Falamos do sonho em pelo menos 5 postagens :
O Sonhar, O Sonho, Portal da Consciência, O Sonho - Visão Tolteca, O Sonho - Visão Budista, e finalmente O Sonho e o Rupigwara. Hoje vamos falar do "ensonho", na visão de Dom Juan no livro Passes Mágicos, de Carlos Castaneda:
"Dom Juan Matus definia sonhar como o ato de usar sonhos normais como uma autêntica entrada para a consciência nos outros domínios de percepção. Para ele, essa definição implicava que os sonhos comuns podiam ser usados como uma portinhola que conduzia a percepção para outras regiões de energia diferente da energia do mundo da vida cotidiana e, no entanto, absolutamente semelhante a ela em um núcleo básico. Para os feiticeiros, o resultado de uma tal entrada era a percepção de mundos verdadeiros nos quais eles podiam viver ou morrer, mundos que eram estarrecedoramente diferentes dos nossos e, no entanto, absolutamente semelhantes.
Pressionado por uma explicação linear sobre essa contradição, Dom Juan Matus reiterava a posição padrão dos feiticeiros: de que as respostas para todas essas perguntas estavam na prática e não na inquisição intelectual. Ele dizia que, para conversarmos sobre tais possibilidades, precisaríamos usar a sintaxe da linguagem, qualquer que fosse a linguagem que falássemos, e que aquela sintaxe, pela força da utilização, limita as possibilidades de expressão. A sintaxe de qualquer linguagem só se refere a possibilidades perceptivas encontradas no mundo em que vivemos.
Dom Juan fazia uma importante diferenciação entre dois verbos em espanhol: um era sonhar ( soñar) e o outro era ensonhar (ensoñar), que é “sonhar da maneira que os feiticeiros sonham”, ou seja, o sonho lúcido, consciente, uma abertura para outros mundos e uma área de atuação e evolução como é este.
De acordo com o que Dom Juan ensinava, a arte de sonhar se originou de uma observação muito casual que os feiticeiros do antigo México fizeram quando viam pessoas que estavam adormecidas. Eles notaram que durante o sono o "ponto de aglutinação" era deslocado, de uma maneira muito natural e simples, da sua posição habitual e que se movia para qualquer lugar ao longo da periferia da esfera luminosa ou para qualquer lugar no interior dela.
(NR – o ponto de aglutinação é o ponto luminoso onde a percepção e interpretação dos dados sensoriais é agrupada no corpo energético dos seres)
Correlacionando a sua visão com os relatos das pessoas que tinham observado dormindo, eles perceberam que, quanto maior o deslocamento observado do ponto de aglutinação, mais estarrecedores eram os relatos dos acontecimentos e cenas vivenciados em sonhos.
Após essa observação se apoderar deles, os feiticeiros começaram a procurar avidamente oportunidades para deslocarem os seus próprios pontos de aglutinação. Acabaram usando plantas psicotrópicas para conseguir isso. Muito rapidamente perceberam que o deslocamento ocasionado pelo uso dessas plantas era errático, forçado e fora de controle. Contudo, no meio desse fracasso, descobriram uma coisa de grande valor. Chamaram-na de atenção ao sonhar.
Dom Juan explicava esse fenômeno referindo-se primeiro à consciência diária dos seres humanos como a atenção colocada nos elementos do mundo da vida cotidiana. Ele salientava que os seres humanos só lançavam um olhar superficial e, contudo, sustentado para todas as coisas que os cercavam. Mais do que examinar as coisas, os seres humanos simplesmente estabeleciam a presença daqueles elementos através de um tipo especial de atenção, um aspecto específico da sua consciência geral. A sua
legação era que o mesmo tipo de "olhar", por assim dizer, superficial mas sustentado podia ser aplicado aos elementos de um sonho comum. Ele chamava esse outro aspecto específico da consciência geral de atenção ao sonhar ou da capacidade que os praticantes adquirem de manter a consciência inflexivelmente fixada nos itens dos seus sonhos.
O cultivo da atenção ao sonhar deu aos feiticeiros da linhagem de Dom Juan uma classificação básica dos sonhos. Descobriram que a maior parte dos seus sonhos era imaginação, produtos da cognição do seu mundo diário. Entretanto havia alguns que escapavam a essa classificação. Tais sonhos eram estados verdadeiros de consciência intensificada nos quais os elementos do sonho não eram simples imaginação, mas ocorrências geradoras de energia. Para os xamãs, os sonhos que tinham elementos geradores de energia eram sonhos em que eles eram capazes de ver a energia como ela fluía no universo.
Esses xamãs eram capazes de focalizar sua atenção ao sonhar em qualquer elemento dos seus sonhos e, dessa forma, descobriram que existem dois tipos de sonhos. Um são os sonhos com os quais todos nós estamos familiarizados, nos quais elementos fantasmagóricos entram em ação, algo que poderíamos categorizar como produto da nossa mentalidade, da nossa psique; talvez algo que tenha a ver com a nossa constituição neurológica. O outro tipo de sonhos eles chamavam de sonhos geradores de energia. Dom Juan dizia que aqueles xamãs dos tempos antigos se descobriram em sonhos que não eram sonhos e sim verdadeiras visitas feitas, em um estado parecido com o sonho, a lugares autênticos que não eram deste mundo - lugares reais, exatamente como o mundo no qual vivemos; lugares onde os objetos do sonho geravam energia assim como, para um feiticeiro vidente, as árvores, os animais ou até mesmo as rochas geram energia no nosso mundo diário.
Entretanto, para os xamãs, suas visões de tais lugares eram efêmeras demais, temporárias demais para lhes serem de algum valor. Eles atribuíam essa falha ao fato de que os seus pontos de aglutinação não podiam ser mantidos fixos por qualquer tempo considerável na posição para a qual tinham sido deslocados. As suas tentativas de remediar a situação resultaram na outra arte magna da feitiçaria: a arte de hastear.
Um dia Dom Juan definiu as duas artes com muita clareza quando me disse que a arte de sonhar, consistia em deslocar propositadamente o ponto de aglutinação da sua posição habitual. A arte de hastear consistia em voluntariamente fazê-lo permanecer fixado na nova posição para a qual tinha sido deslocado.
Essa fixação permitia aos feiticeiros do antigo México a oportunidade de testemunharem outros mundos em toda a sua extensão. Dom Juan dizia que alguns desses feiticeiros nunca voltaram de suas viagens. Em outras palavras, optaram por permanecer lá, onde quer que "lá" possa ter sido.
- Quando os antigos feiticeiros acabaram de mapear os seres humanos como esferas luminosas - disse-me Dom Juan certa vez -, eles tinham descoberto nada menos que seiscentos locais na esfera luminosa total que eram locais de mundos genuínos. Isso queria dizer que, se o ponto de aglutinação se fixasse em qualquer um daqueles lugares, o resultado era a entrada do praticante em um mundo totalmente novo.
- Mas existem esses outros seiscentos mundos, Dom Juan? perguntei.
- A única resposta para essa pergunta é incompreensível - disse ele rindo. - Ela é a essência da feitiçaria, contudo não significa nada para a mente comum. Esses seiscentos mundos estão na posição do ponto de aglutinação. Para que tal resposta faça sentido, são necessárias incalculáveis quantidades de energia. Nós temos a energia. O que nos falta é a facilidade ou a disposição de usá-la.
Eu acrescentaria que nada poderia ser mais verdadeiro do que todas essas declarações e, no entanto, nada poderia fazer menos sentido.
Dom Juan explicava a percepção comum nos termos em que os feiticeiros da sua linhagem a entendiam: em sua localização habitual, o ponto de aglutinação recebe um influxo de campos de energia do universo como um todo na forma de filamentos luminosos, chegando ao número dos trilhões. Uma vez que sua posição é consistentemente a mesma, o raciocínio lógico dos feiticeiros era que os mesmos campos de energia, na forma de filamentos luminosos, convergem para o ponto de aglutinação e o atravessam proporcionando, como um resultado consistente, a percepção do mundo que conhecemos. Esses feiticeiros chegaram à inevitável conclusão de que, se o ponto de aglutinação fosse deslocado para uma outra posição, um outro conjunto de filamentos energéticos o atravessaria resultando na percepção de um mundo que, por definição, não era o mesmo do mundo da vida cotidiana.
Na opinião de Dom Juan, o que os seres humanos consideram normalmente como sendo perceber é mais o ato de interpretar dados sensoriais. Ele mantinha que, desde o momento do nascimento, todas as coisas ao nosso redor nos supriam com uma possibilidade de interpretação e que, com o tempo, essa possibilidade se transforma em um sistema completo através do qual conduzimos todas as nossas transações perceptivas no mundo.
Ele salientava que o ponto de aglutinação não era apenas o centro onde a percepção é agrupada, mas também o centro onde a interpretação de dados sensoriais é realizada. Sendo assim, se mudasse a localização, interpretaria o novo influxo de campos de energia nos mesmíssimos termos que interpreta o mundo da vida cotidiana. O resultado dessa nova interpretação é a percepção de um mundo estranhamente semelhante ao nosso e, no entanto, intrinsecamente diferente. Dom Juan dizia que, energeticamente, aqueles outros mundos são tão diferentes do nosso quanto poderiam ser. Só a interpretação do ponto de aglutinação é que é responsável pelas aparentes semelhanças:
Dom Juan sentia necessidade de uma nova sintaxe que pudesse ser usada para expressar essa assombrosa qualidade do ponto de aglutinação e as possibilidades de percepção ocasionadas pelo sonhar. No entanto ele admitia que, se essa experiência se tornasse disponível a qualquer um de nós e não simplesmente aos xamãs iniciados, a sintaxe atual da nossa linguagem talvez pudesse ser forçada a abrangê-la.
Uma coisa relacionada ao sonhar que era de tremendo interesse para mim, mas que me deixou completamente confuso até o final, era a afirmação de Dom Juan de que realmente não havia nenhum procedimento que ensinasse alguém como sonhar. Dizia que, mais do que qualquer outra coisa, sonhar era um esforço árduo por parte dos praticantes para se porem em contato com a indescritível força que a tudo permeia, que os feiticeiros do antigo México chamavam de intento. Uma vez que essa ligação estivesse estabelecida, sonhar também se estabeleceria misteriosamente. Dom Juan afirmava que essa ligação poderia ser realizada seguindo qualquer padrão que implicasse disciplina.
Quando lhe pedi que me desse uma explicação sucinta dos procedimentos envolvidos, ele riu de mim.
- Aventurar-se no mundo dos feiticeiros - disse ele - não é como aprender a dirigir um carro. Para dirigir um carro, você precisa de manuais e de instruções. Para sonhar, você precisa intentá-la.
- Mas como posso intentá-la? - insisti.
- A única maneira como você poderia intentá-la é intentando-o
- declarou ele. - Uma das coisas mais difíceis para um homem dos nossos dias aceitar é a falta de procedimentos. O homem moderno está nos paroxismos dos manuais, das praxes, dos métodos, dos passos que conduzem a alguma coisa. Está incessantemente tomando notas, fazendo diagramas, profundamente envolvido em saber como fazer. Porém, no mundo dos feiticeiros, os procedimentos e os rituais são meros esquemas para atrair e focalizar a atenção. São estratagemas usados para forçar uma concentração de interesse e determinação. Não têm nenhum outro valor.
Para sonhar, o que Dom Juan considerava ser de suprema importância é a execução rigorosa dos passes mágicos: o único estratagema que os feiticeiros da sua linhagem usavam para auxiliar o deslocamento do ponto de aglutinação. A execução dos passes mágicos dava àqueles feiticeiros a estabilidade e a energia necessárias para suscitar a sua atenção ao sonhar, sem o que, para eles, não havia nenhuma possibilidade de sonhar. Sem a emergência da atenção ao sonhar, o máximo que os praticantes poderiam aspirar era ter sonhos lúcidos sobre mundos fantasmagóricos. Talvez pudessem ter visões de mundos que geram energia, mas, para eles, elas não fariam nenhum sentido na ausência de um fundamento lógico abrangente que as categorizasse adequadamente.
Uma vez que os feiticeiros da linhagem de Dom Juan tinham desenvolvido a sua atenção ao sonhar, eles perceberam que tinham tocado nas portas do infinito. Tinham sido bem-sucedidos na ampliação dos parâmetros da sua percepção normal. Descobriram que o seu estado normal de consciência era infinitamente mais variado do que tinha sido antes do advento da sua atenção ao sonhar. Daquele ponto em diante, os feiticeiros poderiam verdadeiramente se aventurar no desconhecido.
- O aforismo "o céu é o limite" - disse Dom Juan - era mais aplicável aos feiticeiros dos tempos antigos. Certamente, eles se superaram.
- Para eles, era realmente verdade que o céu era o limite, Dom Juan? - perguntei.
- Essa pergunta só poderia ser respondida por cada um de nós individualmente - disse ele sorrindo efusivamente. - Eles nos deram as ferramentas. Depende de nós, individualmente, usá-las ou rejeitá-las. Em essência, estamos sozinhos diante do infinito e a questão de sermos ou não capazes de alcançarmos os nossos limites precisa ser respondida pessoalmente."
A vocação deste blog é ajudar os leitores, e o próprio autor, a preparar o terreno para o "estar presente", que acontece somente no momento fugidio do Agora - a porta estreita - de que as tradições falam. A diversidade de temas é proposital e tem dois objetivos: mostrar que não há só uma tradição exclusiva, e, se houver Intento, qualquer situação corriqueira da Vida é adequada para quem busca interiormente, até mesmo a de uma passista no desfile da escola de samba. - Arnaldo Preto
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domingo, 20 de outubro de 2013
O Ensonhar
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domingo, 26 de maio de 2013
Biografias "Malditas" - Paracelso
Este artigo tem como objetivo, em primeiro lugar, apresentar o perfil psicológico de Paracelso; em segundo lugar, sua contribuição, como médico, para um tipo de medicina à qual ele deu o nome de Medicina Espagírica. O significado pode ser uma medicina que tinha sua fundamentação na Alquimia, pois Espagírica significa um processo de separação: do grego "espao" e de reunir ou integração, do grego, "ageiros", que está relacionado com o termo latino de "coagula et solve". Eles têm o mesmo significado como processo alquímico.
A separação e a integração são processos que se sucedem tanto para ocasionar o isolamento do que Paracelso chamou de essência, que seria o elemento ativo do remédio e assim, conseguir esse elemento ativo na sua maior pureza possível para que também desse modo pudesse ter o maior efeito com o medicamento.
No que se refere à contribuição que Paracelso fez para a Medicina Psicossomática, é evidente que não se trata de uma Medicina Psicossomática tal como a entendemos hoje, na qual o homem é visto como um ser que tem várias dimensões e que essas dimensões não podem ser separadas umas das outras, pois constituem uma estrutura psico-bio-social sempre como uma estrutura integral, total ou, como se costuma chamar mais recentemente, como um processo holístico; como um sistema no qual todas as partes se relacionam e formam uma totalidade que, por sua vez, tem um efeito sobre essas partes.
Paracelso, o homem
Paracelso, cujo nome de batismo foi Theófhilo Bombastus Von Hoheinheim, nasceu em 1493 numa pequena cidade da Suíça, perto de Zurik. Colombo tinha chegado à América em 1492, por isso a infância, a adolescência e a idade adulta de Paracelso estiveram marcadas pelas conseqüências do descobrimento da América que permitiu comprovar na prática a teoria de que a Terra é uma esfera.
Ao mesmo tempo em que se comprovava essa teoria, também se começava a duvidar de conceitos teóricos também antigos que principalmente, dentro da medicina, tinham levado a área médica ao descrédito. Paracelso, que seguia a vertente hipocrática em que se afirma que o semelhante cura o semelhante, se dedica à arte médica espagírica em que, através de processos químicos, ele vai isolando e conseguindo que os princípios ativos de remédios fiquem praticamente puros para que, assim, possam exercer toda a sua ação curativa.
Paracelso viveu relativamente pouco. Aos 27 anos já foi nomeado professor na Faculdade de Medicina de Basiléia. Paracelso, como pessoa, é um iconoclasta, rebelde e criativo. A sua posição contra a medicina de Galeno de Abcena suscitou contra ele uma grande animosidade que determinou sua expulsão de Basiléia.
Isto o levou praticamente a viver como fugitivo durante alguns anos. Paracelso era um homem sumamente orgulhoso, altivo e de uma grande auto-suficiência. Tinha consciência do seu profundo saber em relação à medicina e também do seu profundo conhecimento da alquimia; por isso assumia atitudes que, para essa época, eram totalmente novas, inovadoras e, por isso, perturbava as expectativas das pessoas que o conheciam e, principalmente, dos seus alunos da Universidade.
Nunca foi dar aulas com a vestimenta característica dos doutores da universidade. Ia com roupas comuns muitas vezes manchadas pelas substâncias que utilizava nas suas experiências químicas. Não usava o latim para dar aulas; dava as aulas em alemão, misturado, muitas vezes, com expressões latinas. Seus discípulos na Universidade consideravam isso totalmente fora do padrão que esperavam de um doutor de Medicina. Essa atitude inconformista de Paracelso o levou ao radicalismo de queimar numa fogueira de S. João, de forma simbólica, os livros de Galeno de Abcena. Isto na presença de alunos da Medicina, que estavam em volta da fogueira comemorando a data.
Esta atitude naturalmente aumentou a apreensão e o receio que os alunos de Medicina tinham do Prof. Paracelso.
Diríamos que Paracelso, como pessoa, era um bom representante, um chamado tipo "uraniano", ou seja, uma pessoa excêntrica com relâmpagos de intuição e genialidade que desafia as convenções pelo excessivo sentimento de auto-suficiência.
Paracelso e a Medicina Espagírica
Paracelso fundamentou sua medicina sob 4 bases: a Filosofia, a Astrologia, a Alquimia, à qual ele deu o nome de Espagírica, e a virtude. Paracelso aprendeu a Medicina com seu pai que também era médico; estudou profundamente a cabala hebraica e aprofundou seus conhecimentos de química, trabalhando alguns anos numa mina. Como cirurgião militar, participou das guerras na Itália e nos países baixos.
Na sua atividade médica foi logo ficando famoso por realizar curas extraordinárias, como por exemplo, salvou a perna de Frobenius da amputação pelos médicos que tratavam dele e que já tinham decidido a retirada do órgão.
Pelo fato de Paracelso viver apenas 48 anos, a maior parte de seus livros foram publicados após sua morte. A divulgação dos livros determinou o aparecimento de muitos seguidores de sua arte médica, que se autodenominaram Paracelsianos e, assim, deram continuidade à Medicina Espagírica.
Como bom alquimista, Paracelso escrevia seus livros com o propósito de confundir aqueles que não estavam já iniciados com a terminologia de sua arte médica. Isto chegou a tal ponto que houve necessidade de publicar dois dicionários para esclarecer os significados dos termos usados por Paracelso.
Paracelso considerava que o homem é um pequeno mundo e tem seu céu, sua água, seu ar e sua terra, e é o equilíbrio entre esses elementos que formam o homem que determina a saúde e, por conseguinte, o desequilíbrio leva à doença. Esse mundo humano microcósmico está em relação com o macrocosmos, e essa relação entre o micro e o macrocosmos é sustentada por uma ënergia à qual ele dá o nome enigmático de "m". Essa letra "m", em hebraico "mem", deve ter sido utilizada por Paracelso por ser a letra inicial de Mercúrio e Magnéticos.
Esse mercúrio, princípio energia universal, se aprisionado pelo alquimista lhe permitiria ser o dono da transmutação. Esse "mem" encerra um grande segredo. Segundo Paracelso: "sabeis que existe ainda uma grande coisa que sustenta o corpo e o conserva em vida. Por "mem" vive o firmamento. Sem ele o firmamento pereceria. Chamamos "m" porque nada no universo foi constituído acima desta coisa. Nada é mais digno da compreensão humana que esse princípio "mem". Este "m" conserva todas as criaturas. Na Terra, todos os seres vivem nessa coisa e dela."
A etiologia das doenças segundo Paracelso
De acordo com Paracelso, são cinco entidades mórbidas das quais, pelo menos uma, é causa das doenças: causa astral, causa venenosa, natural, causa espiritual e causa divina.
Cada uma delas pode produzir qualquer doença. Por exemplo, as cinco icterícias serão tratadas com cinco modos diferentes de tratamento.
A causa astral, segundo Paracelso, é diferente da crença mantida na Idade Média, quando se considerava que os sete astros da Antigüidade constituíam diferentes causas mórbidas. Segundo Paracelso, a ação dos astros sobre o corpo humano não é direta; é uma ação indireta, pois no corpo humano temos sete órgãos que correspondem aos sete planetas. A ação maléfica do planeta vai primeiro num órgão correspondente para depois aparecer como doença.
O princípio "m" estaria entre as astros e os órgãos correspondentes.
A segunda causa, a venenosa, provém da alimentação: todo alimento, mesmo sendo benéfico, contém veneno para quem o utiliza.
Paracelso postula "um alquimista interior" que começaria sua ação no estômago para "solver e coagular" os alimentos, separando os venenos dos nutrientes.
Paracelso afirma: "Nosso corpo foi nos dado livre de venenos; uma coisa que não é veneno torna-se veneno para nós. Temos no corpo um alquimista interior colocado por Deus. Assim, separamos o veneno do alimento salutar, para que não soframos. Em todas as coisas, sejam elas quais forem sempre existe simultaneamente a essência e o veneno. A essência é o que sustenta o homem. O veneno, pelo contrário, o que derruba pelas doenças. Se o alquimista interior é fraco ou está debilitado, não consegue fazer a separação entre o veneno e o alimento salutar, aparece, então a putrefação, que é sinal da doença.
A terceira entidade mórbida causadora das doenças é a causa natural que é tudo que afeta ou desarranja o curso natural dos astros corporais. A correspondência entre os sete planetas e os sete órgãos do corpo é: a Lua corresponde ao cérebro, o Sol ao coração; Mercúrio aos pulmões; Marte, estômago; Júpiter, fígado; Vênus, rins; Saturno, baço.
Os astros no microcosmos se conduzem em relação uns com os outros, tal qual o macrocosmos. Da mesma forma que a lua reflete a luz do Sol, o cérebro, centro intelectual, reflete a luz do coração, centro emotivo.
Nesta afirmação de Paracelso, pode-se perceber o embrião de uma abordagem sistêmica, ou seja, de uma "rede de relações".
Os órgãos correspondentes aos planetas interagem entre si assim como fazem também os próprios planetas.
Enquadra-se a que Paracelso dentro da Medicina Psicossomática quando coloca a inter-relação entre o físico e o emocional, entre o intelectual e o emocional.
Cada órgão tem seu destino bem estabelecido, a sua evolução própria. Se um órgão se extravia e penetra na função de outro, determina o aparecimento de doenças. Inversamente, o Sol é o coração do macrocosmos, a Lua seu cérebro e existe na Terra minerais correspondentes aos sete órgãos planetários. Ouro, Sol, coração; prata, Lua, cérebro; Mercúrio, pulmões, mercúrio; Júpiter, estanho, fígado; Vênus, rins, cobre; Marte, estômago, ferro; Saturno, baço, chumbo. O que provém do coração do macrocosmos reconforta o coração do homem tal como acontece com o ouro.
A causa espiritual
A causa espiritual é uma potência vinda do espírito que atinge todo o físico. Quando o espírito sofre, o corpo sofre também. Este conceito de Paracelso está em conformidade com o princípio da Medicina Psicossomática atual.
O espírito, para Paracelso, não é nem a alma nem a inteligência, mas o homem invisível que encerra a aparência humana visível.
Diríamos hoje: é um corpo eletromagnético que age sobre o corpo físico.
Os espíritos comunicam-se entre si através dos próprios corpos e podem infligir-se mutuamente grandes danos capazes de torná-los doentes. Os enfeitiçamentos mostram essa possibilidade de ação sobre o espírito.
Paracelso explica a possibilidade da feitiçaria pela comunicação entre corpos eletromagnéticos. No caso da feitiçaria, estaria se recebendo ou lançando sobre outros corpos eletromagnéticos vibrações extremamente negativas.
Causa divina
A quinta causa das doenças vem de Deus. Tem o caráter de castigo. Nessa categoria, "toda doença é um purgatório", o que foi retomado por homeopatas no século XIX, que afirmam que a doença vem do pecado original. Quando a causa da doença vem de Deus, a doença só é curada quando a prova prescrita por Deus fica terminada.
Para denominar os três modos diferentes de ação na natureza, o modo cardinal é chamado enxofre; o modo fixo, sal e o modo mutável, mercúrio, que é um metal líquido que altera com muita facilidade a sua forma. O sal, para Paracelso, é o princípio mantenedor das formas no Universo. O enxofre é o princípio veiculador do movimento, do calor e a base do movimento.
O mercúrio é o princípio aumentativo, modificador, ligado, portanto, ao mutável. Paracelso afirma "é necessário administrar mercúrio às doenças que provém de mercúrio; sal às doenças que provém do sal e enxofre às doenças provenientes do enxofre, quer dizer a cada doença o tratamento adequado como convém. É necessário saber qual tipo de enxofre, sal ou mercúrio para tratar determinada doença."
A etiologia das doenças não é única. Pode uma doença provir do sal e do enxofre como também do sal, enxofre e mercúrio. A postulação de Paracelso que o igual cura o igual antecipa o princípio homeopático de Hannemann: "o semelhante cura o semelhante". O postulado de Paracelso deixa claro que além de ter criado a Medicina Espagírica, lançou também os fundamentos da Medicina Homeopática.
Além das cinco causas das doenças e das três modalidades de ação, Paracelso afirma que existe uma medicina masculina e outra medicina feminina, que o funcionamento do corpo masculino é muito diferente do feminino.
"As doenças das mulheres lhes são próprias. Todas as doenças da mulher são formadas e dadas pela matriz. Enquanto o homem é o microcosmos médio, a mulher é um microcosmos menor encerrado na matriz, refletindo esse microcosmos feminino, o microcosmos médio do homem, que por sua vez, reflete o macrocosmos. A matriz é o ser da mulher e há um cérebro feminino, um coração feminino nada idêntido ao do homem. No entanto, há doenças femininas que provêm do homem, que deverão ser tratadas de forma igual a que são tratadas nos homens. As jovens são herdeiras das doenças do pai."
Paracelso atribui também como causas de doenças a imaginação e a fé, só que rompe com o conceito popular que atribui aos santos o poder de cura.
Ele diz que se uma doença é curada pela fé é porque ela é ocasionada pelo mau uso da fé.
Em relação à cirurgia e ao conhecimento da anatomia humana, Paracelso tem uma conceituação que é extremamente atual. Ele achava que os anatomistas que pretendiam saber a anatomia trabalhando com cadáveres estavam perdendo seu tempo. Eles estavam fazendo uma anatomia da morte e não uma anatomia da vida.
Os cirurgiões que dissecam cadáveres não podem saber como os órgãos funcionam, como também não poderão saber como é o homem vivo. Deve-se observar o homem vivo e conhecer as suas reações, pois a base da ciência médica é a anatomia da vida. Observando-se o corpo humano desta maneira percebe-se que ele contém um bálsamo essencial: a múmia.
O princípio curador do ser humano está na carne, nos ossos, no sangue, ou seja, em todo o organismo. A múmia dos ossos cura os ossos partidos, a múmia da carne cura as chagas. Assim sendo, cada parte do corpo humano contém o princípio de cura. Esse princípio de cura seria um médico natural que existe em todo ser humano, que resolve os transtornos que acontecem no corpo. Por isso, o cirurgião deve se lembrar que não é ele que cura as chagas, é o princípio essencial que realiza a cura.
A múmia é o princípio onipresente da cicatrização e corresponde ao que os antigos chamavam de espírito do sangue.
Pode-se fazer um paralelo entre a múmia de Paracelso com o princípio de vida de Hipócrates e o princípio vital de Hannemann.
De sua experiência como cirurgião e movido também pela necessidade de diminuir o sofrimento dos feridos e baseando-se em seus conhecimentos da alquimia e química, Paracelso chegou a produzir em laboratório o éter sulfúrico e a partir dele foi usado como anestésico.
Também produziu em laboratório o cloreto de etilo com a mesma finalidade anestésica. Na farmacopéia de Paracelso, encontramos ao lado de grandes remédios, como os anestésicos acima mencionados e de remédios para hemorragias, usando compostos de ferro, também meios de cura que hoje em dia seriam considerados mera superstição. Colocava sapos vivos em cima de doenças da pele. Usava também a medicina simpática que consistia em tratar à distância os ferimentos usando um pano que tinha sangue do doente e mergulhava esse pano em uma solução com remédio.
Também preconizou o uso do musgo que crescia em crânios humanos para combater infecções. Com bastante benevolência, podemos entender isso como uma premonição do uso da penicilina. Possuía Paracelso uma farmacopéia secreta dando a esses remédios o nome de "arcana maiora" que, segundo ele, conseguiriam uma cura definitiva de certas doenças. Ao lado desses remédios de grande poder curativo, tinha também remédios que só conseguia deter a evolução das doenças.
Na elaboração dos remédios, Paracelso usava o processo químico de separar e reunir e, através de operações sucessivas, ele chegava a separar o princípio medicamentoso do vegetal.
Conhecia também Paracelso a Teoria das Assinaturas, que permite saber quais são os vegetais que estão em ressonância com determinados planetas do macrocosmos e, assim, poder usar esses vegetais na composição de medicamentos. As assinaturas, portanto, são formas adquiridas por vegetais e animais pela ressonância vibratória com as vibrações planetárias. No que se refere aos minerais, existem correspondências desde a Antigüidade com sete metais, como foi colocado antes. A correspondência planetas-metais foi usada no séc. XX por Rudolf Steiner na sua medicina antroposófica.
Embora Paracelso tivesse características pessoais que dificultavam o seu relacionamento com outras pessoas por causa de sua excentricidade e sarcasmos, conseguiu ter um grande grupo de seguidores na sua vida e, mesmo depois de sua morte, grandes médicos continuaram sua Medicina Espagírica. Podemos citar, entre eles, José Duchen, Robert Fludd e João Batista van Helmotz que nascido em Bruxelas, foi médico, físico, adquirindo um saber enciclopédico.
Bibliografia:
"PARACELSO. Oeuvres médico-chimiques ou paradoxes". Liber Paramirum I-II. Italie. Sebastiani. 1975
Postagem extraida de "Paracelso e sua contribução para a psicossomática" de Nestor Efraim Rojas Boccalandro, Psicólogo, Psicoterapeuta. Especialista e Doutor em Psicologia Clínica. Doutor Associado da PUC/SP.
A separação e a integração são processos que se sucedem tanto para ocasionar o isolamento do que Paracelso chamou de essência, que seria o elemento ativo do remédio e assim, conseguir esse elemento ativo na sua maior pureza possível para que também desse modo pudesse ter o maior efeito com o medicamento.
No que se refere à contribuição que Paracelso fez para a Medicina Psicossomática, é evidente que não se trata de uma Medicina Psicossomática tal como a entendemos hoje, na qual o homem é visto como um ser que tem várias dimensões e que essas dimensões não podem ser separadas umas das outras, pois constituem uma estrutura psico-bio-social sempre como uma estrutura integral, total ou, como se costuma chamar mais recentemente, como um processo holístico; como um sistema no qual todas as partes se relacionam e formam uma totalidade que, por sua vez, tem um efeito sobre essas partes.
Paracelso, o homem
Paracelso, cujo nome de batismo foi Theófhilo Bombastus Von Hoheinheim, nasceu em 1493 numa pequena cidade da Suíça, perto de Zurik. Colombo tinha chegado à América em 1492, por isso a infância, a adolescência e a idade adulta de Paracelso estiveram marcadas pelas conseqüências do descobrimento da América que permitiu comprovar na prática a teoria de que a Terra é uma esfera.
Ao mesmo tempo em que se comprovava essa teoria, também se começava a duvidar de conceitos teóricos também antigos que principalmente, dentro da medicina, tinham levado a área médica ao descrédito. Paracelso, que seguia a vertente hipocrática em que se afirma que o semelhante cura o semelhante, se dedica à arte médica espagírica em que, através de processos químicos, ele vai isolando e conseguindo que os princípios ativos de remédios fiquem praticamente puros para que, assim, possam exercer toda a sua ação curativa.
Paracelso viveu relativamente pouco. Aos 27 anos já foi nomeado professor na Faculdade de Medicina de Basiléia. Paracelso, como pessoa, é um iconoclasta, rebelde e criativo. A sua posição contra a medicina de Galeno de Abcena suscitou contra ele uma grande animosidade que determinou sua expulsão de Basiléia.
Isto o levou praticamente a viver como fugitivo durante alguns anos. Paracelso era um homem sumamente orgulhoso, altivo e de uma grande auto-suficiência. Tinha consciência do seu profundo saber em relação à medicina e também do seu profundo conhecimento da alquimia; por isso assumia atitudes que, para essa época, eram totalmente novas, inovadoras e, por isso, perturbava as expectativas das pessoas que o conheciam e, principalmente, dos seus alunos da Universidade.
Nunca foi dar aulas com a vestimenta característica dos doutores da universidade. Ia com roupas comuns muitas vezes manchadas pelas substâncias que utilizava nas suas experiências químicas. Não usava o latim para dar aulas; dava as aulas em alemão, misturado, muitas vezes, com expressões latinas. Seus discípulos na Universidade consideravam isso totalmente fora do padrão que esperavam de um doutor de Medicina. Essa atitude inconformista de Paracelso o levou ao radicalismo de queimar numa fogueira de S. João, de forma simbólica, os livros de Galeno de Abcena. Isto na presença de alunos da Medicina, que estavam em volta da fogueira comemorando a data.
Esta atitude naturalmente aumentou a apreensão e o receio que os alunos de Medicina tinham do Prof. Paracelso.
Diríamos que Paracelso, como pessoa, era um bom representante, um chamado tipo "uraniano", ou seja, uma pessoa excêntrica com relâmpagos de intuição e genialidade que desafia as convenções pelo excessivo sentimento de auto-suficiência.
Paracelso e a Medicina Espagírica
Paracelso fundamentou sua medicina sob 4 bases: a Filosofia, a Astrologia, a Alquimia, à qual ele deu o nome de Espagírica, e a virtude. Paracelso aprendeu a Medicina com seu pai que também era médico; estudou profundamente a cabala hebraica e aprofundou seus conhecimentos de química, trabalhando alguns anos numa mina. Como cirurgião militar, participou das guerras na Itália e nos países baixos.
Na sua atividade médica foi logo ficando famoso por realizar curas extraordinárias, como por exemplo, salvou a perna de Frobenius da amputação pelos médicos que tratavam dele e que já tinham decidido a retirada do órgão.
Pelo fato de Paracelso viver apenas 48 anos, a maior parte de seus livros foram publicados após sua morte. A divulgação dos livros determinou o aparecimento de muitos seguidores de sua arte médica, que se autodenominaram Paracelsianos e, assim, deram continuidade à Medicina Espagírica.
Como bom alquimista, Paracelso escrevia seus livros com o propósito de confundir aqueles que não estavam já iniciados com a terminologia de sua arte médica. Isto chegou a tal ponto que houve necessidade de publicar dois dicionários para esclarecer os significados dos termos usados por Paracelso.
Paracelso considerava que o homem é um pequeno mundo e tem seu céu, sua água, seu ar e sua terra, e é o equilíbrio entre esses elementos que formam o homem que determina a saúde e, por conseguinte, o desequilíbrio leva à doença. Esse mundo humano microcósmico está em relação com o macrocosmos, e essa relação entre o micro e o macrocosmos é sustentada por uma ënergia à qual ele dá o nome enigmático de "m". Essa letra "m", em hebraico "mem", deve ter sido utilizada por Paracelso por ser a letra inicial de Mercúrio e Magnéticos.
Esse mercúrio, princípio energia universal, se aprisionado pelo alquimista lhe permitiria ser o dono da transmutação. Esse "mem" encerra um grande segredo. Segundo Paracelso: "sabeis que existe ainda uma grande coisa que sustenta o corpo e o conserva em vida. Por "mem" vive o firmamento. Sem ele o firmamento pereceria. Chamamos "m" porque nada no universo foi constituído acima desta coisa. Nada é mais digno da compreensão humana que esse princípio "mem". Este "m" conserva todas as criaturas. Na Terra, todos os seres vivem nessa coisa e dela."
A etiologia das doenças segundo Paracelso
De acordo com Paracelso, são cinco entidades mórbidas das quais, pelo menos uma, é causa das doenças: causa astral, causa venenosa, natural, causa espiritual e causa divina.
Cada uma delas pode produzir qualquer doença. Por exemplo, as cinco icterícias serão tratadas com cinco modos diferentes de tratamento.
A causa astral, segundo Paracelso, é diferente da crença mantida na Idade Média, quando se considerava que os sete astros da Antigüidade constituíam diferentes causas mórbidas. Segundo Paracelso, a ação dos astros sobre o corpo humano não é direta; é uma ação indireta, pois no corpo humano temos sete órgãos que correspondem aos sete planetas. A ação maléfica do planeta vai primeiro num órgão correspondente para depois aparecer como doença.
O princípio "m" estaria entre as astros e os órgãos correspondentes.
A segunda causa, a venenosa, provém da alimentação: todo alimento, mesmo sendo benéfico, contém veneno para quem o utiliza.
Paracelso postula "um alquimista interior" que começaria sua ação no estômago para "solver e coagular" os alimentos, separando os venenos dos nutrientes.
Paracelso afirma: "Nosso corpo foi nos dado livre de venenos; uma coisa que não é veneno torna-se veneno para nós. Temos no corpo um alquimista interior colocado por Deus. Assim, separamos o veneno do alimento salutar, para que não soframos. Em todas as coisas, sejam elas quais forem sempre existe simultaneamente a essência e o veneno. A essência é o que sustenta o homem. O veneno, pelo contrário, o que derruba pelas doenças. Se o alquimista interior é fraco ou está debilitado, não consegue fazer a separação entre o veneno e o alimento salutar, aparece, então a putrefação, que é sinal da doença.
A terceira entidade mórbida causadora das doenças é a causa natural que é tudo que afeta ou desarranja o curso natural dos astros corporais. A correspondência entre os sete planetas e os sete órgãos do corpo é: a Lua corresponde ao cérebro, o Sol ao coração; Mercúrio aos pulmões; Marte, estômago; Júpiter, fígado; Vênus, rins; Saturno, baço.
Os astros no microcosmos se conduzem em relação uns com os outros, tal qual o macrocosmos. Da mesma forma que a lua reflete a luz do Sol, o cérebro, centro intelectual, reflete a luz do coração, centro emotivo.
Nesta afirmação de Paracelso, pode-se perceber o embrião de uma abordagem sistêmica, ou seja, de uma "rede de relações".
Os órgãos correspondentes aos planetas interagem entre si assim como fazem também os próprios planetas.
Enquadra-se a que Paracelso dentro da Medicina Psicossomática quando coloca a inter-relação entre o físico e o emocional, entre o intelectual e o emocional.
Cada órgão tem seu destino bem estabelecido, a sua evolução própria. Se um órgão se extravia e penetra na função de outro, determina o aparecimento de doenças. Inversamente, o Sol é o coração do macrocosmos, a Lua seu cérebro e existe na Terra minerais correspondentes aos sete órgãos planetários. Ouro, Sol, coração; prata, Lua, cérebro; Mercúrio, pulmões, mercúrio; Júpiter, estanho, fígado; Vênus, rins, cobre; Marte, estômago, ferro; Saturno, baço, chumbo. O que provém do coração do macrocosmos reconforta o coração do homem tal como acontece com o ouro.
A causa espiritual
A causa espiritual é uma potência vinda do espírito que atinge todo o físico. Quando o espírito sofre, o corpo sofre também. Este conceito de Paracelso está em conformidade com o princípio da Medicina Psicossomática atual.
O espírito, para Paracelso, não é nem a alma nem a inteligência, mas o homem invisível que encerra a aparência humana visível.
Diríamos hoje: é um corpo eletromagnético que age sobre o corpo físico.
Os espíritos comunicam-se entre si através dos próprios corpos e podem infligir-se mutuamente grandes danos capazes de torná-los doentes. Os enfeitiçamentos mostram essa possibilidade de ação sobre o espírito.
Paracelso explica a possibilidade da feitiçaria pela comunicação entre corpos eletromagnéticos. No caso da feitiçaria, estaria se recebendo ou lançando sobre outros corpos eletromagnéticos vibrações extremamente negativas.
Causa divina
A quinta causa das doenças vem de Deus. Tem o caráter de castigo. Nessa categoria, "toda doença é um purgatório", o que foi retomado por homeopatas no século XIX, que afirmam que a doença vem do pecado original. Quando a causa da doença vem de Deus, a doença só é curada quando a prova prescrita por Deus fica terminada.
Para denominar os três modos diferentes de ação na natureza, o modo cardinal é chamado enxofre; o modo fixo, sal e o modo mutável, mercúrio, que é um metal líquido que altera com muita facilidade a sua forma. O sal, para Paracelso, é o princípio mantenedor das formas no Universo. O enxofre é o princípio veiculador do movimento, do calor e a base do movimento.
O mercúrio é o princípio aumentativo, modificador, ligado, portanto, ao mutável. Paracelso afirma "é necessário administrar mercúrio às doenças que provém de mercúrio; sal às doenças que provém do sal e enxofre às doenças provenientes do enxofre, quer dizer a cada doença o tratamento adequado como convém. É necessário saber qual tipo de enxofre, sal ou mercúrio para tratar determinada doença."
A etiologia das doenças não é única. Pode uma doença provir do sal e do enxofre como também do sal, enxofre e mercúrio. A postulação de Paracelso que o igual cura o igual antecipa o princípio homeopático de Hannemann: "o semelhante cura o semelhante". O postulado de Paracelso deixa claro que além de ter criado a Medicina Espagírica, lançou também os fundamentos da Medicina Homeopática.
Além das cinco causas das doenças e das três modalidades de ação, Paracelso afirma que existe uma medicina masculina e outra medicina feminina, que o funcionamento do corpo masculino é muito diferente do feminino.
"As doenças das mulheres lhes são próprias. Todas as doenças da mulher são formadas e dadas pela matriz. Enquanto o homem é o microcosmos médio, a mulher é um microcosmos menor encerrado na matriz, refletindo esse microcosmos feminino, o microcosmos médio do homem, que por sua vez, reflete o macrocosmos. A matriz é o ser da mulher e há um cérebro feminino, um coração feminino nada idêntido ao do homem. No entanto, há doenças femininas que provêm do homem, que deverão ser tratadas de forma igual a que são tratadas nos homens. As jovens são herdeiras das doenças do pai."
Paracelso atribui também como causas de doenças a imaginação e a fé, só que rompe com o conceito popular que atribui aos santos o poder de cura.
Ele diz que se uma doença é curada pela fé é porque ela é ocasionada pelo mau uso da fé.
Em relação à cirurgia e ao conhecimento da anatomia humana, Paracelso tem uma conceituação que é extremamente atual. Ele achava que os anatomistas que pretendiam saber a anatomia trabalhando com cadáveres estavam perdendo seu tempo. Eles estavam fazendo uma anatomia da morte e não uma anatomia da vida.
Os cirurgiões que dissecam cadáveres não podem saber como os órgãos funcionam, como também não poderão saber como é o homem vivo. Deve-se observar o homem vivo e conhecer as suas reações, pois a base da ciência médica é a anatomia da vida. Observando-se o corpo humano desta maneira percebe-se que ele contém um bálsamo essencial: a múmia.
O princípio curador do ser humano está na carne, nos ossos, no sangue, ou seja, em todo o organismo. A múmia dos ossos cura os ossos partidos, a múmia da carne cura as chagas. Assim sendo, cada parte do corpo humano contém o princípio de cura. Esse princípio de cura seria um médico natural que existe em todo ser humano, que resolve os transtornos que acontecem no corpo. Por isso, o cirurgião deve se lembrar que não é ele que cura as chagas, é o princípio essencial que realiza a cura.
A múmia é o princípio onipresente da cicatrização e corresponde ao que os antigos chamavam de espírito do sangue.
Pode-se fazer um paralelo entre a múmia de Paracelso com o princípio de vida de Hipócrates e o princípio vital de Hannemann.
De sua experiência como cirurgião e movido também pela necessidade de diminuir o sofrimento dos feridos e baseando-se em seus conhecimentos da alquimia e química, Paracelso chegou a produzir em laboratório o éter sulfúrico e a partir dele foi usado como anestésico.
Também produziu em laboratório o cloreto de etilo com a mesma finalidade anestésica. Na farmacopéia de Paracelso, encontramos ao lado de grandes remédios, como os anestésicos acima mencionados e de remédios para hemorragias, usando compostos de ferro, também meios de cura que hoje em dia seriam considerados mera superstição. Colocava sapos vivos em cima de doenças da pele. Usava também a medicina simpática que consistia em tratar à distância os ferimentos usando um pano que tinha sangue do doente e mergulhava esse pano em uma solução com remédio.
Também preconizou o uso do musgo que crescia em crânios humanos para combater infecções. Com bastante benevolência, podemos entender isso como uma premonição do uso da penicilina. Possuía Paracelso uma farmacopéia secreta dando a esses remédios o nome de "arcana maiora" que, segundo ele, conseguiriam uma cura definitiva de certas doenças. Ao lado desses remédios de grande poder curativo, tinha também remédios que só conseguia deter a evolução das doenças.
Na elaboração dos remédios, Paracelso usava o processo químico de separar e reunir e, através de operações sucessivas, ele chegava a separar o princípio medicamentoso do vegetal.
Conhecia também Paracelso a Teoria das Assinaturas, que permite saber quais são os vegetais que estão em ressonância com determinados planetas do macrocosmos e, assim, poder usar esses vegetais na composição de medicamentos. As assinaturas, portanto, são formas adquiridas por vegetais e animais pela ressonância vibratória com as vibrações planetárias. No que se refere aos minerais, existem correspondências desde a Antigüidade com sete metais, como foi colocado antes. A correspondência planetas-metais foi usada no séc. XX por Rudolf Steiner na sua medicina antroposófica.
Embora Paracelso tivesse características pessoais que dificultavam o seu relacionamento com outras pessoas por causa de sua excentricidade e sarcasmos, conseguiu ter um grande grupo de seguidores na sua vida e, mesmo depois de sua morte, grandes médicos continuaram sua Medicina Espagírica. Podemos citar, entre eles, José Duchen, Robert Fludd e João Batista van Helmotz que nascido em Bruxelas, foi médico, físico, adquirindo um saber enciclopédico.
Bibliografia:
"PARACELSO. Oeuvres médico-chimiques ou paradoxes". Liber Paramirum I-II. Italie. Sebastiani. 1975
Postagem extraida de "Paracelso e sua contribução para a psicossomática" de Nestor Efraim Rojas Boccalandro, Psicólogo, Psicoterapeuta. Especialista e Doutor em Psicologia Clínica. Doutor Associado da PUC/SP.
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