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domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Centro para Decisões - Visão Tolteca



O Livro Passes Mágicos, do xamanismo tolteca de Castaneda é uma compilação de práticas corporais para equilibrar as energias do praticante. Ele pressupõe a existências de seis principais, entre milhares de vórtices de energia no corpo, que podem ser manipulados e estimulados. Um deles é o centro para decisões.

"O tópico mais importante para os xamãs que viveram no México em tempos antigos e para todos os xamãs da linhagem de Dom Juan era o centro para decisões. Através dos resultados práticos dos seus esforços, os xamãs estão convencidos de que existe um ponto no corpo humano responsável pela tomada de decisão, o ponto V - a área na crista do esterno na base do pescoço onde as clavículas se encontram para formar a letra V. É um centro no qual a energia é refinada a ponto de ficar tremendamente sutil e que armazena um tipo específico de energia que os xamãs são incapazes de definir. Entretanto eles têm absoluta certeza de que podem sentir a presença dessa energia e os seus efeitos. Os xamãs acreditam que essa energia especial é sempre expulsa daquele centro bem no início da vida dos seres humanos e que ela nunca retorna para lá, privando os seres humanos de algo talvez mais importante do que toda a energia combinada dos outros centros: a capacidade de tomar decisões.
Em relação ao tema de tomar decisões, Dom Juan expressava a severa opinião dos feiticeiros da sua linhagem. Através dos séculos, suas observações os tinham levado a concluir que os seres humanos são incapazes de tomar decisões e que, por essa razão, criaram a ordem social: instituições gigantescas que assumem a responsabilidade pela tomada de decisões. Deixam essas instituições gigantescas decidirem por eles e simplesmente cumprem as decisões já tomadas em seu benefício.
Para os xamãs, o ponto V na base do pescoço era um local de tal importância que eles raramente o tocavam com as mãos. Se fosse tocado, o toque era ritualístico e sempre realizado por uma outra pessoa com a ajuda de um objeto. Eles usavam peças altamente polidas de madeira resistente ou ossos polidos de animais e utilizavam a parte arredondada do -osso para ter um objeto de contorno perfeito, do tamanho do ponto côncavo no pescoço. Pressionariam com aqueles ossos ou peças de madeira para criar pressão nas bordas daquele ponto côncavo. Embora raramente, esses objetos também eram usados para auto massagem ou para o que, nos dias de hoje, conhecemos como acupressura.
- Como eles vieram a descobrir que aquele ponto côncavo é o centro para decisões? - perguntei um dia a Dom Juan.
- Cada centro de energia no corpo - respondeu ele - mostra uma concentração de energia; uma espécie de vórtice de energia, como um funil, que, da perspectiva do vidente, parece realmente girar no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. A força de um determinado centro depende do vigor do movimento. Se ele mal se move, o centro fica exaurido, esvaziado de energia.
"Quando os feiticeiros dos tempos antigos estavam examinando minuciosamente o corpo com os seus olhos de videntes, notaram a presença desses vórtices. Ficaram muito curiosos a esse respeito e fizeram um mapa deles.”
- Existem muitos de tais centros no corpo, Dom Juan? - perguntei.
- Existem centenas deles - respondeu ele - se não milhares! Pode-se dizer que um ser humano não é mais que um conglomerado de milhares de vórtices giratórios, alguns deles tão minúsculos que são, vamos dizer, como furinhos de alfinete, mas furinhos muito importantes. A maioria dos vórtices são vórtices de energia. A energia flui livremente através deles ou fica presa neles. No entanto existem seis tão enormes que merecem tratamento especial. São centros de vida e vitalidade. Neles a energia nunca fica presa, mas às vezes o suprimento de energia é tão escasso que o centro mal gira.
Dom Juan explicava que esses enormes centros de vitalidade estavam localizados em seis áreas do corpo. Ele os enumerava segundo a importância que os xamãs lhes concederam. O primeiro, na área do fígado e da vesícula biliar; o segundo, na área do pâncreas e do baço; o terceiro, na área dos rins e das glândulas supra-renais; e o quarto, no ponto côncavo na base do pescoço na parte frontal do corpo. O quinto, ao redor do útero, e o sexto, no topo da cabeça.
De acordo com o que Dom Juan dizia, o quinto centro, pertinente apenas às mulheres, tinha um tipo especial de energia que dava aos feiticeiros a impressão de liquidez. Era uma característica que somente algumas mulheres tinham. Parecia servir como um filtro natural que peneirava as influências supérfluas.
Dom Juan descrevia o sexto centro, localizado no topo da cabeça, como algo mais do que uma anormalidade e abstinha-se totalmente de ter alguma coisa a ver com isso. Retratava-o como possuindo não um vórtice circular de energia, como os outros, mas um movimento de um lado para o outro, como um pêndulo, que, de certo modo, lembra a pulsação de um coração.
- Por que a energia desse centro é tão diferente, Dom Juan? perguntei.
- Esse sexto centro de energia - disse ele - não pertence inteiramente ao homem. Entenda, nós seres humanos estamos, por assim dizer, sob estado de sítio. Esse centro foi assumido por um invasor, um predador invisível. E a única maneira de dominar esse predador é fortificando todos os outros centros.
- Não é um tanto paranóico achar que estamos sob estado de sítio, Dom Juan? - perguntei.
- Bem, talvez para você, mas certamente não para mim - respondeu ele. - Eu vejo a energia e vejo que a energia sobre o centro no topo da cabeça não flutua como a energia dos outros centros. Ela tem um movimento de um lado para o outro muito desagradável e muito estranho. Também vejo que, em um feiticeiro que foi capaz de dominar a mente, que os feiticeiros chamam de uma instalação alienígena, a flutuação desse centro torna-se exatamente como a flutuação de todos os outros.
Durante os anos do meu aprendizado Dom Juan recusou-se sistematicamente a conversar sobre o sexto centro. Na ocasião em que estava me falando sobre os centros de vitalidade, desprezou rudemente minhas frenéticas indagações e começou a falar sobre o quarto centro, o centro para decisões.
- O quarto centro - disse ele - tem um tipo especial de energia que aparece ao olho do vidente como possuindo uma extraordinária transparência, algo que poderia ser descrito como semelhante à água: energia tão fluida que parece líquida. A aparência líquida dessa energia especial é a marca de uma qualidade do próprio centro para decisões parecida com um filtro que peneira qualquer energia que chega até ele e extrai dela apenas o seu aspecto que é parecido com líquido. Essa qualidade de liquidez é uma característica uniforme e consistente desse centro. Os feiticeiros também o chamam de o centro aquoso.
A rotação da energia no centro para decisões é a mais fraca de todas elas. É por essa razão que o homem raramente decide alguma coisa. Os feiticeiros vêem que, após praticarem determinados passes mágicos, esse centro torna-se ativo e eles podem, com certeza, tomar decisões que satisfaçam os seus corações, enquanto que, antes, não conseguiam sequer dar um primeiro passo.
Dom Juan era bastante enfático sobre o fato de que os xamãs do antigo México tinham uma aversão, que beirava a fobia, com relação a tocarem em seus próprios pontos côncavos na base do pescoço. A única maneira pela qual eles aceitavam qualquer interferência que fosse naquele ponto era através do uso dos seus passes mágicos que reforçam aquele centro trazendo para ele a energia dispersa e, desse modo, impedindo, na tomada de decisão, qualquer hesitação nascida da dispersão natural de energia ocasionada pelo desgaste da vida cotidiana.
- Um ser humano - dizia Dom Juan -, percebido como um conglomerado de campos de energia, é uma unidade completa e lacrada na qual nenhuma energia pode ser injetada e da qual nenhuma energia pode escapar. A sensação de perder energia, que todos nós experimentamos de vez em quando, é o resultado da energia sendo afugentada, dispersada dos cinco enormes centros naturais de vida e vitalidade. Qualquer sensação de obtenção de energia é devida à redistribuição da energia previamente dispersada daqueles centros, isto é, a energia é recolocada naqueles cinco centros de vida e vitalidade."

Do livro Passes Mágicos - Carlos Castaneda

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Findhorn, Devas, Videntes, Natureza e outros bichos...

Este texto é para você que é meio fora de esquadro como eu. A idéia de postar foi inspirada pela minha mudança para fora da cidade grande, num lugar de frente para a Mata Atlântica preservada. Como você vai ver, o texto é de uma energia “para cima”, não só uma bússola mágica para nos orientar com simplicidade nas dúvidas ecológicas de “estar no mundo”, como é um antídoto ideal para a amplificação desconfortável desses tempos bicudos que estamos vivendo.
Fala dos Devas, espíritos elementais da natureza, de poderes esquecidos pelo ser humano, fala de amor e ligação com a Natureza, mas sem esse modismo pegajoso da mídia que está ai trombeteando “salvar o planeta” sem saber o verdadeiro caminho e o significado interior profundo disso.

Faz parte de um livro excepcional e esquecido de Peter Tompkins, “A vida secreta das Plantas” (1967) uma pérola do Invisível, nos convidando a uma aventura do espírito.
Após 1962 a experiência amorosa de união com a Natureza em Findhorn, extremo norte da Escócia,  teve sucesso, e a coisa evoluiu: A BBC fez um longo documentário
de 2,5 horas com o mesmo nome (sobre o assunto, não sobre Findhorn) mostrando a insuperável inteligência das plantas, e o tema inspirou Stevie Wonder a compor o disco “Journey Through the Secret Life of Plants” ("Viagem através da Vida Secreta das Plantas"). Eckhart Tolle fez um vídeo e palestras, e hoje, 50 anos depois, há uma Findhorn Foundation com ecovilas espalhadas pelo mundo ensinando saúde, amor e boa relação com a Natureza. Vamos lá:
 “A experiência mais avançada relacionada à comunicação com as plantas foi feita há tempos numa remota região ao norte da Escócia, com resultados mais espetaculares que os já obtidos por quaisquer outros meios. Numa nesga de areia varrida pelo vento, onde cresce o espinhoso tojo e que domina, erma, o esteiro de Moray, deitou raiz uma comunidade agrícola que talvez floresça numa das maravilhas da Era de Aquário.
A uns 4 quilômetros do castelo de Duncan, em Forres, em cujas ameias grasna o corvo, e bem ao sul da charneca onde as três feiticeiras predisseram a Macbeth que ele seria senhor de Glamis e Cawder, um ex-piloto da RAF convertido em hoteleiro decidiu fixar residência, com mulher e três filhos, num canto abandonado de uma área de camping, na baía de Findhorn — um montão de latas velhas, cacos de garrafas, espinhos e moitas de tojo.
Grandalhão mas delicado, polido como um diretor de escola inglês e vestido como um homem do campo, Peter Caddy, que uma vez já andou mais de 300 quilômetros pelo Himalaia, cruzando a Caxemira e penetrando no Tibete, se inclui desde a juventude entre os adeptos de uma filosofia cujo alvo é devolver ao planeta a beleza e a capacidade de se maravilhar com as coisas. Iluminado pelos ditames de sua consciência — ou, como prefere dizer, pela força de uma vontade criadora que lhe foi revelada por sua clarividente mulher Eileen, Caddy cortou todas as amarras e se mudou para Findhorn num dia nevoento de novembro de 1962. Em companhia do casal ia outra sensitiva, Dorothy Maclean, que abandonara a diplomacia canadense para estudar o sufismo.
Por algum tempo eles se dedicaram a mudar  radicalmente de vida, desviando-se das preocupações mundanas e materialistas para entrarem no que Caddy chama de "um longo período de preparo". Durante esse período, planejavam abrir mão de tudo, inclusive de toda vontade pessoal, confiando-se a uma entidade que chamam de Força e Amor Ilimitados, cujos desígnios lhes são manifestos através de um mestre rosa-cruz falecido que reconhecem em carne e osso como o Dr. G. A. Sullivan e em espírito como Aureolus, ou Saint Germain, ou o Mestre do Sétimo Raio.
Na verdade, a área de camping de Findhorn, inóspita e sempre superlotada, era o último lugar do mundo em que o grupo pensaria se fixar. Durante alguns anos tinham passado por ali, sempre às carreiras, indo ou voltando para Forres. Mas uma força misteriosa, de repente, pareceu sobrepujar a sua aversão. Como que guiados por essa força, estacionaram seu velho trailer no local de sua nova residência — menos de 0,5 acre numa parte mais baixa do terreno, não muito longe do ponto onde se aglomeravam os trailers dos excursionistas de passagem. O canto escolhido por eles era constituído principalmente de areia, marcado por uma vegetação rasteira e escassa, exposto incessantemente ao vento e só sombreado por um cinturão de abetos.
Com a aproximação do inverno, a perspectiva era negra. Mas, mirando-se no exemplo dos monges, que costumavam construir eles mesmos seus mosteiros, pondo luz e amor em cada pedra assentada, o grupo de Caddy fez uma faxina em regra no velho e desengonçado trailer, varrendo, raspando, pintando tudo de novo, enchendo-o de vibrações de amor para anular as vibrações negativas que, a seu ver, eram inevitáveis em estruturas construídas por pessoas exclusivamente interessadas em dinheiro. Esse foi o primeiro passo para a criação de seu próprio centro de luz.
Como nenhum dos pioneiros de Findhorn tinha emprego, e o pouco dinheiro de que dispunham só daria para passar o sombrio e ingrato inverno escocês, eles sonhavam com a primavera, pensando em plantar então uma horta, tanto para terem uma fonte de alimentação saudável quanto para aumentarem à sua volta a camada protetora de luz.
Caddy se debruçou dias e noites sobre livros de horticultura, mas todos lhe pareceram contraditórios em suas recomendações. Escritos principalmente por especialistas radicados na costa sul da Inglaterra, onde o clima é mais ameno, eles nunca se aplicavam a seu caso. Quando a Páscoa se fez próxima, anunciando um renascimento da terra, o solo árido c quase sem vida que os rodeava nenhuma indicação deu de que era bom para uma horta. Caddy, que nunca tivera plantado nada na vida, sentiu-se como Noé, cuja missão fora fazer uma arca antes de chegar a água. Só havia então um jeito: ou eles se entregavam de vez a seu guia ou voltavam, frustrados, para o mundo dos negócios. Uma regra básica de vida lhes fora ensinada pelos mestres rosa-cruzes: "Amar o onde estou, amar quem comigo está, amar o que estou fazendo".
Para ouvir o arcanjo que ensinava tudo a eles, Eileen se levantava à meia-noite e meditava regularmente por várias horas, embrulhada num capotão contra o rigoroso frio escocês e se refugiando no único lugar que lhe garantia uma tranqüilidade absoluta — o banheirinho gélido do trailer. Uma vez ela leu num livro que a gente recebe seu nome espiritual num momento da vida e só então pode começar um trabalho espiritual sério. Em 1953 sentiu uma coisa incrível: a palavra "elixir" pareceu agarrar de repente na testa dela. Eileen adotou esse nome e desde então nunca o guia a deixa desprotegida.
No seu ataque de clarividência, Elixir viu sete bangalôs de cedro amontoados no meio de um jardim maravilhoso, bem tratado que era uma beleza. Como a visão foi se materializar naquele lugar horroroso que era o parque de campina, ninguém sabe. No entanto todos punham fé na clarividência da mulher.
Fazer uma horta parecia impossível, além da força deles. A terra era pura areia, não prestava para nada, só dava uma grama que espetava. O guia espiritual tinha dito a Elixir que quando a gente enfia uma pá no chão passa as vibrações da gente para ele. Foi aí que Peter Caddy saiu explorando o local, achou turfa, cavou, fez um montão. Do lado fez outro monte, pura areia e cascalho. Com a pá, virou e revirou o monte de turfa: era preciso que ela ficasse bem impregnado mesmo, para agir como nutriente. Depois misturou a turfa e a areia, e fez os canteiros.
Obteve uma horta de 3 por 4 metros. O problema agora era arranjar um meio de regá-la, porque o solo arenoso retinha a água. Mas eles deram um jeito, usando um vaporizador muito fino e regando seguidamente por um longo tempo, com uma paciência enorme, para que a umidade não se fosse. Depois de muito trabalho os canteiros ficaram prontos para semear. Segundo os entendidos do local e os livros disponíveis, na terra de Findhorn não crescia nada, senão talvez rabanete e alface. Isso era uma perspectiva meio sem graça para uma família que antes passava bem, quando eles tinham o hotel, comendo carne ou pato com vinho tinto do bom.
Felizmente Elixir fora avisada pelo guia de que o homem estava comendo a comida errada, bebendo a água errada, pensando errado, engordando seu corpo físico e se esquecendo do de luz. Eles tinham de passar a comer coisas saudáveis, tinham de se concentrar na horta: as verduras e frutas, com o mel e o germe de trigo, seriam a base da alimentação de uma nova era de corpos refinados.
Usando dessa vez o cabo da pá, Caddy fez as covinhas para suas sementes de alface, plantando-as a uns 30 centímetros uma da outra. Para se sentarem ao solo e apreciarem a horta crescendo, os findhornianos precisavam de uma cerca, que os protegesse do vento que não parava de soprar do esteiro, e de um patiozinho acimentado. Areia eles tinham à vontade. Só faltava o cimento — e o dinheiro.
A madeira para a cerca improvisada apareceu por milagre: foi dada por um morador das vizinhanças que estava reformando a garagem. Mal a cerca ficou pronta, apareceu outro vizinho e disse que uns sacos de cimento tinham caído de um caminhão na estrada. Em pouco tempo tiveram um pátio cercado de onde olhar — não mudas de alface crescendo, mas sim uma montoeira de pragas se fartando.
Que fazer? O guia de Elixir era contra os inseticidas químicos. Mas um vizinho passou por acaso e deu a Caddy uma informação preciosa: ali perto havia um monte de cinza e cinza era ótimo para espantar insetos.
Caddy espalhou-a com cuidado no chão e nem se lembrou do vento, que de noite distribuiu cinza para todos os lados — inclusive dentro do trailer: ficaram sujos os cabelos, os livros e a roupa. Felizmente choveu e a água acamou a cinza. No fim de maio eles já estavam comendo rabanetes e alfaces deliciosos.
Como o guia de Elixir também avisara que os fertilizantes químicos são tóxicos, a solução era obter um composto orgânico, se quisessem variar mais a horta. Não foi difícil. Um vizinho doou palha podre, outro doou esterco. Um amigo que tinha cavalos até permitiu que eles fossem andando atrás dos animais, de balde e pá na mão. Alga era o que não faltava: o mar estava cheio. Como que caído do céu, um fardo de um caminhão de feno, tombando quase na entrada do parque, serviu para cobrir o composto.
Estimulados por essa "assistência supramundana", os findhornianos se encheram de gratidão. Um deles escreveu: "Podíamos ter sido negativistas e dizer que a terra não prestava, como era o caso. Em vez disso, pegamos no pesado e concentramos o pensamento no trabalho". Caddy trabalhava o dia todo, botando suor e radiações na terra, disposto a obter verduras que garantissem boa parte da alimentação do grupo nos próximos meses. Isso, junto com o ar puro, sol e banhos de mar, o clima saudável e a água pura, permitiria que eles purificassem o corpo e o enchessem de energia, tornando-se mais capazes de absorver energias cósmicas.
Os findhornianos plantaram tomate, pepino, espinafre, salsa, aspargo, abóbora e mostarda. Como defesa contra um dálmata que costumava incomodá-los, ergueram uma muralha viva com várias espécies de amora cercando a horta. As plantas cresceram depressa e a horta, ultrapassando a área perto do trailer, acabou cobrindo 2 acres. Cada pedaço de terra recebeu sua parte de turfa e composto; cada pedacinho foi revolvido com pá várias vezes.
Os resultados, já tão surpreendentes no segundo mês, espantaram os vizinhos. Não sabendo do espírito que animava os Caddy, não podiam entender o que se passava, sobretudo quando seu repolho e sua couve-de-bruxelas foram os únicos a resistir na região a uma onda de praga que infestou as raízes das plantas. Também em termos de quantidade, sua plantação, comparada à média da região, deu um rendimento notável.
Os findhornianos já podiam se dar ao luxo de comer mais de vinte espécies vegetais numa salada; o que produziam dava para presentear os vizinhos com salsa, espinafre, alface, rabanete. No jantar, costumavam comer dois ou três legumes colhidos na hora, na sua horta sem fertilizantes, e preparados logo em seguida. Faziam cozidos deliciosos com cenoura, cebola, alho, alcachofra, abóbora, batata, alho-porro, pastinaga, couve-nabo, couve, rábano, aipo, temperados com uma enorme variedade de ervas.

 Elixir foi alertada para concentrar a mente em cada ingrediente, quando fazia uma salada ou uma ratatouille, pois seus pensamentos e sentimentos eram importantes para a continuação do ciclo da vida. Ela tinha de gostar de tudo o que fazia, fosse descascar uma cenoura ou limpar ervilha, e considerar como uma coisa viva cada vegetal em sua mão. Nada se perdia na cozinha. As cascas e o lixo iam parar no composto e no solo, aumentando assim as vibrações da vida. O maior problema do grupo era, em suas idas eventuais à cidade, ter de comer a comida normal. Elixir se tornou tão sensitiva que o contato com as vibrações danosas da chamada civilização lhe era insuportável.
Em pleno verão, desde que passaram a colher framboesa, amora e morango, podiam fazer geleia e guardar sempre uma boa quantidade. Também faziam picles em casa, com repolho-roxo e pepino. Numa garagem recém-construída, armazenaram batatas, cenouras, beterrabas, chalotinhas, alho e cebolas. Durante o inverno, preparavam a terra para a estação seguinte e plantavam mais frutas; chegaram a ter ao todo mais de vinte espécies, inclusive maçã, pera, ameixa, cereja, abricó, framboesa, amora. Em maio de 1964, já floriam as primeiras fruteiras.
Caddy calculou que oito repolhos-roxos, com um peso médio de 1,50 a 2 quilos, dariam para as necessidades do grupo na estação seguinte. Mas, para surpresa de todos, um só repolho veio a pesar 18 quilos, enquanto outro chegou aos 22. Um pé de brócolos, plantado por engano como couve-flor, atingiu uma altura tão incrível que continuou a dar por se-manas; e era tão pesado que não foi fácil segurá-lo, quando finalmente foi arrancado.
Fortaleceu-se pouco a pouco em Caddy a crença de que, por trás do que acontecia em Findhorn, devia existir algum objetivo superior; de que talvez eles estivessem envolvidos numa misteriosa aventura pioneira, uma experiência mais ampla de vida em comunidade; de que a horta talvez fosse o núcleo para a realização de um modo novo de ser na Nova Era, uma espécie de curso preparatório para a compreensão de que a vida é um Todo.
Em junho de 1964, quando o consultor agrícola do condado apareceu para pegar umas amostras do solo para análise, seu primeiro comentário, logo que deu uma olhada na terra, foi de que ela precisaria de pelo menos 60 gramas de sulfato de potássio por metro quadrado. Caddy disse que não acreditava em fertilizantes artificiais, que estava feliz usando composto e cinza. O consultor não se deixou convencer.
Seis semanas depois, quando ele voltou com os resultados da análise feita em Aberdeen, confessou, não sem espanto, que a análise não demonstrara deficiências na amostra. Todos os elementos necessários, inclusive alguns elementos vestigiais, estavam presentes. O espanto do consultor foi tal que pediu a Caddy para tomar parte num programa de rádio sobre a horta; um agricultor experiente, mas que usasse apenas o sistema convencional dos fertilizantes químicos, debateria com Caddy, enquanto o próprio consultor atuaria como mediador. Mas Caddy diz que, na época, lhe parecia ainda prematuro expor publicamente o assunto, do ponto de vista espiritual, e de novo atribuiu o sucesso ao estéreo e ao composto orgânico.
Nessa época eles já cultivavam 65 espécies de verduras e legumes, 21 de frutas e mais de quarenta ervas, quer culinárias, quer medicinais. Dorothy Maclean, após um período em que também recebera orientação espiritual extraordinária, tinha adotado o nome de Divina. Veio a saber que as ervas aromáticas, por seus comprimentos de onda únicos, podiam ser de grande valia para o homem, afetando nossas funções em diferentes partes da anatomia e da psique; umas eram boas para feridas, outras para a vista, outras ainda para as emoções. Dorothy compreendeu que, elevando a qualidade de suas próprias vibrações, poderia eventualmente abrir as portas para um novo reino do espírito na vida vegetal. Tornou-se claro para ela que o pensamento, a paixão, a cólera humana, como a afeição e a doçura, tinham efeitos de longo alcance sobre as plantas; que estas, de fato, eram supersensíveis à massa do que nos passa pela mente e afeta sua própria energia. Os estados de espírito negativos e venenosos têm um efeito depressor sobre as plantas, tal como as freqüencias felizes e transmissoras de ânimo têm um efeito benéfico. Ocorreu-lhe ainda que os efeitos negativos podiam regressar às pessoas através do que comiam, por elas mesmas infestado de vibrações más. Assim, o ciclo se perpetuava, ora em declínio vicioso, levando a mais miséria, mais doença e dor, ora numa ascensão que era toda esperança, levando a mais luz e alegria.
Divina diz ter entendido que a contribuição mais importante dada por um homem a uma horta — mais importante mesmo que o composto e a água — é a radiação que põe no solo enquanto o cultiva e se mostra, por exemplo, em forma de amor; e que cada membro de um grupo tem algo a dar em termos de radiação, seja alegria, seja força. Tudo o que ocorre a um ser humano através dessa ou daquela inspiração de novo sai modificado em comprimento de onda, em matiz ou timbre, pela vontade da pessoa envolvida; qualquer um pode aperfeiçoar a qualidade do que emite e aumentar a radiância de seu comprimento de onda.
Ao mesmo tempo, Divina compreendeu que o solo e as plantas são constantemente afetados por radiações vindas da própria terra e do cosmo, cada qual contribuindo para sua fertilidade e sem cuja intervenção tudo seria estéril; tais radiações eram mais importantes que os elementos químicos ou os organismos microbióticos, sujeitando-se fundamentalmente à mente humana. O papel do homem parecia ser o de um semideus: cooperando com a natureza, seu poder de realizações no planeta tinha tudo para vir a ser ilimitado.
Na primavera de 1967, Elixir — que ainda recebia a orientação geral para a aventura — foi advertida de que a horta tinha de ser ampliada ainda mais e, pelo plantio das flores mais variadas, transformada num lugar de beleza. O centro devia aumentar com a construção de novos bangalôs. A visão que tinha tido logo na chegada a Findhorn já começava a materializar-se. Como que por milagre, o dinheiro necessário surgiu e com ele os bangalôs de cedro, em madeira bruta, logo cercados por impecáveis jardins.
Em 1968, quando Findhorn recebeu a visita de um grupo de especialistas em jardinagem e agricultura, todos se surpreenderam, observando que nunca tinham visto uma horta tão uniforme no rendimento por setor. Nas novas bordaduras de plantas anuais, a cor e o tamanho das flores foram um enigma para os visitantes, considerando-se a pobreza do solo e o rigor do clima nórdico. Numa visita efetuada na Páscoa, Sir George Trevelyan, que durante 24 anos dirigiu a famosa Fundação de Educação de Adultos, em Attingham, pôde admirar a qualidade dos narcisos e jacintos, plantados em canteiros revestidos por flores de porte menor, mas grandes e belas como nunca vira. Achou que as raízes comestíveis eram melhores que quaisquer outras que já comera. Espantou-se também vendo as mais variadas fruteiras em flor, bem como um castanheiro novo já com mais de 2 metros e folhas graúdas e cheias de viço. Aqui e ali espaçavam-se arbustos, vegetando entre as dunas varridas pelo vento.
Na qualidade de membro da Associação do Solo, Sir George já entendia bastante dos métodos orgânicos para saber que aquilo tudo não podia ser atribuído só ao revigoramento de um solo pobre pelo composto. Havia uma incógnita, pensou ele, e se Findhorn mudara tanto, em tão pouco tempo, até o Saara poderia virar um jardim.
Em junho de 1968, Armine Woodehouse, da Associação Radiônica, que fora dona de um caminhão de vender verduras, por vinte anos, no País de Gales, visitou Findhorn e ficou encantada com o que viu, sobretudo ao notar a areia cuidadosamente forrada pelo composto e o vento que não parava de fustigar a horta. Os morangos, a seu ver, fariam inveja a qualquer plantador profissional. Uma coisa a intrigou em especial: o áster e a prímula, que gostam de umidade, se dando tão bem em solo seco.
A visita de Elizabeth Murray, uma jardineira orgânica e também membro da Associação do Solo, deu-se em julho de 1968. A radiância das árvores, das flores, das frutas, dos legumes e verduras, tudo lhe pareceu extraordinário. A seu ver, o composto perdia muito de seu valor misturado à areia, e não era possível que só isso explicasse o rendimento tão notável, superior a tudo o que conhecia em termos de tamanho, gosto e qualidade. Ela também não se convencia de que só o composto e o carinho tivessem feito o milagre.
A irmã de Lady Eve, Lady Mary Balfour, que se descreve como "uma modesta jardineira da escola orgânica", passou um dia em Findhorn, em setembro de 1968, e escreveu: "O tempo estava sempre cinza e úmido, mas a impressão que me ficou é que o lugar era banhado de luz, o que talvez se deva ao brilho extraordinário das flores que eu vi, massas compactas de cor nos canteiros".
Lady Cynthia Chance, seguidora da escola biodinâmíca, estranhou quando Peter Caddy lhe disse que não precisava recorrer aos métodos de Rudolf Steiner, pois tinha um modo espiritual mais direto de obter os mesmos resultados. Um especialista agrícola das Nações Unidas e professor de várias universidades, R. Lindsay Robb, ao visitar Findhorn pouco antes do Natal, declarou que "o vigor, a saúde e a floração, em pleno inverno, num lugar tão árido, não podem ser explicados apenas pelo uso correto do composto, nem mesmo pela aplicação dos métodos mais aperfeiçoados de cultivo; deve haver outros fatores, de natureza mais vital".
A essa altura Peter Caddy ergueu uma ponta do véu e revelou a Sir George Trevelyan o segredo de seu sucesso em Findhorn.

 Disse que Dorothy Maclean, ou Divina, tinha entrado em contato direto com os Devas ou criaturas angelicais que controlam os espíritos da natureza, vistos pelos videntes em seu contínuo trabalho de nutrir as plantas. Sir George, um iniciado no estudo da astrologia, do ocultismo e das ciências herméticas, respondeu já saber que um grupo de sensitivos se encontrava em ligação com o mundo dos devas e que Rudolf Steiner, na verdade, tinha baseado nisso a descoberta de seus métodos biodínâmicos. Longe de zombar da explicação de Caddy, dispôs-se a ser uma testemunha e afirmou que a investigação consciente de tais mundos é da maior importância para nossa compreensão da vida, sobretudo no que tange às plantas.
Sem perda de tempo, Peter Caddy enfeixou numa série de folhetos a verdadeira origem da experiência de Findhorn. Divina deu descrições detalhadas das mensagens por ela recebidas diretamente dos devas, que esquematizou em sua hierarquia, onde cada qual corresponde a uma fruta ou verdura, a uma flor ou uma erva silvestre. Aqui estava uma caixa de Pandora mais fenomenal que a aberta em Nova York por Backster.
Findhorn logo se desenvolveu numa comunidade com mais de cem adeptos. Jovens líderes espirituais dedicaram-se a pregar o evangelho de uma Nova Era, cujos princípios passaram a ser ensinados numa escola fundada na comunidade. O que tinha começado como uma hortinha milagrosa transforma-se agora num centro de luz para a Era de Aquário, visitado anualmente por pessoas de todos os continentes.
Penetrar em outros mundos e outras vibrações além do espectro eletromagnético pode ser um longo passo à frente para explicar os mistérios incompreensíveis aos físicos, que se limitam ao estudo do que vêem com os olhos físicos e seus instrumentos. No mundo etéreo do vidente, que pretende ter dominado a arte da visão astral, abrem-se novas perspectivas quanto às plantas e seu relacionamento com o homem, a Terra, o cosmo. O crescimento vegetal, como já o asseverara Paracelso, pode de fato ser afetado fortemente pela posição da Lua e dos planetas, pela relação desses com o Sol e outras estrelas do firmamento.
Tornam-se menos estranhos conceitos como "a planta-protótipo de Goethe" ou a visão animista de Fechner, que a cada vegetal concedeu uma alma. A convicção de Burbank de que. o homem, com a ajuda da natureza, consegue tudo o que quer, ou a de Carver, para quem os espíritos naturais enchem as matas e participam de seu crescimento, talvez tenham de ser revistas à luz das descobertas dos teosofistas e de videntes tão extraordinários como Geoffrey Hodson. A sabedoria tradicional, tal como pormenorizada por videntes como Helena P. Blavatsky e Alice A. Bailey, lança uma luz nova sobre a energia dos corpos, humanos ou vegetais, bem como sobre a relação das células individuais com todo o cosmo.
O segredo por trás do composto biodinâmico de Pfeiffer, cuja eficácia foi cientificamente comprovada, revela-se uma maravilha homeopática baseada na criação fantástica das misturas orgânicas de Rudolf Steiner, feitas em chifres que ele enterrava cheios de excremento de boi e bexigas de veado contendo folhas de urtiga e camomila. A abordagem da vida vegetal feita pela antroposofia, ou ciência espiritual, de Steiner é de deixar perplexos os cientistas.
Esteticamente, o mundo dos devas e dos espíritos naturais é ainda mais cheio de sons, cor e perfume do que as criações de Scriabin e Wagner; seus gnomos, ninfas e ondinas, seus espíritos do fogo, da terra, da água e do ar são mais reais que o Santo Graal e a busca eterna que engendrou. O Dr. Âubrey Westlake, autor de "Padrão de Saúde," ao considerar nosso estado, descreve-nos presos num "vale de conceitos materialistas, recusando-nos a acreditar que haja algo mais além do mundo físico que nossos sentidos apreendem. Pois, como habitantes de uma terra de cegos, rejeitamos os que viram, com sua visão espiritual, o mundo supra-sensível no qual estamos mergulhados, desmentindo tais fatos como fantasias e sempre propondo explicações científicas mais sérias".
A atração do mundo supra-sensível do vidente, ou dos mundos que esse mundo encerra, é grande demais para passar em branco, além de ter implicações profundas para a sobrevivência do planeta. Enquanto o cientista moderno tropeça no segredo das plantas, o vidente vai longe e propõe soluções incríveis, mas que fazem mais sentido que o palavreado empoeirado dos acadêmicos. Mais que isso, ele dá um sentido filosófico à totalidade da vida. O mundo supra-sensível dos homens e das plantas, de que este livro só deu uma ideia, será explorado em outro, A vida cósmica das plantas.”

domingo, 26 de junho de 2011

Contemplar - 2 (o "não fazer")

Hoje pela manhã o buscador aqui, começou a meditar da maneira habitual, mas com uma intenção nova, que tem tentado ultimamente com assiduidade. Aliás, aqui entre nós, meditação (mediar, estar no meio, fazer a conexão) apesar de ser uma palavra forte e apropriada, não parece ser a melhor palavra. Contemplar soa melhor, porque ela toca algo inefável na Consciência, uma qualidade do Ser que é encantadora, sem a qual o caminho fica mais lento e difícil: uma “imobilidade ativa", um “não-fazer lúcido”, atento. É simplesmente “não fazer” o que se faz normalmente, só contemplar... os toltecas o consideram uma disciplina clara, precisa e mágica para aingir o que chamam de Segunda Atenção. Hoje eu percebo que contemplar sem agir, é a porta secreta para o Invisível, que é a casa da busca interior do Ser.
E lá estava eu... apoiado interiormente na intenção do tripé imprescindível para abrir a porta do Ser:

  • atenção no vai-e-vem da respiração,
  • “ocupar” o espaço do meu corpo sentindo as sensações, e...bingo!
  • esvaziar o mental: o silêncio interior.
Quando você raramente consegue a façanha desse instante fugidio, dessa geometria interior, pensa assim: “ganhei a batalha”. - Nã... nã... nã... aí é que começa a verdadeira batalha: manter a coisa...
Na verdade é um campo de batalha diário, e contraditoriamente silencioso, mas não menos real que uma batalha nas trincheiras. Lembra-me uma frase de Fernando Pessoa; “O esforço que fez Napoleão para conquistar a Europa, eu faço todo dia para levantar da cama”.
Eu sempre inicio pelo primeiro, "a atenção á respiração". Por que? Aí tem uma malandragem. Porque é o mais fácil, porque é apoiado num “fazer”, e o fazer é só o que sabemos fazer (rsrs) com facilidade, não depende de outra coisa senão dar a ordem e tentar manter a intenção, não perder o fio do novelo. Mas mesmo sendo o mais fácil, exige atenção e disciplina. Não desista. Se perdeu o fio, volte. Com paciência, interesse, intenção. O sucesso aqui é contado não por quanto tempo eu consigo ficar ligado no vai-e-vem da respiração sem interrupção, mas em quantas vezes eu me perco e, pacientemente, volto. Na boa.
Mas tem mais coisa, aliás muito mais coisas... Eu tenho que, mesmo sem fazer nada, coordenar nas entrelinhas o “controle” das três ações dessa “trindade”, mantendo um distanciamento interno que atua, sem se envolver nelas, sem me atirar afoito em nenhuma. Não me pergunte como se faz isso. È um fazer sem fazer. Sutil como o equilíbrio na corda bamba. É um mistério. A gente só consegue fazer, fazendo. Lembra um pouco aquele personagem do circo que mantém um número enorme de pratinhos girando em cima das varetas, sem deixar cair nenhuma... um espanto: “ôÔpa... vai cair aquela ali... consegui... e tem a outra... chíí, tem mais duas... acertei... vixe, caiu tudo!”. Só dá certo na hora em que ele consegue se livrar do apego, abrindo mão do resultado. É quando o buscador só está ali pela diversão do corpo, mente e espírito, e mais, o compromisso sério da proposta. Resumindo: abrir mão do resultado, e ao mesmo tempo buscá-lo com afinco... pensamento, emoção e corpo. Fácil, não é?...
Posto isso, enquanto eu percebo que uma parte da minha Atenção, essa coisa misteriosa, está “manobrando” a respiração sem atuar, só na intenção, outra parte está ligada em um “fazer”, sintonizado à sensação do corpo, que na verdade é um não-fazer. Eu explico: a atitude correta é a Atenção tentar ser uma antena que registra uma vasta gama de todo e qualquer sinal vindo do corpo (sensação, emoção, pensamento), mas a atitude justa é não tentar procurar ou “agarrar” nada, só receber. Por isso é um não-fazer. Uma antena que se preze não faz nada. Só recebe, sem o esforço de ir buscar. A Atenção foi feita para isso, mas o problema é que ela convive misturada com o ego, lá dentro de nós, e o ego se julga dono de tudo, só quer agarrar, e com isso obscurece ou mesmo cega a Atenção. Nós é que temos que separar o joio do trigo e, delicada e mansamente, tentar isolar a ação do ego, tirando o ar dele numa boa, sem briga. Cada dia a gente aprende uma sutileza para lidar com esse sujeitinho.
Muito bem, ainda falta um pé do tripé. Deixamos para o final porque é o mais sutil, manhoso, esperto e difícil de trabalhar: o Silêncio Interior do mental, o vazio: nada de pensamento. Não tem passado e não tem futuro. È o mais difícil de trabalhar. Por que? Porque mais que a sensação do corpo, o silêncio do mental é um profundo não-fazer. É o “não-fazer do falar”. Para conseguir atingi-lo você tem que cancelar a força absurda do diálogo interno implantado não-sei-por-quem em nossa mente como uma sutileza diabólica do nosso funcionamento: ele leva a vantagem de ser um piloto-automático. É como a gravidade, simplesmente está lá todo o tempo. Não faz nenhum esforço e portanto não descansa. Vacilou, ele vence, introduzindo-se de mansinho como uma sombra. A âncora de que eu preciso é a atenção na respiração. Ela permite um distanciamento não para se contrapor ao pensamento que surge com aparência inocente, mas sim para contemplá-lo nascendo, passando
disfarçado, e não embarcar na carona deliciosa e envolvente que ele é. - Mas, e se eu embarcar sem perceber? 
Ao notar que embarquei, sem culpa eu retorno ao eixo, como Ulysses ao ouvir o canto das sereias...
Don Juan falava a Castaneda textualmente (sobre o diálogo interno, que é o inimigo do silêncio do mental) no livro “Porta para o Infinito” e até ensinava como antídoto a ele “uma maneira correta de andar”:

  • "- Já lhe disse que o diálogo interno é o que nos prende à terra.  O mundo é isso e aquilo somente porque falamos conosco dizendo que ele é isso e aquilo. A passagem para o mundo dos homens de conhecimento se abre depois que o guerreiro aprende a parar o diálogo interno. Modificar nossa concepção do mundo é o ponto nevrálgico do conhecimento - disse ele. - E parar o diálogo interno é o único meio de conseguir isso”. Pag. 20
  • “A vidência só ocorre quando o guerreiro consegue parar o diálogo interno. Hoje, você parou sua conversa à sua vontade, lá no mato. E você “viu”. Pag. 30
  • “- Como você sabe, o ponto nevrálgico do conhecimento é o diálogo interno; esta é a chave de tudo. Quando um guerreiro aprende a pará-lo, tudo se torna possível; os planos mais rebuscados se tornam exeqüíveis. O caminho para todas as experiências fantásticas e sobrenaturais que você teve recentemente foi o fato de você conseguir parar de falar consigo mesmo”. Pag. 86
 Já que você está na sintonia, veja um vídeo do Heckhart Tolle sobre  Meditar, ou Contemplar. Copie e cole na sua barra de endereços do Google:
https://www.youtube.com/watch?v=X5vrPIR2pMM