domingo, 19 de junho de 2011

O Raio de Criação

Você conhece um brinquedo da antiga tradição esotérica russa chamado “matryoshka” ou “babushka”? Ele é formado de uma bonequinha que fica dentro de outra, dentro de outra... até formar 7 bonecas. Não conhece? Que pena. Então você não vai compreender o Raio de Criação... (rsrs)
Na publicação anterior,  A Lei de Três, dissemos que O Absoluto, composto de 3 forças unidas, cria um “mundo de segunda ordem” onde as três forças já divididas, ao se encontrarem criam novos “mundos de terceira ordem”. Nesses mundos, além das 3 primeiras forças do mundo  anterior, há mais 3 desse próprio mundo. E vai assim até formar  7 níveis de mundos, um dentro do outro, cada um com 3 forças  a mais que o anterior. Alguma semelhança com a babushka?
Você vê? O brinquedinho inocente é uma forma de perpetuar uma tradição de conhecimento interior, como é também o Tarot e demais baralhos, o jogo de amarelinha, as danças e músicas sagradas, as lendas, o ritual do chá, o tiro de arco... É o tradicional uso de qualquer arte, jogo, brinquedo, dansa, ou coisa corriqueira da vida como apoio do buscador para a busca interior. Quer coisa mais simples que fazer um chá? Pois foi transformada em um apoio e uma arte na busca de Si Mesmo, da evolução. Coisa de gente séria...A vida não é considerada pelos orientais como um fim em si, mas apenas um meio, um palco de ação. O fim é a evolução. Esse conceito é muito difícil para nós ocidentais educados para o sucesso material, o ter em lugar do ser, a forma em vez da essência.
Vamos então simplificar essa coisa de 7 níveis de mundos com um quadro:
“Mundos”
Nível
Leis atuando
Cosmos
Plano
Analogia
Absoluto
1
1
Protocosmos
Atmico
?
Todos os mundos
2
3
Ayocosmos
Budhico
Todas as Galáxias
Todos os sóis
3
6
Macrocosmos
Causal
Via láctea
Sol
4
12
Deuterocosmos
Mental
Cada sol
Todos os planetas
5
24
Mesocosmos
Astral
Cada planeta
Terra
6
48
Microcosmos
Físico
A terra
Lua
7
96
Tritocosmos
?
A lua

Observem que no nosso “mundo”, a Terra, há 48 leis atuando sobre nós, no nível em que estamos da Criação.
Esse é o tal “Raio de Criação”, composto de 7 degraus, do qual você está no sexto, longe do Absoluto, bem em baixo (rsrs). Cada raio individual da Criação sai do Absoluto, (mundo de nível 1), não imaginável pelos nossos parâmetros habituais, e termina num satélite de um planeta (nível 7), extremamente denso em termos de energia, de materialidade. É como se a Criação fosse uma grande esfera composta de raios que saem do centro para a superfície exterior mais densa em termos de energia, ou materialidade. Um desses raios termina na nossa Lua. É o nosso.
Nessa esfera, em cada nível, as infindáveis trindades criadas dentro dele, criam outras infindáveis trindades indefinidamente. O raio que chegou até a Terra e Lua é só um único deles, dentro da esfera multidimensional que é o Absoluto.
Você vai dizer: “Muito bem, e o que significa para mim isso de 48 leis?”
Bem, significa, segundo o que dissemos  em O Ser e o Caminho de Volta, que você é um viajante, um Ser que está muito longe de casa, num país que tem lei que não acaba mais. Aliás até já esqueceu de onde veio e para onde deveria ir. Uma tristeza... Mas não desanime não, viajante (rsrs). Apesar de tudo a viagem é interessante. Aliás, muito aqui entre nós, nem dá para desistir dela. Alguns até tentam...
O problema é que para voltar dessa viagem de ida, tem muito chão para percorrer. Você vive atualmente  em um mundo sujeito a 48 ordens de leis, ou seja, longe da vontade do Absoluto, num canto muito remoto do universo e muito triste. Você está longe do centro de decisões, da Luz, na beiradinha de uma galáxia, quase caindo (rsrs), perto de um sol pequeno, num planetinha de... de nada, maltratado por você e seus semelhantes.
Quanto mais longe do Absoluto, o aumento do número de leis torna tudo mais difícil, porque tudo é mais denso. E a sua missão é tomar a matéria densa desse escafandro onde você escolheu se meter, e tentar refiná-la, torná-la mais sutil para acessar mundos de qualidade também mais sutis. Não é o nosso espírito que tem que retornar, mas a matéria densa do nosso Ser, inclusive do nosso corpo, que deve ser refinada por nós como se fôssemos uma usina de purificação, e levada de volta ao Absoluto. Esse é o caminho de evolução dos Universos e de nós mesmos. As tradições  simbólicas falam dessa descida e subida como foi citado em O Ser e o Caminho de Volta: o Cristianismo Esotérico fala isso na forma de símbolos quando trata da Encarnação do Verbo na Virgem Maria sob a forma do Filho (a descida do Espírito no Raio de Criação) e depois a Ascenção do Filho (a subida por sua própria vontade e esforço). Da mesma forma a Alquimia fala simbolicamente em transmutar metais densos em ouro. É a mesma coisa.
Na volta tudo parece difícil, e você não tem uma mão nesse jogo. Vai dar muito trabalho voltar para poder  “sentar à direita do Pai” segundo diz também metaforicamente a tradição cristã.
Aliás, aqui entre nós,  a Terra, como Ser, é que é regida por 48 leis. Nós humanos estamos entre 48 e 96 leis. Só entrando em harmonia com ela temos a possibilidade de estar sob 48 leis. Quando estamos mergulhados na escuridão da ira, inveja, e demais "pecados capitais", estamos no 96. No mundo da Lua.
Mas nós pelo menos temos uma escolha: podemos começar agora a tentativa de subir para 48 ou níveis mais finos, ou deixar para depois, correndo o risco de descermos para 96. (rsrs... ou... sniff, não sei bem qual...). Há um ditado nas tradições que afirma : “Quem não evolui, regride”.
Agora fica claro para os seguidores do caminho tolteca quando Don Juan responde para Castaneda
“- Quarenta e oito é o nosso número - disse ele. - É isso que nos torna homens. Não sei por quê. Não desperdice seu poder fazendo perguntas tolas.” ( A Porta para o Infinito, pág. 38)
Ou então:
“- Para os videntes, significa que há 48 tipos de organizações (leis) na terra, 48 tipos de feixes ou estruturas. A vida orgânica é um deles.” (O Fogo Interior, pág. 54)
Os toltecas sabiam das coisas...
Resumindo: para a gente entender o fenômeno da criação, qualquer que seja o produto dela, primeiro devemos nos aprofundar no conhecimento da Lei de Três. Quem quiser se aprofundar pode ler o livro "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido" sobre o Quarto caminho, de P. D. Ouspensky. Depois de entender com a cabeça, compreender o funcionamento dela dentro de nós.
Após a Lei de Três que rege a Criação e forma o Raio de Criação, para entender a evolução posterior de qualquer coisa ou fenômeno após ter sido criado, devemos conhecer uma outra lei fundamental, a Lei de Sete ou Lei da Oitava.  É fascinante.
Quem for muito corajoso mesmo, vai então tentar combinar a Lei de Três com a Lei de Sete e descobrir o Eneagrama, esse símbolo de difícil compreensão, cujos fragmentos praticamente se perderam na história das tradições, e foram transformados por dois sul-americanos no século passado em uma caricatura bem enfeitada, sedutora e falseada, do conhecimento original. Logo mais devemos falar disso. Aguardem.
NR – A teoria dessas leis (a autêntica) é misteriosa e atraente, mas nada vale se não a praticarmos e a descobrirmos em nós mesmos.

domingo, 12 de junho de 2011

A Lei de Três

Nasci numa família cristã, fui coroinha na Missa de domingo (uma gracinha), e desde pequeno ouvi falar na Santíssima Trindade, um só Deus formado de 3 entidades (Pai, Filho, Espírito Santo). Seria a mesma coisa, só trocando os nomes, se eu fosse hindu, na Índia onde a Trimurth é composta de Brahma, Vishnu e Shiva, ou se fosse um asteca, um maia, ou tivesse nascido na Grécia, Roma, Egito Antigo, Mesopotâmia, etc.
Para simplificar: 

 Tradição
Trindades
Cristã
Pai
Filho
Esp. Santo
Judaica
Ain
Ain Soph
Ain Soph Aur
Egípcia
Osiris
Hórus
Isis
Suméria
Nimrod
Tammuz
Semirades
Hinduista
Brahma
Vishnu
Shiva
Zoroastra
Ahura-Mazda
Mithra
Vohu Mano
Grega
Zeus
Athena
Hera
Romana
Júpiter
Minerva
Juno
Nórdica
Odin
Thor
Frigga
Tupi-Guarani
Guaraci
Rudá
Jací
Asteca
Ometeotl
Quetzacoatl
Ehecatl
Maia
Hunab-ku
Kukulkan
Chiknawí

E por que as religiões autênticas são assim parecidas? Coincidência?
Na verdade, primeiro as tradições e depois as religiões, falam de uma Lei Fundamental que cria tudo, todos os fenômenos desde o nível das menores partículas até os Universos: um pensamento, um som, uma religião, um ser vivo, um vírus, um gesto. É a "Lei de Três", a lei dos três Princípios, Três Forças, Três Inteligências.
As tradições dizem que o Um, o Absoluto, no seu interior é também Três. O Absoluto é o criador da Trindade a cada vez que cria. E a Trindade vai criando as outras trindades, outros mundos ladeira abaixo. Mesmo o Taoismo quando fala só de Ying e Yang, parte do princípio de que a harmonização das duas forças é a terceira força, formando aquele conhecido símbolo que é mostrado em Dois Hemisférios Duas Mentes.
A doutrina das três forças é a raiz de todos os sistemas antigos de conhecimento. A primeira é a ativa, a segunda a passiva e a terceira a neutralizante (eu prefiro harmonizante). Mas isso são só nomes. As três são ativas e só quando entram em contato entre si, se diferenciam.
As duas primeiras são fáceis de entender, mas a terceira é difícil, não aparece, é de outro plano, não compreendido pela nossa limitação de espaço-tempo. Para compreender, precisamos de uma outra dimensão na nossa atividade psicológica ordinária.
O pensamento científico contemporâneo até reconhece a existência das duas forças, e a necessidade delas para poder produzir um fenômeno qualquer: força e resistência, magnetismo positivo e negativo, eletricidade positiva e negativa, células masculinas e femininas, e assim por diante, mas não reconhece sempre e em toda parte. E não consegue nunca reconhecer a terceira, que harmonizando e juntando as duas, é a verdadeira criadora imediata do fenômeno.  Qualquer fenômeno. Não há criação sem 3 forças. O átomo com próton e elétron, mas sem o neutron, não existiria.
O conhecimento dito científico afirma que “qualquer ação provoca uma reação igual e contrária”, mas isso só conduz ao empate, e não explica a coisa. O que desempata, harmoniza, e cria o fenômeno é a terceira força.
 O princípio geral é: todos os fenômenos, independentemente de sua magnitude, são necessariamente uma manifestação das três forças. Uma ou duas forças não podem produzir um fenômeno, e se observarmos uma parada que seja, ou uma vacilação interminável no mesmo lugar, podemos dizer que este lugar não tem a terceira força. Nenhum fenômeno é criado. Uma paradeira...
No mundo dos fenômenos observado subjetivamente, não vemos os fenômenos em si, mas a manifestação de uma ou duas das forças. Se víssemos a manifestação das três forças em cada ação de criação, então veríamos o mundo como ele é.  A terceira força é uma propriedade do mundo real, que não está disponível ao comum dos mortais. Castaneda diria que se víssemos o mundo real,  então “veríamos como flui a energia no Universo”. Seríamos “videntes”.
Um exemplo:
Para se gerar um ser humano é preciso um espermatozóide, um óvulo,  e...o “Princípio da Vida” por trás, vindo de não-sei-onde. Deu pra sentir a dificuldade de entender a terceira força? Tente visualizar o que é o Princípio da Vida...é difícil. Ele é de outro plano. Só pode ser intuido, pelo buscador. Aliás é simpático o fato de que qualquer coisa criada numa dimensão tem algo de uma dimensão mais fina e invisível àquele dado plano das duas forças. Dá uma idéia de corrente, de conexão, de busca interior, nos ligando ao Mais Alto...
No estudo de Si Mesmo, o estudo das manifestações do seu pensamento, da consciência, suas atividades, hábitos, desejos, etc, pode-se aprender a observar e ver em si mesmo a ação das três forças. O que acontece com o Universo, acontece dentro de nós. As leis são as mesmas agindo.Vejamos:
Uma pessoa  quer  fazer um regime, uma criação para melhorar a sua saúde ou por vaidade, o que for. Seu desejo, sua iniciativa, é a força ativa, ou positiva. Os maus hábitos alimentares, ou a gula, ou a inércia da vida psicológica habitual, que se opõe a esta iniciativa será a força passiva ou negativa. As duas forças ou se compensarão ou superarão completamente uma à outra, mas ao mesmo tempo ficarão com pouca energia para qualquer ação futura. Sem a terceira, elas vão ficar girando uma em volta da outra, vão se anular,  e não vão produzir nenhum resultado. Isso pode durar uma vida toda. A terceira força poderá ser a força de vontade, mesmo que motivada pela necessidade de caber no vestido que vai usar na festa, ou mais conscientemente pela compreensão dos danos à saúde causados pela má alimentação.
Há muitos exemplos da ação das três forças e dos momentos em que entra a terceira força no jogo,  em cada aspecto de nossa vida. Isso ocorre todo o tempo na vida humana. Se você tentou criar algo, uma família, um empreendimento, um projeto, uma agenda, um fato, já conhece esse filme...
E, para complicar, um fenômeno que parece simples pode realmente ser complicado, ou seja, ser uma combinação complexa de várias trindades de forças, e não uma só.
A gente então pergunta: “Como é o processo pelo qual essas trindades de forças criam os mundos e particularmente o nosso mundo?”
As três forças do Absoluto, constituindo um todo, separadas e unidas por sua própria vontade e por sua própria escolha, criam em seus locais de ligação, fenômenos,"mundos", Universos. Esses mundos criados pela vontade do Absoluto, dependem inteiramente  dessa vontade em tudo o que diz respeito à sua própria existência. Em cada um deles atuam as três forças.
No entanto, já que agora o primeiro desses mundos criados não é mais um todo, mas apenas uma de suas peças, as três forças deixam de formar um conjunto único. Existem então nesse mundo três vontades, três consciências, três unidades. São três leis que submetem cada “ser” que viva nesse primeiro mundo, logo após o Absoluto.
As três forças juntas formam uma trindade que produz novos fenômenos, novos mundos. Mas essa trindade é diferente, não é exatamente aquela que estava no Absoluto, onde todas as três forças, ao constituir um todo indivisível, possuíam uma única vontade e uma só consciência. Nos mundos de “segunda ordem” criados pelo Absoluto, as três forças estão agora divididas e seus locais de união são de natureza diferente.
No Absoluto, o momento e o ponto de sua união são determinadas pela vontade única dele. Nos mundos de segunda ordem, onde não há uma única vontade, mas três consciências e portanto três vontades, os pontos de manifestação são determinados por uma vontade individual, independente das outras e, portanto, o ponto de encontro das forças  já se torna algo acidental, com um componente mecânico, circunstancial.
A vontade do Absoluto cria “mundos de segunda ordem" , mas neles não governa seu trabalho criador, onde já aparece então agindo um elemento de mecanicidade. O Absoluto age como um presidente de uma grande empresa (bota grande nisso...), que dá a diretriz geral da corporação, mas deixa a  diretoria com uma certa  autonomia de tocar criativamente a sua área. Aí começa a diversidade, a mecanicidade, a possibilidade do conflito...
As escrituras cristãs dizem que no sétimo dia Ele descansou, mas não foi só no sétimo, não. Ele está descansando desde então, só observando a coisa toda. As leis controlam o empreendimento todo. É o chamado descanso ativo. E criativo.
Em cada um desses mundos de segunda ordem, as três forças divididas criam, ao encontrar-se, novos mundos de uma terceira ordem. Nesses, além das 3 primeiras forças anteriores, há mais 3 desse próprio mundo. E vai assim até formar  7 níveis de mundos, cada um com 3 forças  a mais que o anterior, ou seja,  mais “leis” regendo a sua manifestação. Quanto mais longe do Absoluto nos novos níveis de mundos criados, mais mecanicidade nas próximas criações, mais leis, mais “piloto automático”, menos “consciência”, mais caminho e esforço para cada viajante fazer o caminho de volta.
Lembrei-me agora de Nietzsche, que laconicamente, disse “Nas profundezas, tudo é lei”. Estava certo o bigodudo.
A gente pergunta: “E como fazer para conseguir criar algo com sucesso neste mundo, identificando o funcionamento da Lei de Três à sua volta?”
Não tem receita fixa, mas tem algo que ajuda:
•    identificar as duas forças ligadas ao que vai ser criado.
•    tomar consciência do impasse, do empate das duas forças no tempo
•    identificar a terceira força, de um nível mais sutil, que pode harmonizar as duas
•    buscar energia interior (intento) para aplicá-la
•    buscar persistência disciplinada na ação para conseguir o objetivo.
Isso é observação pura, disciplinada e constante do Si Mesmo no mundo em torno. É um exercício para se tornar um Criador. Nós não fomos feitos à semelhança d'Ele? Vamos aproveitar, ora essa...
Um caderninho para registro de anotações ajuda, mas comece logo, porque em breve vamos falar dos 7 níveis da Criação que decorrem da Lei de Três: o chamado Raio da Criação. Se você bobear vai embolar a lição de casa. (rsrs)

domingo, 5 de junho de 2011

Os 9 bilhões de nomes de Deus

Hoje é dia de descanso (pero no mucho). Não tem informações, nem práticas, nem ensinamentos das tradições antigas. Mas, como na busca interior não tem descanso, hoje só tem ensinamento disfarçado, se considerarmos a desconstrução mental como um ensinamento. E ela é. Esse conto de 1953, como diria Don Juan, é uma “cambalhota do pensamento”, é uma jóia do Realismo Fantástico, tão caro ao grande escritor que foi Arthur Clarke. O conto resgata o livro maravilhoso onde está publicado: “O Despertar dos Mágicos”, que qualquer iniciante de buscador deveria ter na cabeceira. É um instrumento de desprogramação racional, somado com mistério, ideal para quem deseja escapar da prisão padronizada dos “hábitos e rotinas” mentais, emocionais e físicas, como faziam os toltecas que queriam o verdadeiro “namoro com o Conhecimento”. Após a desprogramação e o contato com o insólito quando somos jovens, já dá para intuitivamente procurar no Invisível, com a mente vazia, um caminho autêntico de busca interior.  Eu li o livro aos 18 anos, como disse antes neste blog na página inicial “Quem escreve? Por que?”. Só para situar, esse conto tem um traço surpreendente de "anti-mesmice" e imprevisibilidade, um perfume raro encontrado em gente fora de esquadro, "desconstrutores" como James Hoy Fort, Flamarion, Gurdjieff, Dali, Jodorowski, Julio Verne, Tarkowski e alguns mestres Zen. Desconstruir-se é uma forma de renascer. E como dissemos em "O mistério de Cristo eo Sol", temos que "renascer do espírito para ver o Reino". 
Vamos ao conto:
“O doutor Wagner conseguiu se conter. Era conveniente. Depois disse:
- O seu pedido é um pouco desconcertante. Que eu saiba, é a primeira vez que um mosteiro tibetano faz a encomenda de um computador. Não quero ser curioso, mas estava longe de pensar que semelhante instituição pudesse necessitar dessa máquina. Posso perguntar-lhe em que deseja utilizá-la?
O Lama ajeitou as dobras da sua túnica de seda e pousou sobre a mesa a régua de calcular com a qual acabava de efetuar conversões libra-dólar.
- Naturalmente. O seu computador versão .5 pode fazer, segundo diz o catálogo, todas as operações matemáticas até 10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras, não números. Pedir-lhe-ei, portanto que modifique o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de colunas de números.
- Não compreendo muito bem...
- Desde que nosso mosteiro foi fundado, há mais de três séculos, que nos consagramos a um determinado trabalho. É um trabalho que pode parecer-lhe estranho e peço que me escute com a maior largueza de espírito.
- De acordo.
- É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes possíveis de DEUS.
- Perdão?
O lama continuou imperturbavelmente:
-Temos excelentes motivos para crer que todos esses nomes de DEUS incluem quando muito nove letras do nosso alfabeto.
- E ocuparam-se disso durante três séculos?
- Sim. Tínhamos calculado que precisaríamos de quinze mil anos para terminar o trabalho.
O doutor deu um assobio de vencido e disse um pouco atordoado:
- OK, agora compreendo porque deseja alugar uma das nossas máquinas. Mas qual é o objetivo da operação?
Durante uma fração de segundo o lama hesitou e Wagner receou ter ofendido aquele estranho cliente que acabava de fazer a viagem Lhassa-Nova Iorque com uma régua de calcular e o catálogo da empresa no bolso de sua túnica cor de açafrão.
- Chame a isto um ritual, se quiser – disse o lama – mas é umas das bases fundamentais da nossa religião. Os nomes de Ser Supremo, Deus, Júpiter, Jeová, Alá, etc., não passam de etiquetas feitas pelos homens. Certas considerações filosóficas, demasiado complexas para que as possa expor agora, deram-nos a certeza de que, entre todas as perguntas e possíveis combinações das letras, se encontram os verdadeiros nomes de DEUS. Ora, o nosso objetivo é descobri-los e escrevê-los todos.
- Já compreendo: Começaram por a.a.a.a.a.a.a.a.a., e acabarão por chegar a z.z.z.z.z.z.z.z.z.
- Simplesmente utilizamos o nosso alfabeto. Evidentemente que lhe há de ser fácil modificar a impressora elétrica de forma que ela utilize o nosso alfabeto. Mas o problema mais importante será o de preparar os circuitos especiais de forma que eliminem antecipadamente as combinações inúteis. Por exemplo, nenhuma das letras deve aparecer mais de três vezes sucessivamente.
- Três? Quer dizer duas...
- Não. Três. Mas a explicação completa exigiria muito tempo, mesmo que o senhor compreendesse a nossa língua.
Wagner disse precipitadamente:
- Claro, claro. Continue por favor.
- Ser-lhe-á fácil adaptar o computador em função desse objetivo. Com um plano bem elaborado, uma máquina desse gênero pode trocar as letras uma após outra e imprimir um resultado. Desta forma, concluiu calmamente o lama, aquilo que nos levaria ainda quinze milênios estará terminado em cem dias.
O doutor Wagner sentia que ia perdendo o sentido da realidade. Através das janelas do edifício, os ruídos e as luzes de Nova Iorque perdiam a intensidade. Sentia-se transportado a um mundo diferente. Lá longe, no seu longínquo asilo montanhoso, geração após geração, os monges tibetanos, há trezentos anos, elaboravam a sua lista de nomes desprovidos de sentido... Não havia, então, limite para a loucura dos homens? Mas o doutor Wagner não devia deixar transparecer os seus pensamentos. O cliente tem sempre razão...
E respondeu:
- Não duvido que possamos modificar a máquina versão .5 de forma a imprimir listas desse gênero. A instalação e a conservação é que mais me inquietam. Aliás, não será fácil enviá-la para o Tibete.
- Nós trataremos disso. As peças separadas têm dimensões suficientemente pequenas para serem transportadas por avião. De resto, foi esse o motivo por que escolhemos a máquina. Envie as peças para a Índia, nós nos encarregaremos do resto.
- Deseja contratar dois dos nossos engenheiros?
- Sim, para montarem e vigiarem a máquina durante cem dias.
- Vou mandar instruções à direção de pessoal – disse Wagner enquanto escrevia na agenda. – Mas restam duas questões a resolver...
Antes que tivesse podido terminar a frase, o lama tirou do bolso uma delgada folha de papel:
- Esta é a situação da minha conta no Banco Asiático.
- Muito obrigado. Está muito bem... Mas, se permite, a segunda questão é de tal maneira elementar que hesito em mencioná-la. Acontece muitas vezes esquecermos qualquer coisa evidente... Têm uma fonte de energia elétrica?
- Temos um gerador Diesel elétrico de 50 kw de potência, 110 volts. Foi instalado há cinco anos e funciona bem. Facilita-nos a vida no convento. Compramo-lo sobretudo para acionar os “moinhos de orações”.
- Ah! Sim, evidentemente, eu devia ter pensado nisso...

Do parapeito a vista era vertiginosa, mas habituamo-nos a tudo.
Já haviam decorrido três meses e Jorge Hanley já não se impressionava com os seiscentos metros em vertical que separavam o mosteiro do quadriculado dos campos na planície. Apoiado sobre pedras que o vento arredondara, o engenheiro contemplava, com olhar triste, as montanhas longínquas de que ignorava o nome. “A operação nome de DEUS”, como a batizara um humorista da companhia, era sem dúvida a pior tarefa que jamais tivera.
Semana após semana, a máquina versão .5, modificada, cobrira milhares de folhetos de uma incrível algaravia. Paciente e inexorável, o computador reunira as letras do alfabeto tibetano em todas as combinações possíveis, esgotando série após série. Os monges recortavam certas palavras à saída da impressora e colavam-nas com devoção em enormes registros. Dentro de uma semana acabariam.
Hanley ignorava quais os cálculos obscuros que os levavam à conclusão de que não deviam estudar conjuntos de dez, vinte, cem mil letras e nem pretendia sabê-lo. Nos seus pesadelos sonhava, às vezes, que o grande Lama decidira bruscamente complicar um pouco mais a operação e que o trabalho continuaria até o ano 2060. Aliás, aquele estranho homenzinho parecia perfeitamente capaz de o fazer.
A pesada porta de madeira estalou. Chuck vinha ter com ele no terraço. Fumava, como de costume, um charuto: tornara-se popular entre os lamas distribuindo-lhes havanas. Aqueles tipos poderiam ser completamente amalucados – pensou Hanley – mas não eram puritanos. As freqüentes expedições à aldeia não tinham sido desprovidas de interesse...
- Ouve, Jorge – disse Chuck – vamos ter aborrecimentos.
- A máquina escangalhou-se?
- Não.
Chuck sentou-se sobre o parapeito. Era espantoso, pois habitualmente receava ter vertigens:
- Acabo de descobrir o objetivo da operação.
- Mas já o sabíamos!
- Sabíamos o que os monges queriam fazer, mas não sabíamos o porquê.
- Bah! São uns loucos...
- Escuta, Jorge, o velho acaba de explicar-me. Eles crêem que assim que tenham escrito todos aqueles nomes, e segundo pensam são cerca de nove bilhões, o objetivo divino será atingido. A raça humana terá realizado a tarefa para que foi criada.
- E então? Esperam que nos suicidemos?
- Não. Quando a lista estiver terminada, DEUS intervirá e será o fim.
- Quando terminarmos será, então, o fim do mundo?
Chuck teve um risinho nervoso:
- Foi o que eu disse ao velho. Ele olhou-me de uma forma estranha, como um professor olha para um aluno particularmente estúpido, e disse-me: “Oh, não será assim tão insignificante!”
Jorge refletiu um instante.
- É um tipo que visivelmente tem idéias largas mas, mesmo assim, que importância tem isso? Nós já sabíamos que eram loucos.
- Sim. Mas você não vê o que pode acontecer? Se a lista ficar pronta e se as trombetas do Anjo Gabriel, versão tibetana, não soarem, eles podem decidir que é por nossa culpa. Afinal de contas, era a nossa máquina que eles utilizavam. Não gosto disso...
- Percebo... – disse lentamente Jorge – mas eu já vi tanta coisa! – Quando era garoto na Luisiana apareceu um pregador que anunciou o fim do mundo para o domingo seguinte. Houve centenas de tipos que acreditaram nele. Alguns mesmo chegaram a vender suas casas. Mas ninguém se enfureceu no domingo seguinte. As pessoas pensaram que ele apenas errara um pouco os cálculos e muitas delas ainda acreditam.
- Caso você não percebeu, não estamos na Luisiana. Estamos ambos sozinhos, no meio de centenas de monges. Adoro-os, mas preferia estar longe quando o velho lama aperceber-se de que a operação falhou.
- Há uma solução. Uma pequenina sabotagem inofensiva. O avião chega dentro de quatro dias à razão de 24 horas por dia. Basta-nos começar a reparar qualquer coisa durante dois dias ou três dias. Se calcularmos bem, poderemos estar lá em baixo, no aeroporto, quando o último nome sair da máquina.
Sete dias mais tarde, enquanto os pequenos pôneis das montanhas desciam o caminho em espiral, Hanley disse:
- Sinto um pouco de remorsos. Não fujo por medo, mas porque tenho pena. Não gostaria de ver a cara daqueles pobres homens quando a máquina parar.
- Na minha opinião – disse Chuck – eles desconfiaram que fugimos e não se incomodaram. Agora já sabem até que ponto a máquina é automática e que não precisa de vigilância. E supõem que não haverá nenhuma depois.
Jorge voltou-se para trás e olhou.
Os edifícios do mosteiro apareciam em silhueta escura sobre o poente. De vez em quando brilhavam pequeninas luzes sob a massa sombria das muralhas, como as vigias de um navio singrando no mar. Lâmpadas elétricas colocadas sobre o circuito da máquina .5.
"Que aconteceria ao computador?", pensou Jorge. "Na sua fúria e desapontamento iriam os monges destruí-lo? Ou então recomeçariam tudo?"
Como se ainda lá estivesse, via o que naquele momento se passava na montanha atrás das muralhas. O grande lama e os seus assistentes examinavam as folhas, enquanto alguns noviços recortavam os nomes barrocos e os colavam no enorme caderno. E tudo aquilo era feito em religioso silêncio. Só se ouvia a impressora batendo no papel como se fossem chuva miúda. O próprio computador, que combinava milhares de letras por segundo, estava completamente silencioso...
A voz de Chuck interrompeu o seu devaneio:
- Lá está ele! Que grande alegria que dá!
Semelhante a uma minúscula cruz prateada, o velho avião de transportes DC3 acabava de pousar lá embaixo no pequeno aeródromo improvisado. Aquela visão dava vontade de beber um grande copo de uísque gelado. Chuck começou a cantar, mas depressa se calou. As montanhas não o encorajavam.
Jorge consultou o relógio.
- Estaremos lá dentro de uma hora – disse. E acrescentou: - Você acha que o cálculo já terminou?
Chuck não respondeu e Jorge levantou a cabeça. Viu o rosto de Chuck muito branco, voltado para o céu.
- Olha! – murmurou Chuck.
Jorge, por sua vez, levantou os olhos.
Pela última vez, por cima deles, na paz das alturas, uma a uma as estrelas começaram a se apagar...”


create an avatar