domingo, 21 de agosto de 2011

Desconstrução

Antes que alguém pense que mudei de sexo, informo que inauguramos hoje, com uma mulher, a ‘publicação de textos de colaboradores no blog’. Só tem uma condição: ser coisa boa (o texto), porque o nosso leitor é muito exigente (rsrs). Foi a Patrícia, amiga do peito e de armas, que me falou do indiano e jesuíta Anthony Mello. Antes de falecer em 1987 ele era diretor do Sadhana Institute of Pastoral Counseling em Poona, India. E eu, que tenho pensado muito no resgate do Cristianismo, como um caminho interior esotérico autêntico que é de fato, valioso, rico de verdades, e tão esquecido graças ao efeito desolador da ‘Lei de Sete’ sobre o Cristianismo Primitivo, pensei "É isso aí. É a vez da Patricia dar o recado”. Não se influencie, no texto do jesuita, pela linguagem “não moderna”, e termos às vezes devocionais do Cristianismo. É assim em todas as tradições autênticas: Santidade, Graça,  Iluminação, Consciência ou Despertar, é tudo a mesma coisa; “Filho do Homem” não é Jesus, que vai vir de algum lugar de fora nos resgatar a todos numa boa. Isso não vai acontecer. Pelo menos não ao pé da letra. É uma linguagem simbólica. "Filho do Homem" é o filho de você, Humano (a), um Ser Novo que poderá nascer de dentro de você, se você se aplicar e ficar presente no Agora. Esse é o significado. Cada tradição tem a roupagem e a linguagem diferente da cultura e do seu tempo. O que importa é a essência. É colocar a Consciência no Agora. Agora!
Com a palavra a Patrícia:

Buscadores de plantão....Procuro Achadores.
Quando aterrisei neste planeta já cheguei inquieta e quando me coloquei em marcha, a palavra “buscador (a)” tinha um sabor incrível...Que aventura! Encontrei pares com quem compartilhei as diferentes trilhas, linguagens e inquietações parecidas, tive trocas profundas, encontrei grupos, guias, seres extraordinários,  participei de vivências, praticas espirituais fortíssimas, com companheiros, sozinha, cavernas, danças, com comida, sem comida  sempre  em marcha, em  busca da verdade....igual cão farejador...pratiquei, fui disciplinada, às vezes mais, às vezes menos...
De repente, a vida me obrigou a puxar o freio, de forma brusca, provocando ate uma batida e um galo na cabeça! (rsrs). Tive que parar e me perguntar: E ai? O que achei? Onde estou  indo mesmo? O que realmente procuro? Cadê todos os iluminados após tanta busca e esforços?  Não tenho duvidas que  encontrei indicadores excelentes, verdadeiros naguais, e  que segui as instruções de navegação ...mas uma luz vermelha começou a piscar....e não para! Há um tempo a palavra desconstrução vem acendendo na minha tela frontal. É hora de desaprender, desconstruir, largar, soltar, e “VER” o que achei...Achamos. Muita coisa, sim....mas.. pressinto que  é muito mais simples, e no fundo não queremos pagar o preço de “VER”...melhor continuar buscando! E continuar confortavelmente dormindo.
Há semanas converso com outro “buscador”(o blogueiro de plantão deste pedaço)  com quem encontro ressonância nas minhas mais recentes perguntas...a troca tem sido rica....Obrigada Preto. E sendo assim resolvi passar para meu amigo mais um dos meus achados... Carrego-o há anos na bolsa. Encontrei-o numa dessas crises, de: “cadê algum representante da minha religião de infância?”...”será que não tem ninguém ai que fale minha lingua”? Eis que pulou na minha frente um jesuíta. Sim um jesuíta! Anthony de Mello. Livrinho pequeno, Way to Love (infelizmente não foi traduzido) que carrego para ler e receber as porradas necessárias...é tão simples sua linguagem que dói. Segue aqui uma tradução que fiz e compartilho, pois acredito que ele tem algo a nos dizer...uns vão dizer, ‘Ah, já conheço isso’...mas então, será que em algum momento, de 'verdade verdadeiríssima', teve acesso à Consciência da qual ele fala? Se gostarem...traduzirei outros pedaços....um abraço

Esteja Pronto
“Portanto você deve também estar pronto; pois O Filho do Homem virá na hora que você menos espera”. Mateus 24:44.   
Mais cedo ou mais tarde surge no coração de cada ser humano o desejo pelo sagrado, pela espiritualidade, Deus, chame como quiser.  Ouvimos místicos falarem sobre a Divindade ao nosso redor e que está ao nosso alcance, que faria nossas vidas terem significados, serem belas e ricas, se apenas pudéssemos descobri-la. As pessoas têm uma vaga idéia do que é isto. Lêem livros, consultam gurus, em uma tentativa de encontrar o que devem fazer para alcançar esta coisa chamada de Sagrado ou Espiritualidade.
Arranjam todo tipo de métodos, técnicas, exercícios espirituais, formulas; e depois de anos de esforços sem frutos, ficam desencorajados e confusos e se perguntam o que deu errado. A maioria se culpa e pensa: ‘Ah se eu tivesse praticado essas técnicas de forma mais disciplinada, se eu tivesse sido mais generoso, talvez tivesse conseguido’. Mas conseguido o que?  Eles não têm uma idéia clara do que exatamente é esse Sagrado que tanto buscam, mas certamente sabem que suas vidas continuam confusas, ainda estão ansiosos e inseguros, cheios de medo, amargurados, sem perdoar, ambiciosos, pessoas manipulativas e controladoras...
Então mais uma vez se lançam com vigor renovado, no esforço e no trabalho que eles acreditam ser necessário para alcançar sua meta. Nunca pararam para considerar este  simples fato:  seus esforços não os levarão a lugar nenhum. Seus esforços só piorarão as coisas, tal como as coisas pioram quando você usa o fogo para apagar fogo. O esforço não leva ao crescimento; O esforço seja lá qual forma ele tenha, seja força de vontade ou habito, ou uma técnica, ou um exercício espiritual, não leva a mudança. Na melhor das hipóteses leva à repressão e a encobrir a raiz da doença.
O esforço pode mudar o comportamento, mas não muda a pessoa. Veja só que tipo de mentalidade você demonstra quando pergunta, “o que preciso fazer para alcançar o Sagrado?”. Isto não é o mesmo que perguntar,’ quanto dinheiro devo gastar para comprar algo?’ Que tipo de sacrifício devo fazer? Que disciplina devo ter? Que meditação devo praticar para alcançar isso? Pense em um homem que quer conquistar o amor de uma mulher e tenta melhorar sua aparência física modelando o corpo ou mudando seu comportamento e praticando técnicas para encantá-la.
Você só ganha o amor dos outros por ser um certo tipo de pessoa, não pela prática de técnicas. E isso nunca se alcança através do esforço. É a mesma coisa com a espiritualidade e o sagrado. Não é o que você faz que traz isso a você. Isso não é uma commodity que podemos comprar, ou um premio que podemos ganhar. O que importa é o que você é, o que você se torna.
A Santidade não é uma realização , é uma Graça.  Uma graça chamada Consciência, uma graça chamada “Ver”, Observar, Compreender. Se você ao menos acendesse essa luz da Consciência, observasse a si mesmo e tudo ao seu redor durante o dia, se você se visse refletido no espelho da Consciência, da mesma forma que você vê seu rosto refletido num espelho, isto é, com precisão e clareza, exatamente como é, sem a mais mínima distorção ou acréscimo, e se você observasse esse reflexo sem nenhum julgamento ou condenação, você experimentaria todo tipo de mudanças maravilhosas acontecendo em você. Só que você não estaria no controle dessas mudanças ou seria capaz de planejá-las com antecedência, ou decidiria como e quando elas devem ocorrer. É esta Consciência sem julgamento, sozinha, que cura e faz mudanças e nos faz crescer. Mas no seu jeito e no seu tempo.
Do que você deveria ter especificamente consciência? De suas reações e de  seus relacionamentos. Cada vez que você está na presença de uma pessoa, qualquer pessoa, ou na natureza ou em uma situação particular, você tem todo tipo de reações positivas e negativas. Contemple todas essas reações, observe o que elas realmente são e de onde elas vem, sem fazer sermões ou culpar-se ou mesmo ter qualquer desejo, e muito menos esforço para mudá-las. É somente isso que precisamos para que o Sagrado possa emergir.
Mas a Consciência em si não é um esforço? Não, se você já tiver experimentado A Consciência  pelo menos uma vez. Porque assim você compreenderá que a Consciência é um deleite, é o  deleite de uma criança se movendo maravilhada para descobrir o mundo.  Porque mesmo quando a Consciência desvela coisas desagradáveis sobre você, sempre traz liberação e alegria. Então você saberá que uma vida sem Consciência não vale a pena ser vivida porque é cheia de escuridão e dor.
Se no começo há uma preguiça em praticar Consciência, não se force. Isto seria mais uma vez um esforço. Conscientize-se apenas da sua preguiça ou auto condenação. Você então compreenderá que a consciência envolve tanto esforço quanto o esforço que um amante faz para ir de encontro a sua amada, ou um homem faminto faz quando come sua comida, ou o alpinista faz para chegar ao topo de sua montanha amada, tanta energia empregada, até mesmo tantos obstáculos, ou dificuldades, mas não é esforço, é divertido!  Em outras palavras, Consciência é uma atividade sem esforço.
Consciência lhe trará a Santidade que você tanto deseja? Sim e não. O fato é que você nunca saberá. Pois a verdadeira Santidade, do tipo que não se alcança através de técnicas e esforços e repressões, a Santidade verdadeira é completamente sem consciência de si mesma. Você não teria a menor consciência da existência dela em você. Além do que, você não se importará, pois até mesmo a ambição de ser santo terá desaparecido na medida em que você vive de momento a momento uma vida feita de plenitude, alegria e transparência através da Consciência. Basta você ser atento e desperto. Pois nesse estado seus olhos verão o Salvador. Nada mais, absolutamente nada mais, nem segurança, nem amor, nem pertencer a, nem beleza, nem poder, nem  santidade. Nada mais importará!

5 comentários:

  1. sempre surpreendente a nossa amiga Patricia.

    Sempre cristalina, a flor da Diamantina!

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  2. Praticar consciência cada
    vez que estiver na presença
    de pessoas coisas ou situações.
    Ter consciência de nossas reações
    e de nosso relacionamento.
    Que beleza de texto.
    Luara

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  3. Vigiai pois !!! O filho do homem virá quando menos esperais! Será meu eu superior esse filho do homem ?!

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  4. Patricia, maravilha de texto. Sem esforço e mais divertimento e deslumbramento na caminhada. Se não é Agora quando?

    Gostaria de ver mais textos de Anthony de Mello.

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  5. Uaaauuu, que louco, que viagem o vídeo
    “Onde a ciência e o budismo se encontram”
    Nossos pés e mãos nunca tocam nada, mas só estamos experienciando uma força repulsante... só estamos flutuando sobre a cadeira...

    Para fazermos a transição devemos estar dispostos a questionar, a desmontar as próprias fundações do nosso sistema de crença, inquirir de mente aberta para a verdadeira natureza da realidade.
    UUfaa
    Luara

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