domingo, 24 de abril de 2011

A Cura pelo Perdão

Todas as religiões e tradições de busca interior e meditação, em todas as épocas, colocam o perdão como prática essencial para a evolução do espírito do ser humano.  Sempre me impressionou a doçura e compaixão da frase de Cristo sendo crucificado: “Perdoai-os Meu Pai, eles não sabem o que fazem”, em contraposição ao “Olho por olho, dente por dente” do Código Hamurabi da Babilônia, que é a matriz da Justiça atual no planeta, bem ao gosto dos fundamentalistas e do período turbulento do Kali Yuga. A prática da confissão, presente em muitas tradições, reafirma o perdão como instrumento de purificação interior de quem está à procura do Si Mesmo. Vimos o mesmo gesto nobre no perdão do Papa João Paulo II ao misterioso atirador turco Ali Agca que tentou assassiná-lo, e vemos agora florecer  o mesmo movimento em tradições como Oneness Deeksha, ou o Ho’oponopono  do xamanismo hawaiano, em que a marca registrada é “me perdoe, eu amo você, obrigado”. Mesmo um nagual e xamã tolteca curtido e duro como Don Juan e o próprio Castaneda agradeciam aos “pequenos tiranos” por ter uma oportunidade de através deles trabalhar o seu próprio ego e evoluir. As dicas estão aí...
A famosa vidente, psicoterapeuta, curadora e escritora (Mãos de Luz, e Luz Emergente), Barbara Ann Brennan, que tem passe livre no território das energias interiores, invisíveis ao comum dos mortais, apresenta um texto encantador sobre o perdão, de seu mestre e mentor Heyoan. Mãos de Luz é uma leitura obrigatória para quem quer se dedicar à cura e saúde (alô médicos), e uma inspiração para quem quer comprender a essência da natureza humana (alô buscadores).

Barbara diz:
“Gostaria de apresentar uma das meditações de cura mais poderosa de quantas recebi de Heyoan. É a "meditação de cura através do perdão." Ela irá induzir uma contemplação profunda que pode curar as feridas internas de relacionamentos passados. 
O fator mais importante na cicatrização de feridas antigas no relacionamento entre as pessoas é o perdão.
Em geral, estamos mais conscientes de não sermos capazes de perdoar uma outra pessoa, do que não poder perdoar a nós mesmos. Todos nós já vimos o efeito produzido pelo fato de nós perdoamos alguém que nos ofendeu. Na maioria das vezes, lembramos de situações dolorosas em que alguém nos feriu e culpamos o outro.
Nossa crítica é superficial, mas no fundo, muitas vezes há um sentimento de culpa doloroso que não admitimos.
Muitas vezes, a outra pessoa não experimentou a situação como nós, e não pode sequer saber que nos magoou. Em certas circunstâncias, porém, o outro acredita que devemos nos desculpar para que ele possa nos perdoar. Em todas essas situações, estamos presos na dualidade. O perdão nos permite superar esta dualidade e ter acesso ao amor.
Nesta meditação, Heyoan nos dá uma perspectiva mais ampla.
O perdão nos ajuda a superar as críticas de "ele (a) fez isso comigo", com sua aguda e profunda culpa, e nós leva a uma compreensão única de o porque funciona o perdão.
Antes de começar, sugiro que você faça uma lista de pessoas presentes em sua vida que às quais você tem sido incapaz de perdoar. Então faça a seguinte meditação sobre o perdão. Vale a pena ler ou ter alguém que leia as instruções de Heyoan, ou então tente  conseguir  a fita deste material canalizado de Barbara Brennan. Ou então leia em voz alta durante a gravação de sua voz. A fita gravada, é muito mais pessoal, e pode-se mais facilmente assimilar descansando confortavelmente na cama com os olhos fechados.
Heyoan diz:
"A cura através do perdão.
Sinta uma coluna de luz dentro de você. Sinta uma estrela de  luz em seu coração, um pouco acima do umbigo. Não é por acaso que você está aqui. Você trouxe esse momento especial em sua vida para seus próprios objetivos, decorrente do seu desejo profundo e sagrado que você carrega no seu coração.
Quanto mais satisfizer esse desejo, mais se encontrará diretamente no caminho de uma vida feliz, satisfatória e criativa.
Gostaria hoje que você escolhesse uma pessoa com quem você tem dificuldades em sua vida e começasse a trabalhar e rezar para se alinhar com o perdão e a cura. Isso requer o seu perdão e o dessa pessoa. Como você sabe, a cura engloba toda a vida - de fato, todas as vidas que tiveram - e que estão além desta vida. Você  existe em um domínio muito maior do que o físico que é definido pelo tempo e espaço. Para você, o tempo e o espaço não são nada mais que limitações introduzidas nessa escola que você criou para o aprendizado dentro dela. Você criou as suas lições, a escola, você criou seus professores nessa escola, e apesar disso você é o mestre de toda essa criação. Você veio a este mundo para cumprir os seus objetivos próprios, que estão contidos no seu desejo sagrado. Agora eu pergunto: em relação à pessoa que você escolheu, como você traiu seu desejo sagrado e, portanto, causou uma situação que requer o perdão para você mesmo? Pode não ser uma resposta fácil e imediata. Mas se você se concentrar sobre ela, meditar e se conectar com ela e seu trabalho de cura, começará a compreender. Através de sua experiência de vida, fluirá uma compreensão mais profunda do que é dito aqui, a partir da fonte da vida que está dentro de você.
Sim, é verdade que você cria a sua experiência de vida. Você a desenha a partir da suprema sabedoria que há em você. Se houver dor, mostre a você o que ela diz, porque a dor vem de esquecer quem você é. A dor provém da crença de que a realidade obscura é a verdadeira realidade. Realidade obscura é o resultado de esquecer quem você é, com base na crença de que está isolado ou separado de tudo o que o cerca.
Eu digo  queridos, que qualquer doença, qualquer que seja sua forma ou manifestação, é o resultado esquecimento. Você vem para cá, o plano da Terra, para lembrar. Não deixe se angustiar sobre o assunto. Oriente sua força de vida no sentido da recordação de Si Mesmo, e sua iluminação despertará as partes da sua psique que estão mergulhadas na escuridão e dor.
Quando iluminá-las com a luz do divino, que existe em cada célula do seu corpo, em cada célula do se ser, a luz brilha sobre a  escuridão e ele começa a se lembrar. Lembrar-se é equivalente a reintegrar suas partes. Através da iluminação, você reintegrará partes de você e de seu corpo que se dissociaram e, portanto, tornaram-se doentes. É um novo começo, sim, você vai experimentar um pouco de dor, mas é uma dor que cura. As lágrimas deixarão a sua alma clara e limpa como chuva recém caída. Seu choro irá liberá-lo. Foi contido por séculos, esperando a chance de escapar. Todos os bloqueios de que se falou se dissolverão e se encherão de vida renovada. Vai vê-los  preenchidos com muito mais energia. Vai ver que sua vida está se movendo em direção à criatividade e alegria. Você se preencherá de uma dança com todos os que estão ao seu redor, e com o Universo.
Mas isso requer o perdão: o perdão em primeiro lugar a si mesmo. O que você precisa perdoar? Se você dedicar cinco minutos - e eu vou lhe pedir para fazer isso depois do meu pequeno discurso, - para elaborar uma lista das coisas que você deve perdoar, seria extensa. Mas não é difícil. Se você considerar todos os aspectos e meditar sobre eles por alguns minutos várias vezes por dia, vai aliviar seu coração do peso suportado. O perdão vem da divindade que você tem no interior. Meditando, rezando, e vivendo o seu perdão, você se  conecta com o divino que você carrega dentro. (Nota do redator: Isso é pura Recapitulação, do xamanismo tolteca. Coisa para lavar a alma...)
As próximas perguntas são: Como se manifesta cada aspecto que você perdoa, em sua psique e seu corpo físico? Como se expressa em seu campo de energia? Siga-os através dos sete níveis de experiência em seu campo de energia.
Onde está a dor em seu corpo que está associada com a atitude implacável que você tomou para você, e por isso manteve uma relação negativa com um determinado indivíduo a quem você acha difícil perdoar? A cura começa sempre por si mesmo.
Em seu interior, a uns 4 ou 5 cm acima do umbigo, há uma bela estrela. A Estrela do Seu  Centro. É a essência da sua individualidade. Esta essência é a sua individualidade divina. É o centro de sua condição de Ser. É o centro de quem você é, em absoluta paz antes, durante e depois de todas as vidas que você tem experimentado em sua Mãe Terra. Sinta esse lugar dentro de você. Você já existia antes desta vida. Existia antes do caos, dor e conflito que existe neste mundo, e vai continuar existindo...
Este centro da sua condição de ser é o centro de sua divindade. A partir dele você é o centro de todo o universo. É a partir desse lugar que você pode curar
Lembre-se de quem você é, e você vai ajudar os outros a lembrar-se de quem eles são. Porque é do centro do seu ser que emanam de todas as suas ações. Assim como suas ações se desligaram do centro de seu ser, você vai deixar de se alinhar com o seu objetivo divino. A ação desvinculada do objetivo divino é a causa da dor e da doença. Então, concentrem-se em seu centro. É a partir desse centro que vem o perdão.
Gostaria de agora mostrar o primeiro aspecto que deve ser perdoado em seu núcleo.
Tudo o que você acredita que precisa de perdão, se originou de algo que foi desligado do seu centro. Quando você fez isso, se desconectou do centro do seu ser, e suas ações se desalinharam de Deus e passaram pela escuridão e esquecimento. Assim, se você pega o que deve ser perdoado, e você traz para o núcleo da estrela e mantém lá, rodeado e impregnado de amor, você pode voltar à luz através desse amor. Escontrará o  seu objetivo original, que surgiu a partir do seu centro. Quando você encontrá-lo, você pode retomar a criação original. Porque ao encontrá-lo, envolvê-lo e permeá-lo de amor, você vai encontrar o perdão em seu interior. Agora eu vou lhe dar alguns breves momentos para induzir perdoar a si mesmo desta maneira.
Quando esse perdão fluir em  todo o seu ser, você vai encontrar-se automaticamente perdoando as outras pessoas que podem estar envolvidos nesta situação particular que reclama o perdão".

domingo, 17 de abril de 2011

O Contador de Histórias

As histórias, contos e lendas tradicionais tem a magia e o poder de transformação interior. A arte de contar histórias é uma arte antiga importante das culturas centradas na busca interior do Si Mesmo,  Elas formam o pano de fundo do inconsciente coletivo, necessário para que uma cultura forme naturalmente seres humanos que acreditem no Espírito, no Sagrado, no Invisível, no Mágico... desde crianças. Eu fiz assim com meus filhos, contando As Mil e Uma Noites antes de eles dormirem. Foi assim no Egito, Mesopotâmia, Índia, Pérsia, China, Japão, Américas, Austrália...Mas não é só para crianças, não. Nós que nascemos no Ocidente afastados disso podemos aproveitar porque a boa história não tem idade nem lugar, e toca algo insuspeitado, lá no fundo da gente, que aos poucos cria frutos, apesar de nós mesmos.
Consegui uma bem humorada, resgatada no fundo do baú da Patrícia. É das nossas lembranças, nos velhos tempos de um grupo “esotérico” que ficou no passado. E vamos contar para vocês, com sotaque caboclo e tudo.
(atenção Portugal: caboclo ou caipira é o brasileiro filho do cruzamento de português com índio... ocidente com xamanismo indígena). A singela história abaixo é algo digno das Mil e Uma Noites, mas é uma história cabocla, parida dos meandros mágicos da mente do meu amigo Junqueirinha.
Para ter a sorte de ter acesso a essa coisas, é preciso estar na hora certa, no lugar certo. E conhecer gente de qualidade interior como ele, médico e buscador, a Patrícia, bruxa taoista e buscadora séria, e Yolanda, da mesma escola. Ela foi lida numa festividade num grupo Gurdjeff e depois publicada por volta de 2003 na revista Meditação. A revista não mais existe, mas a história foi resgatada. Criação de Junqueirinha. Pura filosofia esotérica cabocla.
Vamos lá. É o Junqueirinha contando, com pompa e circunstância de caboclo, bem no jeitão do grande Guimarães Rosa :
“ - Um dos personagens mais incríveis que já conheci é o Mathias, um caboclo do sul de Minas Gerais. Um dia destes, refletindo sobre os caminhos e a vida, lembrei-me de uma conversa que ouvi dele com sua mulher, Yolanda, na varanda de seu sítio. Aqui está a lembrança dessa conversa simples e singela, que continha todo um ensinamento"

"- João Mathias, tem alguma coisa nos homens que preste"? - a mulher pergunta.
- Ôô...Tem sim, Yolanda. Tem nos homens um “tar” de brilho. E esse brilho é uma coisa tão rara que, por causa dele, muito deus já perdeu a pose.
- E os homens, Mathias, eles sabem que têm esse brilho?
- De quando em vez eles desconfiam! E quando isso acontece, a deusarada fica tiririca e não perdoa! E sabe por quê?
É porque os deuses usam esse mesmo brilho dos homens pra criar eles cercados neste pastão enorme que nóis chama de "mundo"!
- Os homens cercados num pasto? E onde tá a cerca, que eu nunca vi ela?
- Ocê nunca viu ela porque é uma cerca muito esperta, uai! É uma cerca feita de espelho!
- Cerca de espelho?
- Um montão deles! Os espelhos da cerca manda o brilho dos homens de volta pra eles. Só que tem um problema: o brilho volta falsificado! Os espelho? são bem diferente um do outro. Tem espelho que devolve o brilho dos homens de volta pra eles na forma de raiva; tem espelho que devolve esse brilho na forma de inveja. Tem até espelho que devolve alegria, mas é aquela alegria besta, de perceber que tem alguém por aí que tá ainda pior que nóis!
E os deus, que não são nada bobo, vão manejando os espelhos e jogando um contra os outros pra poder conduzir os homens de acordo com suas próprias necessidades!
E com o passar do tempo, os homens acabam pensando que o que eles vê nos espelhos da cerca é o que tá acontecendo de verdade!
Esquecem que o brilho tá é dentro  deles mesmo e que eles têm um direito sagrado de brilhar na escuridão!
- Tá dizendo que os deuses estão contra os homens, Mathias?
- Nem tanto, Yolanda. Se ocê pensar melhor, dá até pra entender um pouco da cabeça desses deus! Os caboclos que eles enganam com o truque dos espelhos, eles "traça", e tá acabado! Os que começa a perceber o golpe, eles "malha" bem, quase “inté matá”, que é pra vê se o caboclo forma opinião!
Então, se algum desses consegue “vará” a cerca, aí eles convida pra brincá de deus com eles!
E como toda cerca tem dois lado, o lado de fora dela é bem diferente do lado de dentro: em vez dos espelho de enganá gente, tem um sistema de uns estilingue bem grande “dipindurado” na cerca. Os deus, depois de dançá quadrilha com os caboclo que “varô” a cerca, põe eles no bojo dos estilingue e dá uma baita estilingada cum eles. Aí eles vão pará num lugar tão alto e tão cheio de sossego, que por lá nem o Tempo passa!
É aí nesse lugar que o brilho dos homens vai aumentando, vai aumentando, inté explodir numa boniteza que num termina nunca mais!
- Ô Mathias, e o que eu faço pra podê atravessá a cerca?
- Agora ocê fez a pergunta certa!
Primeiro: carece de percebê que ocê tá no pasto! Pode num parecê, mas essa é a parte mais difícil do caminho!
Depois: ocê tem de procurá as trilha deixada pelos furador de cerca! E olha que tem trilha pra tudo que é gosto! Tem trilha de andá descarço pisando em ponta de prego! Tem trilha de entrá fardado e onde só se pode andá de bando! Tem inté trilha, que pra entrá nela carece falá inglêis! Agora, vou contá pra ocê...tem uma que é mesmo bem ladina: ocê chega na ponta dela e “infinca” os pé firme no chão! Aí é só ficá quieto, bem quietinho mesmo, sem cismá cum nada... e a trilha anda sozinha!..”


domingo, 10 de abril de 2011

Dois hemisférios, duas mentes...

Esse artigo também poderia se chamar Derrame e Iluminação. É um relato, feito na primeira pessoa, da tocante e expressiva experiência de um derrame, ou AVC (acidente vascular cerebral) sofrido pela Drª Jill Bolte Taylor, neuro-anatomista americana em 96. Ela relata passo a passo a sua própria experiência como médica e paciente ao mesmo tempo, como especialista da área, que é. Sujeito e objeto. Ela consegue então tocar um dos segredos do Invisível que é: “como somos e funcionamos interiormente nas duas mentes que estão anatomicamente relacionadas com os lados direito e esquerdo do cérebro". Se quiser uma mostra disso, veja a conhecida imagem da bailarina girando para um lado ou outro, conforme o lado do cérebro que a está focalizando. Se quiser ver clique aqui.
Nestes tempos confusos de Kali Yuga em que estamos procurando a Verdade, o Centro, a Consciência, a Alquimia da nossa natureza e do mundo, o relato da Drª Jill é um achado para qualquer buscador, vidente ou nagual empenhado com impecabilidade na busca interior do "Si Mesmo", seja um xamã como Castaneda, um estudioso do xamanismo ou meditação, ou qualquer um de nós mortais.
Ela é um desses raros profissionais atuais empenhados em juntar a tecnologia de ponta da Medicina com o Espírito. Ela diz:
"Comecei a estudar o cérebro porque  tenho um irmão diagnosticado com uma disfunção cerebral, a doença chamada esquizofrenia. E como irmã e cientista,  queria entender como  faço para  os meus sonhos se conectarem com a realidade e se tornarem verdade – o que é  que acontece com o cérebro de meu irmão e sua esquizofrenia, que ele não consegue conectar sua imaginação com o mundo real, e então ele se torna um doente.
Eu dediquei minha carreira às pesquisas sobre doenças mentais graves. Mudei-me de minha casa em Indiana para Boston, onde trabalhava no laboratório do Dr. Francine Benes, no departamento de Psiquiatria de Harvard. E, no laboratório, nós nos perguntávamos uma questão: Quais são as diferenças biológicas entre os cérebros de indivíduos diagnosticados como normais em comparação com os que são diagnosticados com esquizofrenia, ou transtorno bipolar?
Estávamos mapeando os micro-circuitos do cérebro, quais células estão se comunicando com quais células, através de quais elementos químicos e em que quantidade. Então havia muito sentido nesse meu tipo de vida, porque estava fazendo esse tipo de pesquisa durante meu trabalho. Durante a noite e nos finais de semana eu viajava pela NAMI (National Alliance on Mental Illness)
Na manhã de dia 10 de Dezembro de 1996  acordei e descobri que  tinha um distúrbio no cérebro: um vaso sanguíneo explodiu no lado esquerdo do meu cérebro. E durante quatro horas observei meu cérebro se deteriorar completamente em suas habilidades em processar qualquer informação. Na manhã da hemorragia eu não conseguia andar, falar, ler, escrever ou me lembrar da minha vida. Eu me tornei um recém-nascido no corpo de uma mulher adulta.
Se você já viu um cérebro humano, fica óbvio que os dois hemisférios são completamente separados um do outro”. Ela mostra um cérebro humano e diz: “aqui é a frente do cérebro, a parte de trás com o cordão espinhal pendurado e assim é como está posicionado dentro da minha cabeça. "E quando você observa o cérebro, é óbvio que os dois hemisférios são completamente separados um do outro. Para quem entende de computadores, nosso lado direito funciona como um processo paralelo. Já o nosso lado esquerdo funciona como um processador serial. Os dois hemisférios se comunicam através do corpus callosum, que é constituído de 300 milhões de fibras. Mas sem contar isso, eles são completamente separados. Como eles processam informação de forma diferente, cada lado do cérebro pensa em coisas diferentes, se importa com coisas diferentes – e posso dizer que têm "personalidades" diferentes.
Nosso hemisfério direito é todo focado neste momento presente, sobre aqui e agora. Ele pensa em imagens e aprende cinestesicamente (consciência corporal) através dos movimentos do corpo. Informação em forma de energia corre simultaneamente por todo nosso sistema sensorial. E então explode nessa enorme imagem (colagem) sobre o que significa o momento presente. Quais os cheiros desse momento, os gostos, como é sentido e como é escutado. Eu sou um ser de energia conectado com toda a energia a minha volta por essa consciência do agora do lado direito do meu cérebro. Nós somos seres de energia conectados uns aos outros através da consciência do hemisfério direito como uma única família humana. E nesse momento, agora mesmo, todos somos irmãos e irmãs nesse planeta e estamos aqui para fazer o mundo melhor. E esse momento é perfeito. Nós estamos unidos. E somos maravilhosos.
Já o meu lado esquerdo é um lugar bem diferente. Nosso lado esquerdo pensa de forma linear e metódica. Ele pensa sobretudo em nosso passado, e também no futuro. O hemisfério esquerdo é desenhado para pegar essa enorme imagem desse exato momento e capturar mais detalhes e mais detalhes e ainda mais detalhes sobre os detalhes. Então ele classifica e organiza todas essas informações. Associa isso com tudo que aprendeu no passado e projeta todas as possibilidades disso para o futuro. E nosso lado esquerdo pensa na linguagem. É esse fluxo constante de informação do cérebro que conecta meu mundo interno com meu mundo externo. É aquela voz dentro da gente que me diz: "Você precisa se lembrar de comprar algumas bananas quando voltar para casa, e comê-las pela manhã". É essa inteligência calculista que me lembra que tenho de lavar minhas roupas. Mas, o mais importante, é que essa voz me diz: "Eu sou fulano (a). Eu sou fulano." E, no momento em que meu hemisfério esquerdo me diz "Eu sou eu" eu me torno separado do mundo. Eu me torno um indivíduo separado do fluxo de energia à minha volta e me separo de você.
E essa foi a parte do meu cérebro que eu perdi na manhã do meu derrame.
Nessa manhã, acordei com uma dor pulsante no meu olho esquerdo. E era uma dor do tipo causado por aquelas mordidas em sorvete. E a dor vinha e desaparecia, vinha e desaparecia e era muito estranho para mim, sentir qualquer tipo de dor e então eu pensei: OK. Vou simplesmente seguir com minha rotina normalmente. Então eu fui até meu aparelho de ginástica, que é uma máquina que exercita todo o meu corpo. E eu estava me exercitando nele quando me dei conta de que minhas mãos pareciam com garras primitivas segurando na barra do aparelho. Pensei: "Isso é muito incomum" e então olhei para  meu corpo todo e pensei "Nossa, eu sou um ser esquisito". Isso foi como se minha consciência tivesse mudado da minha percepção normal da realidade, em que sou uma pessoa em um equipamento tendo uma experiência, para algo esotérico, onde eu era um espectador de mim mesmo tendo essa experiência.
Isso tudo foi muito incomum e minha dor de cabeça estava piorando, então saí do equipamento de ginástica e fui andando pela minha sala e percebi que tudo dentro do meu corpo estava lento, cada passo era muito firme e deliberado. O meu passo não fluía normalmente e tinha esse aperto na área de minhas percepções e eu estava focada nos meus sistemas internos. Então estou dentro do meu banheiro começando a tomar banho e eu podia ouvir o diálogo dentro do meu corpo, eu ouvi aquela voz dizendo "Músculos, agora é hora de contrair, músculos, esse é o momento de relaxar"
Perdi meu equilíbrio e me apoiei na parede. Olhei para baixo na direção do meu braço e percebi que não conseguia mais definir os limites do meu corpo, onde eu começava e onde eu terminava; porque os átomos e moléculas do meu braço estavam misturados com os átomos e moléculas da parede e tudo o que eu conseguia perceber e notar era a energia. Energia. E me perguntei: "O que está acontecendo comigo?" e nesse momento toda a "conversa" (no sentido de informação) do meu cérebro, do hemisfério esquerdo do meu cérebro, entrou em profundo silêncio, como alguém que pega um controle remoto e aperta o botão mudo – silêncio interior total.
No primeiro momento me senti chocada ao me sentir com a mente em total silêncio. Mas imediatamente me senti atraída pela magnífica energia à minha volta. E porque eu não conseguia identificar as fronteiras do meu corpo me senti gigante e expansiva, me senti como toda a energia é – e era muito bonito aquilo.
De repente o meu hemisfério esquerdo acordou e me disse: "Ei, nós temos um problema, e precisamos buscar ajuda" e era como, OK, OK, eu tenho um problema, mas eu voltava a essa consciência que eu carinhosamente dei o nome de La La Land (a terra do lá lá lá), e era lindo lá. Imagine estar completamente desconectado das informações no seu cérebro que o conectam com o mundo exterior. Então aqui estou nesse espaço e não existe nenhuma preocupação comigo, com o meu trabalho, tudo sumiu e eu me senti mais leve no meu corpo e imagine todos as suas relações com o mundo exterior e as várias preocupações relacionadas com elas, tudo tinha desaparecido. Senti uma sensação de paz e imagine o que seria sentir perder 37 anos de bagagem emocional! Senti euforia. Euforia é maravilhoso – e então meu hemisfério esquerdo voltou e disse: "Ei, você precisa prestar atenção, precisamos encontrar ajuda" e pensei "Vou conseguir ajuda, vou focar nisso" Saí do chuveiro, me vesti e andando pelo meu apartamento estava pensando "Eu preciso ir trabalhar, preciso ir trabalhar. Eu consigo dirigir? Eu consigo dirigir?"
Foi nesse momento que meu braço direito ficou paralisado e pensei "Ó meu Deus! Estou tendo um derrame! Estou tendo um derrame!" e a próxima coisa que meu cérebro me disse foi "Nossa! Isso é legal, isso é legal. Quantos neurocientistas têm a oportunidade de estudar seu próprio cérebro do lado de dentro?"
Mas veio algo em minha mente: "Sou uma mulher ocupada. Não tenho tempo para um derrame!" e era como se eu me dissesse: "OK, eu não posso parar o derrame, então vou fazer isso por uma semana ou duas e voltar a minha rotina"
Eu tinha que chamar ajuda, precisava ligar para o meu trabalho. Não conseguia me lembrar do número do telefone, me lembrei que em meu escritório em casa tinha um cartão com o número. Fui ao meu escritório e encontrei vários cartões juntos e estava olhando para o primeiro cartão e,embora eu conseguisse ver em minha mente como meu cartão era, eu não conseguia dizer se aquele era meu cartão ou não, porque tudo que eu conseguia ver eram pontos (pixels). E os pontos das letras se misturavam com os pontos do fundo e dos símbolos e eu não entendia. Teria que esperar um momento de clareza e então eu poderia saber qual era o cartão. Demorou 45 minutos para isso acontecer.
Nesses 45 minutos a hemorragia foi crescendo no meu cérebro, eu não entendia números, não entendia o telefone, mas esse era o único plano que eu tinha. Peguei o teclado do telefone e coloquei  o cartão ali, coloquei ali e  estava tentando combinar as formas no cartão com as formas no telefone. Só que em breve eu voltaria para a La La Land e não me lembraria qual número eu tinha discado ou não.
Tive que usar meu braço paralisado para cobrir os números à medida que os apertava, dessa forma eu saberia qual número tinha discado ou não. Consegui em certo momento discar todos os números e estava escutando o telefone e um colega meu atendeu e me disse: "Whoo, woo, wooo woo woo" Então pensei comigo "Meu Deus, ele parece um cachorro!" Então eu pensei claramente na minha mente "Aqui é a Jill! Eu preciso de ajuda!" E o que saiu da minha voz foi "Whoo woo wooo woo woo" Pensei "Oh Meu Deus, eu que pareço um cachorro" Assim eu não podia saber se eu não conseguia falar ou entender a linguagem humana.
Então ele percebeu que eu precisava de ajuda e me ajudou. Pouco tempo depois eu estava em uma ambulância indo de um hospital para outro, então eu me senti em uma pequena bola fetal e como um balão com somente um resto de ar dentro, senti minha energia me abandonar e senti meu espírito se rendendo. E nesse momento eu percebi que não era mais o coreógrafo da minha vida e nem os médicos que me resgataram e me deram uma segunda chance ou esse era talvez um momento de transição.
Quando eu acordei no final da tarde, fiquei chocada em descobrir que ainda estava viva. Quando senti meu espírito se rendendo, disse adeus à minha vida, e a minha mente estava agora suspensa entre dois planos opostos da realidade. Os estímulos que me chegavam me causavam dor. A luz queimava o meu cérebro como fogo e os sons eram tão altos e caóticos que eu não conseguia separar uma voz do som de fundo e só queria sair dali. Porque eu não conseguia identificar a posição do meu corpo no espaço, me sentia enorme e expansiva, como um gênio que acabou de ser libertado de sua lâmpada. E meu espírito parecia livre como uma baleia, navegando pelo oceano do silêncio eufórico. Harmonioso. Me lembro de pensar que não haveria como eu espremer novamente esse meu Eu enorme dentro daquele pequeno corpo.
E percebi: "Eu ainda estou viva! Ainda estou viva e encontrei o Nirvana. Encontrei o Nirvana e ainda estou viva, então todos que estão vivos podem encontrar o Nirvana". Imaginei um mundo cheio de beleza, paz, compaixão e pessoas que sabem que podem ir para aquele espaço na hora que quiserem e que  podem escolher de forma proposital sair (mudar) do lado direito do cérebro para o esquerdo e encontrar a paz. E então percebi que tremendo presente essa experiência poderia ser, que um derrame poderia mudar o modo como vivemos nossas vidas e isso me motivou a me recuperar.
Duas semanas e meia após minha hemorragia, os cirurgiões removeram um coágulo do tamanho de uma bola de golf que estava pressionando o meu centro de linguagens no cérebro. Aqui estou eu com minha mãe, que é um verdadeiro anjo na minha vida. Demorou oito anos para eu me recuperar.
Então, quem somos nós? Nós somos a força de vida poderosa do Universo, com habilidades manuais e duas mentes. E nós temos o poder de escolher, a cada momento, quem e como nós queremos ser no mundo. Aqui e agora, nós podemos entrar no nosso lado direito do cérebro – Eu sou – a força de vida poderosa do Universo, e a força poderosa de 50 trilhões de belas moléculas que me dão forma. Como um em tudo que é. Ou eu posso escolher pular para o lado esquerdo do meu cérebro, onde eu me torno um único indivíduo, sólido, separado de todo o fluxo, separado de você. Eu sou a Drª Jill Bolte Taylor, intelectual, neuro-anatomista. Esses são o "nós" dentro de mim.
O que você vai escolher? E quando? Acredito que quanto mais tempo escolhermos entrar nos profundos e pacíficos circuitos do nosso lado direito do cérebro, mais paz nós vamos projetar para o mundo e mais pacífico nosso planeta será. E eu acho que é essa idéia que deveria ser espalhada."



Atenção: Embreve vanos publicar o vídeo da Drª Jill. Tocante e bem humorado. Aguardem

sábado, 2 de abril de 2011

Muitos eus, só um mestre - História Cherokee

O filósofo, escritor e buscador russo do Quarto Caminho, P. D. Ouspensky, só escreveu coisa séria e boa. ( Em Busca do Milagroso, Tertium Organum, Conversas com o Diabo, e por aí afora...). No pequeno livro Psicologia da Possível Evolução do Homem, (79 págs.) que dá para ler em menos de 2 horas, ele fala das 5 conferências que escreveu em 1934. Um tesouro para quem está na busca interior. Numa delas ele diz “O homem é uma máquina”  afirmando que o ser humano é um marionete (ele usa a palavra títere). Diz que o homem tem uma “ilusão de que é uma unidade, de que tem um Eu permanente", porque tem um corpo físico único, um nome pelo qual atende quando o chamam, e os hábitos mecânicos adquiridos pela “educação” e socialização. Mas na verdade “não há um centro de comando, nem um Eu permanente, pois cada sentimento, sensação, desejo, gosto ou aversão é um “eu” que nos comanda por um tempo (um instante ou uma vida). Eles não estão coordenados e dependem das circunstâncias exteriores e da mudança de impressões” sobre cujo mecanismo, como diz Joe Vitale na publicação Limite Zero, “você não tem a menor idéia do que está acontecendo”. (rsrs)
Gurdjieff, seu guru durante um período, fala da estória do ser humano como sendo um conjunto feito de carruagem, cavalo, cocheiro e o dono (citada na publicação O Medo) onde o dono que deveria comandá-la com os arreios, está ausente e deixa tudo a cargo do cocheiro, um subalterno ( a mente racional) sujeita exatamente a “essa multidão caleidoscópica de eus” que a confundem.
Então você, que está lendo,  pergunta: “Eu vim aqui para ler sobre os índios Cherokee. O que eles tem a ver com isso?”
Tem razão... Vamos falar dos Cherokee:

“Existe uma antiga história dos índios Cherokee sobre o cacique de uma grande aldeia. Um dia, o cacique decidiu que era hora de orientar o seu neto favorito sobre a vida. Ele o levou para o meio da floresta, fez com que se sentasse sob uma velha árvore e explicou:
"Filho, existe uma batalha sendo travada dentro da mente e do coração de todo ser humano que vive hoje. Embora eu seja um velho e sábio cacique, o líder da nossa tribo, essa mesma batalha é travada dentro de mim. Se você não souber dessa batalha, ela o fará perder o juízo. Você nunca saberá que direção tomar. Às vezes vencerá na vida e, depois, sem entender o porquê, perceberá que está perdido, confuso, com medo, arriscado a perder tudo o que trabalhou tanto para ganhar. Você muitas vezes achará que está fazendo a coisa certa e depois descobrirá que fez as escolhas erradas. Se você não entender as forças do bem e do mal, a vida individual e a vida coletiva, o verdadeiro eu e o falso eu, você viverá a vida todo num grande tumulto”.
"É como se existissem dois grandes lobos vivendo dentro de mim; um é branco e o outro é preto. O lobo branco é bom, gentil e não faz mal a ninguém. Ele vive em harmonia com tudo à sua volta e não se ofende se a intenção não era ofender. O lobo bom, sensato e certo de quem ele é e do que é capaz, briga apenas quando essa é a coisa certa a fazer e quando precisa se proteger ou à sua família, e mesmo então ele faz isso da maneira certa. Ele toma conta de todos os outros lobos da matilha e nunca se desvia da sua natureza”
."Mas existe o lobo preto também, que vive dentro de mim, e esse lobo é bem diferente. Ele é ruidoso, zangado, descontente, ciumento e medroso. Basta uma coisinha para que ele se encha de fúria. Ele briga com todo mundo, o tempo todo, sem nenhuma razão. Ele não consegue pensar com clareza, porque a sua ganância para ter sempre mais e a sua raiva e a sua ira são grandes demais. Mas trata-se de uma raiva infrutífera, filho, porque ela não muda nada. Esse lobo só procura confusão aonde quer que vá, e por isso sempre acaba achando. Ele não confia em ninguém, por isso não tem amigos de verdade”.
O velho cacique ficou sentado em silêncio durante alguns minutos, deixando que a história dos dois lobos penetrasse na mente do jovem neto. Então ele lentamente se curvou, olhou fixamente nos olhos do menino e confessou, "Às vezes, é difícil viver com esses dois lobos dentro de mim, pois eles brigam muito para dominar o meu espírito".
Cativado pela história do ancião sobre essa grande batalha interior, o menino puxou a tanga do avô e perguntou, ansioso, "Qual dos dois lobos vence, vovô?" E com um sorriso cheio de sabedoria e uma voz firme e forte, o cacique diz, "Os dois, filho. Veja, se eu escolho alimentar só o lobo branco, o preto ficará à espreita, esperando o momento em que eu sair do equilíbrio ou ficar ocupado demais para prestar atenção às minhas responsabilidades, e então atacará o lobo branco e causará muitos problemas para mim e nossa tribo. Ele viverá sempre com raiva e brigará para atrair a atenção pela qual tanto anseia. Mas, se eu prestar um pouquinho de atenção no lobo preto, compreendendo a sua natureza, se reconhecê-lo como a força poderosa que ele é e deixá-lo saber que eu o respeito pelo seu caráter e o usarei para me ajudar se um dia eu ou a tribo estivermos em apuros, ele ficará feliz, e o lobo branco ficará feliz também, e ambos vencerão. Todos venceremos".
Sem entender direito, o menino perguntou, "Não entendi, vovô. Como os dois lobos podem ganhar?"
O cacique continuou a explicação: "Veja, filho, o lobo preto tem muitas qualidades importantes de que eu posso precisar, dependendo das circunstâncias. Ele é feroz, determinado, e não se deixará subjugar nem por um segundo. Ele é inteligente, astuto e capaz dos pensamentos e estratégias mais tortuosos, o que é importante em tempos de guerra. Ele tem os sentidos aguçados e superiores que só aqueles que olham através da escuridão podem apreciar. Em meio a um ataque, ele poderia ser o nosso maior aliado".
O cacique então tirou da sua bolsa alguns pedaços de carne defumada e colocou-os no chão, um à direita e o outro à esquerda. Ele apontou para a carne e disse, "À minha esquerda está a comida para o lobo branco e à minha direita está a comida para o lobo preto. Se eu optar por alimentar os dois, eles não brigarão mais pela minha atenção, e eu poderei utilizar cada um deles como precisar. E como não haverá guerra entre eles, poderei ouvir a voz da minha sabedoria profunda e escolher qual dos dois pode me ajudar melhor em cada circunstância. Se a sua avó quer uma carne para fazer uma refeição especial e eu não cuidei disso como deve-ria, posso pedir para o lobo branco me emprestar a sua magia e consolar o lobo preto da sua avó, que estará zangada e faminta. O lobo branco sempre sabe o que dizer e me ajudará a ser mais sensível às necessidades dela”.
“Veja, filho, se você compreender que existem duas grandes forças dentro de você e respeitar a ambas igualmente, as duas sairão ganhando e haverá paz. A paz, meu filho, é a missão dos Cherokee — o propósito supremo da vida. Um homem que tem paz dentro de si tem tudo. Um homem dividido pela guerra em seu íntimo não tem nada. Você é um jovem que precisa escolher como vai lidar com as forças opostas que vivem no seu interior. A sua decisão determinará a qualidade do resto da sua vida. E quando um dos lobos precisar de atenção especial, o que acontecerá às vezes, você não terá do que se envergonhar; poderá simplesmente admitir isso para os anciãos e conseguirá a ajuda de que precisa. Quando isso for de conhecimento público, aqueles que já travaram essa mesma batalha podem oferecer-lhe a sua sabedoria".
 

Essa história simples e pungente explica como é a experiência humana. Cada um de nós está em meio a uma batalha contínua, em que as forças da luz e da escuridão competem pela nossa atenção e pela nossa submissão. Tanto a luz quanto a escuridão habitam dentro de nós ao mesmo tempo.
Verdade seja dita: existe uma matilha inteira de lobos dentro de nós - o lobo amoroso, o lobo bondoso, o lobo esperto, o lobo sensível, o lobo forte, o lobo altruísta, o lobo generoso e o lobo criativo. Junto com esses aspectos positivos existem o lobo insatisfeito, o lobo ingrato, o lobo autoritário, o lobo desagradável, o lobo egoísta, o lobo indecente, o lobo mentiroso e o lobo destrutivo. Todo dia temos a oportunidade de reconhecer todos esses lobos, todas essas partes de nós mesmos, e escolher como iremos nos relacionar com cada um deles. Será que continuaremos condenando alguns e fingindo que eles não existem ou vamos tomar posse de toda a matilha?
Por que sentimos a necessidade de negar a matilha de lobos que vive em nós? A resposta é fácil. Ou achamos que ela não existe ou que não deveria existir. Tememos que, se admitirmos todos os diferentes “eus” que ocupam espaço na .nossa psique, de algum modo seremos rotulados de esquisitos, diferentes, prejudiciais ou psicologicamente fragmentados. Achamos que devemos ser pessoas boas e "normais", dentro das quais só mora um único eu. Mas existem muitos eus e a recusa em entrar em acordo com eles é um grave erro - que nos levará a cometer atos estúpidos e temerários de auto sabotagem. Eis o grande segredo: existem muitos eus contidos dentro do nosso "eu", pois dentro de cada um de nós existem todas as qualidades possíveis. Não há nada que possamos ver e nada que possamos julgar que não exista dentro de nós. Todos somos luz e escuridão, santos e pecadores, pessoas adoráveis e abomináveis. Somos todos gentis e calorosos, mas também frios e cruéis.
Dentro de você e dentro de mim existem todas as qualidades e defeitos conhecidos pela espécie humana. Embora possamos não estar conscientes de todas as qualidades que possuímos, elas estão adormecidas dentro e nós e podem despertar a qualquer momento, em qualquer lugar. A compreensão disso nos permite entender por que todos nós, que somos "bons", somos também capazes de fazer coisas ruins e, mais importante, por que às vezes nos tornamos os nossos piores inimigos.
Agora sou eu quem pergunta: Será que o russo Ouspensky aprendeu sobre os “eus” com algum cacique Cherokee?

Baseado no livro “Como entender o efeito sombra em sua vida” de Debbie Ford.