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sábado, 21 de março de 2015

Por que os Budistas Rezam?

Elizabeth-Mattis Namgyel, mestra budista americana
Na postagem Meditar? Orar? Para que? falamos da Conexão entre essas duas coisas, meditar e orar. Hoje apresentamos uma visão budista da razão de orar, rezar. Curiosamente o budismo é uma "religião sem Deus". Só há Buda, um ser que se iluminou depois de muitas vidas, e então tomou contato com a fonte de onde emana tudo, as causas, os universos. Na verdade a oração nos auxilia no caminho dessa "barra pesada" que é viver, usando-a para despertar ao invés de vez de lutar contra ela. Vamos lá:

Quando reconhecemos o quanto ficamos perdidos no ímpeto habitual de nossos pensamentos e emoções, percebemos como temos pouca força para nos mover em direção à sanidade. Isso pode nos inspirar a compreender e apreciar a força da oração. A oração corta a atividade selvagem e discursiva da mente, nos direcionando e provendo meios para aproximar nossas ações das nossas intenções.

Porque o budismo é uma religião não-teísta, temos a tendência de descartar a oração como sendo dualista. Afinal, ao colocar a responsabilidade pelo nosso desenvolvimento espiritual em algo fora de nós, não estamos tentando fugir? Para quem estamos rezando? Nesse momento e nessa era,  geralmente a oração é vista como superstição e com embaraço. Esquecemo-nos que funcionamos com a mente dual na maior parte do tempo e que há benefícios em saber o que queremos e saber pedir por isso no caminho espiritual.

Temos que pensar com praticidade sobre a espiritualidade. Simplesmente esperar que um dia nós iremos acordar “totalmente iluminados” não fará o trabalho por nós. Sem uma intenção definida, caímos na imprecisão e operamos através da falta de clareza. Devemos nos perguntar, onde estamos indo? O que realmente queremos? A oração é como andar de bicicleta: nossa direção sempre vai naturalmente seguir nosso olhar. Como o Buda disse nos sutras: “Você é seu próprio mestre. Você faz seu próprio futuro; não há outro refugio”. A direção que seguimos é por nossa conta. Se direcionarmos nossa mente na direção de ganhar dinheiro, tem maior chance de isso acontecer. Se não, é questionável que seremos capazes de pagar o aluguel. O mesmo é verdade com a nossa vida espiritual. O progresso espiritual – progresso humano – requer uma intenção clara.”

Pedir

Nós suplicamos porque, na vida, geralmente não sabemos o que fazer. Rezar pode ser um jeito de nos entregar para o mistério e o movimento da vida. Expressa uma aceitação de que não sabemos nada e nunca saberemos – que apenas enxergamos uma pequena parcela das coisas. Não enxergamos a teia infinita do relacionamento interconectado do qual fazemos parte. Ainda assim, por outro lado, temos nosso papel para desempenhar no todo, e tudo o que fazemos na vida é importante. Esse é um paradoxo interessante, não é? É preciso uma mente ampla para viver no coração desse paradoxo – estar alerta e receptivo, e ao mesmo tempo, aceitar a natureza indeterminada das coisas, os fatos que não sabemos. Esse é o espírito da oração.

Podemos rezar por qualquer coisa. Mas para o que rezamos influencia na direção em que vamos e na natureza transformativa da prática. Rezar para a felicidade e para nos livrar do sofrimento nos mantém dentro dos limites da mente comum. As orações não têm a mesma agudeza e liberação quando estamos tentando evitar a vida e deixar de sentir o mundo em nossa volta. Se nos distanciamos do nosso desejo individual de sermos livres do sofrimento dentro do todo, onde reconhecemos que o sofrimento é parte da vida nesse corpo e nesse mundo, temos a experiência da profundidade da oração. Aceitar a beleza e a dor do nosso mundo é a fundação do caminho do Buda.

Então o que significa rezar sem as limitações de nossas preferências individuais? Significa que estamos rezando para um despertar profundo e incondicional não baseado nas preferências do ego. Só em pedir nós experienciamos uma mente poderosa e humilde. Permitimos que a vida nos toque, e sentimos o desejo de seguir em frente com compaixão e amor.

Como praticar a oração?

Duas vezes por ano, minha comunidade se reúne para um retiro em grupo – drupcho – onde recitamos cem mil preces de renomados mestres de meditação de nossa linhagem, Kunchyen Jigme Lingpa. Porque essa é uma prática em grupo, e nós recitamos a prece em voz alta, várias e várias vezes, há uma grande demanda de energia, foco, criatividade, e visão. Quando não prestamos atenção e nos esquecemos de fazer nossa prece de forma pessoal, nossa prática se torna vaga e apenas um hábito, e a energia na sala diminui.

Com a oração, sempre existem os altos e baixos. A prática demanda força e insistência. Quando a mente habitual quer se fechar, a oração serve como uma negação teimosa em cair no mundo cansativo e familiar do ego. Em outras horas, a mente flui sem esforço. Quando isso acontece em um grupo, toda a atmosfera volta à vida e o poder a oração é palpável e forte.

Então, como rezamos? Você pode recitar uma prece em particular ou rezar de modo espontâneo, usando suas próprias palavras. Apesar de tudo, é importante tornar nossa oração pessoal. As pessoas geralmente comentam que ajuda fazer a suplicação de forma específica para que a prática não se torne abstrata. Você pode começar focando em um amigo que está sofrendo de alguma doença ou num animal maltratado. Ou você pode suplicar para uma forma de sair de um hábito prejudicial ou vício. Às vezes, a oração naturalmente vai se desenvolver para um descanso, além de palavras e ideias, dentro da natureza insondável do ser.

Nos retiros em grupos falamos para as pessoas mandarem pedidos de oração. Elas as enviam via e-mail e uma vez por dia nós as lemos em voz alta. Todo mundo escuta com tanta atenção enquanto suas orações estão sendo lidas que você poderia escutar um alfinete caindo. Algumas das orações são bem generalistas: para o bem-estar dos animais, para os idosos, crianças em situações abusivas, soldados lutando em guerras, pessoas vivendo em prisões, ou sofrendo de depressão. Algumas vezes, os pedidos de oração incluem nomes e descrições de situações pessoais.

Sempre me surpreende quantos pedidos de oração nós recebemos, os quão pessoais eles são e quanta coragem as pessoas têm, em pedir. Quando escutamos os pedidos, sentimos a presença de todas aquelas pessoas como se elas estivessem sentadas reunidas conosco. Suas orações nos emocionam e catalisam a nossa prática, gerando uma atmosfera geral de cura e positividade, que fala do poder da interdependência. Às vezes, eles nos escrevem de volta, dizendo como se sentiram tocados e como isso fez diferença para eles e suas pessoas queridas.

Imaginação

Quando rezamos, pode ser para uma imagem do Buda ou de nosso professor. Ou você pode rezar para a natureza de sua própria mente, como sendo inseparável da natureza da deidade. Às vezes você pode até não saber a quem direcionar suas orações, mas o pedido por si só tem seu próprio poder. De fato, se você pensar sobre isso, você realmente tem que saber de tudo? Você tem a capacidade de saber? A natureza do Buda, do professor, ou de qualquer coisa no mundo é insondável, misteriosa, e não se presta a ser conhecida de uma forma conclusiva.

E é particularmente importante refletir sobre isso, porque no mundo moderno, rezar para um objeto pode parecer artificial. Podemos até querer acreditar em uma deidade ou no Buda, mas parece afetado. Um dos aspectos mais importantes e únicos dessa tradição é a compreensão de que nada possui uma existência intrínseca. Muitas vezes presumimos que nós – quem somos realmente – estamos rezamos para uma deidade imaginária. Mas na verdade, mesmo o que chamamos de “eu” surge de um complexo infinito de relacionamentos que ficam surgindo e caindo a cada momento. Tudo é imaginário, e nisso há a resistência à definição, tudo é dinâmico e aberto à interpretação – ou, em termos budistas, tudo é vazio.

A oração é um meio que nos ajuda a seguir em frente com alguma sanidade – uma prática que nos ajuda a utilizar o mundo para despertar. Podemos rezar para nosso professor ou para o Buda como uma maneira de seguir em frente no nosso caminho. Não temos necessariamente que ver esse dualismo como um problema. Na verdade, enxergar o dualismo como um problema é dualista. O que chamamos de caminho é uma forma de navegar pelo dualismo utilizando positivamente nossa vida e experiências.

Texto escrito por Elizabeth-Mattis Namgyel, originalmente publicado na revista Buddhadharma Magazine edição de outono de 2014 e reproduzido no site da autora. Tradução de Rafaela Batista. Elizabeth Namgyel é uma das muitas mestras budistas norte-americanas contemporâneas (leia “A Face Feminina de Buda”), estuda e pratica o budismo por 30 anos sob a orientação de seu professor e marido, Dzigar Köngtrul Rinpoche.

domingo, 9 de março de 2014

O Estado Natural da Mente

Nas postagens "Sun Gazing - A Medicina Gratuita do Futuro" e "A Roda da Vida", citamos este tulku ( que significa reencarnado, em tibetano) que fixou-se nos EUA e é um dos responsáveis pela difusão do budismo tibetano no ocidente, como são Trung Pa, Tenzin Wangyal Rinpoche e tantos outros. A palavra está com ele:
"Os que não estão acostumados à meditação entendem, não raro, que ela é uma coisa estranha, inusitada, não natural - uma experiência exótica a ser realizada - ou que a meditação é uma coisa diferente da pessoa que medita, ou que é, pura e simplesmente, outra faceta da psicologia ou da filosofia oriental, que deve ser pesquisada, estudada e explorada. A meditação, todavia, não é algo estranho, separado ou externo. A meditação é o estado natural da mente, e a natureza inteira da mente pode ser a nossa meditação.
A meditação começa quando permitimos ao nosso corpo e à nossa mente que se relaxem de um modo profundo e pleno... o que fazemos ao vivenciar o sentimento que vem com o simples soltar, sem mesmo haver dito a nós mesmos para fazê-lo. Quando deixamos tudo ser exatamente como é, e atentamos para o silencio das nossas mentes - isso passa a ser a nossa meditação. Este silêncio não é apenas a ausência do som nem mesmo a liberdade da distração; é a abertura plena, a presença da mente. Quando simplesmente permanecemos silenciosos no interior do momento - sem nos apegarmos à segurança, sem tentarmos compreender os nossos problemas - tudo o que resta é percepção.
A meditação é o processo do auto-descobrimento. Em certo nível, a experiência da meditação nos mostra os padrões das nossas vidas - a maneira com que carregamos nossas características emocionais desde a infância. Em outro nível, porém, ela nos liberta desses padrões, facilitando para nós a visão dos nossos potenciais interiores.
Quando examinamos, olhando para trás, os padrões dos nossos pensamentos, podemos, às vezes, observar e identificar as decepções criadas por nossas auto-imagens.
Podemos aprender a enxergar através das atitudes e do faz-de-conta da mente e através de todas as nossas explicações e escusas. Podemos compreender que estamos apenas disputando jogos e que estamos longe do genuíno conhecimento de nós mesmos.
Estamos sempre fixando limites e restrições arbitrárias a nós mesmos, olhando para o mundo e vivenciando-o a partir de pontos de vista rígidos; achamos que uma experiência não-relacionada com nossos sentimentos ou projeções não tem valor. Mas, quando passamos além da objetivação de conceitos, além do dualismo, além do espaço e do tempo, o que teremos a perder? Se perdermos alguma coisa, perderemos, quando muito, nossos medos, nossas idéias-fixas, o nosso tenso apego a um "eu" imaginado e à imaginada segurança desse "eu". O estado de espírito natural nada tem para perder. É só por causa da nossa alienação de nós mesmos que deixamos de compreender antes que podemos ficar dentro da atenção, que é a nossa natureza intrínseca, nosso próprio lar.
Embora "falemos" a respeito da nossa natureza intrínseca, isso não significa necessariamente que a vivenciamos. Ao invés disso, quase todos somos continuamente surpreendidos no processo de gerar idéias e explicações... de modo que a nossa mente prossegue nesse curso, interminavelmente. O "eu" está se associando com várias emoções, sentimentos, conceitos e reflexões psicológicas. O ego está sempre esperando para perguntar-nos se realizamos alguma coisa; de modo que temos de "responder" a nós mesmos o tempo todo - e nos vemos fora da nossa experiência, olhando para dentro.
Conquanto tentemos, com todo o nosso empenho, ser atentos e perceptivos, nossos diálogos interiores e projeções criam obstáculos que estragam a imediação da nossa experiência. Quanto mais tentamos interpretar uma experiência e vesti-la com palavras, tanto mais nos apartamos dela. Quedamo-nos com conceitos "fixos" e opiniões dualísticas acerca do mundo, de modo que nossas respostas e reações a situações cotidianas não fluem de um estado natural. É como se fôssemos viver no meio de um formoso jardim de flores - e, não obstante, não déssemos atenção a ele. Podemos gastar anos e anos explicando, pensando e analisando, sem nunca descobrir esse estado natural.
Compreender esse estado mental é difícil, porque acreditamos que nossos pensamentos, emoções e sentimentos são "meus"; julgamo-los em relação com a "minha" situação, a "minha" vida. Mas pensamentos e sentimentos não são "eu". Um pensamento simplesmente é associado a outro pensamento, que depois se associa a um terceiro. Cada pensamento envolve várias palavras e imagens, como as imagens de uma fita de cinema, que se movem continuamente, para a frente e para trás, de tal sorte que a série de imagens ocupa a nossa percepção e drena a nossa energia. Finalmente, perde-se a percepção. Ficamos como crianças que assistem a um desenho animado - perdidas ali, com os olhos arregalados pregados à tela.
Quando observamos as nossas mente, vemos que a nossa consciência se fixa com facilidade em pensamentos ou em entradas sensoriais. Por exemplo: quando ouvimos de repente o bater de uma porta ou o guinchar do tráfego, nossas mentes projetam imediatamente uma imagem ou conceito; e, associada a essa idéia ou imagem, há uma experiência de tons de sentimentos muito preciosos e exatos. Estando dentro do momento imediato, é possível entrar "dentro" dessa experiência. Nesse momento descobrimos certo tipo de atmosfera ou ambiente interior que não tem forma, nem formato, nem característica específica, nem estrutura. Não há palavras, imagens, conceitos ou posições para manter - visto que qualquer posição - uma posição de manutenção, uma posição de exame ou uma posição "além"- ainda estaria se referindo a algo que se encontra, em última análise, relacionado conosco como o sujeito. Por conseguinte, para libertar-nos dos padrões dualísticos da nossa mente é importante passar "além" das compreensões e crenças relativas, olhar "para dentro" e, tanto quanto possível permanecer dentro do primeiro momento da experiência.
Visto que a mente, em sua verdadeira natureza, não tem dualidade, não está separada da unidade de tudo o que existe, nossas vidas tornam-se a nossa meditação. A meditação não é uma técnica para fugir deste mundo - é um bom amigo e um bom professor que podem guiar, amparar e ajudar a nossa mente a tocar diretamente nosso ser mais íntimo, sem paredes que nos separem da nossa percepção, da nossa inspiração e da nossa intuição. Através dessa experiência podemos estabelecer contato com a nossa própria inteireza.
Por conseguinte, a qualquer momento podemos fazer amizade com a meditação; e, na visão que nasce da meditação, experimentamos toda a existência como plena e bela - pois tudo tem beleza, o modo com que trabalhamos, pensamos, falamos - cada situação tem o seu próprio valor inerente e o seu significado. Quando trazemos a luz da meditação para a nossa vida, esta se torna mais rica, mais significativa e mais expressiva, e somos capazes de lidar aberta e diretamente com todas as situações.
Essa percepção natural é simples e direta, aberta e receptiva, imediata e espontânea, sem obscurecimento; não há medo nem sentimento de culpa, não há problema sem desejo de escapar ou de ser de outro modo. "Natural" quer dizer "não-fixo", quer dizer não ter expectativas, nem compulsões, nem interpretações, nem planos predeterminados.
Quando a meditação se aprofunda, não há necessidade de fixá-la, melhorá-la ou aperfeiçoa-la. Não há necessidade de progredir, visto que tudo se move no estado natural da realidade.
Uma vez que somos capazes de vivenciar essa percepção imediata, não há nada entre a nossa mente e a meditação. A experiência é sempre nova, inédita, clara e bela. Se bem esteja além do nosso senso comum de tempo, ainda há continuidade. Tudo é exatamente "como é", sem que nada lhe seja acrescentado nem subtraído.
Se, na nossa meditação, pudermos ficar em nosso momento presente, é possível experimentar esse estado mais elevado de percepção. Mas quando nos agarramos às projeções mentais ou tentamos recordar instruções específicas ou certos processos, apenas continuamos a seguir os movimentos da mente no nível da consciência. Podemos estudar e praticar durante anos num nível conceitual, executar inúmeras ações positivas e reunir uma grande quantidade de informações mas, ainda assim, não chegar muito mais perto da verdadeira compreensão. Portanto, é necessário expandir a percepção para fora do domínio do diálogo interior, alargar-nos e abrir-nos o mais que pudermos, e ficarmos muito silenciosos. Estes ainda são apenas conceitos; porém, mais tarde, com a prática, podemos passar, além dessas idéias e padrões conceituais, a um estado de todo destituído de um centro, porque todas as limitações que exigem um centro se dissolveram - e isso é meditação.
À proporção que desenvolvemos a meditação, já não precisamos apoiar-nos em explicações intelectuais para justificar quem somos, pois a nossa auto-identidade redutora se dissipa, como o nevoeiro tocado pela luz do sol. Depois que tivermos compreendido isso, não precisamos lutar com o nosso ego e nossas emoções negativas - ou com discriminações entre o bem e o mal, o positivo e o negativo, o caminho espiritual ou a ação habitual. Dentro da experiência da meditação, a percepção espontânea surge por si mesma, e os conflitos emocionais e os problemas começam a perder seu domínio e tornam-se muito enevoados. Depois que deixamos de alimentar nossos problemas, eles desaparecem dentro da própria percepção. Durante todo esse tempo, podemos ver efetivamente que toda a natureza da mente é a nossa meditação. E, através disso, a nossa mente se torna iluminada de uma energia poderosa e preciosa, e nós vivenciamos diretamente uma compreensão indescritível e onisciente."

Do livro "GESTOS DE EQUILÍBRIO" de Tarthang Tulku

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Significado Interior da Entrega

Deixar fluir...
A qualidade da sua consciência neste momento é que vai determinar o tipo de futuro que você vai viver. Portanto, entregar-se é a coisa mais importante que você pode fazer para provocar uma mudança positiva. Qualquer outra coisa que você fizer será secundária. Nenhuma ação positiva pode surgir de um estado de consciência onde não existe entrega.

Para muitas pessoas, a entrega talvez tenha conotações negativas, como uma derrota, uma desistência, uma incapacidade de se reerguer das ciladas da vida, certa letargia, etc. A verdadeira entrega, entretanto, é algo completamente diferente. Não significa suportar passivamente uma situação qualquer que nos aconteça e não fazer nada a respeito, nem deixar de fazer planos ou de ter confiança para começar algo novo. 

A entrega é a sabedoria simples mas profunda de nos submetermos e não de nos opormos ao fluxo da vida. O único lugar em que podemos sentir o fluxo da vida é no Agora. Isso significa que se entregar é aceitar o momento presente sem restrições e sem nenhuma reserva.

É abandonar a resistência interior àquilo que é.
A resistência interior acontece quando dizemos "não" para aquilo que é, através do nosso julgamento mental e de uma negatividade emocional. Isso se agrava especialmente quando as coisas "vão mal", o que significa que há um espaço entre as exigências ou expectativas rígidas da nossa mente e aquilo que é. Esse é o espaço do sofrimento. 
Se você já tiver vivido bastante tempo, certamente saberá que as coisas "vão mal" com muita frequência. É precisamente nesses momentos que a entrega tem de ser praticada, caso queiramos eliminar o sofrimento e as mágoas da nossa vida. A aceitação daquilo que é nos liberta imediatamente da identificação com a mente e nos religa com o Ser. A resistência é a mente.
A entrega é um fenômeno puramente interior. Isso não quer dizer que não possamos fazer alguma coisa no campo exterior para mudar a situação.
Na verdade, não é a situação completa que temos de aceitar quando falo de entrega, mas apenas o segmento minúsculo chamado o Agora. Por exemplo, se você estiver atolado na lama, não tem que dizer: "Está bem, me conformo de estar atolado nessa lama." Resignação não quer dizer entrega.
Você não precisa aceitar uma situação indesejável ou desagradável na sua vida. Nem precisa se iludir e dizer que não tem nada errado em estar atolado na lama. Nada disso. Você tem completa consciência de que deseja sair dali. Então reduz a sua atenção ao momento presente, sem atribuir a essa situação nenhum rótulo mental.
Isso significa que não existe nenhum julgamento do Agora. Em consequência, não existe nenhuma resistência, nenhuma negatividade emocional. Você aceita a "existência" do momento. A seguir, toma uma atitude e faz tudo o que puder para sair da lama.
Chamo essa atitude de ação positiva. Funciona muito mais do que uma ação negativa, que decorre da raiva, do desespero ou da frustração. Até que alcance o resultado desejado, você continua a praticar a entrega ao se abster de rotular o Agora.
Vou fazer uma analogia visual para ilustrar o ponto que estou sustentando. Você está andando por uma estrada à noite, com uma neblina cerrada, mas possui uma lanterna potente que corta a neblina e cria um espaço estreito e nítido na sua frente. A neblina é a sua situação de vida, que inclui o passado e o futuro. A lanterna é a sua presença consciente, e o espaço nítido é o Agora.
Não se entregar endurece a forma psicológica, a casca do ego, e assim cria uma forte sensação de separação. O mundo e as pessoas à sua volta passam a ser vistos como ameaças. Surgem uma compulsão inconsciente para destruir os outros através do julgamento e uma necessidade de competir e dominar. Até mesmo a natureza vira sua inimiga, e o medo passa a governar a sua percepção e a interpretação das coisas. A doença mental conhecida como paranóia é apenas uma
forma ligeiramente mais aguda desse estado normal, embora disfuncional, da consciência.
A resistência faz com que tanto a sua mente quanto o seu corpo fiquem mais pesados. A tensão se manifesta em diferentes partes do corpo, que se contrai para se defender. O fluxo de energia vital,
essencial para o funcionamento saudável do corpo, fica prejudicado.
Algumas formas de terapia corporal podem ser úteis para restaurar esse fluxo, mas, a menos que você pratique a entrega na sua vida diária, essas coisas só podem lhe proporcionar um alívio temporário, porque a causa, o padrão de resistência, não foi ainda dissolvida.
Existe alguma coisa dentro de você que não é afetada pelas circunstâncias transitórias que constroem a sua situação de vida, e a que você só tem acesso através da entrega. Trata-se da sua vida, do seu próprio Ser, que existe no eterno domínio do presente.
Se a sua situação de vida é insatisfatória ou mesmo intolerável, somente através da entrega você vai conseguir quebrar o padrão inconsciente de resistência, que permite a permanência dessa situação. 
A entrega é perfeitamente compatível com tomar uma atitude, iniciar uma mudança ou atingir objetivos. Mas, no estado de entrega, uma energia totalmente diferente flui naquilo que fazemos. A entrega nos
religa com a fonte de energia do Ser, e, se as nossas ações estiverem impregnadas com o Ser, elas se tornam uma alegre celebração da energia da vida, que nos aprofunda cada vez mais no Agora. Através da não-resistência, a qualidade da nossa consciência, e, portanto, a qualidade do que estivermos fazendo ou criando, aumenta sem medidas. Os resultados vão falar por si mesmos e refletir essa qualidade. Podemos chamar isso de "ação de entrega".
No estado de entrega, você vê claramente o que precisa ser feito e parte para a ação, fazendo uma coisa de cada vez e se concentrando em uma coisa de cada vez.
Aprenda com a natureza. Veja como todas as coisas se realizam e como o milagre da vida se desenrola sem insatisfação ou infelicidade.
É por isso que Jesus disse: "Olhai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam."
Se a sua situação geral é insatisfatória ou desagradável, separe esse instante e entregue-se ao que é. Eis aqui a lanterna cortando a neblina. O seu estado de consciência deixa então de ser controlado pelas condições externas. Você não age mais a partir de uma resistência ou de uma reação. Olhe então para uma situação específica e pergunte-se: "Existe alguma coisa que eu possa fazer para mudar essa situação, melhorá-la ou me retirar dela?" Se houver, você toma a atitude adequada.
Não se prenda às mil coisas que você vai ter que fazer em algum tempo futuro, mas à única coisa que você pode fazer agora. Isso não significa que você não deva traçar um plano. Planejar talvez seja a única coisa que você possa fazer agora. Mas certifique-se de que não vai começar a rodar "filmes mentais", se projetar no futuro e, assim, perder o Agora. Talvez a atitude que você tomar não dê frutos imediatamente. Até que ela dê, não resista ao que é.
Se não houver nada que possa fazer e você também não puder escapar da situação, use isso para poder ir mais fundo na entrega, mais fundo no Agora, mais fundo no Ser.
Quando você entra nessa eterna dimensão do presente, a mudança sempre acontece por caminhos estranhos, sem a necessidade de uma grande quantidade de atitudes da sua parte. A vida se torna proveitosa e cooperativa. Se fatores internos como o medo, a culpa ou a indolência impedem você de tomar uma atitude, eles vão se dissolver na luz da sua
presença consciente.
Não confunda entrega com uma atitude do tipo "não ligo mais para nada". Essas atitudes estão cheias de negatividade na forma de um ressentimento oculto, portanto não se trata de entrega, mas de uma resistência disfarçada.
Ao se entregar, dirija a sua atenção para dentro a fim de verificar se existe algum traço de resistência que tenha ficado no seu interior. Fique bem alerta ao fazer isso, do contrário um resíduo de resistência pode ficar escondido em algum cantinho escuro na forma de um pensamento ou de uma emoção desconhecida

Extraído do livro O Poder do Agora, de Eckhart Tolle

domingo, 12 de janeiro de 2014

As 7 Glândulas Endócrinas

Segundo as tradições, as 7 glândulas endócrinas  humanas (de secreção interna) tem uma ligação com o nosso corpo energético através dos 7 chakras, assim como é com Gaia, o ser vivo que é o planeta Terra. Cada glândula está astrologicamente sob a regência de um planeta do qual recebe influência e tem correspondência com as 7 cores do espectro solar e, no nível do corpo, são simbolizadas pelas 7 Igrejas da Ásia citadas no Apocalipse (o livro das revelações) de São João.
A tradição Rosacruz dispensa apresentações. Este texto abaixo é a visão Rosacruz das 7 glândulas:

"A saudação Rosacruz: "Que as Rosas floresçam em Vossa Cruz", com a qual os Irmãos Maiores saúdam as Almas Aspirantes (vide Conceito Rosacruz do Cosmos — Cap XIX), encerra um enorme e importante significado, digno de ser conhecido por todos os estudantes da Fraternidade Rosacruz.
O sangue é a expressão mais elevada do corpo vital, devido a que este leva o alimento a todo o corpo, e o EU governa o corpo físico por meio desse fluido, o qual é gasoso nas partes mais internas do corpo. Nas pessoas que vivem uma vida pura, os ferimentos podem cicatrizar-se em questão de horas. É de notar-se que o nível evolucionário de uma pessoa está indicado pela eletrificação ou espiritualização de seu sangue.
Assim como nossa Terra tem sete centros espirituais, assim também nosso corpo físico tem em seu interior sete glândulas, chamadas endócrinas. Estas glândulas podem ser chamadas as “Sete Rosas sobre a Cruz do Corpo Vital", são: as supra-renais (em número de duas) o baço, o timo, a tireóide, a pituitária e a pineal.
Essas glândulas estão intimamente ligadas ao desenvolvimento oculto da humanidade, como podemos concluir da seguinte explicação:
A palavra de Deus se manifesta nos sete grandes tons emitidos pelos Sete Espíritos Planetários. Estes tons são criadores no mais alto grau. Quando a forma que o Ego habita é criada, estes Espíritos Planetários a ajudam no desenvolvimento de suas potencialidade latentes. Essa ajuda é dada a humanidade através das glândulas endócrinas — as Sete Rosas.
Cada uma dessas glândulas é despertada quando o Ego põe em atividade seus poderes latentes, estando cada uma delas em sintonia com a nota-chave de um espírito planetário.
Assim no curso do esquema evolutivo, cada Espírito Planetário, por meio de sua nota-chave, vai despertando gradualmente a nota-chave, que está afinada a essa Hierarquia. Quando esta nota-chave desperta, o Ego desenvolve os poderes latentes expressos pelo Espírito Planetário particular.
Nos próximos "ECOS” veremos como isso se processa com cada uma das sete glândulas e o que podemos fazer para apressar o desabrochar das Sete Rosas.

AS DUAS PRIMEIRAS ROSAS: SUPRA RENAIS ( Região Química)
 É um par de glândulas situado sobre os rins, tomando a forma de um guarda chuva de três bicos. Estão regidas por Júpiter. Quando alguém se põe em contato com as vibrações benéficas deste planeta, sente-se desembaraçado, expansivo, e possuído de um urgente desejo de transformar seus sentimentos em serviço para os desventurados filhos do Grande Pai.
A má utilização dessas forças, no entanto, se expressa como excesso a segurança de si mesmo, exibicionismo, desordem e libertinagem.
Utilizando o poder espiritual gerado pelas supra renais, o Ego possui a força necessária para aperfeiçoar seu corpo denso e conquistar o mundo físico, o qual completa sua evolução sobre esta esfera. O centro espiritual nestas glândulas vibra na cor azul.
A TERCEIRA ROSA: BAÇO(*) (Região Etérica)
O baço pesa de cinco a seis onças, é brando, esponjoso e frágil, Possui uma cor vermelho azulado profundo, e está situado ao lado esquerdo do estômago.
O mau uso destes poderes se expressam como: arrogância, ostentação, pompa domínio sobre os outros, um verdadeiro déspota.
Está regido pelo Sol, que contém em si mesmo todos os outros tons planetários. O desenvolvimento desta Rosa dá ao indivíduo a consciência necessária para entrar em contato com a Região Etérica, donde vê as forças vitais que dão vida às plantas, aos animais e aos homens.
(*)Nota da redação: Há textos tradicionais que consideram a glândula pâncreas e não o baço como integrante das sete.
A QUARTA ROSA: GLÂNDULA TIMO (Mundo do Desejo)
É uma massa pardacenta que ao ser cortada tem a aparência de uma moela, estando situada entre os pulmões, atrás do externo. Alcança seu maior tamanho no começo da puberdade; sendo que ao nascimento pesa ao redor de meia onça e seu comprimento é de duas polegadas.
Vênus controla a glândula timo. Quando a nota-chave deste planeta.põe em atividade a nota correspondente no timo, o indivíduo desenvolve o amor em sua mais elevada expressão, habilidade artística, formosura, harmonia e alegria.
O mau uso destes poderes se expressa como vulgaridade, preguiça, vaidade, sensualismo e inconstância.
Ao fazer sua aparição, a quarta Rosa conecta o indivíduo com os elevados reinos no Mundo do Desejo. Aqui, entra em contato com a onda de vida Arcangélica da que Cristo é o maior Iniciado. O centro espiritual da timo vibra na cor amarela.
A QUINTA ROSA: A GLÂNDULA TIREÓIDE (Mundo do Pensamento)
A Tireóide é formada por duas massas de cor marrom, situadas sobre o extremo superior da traquéia, e pegadas à laringe, logo abaixo do pomo de Adão; pesa ao redor de uma onça.
Essa glândula é regida por Mercúrio. Quando os poderes desta grande Hierarquia se desenvolvem no homem, manifestam-se: razão, intelecto, previsão, boa memória, investigação, juízo rápido, eloqüência, destreza, facilidade de expressão oral e escrita, auto-didática, etc.
O mau uso destes poderes se expressam como: presunção, astúcia, preguiça, descuido, falta de princípios, tagarelice, profanação, desonestidade, afeição pelos jogos, indecisão e nervosismo.
Quando a nota chave da Quinta Rosa desperta, o indivíduo, assistido pela música das esferas, entra em contato consciente com o Mundo do Pensamento onde vê os arquétipos de tudo o que existe no Mundo Físico.
Este indivíduo conseguiu o controle de sua mente e mantém o equilíbrio poder entre o cérebro e os órgãos reprodutores. O Espírito é agora quem governa sua natureza inferior. O centro espiritual da Tireóide, vibra com uma cor violeta.
A SEXTA ROSA: A GLÂNDULA PITUITÁRIA (Mundo do Espírito de Vida)
É uma massa de tecido celular cinza amarelada, mais ou menos do tamanho de uma ervilha, situada quase no centro da cabeça, na base do cérebro, abarcando a parte posterior da base do nariz.
Quando a celestial nota chave de Urano desperta a nota chave do Corpo Pituitário, a Sexta Rosa abre suas douradas pétalas, exaltando a consciência do indivíduo até o Mundo do Espírito de Vida. Essa é região do altruísmo.
Neste elevado reino se acha o registro de tudo quanto existiu desde o princípio da criação, e o indivíduo pode obter a informação que deseje sobre a evolução de nosso mundo e também de outros planetas de nosso Sistema Solar. Maria, a mãe de Jesus, é um exemplo do tipo pituitário feminino.
A cor do Espírito de Vida, a de Urano e a do Éter de Luz, é o amarelo.
A SÉTIMA ROSA: A GLÂNDULA PINEAL (Mundo do Espírito Divino)
Como seu nome indica, é um corpo em forma de cone, como uma pinha. de cor avermelhada e um pouco maior que um grão de trigo, seu peso e cerca duas gramas. Está ligada à abobada do terceiro ventrículo do cérebro, atrás e acima do Corpo Pituitário.
A Glândula Pineal é regida por Netuno, a luz portadora do Sol Espiritual, que é o Pai. A natureza desse planeta é oculta, profética e espiritual; manifesta-se no plano físico como: sabedoria, espiritualidade, inspiração, clarividência, profecia, devoção, habilidade de conexão com a música das esferas. Em suma: “O Iniciador”.
Quando a nota chave da Sétima Rosa é despertada pela vibração do Espírito de Netuno a consciência do indivíduo se eleva até o Mundo do Espírito Divino. Relaciona-se com outros sistemas solares e chega a saber sobre outros deuses e os mundos e seres que foram criados por Eles.
O Raio de Netuno leva o que o ocultista conhece como o Fogo do Pai, a Luz e a Vida do Espírito Divino, que se expressa como Vontade.
Quando a Glândula Pineal sai de sua letargia começa a vibrar com uma formosa cor azul.
Abaixo um quadro-resumo que pode facilitar a assimilação deste tema."


Glândula EndócrinaBem AdministradaMal AdministradaMundo CorrespondentePlaneta Regente
Supra Renais (2)
  • Benevolência
  • Expansão
  • Filantropia
  • Exibicionismo
  • Libertinagem
  • Extravagância
Mundo FísicoJúpiter
Baço
  • Vitalidade
  • Fidelidade
  • Dignidade
  • Despotismo
  • Arrogância
  • Domínio
Região EtéricaSol
Timo
  • Amor elevado
  • Artes
  • Cooperação
  • Sensualidade
  • Preguiça
  • Vulgaridade
Mundo dos DesejosVênus
Tireóide
  • Raciocínio
  • Meditação
  • Estudos
  • Astúcia
  • Indecisão
  • Desonestidade
Mundo do PensamentoMercúrio
Pituitária
  • Clarividência
  • Misticismo
  • Altruísmo
  • Perversão
  • Licenciosidade
  • Anarquia
Mundo do Espírito de VidaUrano
Pineal
  • Devoção
  • Inspiração
  • Espiritualidade
  • Ilusão
  • Magia Negra
  • Intriga
Mundo do Espírito DivinoNetuno

Veja ainda as obras: A Astrologia e as Glândulas Endócrinas e O Mistério das Glândulas Endócrinas de Max Heindel e Augusta Foss Heindel.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Amor e Ódio

A menos que você acesse a frequência consciente da Presença, todos os relacionamentos, principalmente os mais íntimos, vão apresentar defeitos profundos. Durante um tempo eles podem dar a impressão de serem perfeitos, como quando estamos apaixonados, mas, invariavelmente, essa perfeição aparente acaba destruída por discussões, conflitos, insatisfações e até mesmo por violência física e emocional, que passa a acontecer com uma frequência cada vez maior. Parece que a maioria dos "relacionamentos amorosos" não leva muito tempo para se transformar numa relação de amor e ódio.
O amor pode se transformar em agressões furiosas, em sentimentos de hostilidade, ou num piscar de olhos, em um completo recuo da afeição. Isso é visto como normal. Os relacionamentos oscilam, então, por um tempo, por alguns meses ou anos, entre as polaridades de 'amor' e ódio, e nos trazem muito prazer e muita dor. Não é pouco comum que os casais se tornem viciados nesses ciclos. Este tipo de drama nos faz sentir vivos. Quando o equilíbrio entre as polaridades negativa e positiva é desfeito e os ciclos negativos e destrutivos acontecem com frequência e intensidade crescentes, não demora muito para o relacionamento acabar.
Pode parecer que tudo se resolveria se conseguíssemos eliminar os ciclos negativos e destrutivos, permitindo que o relacionamento florescesse sem problemas, mas isso não é possível. As polaridades são mutuamente interdependentes. Não podemos ter uma sem a outra. A positiva já contém dentro de si a negativa não manifestada. Ambas são, na verdade, aspectos diferentes de um mesmo sistema defeituoso. Estou tratando aqui dos chamados relacionamentos românticos, não do verdadeiro amor, que não possui opositores porque nasce além da mente.  O amor como um estado permanente ainda é raro de encontrar, tão raro quanto a consciência nos seres humanos. Entretanto é possível haver lampejos breves e ilusórios de amor, sempre que existir um espaço nos fluxo da mente.
O lado negativo de um relacionamento é mais facilmente reconhecido como um  defeito ou anormalidade do que o positivo. E é muito mais fácil reconhecer a fonte da negatividade no parceiro do que vê-la em nós mesmos. Ela pode se manifestar de várias formas, tais como possessividade, ciúme, controle, ressentimento, insensibilidade e egocentrismo, cobranças emocionais e manipulação, raiva e violência física, necessidade de ter sempre razão, de discutir, criticar, julgar, culpar, agredir, irritar, ou se vingar, inconscientemente de uma sofrimento do passado imposto por um dos pais.
Pelo lado positivo, há uma paixão pela outra pessoa. No primeiro momento, esse é um estado altamente gratificante. Sentimos que estamos intensamente vivos. Nossa existência passa a ter um significado porque, de repente, alguém precisa de nós, nos deseja, e nos faz sentir especial. Além disso, provocamos as mesmas sensações no outro, o que faz com que os dois se sintam completos. O sentimento pode se tornar tão intenso que o resto do mundo perde o significado.
Você deve ter percebido que existe uma certa dependência nessa intensidade. Ficamos viciados na outra pessoa, que age sobre nós como uma droga. Quando a droga está disponível, nos sentimos muito bem. Mas a possibilidade, mesmo que remota, de que ela não esteja mais ali, disponível para nós, pode levar ao ciúme, à possessividade, a tentativas de manipulação, através de chantagem emocional, culpa ou acusações - o que, no fundo, é o medo da perda. Se a outra pessoa nos abandonar mesmo, pode fazer nascer a mais intensa hostilidade, ou um profundo desespero. Em segundos a ternura amorosa pode dar lugar à agressão selvagem ou um desgosto terrível. Onde é que está o amor agora? Será que o amor pode se transformar no seu oposto em segundos? Será que era amor de verdade ou um vício, uma dependência?

O VÍCIO E A BUSCA DE PLENITUDE
Porque nos viciaríamos na outra pessoa?
O desejo de ter uma relacionamento amoroso é universal porque as pessoas acreditam que a paixão, o "amor", pode libertá-lo do medo, da necessidade e do vazio que fazem parte da condição humanaem seu estado de pecado e não iluminação. Existe uma dimensão física e outra psicológica para esse estado.
No nível físico, é óbvio que não somos um todo, nem jamais seremos. Cade um de nós é homem ou mulher, o que vale dizer, uma metade de um todo. Nesse nível, o desejo de ser completo, de retornar à unidade, se manifesta através da atração entre homem e mulher. É um impulso irresistível de união com a polaridade oposta de energia. A raiz desse impulso físico é espiritual, porque nele está o desejo ardente do fim de  uma dualidade, de um retorno ao estado de completude. A união sexual é o estado mais perto que podemos chegar deste estado no nível físico. Essa é a razão pela qual ela é a experiência mais satisfatória que o nível físico pode nos oferecer. Mas a união sexual não passa de um lampejo breve de plenitude, um instante abençoado. Enquanto ela for vista inconscientemente como um meio de salvação, você a verá como o fim da dualidade no nível da forma, um lugar onde ela não pode ser encontrada. Você tve um lampejo do paraíso, mas não pode ficar ali e se percebe, de novo, em um corpo separado. No nível psicológico, a sensação de falta, de não estar completo, é até maior do que no nível físico. Enquanto houver uma identificação com a mente, o sentido do eu interior é dado pelas coisas externas. Isso significa que você extrai o sentido do que você é de coisas que não tem nada a ver com quem você realmente é, como o seu papel na sociedade, suas propriedades, sua aparência externa, seus sucessos e fracassos, seus sistemas de crenças, etc.
Esse seu eu interior falso, o ego construído pela mente, sente-se vulnerável, inseguro, e está sempre em busca de coisas novas com as quais se identificar, para obter a sensação de que ele existe. Mas nada é suficiente para lhe dar uma satisfação duradoura. O medo permanece. A sensação de falta e de necessidade permanecem. Então acontece aquele relacionamento especial. Parece ser a resposta para todos os problemas do ego, parece preencher todas as necessidades. Todas aquelas coisas das quais você tinha extraído o sentido do eu interior se tornam relativamente insignificantes. Você tem agora um ponto focal que substitui todos os outros, que dá sentido à sua vida e até define a sua identidade: a pessoa por quem você se "apaixonou". Você não é mais um fragmento isolado em um mundo insensível. Seu mundo tem agora um centro, a pessoa amada. O fato de que o centro está fora de você - , e portanto você tem ainda um sentido do seu eu interior derivado das coisas externas - parece não importar muito num primeiro momento. O que importa aquelas sensações de medo, falta, vazio, insatisfação não estão mais presentes. Ou será que estão? Será que elas desapareceram ou continuam a existir por baixo da aparente felicidade?
Se em seus relacionamentos você vivenciou tanto o "amor" quanto o seu oposto, então é provável que você esteja confundindo o apego do ego e a dependência com o amor. Não se pode amar alguém em um momento e atacar essa pessoa no momento seguinte. O verdadeiro amor não tem oposto. Se o seu "amor" tem oposto, então não é amor, mas  uma grande necessidade do ego de obter um sentido mais profundo  e mais completo do seu eu interior, uma necessidade que a outra pessoa preenche temporariamente. É uma forma de substituição que o ego encontrou e, por um curto período, ela parece ser mesmo a salvação.
Chega então um momento em que o outro passa a se comportar de um modo que deixa de preencher as nossas necessidades, ou melhor, as necessidades do nosso ego. As sensações de medo, sofrimento e falta, que estavam encobertas pelo "relacionamento amoroso", voltam a parecer. Como acontece com qualquer vício, ficamos muito bem enquanto a droga está disponível, mas chega um momento em que a droga não funciona mais. Quando essas dolorosas sensações de medo reaparecem, nós as sentimos mais fortes que antes e passamos a ver o outro como a causa dessas sensações. Isso significa que estamos projetando no outro essas sensações, por isso nós o agredimos com toda a violência que é parte do nosso sofrimento.
Essa agressão pode despertar o sofrimento do outro, que é induzido a contra-atacar. Nesse ponto, o ego ainda está, inconscientemente, esperando que a agressão ou a tentativa de manipulação seja suficiente para levar o outro a mudar o comportamento, de forma que possa usá-lo de novo, para encobrir o seu sofrimento.
Todo o vício surge de uma recusa inconsciente de encararmos nossos próprios sofrimentos. Todo o vício começa no nosso sofrimento e termina nele. Qualquer que seja o vício - álcool, comida, drogas legais ou ilegais, ou mesmo uma pessoa - , ele é um meio que usamos para encobrir o sofrimento. Essa é a razão porque, passada a euforia inicial, existe, tanta infelicidade, tanto sofrimento nos relacionamentos íntimos. Eles não causam o sofrimento e a infelicidade. Eles trazem à superfície o sofrimento e a infelicidade que já estão dentro de nós. Todo vício faz isso. Todo vício chega a um ponto em que já não funciona mais para nós e, então, sentimos o sofrimento mais forte do que nunca. Essa é a razão pela qual muitas pessoas estão sempre tentando escapar do momento presente e buscando algum tipo de salvação no futuro. A primeira coisa que devem encontrar, caso focalizem a atenção no Agora, é o próprio sofrimento que carregam, e é isso o que mais temem. Se ao menos soubessem como, no Agora, é fácil acessar o poder da presença que dissolve o passado e o sofrimento. Se ao menos soubessem como estão perto da própria realidade, como estão perto de Deus.
Evitar se relacionar como uma tentativa de evitar o sofrimento também não é a resposta. O sofrimento está lá, de qualquer jeito. Três relacionamentos infelizes em alguns anos tem mais probabilidade de forçar você acordar que três anos em uma ilha deserta ou trancafiado em seu quarto. Mas, se você pudesse colocar uma presença intensa em sua solidão, isso também funcionaria para você.

Extraído de O Poder do Agora, de Eckhart Tolle

sábado, 29 de dezembro de 2012

Oração Kahuna do Perdão


 Há tempos atrás publicamos A Cura pelo Perdão e falamos do difícil tema do perdão, presente no tradições como o Ho’ oponopono do xamanismo havaiano, e de passagem falamos da grande alma que é a famosa vidente, psicoterapeuta, curadora e escritora Barbara Ann Brennan, autora dos livros Mãos de Luz, e Luz Emergente. Hoje vamos tocar novamente no assunto espinhoso do perdão, através de uma oração ensinada pelos Kahunas, antigos polinésios.
Na simples leitura vamos sentir que algo se recusa a aceitar e se retorce dentro de nós. Porque é difícil? Porque o perdão é a antítese do ego, é o despojamento final, só comparável à aceitação da Morte. Esse texto foi feito de encomenda para mim. É pau puro, como dizem na Bahia.
Vamos à oração:

“Buscando eliminar todos os bloqueios que atrapalham minha evolução, dedicarei AGORA alguns momentos para “PERDOAR”. 

A partir deste momento, eu perdôo todas as pessoas que, de alguma forma, me ofenderam, me machucaram ou me causaram alguma dificuldade desnecessária. Perdôo sinceramente quem me rejeitou, me entristeceu, me abandonou, me humilhou, me amedrontou ou me iludiu. 

Perdôo, especialmente, quem me provocou, até que eu perdesse a paciência e acabasse reagindo agressivamente, para depois me fazer sentir vergonha, culpa, ou simplesmente, me sentir uma pessoa inadequada.
Reconheço que também fui responsável por estas situações, pois muitas vezes confiei em indivíduos negativos, escolhi usar mal minha inteligência e permiti que descarregassem sobre mim suas amarguras, suas histórias, seus traumas e seu mau humor. 
Por tempo demais suportei tratamento indigno, humilhações, medo, grosserias e desamor, perdendo muito tempo e energia, na tentativa de conseguir um bom relacionamento com essas criaturas.
Agora, me sinto livre da necessidade compulsiva de sofrer e livre da obrigação de conviver com pessoas e ambientes que me diminuem e, principalmente, destas pessoas que se sentem incomodadas com a minha presença e a minha energia. 

Iniciei, agora, uma nova etapa na minha vida em companhia de gente mais positiva, cheia de boas intenções, gente amiga, que se preocupa em ser saudável, alegre, próspera e iluminada. Gente preocupada em melhorar a qualidade de vida não só a nossa, mas de todo o planeta. 

Queremos compartilhar sentimentos nobres, aprendendo uns com os outros e nos ajudando mutuamente, enquanto trabalhamos pelo nosso progresso material e nossa evolução espiritual sempre procurando difundir nossas idéias de unidade, de paz e de amor.
Procurarei valorizar sempre todas as conquistas que fiz e o amor que tenho em mim, evitando todas queixas desnecessárias, que me seguram nesta freqüência, de onde já consegui sair.

Se, por um acaso, eu tornar a pensar nestas pessoas com quem ainda tenho dificuldade de convivência, lembrarei que elas todas já estão perdoadas. 
Embora eu não me sinta na obrigação de trazê-las novamente para minha intimidade, eu o farei, se elas demonstrarem interesse em entrar em sintonia.

Agradeço pelas dificuldades que elas me causaram, pois isso me desafiou e me ajudou a evoluir, do nível humano comum, a um nível de maior amor e compaixão, maior consciência, em que procuro viver hoje.

Quando eu tornar a lembrar destas pessoas que me fizeram sofrer, procurarei valorizar suas qualidades e também liberá-las, pedindo ao Criador que também as perdoe, evitando que elas sofram pela lei de causa e efeito, nesta vida ou em outras. 

Também compreendo as pessoas que rejeitaram meu amor e minhas boas intenções, pois reconheço que é um direito de cada um, não poder ou não querer corresponder ao meu amor.
Faça agora uma pausa e respire profundamente por algumas vezes para acumular energia... 
Quando se sentir pronto(a) continue.

Agora, sinceramente, peço perdão a todas as pessoas a quem, de alguma forma consciente ou inconsciente, magoei, prejudiquei ou fiz sofrer.
Analisando o que fiz ao longo da minha vida, sei que minhas intenções foram boas, embora nem sempre tenha acertado e que, estas coisas que fiz de bom, são suficientes para resgatar a dor do meu aprendizado, ainda deixando um saldo positivo ao meu favor.

Sinto-me em paz com minha consciência. (de cabeça erguida, respiro profundamente - prendo o ar -  e me concentro para enviar uma corrente de energia destinada ao meu EU SUPERIOR)
Ao relaxar, minhas sensações revelam que este contato foi estabelecido.

Agora, dirijo uma mensagem de fé, ao meu EU SUPERIOR, pedindo orientação, proteção e ajuda para a realização, de um modo acelerado, de um projeto muito importante que estou mentalizando e para o qual estou trabalhando com dedicação e amor. (citar o projeto) e que será, com certeza, para o bem maior de todos os envolvidos.

Também peço que minha fé seja firme e que eu possa, cada vez mais, tornar-me um canal, uma conexão permanente com os Seres de Luz, desenvolvendo todos os potenciais que possam facilitar esta comunicação. 

Que eu perceba todas as respostas às minhas perguntas e dúvidas, reconhecendo os sinais claros que estiver recebendo, sempre protegida e amparada pelo Universo. 

Agradeço, de todo o coração, a todas as pessoas que me ajudaram e me comprometo a retribuir trabalhando para o bem do próximo, para sua alegria, seu bem-estar, atuando como agente catalisador de harmonia, entendimento, saúde, crescimento, entusiasmo, prosperidade e auto-realização.

Tudo farei sempre em harmonia com as leis da natureza e com a permissão do nosso Criador eterno e infinito que sinto como único poder real, atuante dentro e fora de mim.

ASSIM SEJA E ASSIM SERÁ."

domingo, 9 de dezembro de 2012

Um Despertar


Quando postamos um vídeo da entrevista de Eckhart Tolle, há umas semanas atrás, falando em detalhes da sua experiência de Despertar, ficamos surpresos com o relato dos fatos: havia um tesouro na experiência, nos detalhes, nas verdades simples e mágicas de quem viveu isso. Nada de conversa de guru. Só a certeza tranqüila e lúcida do contato com a Verdade. Então resolvemos postar também a transcrição. Vamos lá:

Entrevistadora: 
- Eckhart, agora com a Eckhart Tolle TV, você tem a chance de responder a centenas de diferentes questões dos membros da comunidade, e eu não tenho mais perguntas. Mas o que eu estou realmente curiosa hoje é para saber sobre você, sobre a sua experiência. Muitas das questões tem sido sobre os membros de nossa comunidade e seu processo de despertar . No seu caso o despertar não foi realmente um processo foi uma súbita completa ultrapassagem, uma religação, uma reestruturação do ser. Mas sendo esse um evento tão importante, na verdade um evento raro, na vida da humanidade, você escreveu sobre ele em apenas alguns poucos parágrafos no seu livro “O Poder do Agora”. Mas eu nunca ouvi você contar a história dos seu despertar. E, se você permitir, é por aí que eu gostaria de começar, com tantos detalhes quanto possível.
ET:
- Bem o fundamento para isso começa vários anos antes num crescente estado de ansiedade e depressão nos meus vinte anos e mesmo na universidade... Fui para a universidade tarde porque inicialmente eu não tinha qualquer qualificação. Eu deixei a escola cedo, aos quatorze anos. Mais tarde na Inglaterra obtive a qualificação para entrar na universidade. Estava no início dos meus vinte anos e tinha um emprego em tempo integral, ao mesmo tempo. E naquele tempo gradualmente a depressão e muitos episódios de grande ansiedade também começaram a ocorrer. 
Eu me desempenhei muito bem na universidade. Eu trabalhei muito duro e não estava muito ciente disso naquela época, mas anos depois encontrei um colega contemporâneo da faculdade que me disse eu estava sempre trabalhando até meia noite na biblioteca e eu não podia acreditar mas ao ouvir isso percebi que tinha trabalhado muito duro. Mas a motivação era o medo e a ansiedade de não estar me desempenhando bem. Não era agradável. Eu era motivado pela ansiedade. E isso veio à tona ...
Depois que me formei, eu me desempenhei bem, fiquei feliz por duas ou três semanas e, aos poucos a ansiedade e a depressão voltaram ainda pior do que antes. Eu estava vivendo num pequeno quarto em Londres e tinha terminado a universidade e não sabia o que faria depois. Naquela noite, eu acordei de novo de noite com uma mente muito ativa. Mas naquele momento, sem dúvida, eu era a minha mente, eu não sabia que não havia uma “mente ativa” porque eu era o processo de pensamento que me mantinha acordado me dizendo das muitas razões que eu tinha para estar em estado de medo: incerteza com o futuro, aonde eu ia viver, o que ia fazer e assim por diante... Infelicidade com quem eu era como pessoa, inadequabilidade e assim por diante... Havia essa incessante atividade durante aquela noite novamente criando uma enorme ansiedade até o ponto de uma falta de ar. E me sentindo completamente destacado do mundo exterior isto é me sentindo estranho.
 Lembro-me olhando os objetos no quarto que pareciam completamente estranhos para mim. Anos depois eu li uma novela, não lembro muito dela, mas havia um semelhante sentimento era descrito nela e eu o reconheci. Era uma novela de Jean Paul Sartre e se chamava “Náusea” – angústia existencial – e era o que eu havia experimentado. Intensa infelicidade e medo e um novo pensamento veio enquanto eu estava deitado na cama de que a carga de viver era demasiada. Eu não queria mais suportá-la e aí surgiu o pensamento: “eu não posso viver mais tempo comigo mesmo”. Este pensamento se repetiu algumas vezes e chegou um momento que me dei conta desse pensamento como um pensamento. “Eu não posso viver comigo mesmo ” O que isso significa? Deve haver dois de “mim” aqui! Porque se “eu não posso viver com ‘mim mesmo’”, então quem é o “eu” e quem é o “mim mesmo?”
E de repente eu estava olhando para aquela declaração que minha mente havia criado e vi a estranheza dela. Eu tinha me separado em dois e pensei: quem é “eu” e quem é o “mim”
E essa questão foi o último pensamento, o último pensamento significativo antes da experiência do “Despertar”. 
Esse último pensamento significativo colocou a questão, e a questão era: “quem é esse ‘eu’ e quem é esse ‘mim’ com quem eu não posso mais viver”? Há um ou dois aqui? Eu sou um ou dois? Esse foi o último pensamento. E a resposta a essa questão não chegou como um pensamento, a resposta a essa questão - e eu não o sabia naquela época, mas isso foi o que aconteceu, eu posso explicá-lo agora e não o podia explicar então - A resposta a essa questão não chegou como um pensamento, mas como uma colocação interior por traz do pensamento. Uma desidentificação interior com o pensamento. Então eu subitamente percebi - mas não através do pensamento analítico - que aquele “mim” [self] com o qual eu não poderia viver não tinha uma realidade concreta, ele era um “mim” [self] infeliz. Então sua natureza ilusória foi reconhecida mas não mediante o pensamento, não pensando: “esse ‘mim’ é realmente ilusório” - não. Mas essa natureza ilusória foi um “reconhecimento direto “- além do pensamento. Eu pude ver que ele não era nada, mas sem dizer isso mentalmente. 
Eu sou um ou dois? Essa última questão conduziu a uma desidentificação com o “mim” infeliz e com todo o senso de “self” que estava carregado de infelicidade, medo, ansiedade, inadequabilidade e assim por diante. Então esse “self” como que se dissolveu, porque eu devo ter removido completamente toda a minha identificação. Saí para fora do “self” criado pela mente e o que restou foi eu mesmo como consciência, mas não como o “mim” infeliz. Então o “mim” infeliz começou a sacudir e algo aconteceu com ele e no estágio final eu me senti quase desaparecendo em algum buraco negro. Porque foi um tipo de experiência de morte. Foi a morte do “mim” infeliz. 
A percepção disso não era tanto visual mas mais como um sentimento, como se eu estivesse desaparecendo em algum buraco. E havia ainda algum medo deixado lá, ansiedade sobre o que o que estava acontecendo comigo. Então eu ouvi uma voz – não uma voz audível mas era mais uma percepção: “não resista ou resista nada”. Então eu simplesmente deixei ir, e então uma espécie de vácuo se abriu, mas não um vácuo visual. E eu não lembro mais. Devo ter caído no sono logo após isso.
Então[recapitulando] houve: Sou eu um ou dois? - foi a questão que surgiu. Eu não posso viver com “mim mesmo”. Essa questão trouxe uma separação interior entre o “mim”, criado pela mente, e a consciência que tinha se identificado com ele numa percepção ilusória. Então a consciência que criou essa figura onírica se afastou dela. Então eu percebi que sim eu era dois: o “self” e o “eu”, mas somente um era real. Então a consciência que eu era, era real e a outra parte, a “não real”, não mais podia ser sustentada pela minha identificação com ela.
Eu estou explicando agora, mas eu não podia explicá-lo então. Simplesmente aconteceu! Levou alguns anos, eu nem sei quantos... talvez pelo menos sete ou oito anos, antes que eu pudesse explicá-lo do modo que o estou explicando agora. E na manhã seguinte eu acordei. No princípio eu não me lembrei do que tinha ocorrido à noite. Então meus olhos se abriram e a primeira impressão foi a que tudo era fresco e novo a minha volta nesse velho quarto familiar. Tudo parecia vivo, tudo era maravilhoso e mesmo os mais simples objetos cuja simples presença era adorável de olhar. 
A vida partindo das cortinas que eu sabia estarem vivas e, o mais importante de tudo, uma profunda impressão de paz interior. Então eu estava olhando tudo através da paz. E então eu disse: Uau, maravilha! Eu pequei algo e me senti como se tivesse nascido nesse mundo naquele momento. E sem dúvida eu posso dar uma explicação adicional agora mas eu não podia dá-la então. Eu estava trazendo o passado para a minha percepção sensorial, era tão somente a percepção sensorial sem uma rotulação dessa percepção sensorial. Era somente um pacífico fundo para ela. E eu não estava nomeando nada. Não eram os velhos objetos familiares no quarto, porque o velho “self” familiar não estava mais lá. 
Havia consciência lá. Uma sensação de consciência. E naquele dia eu pequei um ônibus para o centro de Londres e continuava a mesma coisa. No meio do tráfego, observando as pessoas saindo do ônibus, andando pela cidade... Aquela incrível sensação de paz! E eu pensei: “Bem, é incrível toda essa sensação de paz. E no dia seguinte a mesma sensação de paz. Então eu pequei um caderno de notas e escrevi: “algo importante aconteceu comigo mas eu não sei o que é, mas eu vou escrever sobre essas coisas porque eu posso perde-las outra vez e esquecer o que aconteceu”. A propósito eu não mais olhei para esse caderno por muito, muito tempo, então eu não sei exatamente o que escrevi lá. Eu gostaria de vê-lo. Deve ser curioso. Sim, vou olhá-lo um dia desses. 

- Você estava deitado durante toda essa experiência de separação? 
- Sim, na cama e estava escuro, sim. 

- Algumas vezes as pessoas dizem que você não pode descrever o despertar como uma “experiência”. E mesmo em seus encontros há alguns aspectos que você tenta achar as palavras porque não há um processo para essa difícil visão.
- Sim. Não é propriamente uma experiência. Sobre o que aconteceu lá você não pode propriamente dar uma visão para isso, não pode propriamente dizer que é isso ou aquilo. Pode-se dizer que não é uma experiência como tal, porque uma experiência é algo que se acrescenta a você; quando você experimenta algo novo que é acrescentado à sua vida. É o que chamamos de “experiência de vida”. Isso não é definitivamente uma “experiência de vida”. É o oposto de algo sendo acrescentado a você. Nesse sentido é o oposto de uma experiência. Porque ao invés de algo que está sendo acrescentado a você, algo está sendo removido de você. Então, algo que antes era denso e parecia substancial... Algo foi dissolvido ao invés de algo ser acrescentado.
Ele deixa por trás algo que não é inteiramente novo mas tinha sido bastante obscuro antes. Então não é um acréscimo por sobre. Então, talvez, para os buscadores espirituais há uma coisa importante a considerar nisso. Porque muitas pessoas estão procurando alguma experiência espiritual como se fosse algo que lhes pudesse ser acrescentado, e não é assim.
Digamos que é uma experiência de subtração. Tudo que se pode dizer é que é uma perda ao invés de um ganho. Mas é uma perda muito bonita. Mas no momento de transição essa perda pode ser dolorosa porque é um tipo de morte. Então você perde algo mas o que você ganha não é algo que lhe vem de fora, mas é algo que emerge. Sempre esteve lá. É a realidade essencial. Mas não é acrescentando. Podemos tão somente ponderar sobre isso. 
Então o importante é não procurar por uma experiência de acréscimo porque tudo mais é desse modo: queremos ter mais, ter mais experiências. Vamos buscar pela grande “menos” experiência (-) e não pela “mais” experiência (+). 

- Você colocou que a experiência de despertar se faz mediante a integração do processo físico com esse vasto, infinito estado de ser, criando certas interessantes experiências, desafios, algumas vezes as pessoas alcançam grandes estados de abertura onde podem ver o seu corpo tremer sentido grande energia. Então essa forma física se enche de energia. Sua experiência é uma (-)experiência. Então, uma completa gigantesca reestruturação. Como foi isso para você fisicamente? 
- Eu não me lembro de nenhum tipo de experiência física dolorosa acompanhando isso. Parte do senso de paz vinha de um mais escondido senso de vida do campo de energia interior do corpo. Então meu inteiro ser se sentia mais vivo. Eu dificilmente sabia disso, pois isso era parte da experiência total posterior; não uma experiência, porque era duradouro. Esse vibrante e vívido senso de paz interior que estava lá todo o tempo e parte disso era a vida que eu podia sentir a partir de todo o corpo. Mas isso era muito prazeroso, não era uma coisa desagradável. 

- Então, porque algumas pessoas parecem experimentar esse incremento de energia como algo até mesmo doloroso?
- Pode ser que a dor ou a pressão seja sentida quando ainda há bloqueios no corpo. Pode ser que o que me rodeava aquela noite pode ter também dissolvido, aqueles bloqueios que ainda estavam lá. Mas eu estou supondo, eu não sei a resposta definitiva do porque eu não o experimentei. 

-Você alguma vez esteve consciente do corpo interior “antes”. 
-Não. Eu estava completamente “na cabeça”. Eu não me sentia vivo exceto quando a cabeça se sentia um pouco viva, mas não era uma presença viva.

- Pode me descrever em maior detalhe como é esse sentimento dentro do corpo?
- Bem como você sabe muitos anos depois isso se tornou parte do ensinamento em que eu mostrei às pessoas que um aspecto do que me aconteceu acidentalmente eles podem realmente conscientemente dirigir sua atenção para fora do que normalmente habita no movimento do pensamento e dirigir a atenção... Quando me perguntam com que se parece,  minha resposta é orientar você ou quem esteja ouvindo isso... E você realmente pode ir lá agora, dentro de você mesmo, e reviver o que aconteceu lá comigo acidentalmente, mediante escolher dirigir a atenção, conscientemente, para o campo interior de energia do corpo. Usualmente eu peço as pessoas para começar com uma parte do corpo. Colocar a atenção nas suas mãos por exemplo.

-Pode descrever o que se sente?
- Um zumbido pode ocorrer, algumas pessoas o descrevem como um zumbido interior. Um Zuu... Se eu pudesse fazer um som, não há um som, mas se houvesse um som seria: Zuu....
Parece como uma vibração mas não é bem uma vibração. É muito difícil colocar em palavras porque a linguagem é desenhada para refletir objetos, sejam objetos físicos ou mentais. Mas a linguagem não pode realmente achar palavras adequadas para falar sobre isso porque não há objetos nele.
Aproximadamente o que pode ser dito é que é um tanto parecido com um zumbido ou um tanto parecido com uma vibração e pode mesmo ser como um calor. Algumas vezes a temperatura do corpo aumenta quando eles se tornam mais atentos para o que estamos chamando agora de corpo interior. E uma vez que você sinta essa energia dentro de suas mãos como um zumbido vibrando a sua vitalidade, muito sutil mas que sempre está bem.
Então você pode estar atento também a outras partes do seu corpo. E é um modo prazeroso de se tornar enraizado mais profundamente no SER que você é. E também é um modo bem efetivo de se tornar ancorado ao momento presente. A mente sem descanso nunca está realmente no momento presente está sempre em outro lugar. Então você põe sua atenção fora do pensamento, para dentro disso, e então você repousa nisso. E você ainda pode falar, ouvir e mesmo pensar. Mas você não terá mais pensamentos do que realmente sejam necessários para aquele momento. E pode ser que você não necessite ter nenhum pensamento para o que você precisa fazer naquele momento. 
O corpo interior é parte do que eu chamo agora de PRESENÇA, “estado de presença”: Você é presença com todo o seu corpo. 
Isso aconteceu comigo acidentalmente e eu posso dizer que quando eu comecei a entender, depois de anos, o que aconteceu comigo acidentalmente e quando eu comecei a trabalhar com pessoas que chegavam a mim com perguntas, então comecei a falar com elas e as respostas vinham e aquilo que aconteceu comigo acidentalmente tornou-se parte do ensinamento, e eu percebi que isso é não algo que você tenha que esperar que aconteça com você acidentalmente nem o despertar do corpo interior nem o contexto envolvente, o que quer ele seja, essa des-identificação com o pensamento. Todas essas coisas você pode realmente fazer. Eu estou mostrando às pessoas um modo de ir em frente.
Muito do ensinamento sai dessa ocorrência espontânea que aconteceu comigo, por assim dizer, e o que aconteceu aquela noite eu gradualmente, na medida em que comecei a entende-lo, ajudando as pessoas com seus problemas, isso gradualmente no decorrer dos anos tornou-se mais diferenciado e tornou-se um ensinamento espiritual.  Levou anos e anos e tornou-se um processo orgânico. Os fundamentos não mudaram.

- Você diz que no estado de presença o corpo interior estará sempre lá num estado de pleno despertar...
- A vida está lá. A presença é um inteiro estado do corpo. Parece também que na Presença as coisas ao seu redor estão mais presentes. Ela realmente afeta tudo. Seu corpo, e no momento que, em estado de presença, você olha as coisas você percebe que elas são Um com você, você se torna mais vivo e parece que o mundo a sua volta se torna mais vivo. Ou talvez não é que esteja mais vivo, mas é que você reconhece pela primeira vez sua vitalidade. E você compartilha. Você compartilha essa vitalidade com a flor. Vitalidade é uma palavra que eu uso; eu poderia usar outras palavras.

- Quando você começou a verificar o sentido e a estrutura de sua experiência alguma vez se perguntou: “Porque eu?”. Esse súbito despertar que ocorre tão raramente em uma geração você se perguntou: “Porque aconteceu comigo?” 
- Não. Eu nunca tive esse pensamento, e eu a acho que a razão é porque eu nunca percebi isso como algo que realmente tenha acontecido comigo. Quando eu falo sobre isso, por usar a linguagem, se parece como que tenha sido algo que aconteceu comigo. Mas a linguagem não é como isso. Eu não sou capaz de usar a linguagem de modo algum. Mas mais profundamente eu nunca tive um sentimento que isso foi algo que aconteceu comigo. Isso porque a essência disso é o desaparecimento do “mim”. O senso de uma identidade pessoal separada: “mim”; “mim”... Nesse sentido da formação dessa identidade, “mim” se torna tão fraca nisso, que algo está brilhando através de onde o “mim” estava e havia tão somente uma transparência; havia ainda, em alguma extensão, a forma, naturalmente, mas nenhuma identificação nela, e sem identificação a forma se torna semi-transparente e a coisa inteira que acontece é que o “mim” se torna transparente e a consciência surge muito forte. Portanto não é o “mim” mas a consciência e isso nada tem a ver com a pessoa. Então isso acontece porque o “mim” quase desaparece e essa é a razão pela qual não me ocorreu perguntar porque isso aconteceu comigo.

- Faz sentido, mas há uma questão que ainda permanece para mim. Esse corpo, a mente, a forma foi de alguma maneira selecionado pelo cosmos para passar por essa experiência para benefício de outras pessoas. Ocorreu que esse particular corpo-mente foi escolhido e porque foi assim?
- Eu não sei se ele foi escolhido. Isso poderia sem dúvida ter ocorrido com qualquer “mim” em qualquer parte do mundo que reconhece que essencialmente seu senso de identidade fosse, em grande extensão, ilusório e então a realização está lá. Por que a realização ocorreu a essa ilusória identidade em particular, eu não sei. Eu realmente nunca me fiz essa pergunta. É um mistério...

-Você nunca se fez essa questão no passado mas nesse momento, quando você dá uma olhada nela, você tem alguma idéia de porque há muitas pessoas que entendem o que você disse sobre seus pânicos, ansiedades, e que tem o senso do pequeno “mim”, mas embora rezem para ter a mesma experiência que você teve, ao passarem por isso nada lhes acontece e acordam na manhã seguinte da mesma forma que estavam e talvez se tornem membros da Eckhart Tolle TV. Vêem o que lhe aconteceu como algo único. Para você é isso tão somente um mistério?
- Sim. Talvez a forma estava pronta mediante vidas passadas de um modo ou de outro. Eu nunca investiguei sobre vidas passadas porque eu perdi o interesse no passado. Bem pode ser que a forma tenha sido preparada para isso e essa seja a razão de porque isso aconteceu. Eu seria relutante em dizer que esse foi realmente o caso porque isso significaria que o único modo em que você poderia realmente despertar seria se você tivesse suficientes encarnações. O Ensinamento está realmente realçando que virtualmente qualquer um pode despertar , não tão drasticamente quanto aconteceu aqui, mas que quase todos podem, pelo menos, entrar no processo de Despertar sem ser uma entrada extrema. Sim, algum grau de prontidão é requerido. Mas qualquer um que leia um livro como “O Poder do Agora” ou qualquer outro livro espiritual que tenha sido escrito a partir de um profundo lugar de realização; em qualquer um que leia isso, que esteja aberto e reconheça a verdade essencial nisso, em qualquer um dirigido ao ensinamento espiritual, há uma abertura ali. Mas há ainda milhões de pessoas que ainda nem tocaram em livros espirituais e mesmo se o abrissem lhes seriam totalmente sem sentido, então eu não estou falando dessas pessoas, pois sem dúvida elas terão que esperar mais um tempo. Mas em outros em quem há uma abertura, o processo de despertar pode começar, eles podem entrar no processo de abertura e isso é tudo que é necessário. Eu não posso me ver como “o escolhido”, há algo dentro de mim que diz não a isso. Mas eu posso estar errado.

- Eu tive a oportunidade de te entrevistar cerca de dez anos atrás e uma das coisas que você colocou então foi que depois deste despertar você experimentou uma redução de cerca de oitenta por cento de sua atividade mental. Eu estou curiosa a respeito de como é a vida para você em termos de seu relacionamento com os pensamentos. Literalmente não há nenhum pensamento ou os pensamentos passam e nenhuma atenção lhes é dada. Qual a diferença de por exemplo você estar num aeroporto ou relaxando em casa....
-Sim, sim. Bem, há longos períodos sem pensamentos e eu posso funcionar nesses estados. Por exemplo você falou no aeroporto eu posso perfeitamente fazer meu “check-in”, ir para a revista da segurança e ir para aonde for sem nenhum pensamento. Isso não é incomum. Eu vou fazer algo ou entro no carro e dirijo para uma loja para comprar algo e virtualmente sem pensamentos. Isso não é incomum. Ocasionalmente pequenos fragmentos podem surgir como pequenos estalidos de nuvens e então eles vão. Pode ser, por exemplo, eu estar sentado em casa sem fazer nada e ocasionalmente os pensamentos podem fluir para dentro e para fora do estado da atenção como pequenas lufadas de nuvens surgindo de tempos em tempos no céu azul e então se vão... Eu não sigo os pensamentos e eles nem mesmo tentam mais prender minha atenção, como é o caso das pessoas que estão ainda fortemente identificadas com os pensamentos. Cada pensamento te puxa aonde você vá. Os pensamentos já não tem muito mais a capacidade de puxar. Quando eles aparecem há um céu azul e as nuvens aparecem e desaparecem... Eu posso mesmo ter ocasiões de uma cadeia de pensamentos, em certas situações ou nem mesmo conectadas com que aconteça fora de mim. Pode haver ocasiões onde há certas sequências de pensamento... Mas, de novo, são inofensivos. Não são pensamentos que tem esse empuxo gravitacional que você tem que segui-los com sua inteira atenção. Sim, de tempos em tempos podem mesmo haver nuvens no céu azul mas essas nuvens não são mais nuvens de um tempo pesado que eu tive no meu passado e que outras pessoas podem reconhecer em toda a sua vida. Elas são mais como inocentes pequenas nuvens pulsantes mas nenhum pensamento importa muito. E então eles desaparecem. Não são amplificados por serem empurrados para cima e identificar-se com eles, nem então se tornam pesados e o tomam em possessão. Então eu nunca sinto que qualquer pensamento está me tomando em possessão.
Então, para sumarizar: penso que qualquer um que entrasse no meu estado interior ficaria surpreso quão pouco pensamento realmente há, comparado com o que ainda há nas maiorias das pessoas “normais” em um “quase contínuo”. Sim há alguns pensamentos, mas quando há não há mais um peso que há quando você se identifica com os pensamentos, e há um empuxo gravitacional e se desenvolvem em fluxos e você se perde completamente neles. Isso não acontece. Então o “não pensar” é o predominante a não ser que haja algo específico para se pensar. Ocasionalmente, sim, as nuvens vem e vão mas há sempre o estado de atenção do céu. Eu posso estar andando na floresta em contato com a natureza: olhando ao redor... andando... olhando... um cachorro... Nenhum pensamento... as árvores, as flores, há vida nelas... vendo o seu campo de energia... E então um pensamento pode vir: Oh! quando eu for para casa eu preciso fazer isso... Eu preciso comprar algumas bananas mais tarde... Ok, então ele se vai... Hum... Então algum outro pensamento vem ... Pode ser qualquer coisa, um caminhante que eu tentei contatar um outro dia ... Então ele se vai de novo... Então vem e vai. Predominantemente há o estado de atenção que é muito melhor que o pensar.

- Nunca lhe aconteceu que um pensamento tivesse um “anzol” que lhe puxasse pela garganta do tipo: eu esqueci de fazer tal coisa e então...?
- Boa pergunta. Eu tive experiências no passado em que ocasionalmente algum pensamento fisgasse - o que é uma boa analogia - querendo mais de mim do que tão somente aparecer e desaparecer. É como algo assim... ele puxa e deixa. Usualmente eu o noto e há uma intensificação da presença, nesse momento há uma escolha da consciência em estar mais intensamente presente. O mesmo acontece quando no dia a dia um desafio aparece, algo dá errado e o desafio vem; o que de outro modo poderia se desenvolver num pequeno drama. Usualmente isso nem é mesmo uma escolha da consciência, isso acontece naturalmente e imediatamente há uma intensificação da presença. Isso é algo que eu não tinha mencionado antes: Isto é a tomada do nível normal de presença que é quando o desafio surge, o que eu chamo algumas vezes de “chave reguladora”  é aumentada e há uma mais intensa presença quando o desafio chega. Porque somente a intensa presença pode dar conta do pensamento que assim surge. Não há como descrever como é um aumento de presença mas eu posso representá-lo. A presença normal é assim...(ET encena com os olhos), uma presença mais intensa é ...(ET encena observando mais atento), e de volta ao normal...e mais intensa... A presença mais intensa se torna uma espada afiada que é rodeada pelo pandemônio (rsrs). Isso é requerido se há um puxão muito forte do pensamento dizendo: “venha cá, eu vou te conduzir a um lugar maravilhoso chamado drama e infelicidade, siga-me.  Você vai adorar”. Você não pode brigar com isso: “Não! Vá embora!”. Assim lhe dá mais poder. Você tão somente... Você tem que ter essa coisa feroz. A presença se torna uma presença feroz. Como era antes, a presença era meiga. Uma presença meiga.

-Você notou que tipos de pensamento aconteceram em sua vida que requereram esse aumento de intensidade da presença?  Eu não estou sendo pessoal aqui...
- Bem...o incompreensível mundo pessoal das finanças; ter que ver minhas contas amanhã por exemplo, e não compreendendo toda aquela papelada e assim por diante... E a atenção da mente para tudo isso. E então eu percebi que tinha que voltar para a presença. Isso pode ser um exemplo.

- E sem dúvida você ensina algumas abordagens para se obter essa presença...  O que você faz para ampliar a presença, você tem uma abordagem padrão para intensificá-la?
- Eu posso dizer que às vezes eu faço e às vezes simplesmente acontece. Mas eu não posso dizer o como disso porque não há um “como”. Se você não faz isso eu posso recomendar para alguém estar mais intensamente presente no seu corpo interior, mas no meu caso eu não fico dizendo: “ok eu preciso ter uma presença mais intensa no meu corpo”. Simplesmente acontece sem nenhuma etapa intermediária. Eu posso mesmo fazê-lo aqui. Eu posso estar com uma presença meiga normal e eu posso demonstrar uma presença mais intensa que é a “navalha afiada”. Não requer nenhuma etapa. Acontece imediatamente. São ambas as presenças muito prazerosas. E você pode ter... vamos dizer... Eu estou participando numa conversação e então a presença está no fundo. Então eu posso estar falando ou contribuindo para a conversa e a presença está lá como um senso de vitalidade o que eu muitas vezes chamo de “sentir o espaço interior”. Isso é vital porque caso contrário a mente toma conta. Afortunadamente isso não acontece mais.

-  Uma das coisas que eu descobri sobre você nesse meu trabalho aqui na Eckhart Tolle TV, e passei a te conhecer melhor nos últimos anos, é o quão afinada e precisa é a sua mente. No princípio eu não notei isso e penso ser porque seu ensinamento é sobre explorar o espaço entre os pensamentos. Por exemplo quando você conta uma história ou quando você ensina num livro, você é muito exato. Você acha que há uma relação entre o espaço de sua mente e a exatidão e a precisão de sua mente e qual pode ser a causa dessa relação?
- Quando há o senso de espaço você pode atuar melhor: mais precisa, mais simples e mais vigorosamente do que... vamos comparar por exemplo com um motor de um carro em que o dono senta no carro e a maioria do tempo fica em ponto morto e põe o pé no acelerador só para ouvir o barulho do motor e fica assim por horas: Vurrr... Vurrr... Vurrr... não indo pra lugar nenhum. E quando ele tem uma necessidade de ir para algum lugar o motor não está mais eficiente porque esquentou demais. O mesmo se aplica à mente. Esse contínuo mau uso da mente. Você nem mesmo pode chamar de uso porque a mente foi assumida. E a cada hora do dia há o contínuo fluxo de um montão de pensamentos inúteis, repetitivos e mesmo negativos. E quando essa pessoa que está perdida nessa inútil, densa e repetitiva corrente de “barulho mental” tem que realmente aplicar sua mente, para analisar algo, relacionar algo ou achar a solução para um problema - pois certas situações requerem pensamento - e aí ele não está mais eficiente porque a máquina de pensar foi mal usada e perdeu sua precisão e sua potência. Então eu estou usando uma melhor analogia e acredite-me isso é verdadeiro. minha mente se sai melhor agora do que quando eu estava na universidade. As pessoas dizem: bem, você perde seu poder mental quando vai envelhecendo. Eu não acho isso. Meu poder mental aos meus vinte anos era menor do que é agora e eu posso ser mais criativo agora do que podia ser então.

- Ok, Eckhart. Acho que tivemos uma boa noção de sua mente e agora eu gostaria de falar sobre as emoções. Alguns professores que enfatizam a des-identificação ainda valorizam uma total gama de experiências com emoções. A abordagem tântrica: induzir a raiva, induzir o desejo, induzir a tristeza trazem diferentes nuvens desses sentimentos, mas com você não é assim em termos da gama e da profundidade da experiência com emoções. Não é desse modo! Eu já senti.
- É relativamente pouco e quando acontece é muito breve. Ela pode vir, digamos, ira em algumas raras ocasiões, como um flash que atravessa e passa. O pensamento não a segura e começa a amplificá-la e prolongá-la. Alguma emoção que surge, tristeza talvez quando vejo uma mulher sofrendo, a tristeza surge, eu posso chorar - ocasionalmente eu choro quando estou vendo um filme. Então a emoção está lá, surge e passa; dura um minuto, dois minutos ou menos. E isso é raro realmente e não acontece frequentemente nenhuma forma de emoção. Isso não significa que eu estou morto por dentro. Se não houvesse a Presença e também não houvesse emoções eu estaria morto por dentro. Então, se você não tem nenhuma presença nem nenhuma emoção isso significa que não está verdadeiramente vivo por dentro. Mas se há Presença e Conhecimento em você, essa é a fonte primordial da Vida. E comparado a isso a emoção é tão somente uma turbulência dentro dessa Vida primordial. Se você não tem acesso à fonte primordial da Vida então você precisa da turbulência para lhe dar algum sentido de vida. E isso é o porque muitas pessoas precisam desse drama diário ou desse drama semanal ou drama nos relacionamentos, para se sentirem ainda vivas. Sem o drama tudo parece morrer. Então as pessoas amam esse drama. Elas o criam inconscientemente na sua vida diária porque pelo menos isso lhes da algum sentido de vida. “Eu fico excitado com os meus problemas e falo sobre eles, pelo menos assim eu sei que estou vivo. Eu não tenho isso. Você realmente não precisa dessas coisas tendo essa Presença. Então, dentro do campo da Presença ocasionalmente um pouco de turbulência acontece, mas é raro e é assim que eu experimento isso. Eu não quero pronunciar um julgamento sobre as pessoas que dizem que estão na Presença mas são indulgentes com todos os tipos de emoções. Eu não estou dentro deles então eu não posso realmente dizer o que eles querem dizer com isso: É só uma justificação para a perda de estado de consciência ou é tão somente pelo fato que eles amam se entregar às emoções apesar do fato de estarem em estado de consciência. Eu teria que entrar nessas pessoas para saber como elas experimentam isso e assim não quero pronunciar um julgamento sobre isso. Muitos dias passam sem que eu tenha uma emoção em particular. É muito mais comum eu não ter nenhuma emoção. A propósito, sentir empatia com outro ser humano, sentir amor ou uma gentileza amorosa com outro ser humano eu não vejo como uma emoção. Emoção é a necessidade de uma ligação com outro ser humano. Mas o fluir de gentileza amorosa ou amor endereçado a outro ser humano não é uma turbulência, é algo profundo que emerge do reconhecimento que a Consciência que eu sou é a essência do que também você é. Quando eu estou amando é a consciência amando a si mesma. O que eu amo no meu cachorro... quando eu olho pro meu cachorro além da sua agradável e macia pelagem, o que faz adorável tocá-lo, mas quando eu olho nos olhos do cachorro, há algo que eu amo no cachorro que é mais que seu pelo ou seus tecidos ou seu sangue e ossos que estão lá. O que está sob aquela pelagem é tão somente uma bagagem de órgãos e ossos, tecidos, sangue que não são os mesmos do ser humano e que não é o que você ama, mas o que você ama no cachorro é a consciência do cachorro que eu posso ver lá. Dentro das limitações da forma do cachorro há uma consciência emergindo e eu posso ver a mim mesmo dentro dessa diferente forma. E é o mesmo quando você olha outro ser humano. Há uma conexão interior. Para mim não é de modo algum uma emoção que não é tão profunda quanto isso. Eu amo tantas coisas que não estão conectadas com os humanos. Eu não tinha falado sobre isso ainda porque isso chega a mim e é tão natural que eu não penso sobre isso. Eu amo objetos inanimados. Muitas vezes eu pego alguma coisa e o seguro por alguns segundos porque amo a sua presença. Uma pasta de dente, pode ser um livro, não pelo que está escrito nele mas pela sua simples presença física. Pode ser qualquer coisa: a mesa, ... Então o mundo é... Há um aspecto que eu diria que é o senso de vida no mundo que você habita. E não estou reduzindo tudo a sua volta para uma finalidade “isto é”: eu estou usando isso ou aquilo para esse propósito, para me levar lá... mas é apreciar as coisas pelo que elas são e não pelo que elas podem fazer para você. Então isso faz você amoroso para as coisas. A apreciação das coisas. Mas tudo isso não é emocional. Não há emoção aí. A emoção pode ser parte, mas o mais profundo fundamento para a conexão entre seres humanos é a Atenção, a Presença, a Consciência que os conecta. Em acréscimo a esse fundamento pode haver emoções flutuando na superfície, mas elas não são o ponto focal, elas não são a coisa principal que os conecta. Eu não quero criar a impressão para ninguém que ele deve livrar-se de suas emoções. Não é assim que funciona. Algumas pessoas melancólicas podem pensar que algo como a tristeza pode ser bonito e interessante e que vale a pena passar algum tempo com isso. Mas para você é como uma formação de nuvem que passa. Sim, sim. Eu não sinto que ser atraído pela música seja emocional. Então eu não tenho medo das emoções. Mas há um lugar que é mais profundo que qualquer emoção e permanentemente cheio de vida e não algo temporariamente alto e temporariamente baixo como são as emoções.

- O que você parece dizer, sem um específico julgamento, é que as pessoas que se satisfazem em “levar suas emoções para um passeio” é porque representam com isso um substituto para o Despertar e para a Vitalidade.
- Sim, e tanto quanto lhes diz respeito elas estão certas porque estão conectadas com esse senso substituto de vitalidade e pelos menos há alguma vitalidade nelas. Assim ao invés de estarem “mortas” há algum drama nelas.

- Eu tenho agora uma questão diferente. Algumas pessoas que experimentaram algum grau de despertar parecem ainda manifestar tempos difíceis em algumas áreas de suas vidas: pode ser nos seus negócios ou nos seus relacionamentos ou pode ser na saúde física e a abertura espiritual que elas tocaram parecem não ter penetrado nesses outros aspectos de suas vidas. Você pensa que o toque espiritual na pessoa resolve os outros problemas ou ao mesmo tempo é importante para as pessoas trabalharem o seu aspecto psicológico, sua saúde física, preocuparem-se com a nutrição... Isso acontece naturalmente?
- O despertar espiritual não resolve imediatamente todos os problemas e também não significa que a sua vida dai em diante será livre de desafios. Então os desafios continuam. Não é também que você se verá em contínuas situações de disfunção, o que é pouco provável quando você está desperto espiritualmente. Mesmo se você está relativamente consciente e não totalmente desperto é pouco provável que você se veja em longos períodos de tempo ou a maioria do tempo em estado disfuncional ou em situações desagradáveis de drama e assim por diante. No entanto os desafios continuarão. A vida continuará a lhe dar desafios o que é parte de “se estar aqui como forma física”. Então não haverá nenhum fim para qualquer desafio de qualquer tipo. Eles virão de tempos em tempos. Não é que o despertar espiritual remova todos esses desafios, ele realmente incrementa a sua vida imensuravelmente mesmo em um nível mais externo em grande extensão mas os desafios ainda aparecem. E em qualquer nova situação que você vá haverá alguns novos desafios que surgem aí. O despertar espiritual não significa que isso não acontecerá. O que acontece com o despertar espiritual é que mesmo que você seja confrontado com o desafio, o desafio é visto dentro do contexto da mais profunda dimensão interna transcendente. Há um espaço no qual o desafio não é visto como uma coisa gigantesca que ocupa completamente a sua atenção. Está aqui como desafio mas dentro do espaço da Presença. Você primeiramente habita na Presença, você não habita no problema. Isso é porque o desafio não se torna um problema. Ele permanece um desafio. Então você permanece enraizado na dimensão transcendente e de lá você faz o que pode, se é que haja algo a fazer, para lidar com o desafio. Também você nunca encontra situações na vida que são totalmente satisfatórias. Você nunca encontrará uma localização física que seja totalmente satisfatória; você nunca encontrará uma situação de vida que seja totalmente satisfatória;mesmo relações que sejam totalmente satisfatórias; ou uma atividade que seja totalmente satisfatória, você não poderá nunca encontrar isso. Não importa onde você vá ou o que você faça sempre encontrará elementos de insatisfação. Isso é parte da “vida na forma”, na qual cada forma é limitada. Não é o caso de acreditar que quando da realização espiritual o elemento de insatisfação irá desaparecer de sua vida exterior. Não, ele permanece. Mas isso não é mais um problema pois é tudo visto num contexto mais amplo no que eu algumas vezes chamo de dimensão transcendente. Em outras palavras: sua felicidade ou seu senso de satisfação nunca derivará das condições de sua vida. Mas é ai, nas condições da vida, que as pessoas, antes de despertarem, buscam por satisfação. Quando não estão despertas elas buscam por satisfação nas condições de suas vidas. Por um instante elas a acham aqui, por outro instante as acham ali, mas as condições de vida, em última instância, sempre proverão mais insatisfação. E é um fato que por fim tal produzirá mais e mais sofrimento e o sofrimento por fim produzirá o despertar. Portanto fica tudo certo. Mas o fato é que as condições não podem lhe dar felicidade e satisfação porque haverá sempre algo que falta. A diferença entre estar ou não desperto ou entre um ser humano inconsciente e um que já é de algum modo um ser humano mais consciente é que o inconsciente continua a procurar as condições adequadas como um pré-requisito para a felicidade. Um ser humano desperto já não mais busca pelas perfeitas condições em sua vida porque a sua felicidade, satisfação, alegria, vitalidade ou paz ou como você queira chamar ele não mais necessita derivá-las das condições de sua vida, mas elas vem da consciência incondicionada e da presença vivente que você experimente, que você é: a consciência em si mesma. Essa é a definitiva satisfação e essa é a dimensão transcendente da vida – sem forma. Não tem nada a ver com as condições de sua vida. E então você passa a ter um espaço de relacionamento com as condições de sua vida, sem estar agarrado às condições ou sem se tornar repelido pelas condições. Você pode ter um espaço de relacionamento com as condições, permitindo-as serem o que são nesse momento, por um instante, em toda a sua amorosidade ou em todos os seus defeitos: algumas vezes algo está faltando ou algo está errado nelas. E a vida se torna pela primeira vez satisfatória porque você não está mais dependendo das condições de sua vida para sua satisfação ou felicidade. E isso é uma grande liberação. Então há um erro de percepção nas pessoas que pensam que quando despertarem espiritualmente tudo em volta será absolutamente excelente. Não. Não é da natureza do mundo das formas ser desse modo. É uma contínua flexão. É uma contínua mudança. Nada permanece. O que é absolutamente excelente hoje não o será amanhã ou no próximo ano. E você não precisa disso. O que você precisa é estar em contato com aquilo que transcende todas as condições. E isso Buda também coloca muito claramente nos seus ensinamentos.

- Depois do seu despertar você não precisou de ver um terapeuta para um problema psicológico ou ver um instrutor físico para isso ou aquilo, para trabalhar algo que restava ainda problemático?
- Não. Nunca me ocorreu que eu precisava buscar ajuda para algo a nível psicológico. Eu poderia buscar ajuda para o meu corpo pois ele não é absolutamente um corpo perfeito. É um pouco torcido aqui ou ali... Mas eu estou bem assim. Não me causa absolutamente muitos problemas. Pode ser que poderá acabar causando algum problema... Alguns amigos me dizem que eu deveria ver um fisioterapeuta. Poderia ajudar, mas de algum modo eu não gosto que meu campo de energia seja invadido por alguém não importando quão consciente o fisioterapeuta possa ser ou quão excelente seja seu trabalho. Eu tenho uma relutância em ter meu campo de energia invadido por isso. Eu não estou dizendo que haja necessariamente grande sabedoria nisso mas é tão somente uma característica minha.

 - Bem vamos à pergunta final. Em se falando da sua (-)experiência pode ser que haja um intervalo entre as muitas pessoas no processo de despertar e a dramática experiência de Eckhart Tolle. Eu quero ter uma possível visão ampla sobre isso. Então quão individual você acha que o despertar pode ser?
- Parece que pode ser muito diferente em relação a cultura e ao lugar onde ocorre... provavelmente o que acontece no Despertar deve ser o mesmo em qualquer ser humano, mas o modo pelo qual esse ser humano então interpreta o que acontece ou o modo em que fala sobre ele pode ser bem diferenciado, Vai depender do contexto cultural ou particular forma de espiritualidade dessa pessoa. Por exemplo se o despertar acontece a alguém num “ashram” na Índia pode ser interpretado bem diferentemente. Ou alguém que é cristão poderá falar do “nascimento de Cristo em mim”, pode dizer: “eu subitamente tive essa incrível sensação de Cristo entrando em mim”. Esse poderia ser um modo de interpretação do processo de despertar. O que não seria inteiramente errado porque se Cristo significa o homem transcendente - Jesus se tornou O Cristoo Cristo não se refere ao passado mas sim à realidade transcendente. E mesmo Paulo disse no Novo Testamento algo como: “ Eu devo diminuir e Cristo em mim deve crescer”. Eu falo sobre isso e outro que fala sobre isso e pode parecer como se fosse totalmente diferente, mas fundamentalmente não é. É somente quando aquilo que aconteceu na “não forma” chega a dimensão da forma é que pode parecer diferente de pessoa a pessoa. Mas a des-identificação fundamental com as formas mentais pode ser a mesma. Porque é somente então que a Consciência Crística ou a Natureza Búdica, ou como quer que você a chame, então subitamente nasceu em você. Não importa o modo que você a chame e isso é belo. Então essa é uma parte da resposta. A segunda parte é o que essa pessoa faz com esse estado de despertar, como esse estado de despertar funciona naquele particular ser humano, quando esse ser humano interage no mundo com outros em situações que também variam muito. Então nem todos que despertam escrevem um livro ou se tornam um instrutor espiritual formal. Pode ser bem diferente. Pode ser que alguma criatividade emerja em você e você trabalhe com um grupo de pessoas. Pode haver inúmeras possibilidades que variam de pessoa a pessoa. Pode ser também que algumas poucas características pessoais perdurem. Você não tem mais o ego então não está identificado com elas, mas certos negócios que você tinha antes podem perdurar depois do despertar. Isso aconteceu mesmo na Índia com um famoso instrutor espiritual. Ele queria deixar de fumar antes de despertar e queria deixar de fumar depois de seu despertar. Ele morreu sem dúvida porque fumava muito. Então há variações na superfície mas o núcleo é o mesmo, eu estou certo disso, o que acontece profundamente em você é o mesmo com todos no processo de despertar.

- O que você pode dizer para as pessoas que estão almejando por um mais profundo processo de despertar?
- Bem o almejar pelo despertar já é parte do despertar. Então se você está almejando pelo despertar a porta já está lá um pouco aberta. Porque de outra forma você pertence a esses milhões que não somente não tem nenhum desejo de mudança como mesmo decisivamente não gostam de nenhum conceito de despertar ou nunca ouviram sobre isso e nem mesmo entrou em sua consciência. Então se há um desejo de despertar você já o está tocando e ele já está começando a acontecer porque o desejar está lá, porque você já está reconhecendo que algo que nós estamos dizendo aqui é verdade e você imediatamente diz: Sim... Em algum nível você pode sentir que há uma verdade aqui sobre a condição humana e sobre você. E isso em você, que já pode sentir isso, é aquela parte que já está desperta. E isso precisa crescer em você, mas não acredite no que sua mente pode estar lhe dizendo que você não está lá ainda de modo algum. Sim, você está ouvindo isso e diz: Sim! Isso significa que parte de você já está despertando. Então não acredite em sua mente, porque a mente não sabe disso, pois a mente pensante não pode reconhecer o despertar, e diz: “Eu preciso despertar”... Já está acontecendo!! Então reconhecer isso será de grande ajuda.

- Obrigado Eckhart por essa entrevista.
- Obrigado! 

Transcrição de Paulo Azambuja, editor do segmento do vídeo original e tradução, gentilmente cedidos. http://pauloaza.blogspot.com