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domingo, 14 de agosto de 2011

Impasse?

Conforme a gente disse na postagem A Impermanência, "a vida não é outra coisa senão administrar mudanças, escolhas, alternativas. No Universo há apenas uma lei que não muda: É a lei que diz tudo muda, nada é permanente. Daí a nossa preocupação com o futuro, com o que está por vir."
Então, todo o tempo temos que tomar decisões, quer a gente goste ou não, quer sejamos librianos ou arianos...
Temos ajudado algumas pessoas nesta tarefa, principalmente quando são buscadores e se deparam com dilemas e decisões ligadas ao choque aparente entre a Vida e o Caminho. Digo ‘aparente’ porque é só aparente mesmo. A vida comum, como ela se apresenta para nós, é o Caminho que escolhemos. Deve ser o Caminho. Tem que ser o Caminho...

Esses dias fui procurado por um simpático casal de jovens leitores do blog, de uma pequena cidade em algum lugar do Brasil, que estão enfrentando um impasse: jovens,  empresários, buscadores sérios e dedicados, negócio em ascensão e absorvente, bebê novo, pressão da vida, gostam do negócio e da busca interior, mas as duas atividades estão aparentemente ficando incompatíveis... o que fazer? Pé no freio ou no acelerador? Em qual das duas?  
Ganhar dinheiro ou evoluir? Parece um impasse...
A dificuldade é clássica. Muita gente se defronta com ela, e tem dificuldade em resolver o problema, mas isso deve ser encarado como um presente, uma graça. Aliás Gurdjieff dizia que “quando tudo vai bem, é porque tudo vai mal”. Quando tudo está sem desafios  na vida, a gente não faz nada no Caminho Interior.
Vejo pessoas (só no cinema e TV, viu?) que sempre sonharam como seria bom se aposentar com um bom rendimento para se dedicarem com calma ao Espírito. Conseguiram. Mas só a primeira parte, não a segunda. Sabe como é, né? “Tem muita coisa que atrapalha: família, preocupações, o futuro, o custo de vida, o trânsito, a violência, a saúde, os compromissos familiares, a novela, o encanador, os netinhos, ah os netinhos, uma gracinha, mas tãão absorventes...
Então, voltando ao dilema do jovem casal: antes de pensar em parar a busca ou o negócio, ou diminuir o ritmo, ou terceirizar, ou vender o empreendimento e ir para Pasárgada, ou Katmandu, ou Paris, a gente tem que acertar a coisas dentro da gente. A nossa atitude é que não está correta. Se você mudar de atividade ou de lugar, não adianta nada porque o seu ego vai junto carregando a tralha toda. O Invisível, que administra o seu destino e o conhece muito bem, vai esperá-lo na curva, lá em Paris, mesmo.
Tenho assistido na TV um programa chamado ‘O Encantador de Cães’. É muito bom. Todos os donos de cães procuram o profissional porque acham que ‘o cão tem um problema’. E o guru canino, um mestre mesmo, começa corrigindo o dono do cão, que é invariavelmente o culpado. Ele é o problema (rsrs).
A nossa relação com o mundo é a mesma. O mundo não tem problemas, apesar de parecer caótico, incompreensível e frequentemente injusto. A “inteligência’ do mundo é um software esperto que se resume somente em ter respostas programados sob medida para as ações do ego de cada um, para nos estimular a resolver, e então quando isso acontece, subimos mais um degrau no aprendizado da nossa evolução individual. E nós achamos que é uma rixa pessoal do mundo contra nós... O mundo não dá a mínima para você individualmente. Só faz o trabalho dele.
O cão, como o mundo, não quer brigar conosco, pelo contrário ele quer que a gente assuma o controle. De nós e dele. E fica enviando sinais todo o tempo para nós.
Então vamos lá:

 
•    Primeiro ponto:
 Assumir 100% da responsabilidade. Eu tenho que mudar a minha atitude com o mundo e as pessoas. Se algum fato ou pessoa entrou no círculo da minha percepção, fui eu quem criou a coisa, ou permitiu, seja ela o que for. Então nem o mundo nem ninguém tem culpa nenhuma, não tenho o que, nem de quem, reclamar, não há injustiça, tenho que encarar numa boa e administrar. A coisa é comigo mesmo, e é dirigida para mim, sob medida.
    Na postagem Ho’ oponopono o Dr. Lew Len diz que ‘a total responsabilidade por nossa vida implica em tudo o que está na nossa vida, pelo simples fato de estar em nossa vida e ser, por esta razão, de nossa responsabilidade. Num sentido literal, o mundo todo é nossa criação!’.  O problema, se apareceu, tem a ver comigo e foi só por isso que apareceu “justo para mim”, e está aí, parado, olhando para mim, para ser resolvido. Não é um acidente ou uma fatalidade, ou injustiça, ou o que for que eu pense, para me justificar ou tentar escapar... tenho que arregaçar as mangas e assumir.
•    Segundo Ponto:
Não existe ”eu” e o “problema”, ou “eu” e “o outro”, ou então “dentro de mim” e “fora de mim”. Isso é um produto da mente dual que separa as coisas. Essa coisa de ‘eu não tenho nada a ver com isso aí’ não existe. Se a coisa apareceu no meu raio de percepção, tem a ver comigo mesmo. Então não devo recusar nada. Só encarar e tentar resolver. Com aplicação e o melhor dos espíritos. O problema sou eu, não está fora de mim a ponto de poder ser recusado, e aquilo que se apresenta foi feito sob medida por uma inteligência que sabe de que eu preciso, e isso é um presente para mim neste momento. Tem muito pouca coisa puramente acidental nessa vida.
•    Terceiro Ponto:
Definir uma estratégia e tática inteligentes, possíveis e compatíveis dentro do quadro que se apresenta. É preciso isso para administrar o aparente conflito de tempo e energia disponíveis para fazer o trabalho corriqueiro e o Trabalho Interior. Isso significa aplicar o mental na questão, no que o mental tem de melhor, que é o raciocínio lógico, e conjugar isso com o conhecimento intuitivo adquirido no Trabalho Interior. Significa conhecer o negócio, a operação, o mercado, os clientes, fornecedores, recursos, pontos fortes e fracos, concorrência, ameaças e oportunidades, planejar o futuro detalhadamente, revisar uma, duas, cem vezes, ou seja, fazer a sua parte com dedicação e atenção nos detalhes, e depois...relaxar. Esfrie a cabeça e mude de canal, vá ao cinema, viajar, namorar... você já fez a sua parte. Agora aguarde, enquanto toca a operação dentro dos parâmetros mais adequados que descobriu. Sem se deixar arranhar pelo apego ao que é imprevisível e imponderável. Não há garantias de que vai dar certo, mas você foi impecável. É isso que importa.
Nada de pré-ocupação, só se ocupe, como disse uma vez o Dalai Lama no Brasil. E fique atento à sua intuição.
•    Quarto ponto:
Não separar o tempo da prática da calma ou meditação, e o tempo do trabalho comum na vida. Que tal a idéia de procurar fazer as duas atividades ao mesmo tempo? Ou seja, fazer uma prática de recolhimento enquanto executa a ação, estar presente na ação, no instante em que está no computador, telefone, ou discutindo com o fornecedor, cliente, subordinado, ou com o fiscal corrupto. É difícil? Talvez. Mas se não começarmos nunca iremos saber se é ou não. E aliás, parafraseando Rilke, só o que é difícil realmente interessa...o resto deixe para os outros.
•    Quinto ponto:
Colocar-se no Agora. Esse é crucial. É o requisito indispensável para se tentar fazer as duas práticas ao mesmo tempo, como dissemos no ponto anterior; O que significa isso?  Significa colocar você, seu corpo, a Consciência, na ação, no instante em que as coisas estão acontecendo. É buscar ficar em um lugar dentro de você em que ao mesmo tempo que sente o corpo, as sensações, pensamentos, emoções, ou seja, a ‘Lembrança de Si’ ancorada por um mental silencioso, ao mesmo tempo, ver e atuar na situação corriqueira que pede pela decisão, pela ação, objetivamente. Essa é a chamada Meditação na Ação. Você “faz enquanto medita”. Esse é o objetivo dessa prática milenar chamada Meditação ou Contemplação. É levar a Consciência com lucidez para a Vida no instante em que ela está acontecendo, o Agora: para a vida comum em todos os seus aspectos, trabalho, dinheiro, amigos, carreira, família, pais e filhos, sogro, sogra, doença, mudanças, enfim às 12 casas astrológicas que são o nosso mundo pessoal. Não é meditar na caverna ou na montanha, sozinho, e se transformar num doutor em meditação. A nossa vocação é a ação, sem a identificação, o apego com o ‘fazer’, ou com ‘o produto da ação’. O sonho também é nossa outra vocação (mas isso fica para outra vez...).
E tem um lembrete importante: o Agora não é a mesma coisa que o presente, que é a junção do passado com o futuro. O Agora não está no tempo. Você vai perceber isso na primeira vez que "cair" nele. Ele não tem Passado nem Futuro. Ele é eterno e você só pode tentar vivê-lo a cada instante em que abdicar do passado e do futuro. O Agora é a “porta estreita” que a gente tem que entrar, como dizem as escrituras sagradas de várias tradições. E o Budismo Zen, mais radical, diz que “você tem que atravessar uma porta onde não existe uma porta”. Vixe...
•    Sexto ponto: 

A todo instante em que você perceber que "dormiu” no processo de meditação na ação e só conseguiu ficar em um dos lados dele, você volta e recomeça. Como diz a música, você  “levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”. Começa tudo de novo. Calmamente, sem culpa, sem pressa.
O que a gente poderia chamar de “sucesso” nessa Meditação na Ação, não é “quanto tempo, ou quantas vezes, eu consigo ficar na ação sem me identificar com ela, perdendo o fio da Consciência”, mas é “quantas vezes eu percebo que “dormi” e levanto de novo para continuar”. É um outro tipo de avaliação, que leva em conta a natureza falível do ser humano.
•    Sétimo ponto:
Abra mão. Acha difícil relaxar conforme o negócio está crescendo, porque não confia no trabalho dos outros? Verifique se a razão é que você tem ‘apego pelo fazer’ ou um orgulho perfeccionista velado, uma auto importância de achar que “ninguém faz certinho como você”. Seus colaboradores podem estar ansiosos para contribuir... Abra mão. Treine. Forme mão de obra. E delegue a autoridade conforme perceba que o pessoal está treinado. É mais fácil, cômodo e barato controlar do que fazer sozinho. Só exige outras habilidades. Mas a gente aprende fácil.
Mas não é só isso. Quando você age assim, contribui para fazer as pessoas à sua volta enfrentarem novos desafios e evoluírem. Os budistas chamam isso de um 'bom karma'. Somado a isso, a mania de fazer sozinho cria um 'gargalo' que não deixa o negócio crescer e dar novas oportunidades tanto para si como para os outros. Talvez o gargalo seja você (rsrs)
 
Ganhar dinheiro ou evoluir? Parece um impasse... Que tal Ganhar dinheiro e evoluir?
Pensando bem, acabei de descobrir que a “receita dos sete pontos” se aplica não só para esse caso, mas para outras decisões, relacionamentos (de qualquer tipo), problemas emocionais, julgamentos, projetos, qualquer coisa...Isso é que é um 'Agora produtivo', hein? Quem souber como ganhar royalties de direitos autorais com isso, me avise por favor, porque eu não faço a menor idéia de como fazer isso (rsrs)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Energia Sexual e os videntes toltecas

A energia sexual é um tema de natureza oculta e portanto sempre resistiu a ser submetida aos processos de análise e entendimento das diversas culturas. Ela sempre provoca uma discordância, senão um conflito entre os aprendizes e mesmo “mestres” das “escolas” de trabalho interior.
É considerada pelas tradições genuínas como a própria energia da criação do Universo, e portanto tingida pelo mesmo mistério primordial do nascimento, existência e finalidade do cosmos.
Os círculos mais esotéricos das tradições, que apropriadamente a compreendem  como uma energia neutra e portanto sem conotações de bem ou mal, obviamente não tem meios de passar esse conceito de entendimento para os níveis exotéricos (exteriores) do grupo social . Isso fica então, infelizmente, a cargo das religiões, culturas, escolas, famílias e demais grupos de “socialização”, que passam a mensagem sempre acompanhada das noções de moral, controle social, culpa, julgamento e penas pelo que consideram o seu “mau uso”. Sem falar no poder disfarçado desejado e exercido por esses grupos através do “ensinamento”.
Os toltecas, ou os Videntes do Antigo México, uma tradição comparável às mais antigas do planeta, e da qual Castaneda é o expoente mais conhecido atualmente, tem uma visão muito particular e precisa sobre a energia sexual. Ela é exposta nos 12 livros que compõem a obra, e mais 3 dos aprendizes diretos (Florinda Donner-Grau, Taisha Abelar e o índio Armando Torres).
De acordo com essa visão, há dois conceitos importantes que irão definir o que fazer para usar de forma adequada a energia sexual, com vistas ao desenvolvimento interior:
  • Primeiro: não há uma “questão sexual” genérica, mas casos particulares individuais conforme se a pessoa foi ou não gerada por uma relação sexual energética (amorosa) ou aborrecida (habitual) de seus pais. Nesta última hipótese a pessoa terá pouca energia para usar no seu desenvolvimento interior e deverá então economizar a pouca energia que tem, de preferência praticando o celibato. Na outra hipótese, não.
  • Segundo: há também uma diferença de tipo, se você for, por natureza, ou um sonhador (ou contemplativo) ou um espreitador (ou ativo). No primeiro caso o aprendiz deve economizar a energia, no segundo não é necessário. Aqui se compreende a inutilidade das teorias modernas dos "sexólogos" divorciada da tradição de trabalho interior.
Don Genaro dizia jocosamente a Castaneda (O Fogo Interior, pag. 65) que ele era um caso de celibato:
"- O nagual Julian costumava afirmar que fazer sexo é uma questão de energia - começou Genaro. - Por exemplo, ele nunca tinha quaisquer problemas em fazer sexo, porque possuía enormes quantidades de energia. Mas olhou para mim e determinou imediatamente que "o meu pinto era apenas para mijar". Disse-me que meus pais estavam muito aborrecidos e muito cansados quando me fizeram; disse que eu era o resultado de uma relação muito aborrecida, uma "cojida aburrida".
O que compete a cada um parece ser "como estrategicamente descobrir qual é o seu tipo individual", e agir da forma mais impecável conforme o caso, economizando (ou não) a energia, e canalizando-a para o seu desenvolvimento interior.

sábado, 30 de outubro de 2010

A Morte como conselheira

A morte é a única coisa que modera os nossos espíritos.
Por mais que fujamos do assunto, a morte é um tema central das tradições autênticas do trabalho interior, como a dos videntes toltecas do Antigo México a exemplo das outras tradições antigas genuínas como o budismo, cristianismo, islamismo, hinduismo, o judaísmo, o taoísmo, a egípcia, etc..
Aparentemente diferentes na forma exterior e ritos, para o observador atento, todas essas tradições revelam porém um eixo comum de pressupostos, conceitos e portanto da própria essência de que ele é formado. A idéia da morte sempre está presente no eixo do conceito das tradições de busca interior.
Qual será a razão? Porque uma idéia tão negativa, desconfortante e desafiadora para nós, é acatada por todas as tradições como tão importante? Mesmo a tradição cristã tinha um ritual chamado A Boa Morte, simulando concretamente o bardo da passagem de um estado para outro, como faz a Maçonaria e outras tradições, mas logo se apressaram a excluí-lo das práticas cristãs nas igrejas. É muito mais confortável violão na Missa. Muito mais maneiro, mais políticamente correto. Morte está fora de moda...
Uma perda, meus caros. Uma perda...
A visão tolteca da morte apresentada por Don Juan na obra de Castaneda, porém, dá indícios dessa importância e acrescenta pontos inesperados de compreensão a partir da nossa mente habitual.
Como aprendizes desta tradição, somos desafiados a não só encará-la de frente sem medos nem escapes mas, o que é mais desconcertante, devemos nos aproximar da Morte como uma amiga e conselheira!
Para um ocidental, que desconhece a impermanência das coisas, criado numa paisagem que valoriza o sucesso, a propriedade, o ter ao invés de ser, a idéia é inaceitável. É a antítese da vida. O avesso do avesso como diz o Caetano.  O ocidental, porém, não percebe que esses valores comuns e corriqueiros reforçam a idéia de que eu sou imortal, de que a morte é sempre a dos outros e não a minha. No máximo ela me incomoda mais de perto quando leva um amigo, um parente próximo, mas em seguida estamos refeitos. Basta umas boas férias. E como "imortais que somos", nunca estamos preparados para o espetáculo da nossa morte individual, específica, pessoal como no Bardo Thodol, o livro da morte tibetano. Porque "imortal não tem que se preparar para nada, ora"...  Nem aprendemos o que fazer nessa hora da passagem. Muito menos durante e depois.
Para o aprendiz tolteca, rompida essa barreira pela aproximação voluntária com a morte, somos instigados depois a usá-la consistente e disciplinadamente como instrumento crucial de despojamento rotineiro do ego e de desapego dos valores socialmente aprendidos. Só então poderemos abrir uma brecha na nossa estrutura cristalizada de hábitos, história pessoal e auto-importância de seres comuns. Isso é essencial para o aprendizado da liberdade.
É um desafio monumental.
Os 12 livros que compõem a obra de Castaneda, mais os três outros dos seus seguidores definem os contornos do conceito da morte na visão tolteca e fornecem visões sugestivas, contam fatos e feitos dos guerreiros, e nos jogam no meio de uma fogueira de idéias inesperadas e instigantes.
Castaneda disse uma vez a através de Armando Torres, índio descendente dos toltecas, bruxo e escritor, que a árvore da qual será construído o nosso caixão, provavelmente já foi cortada...já pensou nisso?
Don Juan dizia a Castaneda que não há poder que garanta que você vai viver mais um minuto. E que a sua morte individual está do seu lado esquerdo à distância de um braço. Aprenda a conversar com ela. Peça conselhos nas horas difíceis.
Na melhor das hipóteses, temos pouco tempo...então o que fazemos?