sábado, 23 de outubro de 2010

Nossos 4 inimigos

- Um homem de conhecimento é aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem, disse Don Juan a Castaneda.  Sem se precipitar nem hesitar, foi tão longe quanto pôde para desvendar os segredos do Poder e da Sabedoria.
Mas para isso desafiou e venceu seus quatro formidáveis inimigos naturais, com muita luta, e sem prever o resultado.
- No início, ele nunca sabe muito claramente quais seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca virão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem.
Devagar, ele começa a aprender... pouco a pouco, e depois mais. Logo vem a dúvida. O que aprende nunca é o que ele imaginava. E ele começa a ter medo. O aprender é inesperado. Cada passo é uma nova tarefa, e o medo começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu objetivo torna-se um campo de batalha.
É o seu primeiro inimigo natural: o Medo! Terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Se esconde em cada curva do caminho, rondando, na moita. E se o homem, apavorado foge, ele vence.
Se ele fugir com medo, nada lhe acontece, a não ser que nunca se tornará um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem medroso, inofensivo; de qualquer forma, será um homem vencido.
Para vencer o medo ele não deve fugir. Deve desafiar o medo e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte.  Só para frente. Deve ter medo, sim. Ninguém é de ferro. No entanto não deve parar. Essa é a regra! E uma certa hora seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito torna-se mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural. Acontece aos poucos e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.
Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza... uma clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los.
Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada fica oculto. E assim ele encontra seu segundo inimigo: a Clareza! Essa lucidez, tão difícil, elimina o medo, mas também cega.
Ela induz o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso porque é claro, e não para diante de nada porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, sucumbiu a seu segundo inimigo e vai vacilar com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando devia precipitar-se. Até ser incapaz de aprender mais qualquer coisa.
Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palhaço. Mas a clareza nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo. Será claro enquanto viver, mas não aprenderá nem desejará nada.
Ele tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim vencerá seu segundo inimigo. Será o verdadeiro poder.
Ele saberá a essa altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, finalmente. Pode fazer o que quiser com ele. Seu desejo é a ordem. Vê tudo o que está em volta. Mas também encontrou seu terceiro inimigo: o Poder! O mais forte de todos os inimigos. E naturalmente a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque é um senhor.
Ele quase nem nota seu terceiro inimigo se aproximando. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado num homem cruel e caprichoso.
Ele nunca perderá sua clareza nem seu poder, mas morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma carga em seu destino. Um homem desses não tem domínio sobre si, e não sabe quando ou como usar seu poder.
A derrota por algum desses inimigos é uma derrota final. Uma vez que o homem cede, está liquidado.
Se ele porém estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar, significa que ele ainda está tentando ser um homem de conhecimento. O indivíduo só é derrotado quando não tenta mais e se abandona.
E para vencer, também tem de desafiá-lo. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido, na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem seu controle sobre si, são piores do que os erros, saberá quando e como usar seu poder. E assim vencerá seu terceiro inimigo.
O homem estará, então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrará seu último inimigo: a Velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotar completamente, mas apenas afastar.
É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciências de clareza de espírito... um momento em que todo seu poder está controlado, mas também o momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar. Se ele ceder a seu desejo perderá o último round, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil. Seu desejo de se retirar dominará toda sua clareza, seu poder e sabedoria.
Mas se o homem sacode sua fadiga, e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um Homem de Conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente.

3 comentários:

  1. Esses assuntos que vc tem posto aqui dão a maior força.
    Bom, primeiro dá uma cacetada, em seguida preocupa, aflige, desespera, alivia e no final da uma força enorme para pegar o boi pelos chifres.
    Esse texto dos 4 inimigos, está super bem explicado passo a passo.
    Uma jóia assustadora.
    Obrigada amigo
    Luara

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  2. Pegou bem o espírito, guerreira, pegou bem. Você também é assim, que eu sei. E o Thordo também é.As pessoas estão muito bem acomodadas no seu cantinho agradável, sem marolas, e não querem mudar. Gurdjieff dizia que "quando tudo vai bem, tudo vai mal"...
    Abração

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  3. Que legal! Muito, muito instrutivo.

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