segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ulysses e o canto das sereias



Você já leu a Ilíada e Odisséia? Então deve ter sentido, no desenrolar da aventura, aquela saudade inexplicável de algo mágico e profundo, um perfume de alguma coisa indefinível, um mistério familiar ao espírito, como a gente sente em As Mil e Uma Noites. Na passagem das sereias, o esforço incansável do herói é semelhante ao do príncipe na lenda da Bela Adormecida, ao de Orfeu buscando Eurídice, Dom Quixote buscando Dulcinéia, Dante buscando Beatriz. Parece historinha, mas é pau puro, como dizem na Bahia.
O guerreiro Ulysses, ou Odisseu, acompanhado por um grupo de amigos, vagou por muitos anos em busca do contato com sua alma adormecida personificada pela mulher Penélope da qual tinha se separado um dia e tudo o que queria era voltar para ela, e se esforçou feito um mouro.
A nossa chama de busca interior reconhece na lenda um vestígio do caminho da Verdade e se delicia. Sabe por que? Porque cada um de nós é Ulysses. A viagem dele é a nossa viagem. Penélope é a nossa alma esquecida. Precisamos voltar a ela...
A passagem das sereias é uma obra prima de símbolo. O herói é desafiado pelo Destino a passar pelo lugar onde elas cantam, seduzem e enlouquecem os marinheiros, afogando-os nas profundezas do mar.
Como é esperto e protegido pelos deuses, como todos os que buscam o Si Mesmo, o herói arma a estratégia. Convence os amigos, símbolo das nossas energias interiores, a se blindarem colocando cera nos ouvidos para não ouvir o canto sedutor, nem os gritos dele próprio, Ulisses, pedindo desesperadamente que os amigos o desamarrem na hora do vamos ver.


Ele conhecia a encrenca intuitivamente, não era bobo. Só deveria ser desamarrado depois da passagem pelo rochedo onde elas estavam, depois de sofrer o processo de “passar por”, a quente. É o chamado sofrimento voluntário do buscador, segundo ensina O Quarto Caminho ou O Caminho do Homem Esperto.
Então ele é amarrado no mastro, a coluna vertebral do navio que também é o eixo da respiração e do seu corpo. Nessa atitude de centrar a atenção à sensação do corpo com os ouvidos limpos e, portanto livres, passa pelo lugar onde estão as sereias e ouve tudo, sofrendo sem anestesia a experiência concreta da sedução do mundo. E então compreende tudo. Nego macho.
O canto é o processo de sedução com que o mundo horizontal, representado apropriadamente pelas sereias fascinantes mas estéreis, nos anestesia e nos adormece evitando nosso contato vertical com o Espírito. A nossa relação com o mundo é o braço horizontal da cruz. O braço vertical é o chamado do Espírito, símbolo presente em todas as tradições de busca interior. Ele vive os dois ao mesmo tempo. E sai ileso e vitorioso. Coisa de herói.
A lenda foi feita para nós, por alguma razão...


2 comentários:

  1. Essa historia de Ulysses como nossa própria é perfeita. Muito bem colocada.

    viver concretamente o divino durante o meu dia-a-dia normal, corriqueiro, e procurar evoluir... afinal é pra isso que estamos aqui.

    É isso aí Preto... vamo nessa.

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  2. Oi Luara
    Fiz uma confusão de novato, mas agora entendi o mecanismo das respostas dos comentários. Estou contigo. Vamos nessa. Brigadô!

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