendo nos nossos tempos. Ele diz: "Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará tanto as chances da vida na terra quanto a evolução para uma dieta vegetariana"
Então eu procuro me orientar pela minha bússola interior sobre esse assunto, mas como nunca se consegue conciliar as duas opiniões divergentes sobre o isso, decidi postar a visão equilibrada de Yogananda,  um iogue respeitável já citado neste blog em pelo menos duas postagens deliciosas de se ler. Se você quiser lê-las, são O Segredo da Vida Equilibrada, uma experiência incrível com o seu mestre Sri Yuktésvar e a outra O Roubo da Couve Flor. Ele diz:

"A questão do consumo da carne e do vegetarianismo é assunto muito complicado e controverso, por isto vou apresentar os vários argumentos oferecidos pelos seguidores dos “cultos” dos açougueiros e dos vegetarianos, e acrescentar no fim, se possível, minhas próprias opiniões a respeito de ambos. O que direi será governado pelas necessidades atuais do mundo, e acredito que nunca poderá ser dada uma visão absoluta, que seja boa para todos os tempos e para todas as pessoas. 

A origem do consumo de carne 
Ao ver o peixe grande comer o peixe pequeno, a lagartixa recém-nascida pular sobre o pequeno inseto e engoli-lo, e o tigre e o leão, mais fortes, caçarem animais menores, o homem viu nisto o dedo indicador da Natureza, e começou a comer a carne de animais que satisfaziam o seu paladar. 
O elefante e o rinoceronte são tão fortes quanto o leão e o tigre, e apesar disto são vegetarianos. O homem aprendeu a comer vegetais e desenvolveu o instinto de alimentar-se de vegetais ao ver as criaturas da Natureza que também consomem vegetais. 
Como encontramos, no seio da Natureza, mais animais carnívoros do que vegetarianos, também vemos pessoas sobrevivendo mais de carne do que apenas de vegetais. Muitas pessoas 
dizem que comer carne produz câncer e diminui o tempo de vida. Eu acredito que o consumo 
excessivo de carne tende a produzir mais doenças do que o consumo excessivo de vegetais. 
O elefante e a tartaruga, que consomem vegetais, vivem por muito tempo. As vacas comem vegetais, porém morrem cedo; cães comem vegetais, mas também comem uma quantidade maior de carne, e vivem pouco tempo também. Os crocodilos comem frugalmente carne e jejuam por longos períodos de tempo, e vivem até 600 anos ou mais. Sabe-se que alguns iogues que comiam vegetais e que conheciam a super-arte de viver, viveram mais de 600 anos. 
Longevidade não depende somente de alimentar-se corretamente, mas também de se respirar menos, de não sobrecarregar o coração, da eliminação apropriada, do controle da força sexual e do correto recarregamento do corpo a partir da Fonte Divina. 

A interdependência da vida 
No seio da Natureza, vemos que os vegetais consomem os elementos químicos do solo, e 
as aves, os animais e os seres humanos comem vegetais e animais. Os vegetais gostam de 
fertilizantes de origem animal, como o sangue seco e os ossos de corpos animais em estado de 
putrefação, enquanto os animais comem a carne humana. Seres humanos comem animais, 
vegetais e elementos químicos do solo através da comida e dos remédios; a grande e velha 
Terra está sempre faminta e é canibal, uma vez que de seu útero vêm todos os elementos 
químicos que compõem os seres vivos, e em seu grande estômago devorador todos vegetais, 
animais e humanos devem retornar. Isto mostra que a Terra voraz, os vegetais, os animais e os 
seres humanos são ao mesmo tempo vegetarianos e carnívoros. 

As diferenças entre vegetais e a carne 
Vegetais e animais são diferentes apenas no grau de manifestação da vida. O Prof. J. C. Bose, da Índia, provou que os vegetais têm um sistema nervoso que responde a um estimulo favorável através do prazer, e a uma influência desfavorável através da dor. Eles têm batimento cardíaco, sistema circulatório, pressão da seiva e uma vida central, em certas células das raízes – o cérebro dos vegetais. Ampute um dedo seu e você não morrerá, corte um galho e a planta não morrerá, mas remova o cérebro humano e o corpo que o continha morrerá, exatamente como ocorre quando se corta a raiz de uma planta: ela morre. 
Assim como os animais respondem a certos tratadores, os vegetais crescem em abundância sob certas vibrações humanas benignas, e definham ou crescem pouco quando cultivados por pessoas com vibrações erradas. Pode-se anestesiar uma planta, fazer com que sinta prazer ou dor, ou até envenená-la e matá-la. Cortar a cabeça de uma couve-flor é o 
mesmo que cortar a cabeça de um carneiro. Instrumentos de precisão desenvolvidos pelo Prof. 
Bose nos mostram a dor e a agonia da morte em plantas torturadas ou moribundas. Um 
pedaço de estanho pode sentir prazer ou dor, e pode expressar suas emoções através de instrumentos sensíveis feitos pelo homem. A couve-flor abatida só pode expressar sua agonia 
pré-morte através dos instrumentos do Prof. Bose. Os metais e as plantas torturados não podem falar. Alguns peixes expressam sua agonia através de um grito agudo e curto. Aves e animais manifestam seus problemas através de diferentes sons específicos. O homem se aproveita do fato de que ele não entende a linguagem dos animais e então os mata contra a vontade deles. 
O homem civilizado não tem direito de matar os animais ou os silvícolas, somente porque não entende a linguagem deles. Mas, do ponto de vista de resposta a dor, o homem é a manifestação mais sensível da vida. Depois do homem, segundo a sensibilidade, vêm os diferentes graus de animais, peixes, plantas e minerais. O carneiro e o frango, quando estão sendo mortos, sofrem menos do que os animais que resistem e se ressentem, como o boi e o porco. A maior parte dos peixes desistem rapidamente quando estão sendo mortos. 
Não há dúvida de que o ser humano possui o sistema nervoso mais sensível, através do qual ele recebe e responde a estímulos na forma de prazer ou dor. Os animais são bem menos sensíveis e sentem menos dor e prazer. O animal, sendo menos sensível do que o homem, sente menos dor do que os seres humanos durante a morte. O sistema nervoso das plantas é bem menos desenvolvido do que o sistema nervoso dos animais. Os minerais são menos sensíveis a estímulos do que as plantas. Uma martelada pode matar uma planta, um animal ou 
um homem, mas não consegue facilmente extrair a Força Vital de um tenaz e menos sensível metal. No entanto, por meio de repetidas batidas, até mesmo os metais perdem sua tenacidade ou atributos da vida. Portanto, do ponto de vista da expressão através de sons e da sensibilidade do sistema nervoso, pode-se dizer racionalmente que o homem sofre mais quando é morto; que o boi sob o machado sofre mais do que o carneiro ou o frango, que o peixe sob a faca sofre menos do que o carneiro, e que os vegetais, quando comparados, sofrem muito menos do que o peixe, os animais e o homem. 
O canibalismo não existe apenas entre os homens, mas também entre as plantas, as aves e os animais. Lobos comem lobos. Os indígenas Jivaro comem seus prisioneiros de guerra e poupam o custo de manutenção e de despesas com a compra de carne. Eles encolhem as cabeças de seus inimigos prisioneiros até o tamanho de uma bola de tênis e as guardam como troféus de guerra, assim como caçadores penduram a cabeça dos animais que eles mataram.  
O consumo de carne obviamente não pode ser condenado sob o ponto de vista de ser um ato de matar, porque o consumo de vegetais e frutas também envolve a retirada da vida; o que é palpável é que a matança de animais desperta muito mais a nossa consciência e sensibilidade humanas do que a matança de vegetais e o descascamento e a mastigação das frutas. A maior parte dos consumidores de carne bovina desistiriam de comer carne se tivessem que matar os animais para obtê-la; mas nenhum vegetariano se importaria em descascar os vegetais e cortar as cabeças das cenouras ou de qualquer outro vegetal. O fato de que a matança de animais implica derramar sangue e produzir dor demonstra claramente que os animais são parentes próximos do homem e estão se aproximando dele na escala evolutiva. 
Os vegetais não gritam de dor nem derramam sangue quando são mortos. Do ponto de vista da sensibilidade humana, podemos dizer que é menos dolorido matar um vegetal do que um animal. As almas adiantadas hesitam até em remover as cabeças das rosas de seus corpos vegetais que florescem em jardins domésticos, da mesma maneira como as outras almas odeiam matar seus animais de estimação para obtenção da carne. 
Carne é alimento concentrado e é fortalecedora, mas é também altamente constipante e age como retentora dos venenos corporais, sendo assim precursora de doenças. Os vegetais têm de ser ingeridos com mais paciência e não são tão concentrados quanto a carne; por isto a ingestão inapropriada de vegetais não é boa fonte de energia. Frutas e vegetais, tendo um efeito 
laxativo natural, favorecem a saúde e a eliminação das doenças. 
Os iogues da Índia opõem-se à ingestão de carne, enquanto os seguidores do Tantra advogam seu uso. As nações que comem carne são, em geral, politicamente livres. A Índia é vegetariana e não tem sido forte o suficiente para dispersar invasões estrangeiras. Os americanos estão sofrendo de obesidade devido ao consumo exagerado de todos os tipos de proteínas, como por exemplo carne, leite e nozes. Os americanos deveriam se tornar 
vegetarianos. Hindus quase não têm proteína para comer e, por causa do fanatismo, abusam das dietas em que predomina o amido e, assim, morrem cedo e magros. Na Índia, os animais vivem mais do que os seres humanos. 
Apenas como um meio para um fim, ou como medida temporária, a Índia atual precisa comer carneiro, bodes e aves até que possa conseguir leite e substitutos da carne em quantidades suficientes. A vida espiritual hindu, mesmo que sustentada pelo consumo de carne, faria mais benefício ao mundo do que a dos animais mudos, aos quais se permitem viver sem fazer nada. A vida humana é mais valiosa e útil a todas as criaturas do que a vida de qualquer animal. Se uma escolha tem de ser feita entre um ser humano comer carne para sobreviver ou morrer sem comer carne, e os animais sobreviverem e não serem comidos pelos homens, eu diria que os homens deveriam sobreviver às custas dos animais. 
Ninguém pode escapar. Os animais são sacrificados contra suas vontades para alimentar o homem; este, então, contra sua vontade, tem de morrer para que sua carne recomponha os elementos químicos da Mãe Terra. Um bilhão e meio de pessoas multiplicado por 44,6 quilos de elementos químicos, que são retirados da terra em forma de vegetais a cada sessenta anos para alimentar as pessoas, devem, a um intervalo de cerca de sessenta anos, ser devolvidos ao solo para sustentar a saúde da Mãe Terra. Se os corpos de um bilhão e meio de pessoas, ao invés de se misturarem com o solo, evaporassem no éter a cada sessenta anos, então ao final de alguns milhares de anos, a Terra ficaria fraca e infértil, seria apenas um torrão desértico, 
habitado por seres humanos sempre-crescentes e devoradores como formigas. 
Testes químicos que introduziram sangue de certos animais em seres humanos, mostram que algumas pessoas podem comer apenas a carne de certos animais. Esse é um meio científico moderno para demonstrar quais carnes específicas se harmonizam com cada indivíduo. 
Igualmente, nem todas as frutas e vegetais são apropriados para todas as pessoas. Algumas frutas causam alergias em certos indivíduos. Algumas pessoas ficam doentes quando comem cebola. Batata às vezes causa constipação. Algumas pessoas ficam muito doentes quando comem carne bovina, e outras sofrem de azia ao comerem frango. A maioria responde favoravelmente à ingestão da carne de carneiro. Descobriu-se que carne de carneiro é mais 
compatível com os elementos químicos dos seres humanos, do que qualquer outra forma de 
carne. 
Em locais frios, como o Alasca, as pessoas bebem óleo e sangue de foca para se manterem aquecidas. Elas vivem de carne de peixe, foca, caribu e morsa. Assim como algumas pessoas comem vegetais e frutas secas, os esquimós comem carne seca quando um suprimento de fresca é difícil de se encontrar. Dizem que muitos esquimós morrem de tuberculose devido ao frio intenso. Algumas pessoas dizem que eles morrem devido à sua dieta de carne, enquanto
outras acham que suas mortes prematuras devem-se ao fato de quererem viver a vida não natural
do homem branco.
Descobrimos através de estudos que ambos, vegetarianos e consumidores de carne, podem viver vidas saudáveis e longas. Jesus, Buda e São Francisco comiam carne, enquanto
Shankara, Chaitanya e muitos santos crísticos da Índia não comiam carne. Em uma visão, São
Pedro viu alguns animais e uma voz pediu que ele os matasse e comesse.(Atos 10:10-15). O mandamento “Não matarás” destinava-se aos homens, não aos animais. Moisés e Jesus, ambos comiam carne,(Lucas 24:42-43) e foi Moisés quem transmitiu os dez mandamentos.
A vida se desenvolve de maneiras diferentes, nos seus diferentes estágios. Manifesta-se nos minerais, mas seus tecidos são duros e têm de ser reduzidos a pó e condicionados antes que possam ser absorvidos pelo organismo humano. Os minerais são emulsificados e transformados em forma orgânica na vida de vegetais para que possam ser consumidos pelos organismos menos duros de outros vegetais, animais e seres humanos. Os tecidos vegetais são
macios, mas raramente mostram a presença de um forte sistema central, e quando os vegetais
são abatidos com facas, eles nunca gritam de dor ou derramam sangue. Seu sangue é um fluido branco viscoso chamado seiva.
A vida desenvolve os tecidos de um peixe em tecidos mais complexos do que dos vegetais. A carne de peixe é em geral branca. Peixes têm sangue e um sistema nervoso, mas poucos peixes fazem qualquer som ou protestos quando são mortos. A vida evolui ainda para formas mais complexas de animais, portanto seus tecidos são diferentes do peixe. Animais protestam em voz alta durante o processo de matança. O boi e o porco, tendo sistema nervoso bem desenvolvido, sentem muita dor durante o processo a que são submetidos e protestam em alto e bom tom a qualquer tentativa que se faça de matá-los. Eles protestam mais
violentamente do que o carneiro. Isto mostra que embora os animais não possam conversar
inteligentemente como os humanos; ainda assim são evoluídos o suficiente para protestarem através de sons, que estão sentindo dor e não querem ser mortos.
O homem não é morto e consumido por outros homens, com exceção em tribos primitivas de canibais, porque ele pode protestar contra seu assassinato através de sons inteligíveis. Os homens não pensariam em matar animais se estes pudessem protestar contra a matança através da linguagem inteligível ou escrita perante um tribunal. Embora cães sejam consumidos em algumas partes do mundo, ainda assim ninguém pensa em matar um cão de estimação inteligente, quase humano, para servi-lo como repasto na mesa dos homens glutões. 
Assim, fica evidente, do ponto de vista do protesto sonoro, que o homem é a primeira criatura 
a recusar a matança e, portanto, não deve ser morto. 
Em seguida vêm os touros, bois, vacas, porcos, entre outros, que protestam alto o bastante que não querem ser mortos – que têm a mente e a consciência evoluídas o suficiente para perceberem o amor pela autopreservação e a injustiça no ato de se infringir dor, e portanto não devem ser mortos. Parece que os mudos vegetais, peixes e animais mansos foram intencionalmente dotados pela Natureza de um sistema nervoso menos desenvolvido, que não registra tanto a dor nem provoca protestos na forma de sons durante a dor. Essa talvez possa ser uma das razões pelas quais essas formas menos desenvolvidas foram criadas para serem sacrificadas em prol da manutenção das formas de vida mais evoluídas."


(Título original: “Meat Eating versus Vegetarianism, by Swami Yogananda”, publicado na revista East-West, abril-maio de 1935.)