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domingo, 15 de junho de 2014

A Roda Da Vida - 2

Na postagem A Roda da Vida falamos deste conceito no budismo. Hoje vamos continuar a partir de textos didáticos e simples dos lamas Samten e Chagdud compilados por Kalma Tenpa Dharguye:

A Roda da Vida (sânsc. Bhavachakra), também conhecida com a Roda da Existência, Roda do Devir e do Vir-a-ser, foi criada pela extinta escola Sarvastivada, precursora do buddhismo Mahayana. Este diagrama geralmente é encontrado nas portas de entrada dos monastérios tibetanos. Suas ilustrações representam simbolicamente a os doze elos da existência interdependente, os seis reinos da existência cíclica e os três venenos da mente. Segundo a tradição, a Roda da Vida foi desenhada pela primeira vez na época do Buda Shakyamuni. Depois de pedir um conselho ao Buda, o diagrama teria sido desenhado por ordem do rei Bimbisara de Magadha. Ele o enviou ao rei Udayana em retribuição a um manto de jóias preciosas que tinha recebido de presente. O rei Udayana teria atingido uma profunda realização espiritual após estudar este diagrama.

A assustadora figura que segura a roda é Yama, o demônio da morte da mitologia indiana. Aqui, sua terrível presença simboliza a impermanência; nenhum ser vivo pode escapar de suas garras. Entretanto, o Buda está flutuando no céu e apontando para a lua cheia; isto representa que os seus ensinamentos apontam o caminho para a liberação.

A maioria das pessoas vive negando a morte; praticantes budistas vivem com a constante consciência de sua existência. A morte, para eles, é uma poderosa diretriz para encontrar o significado essencial da vida. Na prática Vajrayana tibetana, os símbolos da morte — copas de crânio, tambores de crânio, trombetas de fêmur, malas [rosários] de osso, dançarinos em indumentárias que simbolizam esqueletos — nos relembram nitidamente de sua proximidade. A utilização de tais implementos durante os rituais não quer dizer que os praticantes Vajrayana sejam insensíveis à morte, ou que não se aflijam com a morte de familiares e amigos, porém o cheiro e a textura de ossos envelhecidos, por exemplo, evocam o pensamento: "Sim, eu também terminarei como ossos espalhados ou cinzas num cemitério. Possa eu usar bem este corpo e não desperdiçar o tempo que me resta". (Chagdud Khadro, Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana)

Na borda da roda, doze ilustrações representam os “Doze elos da existência condicionada”:

3 ELOS DA VIDA PASSADA:

  • Uma velha mulher cega, andando com uma bengala, representa a ausência de visão ou ignorância;
  • Um oleiro fazendo um pote representa as formações mentais;
  • Um macaco pulando de galho em galho representa a consciência;
7 ELOS DA VIDA ATUAL:

  • Um barco com duas pessoas representa o nome e forma;
  • Uma casa com seis janelas representa o conjunto dos seis sentidos;
  • Um casal se abraçando representa o contato;
  • Um homem ferido por uma flecha no olho representa a sensação;
  • Um homem tomando uma bebida representa o desejo;
  • Um homem ou um macaco agarrando uma fruta em uma árvore representa o apego;
  • Uma mulher grávida representa a existência;
2 ELOS DA VIDA FUTURA:

  • Uma mulher dando à luz representa o nascimento;
  • Uma pessoa carregando um cadáver representa o envelhecimento e morte.
A parte principal da roda é dividida em seis partes, representando os seis reinos da existência cíclica (sânsc. samsara).

Na parte de baixo, estão os três reinos inferiores:
  • seres dos infernos (sânsc. naraka, nairayika);
  • fantasmas famintos (ou espíritos carentes, sânsc. preta);
  • animais (sânsc. tiryak, tiryagyona).

Na parte de cima, estão os três reinos superiores:
  • deuses (sânsc. deva);
  • semideuses (ou deuses invejosos, titãs, sânsc. asura);
  • humanos (sânsc. manushya).

Existem seis reinos onde nós podemos ter renascimento, um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito de experiência específico, ainda assim podemos vivenciar em corpo humano — embora com muito menos intensidade — as experiências dos seis reinos. Por exemplo, o reino dos infernos é vivido por nós através da experiência de que todas as pessoas que nos cercam são ruins, o filho, o marido, o chefe... Para todo lado que olhamos as coisas são difíceis e só há sofrimento. Através da raiva e da aversão nos conectamos com esse reino. No reino dos seres famintos há uma experiência de carência incessante, eles têm sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Nos conectamos a essa experiência através da avareza e aquisitividade. Assim como nos infernos, esses seres também não praticam. Os seres nos infernos dizem: "estou sofrendo, tudo é horrível, como eu vou praticar?" Os seres famintos dizem "eu preciso disso e disso, como posso praticar?". Depois há o reino dos animais, eles não praticam porque tão logo eles estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Dharma.

Entre os reinos superiores, há os deuses. Não é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponde àqueles que andam de carro importado, jatinho, não tem problemas de dinheiro, desfrutam de todas felicidades do mundo material. Os deuses têm corpos específicos sutis, se deslocam no espaço e produzem benefícios para os seres humanos em dificuldades. O problema é que são benefícios condicionados, e não do tipo que produz liberação. Esse reino é o que os seres humanos buscam em seus sonhos, é a sua perdição... Vivemos almejando chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Nos conectamos com esse reino através do orgulho.

Já os semi-deuses têm poder, mas são competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. A conexão se dá através da inveja. Os deuses não praticam porque estão imersos em facilidades e felicidades, então, por quê praticar? Os semi-deuses, como estão sempre guerreando, também não têm tempo para praticar.
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)
  
Não é um processo que necessariamente precise ser monitorado. As ações se desenrolam do seu próprio modo, sem que ninguém controle o resultado. Não é como se alguém tivesse que contabilizar tudo para que cada qual fosse parar no reino certo, etc. As ações de cada ser determinam as experiências futuras desse ser. [...]

A idéia de que podemos vivenciar estes reinos de sofrimento que chamamos de infernos deixa muitas pessoas céticas ou enraivecidas. Elas não acreditam em inferno; pensam que este conceito não passa de uma tática que algumas religiões empregam para assustar e controlar as pessoas. Em certo sentido, é verdade que o inferno não existe. Se fizermos uso de toda a tecnologia do mundo para tentar chegar ao centro da Terra, nunca acharemos o inferno. No entanto, muitos seres estão sofrendo no reino dos infernos neste exato momento.

O inferno é o fluxo dos enganos e fantasias da mente, dos pensamentos e interações raivosos, e das palavras e ações nocivas que eles produzem. Se não forem controlados, não há como deixarmos de vivenciar o inferno. [...] Algumas pessoas experimentam o inferno mesmo enquanto contam com um corpo humano. Muitas delas ocupam nossos hospitais. [...] Poderíamos estar sentados no mesmo quarto que elas, e não enxergar nada do que sofrem. Ao mesmo tempo, podemos estar bem ao lado de um grande meditador que vivencia o céu, a terra pura, sem que nós mesmos enxerguemos isso. [...]

Embora grandes meditadores consigam vislumbrar outros reinos, nós não temos prova absoluta sequer de que o nosso mundo fenomênico humano exista além das nossas mentes individuais e coletivas. Ainda assim, da mesma forma que tomamos nossos sonhos como reais enquanto estamos dormindo, consideramos real o nosso reino humano. E os cinco outros reinos são tão reais para os seres que neles existem quanto a nossa experiência é para nós. O inferno parece tão real para um ser no inferno, o reino dos fantasmas famintos tão real para um fantasma faminto, quanto o reino humano para nós. Em última análise, o sofrimento provém não dos fenômenos desses reinos, mas do fato dos seres conferirem realidade a eles. Assim, não é contraditório dizer que nossa experiência é real ou verdadeira, e ao mesmo tempo falsa. Nem é contraditório dizer o mesmo de qualquer outro reino. Se insistirmos que o reino humano é real, então todos os demais reinos são reais, porque os seres que neles existem os experimentam como reais. [...]

Quando tomamos consciência do sofrimento e das limitações da existência cíclica, passamos a ter motivação para encontrar uma saída, da mesma forma que, quando nos damos conta de que estamos doentes, buscamos algum remédio. Ao compreender que a virtude e a não-virtude determinam se a nossa experiência será de felicidade ou tristeza, prazer ou dor, cabe-nos uma escolha: podemos mudar nossas ações e cultivar qualidades virtuosas, buscando a liberação para nós mesmos e para os outros seres, ou podemos continuar a criar não-virtude, perpetuando sofrimento sem fim.
 (Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista)
  
No centro da roda há três animais que representam os três venenos (sânsc. klesha) da mente, a origem dos seis reinos e dos doze elos: o desejo (apego) é representado por um galo; o ódio (aversão) é representado por uma serpente; e a ignorância (conhecimento errôneo), a fonte dos outros dois venenos, é representada por um porco ou javali. O galo e a serpente geralmente aparecem saindo da boca do porco, indicando que o apego e a aversão surgem da ignorância. Ao transcendermos estes três venenos, podemos nos libertar do sofrimento dos seis reinos e extinguir os doze elos que nos prendem a ele.

Ao redor do círculo com estes três animais, há dois semicírculos que representam a virtude e a não-virtude. O semicírculo negro representa o karma negativo, que conduz aos reinos inferiores. O semicírculo branco representa o karma positivo, que conduz aos reinos superiores.

Observando a roda da vida, é possível contemplar os quatro pensamentos que transformam a mente: a preciosidade do nascimento humano, a impermanência, o karma e o sofrimento. Esta contemplação é muito eficaz para despertar a compaixão, o amor, a alegria e a equanimidade.

Os humanos têm maior vantagem. As nossas felicidades e sofrimentos não são tão duradouras. E quando cruzamos de uma felicidade para uma infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso é a vida humana comum. Ainda assim ela é muito rara. Se compararmos a nossa vida com outros seres, eles são muito mais numerosos. O corpo humano é raro e improvável. Como nós somos geridos pelo karma, o nosso renascimento é construído pela nossa condição kármica. Nós não conseguimos dirigir esse processo. É como a tartaruga cega, que a cada cem anos vêm à superfície do oceano, de águas revoltas, onde há um aro boiando. O renascimento humano é tão improvável quanto esta tartaruga, justamente no momento em que sobe à superfície, conseguir colocar sua cabeça dentro do aro que estava boiando.

A nossa condição humana hoje é favorável. Os seres humanos têm a possibilidade de praticar. Temos a liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Temos tempo livre. Isso significa méritos. Já a "vida humana preciosa" tem características peculiares que transcendem em muito a vida humana típica. Quando vivemos em épocas em que os seres de luz não se manifestam, nos sentimos perdidos e a vida parece sem sentido. Na época atual os seres de sabedoria vieram; vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Esses ensinamentos chegaram até nós e estamos numa região onde esses ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade para ouvi-los. Dizem que há uma vida humana preciosa quando, além desses fatores, estamos engajados em transformar a nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob domínio de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos. Se não estamos sob essas condições, isso completa as características da vida humana preciosa. Se a vida humana é numerosa como as estrelas no céu noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto estrelas que são vistas no céu diurno. A pessoa está engajada em produzir benefícios para todos os seres.

O segundo pensamento é sobre a impermanência. Todas as coisas são impermanentes. Nós estamos sempre buscando o que é estável, mas nos enganamos. Onde estão os meus amigos "inseparáveis" da escola? A gente nem sabe onde eles estão hoje. Onde está a casa da nossa infância? A nossa mãe, pai, irmãos? O primeiro namorado, que foi maravilhoso, mas sumiu. A nossa experiência é de instabilidade e transformação constantes. Se diz no buddhismo que o planeta Terra vai desaparecer. O que dizer então das nossas pequenezas? Estamos aqui por um curto espaço. Esse ensinamento vem para aprendermos a olhar com o olho correto à cada momento. O olho incorreto é pensar que tudo é estável. Quando entendemos a preciosidade da nossa vida, e a usamos para produzir benefícios aos outros seres, este é o sinal de que os ensinamentos produziram as transformações que buscávamos. A seguir, o karma. Estamos sujeitos a impulsos internos com os quais não podemos lidar. Esses impulsos produzem as dez ações não-virtuosas ou as correspondentes dez ações virtuosas. As ações virtuosas vão produzir experiências favoráveis — isso também é karma, karma favorável ou positivo, mérito. São experiências de felicidade condicionada. O karma se manifesta em quatro níveis: imediato, a curto, médio e longo prazo. Por exemplo, se desejamos que alguém morra, naquele exato instante estamos esquecidos da nossa condição búddhica, luminosa, perfeita, e isso já é sofrimento. O de curto alcance, é que de novo e de novo vemos a morte de alguém como solução para nossos problemas. O de médio alcance vai se prolongar por essa vida e por outras: a pessoa não se sente digna, sente-se impura por dentro, inferior, e tem uma marca de aversão pelos outros.

Pior que pensar é planejar como fazer. Aí a perturbação se intensifica. A pessoa vai ter sentimentos mais perturbadores, pode começar a ter pesadelos. Se fez isso e executou, a experiência que é muito intensa, vai haver uma intranqüilidade muito grande. E se o ser morreu, é pior ainda. Ela vai se sentir perseguida. Por um longo tempo vai sofrer. Então temos essas quatro etapas kármicas que acompanham cada ação.

Nós temos uma multiplicidade de possibilidades tanto positivas quanto negativas. Tanto uma quanto outra são condicionadas, podem flutuar, estamos sempre pulando de um ponto para outro. Estamos presos nisso, é automático. Esses impulsos estão a nosso serviço, mas quando eles começam a andar por si, são karma. Temos vários mecanismos condicionados, o nosso cabelo cresce, as unhas crescem, sem que a gente faça alguma coisa. E por causa do karma surge a etapa seguinte, o quarto pensamento, que é o sofrimento. Sempre que operamos com referenciais duais, o sofrimento é inevitável. Aí surge o pensamento final que é: eu gostaria de me liberar disso, revelar minha natureza luminosa, usar de forma positiva as relações que estou vivendo, beneficiar os seres.

Em meio às confusões do mundo e tendências kármicas, toda vitória que podemos ter é como vitória no campo de futebol, frágil, impermanente. Agora mudamos, queremos descobrir a nossa natureza completa. Quando olhamos na vida, a nossa vontade de mudar é testada várias vezes, isso é prática espiritual. Aí nossa paisagem ao redor se transforma de samsara, lugar de sofrimento e enganos, em terra pura, que é onde praticamos, recebemos ensinamentos e nos sentimos protegidos pelos seres de sabedoria.

Os Budas olham o que chamamos de samsara e vêem a perfeição que ali existe. Somos como formigas num palácio, não conseguimos reconhecê-lo com nossos olhos de formiga. Há, então, uma longa etapa de transformação dos nossos olhos, até que possamos reconhecê-lo. Em geral, não conseguimos perceber o valor do benefício real que estamos recebendo. Paralelamente ao processo de transformação das tendências kármicas, o Buda ensinou a prática ininterrupta das "quatro qualidades incomensuráveis", que são o método positivo de manifestação no cotidiano solucionando as confusões e conflitos.

A primeira é a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de ‘pena’. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações. A segunda é o amor, o desejo que o outro seja feliz, completamente. Não exclui ex-maridos, ex-esposas, ex-sócios... Depois a alegria, a capacidade de se alegrar com as alegrias e vitórias dos outros, pequenas ou grandes. É um poderoso antídoto contra a inveja. Finalmente a equanimidade: perceber as flutuações das alegrias e tristezas da vida; num momento se tem uma grande alegria, em outro aquilo mesmo vira uma grande tristeza. Surge uma serenidade estável frente a essas flutuações e uma fé permanente, inabalável na natureza de todos os Buddhas, que é a sua própria natureza.

O Buddha ensinou também os meios de produzir felicidade nas relações humanas: casamento, namoro, filhos, trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao invés de pensar ‘o quê vou obter do outro’, pensar ‘o que posso oferecer’. Alegrar-se em oferecer! Se estivermos na dependência do comportamento do outro para obter felicidade, eventualmente pode até funcionar, mas quando surgir a impermanência e o outro flutuar, entramos em crise. S.S. o 14º Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz, sempre brinca, ‘que tipo de amor é o de vocês, aquele que só existe se o outro sorrir?’ Esse tipo de amor está baseado em quanto estamos recebendo e, por isso, é frágil. Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana como caminho espiritual, superando os conflitos internos e trazendo benefícios a todos os seres. Alegria!
 (Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)

Lembre-se que, nos infernos inferiores, os seres queimam como o sol, e que nos infernos superiores, eles congelam. Lembre-se de como os fantasmas e espíritos sofrem com a fome, a sede e o ambiente. Lembre-se de como os animais sofrem as conseqüências de sua estupidez. Abandone as causas kármicas de tais misérias e cultive as causas da alegria. A vida humana é rara e preciosa; não faça dela uma causa para o sofrimento. Tome cuidado; use-a bem.
(Nagarjuna, citado em Path to Enlightenment)

Adaptado da página: www.dharmanet.com.br


domingo, 1 de junho de 2014

Como É "O Outro Lado"?

Sri Yuktéswar e Yogananda
Em postagens anteriores como O Segredo da Vida Equilibrada e também O Roubo da Couve Flor, ambas de uma qualidade, graça e simplicidade imperdíveis, falamos desta figura ímpar que foi Sri Yuktéswar, mestre de Yogananda que é também outra grande figura conhecida, yogue e autor de livros, entre eles Auto Biografia de um Yogue Contemporâneo.
Após sua morte, Yuktéswar materializou-se para seu discípulo Yogananda e respondeu-lhe todas as perguntas sobre o destino do homem após a “morte”. Um relato raríssimo sobre o “outro lado” como você nunca ouviu antes. Uma das descrições mais completas e detalhadas sobre  as diversas dimensões pelas quais a alma  humana viaja rumo ao Infinito. É uma jóia rara esse texto de Yogananda. Vamos lá: 

"Sentado em meu leito no hotel de Bombaim, às três horas da tarde de 19 de junho de 1936 - uma semana após a visão de Krishna, fui interrompido em minha meditação por uma luz beatífica. Ante Meus olhos abertos e atônitos, o quarto inteiro transformou-se num mundo estranho; a luz do sol transmutava-se num esplendor sobrenatural. Sentindo-me arrebatado em ondas de êxtase, contemplei a figura dele Sri Yuktéswar, em carne e osso! 
- Meu filho! - exclamou o Mestre com ternura e um sorriso de anjo sedutor.
Pela primeira vez em minha vida não me ajoelhei a seus pés para saudá-lo, mas avancei no mesmo instante para apertá-lo em meus braços, avidamente. Momento divino! A angústia dos meses anteriores extinguiu-se, fez-se imponderável se comparada à beatitude torrencial que me inundou então.
- Mestre meu, bem-amado de meu coração, por que me deixou? - atribuo esta incoerência ao meu excesso de alegria. - Por que permitiu que eu fosse a Kumbha Mela? Com que amargura venho me recriminando por me haver afastado de sua presença! 
- Eu não quis interferir, você era feliz em sua expectativa de conhecer o local de peregrinação onde encontrei Babaji pela primeira vez. Deixei-o apenas por breve momento; não estou com você de novo? 
- Mas é o senhor de verdade, Mestre, o mesmo Leão de Deus? Está usando um corpo igual ao que enterrei sob as cruéis areias de Puri? 
- Sim, meu filho, sou eu mesmo. Este é um corpo de carne e osso. Embora eu o veja como etéreo, para a sua vista é físico. Com os átomos cósmicos, criei uma forma inteiramente nova, exatamente igual ao corpo-físico-de-sonho-cósmico que você depositou sob as areias-de-sonho de Puri, em seu mundo-de-sonho. Em verdade, ressuscitei - não na Terra, mas num planeta astral. Seus habitantes estão melhor capacitados que a humanidade terrena para seguir os meus elevados padrões espirituais. Você e seus entes queridos, os que alcançaram o êxtase, para lá irão algum dia; estaremos todos juntos.
- Imortal guru, conte-me ainda mais! 
O Mestre teve um riso breve, cheio de jovialidade. 
- Por favor, querido - disse ele. - Não quer afrouxar um pouco o seu abraço? - Só um pouquinho! 
Eu o estivera abraçando com uma pressão de polvo. Percebi o mesmo débil, aromático e natural odor que fora característico de seu corpo terreno. O emocionante contato de sua carne divina ainda persiste nas faces internas de meus braços e nas palmas das mãos, sempre que relembro aquelas horas gloriosas.
- Como os profetas são enviados à Terra para ajudar os homens a esgotarem seu carma físico, assim Deus me enviou a um planeta astral com a missão de salvador - explicou Sri Yuktéswar. - Esse globo chama-se Hiranyaloka ou “Planeta Astral Iluminado”. Lá estou auxiliando seres adiantados a se desembaraçarem de seu carma astral e a se libertarem, portanto, dos renascimentos astrais. Os residentes em Hiranyaloka têm elevado desenvolvimento espiritual; todos adquiriram, em sua última encarnação terrestre, o poder, conferido pela meditação, de abandonar conscientemente o corpo na hora da morte. Ninguém poderá entrar em Hiranyaloka se não tiver experimentado na Terra, não apenas savikalpa samadhi (dissolução da Consciência em Brahma) mas também o estado superior de êxtase, nirvikalpa samadhi (não dualidade, e unidade com O Todo).
 “Os habitantes de Hiranyaloka já ultrapassaram as esferas astrais ordinárias para onde quase todas as pessoas da Terra devem ir ao morrer; nelas destruíram muitas sementes cármicas relativas a suas ações passadas no mundo astral. Apenas devotos adiantados realizam com eficiência esse trabalho redentor nas esferas astrais. Então, o fim de livrarem inteiramente sua alma de todos os traços de carma astral, a lei cósmica impeliu estas criaturas de aspiração mais alta a renascerem em novos corpos astrais em Hiranyaloka, o céu ou sol astral, onde me encontro para ajudá-los. Vivem também em Hiranyaloka seres quase perfeitos vindos do mundo causal superior.”
Minha mente encontrava-se, a essa altura, em tão perfeita sintonização com a de meu guru, que ele me comunicava suas imagens-palavras, em parte através da linguagem e em parte pela transmissão de pensamento. Assim eu recebia, rapidamente, seus tablóides de ideias.
- Você leu nas Escrituras - continuou o Mestre - que Deus encerrou a alma humana em três corpos, sucessivamente: o corpo causal ou de ideias; o sutil corpo astral, sede das naturezas mental e emocional do homem; e o grosseiro corpo material. Na Terra, o homem está equipado com os sentidos físicos. Um ser astral age através de sua consciência e sentimentos, e de um corpo feito de vitatrons. Um ser em corpo causal paira no beatifico reino das ideias. Meu trabalho relaciona-se com aqueles seres astrais que estão se preparando para entrar no mundo causal.
- Mestre adorável, por favor, fale-me ainda mais sobre o cosmos astral. 
Embora eu tivesse afrouxado um pouco o meu abraço a pedido de Sri Yuktéswar, meus braços ainda continuavam a rodeá-lo. Tesouro acima de todos os tesouros, meu guru se rira da Morte para chegar até mim! 
- Existe uma infinidade de esferas astrais, fervilhantes de seres, começou o Mestre. - Seus habitantes usam veículos astrais, ou massas de luz, para viajar de um a outro planeta - mais depressa que as energias elétricas ou radioativas.
“O universo astral, composto de diversas vibrações sutis de luz e calor, é centenas de vezes maior que o cosmos material. A criação física inteira, como sólida barquinha, está dependurada do gigantesco aeróstato luminoso que é a esfera astral. Assim como numerosos sóis e estrelas físicas vagam pelo espaço, existem também, no astral, incontáveis sistemas solares e estelares. Seus planetas contam com sóis e luas mais belos que os físicos.
Os luminares astrais se parecem com as auroras boreais - a aurora do sol astral deslumbra mais que os tênues raios do despontar da lua astral. E dias e noites são muito mais longos que os da Terra.
"O universo astral é, pois, infinitamente belo, limpo, puro e ordenado.
Não existem planetas mortos nem terrenos estéreis. Os defeitos, lamentados na Terra, lá estão ausentes: ervas daninhas, bactérias, insetos, serpentes.
Ao contrário das estações e climas variáveis do globo terrestre, os planetas astrais mantêm uma temperatura uniforme de eterna primavera, caindo, às vezes, neve de luminosa alvura e chuvas de luz multicolorida. Lá, sobejam lagos opalinos, mares rebrilhantes, e rios com os matizes do arco-íris.
“O universo astral ordinário - não o céu sutilíssimo de Hiranyaloka - é povoado por milhões de seres astrais, vindos, mais ou menos recentemente, da Terra; e também por miríades de fadas, sereias, peixes, animais, duendes, gnomos, semideuses e espíritos, todos residindo em diferentes planetas astrais de acordo com suas qualificações cármicas. Reservam-se várias moradas planetárias ou regiões vibratórias para espíritos bons e para espíritos maus. Os bons podem viajar livremente, mas as entidades prejudiciais estão confinadas a zonas restritas. Aqui, os seres humanos vivem na superfície da terra, os vermes no interior do solo, os peixes na água e os pássaros no ar; lá, também, os seres astrais se encaminham a regiões vibratórias adequadas a seus diferentes estágios de evolução.
“Entre sombrios anjos caídos, expulsos de outros mundos, surgem atritos e declaram-se guerras com bombas “vitatrônicas” ou raios vibratórios da mente, mântricos. Estes marginais habitam regiões de trevas densas, no cosmo astral inferior, saldando as dívidas de seu mau carma.

“Em vastos reinos acima da lúgubre penitenciária astral, tudo é resplandecente e formoso. O cosmo sutil, por sua natureza, acha-se mais sintonizado com a vontade de Deus e com Seu plano de perfeição que a Terra. Todo objeto astral manifesta-se primordialmente pela vontade declarada dos seres astrais. Estes possuem o poder de modificar ou realçar a graça e a forma de qualquer objeto já criado pelo Senhor. A Seus filhos astrais, Ele deu a liberdade e o privilégio de modificarem ou aperfeiçoarem à vontade o cosmo astral. Na Terra, para transformar um sólido em líquido ou alterar-lhe a forma, é preciso submetê-lo a processos físicos ou químicos, enquanto os sólidos astrais são convertidos em líquidos astrais, gases astrais ou energia atômica astral, apenas e instantaneamente, pela vontade de seus habitantes.
"A Terra mergulha nas sombras das guerras e dos assassínios, rios, continentes, nos mares e no ar - continuou meu guru. - Nos domínios astrais, porém, observa-se uma igualdade e harmonia felizes. Os seres astrais desmaterializam suas formas e voltam a materializá-las, à vontade. Flores, peixes ou outros animais podem se metamorfosear temporariamente em homens astrais. Todos os seres do astral são livres para assumir qualquer forma e podem facilmente conversar entre si. Nenhuma lei natural, fixa, definitiva, os limita: a qualquer árvore astral se pode pedir, por exemplo, que produza mangas astrais, flores ou, separadamente, qualquer outro objeto, com êxito. Existem certas restrições cármicas mas nenhuma distinção se faz, no mundo astral, quanto ao desejo de possuir esta ou aquela forma. Tudo vibra com a luz criadora de Deus.
Ninguém nasce a partir de uma mulher; seres astrais, por meio de sua vontade cósmica, materializam sua prole em formas expressivamente esculpidas, astralmente condensadas. Quem recentemente desencarnou no mundo físico integra-se numa família astral por convite, atraída por tendências mentais e espirituais semelhantes.
“O corpo astral não está sujeito ao frio e ao calor, ou a outras condições da natureza. Sua anatomia inclui um cérebro astral ou o “lótus de mil pétalas de luz”e seis centros despertos no sushumna ou eixo astral-cérebro-espinal. Do cérebro astral, o coração retira energia cósmica e luz, enviando-as aos nervos astrais e às células do corpo astral ou “vitatrons”. Os seres astrais podem alterar suas formas por energia “vitatrônica” ou por santas vibrações mântricas.
“Em muitos casos, o corpo astral é uma cópia exata da última forma física. A face e a figura de uma pessoa astral assemelham-se aos que possuía durante a mocidade em sua última jornada terrena. Às vezes, alguém, como eu, prefere conservar a aparência que tinha em sua velhice”. - O Mestre, a quintessência da juventude, riu jovialmente.
“Ao contrário do mundo físico tridimensional, só conhecido por meio dos cinco sentidos, as esferas astrais são perceptíveis ao sexto sentido, a intuição, que inclui os demais. Os seres astrais veem, escutam, cheiram, saboreiam e apalpam por meio da multisciente sensação intuitiva. Possuem três olhos, dois dos quais parcialmente fechados. O terceiro e principal olho, verticalmente colocado na testa, está aberto. Os seres astrais têm todos os órgãos externos dos sentidos - olhos, ouvidos, nariz, língua e pele - mas empregam o sentido da intuição para experimentar sensações através de qualquer parte do corpo; podem ver por meio do ouvido, do nariz ou da pele, escutar pelos olhos ou pela língua, saborear através dos ouvidos ou da pele, e assim por diante. 
"O corpo físico do homem encontra-se exposto a inúmeros perigos e facilmente se machuca ou se mutila; o etéreo corpo astral pode, às vezes, ser cortado ou esmagado, mas cura-se instantaneamente por mera expressão da vontade.
- Gurudeva, todas as pessoas astrais são belas? 
- A beleza no mundo astral é uma qualidade do espírito e não se aquilata pela conformação exterior - respondeu Sri Yuktéswar. - Os seres astrais, por isso, atribuem pouca importância às feições. Eles têm o privilégio, entretanto, de se revestirem, à vontade, de corpos astralmente materializados, novos e coloridos. Assim como os homens mundanos envergam novo traje para acontecimentos de gala, também as pessoas etéreas encontram oportunidade de se adornar com formas esculturais.
“Festas de regozijo nos planetas astrais superiores, como Hiranyaloka, ocorrem quando um ser, por seu adiantamento espiritual, liberta-se do mundo astral e acha-se preparado assim para ingressar no céu do mundo causal. Nessas ocasiões, o Pai Celestial Invisível e os santos n'Ele imersos, materializam-se em corpos de Sua própria escolha e participam das celebrações astrais. Para agradar a Seu devoto bem-amado, o Senhor assume a forma sob a qual este mais O adora. A quem O cultuou com devoção, Deus aparece como Divina Mãe. Para Jesus, o aspecto de Pai Infinito sobrepassava todas as demais concepções. A individualidade conferida pelo Criador a cada uma de Suas criaturas faz que todo tipo de demanda, concebível ou inconcebível, ponha à mostra a versatilidade do Senhor! “ - Meu guru e eu rimos felizes.
“Amigos de vidas passadas facilmente se reconhecem uns aos outros no mundo astral - continuou Sri Yuktéswar, em sua encantadora voz de flauta. Rejubilando-se com o caráter imortal da amizade, eles experimentam a indestrutibilidade do amor, de que tantas vezes se duvidou, na hora das tristes e ilusórias separações na Terra.
“A intuição dos seres astrais perfura o véu e observa as atividades humanas na Terra; o homem, ao contrário, não pode ver o mundo astral, a menos que seu sexto sentido esteja desenvolvido. Milhares de habitantes da Terra vislumbraram momentaneamente um ser astral ou um mundo astral. Os residentes adiantados de Hiranyaloka permanecem, em geral, despertos em êxtase durante os longos dias e noites astrais, ajudando a resolver problemas intricados de governo cósmico e de redenção de filhos pródigos, almas apegadas à Terra. Quando os seres de Hiranyaloka dormem têm, às vezes, visões astrais semelhantes ao sonho. Suas mentes, como de hábito, estão absortas no estado consciente da mais elevada beatitude - nirbikalpa.
“Os habitantes de todas as regiões dos mundos astrais ainda estão sujeitos a agonias mentais. As mentes hipersensíveis dos seres mais adiantados, em planetas como Hiranyaloka, sentem dor aguda se algum erro é cometido, de percepção da verdade ou de conduta. Estes seres mais evoluídos esforçam-se para harmonizar cada um de seus pensamentos e atos com a perfeição da lei espiritual.
As comunicações entre os habitantes astrais efetuam-se inteiramente por telepatia e por tele-visão astrais. Lá se desconhecem a confusão e a incompreensão oriundas da palavra oral e escrita, que os moradores da Terra estão obrigados a suportar. Exatamente como os homens numa tela de cinema parecem mover-se e participar de atividades ao longo de uma série de cenas luminosas, sem respirar de verdade, também os habitantes do mundo astral andam e trabalham como imagens de luz inteligentemente guiadas e coordenadas, sem necessidade de retirar forças do oxigênio. O homem depende de sólidos, líquidos, gases e energia para a sua subsistência; os moradores do astral alimentam-se principalmente de luz cósmica.”
- Mestre meu, os seres astrais comem alguma outra substância? Eu sorvia seus maravilhosos esclarecimentos com a receptividade de todas as minhas faculdades - mente, coração e alma. "As percepções superconscientes da verdade são permanentemente reais e imutáveis, enquanto as experiências e impressões fugazes dos sentidos são apenas temporária e relativamente verdadeiras; a memória que delas o homem conserva logo perde a vivacidade". As palavras de meu guru imprimiram-se de modo tão indelével no pergaminho de meu ser que, a qualquer momento, transferindo minha mente para o estado de superconsciência, posso reviver com nitidez a divina experiência.
“Legumes de textura luminosa são abundantes nos solos astrais - respondeu ele. - Os moradores do mundo astral consomem vegetais e bebem o néctar que jorra de gloriosas fontes de luz e que flui nos regatos e rios astrais. Exatamente como na Terra é possível extrair do éter as imagens invisíveis dos homens, torná-las visíveis por meio de um aparelho de tele-visão e, posteriormente, dissolvê-las de novo no espaço, assim também os invisíveis projetos estruturais de plantas e legumes, criados por Deus e flutuantes no éter, condensam-se num planeta astral pela vontade de seus habitantes. Do mesmo modo, nascidos da fantasia insubmissa destes seres, jardins inteiros de perfumada flora materializam-se para retornar mais tarde à invisibilidade etérea. Se os moradores de planetas celestiais, como Hiranyaloka, estão quase livres da necessidade de comer, ainda mais excelsa é a existência incondicionada de almas quase completamente livres no mundo causal, cujo único alimento é o maná da bem-aventurança.
“Um ser astral liberto da Terra encontra-se com uma multidão de parentes, pais, mães, esposas, maridos e amigos, havidos em diferentes encarnações na Terra, à medida que essas criaturas regressam, de tempos em tempos, a várias regiões do cosmo astral. Por isso, sente-se confuso ao tentar saber a quem amar especialmente; aprende assim a dedicar amor divino e igual a todos, como filhos e expressões individualizadas de Deus. Embora a aparência externa dos seres queridos possa haver mudado, menos ou mais, de acordo com o desenvolvimento de novas qualidades na última vida, o ser astral emprega sua infalível intuição para reconhecer todos aqueles que uma vez conheceu em outros planos dá existência, e para recebê-los com alegria ao chegarem a seu novo lar astral.
Em virtude de cada átomo na criação estar dotado de individualidade inextinguível, um amigo astral será reconhecido, seja qual for o traje de que se revista, assim como na Terra se descobre, observando-se atentamente, a identidade de um ator, apesar da caracterização que o disfarça.
“O espaço de tempo em que um ser se demora no mundo astral é mais longo que na Terra. Em média, o período de vida de um ser astral adiantado é de quinhentos a mil anos, medido segundo os padrões de tempo terreno.
Determinadas sequóias sobrevivem à maioria das árvores durante milênios; certos jogues vivem várias centenas de anos embora a maior parte faleça aos sessenta anos; alguns seres astrais ultrapassam o período médio de vida astral. Os visitantes do mundo astral nele residem por períodos mais curtos ou mais prolongados de acordo com o peso de seu carma físico, que os atrai de regresso à Terra dentro de um prazo específico.
“O ser astral não tem de lutar dolorosamente contra a morte, no momento de desprender-se de seu corpo luminoso. Muitos, não obstante, sentem-se um pouco nervosos à ideia de se despojarem do invólucro astral para continuarmos apenas com o mais sutil, o causal. O mundo astral acha-se livre da morte, da doença e da velhice indesejável - três pavores que são a maldição da Terra, onde o homem permitiu à sua consciência identificar-se quase inteiramente com um frágil corpo físico, exigindo o socorro constante do ar, do alimento e do sono a fim de subsistir.
“A morte física caracteriza-se pelo desaparecimento da respiração e pela desintegração das células orgânicas. A morte astral consiste na dispersão dos vitatrons, unidades de energia de que depende a vida dos seres astrais. Na morte física, o homem perde consciência carnal e torna-se cônscio de seu corpo sutil no mundo astral. Experimentando a morte astral, a seu devido tempo, um ser passa, da consciência de nascimento e morte astrais, à de nascimento e morte físicos. Estes ciclos periódicos de alojamentos astrais e físicos constituem o destino inelutável de todos os seres não-fluiníriados. Conceitos de céu e inferno, -nas Escrituras, às, vezes despertam no homem memórias de sua longa série de experiências no agradável reino astral e no decepcionante mundo terrestre, revolvendo arquivos mais profundos que a subconsciência. “
- Bem-amado Mestre - supliquei - pode descrever com maiores detalhes a diferença entre renascimento na Terra e renascimento nas esferas astrais e causais? 
"O homem, enquanto alma individualizada, tem um corpo essencialmente causal - explicou Sri Yuktéswar. - Esse corpo é a matriz das 35 ideias concebidas por Deus, forças de pensamento causal, fundamentais para que, delas, Ele pudesse formar posteriormente o sutil corpo astral, de 19 elementos, e o denso corpo físico, de 16.
“Os 19 integrantes do corpo astral são mentais, emocionais e vitatrônicos.
São eles: inteligência; ego; sentimento; mente (consciência dos sentidos); mais cinco instrumentos de conhecimento, réplicas sutis dos sentidos da visão, audição, olfato, paladar e tato; mais cinco instrumentos de ação, correspondentes mentais das capacidades executivas de procriar, excretar, falar, caminhar e executar atividade manual; e mais cinco instrumentos de força vital, com poder de realizar as funções orgânicas de cristalização, assimilação, eliminação, metabolismo e circulação do sangue. Este sutil envoltório astral de 19 elementos sobrevive à morte do corpo físico, composto de 16 elementos metálicos e não-metálicos.
“Deus concebeu diferentes ideias dentro de Si Mesmo, e na tela de Seus sonhos fez a projeção delas. Assim nasceu Ma
ya, a Sonhadora Cósmica, gigantesca e interminavelmente ataviada com seus ornamentos de relatividade.
“As 35 categorias ideativas do corpo causal encerram, elaboradas por Deus, todas as complexidades de suas 19 réplicas astrais e 16 físicas. Pela condensação de forças vibratórias, a princípio sutis e depois grosseiras, Ele produziu o corpo astral e finalmente a forma física do homem. De acordo com a lei da relatividade, segundo a qual a Simplicidade Prístina veio a ser desconcertante multiplicidade, o cosmo causal e o corpo causal são diferentes do cosmo astral e do corpo astral; o cosmo físico e o corpo físico, igualmente, diferem, em suas características, daquelas outras formas de criação.
“O corpo carnal é feito de sonhos materializados, solidificados, do Criador. Dualidades sempre caracterizam a vida na Terra: saúde e doença, prazer e dor, ganho e perda. Os seres humanos encontram limitação e resistência na matéria tridimensional. Quando a doença ou causas diversas abalam severamente o desejo de viver, intervém a morte; cai ao chão, temporariamente, o pesado sobretudo da carne. A alma, porem, continua aprisionada nos corpos astral e causal. A força de coesão que mantém unidos os três corpos é o desejo. O poder dos desejos irrealizados é a raiz de toda a escravidão do homem.
“Desejos físicos radicam-se no egoísmo e nos prazeres dos sentidos. A compulsão ou a tentação da experiência sensorial é mais poderosa que a força do desejo referente a apegos astrais e percepções causais.
“Desejos astrais concentram-se em prazeres de tipo vibratório. Os seres astrais deliciam-se com a etérea música das esferas e extasiam-se com a visão do universo inteiro criado como expressão inesgotável de luz cambiante. Também cheiram, saboreiam e tocam a luz. Assim, seus desejos relacionam-se com seu poder de condensar todos os objetos e experiências em formas de luz ou em pensamentos condensados ou sonhos.
“Desejos causais são realizações do intelecto. Os seres quase livres, alojados apenas no corpo causal, vêem o cosmo inteiro como projeções das ideias - sonhos de Deus; tudo experimentam em puríssimo pensamento.
Consideram o gozo de sensações físicas e deleites astrais, por isso, grosseiros e sufocantes para a requintada sensibilidade da alma. Os seres causais realizam seus desejos, materializando-os instantaneamente. As almas que se cobrem somente com o delicado véu do corpo causal, podem materializar universos, à semelhança do Criador. Tendo todos os mundos uma só textura, a do sonho cósmico, uma alma, na diáfana veste causal, tem vastos poderes de realização.
“Sendo invisível por natureza, a alma só pode ser percebida pela presença de seu corpo ou corpos. A mera presença de um corpo significa que sua existência se tornou possível devido a desejos irrealizados.
“Enquanto a alma do homem se encontra encerrada em um, dois, ou três frascos corporais, tampados hermeticamente com as rolhas da ignorância e dos desejos, não pode mergulhar no oceano do Espírito.
Destruído o denso receptáculo físico pelo martelo da morte, seus dois outros invólucros - o astral e o causal - ainda persistem e impedem que a alma se una, com absoluta consciência, à Vida Onipresente. Quando se alcança, através da sabedoria, a ausência do desejos, seu poder desintegra os dois vasos remanescentes. A diminuta alma do homem emerge, livre afinal, unificada com a Amplidão Imensurável.”
Pedi a meu divino guru que me desse maiores esclarecimentos sobre a superior e misteriosa esfera causal.
“- O mundo causal é indescritivelmente sutil - respondeu ele. Para entendê-lo, o homem teria de possuir poderes de concentração tão extraordinários que o habilitariam a fechar os olhos e visualizar, como se existissem unicamente em ideias, os cosmos astral e físico em toda a sua vastidão: o aeróstato luminoso com sua sólida barquinha. Se, por meio desta concentração sobre-humana, ele pudesse reconverter em ideias puras esses dois cosmos, com todas as suas complexidades, alcançaria então o mundo causal: a fronteira de fusão entre a mente e a matéria. Ali, percebem-se todas as coisas criadas - sólidos, líquidos, gases, eletricidade, energia, os seres todos: deuses, homens, animais, plantas, bactérias, como formas de consciência; exatamente como um homem, ao fechar os olhos, percebe que ele existe, apesar de seu corpo ser invisível aos seus olhos físicos, uma presença mental, uma ideia apenas.
“Tudo o que um ser humano apenas imagina, um ser causal converte em realidade. Um homem dotado de grande imaginação e inteligência é capaz - em sua mente, apenas - de saltar de planeta em planeta, de deixar-se cair interminavelmente num abismo de eternidade, de subir como um foguete ao pálio de galáxias, e de incidir como um holofote sobre as vias-lácteas e os espaços constelados, Os seres do mundo causal, porém, gozam de liberdade muito maior: projetam seus pensamentos, objetivando-os instantaneamente, em esforço, sem qualquer obstrução material ou astral, e sem limitação cármica.
“Os seres causais sabem, por experiência própria, que o cosmo físico não se compõe primordialmente de elétrons, nem o cosmo astral se constitui basicamente de vitatrons, mas, em realidade, ambos se originam de diminutas partículas do pensamento de Deus, fendidas e fragmentadas por maya, a lei da relatividade que intervém para separar, aparentemente, a criação de seu Criador.
“No mundo causal, as almas se reconhecem umas às outras como fragmentos individualizados do Espírito beatífico; seus objetos pensados são os únicos que as rodeiam. Os seres causais percebem que a diferença entre seus corpos e pensamentos é uma ideia, simplesmente. Assim como o homem, fechando os olhos, pode visualizar uma ofuscante luz branca ou uma névoa azul desbotada, os seres causais também, por intermédio exclusivo de seu pensamento, enxergam, ouvem, cheiram, saboreiam e apalpam; eles criam tudo, ou tudo dissolvem, pelo poder de sua mente cósmica.
“Tanto a morte como o renascimento no mundo causal ocorrem em pensamento. O alimento delicioso dos seres causais é um só, a ambrosia do conhecimento eternamente novo. Bebem dos mananciais de paz, vagam pelo solo sem trilhas das percepções, nadam no oceano sem praias da beatitude. Oh, contemple! Seus brilhantes corpos-pensamentos passam zunindo vertiginosamente por trilhões de planetas criados pelo Espírito, por recentes borbulhas de universos, por moradas estelares de sábios, e por sonhos espectrais de áureas nebulosas, no seio azul-celeste do Infinito! “Muitos seres permanecem durante milhares de anos no cosmo causal.
Então, depois de êxtases progressivamente mais profundos, a alma se libera do pequeno corpo causal e incorpora-se à imensidão do cosmo causal.
Todos os estanques remoinhos de ideias, as ondas particularizadas de poder, amor, vontade, alegria, paz, intuição, calma, autodomínio e concentração, fundem-se no inesgotável Oceano de Beatitude. Não mais a alma fruirá sua ventura como onda individualizada de consciência; agora mergulha no Oceano Cósmico único, na totalidade das ondas - e é riso eterno, comoção, pulsação perene.
“Quando uma alma rompe o casulo dos três corpos, escapa para sempre à lei da relatividade, e converte-se no inefável Sempre-Existente.
Eis, a borboleta da Onipresença, com estrelas e luas e sóis rebrilhando em suas asas! A alma expandida no Espírito paira sozinha na região da luz sem luz, da treva sem treva, do pensamento sem pensamento; inebriada com seu êxtase beatífico, imersa no mesmo sonho de Deus, o da criação cósmica.”
Uma alma livre! - exclamei com reverência.
Quando uma alma se livra, finalmente, das três ânforas de ilusões corpóreas - prosseguiu o Mestre - unifica-se com o Infinito sem qualquer perda de individualidade. Cristo conquistara sua liberdade derradeira, antes mesmo de nascer como Jesus. Em três etapas de seu passado, simbolizadas aqui na Terra pelos três dias de morte e ressurreição, ele alcançara o poder absoluto de subir aos céus em Espírito.
“O homem não desenvolvido submete-se a incontáveis encarnações terrestres, astrais e causais, a fim de desprender-se de seus três corpos. Um mestre que conquista a liberdade final pode escolher, se há de voltar à Terra como profeta, para ajudar outros seres humanos a regressarem a Deus, ou se, como eu, há de residir no cosmo astral. Lá, um redentor carrega, em parte, o peso do carma dos habitantes e assim os ajuda a abreviar seu ciclo de reencarnações no cosmo astral, a fim de partirem definitivamente para as esferas causais  Ou, então, uma alma liberada pode entrar no mundo causal para ajudar seus habitantes a encurtarem seu prazo no corpo causal e assim conquistarem a Liberdade Absoluta.”
- Mestre ressurrecto, quero saber mais a respeito do carma que obriga as almas a regressarem aos três mundos. - Eu poderia ouvir meu Mestre onisciente, pensei, por toda a eternidade. Nunca em sua vida terrena eu fora capaz, em tão pouco tempo, de assimilar tanto de sua sabedoria. Agora, pela primeira vez, eu obtinha percepção clara e definitiva das casas enigmáticas no tabuleiro de xadrez da vida e da morte.
“- O carma físico, ou seja, os desejos do homem, devem ser completamente esgotados antes que se torne possível sua residência permanente nos mundos astrais - esclareceu meu guru com sua voz emocionante. - Dois tipos de moradores vivem nas esferas astrais. Os que ainda possuem carma físico insatisfeito e devem, por isso, reabitar um corpo denso a fim de saldar suas dívidas cármicas, classificam-se, após a morte física, mais como visitantes temporários do mundo astral que seus moradores permanentes.
“Após a morte astral, seres que não expiaram seu carma físico, não têm permissão de entrar na excelsa esfera causal das ideias cósmicas, mas estão obrigados a viagens de ida e volta entre os mundos astrais e físicos, alternativamente conscientes de seu corpo físico de 16 elementos grosseiros e de seu corpo astral de 19 elementos sutis. Contudo, uma criatura não-desenvolvida, depois de cada perda de seu corpo terreno, permanece a maior parte do tempo no profundo estupor do sono da morte e dificilmente tem consciência do formoso reino astral. Terminado o descanso astral, regressa ao plano físico para novas lições, acostumando-se gradualmente, através de repetidas viagens, aos mundos de sutil textura astral.
“Ao contrário, residentes normais, isto é, há longo tempo no universo astral, livres para sempre de todos os anseios materiais, já não precisam regressar às vibrações grosseiras da Terra. Eles só têm carma astral ou causal para esgotar. Na morte astral, transferem-se para o mundo causal infinitamente mais sutil e delicado. No fim de certo prazo, determinado pela lei cósmica, estes seres evoluídos voltam, então, a Hiranyaloka ou a um planeta astral de idêntica elevação onde renascem em novo corpo etéreo para redimir os remanescentes de seu carma astral.
“Meu filho, agora você pode compreender melhor que ressuscitei, por decreto divino - continuou Sri Yuktéswar - como um redentor de almas reencarnadas no astral, especialmente das que baixam da esfera causal e não das que sobem da Terra. Estas últimas, se ainda conservam vestígios de carma físico, não sobem aos mais altos planetas astrais como Hiranyaloka.
“Muitos habitantes terrestres não aprenderam, através do olho desenvolvido pela meditação, a apreciar as alegrias e vantagens superiores da existência astral e, por isso, após a morte, desejam regressar aos prazeres limitados e imperfeitos da Terra; assim também muitos seres astrais, durante a normal desintegração de seus corpos sutis, não chegam a vislumbrar o excelso estado de alegria espiritual no mundo das ideias; demorando-se em recordar a felicidade astral mais grosseira e de vistosos adornos, eles anseiam revisitar o paraíso astral. Esses seres devem redimir-se do pesado carma astral que possam obter, após a morte astral, residência permanente no mundo causal, o das ideias, este, aliás, tão superficialmente secionado de sua origem, o Criador.
“Só quando um ser não deseja mais experiências no cosmo astral, tão agradável à vista, e já não sente a tentação de voltar a ele, é que permanece no mundo causal. Completando ali a obra de redimir-se do carma causal ou sementes dos desejos passados, a alma aprisionada faz saltar a última das três rolhas da ignorância e, emergindo da derradeira ânfora do corpo causal, mistura-se ao Eterno.”

Do livro: Autobiografia de um Yogue Contemporâneo- Paramahansa Yogananda 

domingo, 18 de maio de 2014

Dinheiro e Busca Interior


Estamos vendo o tempo todo na mídia uma orquestração insana que mistura todo o tipo de coisa que desestabiliza o frágil equilíbrio emocional do ser humano. É uma mistura de apreensão  turbinada pelos ódios, apegos e ignorância. Ou é isso, ou o chamado “entretenimento”, que parece existir justamente para que o prato aparentemente ruim da balança não penda para o fundo do poço. O entretenimento parece ser uma salvação pois nos faz esquecer a apreensão. Não é.
 Infelizmente o chamado entretenimento não é o prato contrário. Os dois são da mesma natureza. Os dois pratos da balança são produzidos para tirar a possibilidade da vítima, no caso nós, de intentar fazer descer a Presença. Um ajuda o outro na mesma tarefa inglória que é nos adormecer. Aliás a palavra nós é bem adequada. É o que somos: uns nós... cegos (rsrs). Enquanto escrevia, lembrei de uma frase de quem considero o maior humorista brasileiro, o gaúcho Barão de Itararé, pseudônimo de Apparício Torelly, jornalista e  escritor..., que é bem na linha desse humor esculhambado. A frase dele é “O Brasil é feito por nós. Agora só falta desatar os nós”. Quem quiser ler um humor finíssimo procure-o no Google: Barão de Itararé.
Mas voltando ao assunto, o maior impedimento que existe para o ser humano evoluir é a preocupação constante, acordado ou dormindo, com as coisas do seu dia a dia, como dinheiro, a inflação, o futuro e o passado, a segurança, o trânsito, a polícia, os políticos, a corrupção, as drogas, a saúde, os filhos, os pais, a casa (ou a falta dela), a injustiça da Justiça, a violência... dos quais o mais agudo, e que permeia tudo, é o dinheiro. Para contrabalançar, temos então do outro lado a novela, a telinha, o teatro, o cinema, o desfile, o show, a balada, o facebook, o jogo, a Copa.
Os dois pratos da balança acionam o mesmo mecanismo perverso do pensamento, ou o “falar interno”, e pronto: não conseguimos o contato com a Presença, nem o sentir o corpo, as emoções e as energias circulando. Não conseguimos Lucidez.
Não há muita saída. Ou a gente fica cego de preocupação principalmente com o dinheiro e as posses, ou adormece com o entretenimento. É pau puro. Por isso os budistas chamam este de planeta de sofrimento.
Esse tema é exaustivamente tratado por todos os chamados mestres de todas as tradições sem exceção, porque temos que acordar. Ressalvadas as diferentes abordagens para tratar o assunto, o objetivo é o mesmo: estar presente na ação no mundo (enquanto ainda estamos vivos), independentemente das dificuldades que jogam em sentido contrário. Depois desta vida, não há garantias.
Segundo a visão bíblica, o início da preocupação com a sobrevivência, da qual o dinheiro é a versão moderna, foi dado pelo anjo com a espada expulsando Adão e Eva do paraíso terrestre, o lugar onde se vivia conectado com a Unidade, ou o Universo, ou Deus, como se queira chamar. A frase foi “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar." Gênesis 3:19.
Estava plantada a semente do trabalho duro sobre a terra para se sobreviver, da qual o ganhar dinheiro é uma decorrência da sociedade moderna dada a forma como ela se configurou, e elegeu o dinheiro como fator de segurança.
Mas como a coisa sempre pode piorar, além da necessidade de trabalho para sobreviver, nós seres humanos já saímos de fábrica com uma estrutura de ego que tem uma característica perversa, senão diabólica, que é o sentimento de “primeiro, eu”, graças a uma composição mental/emocional influenciada por quase todos os chamados sete pecados capitais. Esta é a chave para a competição desenfreada, para a exploração do outro.
Piorando mais, temos o resíduo da nossa formação em casa e na escola, e o fato de carregarmos o carma de “quem eu já era antes”. Um tipo de dna, se é que se pode falar assim. 
O resultado fatal é “dane-se o outro”, ou seja a exploração do seu semelhante, sempre que possível, para se obter os resultados do que o ego acha conveniente e seguro para a sua manutenção. O grande problema é que o dito cujo ego nunca se acha seguro, então sempre precisa de mais. No caso específico do brasileiro ele além disso herdou dos nobres portugueses o "dna do fidalgo" (que nos conquistou via índios, e nos escravizou via negros) de “viver com o trabalho e suor do outro”...
O dinheiro é mais que apenas dinheiro. Ele representa uma energia que tem que ser entendida, pois representa um papel crucial na vida das pessoas e ao mesmo tempo o seu significado oculto tem que ser trabalhado como um requisito para se harmonizar a vida material concreta com a Presença no Agora, necessária para a evolução. Não é brincadeira. Eu,particularmente, tenho sofrido um aprendizado dramático com isso e sinto que se entendermos o dinheiro o caminho para a evolução fica menos difícil. A concretude inflexível é um caminho eficiente para a evolução.
Na postagem sobre Miyamoto Musashi, o grande mestre samurai, ele dá os 9 pontos da sua mestria, dos quais a gente deve aplicar quatro deles à questão do dinheiro e bens materiais:
5- Aprenda a distinguir ganho de perda nos assuntos materiais. 
6- Desenvolva o julgamento intuitivo e a compreensão de tudo. 
7- Perceba as coisas que não podem ser vistas. 
8- Preste atenção até ao que parece não ter importância.
A gente se detém muito pouco sobre a natureza dele, mas afinal, o que é o dinheiro?
Desde o seu surgimento como um aspecto significador do Valor que se dá às coisas, ele é considerado um instrumento de avaliação para medir e portanto relacionar e comparar as trocas materiais entre pessoas físicas, entidades, estados nacionais, etc. Então está presente em todos os aspectos corriqueiros da nossa vida, o que exige uma grande dose de atenção para nos relacionarmos com ele. Temos que aprender o que é o dinheiro, o que nós somos como “seres humanos”, e o que é esta sociedade que criamos baseada no sistema monetário.
Infelizmente os teóricos da economia, como Adam Smith e outros, faziam parte da elite dominante e nos venderam um peixe e entregaram outro.
Como diz o movimento Zeitgeist, “O Homem ainda é o mesmo de antes. Ainda é bruto, violento, agressivo, acumulador, competitivo. Ele construiu uma sociedade nestes termos. Não é uma demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.
A sociedade de hoje é formada por várias instituições. De instituições políticas, instituições legais, instituições religiosas a instituições de classe social, valores familiares, e especialização profissional. É óbvia a profunda influência que essas estruturas tradicionais possuem sobre a formação de nossas compreensões e perspectivas. Entretanto, de todas as instituições sociais nas quais nascemos, que nos guiam e condicionam, parece não haver nenhum sistema tão subestimado e mal compreendido como o sistema monetário. Tomando proporções quase religiosas, a instituição monetária estabelecida existe como uma das formas mais incontestadas de fé que existem. Como o dinheiro é criado, as políticas que o governam, e como ele realmente afeta a sociedade, são interesses desconhecidos da grande maioria da população. Em um mundo onde 1% da população possui 40% da riqueza do planeta, onde 34 mil crianças morrem diariamente de pobreza e doenças evitáveis, e onde 50% da população vive com menos de 2 dólares por dia... uma coisa está clara: Algo está muito errado.
Estejamos cientes disso ou não, o sangue nas veias de todas as nossas instituições estabelecidas, e portanto da sociedade em si, é o dinheiro. Logo, entender essa instituição de política monetária é essencial para entender porque nossas vidas são como são. Infelizmente, economia é um assunto freqüentemente visto com confusão e tédio. Sequências infinitas de termos financeiros, aliadas a cálculos intimidadores, fazem as pessoas rapidamente desistir de tentar entendê-la. No entanto, o fato é:
A complexidade associada ao sistema financeiro é somente uma máscara criada para ocultar uma das estruturas mais socialmente estagnadoras que a humanidade já tolerou.”

Se quisermos entender essa falsa “complexidade”, temos que reduzi-la aos seus pontos mais simples.
 Qualquer boa dona de casa entende a verdadeira economia, que pode (e deve) ser aplicada por qualquer nação:
• Pode-se tentar sempre ganhar mais, mas não se pode gastar mais do que se ganha indefinidamente.
• Não se pode criar valor a partir de fatos que vão ocorrer no futuro. O futuro não existe.
• Só se cria valor real a partir de recursos
• Não se cria valor real a partir de crédito. Crédito vem da palavra acreditar, crer. É uma abstração.
• Não se deve usar dois, se é necessário só um.
• Só se gera filho se se pode sustentá-lo.
• Não se pode destruir recursos, sejam eles quais forem.
Os dirigentes das famílias, empresas, países e das economias deveriam seguir esses pontos. Tudo estaria melhor.
Vamos falar mais disso futuramente, mas quem quiser pode já ir vendo (se não viu ainda) o vídeo Zeitgeist Addendum, no youtube. Uma pérola.Está tudo explicado lá.


domingo, 27 de abril de 2014

A Ignorância

"O conflito não é entre o Bem e o Mal, mas entre o Conhecimento e a Ignorância. - Buda

Na postagem O Meu Mestre falamos de Tenzin Wangyal Rinpoche. Hoje esse peregrino tibetano fundador do Instituto Ligmincha Brasil, vai falar da Ignorância, representada na Roda da Vida pelo porco, que ao lado do galo (Apego) e da serpente (Ódio-Medo) formam a tríade do Sofrimento. Vamos lá:
"A totalidade de nossa experiência, incluindo os sonhos, nasce da ignorância". É uma afirmação bem surpreendente no Ocidente, assim vemos de início o que entendemos por ignorância (avydia/ma-rigpa). A tradição tibetana distingue duas variedades: a ignorância inata e a ignorância cultural.
A ignorância inata é a base do samsara (N.R. - samsara é o ciclo contínuo de renascimento e morte dos seres). Ela caracteriza por definição os seres comuns. É a ignorância de nossa verdadeira natureza e da verdadeira natureza do mundo. Sob seu efeito, nos enredamos nas ilusões da mente dualista.
A dualidade reafirma as polaridades e as dicotomias. Ela divide a unidade sem divisão da experiência em isto e aquilo, certo e errado, eu e você. Desenvolvemos a partir dessas divisões conceituais preferências que se traduzem por desejo e repulsa, as respostas habituais que constituem o essencial do que identificamos como "eu". Queremos isto, não aquilo; cremos nisto, não naquilo; respeitamos isto e desprezamos aquilo. Queremos o prazer, o conforto a riqueza, a fama e tentamos evitar a dor, a pobreza, a vergonha o desconforto. Queremos essas coisas para nós e para aqueles que amamos, sem nos preocupar com os outros. Queremos outra coisa diferente do que temos, ou ainda nos agarramos ao que temos e queremos evitar as mudanças inevitáveis que conduzirão a perda.
A segunda variedade da ignorância é condicionada pela cultura. Ela vem, em uma dada cultura, dos desejos e aversões que são instituídas no sistema de valores e são codificadas. Na Índia, por exemplo, os hindus pensam que é incorreto comer carne de vaca mas que podemos comer carne de porco. Os muçulmanos creem que eles podem comer carne de vaca mas lhes é interdito de comer porco. Os tibetanos comem as duas carnes. Quem tem razão? Os indianos pensam que são os indianos, os muçulmanos pensam que são os muçulmanos e os tibetanos pensam que são os tibetanos. As diferentes crenças têm sua origem nos preconceitos e nas crenças próprias à cultura, não na sabedoria fundamental.
Encontramos um outro exemplo nas disputas filosóficas. Muitas doutrinas filosóficas são definidas uma com relação à outra, por desacordo sobre um ponto específico. Ainda que essas doutrinas sejam concebidas para conduzir os seres à sabedoria, elas produzem a ignorância na medida em que seus partidários aderem a uma visão dual da realidade. É inevitável para todo sistema conceitual, qualquer que seja, porque a mente conceitual é em si mesma uma manifestação da ignorância.
A ignorância cultural é promovida e mantida pelas tradições. Ela infiltra toda cultura, opinião, conjunto de valores, conjunto de conhecimentos. Para os indivíduos como para as culturas essas preferências são fundamentais ao ponto de serem consideradas como de bom senso ou lei divina. Crescemos e nos apegamos à crenças variadas, à um partido político, à um sistema médico, à uma religião, à uma opinião sobre como deveriam ser as coisas. Recebemos um ensinamento primário, um ensinamento secundário, até mesmo um ensinamento superior e, de uma certa maneira, cada diploma permite-nos expandir uma ignorância mais refinada. A instrução fortalece o hábito de ver o mundo através de uma certa lente. Podemos nos tornar até experts em visões errôneas, adquirir um conhecimento muito preciso e comunicar-se com outros experts. Pode ser o caso da filosofia, que estuda em detalhe os sistemas intelectuais e faz da mente um instrumento de busca muito refinada. Mas, enquanto a ignorância inata não é compreendida, estamos simplesmente trabalhando para aumentar uma nova tendência, não a sabedoria fundamental.
Nos apegamos até às menores coisas: uma marca de sabão, um estilo de corte de cabelo. Em grande escala, inventamos religiões, sistemas políticos, filosofias, psicologias e ciências. Mas ninguém nasce com a crença que é ruim comer carne de vaca ou de porco, ou que tal sistema filosófico é exato enquanto o outro é errôneo, ou ainda que esta religião é certa e aquela é falsa. Tudo isso deve ser aprendido. A adesão a certos valores resulta de nossa ignorância cultural, enquanto que a tendência em aceitar opiniões limitadas vem da dualidade, que manifesta nossa ignorância inata.
Não é ruim. É simplesmente assim. Nosso apegos podem conduzir-nos à guerra, mas eles se manifestam também sob forma de tecnologias úteis e artes variadas, que são de um grande benefício para o mundo. Enquanto estamos não-despertos, estamos na dualidade, e está muito bem. Um ditado tibetano diz: "Quando tens o corpo de um asno, regozija-te com o sabor da erva". Dito de outra maneira, devemos gozar esta vida e apreciá-la, porque ela é plena de sentidos e preciosa por si-mesma, e porque é a vida que vivemos.
Se não tomamos cuidado, os ensinamentos podem servir para manter nossa ignorância. Podemos dizer que é ruim para alguém obter um grau superior, ou errôneo observar restrições dietéticas, mas a questão não é esta completamente. Ou ainda podemos dizer que a ignorância é má, ou que a vida normal não é mais que uma estupidez samsárica. Mas a ignorância é simplesmente um obscurecimento da consciência. Aí estar apegado, ou repudiá-la, é sempre ainda o velho jogo da dualidade, jogado desta vez no domínio da ignorância. Podemos ver até que ponto ela é invasora. Mesmo os ensinamentos devem transigir com a dualidade – encorajando o apego à virtude, por exemplo, e a aversão pelo não-virtuoso – fazendo paradoxalmente apelo à dualidade da ignorância para triunfar sobre a ignorância. Que nossa compreensão torne-se mais sutil, senão podemos perder-nos facilmente! Eis porque é necessário praticar, para ter uma experiência direta em lugar de apenas estabelecer um outro sistema conceitual para aperfeiçoar e para defender. Vistas do alto, as coisas tem a tendência à se aplainar. Do ponto de vista da sabedoria não-dual, "importante" e "irrisório" não existem.

ATOS E RESULTADOS: CARMA E MARCAS CÁRMICAS
A cultura na qual vivemos nos condiciona, mas somos nós que carregamos as sementes do condicionamento conosco, seja onde formos. Tudo o que nos perturba está na realidade em nossa mente. Acusamos as circunstâncias de nosso mal-estar, ou nossa situação, e acreditamos que seriamos felizes se pudéssemos mudar o estado das coisas. Mas a situação na qual nos encontramos é a causa secundária de nosso sofrimento. A causa primária é a ignorância inata e o desejo que daí resulta de vermos as coisas serem diferentes do que elas são.
Podemos decidir de escapar às tensões urbanas migrando para o oceano ou a montanha. Ou ainda, podemos acabar com o isolamento e as dificuldades do campo pela excitação da cidade. A mudança será talvez agradável porque as causas secundárias são modificadas e poderemos experimentar contentamento. Mas somente por pouco tempo. A raiz de nosso mal-estar muda-se conosco para nosso novo lar, onde dará nascimento a novas insatisfações. Seremos bem rápido novamente presos em um turbilhão de esperança e temor.
Ou então, podemos pensar que com um pouco mais de dinheiro, um melhor companheiro ou uma melhor companheira, ou com um corpo, uma educação, um trabalho melhores, seriamos felizes. Mas sabemos que isto é falso. Os ricos não estão livres do sofrimento, um novo companheiro nos descontentará de uma maneira ou de outra, o corpo envelhecerá, o novo trabalho se tornará menos interessante, e assim por diante. Quando pensamos que a solução para nossa infelicidade se encontra no mundo exterior, nossos desejos podem ser apenas temporariamente satisfeitos. Não compreendendo isso, somos empurrados para cá e para lá pelos ventos do desejo, sempre agitados e insatisfeitos. Somos dirigidos por nosso carma e não cessamos de plantar os grãos de uma futura colheita cármica. Não somente esta maneira de agir nos distrai do caminho espiritual, mas impede-nos além disso de encontrar a satisfação e a felicidade na nossa vida cotidiana.
Enquanto estamos identificados com o desejo e a aversão da mente em movimento, produzimos emoções negativas: elas nascem no espaço que separa o que existe daquilo que queremos. Os atos criados por essas emoções – são praticamente todos os atos de nossa vida comum – deixam marcas cármicas.
Carma significa ação. As marcas cármicas resultam das ações, permanecem na consciência mental e influenciam nosso futuro. Podemos compreender em parte o que elas são aproximando-as daquilo que chamam no ocidente de tendências inconscientes. São inclinações, esquemas de comportamento interior e exterior, de reações inveteradas, das maneiras de pensar habituais. Essas tendências regem nossas reações emotivas aos acontecimentos e nossa compreensão intelectual, do mesmo modo que as emoções habituais que nos caracterizam, e nossa rigidez mental. Elas criam, e condicionam, cada uma das respostas que damos normalmente a cada um dos elementos de nossa experiência.
Eis um exemplo de marcas cármicas grosseiras (mas a mesma dinâmica está trabalhando em níveis os mais sutis e os mais profundos de nossa experiência). Um rapaz cresce em uma família onde discutem muito. Trinta ou quarenta anos talvez após ter deixado a casa, caminhando pela rua, o homem que ele se tornou ouve pessoas que discutem no imóvel ao lado do qual ele passa. Na noite seguinte, ele sonha que discute com sua mulher ou sua companheira. Ao despertar, ele sente-se desgostoso e reservado. Sua companheira nota seu humor e reage, o que o irrita ainda mais.
Essa sucessão de acontecimentos revela-nos alguma coisa das marcas cármicas. O homem, em sua juventude, reagia às altercações familiares com medo, raiva e dor. Ele tinha horror desses conflitos – uma reação normal – e esta aversão deixou uma marca na sua mente. Décadas mais tarde, passando ao lado de uma casa, ouve uma briga; é a condição secundária que estimula a velha marca cármica, a qual manifesta-se por um sonho.
Nesse sonho, o homem reage pelo ódio e a dor à provocação de sua companheira. Esta resposta é comandada pelas marcas cármicas acumuladas na consciência mental da criança e provavelmente muitas vezes reforçada depois. Quando sonha que é provocado pela sua companheira (que não é mais que uma projeção de sua mente), ele reage com aversão, exatamente como quando era criança. Esta reação onírica é uma ação nova, criadora de um grão cármico novo. Ao acordar, ele está mergulhado em emoções negativas que são o fruto de carmas anteriores; ele se sente ferido e afastado de sua mulher. Para complicar ainda mais as coisas, esta reage segundo suas próprias tendências cármicas habituais, talvez enfurecendo-se, ao se sentir ferida, se desculpando, ou humilhando-se, o que encadeia uma nova reação negativa do homem, semeando um outro grão cármico.
Toda reação à qualquer acontecimento – exterior ou interior, estejamos acordados ou sonhando – que tenha por raiz o desejo ou a aversão deixa uma marca na mente. A medida que o carma dita as reações, estas semeiam novos grãos cármicos, que ditarão futuras reações, e assim em seguida. Eis como o carma conduz a mais carma. É a roda do samsara, o ciclo sem fim da ação e reação.
Ainda que este exemplo refira-se ao carma unicamente ao nível psicológico, cada dimensão da existência é de fato determinada por ele. Ele dá forma aos fenômenos emotivos e mentais da vida de um indivíduo, a percepção e a interpretação da existência, o funcionamento do corpo, e a causalidade dinâmica do mundo exterior. Cada aspecto da existência, quer seja pequeno ou grande, é governado pelo carma.
As marcas deixadas pelo carma na mente são como sementes. Como elas, as marcas cármicas requerem certas condições para se manifestar. A semente necessita da combinação adequada de luz, umidade, de nutrientes e da temperatura para germinar e crescer; do mesmo modo, a marca cármica se manifesta quando encontra a situação adequada. Os elementos da situação que favorecem a manifestação do carma são conhecidos com o nome de causas e condições secundárias.
É útil compreender que o carma é a lei da causalidade, porque isso leva a reconhecer que as escolhas feitas em resposta a não importa qual situação, exterior ou interior, tem suas conseqüências. Quando compreendemos verdadeiramente que cada marca cármica leva em germe uma ação futura regida pelo carma, podemos utilizar esse saber para evitar de criar negatividades em nossa vida e para criar ao contrário, as condições que nos orientarão positivamente. Ou seja, se sabemos como fazer, podemos deixar as emoções se auto-liberarem no momento em que elas surgem; nenhum novo carma é mais criado."

Texto do livro "Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono" de Tenzin Wangyal Rinpoche.