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domingo, 23 de fevereiro de 2014

O Ministro abriu o jogo


Sempre fui um aficionado pelo mistério, que em mim convive bem com um racional quase cartesiano. Acho que esse fato provoca um equilíbrio entre as duas tendências que atualmente vemos nas pessoas, ceticismo e  credulidade. Na página Quem escreve? Por que? neste blog,  falo um pouco disso.
Desde cedo, lá por 1960, numa época em que poucos falavam em discos voadores - eu buscava e colecionava informações sobre o assunto, e não tinha com quem conversar a respeito. Na postagem Ciência, Preconceito e Lobby menciono que "um dos meus heróis da adolescência era Charles Hoy Fort, um americano pequeno e bigodudo, citado no livro 'O Despertar dos Mágicos', colecionador de fatos insólitos e anômalos. Tudo o que queriam esconder, ele jogava para cima. Uma figura rara, na esteira do Realismo Fantástico em voga no século passado. Seu livro 'O Livro dos Danados' é o surrealismo do pensar, uma encantadora revolução...
Aos 16 anos, eu, como ele, colecionava as raras notícias da imprensa local e mundial sobre discos voadores (não havia ainda o nome Ovni ou Ufo – era "flying saucer"), e eu já tinha lido o livro 'Os Discos Voadores' (1959) do corajoso comandante  Auriphebo Berrance Simões.  Ele, além de piloto da extinta empresa aérea brasileira Cruzeiro do Sul, era aerologista formado nos EUA e correspondente da prestigiada revista Time no Brasil e testemunha de aparições de ovnis em seus vôos. Era um outro Hoy Fort.
Aos 25 li 'Eram os Deuses Astronautas' do suíço Erich Von Daniken, desacreditado por muitos na época, e hoje seguido por um batalhão de escritores, admiradores, programas e canais de TV, bloggers e internautas. Na época, sem internet, era difícil encontrar com quem conversar sobre esses assuntos."
Hoje o assunto ovni movimenta uma máquina poderosa dentro da mídia mundial (livros, notícias, congressos, sites, organizações, o diabo...) e com tantas evidências inegáveis pressiona os governos e forças armadas de todo o mundo a admitir e contar o que todos já sabem, pois todos já suspeitam.
As pessoas comuns tem uma resistência enorme a admitir esses fatos por mais evidentes que sejam pois seriam obrigadas a fazer perguntas e pensar. Uma das formas de elas abrirem a cabeça para o tema acontece quando alguém importante, de preferência com um cargo alto em grandes empresas ou governos,  faz um depoimento dando crédito ao assunto. Um fato assim aconteceu em circunstâncias parecidas, relatadas na postagem O Mistério da Viagem do Almirante Bird, quando ele falou o que falou.
Então vamos falar disso: um homem sério, ex-ministro de estado de um dos países respeitados do planeta, pôs a boca no mundo numa audiência pública, e abriu o jogo admitindo o que os caçadores de ovnis estão cansados de falar.
O vídeo abaixo foi gravado na audiência pública que aconteceu em Washington, capital dos Estados Unidos, do dia 29 de abril a 3 de maio de 2013. Um dos convidados foi Paul Hellyer, ex-ministro da Defesa do Canadá. Existem alguns trechos importantes nas declarações feitas por Paul Hellyer, que esteve à frente do Ministério da Defesa canadense por 23 anos, durante três diferentes governos. Apesar de isso ter acontecido em maio de 2013, vale a pena ver.
Seguem abaixo alguns trechos fundamentais das declarações de Paul Hellyer. O ex-ministro diz entre outras coisas:

  • “Ovnis são tão reais quanto os aviões voando sobre as nossas cabeças”.
  • “Esta minha declaração me deu a chance de ser o primeiro líder de primeiro escalão no mundo a falar de uma maneira clara e inequívoca”. E continua dizendo que “reconhece 4 espécies diferentes de seres convivendo conosco neste momento no mundo”.
  • “Há ETs vivos na terra neste momento, e pelo menos dois deles trabalham com o governo dos Estados Unidos”.

O vídeo continua e Paul Hellyer diz que o seu interesse é fazer uma revelação completa, ou pelo menos de 98% dos fatos conhecidos.

  • “Do mesmo modo que as crianças estão preparadas para em algum dia perceberem que há ilusões que não existem, como a fada-do-dente, os adultos que pagam impostos devem ser considerados preparados para entender esta nova realidade de que vivemos num cosmos cheio de vida, o qual compartilhamos com várias outras espécies”, completa.

Para ele, o fato de que outras espécies são mais avançadas do que nós [humanos] pode nos exigir humildade, mas pode ser um passo importante para a nossa sobrevivência.
  • “Temos um sistema econômico terrivelmente tolo no ocidente hoje, e o congresso dos Estados Unidos tem parte da responsabilidade por isso, terei prazer em elaborar mais o assunto caso tenham interesse em ouvir”.
  • “Há grupos conduzindo um esquema de acobertamento que inclui o cartel do petróleo, o cartel financeiro e agentes das agencias de inteligência”…
  • "Esses grupos não operam apenas nos Estados Unidos, mas em grande parte do mundo ocidental". 
  • "Temos de nos comprometer a viver em paz com nossos vizinhos, aqui na terra, tanto quanto com nossos “vizinhos do céus”. Temos de nos tornar seres espirituais, e viver de acordo com a regra de ouro: (Fazer aos outros aquilo que queremos que seja feito por/para nós). 
  • Ele finaliza citando um estudo de um psiquiatra especializado em análise de casos de contatos extraterrestres: “Embora os extraterrestres não sejam eles mesmos “deuses” e muitas de suas atividades não sejam totalmente positivas, muitas vezes eles agem como intermediários, mensageiros, como um elo de ligação com uma consciência superior”.
Segue o vídeo:


sábado, 11 de maio de 2013

Biografias "Malditas" - Ramanujan

A biografia de hoje é de Ramanujan, jovem indiano e hindu que, pobre e sem aprendizado formal nenhum, superou e inovou o conhecimento matemático da época surpreendendo professores e matemáticos famosos das universidades europeias. É um enigma para a razão ocidental. Resolveu, sem ajuda acadêmica, intrincados teoremas matemáticos que ninguém do stablishment intelectual vigente conseguiu. Dizia na sua ingenuidade de autodidata que uma deusa hindu, de nome Namagiri, aparecia em sonhos e o ajudava, algo impensável aos medalhões arrogantes da época. É um caso típico que levanta as teorias de reencarnação, ou no mínimo o funcionamento do DNA ou da química entre mente e corpo, para tentar explicar o até agora inexplicável: porque um ser humano tem um conhecimento tão superior ao dos seus pares, da época, e às vezes de toda a humanidade. Um bom exemplo de realismo Fantástico.
Seu nascimento foi num dia dos princípios do ano de 1887, quando um brâmane da província de Madrasta dirige-se ao templo da deusa Namagiri. O brâmane casou sua filha há já vários meses, e a união mantém-se estéril. Ele pede que a deusa Namagiri fecunde sua filha. Namagiri atende a sua prece. A 22 de Dezembro nasce um rapaz, ao qual é dado o nome de Srinivasa Ramanujan Alyangar. Na véspera, a deusa aparecera à mãe para lhe anunciar que seu filho seria extraordinário.
Aos cinco anos ele vai para a escola. Imediatamente a sua inteligência é de espantar. Parece já saber o que lhe ensinam. Recebe uma bolsa para o liceu de Kumbakonan, onde é admirado pelos condiscípulos e professores. Tem quinze anos.
Um de seus amigos faz com que a biblioteca local lhe empreste um volume intitulado A Synopsis of Elementary Results in Pure and Applied Mathematics. Essa obra, publicada em dois volumes, é um sumário redigido por George Shoobridge, professor em Cambridge. Contém resumos e enunciados sem demonstração de 6000 teoremas, mais ou menos. O efeito que produz no espírito do jovem hindu é fantástico. O cérebro de Ramanujan começa bruscamente a funcionar de maneira totalmente incompreensível para nós. Ele demonstra todas as fórmulas dos teoremas.
Depois de esgotar a geometria, ataca a álgebra. Ramanujan contará mais tarde que a deusa Namagiri lhe apareceu para lhe explicar os cálculos mais difíceis. Aos dezesseis anos fica mal nos exames, pois o seu inglês continua fraco, e a bolsa é retirada. Prossegue sozinho, sem documentos, as suas investigações matemáticas. Em primeiro lugar põe-se em dia com todos os conhecimentos na matéria, no ponto em que eles estão em 1880. Pode desprezar o trabalho desse professor Shoobridge. Ultrapassa-o largamente. Sozinho, recria, depois ultrapassa todo o esforço matemático da civilização a partir de um sumário, aliás incompleto.
A história do pensamento humano não conhece outro exemplo. O próprio Galois não trabalhara sozinho. Fizera os seus estudos na Escola Politécnica, que era na época o melhor centro matemático do Mundo. Tinha acesso a milhares de obras. Estava em contacto com sábios de primeira ordem.
Nunca o espírito humano se ergueu tão alto com tão pouco apoio. Em 1909, após anos de trabalho solitário e de miséria, Ramanujan casa-se. Procura um emprego. Recomendam-no a um cobrador de impostos local, Ramachandra Raô, amador esclarecido de matemática. Este deixou-nos uma descrição do encontro: "Um homenzinho pouco limpo, por barbear, com uns olhos como jamais vi, entrou no meu quarto, com um livro de notas usado debaixo do braço. Falou-me de descobertas maravilhosas que ultrapassavam infinitamente o que eu sabia. Perguntei-lhe o que poderia fazer por ele. Disse-me que queria apenas ter o suficiente para comer, a fim de poder continuar as suas investigações.
Ramachandra Raô concedeu-lhe uma pequena pensão. Mas Ramanujan é demasiado orgulhoso. Arranjam-lhe finalmente uma situação: um medíocre lugar de contabilista no porto de Madrasta. Em 1913 aconselharam-no a entrar em correspondência com o grande matemático inglês G. H. Hardy, na altura professor em Cambridge. Ele escreve-lhe e envia-lhe pelo mesmo correio 120 teoremas de geometria que acaba de demonstrar. Hardy viria a escrever mais tarde: "Essas notas só poderiam ter sido escritas por um matemático do mais alto calibre. Nenhum usurpador de idéias, nenhum farsante, mesmo genial, teria possibilidades de apreender abstrações tão elevadas". Propõe imediatamente a Ramanujan que se dirija a Cambridge. Mas a mãe opõe-se, por razões religiosas. E uma vez mais a deusa Namagiri é quem resolverá a dificuldade. Aparece à velha dama para a convencer de que seu filho pode ir para a Europa sem perigo para a sua alma, e mostra-lhe, em sonhos, Ramanujan sentado no grande anfiteatro de Cambridge no meio dos ingleses que o admiram. No final do ano de 1913, o hindu embarca. Durante cinco anos irá trabalhar e fazer avançar prodigiosamente as matemáticas.
É eleito membro da Sociedade Real das Ciências e nomeado professor em Cambridge, no colégio da Trinity. Em 1918 adoece. Fica tuberculoso. Regressa a Índia para morrer, aos trinta e dois anos. Deixou em todos aqueles que dele se aproximaram uma recordação extraordinária. Só vivia no meio dos números. Hardy vai visitá-lo ao hospital, e diz-lhe que apanhou um táxi. Ramanujan pergunta o número do automóvel: 1729. "que belo número!, exclama; é o menor número que é duas vezes uma soma de dois cubos!" De facto, 1729 é igual a 10 ao cubo mais nove ao cubo, e também a 12 ao cubo mais 1 ao cubo. Hardy precisou de seis meses para o demonstrar, e o mesmo problema ainda não está resolvido para a quarta potência.
A história de Ramanujan é daquelas em que ninguém acreditaria. Mas é rigorosamente verdadeira. Não é possível exprimir em termos simples a natureza das descobertas de Ramanujan. Trata-se dos mistérios mais abstratos da noção do número, e particularmente dos números primos. Fora das matemáticas não se sabe bem quais as coisas que interessavam a Ramanujan. Preocupava-se pouco com a arte e a literatura. Apaixonava-se pelo extraordinário. Em Cambridge organizara uma pequena biblioteca e um arquivo sobre toda a espécie de fenômenos desconcertantes para a razão. Um bom cartão de visita.
Veja um filme sobre ele:







domingo, 5 de maio de 2013

Biografias "Malditas" - Edgar Cayce


Esta postagem está no espírito de apresentar, muito na linha do Realismo Fantástico de James Hoy Fort, casos e pessoas que o pensamento científico, linear, medroso e classista considera como “malditos”. É aquele raciocínio anti científico de que “se algo inconveniente contraria o chamado conhecimento vigente, joga-se para baixo do tapete, ou se ridiculariza o dito cujo” de forma a se preservar o conhecimento formado por "nós iluminados". É rejeitar tudo aquilo que não se compreende, em vez de fazer o esforço de abertura para se tentar compreender. 
Edgar Cayce, norte-americano e clarividente é um desses casos estranhos e incompreensíveis, e a sua vida mostra de uma forma contundente aos céticos que, como dizia Don Juan, "este mundo é um mistério"...
Alma inquieta e atormentada, ele morreu a 5 de Janeiro de 1945, levando consigo um segredo que ele próprio não esclarecera e que o apavorara durante toda a vida. Ele próprio não entendia claramente no início o que se passava consigo mesmo.
A Fundação Edgar Cayce, em Virgínia, Beach, onde trabalham médicos e psicólogos, prossegue a análise dos "dossiers".
Desde 1958, os estudos sobre a clarividência dispõem na América de importantes créditos. A razão disso é que o stablishment pensa nos serviços que poderiam render, no domínio militar, homens capazes de telepatia e de premonição. De todos os casos de clarividência, o mais evidente, e o mais extraordinário, é o de Cayce.
O pequeno Edgar Cayce estava doente. O médico de província estava à sua cabeceira. Não havia nada a fazer para salvar o garoto do estado de coma. Mas, bruscamente, a voz de Edgar elevou-se, clara e tranquila. E, no entanto, ele dormia. "Vou dizer-lhes o que tenho. Apanhei uma bolada de baseball na coluna vertebral. É necessário fazer-me uma cataplasma especial e aplicá-la na base do pescoço". Com a mesma voz, o garoto ditou a lista das plantas que era necessário misturar e preparar. "Despachem-se, senão o cérebro arrisca-se a ser atingido". Por desencargo de consciência, obedeceram-lhe. À noite, a febre descera. No dia seguinte, Edgar deixava o leito, fresco como uma alface. Não se lembrava de nada. Desconhecia a maior parte das plantas que ditara.
Assim principia uma das histórias mais espantosas da medicina. Cayce, camponês do Kentucky, completamente ignorante, pouco disposto a fazer uso do seu dom, lamentando constantemente não ser "como toda a gente", tratará e curará, em estado de sono hipnótico, mais de quinze mil doentes, devidamente homologados.
Trabalhador agrícola na propriedade de um dos seus tios, depois escriturário numa livraria de Hopkinsville, finalmente proprietário de um pequeno estabelecimento fotográfico onde pensa passar calmamente os seus dias, é contra vontade que irá representar o papel de taumaturgo. O seu amigo de infância Al Layne e a sua noiva Gertrude farão toda a diligência para o convencer. De forma alguma por ambição, mas porque ele não tem o direito de guardar o poder que tem só para si, recusando auxiliar os aflitos. Al Layne é fraco, sempre doente. Arrasta-se. Cayce aceita adormecer: descreve a origem da doença e dita medicamentos. Quando acorda: "Mas não é possível, eu desconheço metade das palavras que anotaste. Não tomes essas drogas, é perigoso! Não percebo nada disso, é tudo magia!" Recusa voltar a ver Àl, e encerra-se na sua loja de fotografia. Oito dias depois, Al força-lhe a porta: nunca se sentiu tão bem. A vila agita-se, todos pedem uma consulta. "Não é por falar enquanto durmo que me vou pôr a tratar das pessoas". Mas acaba por aceitar. Sob condição de não ver os pacientes, com receio de que, conhecendo-os, a decisão seja influenciada. Sob condição de que alguns médicos assistam às sessões. Sob condição de não receber um tostão, nem sequer o mais pequeno presente. Os diagnósticos e as receitas feitas em estado de hipnose são de tal precisão e acuidade que os médicos desconfiam que se trate de um colega disfarçado em curandeiro. Ele limita-se a duas sessões por dia. Não porque receie a fadiga: desperta desses sonos muito repousado. Mas insiste em continuar fotógrafo. Não procura de forma alguma adquirir conhecimentos médicos. Não lê nada, continua um filho de camponeses, dotado de um vago certificado de estudos equivalentes ao 4º ano. E continua a insurgir-se contra a sua estranha faculdade. Mas mal decide renunciar a ela, torna-se mudo.
Um magnata das estradas de ferro americanas, James Andrews, vai consultá-lo. Ele prescreve-lhe, em estado de hipnose, uma série de drogas, entre as quais uma certa água de salva. Este medicamento é impossível de encontrar. Andrews manda publicar anúncios nas revistas médicas, mas sem resultado. No decorrer de outra sessão, Cayce dita a composição dessa água, extremamente complexa. Ora, Andrews recebe uma resposta de um jovem médico parisiense: fora o pai desse francês, igualmente médico, que elabora a água de salva, mas a deixara de a explorar cinquenta anos atrás. A composição é idêntica à "sonhada" pelo fotografozinho.
O secretário local do Sindicato dos Médicos, John Blakburn, apaixona-se pelo caso Cayce. Reúne uma comissão de três membros, que assiste a todas as sessões, com grande espanto. O Sindicato Geral Americano reconhece as faculdades de Cayce e autoriza-o oficialmente a dar "consultas psíquicas". Cayce casara-se. Tem um filho de oito anos, Hug Lynn. A criança, ao brincar com os fósforos, faz explodir um depósito de magnésio. Os especialistas concluem que a cegueira deve ser total e propõem a extração de uma vista. Com terror, Cayce entrega-se
a uma sessão de sono. Mergulhado em hipnose, insurge-se contra a extração e preconiza quinze dias de aplicação de pensos embebidos em ácido tânico. Para os especialistas é uma loucura. E Cayce, no meio dos maiores tormentos, não ousa desobedecer às suas vozes. Quinze dias depois, Hugh Lynn está curado. Um dia, após uma consulta, continua adormecido, e dita sucessivamente quatro receitas, muito precisas. Não se sabe a quem podem ser dirigidas: têm quarenta e oito horas de avanço sobre os quatro doentes que se apresentarão. Durante uma sessão, ele prescreve um medicamento a que chama Codiron e indica o endereço do laboratório, em Chicago. Telefonam para lá: "Como é que ouviram falar de Codiron? Ainda não está à venda. Acabamos de elaborar a fórmula e de lhe encontrar o nome". Cayce, atingido por uma doença incurável que só ele conhecia, morre no dia e hora que fixara: "No dia 5 à tarde estarei definitivamente curado". Curado contra "qualquer outra coisa" .
Interrogado em estado de sono sobre a sua forma de proceder, ele declarara (para depois não se recordar de nada ao acordar, como de costume) que estava em estado de entrar em contacto com qualquer cérebro humano vivo e de utilizar as informações contidas nesse cérebro, ou nesses cérebros, para o diagnóstico e o tratamento dos casos que lhe apresentassem. Talvez fosse uma inteligência diferente que então se manifestava em Cayce e utilizava todos os conhecimentos que circulam na humanidade, da mesma forma que se utiliza uma biblioteca, mas que instantaneamente, ou pelos menos à velocidade da luz e da eletromagnética. Mas nada nos permite explicar o caso de Edgar Cayce dessa forma ou de qualquer outra. Tudo o que se sabe realmente é que um fotógrafo de aldeia, sem curiosidade nem cultura, podia, quando queria, por-se num estado em que o seu espírito funcionava como o de um médico de gênio, ou antes, como todos os espíritos de todos os médicos ao mesmo tempo.

Vale a pena pesquisar sobre ele no seu site de pesquisa.

domingo, 18 de novembro de 2012

A Realidade e o Fantástico

Cada vez mais pessoas estão se tocando com os tempos curiosos em que estamos vivendo. Há uma sutileza no ar mostrando que nossas certezas estão se esvaindo a partir do que a realidade gradualmente nos mostra. Uma realidade impessoal que não afaga as nossas crenças, posições e dogmas, e não dá tréguas ao nosso jeitão enviesado, simplista e preconceituoso de ver o mundo. A razão disso tudo é que há um pensar inadequado sobre o que se apresenta à nossa percepção.
A chamada ciência européia, que em 1815 dizia que “nada no mundo tem a velocidade maior que a de um cavalo”, já em 1850 teve que aceitar a velocidade da luz. Einstein então definiu a velocidade da luz como um limite universal, mas há uns tempos atrás o CERN, organização européia para a pesquisa nuclear afirmou que experiências feitas com neutrinos (sub partículas) indicam que essas partículas desobedientes superaram esse limite. Quer saber o que mais os novos cientistas estão dizendo? Que isso permitiria enviar mensagens e informações para o passado. Pode isso?  Na verdade os estudiosos já  perceberam que logo após o Big Bang, a velocidade de expansão do Universo já teria sido maior que a da luz. Me perdoe o Einstein, mas ele errou? Enfim, um imbroglio. O universo está brincando com a gente, pô!
Para aumentar a insegurança intelectual, fruto desse “pensar linear” ocidental, surgiram atualmente mais contradições ainda. A velocidade de expansão do universo não está obedecendo ao combinado, devido a uma tal matéria escura que apareceu sem avisar, que além de ser absurdamente estranha e não detectável pela ciência, a não ser pelos efeitos que causa, é além de tudo irmã da energia escura, mais estranha ainda. É só estranheza. Antes não era assim...
É a chamada sinuca de bico. Já não bastasse o eletro-magnetismo e a gravidade que os físicos e outros cientistas só conseguem quantificar e aproveitar mas  nunca entenderam direito, a Física quântica, com seus spin e números quânticos de estranheza, tem o desplante de afirmar (e de provar, o que é pior) que “um elétron passa por dois lugares diferentes ao mesmo tempo”. Isso já é demais! Estava certa a Igreja de mandar para a fogueira quem dizia que a terra não era o centro do universo. Aboliram isso. Estão vendo no que deu?
A verdade é que a realidade não dá a menor bola para a ciência, e esta tem que ponderar o que está errado com ela, ciência. Já que pensar é de graça, vamos meter a nossa colher nesse angú e dar a nossa opinião: Seria a nossa concepção do mundo e a forma de pensar que está errada? Será que antes de conceituar a priori essa coisa chamada Realidade, devemos é permitir que ela atinja diretamente os nossos sentidos sem tentar agarrá-la com os conceitos e filtros prévios para que ela então se mostre na sua inteireza? Não é fàcil para um cientista, mas qualquer buscador de uma tradição autêntica sabe como fazer isso. O ser humano em todas as suas atividades, talvez por não se deter sobre a natureza dessa sua aberração mental chamada ego, começa já formando uma opinião sobre um fato, e depois inicia o processo de juntar as informações sobre o fato, somente para filtrar intelectualmente quais as informações provam a veracidade da opinião prévia que já tinha formado. Não é muito diferente da inteligência que orientou a Inquisição. Só é mais sofisticada, já que o intelecto é uma prostituta que se vende a qualquer patrão. Vimos isso todo o tempo na história da humanidade inteira.
Mas o preconceito científico assentado no ego arrogante e dogmático dos homens de ciência é somente um dos problemas, e talvez o menor. Há também o pano de fundo da árida visão cartesiana atual do mundo, orientada por uma lógica ultrapassada, fixa e mutuamente exclusiva do “ou é isso, ou aquilo” onde não há espaço para uma abordagem “é isso e aquilo”, a exemplo da tradição budista, xamânica e outras, sem fronteiras definidas, onde coisas se transmutam em outras sem pedir licença à ciência. Essa seria a abordagem correta do pensar, onde a própria Ciência tem ligação com A Consciência.
A matéria está cada vez mais mostrando que há segredos mais fantásticos que a imaginação mais tresloucada dos contos de ficção científica possa conceber, e esse pensar é que de forma crescente está batendo impaciente às porta da ciência moderna com nomes bizarros: singularidade, buracos negros e brancos, horizonte de eventos, anti-matéria, dobras espaciais, buracos de minhoca, mundos paralelos, e por aí afora.
Há mais de cinquenta anos, em 1960, um livro corajoso começou a reintroduzir o insólito na nossa paisagem intelectual, batizando-o de Realismo Fantástico, e acenando com uma outra forma de pensar e encarar o mundo, mais para a abordagem Zen do que para o dogmatismo da Academia. Ele acenava que a realidade é muito mais fantástica que a fantasia, e previu o que estamos vendo acontecer nas ciências. Vamos a ele: 

"Repito: O Fantástico, a nossos olhos, não é o imaginário. Mas uma imaginação poderosamente aplicada ao estudo da realidade descobre que é muito tênue a fronteira entre o maravilhoso e o positivo, ou, se preferem, entre o universo visível e o universo invisível. Existe talvez um ou vários universos paralelos ao nosso. Creio que não teríamos empreendido esta tarefa se, no decorrer da nossa vida, não tivesse acontecido sentirmo-nos, realmente, fisicamente em contato com outro mundo. 
O antropólogo americano Loren Eiseley, cuja forma de pensar se aproxima da nossa, conta uma bela história que exprime bem o que pretendo dizer. 
"Descobrir outro mundo, diz ele, não é apenas um fato imaginário. Pode acontecer aos homens. Aos animais também. 
Por vezes, as fronteiras resvalam ou interpenetram-se : basta estar presente nesse momento. Vi o fato acontecer a um corvo. 
Esse corvo é meu vizinho: nunca lhe fiz mal algum, mas ele tem o cuidado de se conservar no cimo das árvores, de voar alto e de evitar a humanidade. O seu mundo principia onde a minha vista acaba. Ora, uma manhã, os nossos campos estavam mergulhados num nevoeiro extraordinariamente espesso, e eu me dirigia às apalpadelas para a estação. Bruscamente, à altura dos meus olhos, surgiram duas asas negras, imensas, precedidas por um bico gigantesco, e tudo isso passou como um raio, soltando um grito de terror tal que eu faço votos para que nunca mais ouça coisa semelhante. Esse grito perseguiu-me durante toda a tarde. Cheguei a consultar o espelho, perguntando a mim próprio o que teria eu de tão revoltante ... 
Acabei por perceber. A fronteira entre os nossos dois mundos resvalara, devido ao nevoeiro. Aquele corvo, que supunha voar à altitude habitual, vira de súbito um espetáculo espantoso, contrário, para ele, às leis da natureza. Vira um homem caminhar no espaço, bem no centro do mundo dos corvos. Deparara com a manifestação de estranheza mais completa que um corvo pode conceber; um homem voador ... 
Agora, quando me vê, lá do alto, solta pequenos gritos, e reconheço nesses gritos a incerteza de um espírito cujo universo foi abalado. Já não é, nunca mais será como os outros corvos ..."

Esse livro não é um romance, embora a intenção seja romanesca. Não faz parte da ficção científica, embora nele se deparem mitos ,que sustentam esse gênero. Não é um conjunto de fatos estranhos, embora o Anjo do Bizarro nele se sinta à vontade. Também não é uma contribuição científica, o veículo de um ensino desconhecido, um testemunho, um documentário, ou uma efabulação. É a narrativa, por vezes romanceada e por vezes exata de uma primeira viagem pelos domínios do conhecimento ainda quase por explorar. Como nos diários de bordo dos navegadores do Renascimento, o imaginário e o real, a extrapolação audaciosa e a visão exata confundem-se. É que não tivemos nem o tempo nem os meios de aprofundar completamente a exploração. Podemos apenas sugerir hipóteses e indicar as vias de comunicação entre esses diversos domínios que ainda são, por agora, terrenos proibidos. Sobre esses terrenos proibidos apenas fizemos pequenas paradas. Quando tiverem sido mais bem explorados, sem dúvida se verificará que muitas das nossas suposições eram delirantes, como os relatos de Marco Polo. É uma eventualidade que aceitamos calmamente. "Havia uma quantidade de disparates no livro". Eis o que dirão. Mas se este livro provocar a curiosidade de aprofundar o assunto, o nosso fim terá sido atingido. 
Onde estamos nós atualmente? Abriram-se portas em quase todos os edifícios científicos, mas o edifício da física de hoje em diante quase que não tem paredes: é uma catedral cheia de vitrais onde se refletem os clarões de outro mundo, infinitamente próximo. 
A matéria revelou-se tão rica, se não mais rica em possibilidades do que o espírito. Ela contém uma energia incalculável é suscetível de transformações infinitas, tem recursos insuspeitáveis, O termo "materialista", na acepção que lhe dava o século XIX, perdeu todo o sentido, da mesma forma que o termo "racionalista". 
A lógica do "bom senso" já não existe. Na física atual, uma proposição pode ser simultaneamente verdadeira e falsa. A X B já não é igual a B X A. Uma mesma entidade pode ser ao mesmo tempo contínua e descontínua. Já não nos poderíamos referir à física para condenar tal ou tal aspecto do possível 
Nota: Um dos sinais mais espantosos da abertura que se produz no domínio da física é a introdução daquilo que se chama "o número quântico de estranheza". Eis, por alto, de que se trata. No princípio do século XIX, pensava-se ingenuamente que dois números, no máximo três, seriam suficientes para definir uma partícula de matéria. Esse número seria a sua massa, a sua carga elétrica e o seu momento magnético. A verdade estava longe de ser tão simples. Para descrever completamente uma partícula foi necessário acrescentar uma grandeza intraduzível em palavras e que se chamava "spin". A princípio, julgou-se que essa grandeza correspondia a um período da rotação da partícula sobre si mesma, qualquer coisa que para o planeta Terra corresponder!a ao período de vinte e quatro horas, regulando a alternância dos dias e das noites. 
Chegou-se à conclusão de que nenhuma explicação simplista deste gênero poderia manter-se em pé. O spin era simplesmente o spin, uma quantidade de energia ligada à partícula, apresentando-se matematicamente como uma rotação sem que gire, seja o que for, na partícula. (NR. - Uma torção do nada, como já disse alguém, que não me lembro).
Profundos trabalhos, devidos sobretudo ao Professor Louis de Broglie, conseguiram explicar apenas parcialmente o mistério do spin. Mas, bruscamente, descobriu-se que entre as três partículas conhecidas: prótons, elétrons, nêutrons (e as suas imagens no espelho, antipróton, pósitron, antinêutron), existia uma boa trintena de outras partículas. 
Os raios cósmicos, esses grandes aceleradores, produziam-nas em grandes quantidades. Ora, para descrever essas partículas, os quatro números habituais, massa, carga, momento magnético, spin, já não eram suficientes. Era necessário criar um quinto número, talvez um sexto, e assim indefinidamente. E foi de uma forma absolutamente natural que os físicos chamaram a essas novas grandezas "números quânticos de estranheza". Esta saudação ao anjo do Bizarro tem qualquer coisa de imensamente poético. Como muitas outras expressões da física moderna: "Luz Interdita", "Algures Absoluto", o "número quântico de estranheza" prolonga-se para além da física, e tem ligações com as profundezas do espírito humano. 
Peguem uma folha de papel. Façam-lhe dois buracos pouco distanciados. Aos olhos do senso comum, - é evidente que um objeto suficientemente pequeno para passar através desses buracos passará quer por um, quer por outro. Aos olhos do senso comum, um eléctron é um objeto. Possui um peso definido, produz um clarão luminoso quando impressiona uma tela de televisão, um choque quando atinge um microfone. Temos portanto o nosso objeto suficientemente pequeno para passar por um dos dois buracos. Ora, a observação pelo microscópio eletrônico mostra que o eléctron passou simultaneamente pelos dois buracos. Como?! Se passou por um, não pode ter passado ao mesmo tempo pelo outro! Mas a verdade é que ele passou por um e por outro. É absurdo, mas é experimental. 
Das tentativas de explicações nasceram diversas doutrinas, em particular a mecânica ondulatória. Mas a mecânica ondulatória, entretanto, não consegue explicar totalmente um fato semelhante, que se mantém para além das nossas possibilidades de compreensão, a qual só poderá funcionar através de um sim ou um não, A ou B. Era a própria estrutura do nosso entendimento que seria necessário modificar, para que se pudesse compreender. A nossa filosofia exige tese e antítese. É preciso acreditar que, na filosofia do elétron, tese e antítese são simultaneamente autênticas. Parecerá absurdo o que dizemos? O elétron parece obedecer a leis, e a televisão, por exemplo, é uma realidade. 
O eléctron existe ou não? Aquilo que a natureza chama existir não tem existência a nossos olhos. O eléctron faz parte do ser ou do nada? Eis uma pergunta completamente vazia de sentido. Assim desaparecem, devido à ação enérgica do conhecimento, os nossos habituais métodos de pensamento e as filosofias literárias, provenientes de uma visão caduca dos fatos. 
A Terra está ligada ao Universo, o homem não está em contato apenas com o planeta em que habita. Os raios cósmicos, a radioastronomia, os trabalhos de física teórica revelam contatos com a totalidade do cosmo. Já não vivemos num mundo fechado: um espírito verdadeiramente testemunha da sua época não o poderia ignorar. Nessas condições, de que forma pode o pensamento no plano social, por exemplo, continuar preocupado com problemas que nem sequer são planetários, mas estritamente regionais, provinciais? E como pode a nossa psicologia, tal como se exprime no romance, manter-se tão fechada, reduzida aos movimentos infraconscientes da sensualidade e do sentimentalismo? Enquanto milhares de seres civilizados abrem livros, vão ao cinema ou ao teatro para saber de que maneira Françoise se sentirá impressionada por René e como, por outro lado, odeia a amante do pai e se tornará lésbica por surda vingança, vários investigadores, que fazem com que os números entoem uma música celeste, perguntam a si próprios se o espaço se contrai ou não em redor de um veículo espacial. Nesse caso todo o Universo se tornaria acessível: haveria possibilidades, durante o espaço de uma vida humana, de atingir a estrela mais longínqua. Se tais equações fossem confirmadas, o pensamento humano seria alterado. Se o homem não está limitado a esta Terra, novas interrogações terão de fazer-se a respeito do sentido profundo da iniciação e dos eventuais contatos com inteligências do Exterior. 
Em que ponto estamos ainda? Em matéria de pesquisa sobre as estruturas do espaço e do tempo, as nossas noções de passado e de futuro já não servem. Ao nível da partícula, o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos: futuro e passado. A uma velocidade extrema, limite da velocidade da luz, o que é o tempo? 
Estamos em Londres, em outubro de 1944. Um foguete V2, voando a 5000 quilômetros por hora, está sobre a cidade. Ele vai cair. Mas esse "vai" se aplica a quê? Para os habitantes do prédio que será destruído dentro de instantes, e que apenas possuem olhos e ouvidos, o V2 vai cair. Mas para o operador de radar, que se serve de ondas que se propulsionam a 300 mil quilômetros por segundo (velocidade em relação à qual o foguete é uma lesma), a trajetória da bomba já está fixada. Ele observa: mas não pode fazer coisa alguma. Na escala humana, já nada pode interceptar o instrumento de morte, nem evitar seja o que for, Para o operador o foguete já caiu. À velocidade do radar, praticamente o tempo não corre. Os habitantes do prédio vão morrer. No super-olho do radar já estão mortos. 
Outro exemplo: encontram-se nos raios cósmicos, quando estes atingem a superfície da Terra, algumas partículas, os mésons mu, cuja vida sobre o globo não ultrapassa um milionésimo de segundo. Ao fim desse milionésimo de segundo destroem-se a si próprios por meio da radioatividade. Ora, essas partículas nasceram a 30 quilômetros no céu, região onde a atmosfera do nosso planeta começa a ser densa. Para transpor esses 30 quilômetros, elas já ultrapassaram o seu tempo de vida, considerado segundo a nossa escala. Mas o seu tempo não é o nosso. Elas viveram essa viagem na eternidade e apenas entraram no tempo depois de perdida a sua energia, ao chegar ao nível do mar. Prevê-se a construção de aparelhos nos quais se produziria o mesmo efeito. Criar-se-ia desta forma uma espécie de gavetas do tempo, onde estariam arrumados objetos de fraca duração, conservados na quarta dimensão. Essa gaveta seria um anel oco de vidro, colocado num enorme campo de energia e onde as partículas rodariam com tal velocidade que para elas o tempo teria praticamente deixado de correr . Desta forma, uma vida de um milésimo de segundo poderia ser mantida e observada durante minutos ou horas ... 
"Não se deve acreditar que o tempo decorrido regressa ao nada: o tempo é uno e eterno, o passado, o presente e o futuro não passam de aspectos diferentes - gravuras diferentes se se preferir - de um registro contínuo e invariável da existência perpétua. " Para os discípulos atuais de Einstein, apenas existiria realmente um eterno presente. Era o que os antigos místicos diziam. Se o futuro já existe, a preconização é um fato. Toda a aventura do conhecimento antecipado é orientada no sentido de uma descrição das leis da física, mas igualmente da biologia e da psicologia no contínuo de quatro dimensões, quer dizer, no eterno presente. Passado, presente e futuro "são". Talvez seja apenas a consciência que se desloca. Pela primeira vez a Consciência é admitida sem discussão nas equações de física teórica. 
Neste eterno presente, a matéria surge como um delgado fio estendido entre o passado e o futuro. Ao longo desse fio desliza a consciência humana. Por que meios é ela capaz de modificar as tensões desse fio, de forma a controlar os acontecimentos? 
Saberemos um dia e então a psicologia fará parte da física. 
A liberdade é provavelmente conciliável com este eterno presente. "O viajante que sobe o Sena de barco sabe antecipadamente as pontes que encontrará. Nem por isso é menos senhor das suas ações, nem menos capaz de prever o que poderá acontecer inopinadamente." Liberdade de vir a ser, no centro de uma eternidade que é. Visão dupla, admirável visão do destino humano ligado à totalidade do Universo! 
Se eu pudesse recomeçar a minha vida, com certeza não escolheria ser escritor e passar os meus dias numa sociedade retardatária na qual a aventura dormita debaixo das camas, como um cão. Ser-me-ia necessária uma aventura-leão. Seria físico teórico, para viver no âmago ardente do verdadeiro romanesco. 
O moderno mundo da física desmente terminantemente as filosofias do desespero e do absurdo. Ciência sem consciência não passa de uma ruína da alma. Mas consciência sem ciência é ruína idêntica. Aquelas filosofias que atravessaram a Europa no século XX eram fantasmas do século XIX, vestidos à moda atual. 
Um conhecimento real, objetivo, de fato técnico e científico, que cedo ou tarde arrasta o fato social, ensina-nos que há uma direção nítida na história humana, um acréscimo do poder do homem, uma subida, do espírito geral, uma enorme forja das massas que as transforma em consciência ativa, o acesso a uma civilização na qual a vida será tão superior à nossa como a nossa em relação à dos animais. Os filósofos literários disseram-nos que o homem é incapaz de compreender o mundo. Já André Maurois, em Les Nouveaux Discours du Docteur O'Grady, escrevia: "Tem de admitir, no entanto, doutor, que o homem do século XIX podia acreditar que, um dia, a ciência explicaria o mundo. Renan, Berthelot, Taine, também esperavam o mesmo, no princípio da sua vida. O homem do século XX já não tem tais esperanças. Sabe que as descobertas só fazem recuar o mistério. Quanto ao progresso, constatamos que os direitos do homem só provocaram fome, terror, desordem, tortura e confusão de espírito. Que esperança resta? Para que vive, doutor?". Ora, o problema já não se colocava desta forma. Sem que os faladores se apercebessem, o círculo fechava-se à volta do mistério e o progresso incriminado abria as portas do céu. Já não é Berthelot ou Taine a fazer previsões a respeito do futuro da humanidade, mas sim homens como Teilhard de Chardin. De um recente confronto entre cientistas de diversas disciplinas sobressai a seguinte ideia: talvez um dia os derradeiros segredos das partículas elementares nos venham a ser revelados pelo comportamento profundo do cérebro, pois ele é o resultado e a conclusão das mais complexas reações na nossa região do Universo, e talvez contenha em si próprio as leis mais íntimas dessa região. 
O mundo não é absurdo e o espírito não é de forma alguma inapto para compreendê-lo. Antes pelo contrário, pode ser que o espírito humano já tenha compreendido o mundo, mas ainda não o saiba ...



domingo, 17 de junho de 2012

O Alquimista - O Que Ele Faz?

O texto abaixo foi escrito há mais de 40 anos em um livro que foi pouco lido se considerarmos a sua vocação de abrir as mentes racionais para os segredos fascinantes do Invisível.
Hoje, pela pressão da descoberta de "um novo pensar" pelos cientistas mais afeitos ao chamado Realismo Fantástico, ele passa a ser curiosamente atual. A ciência está descobrindo o Invisível, e já fala hoje em "matéria escura", “dobras do tempo”, “dimensões paralelas”, com uma naturalidade impensável naquela época onde a vanguarda do conhecimento só tomava paulada, a exemplo da Inquisição, ou o que é pior, modernamente, recebendo sorrisos superiores de escárnio dos sabichões classistas e “guardas da ciência”. Felizmente cada vez mais o cientista está, independente disso, tornando-se um profissional eclético, multifacetado e pontífice entre o conhecimento da matéria e do interior do humano, e sem muito equipamento sofisticado, só mente aberta e contemplativa como fizeram Platão, Einstein e outros. Já estava na hora...
Como salientamos na postagem O Diálogo Interno a medicina taoista chinesa "acessou" o mapa energético da Acupuntura no corpo físico dos seres humanos, animais e plantas sem conhecer nenhum equipamento eletrônico, por menos sofisticado que fosse. Como isso foi possível? Uma dica: contemplação e silêncio do mental. Ou talvez, como dizem os adeptos dos Alienígenas do Passado, “deuses” de outros ciclos planetários. Quem sabe? Temos aí um assunto relevante de pesquisa. Quem se habilita?
Mas vamos lá aos alquimistas:

“O alquimista moderno é um homem que lê os tratados de física nuclear. Está convencido de que se podem obter transmutações e fenômenos ainda mais extraordinários por meio de manipulações e com um material relativamente simples. É nos alquimistas contemporâneos que se torna a encontrar o espírito do investigador isolado. A conservação de um tal espírito é preciosa para a nossa época. De fato, acabamos por acreditar que o progresso dos conhecimentos já não é possível sem equipes numerosas, sem uma enorme aparelhagem, sem um financiamento considerável. Ora “as descobertas fundamentais, como, por exemplo, a radioatividade ou a mecânica ondulatória, foram realizadas por homens isolados”. (Nota da redação: a Teoria da Relatividade de Einstein também, e sem equipamentos a não ser a sua massa cinzenta). A América, que é o país das grandes equipes e dos grandes processos, espalha atualmente agentes pelo Mundo inteiro em busca de espíritos originais. O diretor da investigação científica americana, o doutor James Killian, declarou em 1958 que era prejudicial confiar-se apenas no trabalho coletivo e que achava necessário que se fizesse apelo aos homens solitários, portadores de idéias originais. Rutheford efetuou os seus trabalhos mais importantes sobre a estrutura da matéria com latas de conserva e pedaços de barbante. Jean Perrin e Madame Curie, antes da guerra, enviavam os seus colaboradores ao Mercado das Pulgas aos domingos em busca de um pouco de material. Evidentemente, os laboratórios com aparelhagem poderosa são necessários, mas seria importante organizar uma cooperação entre esses laboratórios, essas equipes, e os originais solitários. No entanto, os alquimistas furtam-se ao convite. A sua lei é o segredo. A sua ambição é a ordem espiritual. "Está fora de dúvida, escreve René Alleau, que as manipulações alquímicas servem de suporte a uma ascese interior. Se a alquimia contém uma ciência, essa ciência é apenas um meio de atingir a consciência”. Importa, portanto, que não saia para o exterior, onde se transformaria num fim.

Qual é o material do alquimista? O mesmo do investigador de química mineral de altas temperaturas: fornos, crisóis, balanças, instrumentos de medição, aos quais se vieram juntar os aparelhos modernos acessíveis de controle das radiações nucleares: contador Geiger, cintilômetro, etc.
Esse material pode parecer irrisório. Um físico ortodoxo nãopoderia admitir que é possível fazer um cálculo emitindo nêutrons por processos simples e econômicos. Se as informações que temos são autênticas, os alquimistas conseguem-no. Na altura em que o elétron era considerado o quarto estado da matéria, inventaram-se dispositivos extremamente onerosos e complicados para produzir correntes eletrônicas. Após o que, em 1910, Eister e Gaitel demonstraram que bastava aquecer cal ao rubro no vácuo.
 Não sabemos tudo a respeito das leis da matéria. Se a alquimia é uma ciência em avanço sobre a nossa, usa processos mais simples do que os nossos.
Conhecemos vários alquimistas na França e dois nos Estados Unidos. Eles existem na Inglaterra, na Alemanha e Itália. E.J. Holmyard diz ter encontrado um em Marrocos. De Praga escreveram-nos três. A imprensa científica soviética, atualmente, parece ter grande interesse na alquimia e realiza investigações históricas.

“E agora vamos tentar, pela primeira vez, segundo cremos,descrever com precisão o que faz um alquimista no seu laboratório.”
Não pretendemos revelar a totalidade do método alquímico,mas julgamos ter, a respeito desse método, alguns conhecimentos de certo interesse. Não esquecemos que “a última finalidade da alquimia é a transmutação do próprio alquimista, e que as manipulações não passam de um lento caminhar em direção à "libertação do espírito". É sobre essas manipulações que tentamos apresentar novos esclarecimentos.
Em primeiro lugar, durante vários anos, o alquimista decifrou velhos textos onde "o leitor se deve embrenhar desprovido do fio de Ariadne mergulhado num labirinto no qual tudo foi preparado consciente e sistematicamente a fim de lançar o profano numa inextricável confusão mental". Paciência, humildade e fé elevaram-no a um certo nível de compreensão desses textos. Nesse nível vai poder iniciar realmente a experiência alquímica. Vamos descrever essa experiência, mas falta-nos um elemento. Sabemos o que se passa no laboratório do alquimista. Mas ignoramos o que se passa no próprio alquimista, na sua alma. Pode dar-se o caso de que tudo esteja ligado. Pode ser que a energia espiritual represente um papel nas manipulações físicas e químicas da alquimia. Pode ser que uma certa forma de adquirir,concentrar e orientar a energia espiritual seja indispensável ao êxito do "trabalho" alquímico. Não é certo, mas, em questão tão delicada, não podemos deixar de reservar um lugar para a frase de Dante: "Vejo que acreditas nestas coisas porque sou eu a dizer-te, mas não sabes o porquê, de forma que por serem acreditadas nem por isso estão menos escondidas".
O nosso alquimista começa por misturar muito bem, num almofariz de ágata, três constituintes. O primeiro, numa percentagem de 95 %, é um minério: uma pirita arseniosa, por exemplo, um minério de ferro que contém especialmente, como impurezas, arsênico e antimônio. O segundo é um metal: ferro, chumbo, prata ou mercúrio. O terceiro é um ácido de origem orgânica: ácido tartárico ou cítrico. Vai moê-los e triturá-los com as mãos, depois conserva a mistura durante cinco ou seis meses. Em seguida aquece tudo num crisol. Aumenta progressivamente a temperatura e faz com que a operação dure cerca de dez dias. Deverá tomar certas precauções. Há gases tóxicos que se evolam: o vapor de mercúrio e sobretudo o hidrogênio arsenioso, que matou mais de um alquimista, logo no início dos trabalhos.
Finalmente dissolve o conteúdo do crisol com um ácido. Foi procurando um dissolvente que os alquimistas de outrora descobriram o ácido acético o ácido nítrico e o ácido sulfúrico. Essa dissolução deve efetuar-se sob uma luz polarizada: quer uma réstia de luz solar, refletida num espelho, quer a luz da Lua. Sabe-se hoje que a luz polarizada vibra numa única direção, ao passo que a luz normal vibra em todas as direções em redor de um eixo.
Em seguida evapora o líquido e recalcina o sólido. Recomeça essa operação milhares de vezes, durante vários anos. Porquê? Ignoramo-lo. Talvez na expectativa do momento em que as melhores condições estejam reunidas: raios cósmicos, magnetismo terrestre, etc. Talvez a fim de obter uma "fadiga" da matéria em estruturas profundas que nós ainda ignoramos. O alquimista fala de paciência sagrada, de lenta condensação do espírito universal. Há certamente qualquer outra coisa atrás desta linguagem para-religiosa.
Esta forma de operar repetindo indefinidamente a mesma manipulação pode parecer demencial a um químico moderno. Ensinaram-lhe que há um único método experimental válido: o de Claude Bernard. É um método que age por meio de variações concomitantes. Repete-se milhares de vezes a mesma experiência, mas fazendo variar, um dos fatores de cada vez: proporções de um dos constituintes, temperatura, pressão, catalisador, etc. Anotam-se os resultados obtidos e deduzem-se algumas das leis que regem o fenômeno. É um método que deu as suas provas, mas não é o único. O alquimista repete a sua manipulação sem a menor alteração, até que qualquer coisa de extraordinário se produza. No fundo, acredita numa lei natural bastante comparável ao princípio de exclusão formulado pelo físico Pauli, amigo de Jung. Para Pauli, num dado sistema (o átomo e as suas moléculas), não podem existir duas partículas (elétrons, prótons, mésons) no mesmo estado. Tudo é único na natureza: "a vossa alma não tem outra semelhante..." É por isso que se passa bruscamente, sem intermediário, do hidrogênio ao hélio, do hélio ao lítio e assim indefinidamente, como o indica, para o físico nuclear, a Tabela Periódica dos Elementos. Quando se junta uma partícula a um sistema, essa partícula não pode tomar nenhum dos estados existentes no interior desse sistema. Toma um novo estado e a combinação com as partículas já existentes cria um sistema novo e único.
Para o alquimista, da mesma forma que não existem duas almas semelhantes, dois seres semelhantes, duas plantas semelhantes (Pauli diria: dois elétrons semelhantes), não há duas experiências semelhantes. Se se repetir milhares de vezes uma experiência, qualquer coisa de extraordinário acabará por se produzir. Não somos bastante competentes para lhe dar ou não razão. Contentamo-nos em observar que uma ciência moderna, a ciência dos raios cósmicos, adotou um método comparável ao do alquimista. Essa ciência estuda os fenômenos causados pelo aparecimento, num aparelho de detecção ou sobre uma chapa, de partículas com energia formidável, vindas de estrelas. Estes fenômenos não podem ser obtidos segundo a nossa vontade. É preciso esperar. Por vezes registra-se um fenômeno extraordinário. Foi assim que no Verão de 1957, no decorrer das investigações feitas nos Estados Unidos pelo professor Bruno Rossi, uma partícula animada de uma energia formidável, jamais registrada até ali, e vinda talvez de outra galáxia sem ser a nossa Via Láctea, impressionou 1500 calculadores ao mesmo tempo num raio de oito quilômetros quadrados, provocando, à sua passagem, um feixe enorme de destroços atômicos. Não é possível imaginar qualquer máquina capaz de produzir tal energia. Nenhum sábio tinha conhecimento de que jamais se tivesse produzido semelhante acontecimento e ignora-se se voltará a repetir-se. É também um acontecimento excepcional, de origem terrestre ou cósmica, e capaz de influenciar o seu crisol, que parece aguardar o nosso alquimista. Talvez ele pudesse abreviar a sua expectativa utilizando processos mais ativos do que o fogo, aquecendo por exemplo, o crisol num forno de indução pelo método de “levitação”(' Este método consiste em suspender a mistura a derreter no vácuo, fora de todo o contacto com uma superfície material, por meio de um campo magnético). Ou ainda juntando isótopos radioativos à sua mistura. Ele poderia então fazer e refazer a sua manipulação, não várias vezes por semana, mas milhares de vezes por segundo multiplicando desta forma as probabilidades de captar "o acontecimento" necessário ao bom êxito da experiência. Mas o alquimista atual, como o de ontem, trabalha em segredo, pobremente, e considera a expectativa uma virtude.
Prossigamos a nossa descrição: ao fim de vários anos de um trabalho sempre igual, de dia e de noite, o nosso alquimista acaba por deduzir que a primeira fase terminou. Junta então um oxidante à sua mistura: o nitrato de potássio, por exemplo. Há enxofre no crisol, proveniente da pirita, e carvão proveniente do ácido orgânico. Enxofre, carvão e nitrato: foi durante essa manipulação que os antigos alquimistas descobriram a pólvora.
Ele vai recomeçar a dissolver, depois a calcinar, sem descanso, durante meses e anos, na expectativa de um sinal. Sobre a natureza desse sinal, as obras alquímicas diferem, mas é talvez porque há vários fenômenos possíveis. Esse fenômeno produz-se no momento de uma dissolução.
Para certos alquimistas, trata-se da formação de cristais em forma de estrelas à superfície do banho. Para outros, uma camada de óxido surge à superfície desse banho, depois abre-se, deixando a descoberto o metal luminoso no qual parecem refletir-se, em imagem reduzida, ora a Via Láctea, ora as constelações. ( Funde-se então por meio de uma corrente de alta frequência. O semanário americano Life, em Janeiro de 1958, publicou lindíssimas fotografias de um forno deste gênero em ação. Jacques Bergier declara ter assistido a esse fenômeno).
Depois de receber este sinal, o alquimista retira a sua mistura do crisol e "deixa-a amadurecer", ao abrigo do ar e da umidade, até ao primeiro dia da próxima primavera. Quando retomar as operações, estas visarão aquilo a que se chama, nos velhos textos, "a preparação das trevas". Recentes investigações sobre a história da química demonstraram que o monge alemão Berthold Le Noir (Berthold Schwarz), a quem vulgarmente se atribui a invenção da pólvora no Ocidente, nunca existiu. É uma figura simbólica desta "preparação das trevas".
A mistura é colocada num recipiente transparente, em cristal de rocha, fechado de forma especial. Há poucas indicações a respeito dessa fechadura, chamada fechadura de Hermes, ou hermética. Dali em diante o trabalho consiste em aquecer o recipiente dosando, com uma infinita delicadeza, as temperaturas. No recipiente fechado, a mistura contém sempre enxofre, carvão e nitrato. Trata-se de elevar essa mistura a um certo grau de incandescência, evitando no entanto a explosão. São numerosos os casos de alquimistas gravemente queimados ou mortos. As explosões que se produzem são de particular violência e exalam temperaturas para as quais não estávamos logicamente preparados.
O fim em vista é a obtenção, no recipiente, de uma "essência", de um "fluido", a que os alquimistas por vezes chamam "a asa de corvo".
Sejamos mais claros. Esta operação não tem equivalente na física e química modernas. No entanto, não deixa de ter analogias. Quando se dissolve no gás amoníaco líquido um metal como o cobre, obtém-se uma coloração azul-escuro que passa ao negro nas grandes concentrações. Produz-se o mesmo fenômeno se se dissolver no gás amoníaco liquidificado hidrogênio sob pressão ou amidas orgânicas, de forma a obter o composto instável NH4, que tem todas as propriedades de um metal alcalino e que, por esse motivo, foi chamado "amônio". Há razões para crer que essa coloração azul-negro, que faz pensar na "asa de corvo" do fluido obtido pelos alquimistas, é justamente a cor do gás eletrônico. O que é o "gás eletrônico"? É para os sábios modernos, o conjunto de elétrons livres que constituem um metal e lhe asseguram as propriedades mecânicas, elétricas e térmicas. Ele corresponde, na terminologia atual, ao que o alquimista chama a alma ou ainda a essência dos metais. É essa alma ou essa "essência" que se liberta no recipiente hermeticamente fechado e pacientemente aquecido do alquimista.
Ele aquece, deixa arrefecer, aquece de novo, e isto durante meses ou anos, observando através do cristal de rocha a formação daquilo a que também se chama "o ovo alquímico": a mistura transformada em fluido azul-negro. Abre finalmente o seu recipiente na obscuridade, apenas sob a claridade dessa espécie de líquido fluorescente. Em contacto com o ar, esse líquido fluorescente solidifica-se e separa-se.
Obteria desta forma substâncias completamente novas, desconhecidas na natureza e com todas as propriedades dos elementos químicos puros, quer dizer, inseparáveis pelos processos da química.
Os alquimistas modernos pretendem ter obtido desta forma elementos químicos novos, e isto em quantidades consideráveis. Fulcanelli (considerado o último alquimista, e autor do livro O Mistério das Catedrais) teria extraído de um quilo de ferro vinte gramas de um corpo completamente novo, cujas propriedades químicas e físicas não correspondem a qualquer elemento químico conhecido. Seria aplicável a mesma operação a todos os elementos, cuja maior parte daria dois elementos novos por cada elemento tratado.
Tal afirmação é de molde a chocar o homem de laboratório. Atualmente, a teoria não permite prever outras separações além das seguintes:
 - A molécula de um elemento pode alcançar vários estados: Orto-hidrogênio e para-hidrogênio, por exemplo.
 - O núcleo de um elemento pode tomar um certo número de estados isotópicos (semelhantes) caracterizados por um número de neutrons diferentes. No lítio 6 o núcleo contém três neutrons e no lítio 7 contém quatro.
Os nossos técnicos, para separar os diversos estados alotrópicos da molécula e os diversos estados isotópicos do núcleo, exigem para isso um enorme material.
Os processos do alquimista são, em comparação, irrisórios, e ele alcançaria, não uma mudança de estado da matéria, mas a criação de uma matéria nova, ou pelo menos uma decomposição e recomposição diferente da matéria. Todo o nosso conhecimento do átomo e do núcleo se baseia no modelo saturniano de Nagasoka e Rutheford: o núcleo e o seu anel de eletrons. Não é impossível que, no futuro, outra teoria nos leve a realizar mudanças de estados e separações de elementos químicos por enquanto inconcebíveis.
Portanto, o nosso alquimista abriu o seu recipiente de cristal de rocha e obteve, por meio do arrefecimento do líquido fluorescente em contacto com o ar, um ou vários elementos novos. Restam as escórias. Essas escórias, vai ele lavá-las durante meses em água tri destilada. Depois manterá essa água ao abrigo da luz e das variações de temperatura.
Essa água teria propriedades químicas e medicinais extraordinárias. É o dissolvente universal e o elixir de longa vida tradicional, o elixir de Fausto (personagem de Goethe que vendeu a alma em troca da imortalidade).
Nota: O professor Ralph Milne Farley, senador dos Estados Unidos e professor de física moderna na Escola Militar de West Point, chamou a atenção para o fato de certos biologistas pensarem que o envelhecimento é devido à acumulação de água pesada no organismo. O elixir de longa vida dos alquimistas seria uma substância eliminando seletivamente a água pesada. Tais substâncias existem no vapor de água. Porque não existirão na água líquida tratada de certa maneira? Mas poderia uma descoberta desta natureza ser divulgada sem perigo? O professor Farley imagina uma sociedade secreta de imortais, ou quase-imortais, existindo desde há séculos e reproduzindo-se por cooptação. Uma sociedade destas, que não se meteria em política e não se imiscuiria de forma alguma nas questões dos homens, teria todas as probabilidades de passar despercebida. . .
Aqui, a tradição alquímica parece de acordo com a ciência de vanguarda. De fato, para a ciência ultramoderna, a água é uma mistura extremamente complexa e reagente. Os investigadores debruçados sobre a questão dos oligoelementos, especialmente o doutor Jacques Ménétrier, constataram que, praticamente, todos os metais eram solúveis na água em presença de certos catalisadores, como a glucose, e sob determinadas variações de temperatura. Além disso, a água formaria verdadeiros compostos químicos, hidratos, com gases inertes tais como o hélio e o argônio. Se se soubesse qual o constituinte da água responsável pela formação dos hidratos em contacto com um gás inerte, seria possível estimular o poder solvente da água e portanto obter um verdadeiro dissolvente universal. A revista russa Saber e Força, incontestavelmente séria escrevia no seu número 11, de 1957, que talvez um dia se obtivesse esse resultado bombardeando a água com radiações nucleares e que o dissolvente universal dos alquimistas seria uma realidade antes do final do século. E essa revista previa um certo número de aplicações, imaginava a abertura de túneis por meio de um jacto de água ativada.
O nosso alquimista, portanto, encontra-se agora de posse de um certo número de corpos simples desconhecidos na natureza e de alguns frascos de uma água alquímica susceptível de lhe prolongar consideravelmente a vida, através do rejuvenescimento dos tecidos.
Agora vai tentar combinar novamente os elementos simples que obteve. Mistura-os no seu almofariz e derrete-os a baixas temperaturas, na presença de catalisadores a respeito dos quais os textos são muito vagos. Quanto mais se avança no estudo das manipulações alquímicas, mais os textos são difíceis de compreender. Aquele trabalho irá ocupá-lo ainda durante alguns anos.
Afirmam que, desta forma, ele obteria substâncias absolutamente semelhantes aos metais conhecidos, e em especial aos metais bons condutores do calor e da eletricidade. Seriam estes o cobre alquímico, a prata alquímica, o ouro alquímico. Os testes clássicos e a espectroscopia não permitiriam verificar a novidade dessas substâncias, e no entanto elas possuiriam propriedades novas, diferentes das dos metais conhecidos, e muito surpreendentes.
Se as informações que temos são exatas, o cobre alquímico, aparentemente semelhante ao cobre conhecido e no entanto muito diferente, teria uma resistência elétrica infinitamente fraca, comparável à dos supercondutores que o físico obtém nas proximidades do zero absoluto. Este cobre, se pudesse ser utilizado, revolucionaria a eletroquímica.
Outras substâncias, resultantes da manipulação alquímica, seriam mais surpreendentes ainda. Uma delas seria solúvel no vidro, a baixa temperatura e antes do momento da fusão deste. Essa substância, ao tocar o vidro ligeiramente amolecido, dispersar-se-ia no interior, dando-lhe um colorido vermelho-rubi, com fluorescência lilás na escuridão. É ao pó obtido pela trituração desse vidro, modificado no almofariz de ágata, que os textos alquímicos chamam o pó de projeção ou pedra filosofal. "Com isso, escreve Bernard, conde da Marche Trévisane, no seu tratado filosófico, se termina a elaboração dessa Pedra superior a todas as pedras preciosas, a qual é um tesouro infinito à glória de Deus que vive e reina eternamente".
São conhecidas as maravilhosas lendas ligadas a essa pedra pó de projeção que seria susceptível de assegurar transmutações de metais em quantidades consideráveis. Transformaria, inclusivamente, certos metais vis em ouro, prata ou platina, mas tratar-se-ia então de um dos aspectos do seu poder. Seria uma espécie de reservatório de energia nuclear em suspensão, facilmente manejável.
Voltaremos em breve aos problemas que as manipulações do alquimista põem ao homem moderno esclarecido, mas detenhamo-nos exatamente onde se detêm os textos alquímicos. Eis a grande obra realizada. Produz-se no próprio alquimista uma transformação que esses textos evocam, mas que nós somos incapazes de descrever por não possuirmos a esse respeito mais do que umas poucas noções analógicas. Essa transformação seria como que a promessa, através de um ser privilegiado, daquilo que espera a humanidade inteira no termo do seu contacto inteligente com a Terra e os seus elementos: a sua fusão em Espírito, a sua concentração num ponto espiritual fixo e a sua união com outros centros de consciência através dos espaços cósmicos. Progressivamente, ou num súbito clarão, o alquimista, segundo a tradição, descobre o significado do seu longo trabalho. Os segredos da energia e da matéria lhe são desvendados, e ao mesmo tempo tornam-se visíveis as infinitas perspectivas da vida. Ele possui a chave da mecânica do Universo. Ele próprio estabelece novas relações entre o seu espírito, dali em diante animado, e o espírito universal em eterno progresso de concentração. Serão certas radiações do pó de projeção responsáveis por uma transmutação do ser físico?
A manipulação do fogo e de certas substâncias permite, portanto, não só transmutar os elementos, como ainda transformar o próprio investigador. Este, sob a influência das forças emitidas pelo crisol (quer dizer, das radiações emitidas por núcleos a sofrerem modificações de estrutura), entra noutro estado. Nele se operam mutações. A sua vida prolonga-se, a sua inteligência e as suas percepções atingem um nível superior. A existência de tais seres, biológica e psiquicamente novos, é um dos alicerces da tradição Rosa-Cruz. O alquimista passa a outro estado do ser. É elevado a outro grau da consciência. Tem a sensação de que só ele se encontra desperto e que todos os outros homens ainda dormem. Escapa ao vulgar humano e desaparece, como Mallory sobre o Everest, depois de ter tido o seu minuto de verdade.”
A Pedra filosofal representa desta forma o primeiro degrau susceptível de auxiliar o homem a elevar-se em direção ao Absoluto. Para além começa o mistério. Aquém não há mistério, nem esoterismo, nem outras sombras exceto as que projetam os nossos desejos e sobretudo o nosso orgulho. Mas, como é mais fácil satisfazermo-nos de idéias e de palavras do que fazer qualquer coisa com as próprias mãos, com a nossa dor e a nossa fadiga, no silêncio e na solidão, é mais cômodo procurar um refúgio no pensamento chamado "puro", do que batermo-nos corpo a corpo contra o peso e as trevas da matéria. A alquimia proíbe qualquer evasão deste gênero aos seus discípulos. Deixa-os frente a frente com o grande enigma. . . Apenas nos assegura que “se lutarmos até ao fim para nos libertarmos da ignorância, a própria verdade lutará por nós e vencerá finalmente todas as coisas. 
Talvez comece então a VERDADEIRA METAFÍSICA."

domingo, 5 de junho de 2011

Os 9 bilhões de nomes de Deus

Hoje é dia de descanso (pero no mucho). Não tem informações, nem práticas, nem ensinamentos das tradições antigas. Mas, como na busca interior não tem descanso, hoje só tem ensinamento disfarçado, se considerarmos a desconstrução mental como um ensinamento. E ela é. Esse conto de 1953, como diria Don Juan, é uma “cambalhota do pensamento”, é uma jóia do Realismo Fantástico, tão caro ao grande escritor que foi Arthur Clarke. O conto resgata o livro maravilhoso onde está publicado: “O Despertar dos Mágicos”, que qualquer iniciante de buscador deveria ter na cabeceira. É um instrumento de desprogramação racional, somado com mistério, ideal para quem deseja escapar da prisão padronizada dos “hábitos e rotinas” mentais, emocionais e físicas, como faziam os toltecas que queriam o verdadeiro “namoro com o Conhecimento”. Após a desprogramação e o contato com o insólito quando somos jovens, já dá para intuitivamente procurar no Invisível, com a mente vazia, um caminho autêntico de busca interior.  Eu li o livro aos 18 anos, como disse antes neste blog na página inicial “Quem escreve? Por que?”. Só para situar, esse conto tem um traço surpreendente de "anti-mesmice" e imprevisibilidade, um perfume raro encontrado em gente fora de esquadro, "desconstrutores" como James Hoy Fort, Flamarion, Gurdjieff, Dali, Jodorowski, Julio Verne, Tarkowski e alguns mestres Zen. Desconstruir-se é uma forma de renascer. E como dissemos em "O mistério de Cristo eo Sol", temos que "renascer do espírito para ver o Reino". 
Vamos ao conto:
“O doutor Wagner conseguiu se conter. Era conveniente. Depois disse:
- O seu pedido é um pouco desconcertante. Que eu saiba, é a primeira vez que um mosteiro tibetano faz a encomenda de um computador. Não quero ser curioso, mas estava longe de pensar que semelhante instituição pudesse necessitar dessa máquina. Posso perguntar-lhe em que deseja utilizá-la?
O Lama ajeitou as dobras da sua túnica de seda e pousou sobre a mesa a régua de calcular com a qual acabava de efetuar conversões libra-dólar.
- Naturalmente. O seu computador versão .5 pode fazer, segundo diz o catálogo, todas as operações matemáticas até 10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras, não números. Pedir-lhe-ei, portanto que modifique o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de colunas de números.
- Não compreendo muito bem...
- Desde que nosso mosteiro foi fundado, há mais de três séculos, que nos consagramos a um determinado trabalho. É um trabalho que pode parecer-lhe estranho e peço que me escute com a maior largueza de espírito.
- De acordo.
- É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes possíveis de DEUS.
- Perdão?
O lama continuou imperturbavelmente:
-Temos excelentes motivos para crer que todos esses nomes de DEUS incluem quando muito nove letras do nosso alfabeto.
- E ocuparam-se disso durante três séculos?
- Sim. Tínhamos calculado que precisaríamos de quinze mil anos para terminar o trabalho.
O doutor deu um assobio de vencido e disse um pouco atordoado:
- OK, agora compreendo porque deseja alugar uma das nossas máquinas. Mas qual é o objetivo da operação?
Durante uma fração de segundo o lama hesitou e Wagner receou ter ofendido aquele estranho cliente que acabava de fazer a viagem Lhassa-Nova Iorque com uma régua de calcular e o catálogo da empresa no bolso de sua túnica cor de açafrão.
- Chame a isto um ritual, se quiser – disse o lama – mas é umas das bases fundamentais da nossa religião. Os nomes de Ser Supremo, Deus, Júpiter, Jeová, Alá, etc., não passam de etiquetas feitas pelos homens. Certas considerações filosóficas, demasiado complexas para que as possa expor agora, deram-nos a certeza de que, entre todas as perguntas e possíveis combinações das letras, se encontram os verdadeiros nomes de DEUS. Ora, o nosso objetivo é descobri-los e escrevê-los todos.
- Já compreendo: Começaram por a.a.a.a.a.a.a.a.a., e acabarão por chegar a z.z.z.z.z.z.z.z.z.
- Simplesmente utilizamos o nosso alfabeto. Evidentemente que lhe há de ser fácil modificar a impressora elétrica de forma que ela utilize o nosso alfabeto. Mas o problema mais importante será o de preparar os circuitos especiais de forma que eliminem antecipadamente as combinações inúteis. Por exemplo, nenhuma das letras deve aparecer mais de três vezes sucessivamente.
- Três? Quer dizer duas...
- Não. Três. Mas a explicação completa exigiria muito tempo, mesmo que o senhor compreendesse a nossa língua.
Wagner disse precipitadamente:
- Claro, claro. Continue por favor.
- Ser-lhe-á fácil adaptar o computador em função desse objetivo. Com um plano bem elaborado, uma máquina desse gênero pode trocar as letras uma após outra e imprimir um resultado. Desta forma, concluiu calmamente o lama, aquilo que nos levaria ainda quinze milênios estará terminado em cem dias.
O doutor Wagner sentia que ia perdendo o sentido da realidade. Através das janelas do edifício, os ruídos e as luzes de Nova Iorque perdiam a intensidade. Sentia-se transportado a um mundo diferente. Lá longe, no seu longínquo asilo montanhoso, geração após geração, os monges tibetanos, há trezentos anos, elaboravam a sua lista de nomes desprovidos de sentido... Não havia, então, limite para a loucura dos homens? Mas o doutor Wagner não devia deixar transparecer os seus pensamentos. O cliente tem sempre razão...
E respondeu:
- Não duvido que possamos modificar a máquina versão .5 de forma a imprimir listas desse gênero. A instalação e a conservação é que mais me inquietam. Aliás, não será fácil enviá-la para o Tibete.
- Nós trataremos disso. As peças separadas têm dimensões suficientemente pequenas para serem transportadas por avião. De resto, foi esse o motivo por que escolhemos a máquina. Envie as peças para a Índia, nós nos encarregaremos do resto.
- Deseja contratar dois dos nossos engenheiros?
- Sim, para montarem e vigiarem a máquina durante cem dias.
- Vou mandar instruções à direção de pessoal – disse Wagner enquanto escrevia na agenda. – Mas restam duas questões a resolver...
Antes que tivesse podido terminar a frase, o lama tirou do bolso uma delgada folha de papel:
- Esta é a situação da minha conta no Banco Asiático.
- Muito obrigado. Está muito bem... Mas, se permite, a segunda questão é de tal maneira elementar que hesito em mencioná-la. Acontece muitas vezes esquecermos qualquer coisa evidente... Têm uma fonte de energia elétrica?
- Temos um gerador Diesel elétrico de 50 kw de potência, 110 volts. Foi instalado há cinco anos e funciona bem. Facilita-nos a vida no convento. Compramo-lo sobretudo para acionar os “moinhos de orações”.
- Ah! Sim, evidentemente, eu devia ter pensado nisso...

Do parapeito a vista era vertiginosa, mas habituamo-nos a tudo.
Já haviam decorrido três meses e Jorge Hanley já não se impressionava com os seiscentos metros em vertical que separavam o mosteiro do quadriculado dos campos na planície. Apoiado sobre pedras que o vento arredondara, o engenheiro contemplava, com olhar triste, as montanhas longínquas de que ignorava o nome. “A operação nome de DEUS”, como a batizara um humorista da companhia, era sem dúvida a pior tarefa que jamais tivera.
Semana após semana, a máquina versão .5, modificada, cobrira milhares de folhetos de uma incrível algaravia. Paciente e inexorável, o computador reunira as letras do alfabeto tibetano em todas as combinações possíveis, esgotando série após série. Os monges recortavam certas palavras à saída da impressora e colavam-nas com devoção em enormes registros. Dentro de uma semana acabariam.
Hanley ignorava quais os cálculos obscuros que os levavam à conclusão de que não deviam estudar conjuntos de dez, vinte, cem mil letras e nem pretendia sabê-lo. Nos seus pesadelos sonhava, às vezes, que o grande Lama decidira bruscamente complicar um pouco mais a operação e que o trabalho continuaria até o ano 2060. Aliás, aquele estranho homenzinho parecia perfeitamente capaz de o fazer.
A pesada porta de madeira estalou. Chuck vinha ter com ele no terraço. Fumava, como de costume, um charuto: tornara-se popular entre os lamas distribuindo-lhes havanas. Aqueles tipos poderiam ser completamente amalucados – pensou Hanley – mas não eram puritanos. As freqüentes expedições à aldeia não tinham sido desprovidas de interesse...
- Ouve, Jorge – disse Chuck – vamos ter aborrecimentos.
- A máquina escangalhou-se?
- Não.
Chuck sentou-se sobre o parapeito. Era espantoso, pois habitualmente receava ter vertigens:
- Acabo de descobrir o objetivo da operação.
- Mas já o sabíamos!
- Sabíamos o que os monges queriam fazer, mas não sabíamos o porquê.
- Bah! São uns loucos...
- Escuta, Jorge, o velho acaba de explicar-me. Eles crêem que assim que tenham escrito todos aqueles nomes, e segundo pensam são cerca de nove bilhões, o objetivo divino será atingido. A raça humana terá realizado a tarefa para que foi criada.
- E então? Esperam que nos suicidemos?
- Não. Quando a lista estiver terminada, DEUS intervirá e será o fim.
- Quando terminarmos será, então, o fim do mundo?
Chuck teve um risinho nervoso:
- Foi o que eu disse ao velho. Ele olhou-me de uma forma estranha, como um professor olha para um aluno particularmente estúpido, e disse-me: “Oh, não será assim tão insignificante!”
Jorge refletiu um instante.
- É um tipo que visivelmente tem idéias largas mas, mesmo assim, que importância tem isso? Nós já sabíamos que eram loucos.
- Sim. Mas você não vê o que pode acontecer? Se a lista ficar pronta e se as trombetas do Anjo Gabriel, versão tibetana, não soarem, eles podem decidir que é por nossa culpa. Afinal de contas, era a nossa máquina que eles utilizavam. Não gosto disso...
- Percebo... – disse lentamente Jorge – mas eu já vi tanta coisa! – Quando era garoto na Luisiana apareceu um pregador que anunciou o fim do mundo para o domingo seguinte. Houve centenas de tipos que acreditaram nele. Alguns mesmo chegaram a vender suas casas. Mas ninguém se enfureceu no domingo seguinte. As pessoas pensaram que ele apenas errara um pouco os cálculos e muitas delas ainda acreditam.
- Caso você não percebeu, não estamos na Luisiana. Estamos ambos sozinhos, no meio de centenas de monges. Adoro-os, mas preferia estar longe quando o velho lama aperceber-se de que a operação falhou.
- Há uma solução. Uma pequenina sabotagem inofensiva. O avião chega dentro de quatro dias à razão de 24 horas por dia. Basta-nos começar a reparar qualquer coisa durante dois dias ou três dias. Se calcularmos bem, poderemos estar lá em baixo, no aeroporto, quando o último nome sair da máquina.
Sete dias mais tarde, enquanto os pequenos pôneis das montanhas desciam o caminho em espiral, Hanley disse:
- Sinto um pouco de remorsos. Não fujo por medo, mas porque tenho pena. Não gostaria de ver a cara daqueles pobres homens quando a máquina parar.
- Na minha opinião – disse Chuck – eles desconfiaram que fugimos e não se incomodaram. Agora já sabem até que ponto a máquina é automática e que não precisa de vigilância. E supõem que não haverá nenhuma depois.
Jorge voltou-se para trás e olhou.
Os edifícios do mosteiro apareciam em silhueta escura sobre o poente. De vez em quando brilhavam pequeninas luzes sob a massa sombria das muralhas, como as vigias de um navio singrando no mar. Lâmpadas elétricas colocadas sobre o circuito da máquina .5.
"Que aconteceria ao computador?", pensou Jorge. "Na sua fúria e desapontamento iriam os monges destruí-lo? Ou então recomeçariam tudo?"
Como se ainda lá estivesse, via o que naquele momento se passava na montanha atrás das muralhas. O grande lama e os seus assistentes examinavam as folhas, enquanto alguns noviços recortavam os nomes barrocos e os colavam no enorme caderno. E tudo aquilo era feito em religioso silêncio. Só se ouvia a impressora batendo no papel como se fossem chuva miúda. O próprio computador, que combinava milhares de letras por segundo, estava completamente silencioso...
A voz de Chuck interrompeu o seu devaneio:
- Lá está ele! Que grande alegria que dá!
Semelhante a uma minúscula cruz prateada, o velho avião de transportes DC3 acabava de pousar lá embaixo no pequeno aeródromo improvisado. Aquela visão dava vontade de beber um grande copo de uísque gelado. Chuck começou a cantar, mas depressa se calou. As montanhas não o encorajavam.
Jorge consultou o relógio.
- Estaremos lá dentro de uma hora – disse. E acrescentou: - Você acha que o cálculo já terminou?
Chuck não respondeu e Jorge levantou a cabeça. Viu o rosto de Chuck muito branco, voltado para o céu.
- Olha! – murmurou Chuck.
Jorge, por sua vez, levantou os olhos.
Pela última vez, por cima deles, na paz das alturas, uma a uma as estrelas começaram a se apagar...”


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