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domingo, 4 de março de 2012

O Outro

Eu tinha uma amiga que dizia: “eu gosto do povo, adoro. Só não gosto do cheiro do povo no ônibus”. Pois é, o outro é assim, um desafio, sempre. Mesmo quando “gostamos” dele.
Não é à toa que na divisão das 12 casas astrológicas que perfazem a nossa vida, a Casa 1, que é “o meu eu”, é oposta à Casa 7, “o outro”, do outro lado, a 180º de distância, nos encarando... Não tem escapatória. Esse outro é tanto o inimigo declarado, o parceiro (a) de vida, o sócio, o concorrente. Para o médico é o paciente, para o vendedor é o comprador, e por aí afora... E a nossa vida está entrelaçada com a do outro como essas crianças na imagem aí em cima.

Eu pergunto, aqui entre nós: - “você não acha sintomático que o cônjuge e o inimigo declarado sejam personagens  da mesma casa 7?” Abra o olho cumpadre (e cumadre). Aí tem coisa. E não contaram para nós. Vamos ter que descobrir sozinhos...
 E por falar em sozinho, é curioso: a gente nasce sozinho e vai morrer sozinho, prestando conta para si mesmo e mais ninguém, mas no entremeio vai conviver, bem ou mal, todo o tempo com o outro. E a gente ama e odeia isso. Às vezes ao mesmo tempo. É estranho... Por que é assim? Não sei. Não sabemos. Precisamos ser sinceros quanto à nossa incompetência.
Eu tenho um pressentimento, sei lá se é verdadeiro ou falso, mas vou dizer (se não funcionar, a gente continua na busca). Como já falamos na postagem
Meditar? Orar? Para que? vamos então nos atrever a propor uma “teoria da geração de tudo”, uma Cosmogenia que, entre outras, explica essa coisa da existência do outro: parafraseando Don Juan e o hinduismo, existe no Universo uma força de Criação da Consciência (Brahma) e outra de Destruição (Shiva) atuando a todo instante sem parar. Vishnu, o terceiro fica só na Manutenção, equilibrando os estragos dos dois (rsrs). Então, se a Criação e a Destruição são simultâneas, o Universo precisa de Consciência sendo gerada a todo o instante, on line, em tempo real, como diz a garotada antenada. E portanto precisa de Ex-pe-ri-ên-cia. Precisa de nós, seres vivos, desde o mais simples vírus até os humanos. Todos ganhamos Vida e devolvemos Consciência, como diziam os homens de conhecimento toltecas. Daí a expressão “crescei e multiplicai-vos” dita por outro homem de conhecimento que sabia das coisas, expressão que aliás no nosso planeta está meio em baixa por causa da superpopulação.
Por isso estamos aqui: nos demos a nós mesmos um equipamento físico, emocional, mental e espiritual tingido por umas coisas como apego, raiva, ignorância e no final, a cereja do bolo: o outro. Nós mesmos nos demos o outro, não podia ser diferente. Igual e oposto a nós, ao mesmo tempo. E a paisagem que nos demos em volta qual é?: Recursos inflexíveis, sabiamente dosados, e apetites insaciáveis, É mole?
Esse embate com o outro é o grande gerador de experiências e portanto de Consciência de que o Universo precisa: atrito. É o atrito entre opostos como possibilidade criativa de experiências.
Se você discorda, pode fazer uma experiência decisiva: imagine-se (não vai ser fácil) vivendo num mundo sem o outro, sem o seu semelhante, ou melhor, o seu diferente. Mas imagine mesmo, senão não dá para aceitar ou refutar a teoria. Nesse tal mundo, se não há o outro, não há como haver nenhuma das 7 virtudes (temperança, caridade, simplicidade, paciência, generosidade, diligência, humildade) ou os 7 pecados capitais (orgulho, preguiça, inveja, luxúria, raiva, gula, avareza). Essas coisas só aparecem a dois ou mais: sem o outro, vai ser uma paradeira federal. Bota tristeza nisso. Não há Consciência que brote aí. Sem o outro a aridez é total. Já pensou num mundo sem Luxúria? Vixe! (rsrs)
Então você, muito gentil, diz: ‘ok, vou aceitar em princípio a sua teoria “sub judice”, ou seja, até prova em contrário. Mas tenho uma pergunta: “como eu faço para me relacionar com o outro de uma forma justa, equânime, tanto exterior como interiormente?”
Essa sim é A pergunta.
A resposta eu na sei, mas estamos trabalhando nisso. Todo o tempo. A pergunta é sempre mais interessante que a resposta, porque deixa o tema sempre no modo aberto. Começo a achar que talvez a resposta não seja a resposta em si, mas sim o trabalhar nisso, sem descanso. Vamos lá:
O “se relacionar com o outro” exige uma pá de coisas:
A primeira coisa, e principal, é você “estar presente” (rsrs). Você deve ter pensado: esse cara é doido. Como posso me relacionar com o outro se não estou presente? Por telepatia? Mas é de outra presença que estamos falando, é claro. É a presença interior, no instante, no Agora,  de que as tradições sem exceção falam. Eckhart Tolle tem textos e vídeos encantadores sobre isso. Presença é “ocupar” todo o seu corpo físico, estar sentindo-o sem pensar nele, atento e aberto para o outro. Na cena só existe a sua Atenção e o outro . A rigor mesmo só existe a sua Atenção. É claro que quando a gente faz a lição de casa direitinho, a gente está presente “de carona” também no emocional e mental e sentindo  no conjunto dos três, cada vibração e impressão que chega, ao mesmo tempo em que está se relacionando com o outro. Parece difícil no início, principalmente nos picos emocionais, absorventes, na hora do racha, mas aos poucos a gente acerta. É um largar atento, um deixar fluir. Se a gente se perder, volta e retoma...
A outra coisa é agir exteriormente com o outro com a maior consideração possível (seja ele quem for, seja na situação que for), exatamente como agimos com uma pessoa querida, que queremos agradar. Difícil? Bota difícil nisso. Não podemos esquecer que estamos lidando com dois egos insuportáveis, o nosso e o dele. Para funcionar, o agente da nossa ação deve estar previamente ciente de que o ponto não é “ganhar a discussão” mas, sem perder o objetivo, estar presente contemplando-se na ação, identificando as energias e observando, tão imparcialmente quanto possível, a resistência ridícula e mesquinha do ego. Aliás dos dois egos. Isso não significa “ser bonzinho” mas um segredo é não “bater de frente”. Gurdjieff chamava esse processo de “consideração exterior”, ou seja, independentemente de o seu ego achar que o outro ego seja um (a) pulha, você o trata exteriormente com consideração. Não confunda isso com essa coisa viscosa chamada de “politicamente correto”. São coisas parecidas só por fora, mas a nossa nos põe diante de uma dificuldade quase insuperável, a de conscientemente tratar alguém  exteriormente com consideração, quando o seu próprio ego está revoltado interiormente, querendo pular no pescoço do outro e esganá-lo. Lembrei-me de um rabino que disse; "É muito melhor interiormente para nós, ser gentil do que ter razão".
Uma terceira coisa é uma constatação absolutamente insuportável para o nosso ego que vive na dualidade “eu e o outro”. O grande filósofo popular, Vicente Mateus, ex-presidente do Corinthians dizia, reafirmando essa dualidade: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. (rsrs).
Pois bem, o que eu vou dizer é uma coisa tão insuportável para o nosso ego, que eu vou falar rapidinho e sair de fininho, como criança que “fez reinação”. A constatação é a seguinte: 

 O outro é a sua sombra.
O outro é tudo o que é sombrio demais para você aceitar como seu. Aqui entre nós, apesar de o seu ego espernear – chegue um pouco mais que eu vou contar um segredo no pé do seu ouvido (essa vai ser "braba"):
“O outro é você”.
E durma com um barulho desses.
Domingo que vem, tem mais.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Poder Pessoal

São Francisco de Assis

O poder pessoal é um enigma. É um dos temas mais ocultos e evasivos da busca interior, contrariando as aparências, expectativas e conceitos prévios que as pessoas comuns têm a seu respeito.
Ao mesmo tempo em que é declarado como uma das coisas mais importantes a ser buscada no ensinamento, as citações a respeito de sua definição envolvem a sua essência em mistério, a partir do fato de que é necessário ter poder pessoal para compreender a própria definição de poder pessoal.

Para se compreender o cerne da questão as tradições explicam que  há uma evidência clara de que o poder pessoal depende do exercício constante e disciplinado de uma outra prática definida como impecabilidade, que por sua vez não tem exatamente a mesma conotação do termo usado na linguagem do homem comum, culturalmente baseada no conceito de pecado.
Impecabilidade é o uso correto e otimizado da energia. Eu uso mal a energia quando me identifico, quando ajo com pressa, quando não relaxo, quando julgo, quando falo mal, quando invejo, me exibo, em resumo quando me deixo levar por um dos chamados 7 pecados. Como vocês vêem, não é simples, mas ao mesmo tempo é muito instigante navegar nesse mar aprendendo a usar a bússola, sextante, instrumentos... Poder e impecabilidade andam de mãos dadas. A impecabilidade gera o poder pessoal. Mesmo que o buscador esteja cristalizando a sua estrutura interior em cima de um centro só (físico, emocional ou mental) como acontece com muitos faquires, monges e yogins, ou então cristalizando seus corpos equivocadamente pela persistência em aplicar a sua energia interior em um viés pessoal, como o orgulho por exemplo, ele gera concretamente um poder pessoal. Equivocado, mas gera. Se quisermos exemplos desse último caso é só ver a maioria dos dirigentes, mandatários e stars atuais e históricos da mídia. Hitler é um bom exemplo. A Consciência Universal não tem um controle sobre o livre arbítrio do ser humano. A persistência conduzida equivocadamente pelos apegos produz só coisa ruim, e pior, tudo o que nasce quer sobreviver, seja o que for, um vírus, uma organização, um ser humano, um desejo ruim... É uma lei alquímica universal. É disso que trata entre outras coisas a carta XV do Tarot - O Diabo.

O poder pessoal precisa ter o seu significado compreendido  a partir da experiência comum compartilhada do grupo de aprendizes, apesar da componente necessária de compreensão individual. Tem algo que eu compreendo sozinho, tem algo que eu compreendo só em grupo, a partir da linguagem comum calcada na experiência. Gurdjieff colocava a linguagem comum como condição sine qua non do conhecimento. Essa é a razão da prática de depoimentos no caminho gurdjieffiano, cada um fala em grupo sobre a sua experiência individual diária proposta, e todos se reconhecem na experiência de quem faz o depoimento. Isso é que gera a linguagem comum, peça básica da compreensão..
 A outra unidade de significado estreitamente ligada ao poder pessoal é a Vontade, que da mesma forma não tem a conotação comum a ela atribuída pela linguagem corriqueira ou mesmo psicológica.
Essa Vontade, de que os xamãs falam aos aprendizes, parece guardar com a região do centro do corpo (o umbigo, o hara, o centro motor), a mesma relação que a emoção guarda com o centro emocional (plexo solar) ou que o pensamento guarda com o cérebro (centro mental). Mais do que isso, a Vontade é definida como um dardo com uma materialidade e força ligadas ao corpo energético do homem de busca, e que pode ser lançada com um propósito de ação. Vontade e poder tem tudo a ver...

 O poder pessoal deve ser armazenado, pois tudo na vida do buscador depende dele, mas diferentemente dos aprendizados comuns, como o intelectual, por exemplo, não se dá através da compreensão intelectual, mas através da ação, essa tingida fortemente por uma intuição. A ação do aprendiz, orientada pelo instrutor, confia e se lança, abandonando as concepções cristalizadas pela socialização e se movimentando num mundo de experiências não usuais e sempre surpreendentes. A leitura das obras do xamanismo e particularmente a tolteca de Castaneda mostra isso lindamente.
E não podemos esquecer de que, apesar de o poder pessoal ser uma das coisas importantes do ensinamento, ele é um dos 4 inimigos naturais do buscador do Si Mesmo, lembram-se? Medo, Clareza, Poder e Velhice.
E mais, se você se despir do apego de tudo através do contato com a sua Morte, vai tocar a Liberdade Total e alcançar um poder interior indescritível. Quem já morreu interiormente não teme nada. Está em contato com a essência do verdadeiro Poder. São Francisco de Assis foi assim. Pobre, simples e inocente desafiou a igreja arrogante e suntuosa da época apoiado na humildade, e fundou uma ordem atuante até hoje. Isso é poder pessoal.
Resumindo, os conceitos-chaves do poder pessoal são Impecabilidade, que gera Poder Pessoal, que se acumula, e é exercido através da Vontade.

Através do poder pessoal acumulado a duras penas, o guerreiro pode então se tornar um Homem de Conhecimento. Muito trabalho? É isso mesmo...muito trabalho.
Mas você queria se transformar num ser de conhecimento só vendo os programas do Discovery? Tem muito o que trabalhar sim, amici...