sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Os voadores

O tema dos Voadores, ou Sombras de Barro na obra de Castaneda e discípulos, é um dos mais obscuros e intrigantes das tradições do xamanismo tolteca, interessados na busca interior dos seres humanos. Ele fala de uma limitação misteriosa imposta ao desenvolvimento da percepção, consciência e potencialidades dos humanos neste planeta, em algum momento da sua evolução.
A literatura antropológica mundial não registra  informações sobre o tema. Já a chamada literatura esotérica tradicional apresenta, mas de forma não estruturada, alguns conceitos mais familiares ao tema.
É o que vemos principalmente na tradição xamânica, pelo fato de não ser racional mas sim pragmática, de ação. Ela aborda a natureza e o universo de uma forma empírica e prática, e não tem receios de parecer ilógica quando age sem mesmo entender mentalmente a natureza das energias com as quais está entrando em contato ou manipulando. Este mundo é um mistério, dizia Don Juan a Castaneda batendo com o pé no chão.
Quem já teve contato com algumas dessas tradições e rituais, seja na Amazônia, Sibéria, África, Oceania, América ou outros lugares, já ouviu falar de entidades não físicas (não orgânicas) indesejáveis que atormentam os seres humanos e se aproveitam de forma predadora da sua energia e consciência. É o caso também do espiritismo kardecista e de outras linhas de trabalho animistas que afirmam a mesma coisa. Os voadores são uma dessas entidades.
Gurdjieff, em sua obra, fala do kundabuffer, uma junção das palavras Kundalini e buffer (amortecedor, em inglês) algo que foi introduzido temporariamente, para um fim específico, na mente humana em algum período na humanidade e por alguma razão não conhecida ficou permanente. O aparato então cria um amortecedor entre o ser humano e a realidade. A sua percepção da realidade fica filtrada e não mais direta. Os toltecas chamavam o mecanismo de desnate, uma distorção da realidade ensinada a nós pelos adultos desde que somos bebês. O hinduísmo chama o resultado final obtido de véu de Maya. Por isso somos vulneráveis e portanto parasitados e predados. 
Temos que desconstruir o aparato se quisermos atingir a liberdade e ver a realidade como ela é, sem interpretações do filtro que nos foi imposto. No livros de Carlos Castaneda, principalmente Passes Mágicos essa passagem é explicada, inclusive com práticas para tentar neutralizá-la.
O Xamanismo em todas as tradições do planeta coloca isso como o resultado de o universo em que vivemos ser um ambiente altamente predatório, com seres mais fortes se alimentando dos mais fracos ou inexperientes. Nós seres humanos estamos em estado de sítio, dizia Don Juan na obra tolteca. Há um complô em andamento e nós ficamos dormindo como sei-lá-o-quê. Temos que aprender a escapar disso.
O corpo de dor, de Eckhart Tolle no livro Despertar de Uma Nova Consciência é uma entidade que lembra muito os voadores se alimentando e se fortalecendo com as nossas emoções negativas.
Os xamãs, ou videntes do Antigo México, com grande persistência e, quando em estados de consciência intensificada, estudaram esses seres predadores a ponto de estabelecer uma classificação, como está explicado extensamente nas obras a respeito.
O relato é aterrador e a maioria dos leitores fica entre o ceticismo e a crença de que há um certo exagero nas afirmações. O próprio Castaneda, apesar do contato com o fato, e da magistral condução de Don Juan, demorou muito para tomar consciência da situação deplorável a que estamos submetidos. Todos. Sem exceção.
Para o buscador sério fica clara a urgência do fato de que nós não temos tempo. Temos que iniciar o trabalho agora, neste mesmo instante em que estamos lendo esse texto.
Sobre essa falta de tempo, Don Juan, em A Porta para o Infinito dizia:
- Um ser imortal tem todo o tempo do mundo para dúvidas e confusão e medos. Um guerreiro, por outro lado, não pode se agarrar aos significados obtidos sob a ordem do tonal que é contaminado com essa interpretação da realidade, pois ele sabe que a totalidade dele só tem pouco tempo nesta Terra.
- Você tem de se esforçar ao máximo, o tempo todo.

2 comentários:

  1. Até arrepia..., porque na distração diaria nem se pensa nisso de a nossa totalidade ter pouco tempo nesta terra. Mesmo a gente se esforçando o tempo todo, parece que não é o máximo. Eu pelo menos estou sempre com a sensação de que não estou fazendo o suficiente. E eu me esforço o tempo todo.

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  2. Mas o normal das pessoas é acharem que são imortais. Morrer é coisa só para os outros. Está fora de moda...

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