Mostrando postagens com marcador homem de conhecimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homem de conhecimento. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de maio de 2014

A Impecabilidade e o Poder Pessoal

A impecabilidade é um mistério. Em pelo menos 14 postagens falamos dessa prática que é o cerne do trabalho do Homem de Conhecimento, como eram chamados os antigos toltecas que trabalhavam sobre si mesmos para atingirem a Terceira Atenção. Um dos  subprodutos nobre deste trabalho, a caminho da evolução, era a obtenção do Poder Pessoal, mas isso não é a finalidade da impecabilidade. Don Juan ensinou isso a Carlos Castaneda.
Para se compreender o cerne da questão as tradições explicam que  há uma evidência clara de que o poder pessoal depende do exercício constante e disciplinado da impecabilidade, que por sua vez não tem exatamente a mesma conotação do termo usado na linguagem do homem comum, culturalmente baseada no conceito de pecado.
Impecabilidade é o uso correto e otimizado da energia.
Eu uso mal a energia quando me identifico com a ação, quando ajo com pressa, quando não relaxo, quando julgo, quando falo mal, quando tenho inveja, me exibo, em resumo quando me deixo levar por um dos chamados 7 pecados capitais, usando-se um linguajar cristão. Então a Impecabilidade é o caminho para estar fora disso.
O tema é extenso e denso. Então, como um recurso mais adequado à falta de tempo das pessoas,  fizemos um conjunto de frases da obra de Castaneda, que dão uma visão do tema, mas é apenas um indicativo, um verniz e não a prática em si.  O ideal é ler a obra de Castaneda. Vamos lá:

A confiança em si significa saber algo com certeza; a humildade significa ser impecável em suas ações e sentimentos.

Isso é ser impecável? 
- Não. Tem de fazer mais que isso. Você tem de se esforçar ao máximo, o tempo todo.

"A impecabilidade é fazer o máximo em tudo que você empreender."


A chave para todos esses assuntos de impecabilidade é o sentido de você não ter tempo.

O que o guerreiro precisa mesmo a fim de ser um espreitador impecável é ter um propósito.

A impecabilidade era não somente a liberdade, como ainda era o único meio de se espantar a forma humana.

Uma vida impecável, que era, conforme ele lhe assegurara, o único meio dela perder a forma humana 

A impecabilidade do guerreiro é deixar os outros como são e apoiá-los no que forem

A outra face é a mais difícil de ser alcançada quando os sonhadores focalizam sua segunda atenção nos itens que não são deste mundo, tais como a viagem ao desconhecido. Os guerreiros precisam de impecabilidade total para alcançar este lado.

A impecabilidade não é nada mais do que o uso apropriado da energia

Economizei energia, e isso me torna impecável.

Os guerreiros elaboram listas estratégicas. Anotam tudo o que fazem. Depois decidem quais dessas coisas podem ser mudadas de modo a permitir que poupem parte da energia que despendem.

Uma das primeiras preocupações dos guerreiros é libertar aquela energia para poder encarar o desconhecido com ela continuou Dom Juan. - A ação de recanal
izar aquela energia é a impecabilidade.

Impecabilidade é a única coisa que conta no caminho do conhecimento. Os guerreiros impecáveis podem ver mundos aterrorizantes e, entretanto, no momento seguinte contar uma piada, rindo com amigos ou estranhos.

Uma vida de impecabilidade leva inevitavelmente ao sentido de sobriedade, e este por sua vez leva ao deslocamento do ponto de aglutinação.

Tudo o que é necessário é a impecabilidade, energia, e isto se inicia com um ato singular, que deve ser deliberado, preciso e constante. Se esse ato é repetido por tempo suficiente, a pessoa adquire um sentido de intenção inflexível, que pode ser aplicado a qualquer outra coisa. Se isso é realizado, o caminho está aberto. Uma coisa levará a outra até que o guerreiro descubra seu potencial completo.

"Assim, em tudo e por tudo, o procedimento para se chegar ao corpo sonhador é a impecabilidade em nossa vida diária."

Você não pode lembrar-se porque ainda não domina a vontade. Você necessita de uma vida de impecabilidade e de um grande excedente de energia, então a vontade poderá liberar essas memórias.

Encontrar-se em um estado impecável de ser é estar livre de suposições racionais e medos racionais

Impecabilidade, como afirmei tantas vezes, não é moralidade. Apenas se parece à moralidade. A impecabilidade é simplesmente o melhor uso de nosso nível de energia. Claro que exige frugalidade, simplicidade, inocência; e, acima de tudo, exige falta de auto-reflexão. Tudo isso a faz soar como um manual de vida monástica, mas não é.

"Segundo os feiticeiros, para comandar o espírito, ou seja, comandar o movimento do ponto de aglutinação, o indivíduo necessita de energia. A única coisa que armazena energia para nós é nossa impecabilidade.

Seja impecável e terá a energia para atingir o lugar do conhecimento silencioso.

Ser impecável significa acertar sua vida, objetivando reforçar suas decisões, e em seguida dar muito mais do que o máximo de si para realizar essas decisões.

A única liberdade que os guerreiros têm é a de se comportar impecavelmente.

A impecabilidade não é apenas liberdade; é a única maneira de endireitar a forma humana.

A impecabilidade começa com um único ato, que tem de ser deliberado, preciso e fundamentado. Se esse ato é repetido pelo tempo suficiente, adquire-se o senso de um intento inflexível, que pode ser aplicado a qualquer outra coisa. Se isso é realizado, o caminho é claro. Uma coisa leva à outra até que o guerreiro perceba todo o seu potencial

A impecabilidade não tem nada a ver com uma posição mental, uma crença ou algo pelo estilo. É conseqüência da economia da energia.

"A impecabilidade nasce de um equilíbrio delicado entre nosso ser interno e as forças do mundo exterior. E uma realização que requer esforço, tempo, dedicação, e estar permanentemente atento ao objetivo, de forma que o propósito final não se dissipe. Mas, sobretudo, requer persistência. A persistência derrota a apatia, é tão simples quanto isso

Fazer as coisas com impecabilidade é fazer tudo o que for humanamente possível e um pouco mais.



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Castaneda, "Ver", Poder Pessoal, O Sonho, A Morte, Os Animais...

Esta é uma transcrição de um encontro de 1972, que Carlos Castaneda concedeu para a revista Psychology Today. Ela saiu a partir da publicação de Viagem a Ixtlan, um dos seus livros mais incríveis.  Castaneda estava procurando fugir da imagem de guru-ícone da droga psicodélica com a qual foi rotulado a partir da publicação dos primeiros livros, e que lhe custou problemas com o FBI. Eu me lembro perfeitamente de como a moçada fazia essa ligação equivocada entre ele, os livros e as drogas na época. O entrevistador, Sam Keen, talvez tenha sido o entrevistador mais competente na formulação de perguntas. Sua formação em filosofia e teologia em Harvard e Princeton o fazem buscar paralelos entre os ensinamentos e as tradições ocidentais e orientais já conhecidas, coisa que não era muito frequente na época. Aparece aqui uma curiosa afirmação de Don Juan a respeito do filósofo austríaco Wittgenstein. Vamos lá:

Sam Keen:
Como eu acompanhei Don Juan através de seus três livros, suspeitei, que ele era uma criação sua. Ele é bom demais para ser verdade . Um índio velho e sábio cujo conhecimento da natureza do humano é superior ao de quase todo mundo.
Carlos Castaneda:
A idéia de que eu forjei uma pessoa como Don Juan não é convincente. Ele dificilmente seria o tipo de figura que minha  intelectualidade de
tradição da Europa levaria a conceber. A verdade é sempre algo muito estranho. Eu não estava sequer preparado para fazer as mudanças na minha vida que a minha associação com Don Juan requisitou.
SK:
Como você encontrou Don Juan e tornou-se seu aprendiz?
CC:
Eu estava terminando meu trabalho de conclusão na UCLA e planejando ir para a graduação em antropologia. Estava interessado em me tornar professor e pensei que poderia começar de maneira apropriada publicando um ensaio curto sobre plantas medicinais. Não podia ter me importado menos por encontrar um esquisitão como Don Juan. Eu estava em uma estação de ônibus no Arizona com um amigo do tempo do colégio. Ele apontou um velho índio yaqui e disse que ele tinha conhecimento sobre peiote e plantas medicinais. Fiz a melhor cara que pude e me apresentei a Don Juan dizendo: Entendo que você sabe muito acerca do peiote. Eu sou um especialista em peiote (Eu tinha lido o livro de Weston La Barre's, O ritual do peiote) e pode ser gratificante para você almoçar e passar um tempo comigo.. Bem, ele apenas me lançou um olhar e minha audácia dissolveu-se.
Fiquei completamente tímido e paralizado. Eu normalmente era muito vigoroso e falante, e foi um negócio sério ser silenciado com um olhar. Depois disso, comecei a visitá-lo e cerca de um ano depois ele disse-me que gostaria de me repassar o conhecimento da feitiçaria que tinha obtido com seu mestre.
SK:
Don Juan não é um fenômeno isolado, mas faz parte de um grupo de feiticeiros que compartilham um conhecimento secreto?
CC:
Certamente. Conheço três feiticeiros e sete aprendizes e existem muitos mais. Se você pesquisar a história da conquista espanhola no México, encontrará que os inquisidores católicos tentaram acabar com a feitiçaria porque a consideraram como uma coisa do demônio. Ela tem estado por aí há muitos milhares de anos. A maioria das técnicas que Don Juan me ensinou é muito antiga.
SK:
Algumas das técnicas que os feiticeiros usam é amplamente usada também por outros grupos secretos. As pessoas às vezes usam os sonhos para encontrar objetos perdidos, e vão para jornadas fora-do-corpo durante seu sono. Mas quando você diz como Don Juan e seu amigo Don Genaro fizeram o carro desaparecer durante a plena luz do dia, eu poderia apenas coçar a cabeça. Eu sei que um hipnotista pode criar a ilusão de presença ou ausência de um objeto. Você acredita que foi hipnotizado?
CC:
Talvez, alguma coisa deste tipo. Mas temos que começar por perceber, como diz Don Juan, que existe muito mais no universo do que normalmente confessamos conhecer. Nossas expectativas usuais acerca da realidade são criadas por um consenso social. Nos ensinam como ver e perceber o mundo. A truque da socialização consiste em nos convencer que as descrições que estamos de acordo definem os limites do mundo real. O que chamamos de realidade é apenas um modo de ver o mundo, um modo que é sustentando pelo consenso social.
SK:
Então um feiticeiro ou xamã, como um hipnólogo, cria um mundo alternativo construindo diferentes expectativas e fornecendo pistas premeditadas para produzir um consenso social.
CC:
Exatamente. Eu comecei a entender feitiçaria nos termos da idéia de interpretação [gloss] de Talcott Parsons. Uma interpretação é um sistema completo de percepção e linguagem. Por exemplo, esta sala e é uma interpretação. Nós reunimos juntos uma série de percepções isoladas "chão, teto, janela, luzes, tapete, etc" para compor uma totalidade. Mas nós temos que ser ensinados a dispor o mundo junto desta forma. Uma criança experimenta o mundo com poucos pré-conceitos até que é ensinada a vê-lo de uma forma que corresponde à descrição que todos compartilham. O sistema de interpretações parece um pouco com caminhar. Nós temos que aprender a caminhar, mas uma vez que aprendemos ficamos sujeitos à sintaxe da linguagem e ao modo de percepção que ela contém.
SK:
Então a feitiçaria, assim como a arte, ensina um novo sistema de anotações. Quando, por exemplo, Van Gogh rompe com a tradição artística e pinta O Céu Estrelado, ele estava efetivamente dizendo: aqui está uma nova maneira de ver as coisas. As estrelas estão vivas e rodam em volta de seus campos energéticos.
CC:
De uma certa forma. Mas existe uma diferença. Um artista normalmente apenas rearranja as velhas anotações que são apropriadas para seu grupo.
SK:
Don Juan estava lhe dessocializando ou ressocializando? Ele estava lhe ensinando um novo sistema de significados ou apenas um método para esvaziar o antigo sistema para que assim você pudesse ver o mundo como uma criança fascinada?
CC:
Dom Juan e eu discordamos quanto a isto. Eu digo que ele está me reinterpretando. Ensinando-me feitiçaria me deu um novo conjunto de interpretações, uma nova linguagem e uma nova maneira de ver o mundo. Uma vez eu li um pouco da filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein e ele riu e disse "Seu amigo Wittgenstein amarrou o nó com muita força em torno de próprio pescoço, assim ele não pode ir muito longe"...
SK:
Wittgenstein é um dos poucos filósofos que poderia ter entendido Don Juan. Sua noção de que existem muitos tipos diferentes de jogos de linguagem ciência, política, poesia, religião, metafísica, cada um com sua própria sintaxe e regras, poderia ter permitido a ele entender a feitiçaria como um sistema alternativo de percepção e entendimento.
CC:
Mas Don Juan pensa que o que ele chama de "ver" é apreender o mundo sem nenhuma interpretação. Este é o fim almejado pela feitiçaria. Para quebrar a certeza do mundo que sempre lhe foi ensinado, você deve aprender uma nova descrição do mundo, ou feitiçaria e então manter a velha e a nova juntas. Então você percebe que nenhuma das duas é final. No momento que você desliza entre as descrições; você para o mundo e . Você é deixado com o assombro, o verdadeiro assombro de ver o mundo sem nenhuma interpretação.
SK:
Você pensa que é possível ultrapassar as interpretações usando drogas psicodélicas?
CC:
Eu penso que não. Está é minha briga com gente como Timothy Leary. Eu penso que ele estava improvisando dentro da sociedade européia e rearrumando meramente velhos sistemas de interpretação. Eu nunca tomei LSD, mas o que entendi dos ensinamentos de Don Juan é que os psicotrópicos são usados para interromper o fluxo das interpretações ordinárias, para aumentar as contradições dentro das interpretações e para romper as certezas. Mas somente as drogas não possibilitam você parar o mundo. Por isso que Don Juan teve de me ensinar feitiçaria.
SK:
Existe uma realidade normal que nós, ocidentais, pensamos que é "o" único mundo, e existe também a realidade à parte do feiticeiro. Quais as diferenças essenciais entre elas?
CC:
Na sociedade européia "o mundo é construído em grande parte pelo que os olhos informam à mente". Na feitiçaria "o corpo todo é usado como percebedor". Como europeus vemos o mundo ao redor de nós e falamos sobre ele. Nós estamos aqui e o mundo está lá. Os nossos olhos alimentam a razão e não temos conhecimento direto das coisas. De acordo com a feitiçaria esta sobrecarga dos olhos é desnecessária.
Nós percebemos com o corpo total.
SK:
Ocidentais partem do pressuposto que sujeito e objeto são separados. Nós existimos a parte do mundo e temos de cruzar o vácuo para chegar até ele. Para Don Juan e a tradição dos feiticeiros, o corpo já está no mundo. Nós estamos unidos ao mundo, e não alienados dele.
CC:
Isso mesmo. A feitiçaria tem uma teoria diferente de personificação. O problema da feitiçaria é o de harmonizar e arrumar seu corpo para ser um bom receptor. Os europeus lidam com seus corpos como se eles fossem um objeto. Nós os enchemos de álcool, comida ruim e inquietações. Se alguma coisa está errada nós pensamos que germes de fora invadiram o corpo e então importamos algum medicamento para curá-lo. A doença não é parte de nós. Don Juan não acreditava nisso. Para ele a doença é a desarmonia entre um homem e seu mundo. O corpo é consciente e deve ser tratado impecavelmente.
SK:
Isto parece similar à idéia de Norman O. Brown's onde as crianças, esquizofrênicos e aqueles com loucura  divina da consciência  dionisíaca estão cientes das coisas e das outras pessoas como extensões de seu corpo. Don Juan sugere algo do tipo quando diz que os homens de conhecimento têm fibras de luz que conectam seu plexo solar ao mundo.
CC:
Minha conversa com o coiote é um bom exemplo das diferentes teorias de personificação. Quando ele chegou para mim eu disse: "Olá, pequeno coiote Como você está?". E ele respondeu de volta: "Estou bem. E você?". Aqui eu não escutei as palavras da forma normal. Mas meu corpo sabia que o coiote estava dizendo alguma coisa e eu traduzi isto em um diálogo. Como um intelectual, minha relação com o diálogo é tão profunda que meu corpo automaticamente transpôs para palavras o sentimento que o animal estava comunicando a mim. Nós sempre vemos o desconhecido nos termos do conhecido.
SK:
Quando você estava no modo mágico de consciência onde os coiotes falam e tudo é adequado e entendido parece que o mundo todo está vivo e o ser humano está em comunicações que incluem animais e plantas. Se abandonarmos nossas concepções arrogantes de que somos a única forma de vida que conhece e comunica talvez conseguíssemos perceber toda a sorte de coisas se comunicando conosco. John Lilly falava com os golfinhos. Talvez nos sentíssemos menos alienados se pudéssemos acreditar que não somos a única forma inteligente de vida.
CC:
Nós podemos nos tornar capazes de falar com qualquer animal. Para Don Juan e os outros feiticeiros não havia nada de estranho na minha conversa com o coiote. Na verdade eles disseram que eu deveria ter pegado um animal mais confiável para amigo.Coiotes são trapaceiros e não pode se confiar neles.
SK:
Quais animais são os melhores para serem amigos?
CC:
Cobras são amigos estupendos.
SK:
Uma vez conversei com uma cobra. Uma noite sonhei que havia uma cobra no sótão da casa onde eu vivia quando era criança. Peguei um pau e tentei matá-la. De manhã falei sobre o sonho a um amigo e ela me disse que não era uma coisa boa matar cobras, mesmo se elas estivessem no sótão em um sonho. Ela me sugeriu que na próxima vez que aparecesse uma cobra em sonho eu deveria alimentá-la ou fazer alguma coisa para atrair sua amizade. Cerca de uma hora depois eu estava dirigindo meu patinete motorizado numa estrada pouco usada e lá, esperando por mim, estava uma cobra de quatro pés, estirada no seu banho de sol. Eu a contornei e ela não se mexeu Depois de nos olharmos um nos outros por um tempo eu pensei que deveria fazer algum gesto para mostrar que estava arrependido de ter matado seu irmão em meu sonho. Eu cheguei perto e toquei sua cauda. Ela se enrolou mostrando que eu havia invadido sua intimidade. Então eu voltei e fiquei apenas olhando. Cinco minutos depois lá se foi ela atrás dos arbustos.
CC:
Você não a espetou?
SK:
Não.
CC:
Era uma amiga muito boa. Um homem pode aprender a chamar as serpentes. Mas você precisa estar em excelente forma, calmo, controlado, com um humor amigável, sem nenhuma dúvida ou assuntos pendentes.
SK:
A cobra me ensinou que eu sempre tinha pensamentos paranóicos em relação à natureza. Eu considerava animais e cobras perigosos. Após meu encontro jamais mataria outra cobra e começou a ser mais plausível para mim que nós possamos ter uma espécie de conexão viva. Nosso ecossistema pode muito bem incluir comunicações com outras formas de vida.
CC:
Don Juan tinha uma teoria muito interessante acerca disso. As plantas, assim como os animais, sempre afetam você. Ele dizia que se você não pedisse desculpas para as plantas por colhê-las você provavelmente ficaria doente ou sofreria um acidente.
SK:
Os índios americanos tem crenças similares sobre os animais que eles matam. Se você não agradece o animal por dar a vida para que você possa viver, seu espírito pode lhe causar problemas.
CC:
Nós temos uma associação com toda forma de vida. Alguma coisa se altera toda vez que machucamos a vida vegetal ou animal. Nós tiramos a vida para sobreviver mas devemos querer abrir mão de nossa própria vida sem ressentimentos quando chegar nossa vez. Nós somos tão importantes e nos levamos tão a sério que esquecemos que o mundo é um grande mistério que pode nos ensinar se escutarmos.
SK:
Talvez as drogas psicodélicas momentaneamente limpem o ego isolado e permitam uma fusão mítica com a natureza. A maior parte das culturas que conservam um senso de união entre o homem e a natureza também fez uso cerimonial das drogas psicodélicas. Você estava usando peiote quando falou com o coiote?
CC:
Não, de maneira alguma.
SK:
Esta experiência foi mais intensa das que teve quando Don Juan lhe ministrou plantas psicotrópicas?
CC:
Muito mais intensa. Todas as vezes que eu tomei plantas psicotrópicas eu sabia que havia ingerido algo e sempre podia questionar-me acerca da validade das minhas experiências. Mas quando o coiote falou comigo eu não tinha desculpas. Não podia explicar isso. Eu realmente parei o mundo e, saí completamente do meu sistema de interpretações europeu.
SK:
Você acredita que Don Juan vive neste estado de atenção a maior parte do tempo?
CC:
Sim, ele vive num tempo mágico e ocasionalmente volta para o tempo normal. Eu vivo no tempo normal e ocasionalmente entro no tempo mágico.
SK:
Qualquer um que tenha viajado tão longe além do desgastado consenso deve ser alguém muito solitário.
CC:
Penso que sim. Don Juan vive num mundo impressionante e deixou as pessoas rotineiras bem longe. Uma vez eu estava junto com Don Juan e seu amigo Don Genaro e vi a solidão que eles dividiam e sua tristeza em deixar para trás os enfeites e pontos de referência da sociedade normal. Penso que Don Juan transformou sua solidão em arte. Ele contém e controla seu poder, mistério e solidão e os transforma em arte. Sua arte é o caminho metafórico em que ele vive. É por causa disso que seus ensinamentos tem tanta carga dramática e unidade. Ele deliberadamente constrói sua arte e sua maneira de ensinar. 
SK:
Por exemplo, quando Don Juan levou-o às montanhas para caçar animais estava conscientemente encenando uma alegoria?
CC:
Sim. Ele não estava interessado em caçar por esporte ou por comida. Há 10 anos  que o conheço, e o vi matar apenas quatro animais, e apenas nas vezes em que ele viu que suas mortes eram um presente para ele, assim como sua própria morte um dia será um presente para alguma coisa. Uma vez apanhamos um coelho numa armadilha, ficamos imóveis e Don Juan achou que eu devia matá-lo, pois seu tempo havia acabado. Fiquei desesperado porque eu tinha a sensação de que eu mesmo era o coelho. Eu tentei libertá-lo mas não conseguia abrir a armadilha. Então eu pisei na armadilha e quebrei acidentalmente o pescoço do coelho. Don Juan estava tentando me ensinar a assumir a responsabilidade por estar neste mundo maravilhoso. Ele inclinou-se e sussurrou no meu ouvido: "Eu lhe disse que este coelho não tinha mais tempo para vagar por este lindo deserto". Ele conscientemente construiu a metáfora para me ensinar sobre os caminhos de um guerreiro. Um guerreiro é alguém que caça e acumula poder pessoal. Para fazer isto ele deve desenvolver a paciência e se mover deliberadamente sobre o mundo. Don Juan usou a situação dramática da caçada para me ensinar porque estava se dirigindo diretamente ao meu corpo.
SK:
Em seu livro mais recente, Viagem a Ixtlan, você revê a impressão dada nos primeiros livros de que o uso de plantas psicotrópicas era o método principal usado por Don Juan no intuito de ensiná-lo sobre a feitiçaria. Como você vê agora o lugar dos psicotrópicos em seus ensinamentos?
CC:
Don Juan usou plantas psicotrópicas no período intermediário do meu aprendizado porque eu era muito estúpido, sofisticado e arrogante. Eu me agarrava à minha descrição do mundo como se ela fosse a única verdade. Os psicotrópicos criaram um vácuo no meu sistema de interpretações. Eles destruíram minha certeza dogmática. Mas eu paguei um enorme preço. Quando a cola que segurava meu mundo unido foi dissolvida, meu corpo estava fraco e eu demorei meses para me recuperar. Eu fiquei ansioso e funcionava a um nível muito baixo.
SK:
Don Juan usa drogas psicotrópicas regularmente para parar o mundo?
CC:
Não. Ele pode agora mesmo pará-lo com a sua vontade. Ele me disse que para mim a tentativa de ver sem a ajuda das plantas seria inútil. Mas se eu me comportasse como um guerreiro e assumisse a responsabilidade não precisaria delas; elas apenas enfraqueceriam meu corpo.
SK:
Isso pode soar um pouco chocante para vários admiradores seus. Você é uma espécie de santo patrono da revolução psicodélica.
CC:
Eu tenho seguidores e eles têm idéias estranhas a respeito de mim. Eu estava andando para dar uma palestra no Califórnia State, em Long Beach, outro dia e um rapaz que me conhecia me apontou para uma garota e disse "Ei, esse é o Castaneda". Ela não acreditou nele porque tinha a idéia de que eu deveria parecer muito sobrenatural. Um amigo estava reunindo algumas das histórias que circulavam sobre mim. O consenso era que eu havia feito uma façanha mística.
SK:
Façanha mística?
CC:
Sim, que eu andava de pés descalços como Jesus e não tinha calos. As pessoas acham que devo estar doidão a maior parte do tempo. Eu também cometi suicídio e morri em vários lugares diferentes. Um colega de departamento quase fez um escândalo quando eu comecei a falar sobre fenomenologia e sociedade e explorar o conceito de percepção e socialização. Eles queriam que eu falasse pausadamente, os deixasse altos e fizesse suas cabeças. Mas para mim o entendimento é importante.
SK:
Os rumores voam no vácuo de informações. Sabemos alguma coisa de Don Juan e muito pouco de Castaneda.
CC:
Isto é uma parte proposital da vida do guerreiro. Para escapulir dentro e fora de diferentes mundos você deve permanecer discreto. Quanto mais você ser conhecido e identificado, mais sua liberdade vai ser reduzida. Quando as pessoas tiverem idéias definitivas sobre quem é você e como você vai agir, você não poderá mais se mexer. Uma das primeiras coisas que Don Juan me ensinou foi que eu tinha que apagar minha história pessoal. Se aos poucos você criar uma névoa em torno de si então você não vai ser tomado como garantia e você tem mais espaço para se mexer. É por causa disso que eu impeço gravações de áudio e fotografias quando dou palestras.
SK:
Talvez possamos ser pessoais sem sermos históricos. Você agora minimizou a importância da experiência psicodélica em relação ao seu aprendizado. E você não parece sair por aí fazendo o tipo de truques disponíveis no estoque dos feiticeiros. Que elementos dos ensinamentos de Don Juan são importantes para você? Você foi mudado por eles?
CC:
Para mim as idéias de ser um guerreiro e um homem de conhecimento, com a esperança de eventualmente parar o mundo e ver, têm sido as mais adequadas. Elas tem me dado paz e confiança na minha capacidade de controlar minha vida. Na época que encontrei Don Juan eu tinha muito pouco poder pessoal. Minha vida havia sido muito errática. Eu percorri um longo caminho desde o local do meu nascimento no Brasil. Exteriormente eu era agressivo e arrogante, mas interiormente era indeciso e incerto acerca de mim. Estava sempre forjando desculpas para mim mesmo. Don Juan uma vez me acusou de ser uma criança profissional porque eu estava cheio de auto-piedade. Eu me sentia como uma folha ao vento. Como com a maioria dos intelectuais, minhas costas estavam contra o muro. Eu não tinha lugar para ir. Eu não podia perceber nenhuma forma de vida que realmente me excitasse. Eu pensei que tudo o que poderia fazer era uma acomodação amadurecida para uma vida de tédio ou encontrar formas mais complexas de entretenimento como usar drogas psicodélicas, maconha e ter aventuras sexuais. Tudo isso era aumentado pelo meu hábito de ser introspectivo. Eu estava sempre olhando para dentro de mim e falando comigo mesmo. O diálogo interno raramente parava.
Don Juan abriu meus olhos para o exterior e ensinou-me a acumular poder pessoal.
Não creio que haja outro pode de vida para alguém que queira estar cheio de energia.
SK:
Parece que ele fisgou você com o velho truque dos filósofos de segurar a morte diante dos seus olhos. Eu estava impressionado em perceber quão clássica a abordagem de Don Juan é. Eu ouvia ecos da idéia de Platão de que um filósofo deve estudar a morte antes que possa ganhar acesso ao mundo real e da definição de Martin Heidegger de um homem como um ser-para-a-morte.
CC:
Sim, mas a abordagem de Don Juan tem um aspecto diferente, que vem da tradição da feitiçaria, que é o de considerar a morte como uma presença física que pode ser sentida e vista. Uma das interpretações da feitiçaria é: a morte está à sua esquerda, à distância de um braço. A morte é um juiz imparcial que lhe dirá a verdade e lhe dará conselhos precisos.  Afinal, a morte não está com pressa. Ela lhe pegará em um dia, uma semana, ou 50 anos. Não faz diferença para ela. No momento que você pensa que eventualmente deve morrer está reduzindo o lado direito, o controlador.
Eu acho que ainda não tornei esta idéia vívida o bastante. A interpretação "A morte está a sua esquerda" não é uma questão intelectual na feitiçaria, é percepção. Quando seu corpo está adequadamente sintonizado com o mundo e você vira os olhos para  a esquerda, você pode testemunhar um evento extraordinário, a presença sombria da morte.
SK:
Na tradição existencial, as discussões sobre responsabilidade geralmente se seguem às discussões sobre a morte.
CC:
Então Don Juan é um bom existencialista. Se não há como saber se eu tenho apenas mais minuto de vida, devo agir como se cada instante fosse o último. Cada ato é a última batalha do guerreiro. Então tudo deve ser feito impecavelmente. Nada pode ser deixado pendente. Esta idéia foi muito libertadora para mim. Eu estou aqui falando com você e talvez nunca volte para Los Angeles. Mas não importa porque eu cuidei de tudo antes de vir para cá.
SK:
Este caminho de morte e determinação é distante da utopia psicodélica na qual a percepção do final do tempo destrói a qualidade trágica da escolha.
CC:
Quando a morte permanece à sua esquerda você deve criar o mundo a partir de uma série de decisões.
Não existem grandes ou pequenas, apenas decisões que devem ser tomadas agora. E não há tempo para dúvidas ou remorsos. Se eu passar o meu tempo lamentando o que fiz ontem eu evito as decisões que tenho de tomar hoje.
SK:
Como Don Juan lhe ensinou a ser determinado?
CC:
Ele falou com meu corpo através de atos. Meu modo antigo de ser deixava tudo pendente e nunca decidia nada. Para mim, tomar decisões era algo feio. Parecia injusto para um homem sensível ter de decidir. Um dia Don Juan me perguntou: "Você acha que você e eu somos iguais?" Eu era um estudante universitário e um intelectual e ele era um velho índio, mas eu fui condescendente e disse: "Claro que somos iguais". Ele disse: "Eu não acho que somos. Eu sou um caçador e um guerreiro e você é um frouxo. Eu estou pronto a abreviar minha vida a qualquer instante. Seu mundo débil de indecisão e tristeza não é igual ao meu".  Eu fiquei muito insultado e teria voltado, mas nós estávamos no meio do nada. Então eu sentei e fiquei absorvido nas armadilhas do meu ego. Eu ia esperar até ele decidir voltar. Após várias horas percebi que Don Juan ficaria ali para sempre se precisasse. Por que não? Para um homem sem assuntos pendentes este é o seu poder. Eu finalmente percebi que este homem não era como meu pai, que podia tomar 20 resoluções de ano-novo e não cumprir nenhuma. As decisões de Don Juan eram irrevogáveis enquanto durasse seu interesse. Elas podiam ser canceladas apenas por outras decisões. Então cheguei perto e o toquei, ele desistiu e voltamos para casa. O impacto deste ato foi tremendo. Ele me convenceu de que o caminho do guerreiro é um modo de vida poderoso e vigoroso.
SK:
O conteúdo da decisão não é tão importante quanto o ato de ser determinado.
CC:
Isto é o que Don Juan entende por fazer um gesto. Um gesto é um ato deliberado que é responsável pelo poder que advém de tomar uma decisão. Por exemplo, se um guerreiro encontra uma cobra que está dormente e fria, ele pode esforçar-se por levar a cobra para um lugar quente sem ser mordida. O guerreiro pode decidir fazer um gesto sem nenhum motivo. Mas ele vai fazê-lo perfeitamente.
SK:
Parecem existir muitos paralelos entre a filosofia existencialista e os ensinamentos de Don Juan.
O que você disse sobre decisões e gestos sugere que Don Juan, como Nietzsche e Sartre, acredita que a vontade, ao invés da razão, é a faculdade mais fundamental do homem.
CC:
Acho que sim. Deixe-me falar por mim mesmo. O que eu quero fazer, e talvez consiga executar, é superar o controle da minha razão. Minha mente tem estado no controle a minha vida toda e ela preferiria me matar a abandonar este controle. Em um dado ponto de meu aprendizado, eu fiquei profundamente deprimido. Eu estava cheio de medo, obscuridade e pensamento sobre suicídio. Então Don Juan me alertou que este é um dos truques da razão para manter o controle. Ele disse que minha razão estava fazendo meu corpo sentir que não havia sentido na vida. Uma vez que minha mente travou esta última batalha e perdeu, a razão começou a assumir o local apropriado de ser apenas uma ferramenta do corpo.
SK:"O coração tem razões que a própria razão desconhece", e também o resto do corpo.
CC:
Este é o ponto. O corpo tem vontade própria. Ou melhor, a vontade é a voz do corpo. Este é o motivo de Don Juan consistentemente colocar suas lições em uma forma dramática. Meu intelecto poderia facilmente descartar o mundo da feitiçaria como sem sentido. Mas meu corpo foi atraído por este mundo e este modo de vida.
E quando o corpo toma o controle, um reino novo e mais saudável se estabelece.
SK:
As técnicas de Don Juan para lidar com os sonhos me interessam porque ele sugeste a possibilidade de voluntariamente controlar as imagens do sonho. Dessa forma ele propõe estabelecer um observatório estável e permanente dentro do espaço interior. Fale-me sobre o treinamento de sonhos de Don Juan.
CC:
O truque nos sonhos é sustentar as imagens tempo o bastante para que possamos examiná-las cuidadosamente. Para adquirir este controle você deve escolher uma coisa antes e aprender a encontrá-la nos seus sonhos. Don Juan sugeriu que eu usasse minhas mãos como ponto fixo e alternasse entre elas e as imagens. Após alguns meses eu aprendi a usar minhas mãos e parar o sonho. Fiquei tão fascinado por esta técnica que espero ansioso pela hora de dormir.
SK:
Parar as imagens nos sonhos é parecido com parar o mundo?
CC:
É similar. Mas existem diferenças. Uma vez que você se torna capaz de achar suas mãos quando quiser, você percebe que isto é apenas uma técnica. O que você quer na verdade é o controle. Um homem de conhecimento deve acumular poder pessoal. Mas isto não é suficiente para parar o mundo. É necessário algum abandono. Você precisa parar a conversa que está ocorrendo internamente e render-se ao mundo exterior.
SK:
Das várias técnicas que Don Juan lhe ensinou para parar o mundo, qual você ainda pratica?
CC:
Minha maior técnica no momento está em romper as rotinas. Eu sempre fui uma pessoa muito rotineira. Eu comia e dormia sempre nos mesmos horários. Em 1965 comecei a mudar meus hábitos. Eu escrevia nas horas quietas da noite e dormia quando sentia necessidade. Agora eu desmantelei tanto meus hábitos usuais que posso me tornar imprevisível e surpreendente até mesmo para mim.
SK:
 Sua disciplina me lembrou de uma história Zen de dois discípulos vangloriando-se de feitos milagrosos. Um dos discípulos alegava que o fundador da seita a que pertencia podia ficar em uma das margens do rio e escrever Buda num pedaço de papel segurado por seu assistente do outro lado do rio. Um outro discípulo alegava que esse milagre não era muito impressionante. "Meu milagre", disse ele, "é que quando tenho fome, eu como, e quando tenho sede, eu bebo".
CC:
É este elemento de compromisso com o mundo que me mantém seguindo o caminho que Don Juan me mostrou. Não há necessidade de transcender o mundo. Tudo o que você precisa saber está aqui defronte nós, se prestarmos atenção. Se você entrar num estado de realidade extraordinária, como faz quando usa plantas psicotrópicas, está apenas usando a força que precisa para ver o caráter milagroso da realidade ordinária. Para mim o modo se viver o caminho com coração não é introspectivo ou de transcendência mística, mas a presença no mundo. Este mundo é o campo de caçada do guerreiro.
SK:
O mundo que você  e Don Juan pintaram é cheio de coiotes mágicos, corvos encantados, e magníficos guerreiros. É fácil de ver como ele pode lhe atrair. Mas, e em relação ao mundo de uma pessoa urbana moderna? Onde está a mágica nele? Se todos nós pudéssemos viver em montanhas talvez conseguíssemos manter o mistério vivo. Mas como poderemos fazer isso se estamos perto de uma estrada?
CC:
Uma vez formulei a mesma questão para Don Juan. Nós estávamos sentados em um café em Yuma e eu insinuei que eu poderia me tornar apto a parar o mundo e ver se pudesse viver no ermo junto com ele. Ele olhou para a janela, viu os carros passando e disse: "Ali, lá fora, é o seu mundo". Eu vivo em Los Angeles agora e sinto que posso usar o mundo para favorecer minhas necessidades. É um desafio viver sem rotinas em um mundo rotineiro. Mas é possível.
SK:
O nível do barulho e a pressão constante de massas de pessoas parecem destruir o silêncio e a solidão que poderiam ser essenciais para parar  o mundo.
CC:
Não de todo. Na verdade, o barulho pode ser usado. Você pode usar o barulho da buzina para treinar a si mesmo ouvir o mundo exterior. Quando paramos o mundo, o mundo que paramos geralmente é o que é mantido pelo diálogo interno. Uma vez que você para o blá-blá-blá interno você para de manter este mundo. A descrição entra em colapso. É quando começa nossa mudança de personalidade.
Quando você se concentra nos sons, percebe que é difícil para o cérebro categorizar todos os sons, e em pouco tempo você para de tentar. Não é como a percepção visual que nos mantém formando categorias e pensando. É tão revigorante quando você consegue parar de falar, categorizar e julgar.
SK:
O mundo interno muda, mas e em relação ao externo? Nós podemos revolucionar a consciência individual, mas ainda assim não conseguir tocar as estruturas sociais que criam nossa alienação. Existe um lugar para a reforma social e política no seu pensamento?
CC:
Eu vim da América Latina onde os intelectuais estão sempre falando sobre revolução política e social e onde um muitas bombas são lançadas. Mas a revolução não mudou muita coisa. Requer pouca coragem bombardear um prédio, mas para desistir de cigarros, parar de ser ansioso ou parar a tagarelice interna, você tem que reconstruir-se. É  aí que começa a verdadeira reforma. Don Juan e eu estávamos em Tucson não muito tempo atrás quando estava tendo a Semana da Terra. Alguns homens estavam palestrando sobre ecologia e os males da guerra do Vietnã. Enquanto isto, eles fumavam. Don Juan disse: "Não posso imaginar como eles podem se preocupar com os outros se eles não se gostam de si". Nossa primeira preocupação deve ser com nós mesmos. Eu posso gostar dos meus semelhantes apenas quando estiver no auge do meu vigor e sem depressão. Para estar nesta condição devo manter meu corpo preparado. Toda revolução deve começar aqui, neste corpo. Eu posso mudar minha cultura mas apenas através de um corpo impecavelmente sintonizado com este mundo estranho. Para mim, a verdadeira realização é a arte de ser um guerreiro, a qual, como diz Don Juan, é o único meio de balancear o terror de ser um homem com a maravilha de ser um homem.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Predadores de Consciência

Este texto, difícil de digerir, é quase um mapa, e o assunto foi abordado na nossa publicação “Os Voadores” em novembro de 2010. Ele constata a situação difícil em que nós seres humanos estamos aprisionados. É contado de forma assertiva e  sem muita condescendência num livro de Armando Torres, um índio descendente dos toltecas, ou “homens de conhecimento”, que foi discípulo do xamã Carlos Castaneda, e como as tradições sérias, sugere também a mesma disciplina, “o caminho do guerreiro”, para escaparmos da prisão. O livro é “Encontros com o Nagual” em cuja distribuição no Brasil, pelo amigo Juan Yolilitzli, tive o prazer de ajudar, e hoje é distribuido pelo acadêmico, estudioso de xamanismo e livreiro, Nelson Neraiel no Rio de Janeiro. Vamos lá:
“A continuação de nossa conversa chegou anos depois. Nessa ocasião, Carlos trouxe a uma de suas reuniões um conceito completamente novo e aterrorizante que despertou as mais apaixonadas controvérsias”.
"O homem - disse - é um ser mágico, tem a capacidade de voar pelo universo tal como qualquer uma das milhões de consciências que existem. Mas, em algum momento de sua história, perdeu sua liberdade. Agora sua mente não é sua, é uma intrusão".
Afirmou que os seres humanos são reféns de um conjunto de entidades cósmicas que se dedicam à depredação, as quais os bruxos chamam "os voadores".
Disse que este era um tópico muito secreto dos antigos videntes, mas que, devido a um augúrio, ele havia entendido que já era tempo de divulgá-lo. O augúrio foi uma foto que tinha tirado Tony, um budista cristão amigo dele. Nela aparecia nitidamente a figura de um ser escuro e tenebroso flutuando sobre uma multidão de fiéis reunida nas pirâmides de Teotihuacan.
"Minhas companheiras e eu determinamos que já era tempo de dar a conhecer nossa verdadeira situação como seres sociais, ainda que fosse às custas de toda a desconfiança que tal informação pudesse gerar no público".
Quando me apresentou a oportunidade, pedi que dissesse algo mais sobre os voadores, e então me contou um dos aspectos mais terrificantes do mundo de don Juan: que nós somos prisioneiros de seres que vieram dos confins do universo, que nos usam com a mesma naturalidade com que nós usamos as galinhas.
Explicou:
"A porção do Universo a que temos acesso é o campo de operações de duas formas radicalmente diferentes de consciências. Uma delas, a qual pertencem as plantas e os animais, incluindo o homem, é uma consciência esbranquiçada, jovem, geradora de energia. A outra é uma consciência infinitamente mais velha e parasitária, possuidora de uma imensa quantidade de conhecimento.
Além dos homens e outros seres que habitam esta terra, há no universo uma imensa gama de entidades inorgânicas. Estão presentes entre nós e em certas ocasiões são visíveis. Nós os chamamos fantasmas ou aparições. Uma dessas espécies que os videntes descrevem como enormes vultos voadores de cor negra, chegou em algum momento, da profundidade do Cosmos, e achou um oásis de consciência em nosso mundo. Eles se especializaram em nos ordenhar'''.
"Isso é incrível!" - exclamei.
"Eu sei disso, mas é a mais pura e aterradora verdade. Você nunca se perguntou sobre o porquê dos altos e baixos energéticos e emocionais das pessoas? É o predador que vem periodicamente recolher sua cota de consciência. Eles só deixam o suficiente para que continuemos vivendo, e às vezes nem para isso".
"O que você quer dizer?"
"Que às vezes exageram e a pessoa fica doente gravemente, e até morre".

Eu não dava crédito a meus ouvidos.
"Quer dizer que estamos sendo devorados em vida?", perguntei.
Sorriu.
"Bom, eles não nos 'comem' literalmente, o que fazem é uma transferência vibratória. A consciência é energia e eles podem alinhar-se conosco. Como por natureza estão sempre famintos, e nós, pelo contrário, exsudamos luz, o resultado desse alinhamento só pode ser descrito como depredação energética".
"Mas, por que eles fazem isso?".
"Porque, num plano cósmico, a energia é a moeda mais forte e todos a querem, e nós somos uma raça vital, repleta de comida. Cada coisa viva come a outra, e o mais poderoso sempre sai ganhando. Quem disse que o homem está no cume da cadeia alimentar? Essa visão só pode ocorrer a um ser humano. Para os inorgânicos, nós somos a presa".
Eu comentei que me parecia inconcebível que entidades mais conscientes que nós chegasse à esse grau de rapina.
Respondeu:
"Mas o que você acredita que você faz quando come uma alface ou um bife? Você está comendo vida! Sua sensibilidade é hipócrita. Os depredadores cósmicos não são nem mais nem menos cruéis do que nós. Quando uma raça mais forte consome uma outra inferior, está fazendo com que sua energia evolua.
"Já lhe falei que no universo só há guerra. As confrontações dos homens são um reflexo do que se passa lá fora. É normal que uma espécie tente consumir a outra; o próprio de um guerreiro é não lamentar por isso, mas tentar sobreviver".
"E como nos consomem?".
"Através de nossas emoções, devidamente canalizadas pela tagarelice interior. Eles desenharam o entorno social de tal modo que estamos todo o tempo disparando ondas de emoções que são imediatamente absorvidas. Eles gostam principalmente dos ataques do ego; para eles, esse é um bocado delicioso. Tais emoções são as mesmas em qualquer lugar do universo onde se apresentem e eles têm aprendido a metabolizá-las.
"Alguns nos consomem pela luxúria, a raiva ou o temor; outros preferem sentimentos mais delicados, como o amor ou a ternura. Mas todos eles estão interessados na mesma coisa. O normal é que nos ataquem pela área da cabeça, do coração ou do ventre, ali onde nós guardamos a maior quantidade de nossa energia"-
"Eles também atacam aos animais?".
"Esses seres usam tudo aquilo que esteja disponível, mas eles preferem a consciência organizada. Drenam aos animais e as plantas na medida de sua atenção que não é demasiadamente fixa. Atacam inclusive a outros seres inorgânicos, só que esses sim os vêem e os evitam. como nós evitamos os mosquitos. O único que cai completamente na armadilha deles é o homem".
"Como é possível que tudo isso esteja acontecendo sem que o percebamos?".
"Porque nós herdamos a troca com esses seres quase como uma condição genética, e a estas alturas nos parece algo natural. Quando nasce a criatura, a mãe a oferece como comida, sem perceber, porque a mente dela também está dominada. Quando a batiza está assinando um acordo. A partir daí, se esforça por inculcar modos de comportamentos aceitáveis, o domestica, podando seu lado guerreiro e o transforma em uma ovelha mansa.
"Quando uma criança nasce suficientemente energética para rejeitar essa imposição, mas não o bastante para entrar no caminho do guerreiro, ela se torna um rebelde ou um desajustado social.
"A vantagem dos voadores reside na diferença entre nossos níveis de consciência. Eles são entidades muito poderosas e vastas; a idéia que temos deles é equivalente ao que possa ter uma formiga de nós.
"Porém, sua presença é dolorosa e se pode medir de diversas maneiras. Por exemplo, quando eles nos provocam ataques de racionalidade ou de desconfiança ou nos sentimos tentados a violar nossas próprias decisões. Os lunáticos podem detectá-los muito facilmente - demasiado, diria eu -, já que eles sentem fisicamente como esses seres pousam em seus ombros, gerando paranóias. O suicídio é o selo do voador, pois sua mente é homicida em potencial".

"Você diz que é uma troca; mas, o que ganhamos com tal despojo?".
"Em troca de nossa energia, os voadores nos deram a mente, os apegos e o ego. Para eles, nós não somos escravos, mas um tipo de trabalhadores assalariados. Eles privilegiaram uma raça primitiva e lhe deram o dom de pensar, o que nos fez evoluir; mais ainda, eles nos fizeram civilizados. Se não fosse por eles, nós ainda estaríamos escondidos em cavernas ou fazendo ninhos no topo das árvores.
"Os voadores nos dominam através de nossas tradições e costumes. Eles são os amos das religiões, os criadores da História. Escutamos sua voz no rádio e lemos suas idéias nos jornais. Eles manejam todos os nossos meios de informação e nossos sistemas de crenças. A estratégia deles é magnífica. Por exemplo, houve um homem honesto que falou de amor e liberdade; eles transformaram isto em autocompaixão e servilidade. Eles fazem isto com tudo, até mesmo com os naguais. Por isso o trabalho de um bruxo é solitário.
"Durante milênios, os voadores prepararam planos para nos coletivizar. Houve um tempo em que eram tão descarados que até se mostravam em público e as pessoas os representaram em pedra. Esses eram tempos escuros, pululavam por todos os lados. Mas agora a estratégia deles se fez tão inteligente que nem sabemos que existem. No passado, nos enganchavam pela credulidade; hoje em dia, pelo materialismo. São os responsáveis pelo fato de que a aspiração do homem atual seja de não ter que pensar por si mesmo; não precisa de mais nada, observe quanto tempo alguém agüenta em silêncio!"
"Por que essa mudança na estratégia deles?".
"Por que neste momento, eles estão correndo um grande risco. A humanidade está em um contato muito rápido e qualquer um pode se informar. Ou eles enchem nossa cabeça, bombardeando-nos dia e noite com todo o tipo de sugestões, ou haverá alguns que perceberão e avisarão aos outros".
"O que aconteceria se pudéssemos repelir a essas entidades?"
"Em uma semana recuperaríamos nossa vitalidade e estaríamos brilhando novamente. Mas, como seres humanos normais, não podemos pensar nessa possibilidade, porque isso implicaria em ir contra tudo aquilo que é socialmente aceitável. Felizmente, os bruxos têm uma arma: a disciplina.
O encontro com os inorgânicos é gradual. No principio não os notamos. Mas um aprendiz começa a vê-los no ensonho e logo na vigília - algo que pode enlouquecê-lo se ele não aprende a agir como um guerreiro. Depois que os percebe, pode confrontá-los.
"Os bruxos manipulam a mente forasteira tornando-se caçadores de energia. É com essa finalidade que minhas companheiras e eu desenhamos para as massas os exercícios de Tensegridade que têm a virtude de nos libertar da mente do voador.
"Nesse sentido, o bruxo é um oportunista. Aproveita o empurrão que lhe deram e diz a seu captores: 'Obrigado por tudo, nos vemos por aí! O acordo que vocês fizeram foi com meus antepassados, não comigo!'. Ao recapitular sua vida, literalmente está tirando a comida da boca do voador. É como se você chegasse à uma loja e devolvesse o produto ao negociante, exigindo-lhe: 'Devolva-me o dinheiro!'. Os inorgânicos não gostam disso, mas não podem fazer nada.
"Nossa vantagem é que somos dispensáveis, há muita comida por aí! Uma posição de alerta total, que não é outra coisa senão disciplina, cria tais condições em nossa atenção que nós deixamos de ser saborosos para esses seres. Em tal caso, eles dão meia volta e nos deixam tranqüilos".

O assunto é com todos nós sem exceção. Não adianta “se fazer de tonto para não ir para a guerra”...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Xamanismo

Segundo a Antropologia a palavra "xamãnasceu entre o povo Tungus da Sibéria e significa "aquele que sabe”. É uma versão da expressão “homem de conhecimento” usada por algumas tradições como a tolteca mexicana para designar tanto os curadores espirituais como aqueles que ajudam a desvendar os mistérios metafísicos do Ser, da Consciência, da Divindade.
Já o próprio Xamanismo, segundo a Antropologia e Arqueologia nasceu na Idade da Pedra cerca de 40 a 50 mil anos atrás em várias regiões do planeta nos 5 continentes. O mistério, para a ciência mas não para os antigos, é que o nascimento deu-se simultaneamente em muitas regiões no planeta. É um mistério que o stablishment acadêmico tenta resolver sem muito sucesso com o quebra-cabeças das teorias migratórias, que em alguns poucos casos até são verdadeiras. Felizmente muitos acadêmicos  que transitavam com familiaridade também no terreno de conhecimentos metafísicos, como Mircea Eliade, Jung, Joseph Campbell e outros do Grupo Eranos que se reunia na Suiça, já estabeleceram desde o século passado uma ponte entre o xamanismo e a ciência, que valoriza os estados xamânicos como veículos desses conhecimento milenar. Eles sabiam a resposta do mistério. Muitos antropólogos atuais, herdeiros desse esforço corajoso de investigação e também agentes do mesmo esforço,  sabem a resposta. Aliás está se tornando um fato comum entre os acadêmicos de antropologia e outras especialidades limítrofes ao mistério, como Castaneda, Michael Harner e outros, o fato de que eles vão formalmente estudar o xamanismo como bons acadêmicos e ficam fascinados. Viram xamãs.
Quem acredita no Invisível, sabe que esse conhecimento antigo, como muitos outros, ocorre num plano onde o verdadeiro conhecimento metafísico é passadas não de forma escrita e acadêmica, mas por canais não convencionais como os estados de “consciência intensificada” ensinados por via oral controlada, na maioria das tradições esotéricas autênticas.
Hoje sabe-se que mesmo com o arraigado preconceito machista presente em toda a humanidade e que influenciou grandes estudiosos que não conseguiram se livrar do peso da cultura ocidental, as mulheres representaram um papel relevante, quando não principal, nessa área, mesclando a cura física e espiritual xamãnica com a atividade de parteiras e advinhas nas sociedades chamadas por nós de primitivas.
Os xamãs sempre foram uma mescla de curadores, psicólogos e adivinhos de suas sociedades. Existem os médicos modernos que curam o corpo, mas o que fazemos quando o espírito adoece? O xamã mobiliza o mundo espiritual para ajudar a cura, e frequentemente atua como psicopompo, função que desconhecemos, que ajuda as almas a atravessarem o bardo (intervalo) pra o outro mundo como faziam não só os budistas tibetanos, hinduístas, taoistas e uma infinidade de outras tradições. Os xamãs executavam essas tarefas sem a devida “remuneração profissional”, que por sua vez era obtida por eles trabalhando da mesma forma que os outros. Eram muito respeitados os xamãs que desempenhavam bem as duas coisas, como um sinal de qualidade pessoal.
Com o renascimento do xamanismo e da cura no mundo ocidental, estamos começando a valorizar a cultura do Invisível, diminuindo o desprezo irracional aos conhecimentos antigos, e resgatando o valor espiritual e psicológico de tudo o que os nossos ancestrais já conheciam, respeitando e compreendendo a sua importância para desvendar os mistérios da nossa saúde e bem-estar.
São encantadores, misteriosos e profundamente eficazes os rituais e as técnicas variadas que as sociedades xamânicas de todo o planeta usam de acordo comas suas facetas culturais individuais. A razão disso é que estão baseadas num conhecimento do lado oculto da essência e funcionamento de leis universais ainda inacessíveis à mente racional ocidental, que por sua vez já apresenta sinais de fadiga de eficácia. Bom sinal.
Mircea Eliade, filósofo e historiador romeno, autor de livros centrais sobre o xamanismo, diz que o xamã é uma pessoa que faz uma jornada em estado alterado de consciência além do tempo e espaço conhecidos. Michael Harner, antropólogo (e xamã) que pesquisou o xamanismo no mundo todo afirma que o xamã é diferente dos outros curandeiros porque utiliza o ritual da Jornada Xamânica, solitária ou em grupo, ritual que usa sons (tambor, chocalhos, apitos) para produzirem freqüências sonoras hoje estudadas e conhecidas que catalisam o processo de passagem para um outro estado de consciência.  Usam também músicas, mantras, danças e eventualmente plantas alucinógenas e jejuns. Essas técnica tiram o xamã e a pessoa a ser curada da realidade comum. Na “outra realidade” o xamã obtém ajuda e informações de seres que o auxiliam, bem como o paciente, familiares e eventualmente a comunidade. Diferentemente da medicina ocidental, a comunidade representa um papel muito importante de acolhimento e participação das práticas de cura. Um reforço apreciado pelo paciente debilitado física e espiritualmente e que não existe mais nas frias e assépticas acomodações dos hospitais e consultórios onde se dá a cura moderna. Um dos rituais em grupo dos índios norte americanos era uma dança numa representação de uma canoa tripulada que entrava em grupo na outra realidade para obter ajuda. 
Uma das jornadas mais intrigantes do mundo xamânico é descrita e estudada por Sandra Ingerman, xamã e escritora famosa do Novo México,  terapeuta familiar e de casais, e fundadora da Aliança Internacional para Professores e Xamãs de Remédios para a Terra. É a jornada xamânica chamada O Resgate da Alma.  Falaremos em breve dessa incrível técnica que está renascendo em várias partes do mundo ocidental graças a esses devotados xamãs modernos, pontífices entre esse conhecimento quase esquecido e a medicina e ciência ocidentais.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Poder Pessoal

São Francisco de Assis

O poder pessoal é um enigma. É um dos temas mais ocultos e evasivos da busca interior, contrariando as aparências, expectativas e conceitos prévios que as pessoas comuns têm a seu respeito.
Ao mesmo tempo em que é declarado como uma das coisas mais importantes a ser buscada no ensinamento, as citações a respeito de sua definição envolvem a sua essência em mistério, a partir do fato de que é necessário ter poder pessoal para compreender a própria definição de poder pessoal.

Para se compreender o cerne da questão as tradições explicam que  há uma evidência clara de que o poder pessoal depende do exercício constante e disciplinado de uma outra prática definida como impecabilidade, que por sua vez não tem exatamente a mesma conotação do termo usado na linguagem do homem comum, culturalmente baseada no conceito de pecado.
Impecabilidade é o uso correto e otimizado da energia. Eu uso mal a energia quando me identifico, quando ajo com pressa, quando não relaxo, quando julgo, quando falo mal, quando invejo, me exibo, em resumo quando me deixo levar por um dos chamados 7 pecados. Como vocês vêem, não é simples, mas ao mesmo tempo é muito instigante navegar nesse mar aprendendo a usar a bússola, sextante, instrumentos... Poder e impecabilidade andam de mãos dadas. A impecabilidade gera o poder pessoal. Mesmo que o buscador esteja cristalizando a sua estrutura interior em cima de um centro só (físico, emocional ou mental) como acontece com muitos faquires, monges e yogins, ou então cristalizando seus corpos equivocadamente pela persistência em aplicar a sua energia interior em um viés pessoal, como o orgulho por exemplo, ele gera concretamente um poder pessoal. Equivocado, mas gera. Se quisermos exemplos desse último caso é só ver a maioria dos dirigentes, mandatários e stars atuais e históricos da mídia. Hitler é um bom exemplo. A Consciência Universal não tem um controle sobre o livre arbítrio do ser humano. A persistência conduzida equivocadamente pelos apegos produz só coisa ruim, e pior, tudo o que nasce quer sobreviver, seja o que for, um vírus, uma organização, um ser humano, um desejo ruim... É uma lei alquímica universal. É disso que trata entre outras coisas a carta XV do Tarot - O Diabo.

O poder pessoal precisa ter o seu significado compreendido  a partir da experiência comum compartilhada do grupo de aprendizes, apesar da componente necessária de compreensão individual. Tem algo que eu compreendo sozinho, tem algo que eu compreendo só em grupo, a partir da linguagem comum calcada na experiência. Gurdjieff colocava a linguagem comum como condição sine qua non do conhecimento. Essa é a razão da prática de depoimentos no caminho gurdjieffiano, cada um fala em grupo sobre a sua experiência individual diária proposta, e todos se reconhecem na experiência de quem faz o depoimento. Isso é que gera a linguagem comum, peça básica da compreensão..
 A outra unidade de significado estreitamente ligada ao poder pessoal é a Vontade, que da mesma forma não tem a conotação comum a ela atribuída pela linguagem corriqueira ou mesmo psicológica.
Essa Vontade, de que os xamãs falam aos aprendizes, parece guardar com a região do centro do corpo (o umbigo, o hara, o centro motor), a mesma relação que a emoção guarda com o centro emocional (plexo solar) ou que o pensamento guarda com o cérebro (centro mental). Mais do que isso, a Vontade é definida como um dardo com uma materialidade e força ligadas ao corpo energético do homem de busca, e que pode ser lançada com um propósito de ação. Vontade e poder tem tudo a ver...

 O poder pessoal deve ser armazenado, pois tudo na vida do buscador depende dele, mas diferentemente dos aprendizados comuns, como o intelectual, por exemplo, não se dá através da compreensão intelectual, mas através da ação, essa tingida fortemente por uma intuição. A ação do aprendiz, orientada pelo instrutor, confia e se lança, abandonando as concepções cristalizadas pela socialização e se movimentando num mundo de experiências não usuais e sempre surpreendentes. A leitura das obras do xamanismo e particularmente a tolteca de Castaneda mostra isso lindamente.
E não podemos esquecer de que, apesar de o poder pessoal ser uma das coisas importantes do ensinamento, ele é um dos 4 inimigos naturais do buscador do Si Mesmo, lembram-se? Medo, Clareza, Poder e Velhice.
E mais, se você se despir do apego de tudo através do contato com a sua Morte, vai tocar a Liberdade Total e alcançar um poder interior indescritível. Quem já morreu interiormente não teme nada. Está em contato com a essência do verdadeiro Poder. São Francisco de Assis foi assim. Pobre, simples e inocente desafiou a igreja arrogante e suntuosa da época apoiado na humildade, e fundou uma ordem atuante até hoje. Isso é poder pessoal.
Resumindo, os conceitos-chaves do poder pessoal são Impecabilidade, que gera Poder Pessoal, que se acumula, e é exercido através da Vontade.

Através do poder pessoal acumulado a duras penas, o guerreiro pode então se tornar um Homem de Conhecimento. Muito trabalho? É isso mesmo...muito trabalho.
Mas você queria se transformar num ser de conhecimento só vendo os programas do Discovery? Tem muito o que trabalhar sim, amici...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Pássaro da Liberdade

Na tradição tolteca mexicana a palavra tolteca tem um significado diferente do conceito antropológico usual. Naquela, o tolteca é o Homem de Conhecimento, o buscador de si mesmo, o xamã, ou então o bruxo ou feiticeiro, como as pessoas comuns os chamavam ao não compreendê-los. Na história da humanidade, aliás, o bruxo ou feiticeiro é sempre aquele que eu não entendo e por isso o segrego. E se puder, o queimo na fogueira.
 Na verdade o feiticeiro era um buscador sofisticadíssimo e incansável do mistério do Ser, da imortalidade, da liberdade, um guerreiro impecável que chamava a sua busca interior de um Namoro com o Conhecimento... Evolução e poesia. Mercúrio e Vênus.
O que os feiticeiros toltecas sabiam sobre os conceitos complexos da Consciência, Percepção e Atenção, as ciências atuais da Psicologia e Parapsicologia estão hoje apenas começando a arranhar. Com todo o respeito.
Quem ouve Don Juan falando na obra de Castaneda não acredita. É muita areia para o nosso caminhãozinho. Como era possível? Eles não eram índios? Atrasados? Esse conceito está mudando...
O pássaro da liberdade ou da sabedoria, era um dos conteúdos concretos e importantes e ao mesmo tempo simbólicos e poéticos que adornavam essa cultura milenar.
Diziam que a feitiçaria, o xamanismo, essa busca, era um pássaro mágico e misterioso que interrompia seu vôo por um momento, de modo a dar esperança e propósito a poucos seres humanos que buscavam a si mesmos. E que os feiticeiros vivem sob a asa desse pássaro, e o alimentam com sua dedicação e impecabilidade. Seu vôo era sempre uma linha reta. Uma vez que não havia maneira de fazer uma volta quando passava, ele podia fazer apenas duas coisas: levar o feiticeiro consigo, ou deixá-lo para trás. A escolha era do feiticeiro. Sem muita conversa.
O discípulo teria que seguir o nagual, o mestre, incondicionalmente, pois é ele que atraia o pássaro da liberdade e o levava a lançar sua sombra sobre o caminho do guerreiro, que não podia ter dúvidas nem problemas em deixar tudo para trás. Ele já compreendera perfeitamente que não havia uma segunda oportunidade. O pássaro da liberdade ou os levava consigo ou deixava-os para trás. O pássaro da liberdade tinha muito pouca paciência com indecisão e, quando voava para longe, nunca regressava. Nunca.
O mundo dos feiticeiros é um mundo mítico, separado do cotidiano por uma barreira misteriosa feita de sonhos e compromissos, mas ao mesmo tempo muito pragmático, muita ação e pouco mental. Somente se o nagual for apoiado e sustentado por seus companheiros sonhadores é que pode guiá-los a outros mundos viáveis, de onde pode atrair o pássaro da liberdade. Ele precisava da energia dos sonhos lúcidos, não sentimentos e atos mundanos.
Eles diziam que o preço da liberdade interior é muito alto. A liberdade só pode ser obtida sonhando-se sem esperança, estando-se disposto a perder tudo, mesmo o sonho. Para alguns de nós, sonhar sem esperança, é o único meio de acompanhar o pássaro da liberdade...
Coisa de gente grande.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Mestria da Consciência

No esquema de ensino dos toltecas do Antigo México, o qual foi desenvolvido por homens de conhecimento, ou feiticeiros, em tempos antigos, havia duas categorias de instrução. Uma era chamada "ensinamentos para o lado direito", desenvolvida no estado normal de consciência. A outra era chamada "ensinamentos para o lado esquerdo" , posta em prática apenas em estados de consciência intensificada obtidos a partir de instruções disciplinadas e severas..
Essas duas categorias permitiam que os instrutores ensinassem a seus aprendizes em três áreas de habilidades: a mestria da consciência, a arte da espreita e a mestria do intento.
    Essas três áreas de habilidade, são os três enigmas que os feiticeiros encontram em sua busca ao conhecimento.
•    A mestria da consciência é o enigma da mente a perplexidade que os feiticeiros experimentam quando reconhecem o espantoso mistério e propósito da consciência e da percepção.
•    A arte da espreita é o enigma do coração o desconcerto que os feiticeiros sentem ao se tornarem conscientes de duas coisas: primeiro, que o mundo parece para nós inalteravelmente objetivo e factual, por causa das peculiaridades de nossa consciência e percepção, e segundo, que se diferentes peculiaridades de percepção entram em jogo, as próprias coisas do mundo que parecem tão inalteravelmente objetivas e factuais mudam.
•    A mestria do intento é o enigma do espírito, ou o paradoxo do abstrato - os pensamentos e ações dos feiticeiros projetados além de nossa condição humana.

A instrução de Don Juan, nagual tolteca, quanto à arte da espreita e à mestria do intento dependia de sua instrução sobre a Mestria da Consciência, que era a pedra fundamental de seus ensinamentos, que consistem das seguintes premissas básicas:
1.    O universo é uma aglomeração infinita de campos de energia, semelhantes a filamentos de luz
2.    Esses campos de energia, chamados de "emanações da Águia" , radiam de uma fonte de proporções inconcebíveis, denominada Águia, ou O Mar Escuro da Consciência. É uma metáfora para exprimir o mistério do Ser, da Vida, da Consciência.
3.    Os seres humanos também são compostos de um número incalculável dos mesmos campos de energia filamentosos. Essas emanações da Águia formam uma aglomeração encapsulada que se manifesta como uma bola de luz do tamanho do corpo da pessoa com os braços estendidos lateralmente, como um ovo luminoso gigante
4.    Apenas um grupo muito pequeno de campos de energia no interior dessa bola luminosa são acesos por um ponto de intenso brilho localizado na superfície da bola
5.    A percepção como a conhecemos, ocorre quando os campos de energia desse pequeno grupo imediatamente ao redor do ponto de brilho estendem sua luz para iluminar campos de energia idênticos no exterior da bola. Uma vez que os únicos campos de energia perceptíveis são aqueles iluminados pelo ponto brilhante, esse ponto é chamado "o ponto onde a percepção é aglutinada" , ou simplesmente "o ponto de aglutinação" (em espanhol foi melhor traduzida por punto de encaje - ponto de encaixe)
6.    O ponto de aglutinação pode ser movido de sua posição usual sobre a superfície da bola luminosa para outra posição na superfície ou no interior. Uma vez que o brilho do ponto de aglutinação pode iluminar qualquer campo de energia com o qual entrar em contato, quando se move para uma nova posição ilumina de imediato novos campos de energia, tornando-os perceptíveis. Esta percepção é conhecida como “ver”, que é a visão dos videntes, ou seja, “aqueles que vêem a energia diretamente como ela flui no universo”, sem o aparato da “percepção já interpretada” ensinado pelo consenso social dos adultos, a nós quando crianças.desde o berço.
7. Quando o ponto de aglutinação se desloca, torna possível a percepção de um mundo inteiramente diferente – tão objetivo e factual como aquele que normalmente percebemos. Os homens de conhecimento entram nesse outro mundo para obter energia, poder, soluções para problemas gerais e particulares, ou para encarar o inimaginável
8.    O Intento, outra energia consciente formidável do Universo, (mal traduzido por intenção), é a força que nos faz perceber. Não nos tornamos conscientes porque percebemos, antes, percebemos como resultado da pressão e intrusão do intento
9. O objetivo dos homens de conhecimento é atingir um estado de consciência total de modo a experimentar todas as possibilidades de percepção disponíveis ao homem. Esse estado de consciência implica mesmo uma maneira alternativa de morrer, diferente dessa comum que conhecemos. Isso foi assim não só com os Toltecas, mas com os Egípcios, os Maias e muitas outras tradições.

Adaptado de O Poder do Silêncio, Carlos Castaneda

sábado, 23 de outubro de 2010

Nossos 4 inimigos

- Um homem de conhecimento é aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem, disse Don Juan a Castaneda.  Sem se precipitar nem hesitar, foi tão longe quanto pôde para desvendar os segredos do Poder e da Sabedoria.
Mas para isso desafiou e venceu seus quatro formidáveis inimigos naturais, com muita luta, e sem prever o resultado.
- No início, ele nunca sabe muito claramente quais seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca virão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem.
Devagar, ele começa a aprender... pouco a pouco, e depois mais. Logo vem a dúvida. O que aprende nunca é o que ele imaginava. E ele começa a ter medo. O aprender é inesperado. Cada passo é uma nova tarefa, e o medo começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu objetivo torna-se um campo de batalha.
É o seu primeiro inimigo natural: o Medo! Terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Se esconde em cada curva do caminho, rondando, na moita. E se o homem, apavorado foge, ele vence.
Se ele fugir com medo, nada lhe acontece, a não ser que nunca se tornará um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem medroso, inofensivo; de qualquer forma, será um homem vencido.
Para vencer o medo ele não deve fugir. Deve desafiar o medo e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte.  Só para frente. Deve ter medo, sim. Ninguém é de ferro. No entanto não deve parar. Essa é a regra! E uma certa hora seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito torna-se mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural. Acontece aos poucos e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.
Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza... uma clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los.
Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada fica oculto. E assim ele encontra seu segundo inimigo: a Clareza! Essa lucidez, tão difícil, elimina o medo, mas também cega.
Ela induz o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso porque é claro, e não para diante de nada porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, sucumbiu a seu segundo inimigo e vai vacilar com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando devia precipitar-se. Até ser incapaz de aprender mais qualquer coisa.
Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palhaço. Mas a clareza nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo. Será claro enquanto viver, mas não aprenderá nem desejará nada.
Ele tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim vencerá seu segundo inimigo. Será o verdadeiro poder.
Ele saberá a essa altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, finalmente. Pode fazer o que quiser com ele. Seu desejo é a ordem. Vê tudo o que está em volta. Mas também encontrou seu terceiro inimigo: o Poder! O mais forte de todos os inimigos. E naturalmente a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque é um senhor.
Ele quase nem nota seu terceiro inimigo se aproximando. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado num homem cruel e caprichoso.
Ele nunca perderá sua clareza nem seu poder, mas morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma carga em seu destino. Um homem desses não tem domínio sobre si, e não sabe quando ou como usar seu poder.
A derrota por algum desses inimigos é uma derrota final. Uma vez que o homem cede, está liquidado.
Se ele porém estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar, significa que ele ainda está tentando ser um homem de conhecimento. O indivíduo só é derrotado quando não tenta mais e se abandona.
E para vencer, também tem de desafiá-lo. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido, na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem seu controle sobre si, são piores do que os erros, saberá quando e como usar seu poder. E assim vencerá seu terceiro inimigo.
O homem estará, então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrará seu último inimigo: a Velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotar completamente, mas apenas afastar.
É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciências de clareza de espírito... um momento em que todo seu poder está controlado, mas também o momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar. Se ele ceder a seu desejo perderá o último round, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil. Seu desejo de se retirar dominará toda sua clareza, seu poder e sabedoria.
Mas se o homem sacode sua fadiga, e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um Homem de Conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente.