sábado, 1 de dezembro de 2012

O Ego e os Três Senhores


"O percurso correto do caminho 
espiritual é um processo muito sutil e não alguma coisa a que possamos atirar-nos ingenuamente. Existem numerosos desvios que levam a uma distorção egocentrada da espiritualidade; podemos iludir-nos imaginando que estamos nos desenvolvendo espiritualmente quando, na verdade, não fazemos senão fortalecer nosso egocentrismo por meio de técnicas espirituais. A essa distorção básica pode dar-se o nome de materialismo espiritual."

Este é um apanhado de algumas armadilhas do caminho com algumas advertências acerca dos perigos que poderiam encontrar ao percorrê-lo, pois os discípulos normalmente trazem para o caminho uma grande dose de confusão, mal-entendidos e expectativas..

As pessoas se envolvem com o materialismo espiritual, as muitas formas de auto-ilusão em que os aspirantes podem cair. Depois desse passeio inicial pelos desvios ao longo do trajeto, vem então o verdadeiro caminho espiritual em seu contornos mais amplos.

O que se apresenta aqui é um enfoque budista clássico — não no sentido formal, mas no sentido de mostrar o cerne do enfoque budista da espiritualidade. Apesar de não ser teísta, o caminho budista não contradiz as disciplinas teístas. As diferenças entre os caminhos são mais uma questão de ênfase e de método. Os problemas básicos do materialismo espiritual são comuns a todas as disciplinas espirituais. O enfoque budista começa com a nossa confusão e o nosso sofrimento, e atua no sentido de destrinchar sua origem. O enfoque teísta começa com a riqueza de Deus e atua no sentido de elevar a consciência de modo que ela experimente a presença de Deus. Todavia, dado que os obstáculos ao reIacionamento com Deus são as nossas confusões e negatividades, o enfoque teísta também precisa lidar com elas. O orgulho espiritual, por exemplo, causa tantos problemas nas disciplinas teístas quanto no budismo.

De acordo com a tradição budista, o caminho espiritual é o processo de atravessar e superar a nossa confusão, de descobrir o estado desperto da mente. Quando esse estado se encontra entulhado pelo ego e pela paranóia que o acompanha, assume o caráter de um instinto subliminar. Dessa forma, não se trata de construir o estado desperto da mente, e sim de queimar as confusões que o obstruem. No processo de consumir as confusões, descobrimos a iluminação. Se o processo fosse outro, o estado desperto da mente seria um produto dependente de causa e efeito e, assim, passível de dissolução. Tudo o que é criado, mais cedo ou mais tarde, tem de morrer. Se a iluminação fosse criada dessa maneira, haveria sempre a possibilidade de o ego reafirmar-se, provocando um retorno ao estado de confusão. A iluminação é permanente porque não a produzimos; apenas a descobrimos. Na tradição budista, a analogia do Sol que surge por trás das nuvens é freqüentemente usada para explicar o descobrimento da iluminação. Na prática da meditação, removemos a confusão do ego a fim de vislumbrar o estado desperto. A ausência da ignorância, da sensação de opressão, da paranóia, descerra uma visão fantástica da vida. Descobrimos um modo diferente de ser.

O cerne da confusão é o fato de o homem ter um senso de ego que lhe parece contínuo e sólido. Quando ocorre um pensamento, uma emoção, ou um evento, há o sentido de que alguém tem consciência do que está acontecendo. Você sente que você está lendo estas palavras. Esse senso do eu, na realidade, é um evento transitório, descontínuo, que em nossa confusão parece perfeitamente estável e contínuo. Como tomamos por real a nossa visão confusa, lutamos para manter e incrementar esse eu sólido. Tentamos alimentá-lo com prazeres e escudá-lo contra a dor. A experiência ameaça continuamente revelar-nos nossa transitoriedade, de modo que lutamos continuamente para encobrir qualquer possibilidade de descoberta da nossa verdadeira condição. "Mas", poderíamos perguntar, "se a nossa verdadeira condição é um estado desperto, por que nos ocupamos tanto em evitar que tomemos consciência disso?" Porque estamos tão imersos em nossa confusa visão do mundo que consideramos real o único mundo possível. Essa luta por manter o senso de um eu sólido e contínuo é obra do ego.

O ego, contudo, consegue apenas sucesso parcial em sua tentativa de defender-nos do sofrimento. É a insatisfação que vem junto com a luta do ego que nos inspira a examinar o que estamos fazendo. E, uma vez que sempre existem hiatos na consciência que temos de nós mesmos, torna-se possível algum discernimento.

Uma interessante metáfora empregada no budismo tibetano para descrever o funcionamento do ego é a dos "Três Senhores do Materialismo": o "Senhor da Forma", o "Senhor da Fala" e o "Senhor da Mente". Na discussão que segue sobre os Três Senhores, as palavras materialismo e neurótico dizem respeito à ação do ego.

O Senhor da Forma refere-se à perseguição neurótica do conforto físico, da segurança e do prazer. Nossa sociedade altamente organizada e tecnológica reflete nossa preocupação em manipular o ambiente físico de modo a nos salvaguardar das irritações provenientes dos aspectos crus, rudes e imprevisíveis da vida. Elevadores acionados por botões de comando, carne empacotada, ar-condicionado, privadas com descarga de água, velórios particulares, planos de aposentadoria, produção em massa, satélites meteorológicos, máquinas de terraplenagem, luzes fluorescentes, empregos das nove às cinco, televisão — tudo são tentativas de criar um mundo controlável, seguro, previsível e prazeroso.

O Senhor da Forma não significa as situações de vida em si que criamos para serem fisicamente ricas e seguras. Refere-se, antes, à preocupação neurótica que nos impele a criá-las, a tentar controlar a natureza. O ego ambiciona assegurar-se e entreter-se, buscando evitar toda e qualquer irritação. Desse modo, agarramo-nos aos nossos prazeres e propriedades, tememos ou forçamos mudanças, tentamos criar um ninho ou um playground.

O Senhor da Fala tem a ver com o emprego do intelecto no relacionamento com o mundo. Adotamos grupos de categorias que servem como alavancas, como meios para manipular fenômenos. Os produtos mais plenamente desenvolvidos dessa tendência são as ideologias, os sistemas de idéias que racionalizam, justificam e santificam nossas vidas. Nacionalismo, comunismo, existencialismo, cristianismo, budismo — todos nos proporcionam identidades, regras de ação e interpretações de como e por que as coisas acontecem como acontecem.

Aqui, novamente, o emprego do intelecto não é em si mesmo o Senhor da Fala. O Senhor da Fala indica a inclinação do ego a interpretar o que quer que seja ameaçador ou irritante de modo a neutralizar a ameaça ou transformá-la em algo "positivo" do ponto de vista do ego. O Senhor da Fala refere-se ao uso de conceitos como filtros que nos resguardam de uma percepção direta do que é. Os conceitos são levados demasiado a sério; são utilizados como instrumentos para solidificar o nosso mundo e a nós mesmos. Se existe um mundo com coisas a que se possa dar nomes, então o "eu", como uma das coisas nomeáveis, também existe. Nosso desejo é não deixar espaço algum para dúvidas ameaçadoras, para a incerteza ou a confusão.

O Senhor da Mente refere-se ao esforço da consciência em conservar a percepção de si mesma. O Senhor da Mente impera quando usamos disciplinas espirituais ou psicológicas como meios de conservar a consciência que temos de nós mesmos, de nos agarrar ao senso de eu. Drogas, ioga, orações, meditação, transes, várias psicoterapias — tudo pode ser usado com essa finalidade.

O ego é capaz de converter tudo para seu uso próprio, inclusive a espiritualidade. Se aprendemos, por exemplo, uma técnica de meditação dentro de uma prática espiritual particularmente benéfica, o ego se põe, primeiro, a tratá-la como um objeto de fascinação e, depois, a examiná-la. Por fim, visto que o ego é sólido apenas na aparência e não pode, de fato, absorver coisa alguma, só é capaz de arremedar. Em tais circunstâncias, ele procura examinar e imitar a prática da meditação e o modo de vida meditativo. Depois de aprendermos todos os truques e todas as respostas do jogo espiritual, tentamos imitar automaticamente a espiritualidade, já que o envolvimento verdadeiro exigiria uma completa eliminação do ego, e a última coisa que desejamos fazer é renunciar completamente a ele. Entretanto, não podemos experimentar aquilo que estamos tentando imitar; podemos apenas encontrar alguma área dentro dos limites do ego que pareça ser a mesma coisa. O ego traduz tudo em termos do seu próprio estado de saúde, de suas qualidades intrínsecas. Experimenta um sentido de grande realização e excitação quando consegue criar um modelo desse tipo. Finalmente criou um feito tangível, uma confirmação de sua própria individualidade.

Se formos bem-sucedidos em manter a consciência que temos de nós mesmos através de técnicas espirituais, o desenvolvimento espiritual autêntico será altamente improvável. Nossos hábitos mentais se tornam tão fortes que fica difícil penetrá-los. Podemos até chegar ao desenvolvimento totalmente demoníaco da completa "Egoidade".

Embora o Senhor da Mente detenha o maior poder para subverter a espiritualidade, os outros dois Senhores podem também reger a prática espiritual. O retiro no seio da natureza, o isolamento, a gente simples, sossegada, digna — tudo pode ser meio para nos proteger da irritação, tudo pode ser expressão do Senhor da Forma. Ou talvez a religião nos forneça uma racionalização para criarmos um ninho seguro, um lar singelo mas confortável, para conseguirmos um companheiro afável e um emprego estável e fácil.

O Senhor da Fala também se envolve com a prática espiritual. Ao seguir um caminho espiritual, podemos substituir nossas crenças anteriores por uma nova ideologia religiosa, continuando, porém, a usá-la da antiga maneira neurótica. Por mais sublimes que sejam nossas idéias, se as tomamos com excessiva seriedade e as utilizamos para manter nosso ego, ainda assim estaremos sendo governados pelo Senhor da Fala.

Se examinarmos nossos atos, quase todos concordaremos, provavelmente, em que somos governados por um ou mais dos Três Senhores. "Mas", poderíamos perguntar, "e daí? Isso é simplesmente uma descrição da condição humana. Sim, sabemos que a tecnologia não consegue pôr-nos a salvo de guerras, crimes, doenças, insegurança econômica, trabalho laborioso, velhice e morte; tampouco nossas ideologias nos resguardam da dúvida, incerteza, confusão e desorientação; nem podem as nossas terapias proteger-nos da dissolução dos altos estados de consciência que viermos temporariamente a alcançar ou da desilusão e angústia daí decorrentes. Mas que outra coisa podemos fazer? Os Três Senhores parecem poderosos demais para serem derrubados e não sabemos com que poderíamos substituí-los."

Perturbado por essas indagações, o Buda examinou o processo pelo qual os Três Senhores governam. Investigou por que nossas mentes os seguem e se não havia um outro caminho. Descobriu que os Três Senhores nos seduzem criando um mito fundamental: o de que somos seres concretos. Todavia, o mito, em última análise, é falso, uma imensa burla, uma fraude gigantesca, a raiz do nosso sofrimento. Para fazer essa descoberta, ele precisou romper as defesas muito complexas erguidas pelos Três Senhores, com o fim de impedir que seus súditos descobrissem o engano fundamental que é a origem do poder deles. Não poderemos, de maneira alguma, livrar-nos do domínio dos Três Senhores a menos que nós, também, cortemos e atravessemos, camada por camada, as suas complexas defesas.

As defesas dos Senhores são criadas com material das nossas mentes, que eles utilizam para preservar o mito básico da solidez. A fim de enxergar por nós mesmos como esse processo funciona, precisamos examinar nossa própria experiência: "Mas como", podemos perguntar, "haveremos de conduzir esse exame? Que método ou instrumento vamos usar?". O método descoberto pelo Buda foi a meditação. Ele verificou que lutar para encontrar respostas não surtia efeito. Só quando havia brechas na sua luta é que lhe acudiam discernimentos. Começou a dar-se conta de que existia dentro de si uma qualidade sadia e desperta que só se manifestava na ausência de luta. Por isso, a prática da meditação implica "deixar ser".

Tem havido uma série de idéias errôneas acerca da meditação. Algumas pessoas a consideram um estado mental semelhante a um transe. Outras pensam nela em termos de treinamento, no sentido de ginástica mental. A meditação, contudo, não é nenhuma dessas coisas, embora lide com estados mentais neuróticos. Não é difícil nem impossível lidar com tais estados. Eles têm energia, pressa e um certo padrão. A prática da meditação implica deixar ser — uma tentativa de acompanhar o padrão, uma tentativa de acompanhar a energia e a velocidade. Dessa forma, aprendemos como lidar com esses fatores, como relacionar-nos com eles, não no sentido de fazê-los amadurecer como gostaríamos, mas no sentido de conhecê-los como são e de trabalhar com o seu padrão.

Há uma história sobre o Buda em que se conta como ele, de uma feita, transmitiu ensinamento a um famoso tocador de cítara que desejava estudar meditação. Perguntou o músico: "Devo controlar minha mente ou devo deixá-la completamente solta?". O Buda respondeu: "Visto que você é um grande músico, diga-me como afinaria as cordas do seu instrumento". Disse o músico: "Eu não as deixaria ficar nem demasiado retesadas nem demasiado frouxas". "Da mesma forma", acudiu o Buda, "na sua prática da meditação você não deve impor nada com demasiada força à sua mente, nem deve permitir que fique ao léu." Eis aí o ensinamento de como deixar a mente ser de um modo bastante aberto, de como sentir o fluxo da energia sem tentar sujeitá-lo e sem deixar que ele se descontrole, de como acompanhar o padrão da energia da mente. Essa é a prática da meditação.

Tal prática se faz necessária, via de regra, porque o padrão do nosso pensamento, o nosso modo conceitualizado de conduzir a vida, ou é demasiado manipulativo, impondo-se ao mundo, ou completamente desgovernado e sem controle. Por conseguinte, nossa prática da meditação precisa começar com a camada mais superficial do ego, com os pensamentos discursivos que estão sempre a atravessar-nos a mente, com a nossa tagarelice mental. Os Senhores empregam o pensamento discursivo como a sua primeira linha de defesa, como peões, em seu esforço para iludir-nos. Quanto mais geramos pensamentos, tanto mais ocupados nos tornamos mentalmente e tanto mais nos convencemos da nossa existência. Desse modo, os Senhores estão constantemente tentando ativar esses pensamentos, tentando criar uma constante sobreposição de pensamentos, para que nada mais se possa ver além deles. Na verdadeira meditação não existe a ambição de suscitar pensamentos, e tampouco existe a ambição de suprimi-los. Permite-se apenas que ocorram espontaneamente e se tornem a expressão de uma sanidade básica. Eles se tornam a expressão da precisão e da clareza do estado desperto da mente.

Se for vazada a sua estratégia de estar sempre criando pensamentos sobrepostos, os Senhores, então, agitam emoções para distrair-nos. A qualidade excitante, colorida e dramática das emoções nos prende a atenção como se estivéssemos assistindo a um filme absorvente. Na prática da meditação não encorajamos as emoções nem as reprimimos. Vendo-as com clareza, deixando que sejam como são, não mais permitimos que sirvam de meios para nos entreter e distrair. Dessa maneira, elas se tornam a energia inexaurível que executa a ação sem ego.

Na ausência de pensamentos e emoções, os Senhores introduzem uma arma ainda mais poderosa, os conceitos. A rotulação dos fenômenos cria a sensação de um mundo sólido e definido de "coisas". Um mundo estável reassegura que somos, igualmente, uma coisa sólida e contínua. O mundo existe e, portanto, eu, que o percebo, também existo. A meditação implica ver a transparência dos conceitos, de sorte que a rotulação já não serve como meio de solidificar o nosso mundo e a nossa imagem do eu. A rotulação passa a ser, simplesmente, ato de discriminação. Os Senhores ainda têm outros mecanismos de defesa, mas seria por demais complicado discuti-los no presente contexto.

Mediante o exame dos seus próprios pensamentos, emoções, conceitos e demais atividades mentais, o Buda descobriu que não precisamos lutar para provar nossa existência, não precisamos ficar sujeitos ao jugo dos Três Senhores do Materialismo. 
Chögyam Trungpa 

Não há necessidade de lutar para sermos livres; a ausência de luta, em si mesma, é liberdade. Esse estado desprovido de ego é a realização da natureza búdica. O processo de transformar o material da mente para que deixe de ser expressão da ambição do ego e passe a ser, por meio da prática da meditação, expressão da sanidade básica e da iluminação — eis o que poderíamos chamar de verdadeiro caminho espiritual. 

Texto de Chögyam Trungpa - Além do materialismo espiritual

domingo, 25 de novembro de 2012

Livre e Relaxado

Lama Guendun Rinpoche

Aqui, a busca interior está na hora do recreio. Não tem Mercúrio, só Vênus. Nem prosa, só poesia. Nem intelecto, só coração. 
E tome poesia...


"A felicidade não se consegue
com grandes sacrifícios e força de vontade;
já está presente, no relaxar aberto e no soltar.

Não te esforces,
não há nada que fazer ou desfazer.
Tudo o que aparece momentaneamente no corpo-mente
não tem nenhuma importância,
seja o que for tem pouca realidade.
Por que se identificar com ele e depois apegar-se?
Por que emitir juízos sobre isso e sobre nós?

É muito melhor deixar
simplesmente que todo jogo ocorra por si mesmo,
surgindo e recuando com as ondas
-sem alterar nem manipular nada-
e observar como tudo se desvanece e
reaparece magicamente, uma e outra vez,
eternamente.

É a nossa busca de felicidade
o único que nos impede vê-la.
É como perseguir um arco-íris de vivas cores
que não alcanças jamais,
ou como um cachorro tentando pegar o próprio rabo.

Ainda que a paz e a felicidade não existam
realmente como uma coisa ou como um lugar,
estão sempre disponíveis
e te acompanham a cada instante.

Não creias na realidade
das experiências boas e más;
pois são tão efêmeras como o bom tempo e o mau tempo,
como os arco-íris no céu.

Desejando compreender o incompreensível,
te esgotas em vão.
No instante que abres e relaxas
esse apertado punho do aferramento,
aí está o espaço infinito, aberto, sedutor e confortável.

Sirva-te desta espacialidade,
desta liberdade e tranquilidade natural.
Não busques mais.
Não te adentres na emaranhada selva
seguindo o rastro do grande elefante desperto,
pois já ele está em casa descansando suavemente
em frente ao teu próprio lugar.

Nada que fazer ou desfazer,
nada que forçar,
nada que desejar,
nada falta.

Ah, isto! 
Maravilhoso!
Tudo sucede por si mesmo".



LIVRE E RELAXADO
UM CANTO VAJRA ESPONTÂNEO
pelo venerável Lama Guendun Rimpochê
Gendun Rimpochê é um eminente lama kagiu, abade e mestre de retiros no Monastério Dakpo Kagiu Ling em Dordonha, França, de onde se traduziu do tibetano este poema.

domingo, 18 de novembro de 2012

A Realidade e o Fantástico

Cada vez mais pessoas estão se tocando com os tempos curiosos em que estamos vivendo. Há uma sutileza no ar mostrando que nossas certezas estão se esvaindo a partir do que a realidade gradualmente nos mostra. Uma realidade impessoal que não afaga as nossas crenças, posições e dogmas, e não dá tréguas ao nosso jeitão enviesado, simplista e preconceituoso de ver o mundo. A razão disso tudo é que há um pensar inadequado sobre o que se apresenta à nossa percepção.
A chamada ciência européia, que em 1815 dizia que “nada no mundo tem a velocidade maior que a de um cavalo”, já em 1850 teve que aceitar a velocidade da luz. Einstein então definiu a velocidade da luz como um limite universal, mas há uns tempos atrás o CERN, organização européia para a pesquisa nuclear afirmou que experiências feitas com neutrinos (sub partículas) indicam que essas partículas desobedientes superaram esse limite. Quer saber o que mais os novos cientistas estão dizendo? Que isso permitiria enviar mensagens e informações para o passado. Pode isso?  Na verdade os estudiosos já  perceberam que logo após o Big Bang, a velocidade de expansão do Universo já teria sido maior que a da luz. Me perdoe o Einstein, mas ele errou? Enfim, um imbroglio. O universo está brincando com a gente, pô!
Para aumentar a insegurança intelectual, fruto desse “pensar linear” ocidental, surgiram atualmente mais contradições ainda. A velocidade de expansão do universo não está obedecendo ao combinado, devido a uma tal matéria escura que apareceu sem avisar, que além de ser absurdamente estranha e não detectável pela ciência, a não ser pelos efeitos que causa, é além de tudo irmã da energia escura, mais estranha ainda. É só estranheza. Antes não era assim...
É a chamada sinuca de bico. Já não bastasse o eletro-magnetismo e a gravidade que os físicos e outros cientistas só conseguem quantificar e aproveitar mas  nunca entenderam direito, a Física quântica, com seus spin e números quânticos de estranheza, tem o desplante de afirmar (e de provar, o que é pior) que “um elétron passa por dois lugares diferentes ao mesmo tempo”. Isso já é demais! Estava certa a Igreja de mandar para a fogueira quem dizia que a terra não era o centro do universo. Aboliram isso. Estão vendo no que deu?
A verdade é que a realidade não dá a menor bola para a ciência, e esta tem que ponderar o que está errado com ela, ciência. Já que pensar é de graça, vamos meter a nossa colher nesse angú e dar a nossa opinião: Seria a nossa concepção do mundo e a forma de pensar que está errada? Será que antes de conceituar a priori essa coisa chamada Realidade, devemos é permitir que ela atinja diretamente os nossos sentidos sem tentar agarrá-la com os conceitos e filtros prévios para que ela então se mostre na sua inteireza? Não é fàcil para um cientista, mas qualquer buscador de uma tradição autêntica sabe como fazer isso. O ser humano em todas as suas atividades, talvez por não se deter sobre a natureza dessa sua aberração mental chamada ego, começa já formando uma opinião sobre um fato, e depois inicia o processo de juntar as informações sobre o fato, somente para filtrar intelectualmente quais as informações provam a veracidade da opinião prévia que já tinha formado. Não é muito diferente da inteligência que orientou a Inquisição. Só é mais sofisticada, já que o intelecto é uma prostituta que se vende a qualquer patrão. Vimos isso todo o tempo na história da humanidade inteira.
Mas o preconceito científico assentado no ego arrogante e dogmático dos homens de ciência é somente um dos problemas, e talvez o menor. Há também o pano de fundo da árida visão cartesiana atual do mundo, orientada por uma lógica ultrapassada, fixa e mutuamente exclusiva do “ou é isso, ou aquilo” onde não há espaço para uma abordagem “é isso e aquilo”, a exemplo da tradição budista, xamânica e outras, sem fronteiras definidas, onde coisas se transmutam em outras sem pedir licença à ciência. Essa seria a abordagem correta do pensar, onde a própria Ciência tem ligação com A Consciência.
A matéria está cada vez mais mostrando que há segredos mais fantásticos que a imaginação mais tresloucada dos contos de ficção científica possa conceber, e esse pensar é que de forma crescente está batendo impaciente às porta da ciência moderna com nomes bizarros: singularidade, buracos negros e brancos, horizonte de eventos, anti-matéria, dobras espaciais, buracos de minhoca, mundos paralelos, e por aí afora.
Há mais de cinquenta anos, em 1960, um livro corajoso começou a reintroduzir o insólito na nossa paisagem intelectual, batizando-o de Realismo Fantástico, e acenando com uma outra forma de pensar e encarar o mundo, mais para a abordagem Zen do que para o dogmatismo da Academia. Ele acenava que a realidade é muito mais fantástica que a fantasia, e previu o que estamos vendo acontecer nas ciências. Vamos a ele: 

"Repito: O Fantástico, a nossos olhos, não é o imaginário. Mas uma imaginação poderosamente aplicada ao estudo da realidade descobre que é muito tênue a fronteira entre o maravilhoso e o positivo, ou, se preferem, entre o universo visível e o universo invisível. Existe talvez um ou vários universos paralelos ao nosso. Creio que não teríamos empreendido esta tarefa se, no decorrer da nossa vida, não tivesse acontecido sentirmo-nos, realmente, fisicamente em contato com outro mundo. 
O antropólogo americano Loren Eiseley, cuja forma de pensar se aproxima da nossa, conta uma bela história que exprime bem o que pretendo dizer. 
"Descobrir outro mundo, diz ele, não é apenas um fato imaginário. Pode acontecer aos homens. Aos animais também. 
Por vezes, as fronteiras resvalam ou interpenetram-se : basta estar presente nesse momento. Vi o fato acontecer a um corvo. 
Esse corvo é meu vizinho: nunca lhe fiz mal algum, mas ele tem o cuidado de se conservar no cimo das árvores, de voar alto e de evitar a humanidade. O seu mundo principia onde a minha vista acaba. Ora, uma manhã, os nossos campos estavam mergulhados num nevoeiro extraordinariamente espesso, e eu me dirigia às apalpadelas para a estação. Bruscamente, à altura dos meus olhos, surgiram duas asas negras, imensas, precedidas por um bico gigantesco, e tudo isso passou como um raio, soltando um grito de terror tal que eu faço votos para que nunca mais ouça coisa semelhante. Esse grito perseguiu-me durante toda a tarde. Cheguei a consultar o espelho, perguntando a mim próprio o que teria eu de tão revoltante ... 
Acabei por perceber. A fronteira entre os nossos dois mundos resvalara, devido ao nevoeiro. Aquele corvo, que supunha voar à altitude habitual, vira de súbito um espetáculo espantoso, contrário, para ele, às leis da natureza. Vira um homem caminhar no espaço, bem no centro do mundo dos corvos. Deparara com a manifestação de estranheza mais completa que um corvo pode conceber; um homem voador ... 
Agora, quando me vê, lá do alto, solta pequenos gritos, e reconheço nesses gritos a incerteza de um espírito cujo universo foi abalado. Já não é, nunca mais será como os outros corvos ..."

Esse livro não é um romance, embora a intenção seja romanesca. Não faz parte da ficção científica, embora nele se deparem mitos ,que sustentam esse gênero. Não é um conjunto de fatos estranhos, embora o Anjo do Bizarro nele se sinta à vontade. Também não é uma contribuição científica, o veículo de um ensino desconhecido, um testemunho, um documentário, ou uma efabulação. É a narrativa, por vezes romanceada e por vezes exata de uma primeira viagem pelos domínios do conhecimento ainda quase por explorar. Como nos diários de bordo dos navegadores do Renascimento, o imaginário e o real, a extrapolação audaciosa e a visão exata confundem-se. É que não tivemos nem o tempo nem os meios de aprofundar completamente a exploração. Podemos apenas sugerir hipóteses e indicar as vias de comunicação entre esses diversos domínios que ainda são, por agora, terrenos proibidos. Sobre esses terrenos proibidos apenas fizemos pequenas paradas. Quando tiverem sido mais bem explorados, sem dúvida se verificará que muitas das nossas suposições eram delirantes, como os relatos de Marco Polo. É uma eventualidade que aceitamos calmamente. "Havia uma quantidade de disparates no livro". Eis o que dirão. Mas se este livro provocar a curiosidade de aprofundar o assunto, o nosso fim terá sido atingido. 
Onde estamos nós atualmente? Abriram-se portas em quase todos os edifícios científicos, mas o edifício da física de hoje em diante quase que não tem paredes: é uma catedral cheia de vitrais onde se refletem os clarões de outro mundo, infinitamente próximo. 
A matéria revelou-se tão rica, se não mais rica em possibilidades do que o espírito. Ela contém uma energia incalculável é suscetível de transformações infinitas, tem recursos insuspeitáveis, O termo "materialista", na acepção que lhe dava o século XIX, perdeu todo o sentido, da mesma forma que o termo "racionalista". 
A lógica do "bom senso" já não existe. Na física atual, uma proposição pode ser simultaneamente verdadeira e falsa. A X B já não é igual a B X A. Uma mesma entidade pode ser ao mesmo tempo contínua e descontínua. Já não nos poderíamos referir à física para condenar tal ou tal aspecto do possível 
Nota: Um dos sinais mais espantosos da abertura que se produz no domínio da física é a introdução daquilo que se chama "o número quântico de estranheza". Eis, por alto, de que se trata. No princípio do século XIX, pensava-se ingenuamente que dois números, no máximo três, seriam suficientes para definir uma partícula de matéria. Esse número seria a sua massa, a sua carga elétrica e o seu momento magnético. A verdade estava longe de ser tão simples. Para descrever completamente uma partícula foi necessário acrescentar uma grandeza intraduzível em palavras e que se chamava "spin". A princípio, julgou-se que essa grandeza correspondia a um período da rotação da partícula sobre si mesma, qualquer coisa que para o planeta Terra corresponder!a ao período de vinte e quatro horas, regulando a alternância dos dias e das noites. 
Chegou-se à conclusão de que nenhuma explicação simplista deste gênero poderia manter-se em pé. O spin era simplesmente o spin, uma quantidade de energia ligada à partícula, apresentando-se matematicamente como uma rotação sem que gire, seja o que for, na partícula. (NR. - Uma torção do nada, como já disse alguém, que não me lembro).
Profundos trabalhos, devidos sobretudo ao Professor Louis de Broglie, conseguiram explicar apenas parcialmente o mistério do spin. Mas, bruscamente, descobriu-se que entre as três partículas conhecidas: prótons, elétrons, nêutrons (e as suas imagens no espelho, antipróton, pósitron, antinêutron), existia uma boa trintena de outras partículas. 
Os raios cósmicos, esses grandes aceleradores, produziam-nas em grandes quantidades. Ora, para descrever essas partículas, os quatro números habituais, massa, carga, momento magnético, spin, já não eram suficientes. Era necessário criar um quinto número, talvez um sexto, e assim indefinidamente. E foi de uma forma absolutamente natural que os físicos chamaram a essas novas grandezas "números quânticos de estranheza". Esta saudação ao anjo do Bizarro tem qualquer coisa de imensamente poético. Como muitas outras expressões da física moderna: "Luz Interdita", "Algures Absoluto", o "número quântico de estranheza" prolonga-se para além da física, e tem ligações com as profundezas do espírito humano. 
Peguem uma folha de papel. Façam-lhe dois buracos pouco distanciados. Aos olhos do senso comum, - é evidente que um objeto suficientemente pequeno para passar através desses buracos passará quer por um, quer por outro. Aos olhos do senso comum, um eléctron é um objeto. Possui um peso definido, produz um clarão luminoso quando impressiona uma tela de televisão, um choque quando atinge um microfone. Temos portanto o nosso objeto suficientemente pequeno para passar por um dos dois buracos. Ora, a observação pelo microscópio eletrônico mostra que o eléctron passou simultaneamente pelos dois buracos. Como?! Se passou por um, não pode ter passado ao mesmo tempo pelo outro! Mas a verdade é que ele passou por um e por outro. É absurdo, mas é experimental. 
Das tentativas de explicações nasceram diversas doutrinas, em particular a mecânica ondulatória. Mas a mecânica ondulatória, entretanto, não consegue explicar totalmente um fato semelhante, que se mantém para além das nossas possibilidades de compreensão, a qual só poderá funcionar através de um sim ou um não, A ou B. Era a própria estrutura do nosso entendimento que seria necessário modificar, para que se pudesse compreender. A nossa filosofia exige tese e antítese. É preciso acreditar que, na filosofia do elétron, tese e antítese são simultaneamente autênticas. Parecerá absurdo o que dizemos? O elétron parece obedecer a leis, e a televisão, por exemplo, é uma realidade. 
O eléctron existe ou não? Aquilo que a natureza chama existir não tem existência a nossos olhos. O eléctron faz parte do ser ou do nada? Eis uma pergunta completamente vazia de sentido. Assim desaparecem, devido à ação enérgica do conhecimento, os nossos habituais métodos de pensamento e as filosofias literárias, provenientes de uma visão caduca dos fatos. 
A Terra está ligada ao Universo, o homem não está em contato apenas com o planeta em que habita. Os raios cósmicos, a radioastronomia, os trabalhos de física teórica revelam contatos com a totalidade do cosmo. Já não vivemos num mundo fechado: um espírito verdadeiramente testemunha da sua época não o poderia ignorar. Nessas condições, de que forma pode o pensamento no plano social, por exemplo, continuar preocupado com problemas que nem sequer são planetários, mas estritamente regionais, provinciais? E como pode a nossa psicologia, tal como se exprime no romance, manter-se tão fechada, reduzida aos movimentos infraconscientes da sensualidade e do sentimentalismo? Enquanto milhares de seres civilizados abrem livros, vão ao cinema ou ao teatro para saber de que maneira Françoise se sentirá impressionada por René e como, por outro lado, odeia a amante do pai e se tornará lésbica por surda vingança, vários investigadores, que fazem com que os números entoem uma música celeste, perguntam a si próprios se o espaço se contrai ou não em redor de um veículo espacial. Nesse caso todo o Universo se tornaria acessível: haveria possibilidades, durante o espaço de uma vida humana, de atingir a estrela mais longínqua. Se tais equações fossem confirmadas, o pensamento humano seria alterado. Se o homem não está limitado a esta Terra, novas interrogações terão de fazer-se a respeito do sentido profundo da iniciação e dos eventuais contatos com inteligências do Exterior. 
Em que ponto estamos ainda? Em matéria de pesquisa sobre as estruturas do espaço e do tempo, as nossas noções de passado e de futuro já não servem. Ao nível da partícula, o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos: futuro e passado. A uma velocidade extrema, limite da velocidade da luz, o que é o tempo? 
Estamos em Londres, em outubro de 1944. Um foguete V2, voando a 5000 quilômetros por hora, está sobre a cidade. Ele vai cair. Mas esse "vai" se aplica a quê? Para os habitantes do prédio que será destruído dentro de instantes, e que apenas possuem olhos e ouvidos, o V2 vai cair. Mas para o operador de radar, que se serve de ondas que se propulsionam a 300 mil quilômetros por segundo (velocidade em relação à qual o foguete é uma lesma), a trajetória da bomba já está fixada. Ele observa: mas não pode fazer coisa alguma. Na escala humana, já nada pode interceptar o instrumento de morte, nem evitar seja o que for, Para o operador o foguete já caiu. À velocidade do radar, praticamente o tempo não corre. Os habitantes do prédio vão morrer. No super-olho do radar já estão mortos. 
Outro exemplo: encontram-se nos raios cósmicos, quando estes atingem a superfície da Terra, algumas partículas, os mésons mu, cuja vida sobre o globo não ultrapassa um milionésimo de segundo. Ao fim desse milionésimo de segundo destroem-se a si próprios por meio da radioatividade. Ora, essas partículas nasceram a 30 quilômetros no céu, região onde a atmosfera do nosso planeta começa a ser densa. Para transpor esses 30 quilômetros, elas já ultrapassaram o seu tempo de vida, considerado segundo a nossa escala. Mas o seu tempo não é o nosso. Elas viveram essa viagem na eternidade e apenas entraram no tempo depois de perdida a sua energia, ao chegar ao nível do mar. Prevê-se a construção de aparelhos nos quais se produziria o mesmo efeito. Criar-se-ia desta forma uma espécie de gavetas do tempo, onde estariam arrumados objetos de fraca duração, conservados na quarta dimensão. Essa gaveta seria um anel oco de vidro, colocado num enorme campo de energia e onde as partículas rodariam com tal velocidade que para elas o tempo teria praticamente deixado de correr . Desta forma, uma vida de um milésimo de segundo poderia ser mantida e observada durante minutos ou horas ... 
"Não se deve acreditar que o tempo decorrido regressa ao nada: o tempo é uno e eterno, o passado, o presente e o futuro não passam de aspectos diferentes - gravuras diferentes se se preferir - de um registro contínuo e invariável da existência perpétua. " Para os discípulos atuais de Einstein, apenas existiria realmente um eterno presente. Era o que os antigos místicos diziam. Se o futuro já existe, a preconização é um fato. Toda a aventura do conhecimento antecipado é orientada no sentido de uma descrição das leis da física, mas igualmente da biologia e da psicologia no contínuo de quatro dimensões, quer dizer, no eterno presente. Passado, presente e futuro "são". Talvez seja apenas a consciência que se desloca. Pela primeira vez a Consciência é admitida sem discussão nas equações de física teórica. 
Neste eterno presente, a matéria surge como um delgado fio estendido entre o passado e o futuro. Ao longo desse fio desliza a consciência humana. Por que meios é ela capaz de modificar as tensões desse fio, de forma a controlar os acontecimentos? 
Saberemos um dia e então a psicologia fará parte da física. 
A liberdade é provavelmente conciliável com este eterno presente. "O viajante que sobe o Sena de barco sabe antecipadamente as pontes que encontrará. Nem por isso é menos senhor das suas ações, nem menos capaz de prever o que poderá acontecer inopinadamente." Liberdade de vir a ser, no centro de uma eternidade que é. Visão dupla, admirável visão do destino humano ligado à totalidade do Universo! 
Se eu pudesse recomeçar a minha vida, com certeza não escolheria ser escritor e passar os meus dias numa sociedade retardatária na qual a aventura dormita debaixo das camas, como um cão. Ser-me-ia necessária uma aventura-leão. Seria físico teórico, para viver no âmago ardente do verdadeiro romanesco. 
O moderno mundo da física desmente terminantemente as filosofias do desespero e do absurdo. Ciência sem consciência não passa de uma ruína da alma. Mas consciência sem ciência é ruína idêntica. Aquelas filosofias que atravessaram a Europa no século XX eram fantasmas do século XIX, vestidos à moda atual. 
Um conhecimento real, objetivo, de fato técnico e científico, que cedo ou tarde arrasta o fato social, ensina-nos que há uma direção nítida na história humana, um acréscimo do poder do homem, uma subida, do espírito geral, uma enorme forja das massas que as transforma em consciência ativa, o acesso a uma civilização na qual a vida será tão superior à nossa como a nossa em relação à dos animais. Os filósofos literários disseram-nos que o homem é incapaz de compreender o mundo. Já André Maurois, em Les Nouveaux Discours du Docteur O'Grady, escrevia: "Tem de admitir, no entanto, doutor, que o homem do século XIX podia acreditar que, um dia, a ciência explicaria o mundo. Renan, Berthelot, Taine, também esperavam o mesmo, no princípio da sua vida. O homem do século XX já não tem tais esperanças. Sabe que as descobertas só fazem recuar o mistério. Quanto ao progresso, constatamos que os direitos do homem só provocaram fome, terror, desordem, tortura e confusão de espírito. Que esperança resta? Para que vive, doutor?". Ora, o problema já não se colocava desta forma. Sem que os faladores se apercebessem, o círculo fechava-se à volta do mistério e o progresso incriminado abria as portas do céu. Já não é Berthelot ou Taine a fazer previsões a respeito do futuro da humanidade, mas sim homens como Teilhard de Chardin. De um recente confronto entre cientistas de diversas disciplinas sobressai a seguinte ideia: talvez um dia os derradeiros segredos das partículas elementares nos venham a ser revelados pelo comportamento profundo do cérebro, pois ele é o resultado e a conclusão das mais complexas reações na nossa região do Universo, e talvez contenha em si próprio as leis mais íntimas dessa região. 
O mundo não é absurdo e o espírito não é de forma alguma inapto para compreendê-lo. Antes pelo contrário, pode ser que o espírito humano já tenha compreendido o mundo, mas ainda não o saiba ...



domingo, 11 de novembro de 2012

A Loucura Controlada (Leitura Transversal)

 Como dissemos no começo da postagem O Sonhar, a Leitura Transversal é um "ler pelo avesso", ou apenas ler um só tema dentro de uma obra através das citações ao tema. Vamos fazer o mesmo com o tema A Loucura Controlada, um tema caro aos toltecas do Antigo México e Carlos Castaneda na busca da Liberdade Total.
A Loucura Controlada é um aspecto da EspreitaPara espreitar é preciso ter um propósito, ser impecável, sair da auto-importância, banir hábitos e rotinas e praticar a loucura controlada, que é fingir-se imerso na ação, mas sem se identificar com ela, passar despercebido.
Vamos às citações da obra:

“- É possível insistir, insistir realmente, mesmo sabendo que o que se está fazendo é inútil - disse ele, sorrindo. - Mas primeiro temos de saber que nossos atos são inúteis e, no entanto, temos de proceder como se não soubéssemos. É esta a loucura controlada de um feiticeiro.”
Uma Estranha Realidade, pág. 75

“- Será que você me conta mais a respeito de sua loucura controlada?
- O que é que você quer saber a respeito?
- Diga-me, por favor, Dom Juan, o que é exatamente a loucura controlada?
Dom Juan riu à grande e provocou um estalo, dando uma palmada em sua coxa.
- Isto é loucura controlada! - falou, e tornou a dar uma palmada na coxa.
- O que quer dizer?
- Estou contente que você afinal me pergunte acerca de minha loucura controlada, depois de tantos anos, e no entanto não teria a mínima importância para mim, se você nunca perguntasse. E no entanto resolvi ficar feliz, como se me importasse, porque você perguntou, como se importasse que eu ligasse. Isso é loucura controlada!
Nós dois rimos muito. Abracei-o. Achei a explicação dele uma delícia, embora não a entendesse muito bem.”
Uma Estranha Realidade, pág. 77

“- Com quem você pratica a sua loucura controlada, Dom Juan? - perguntei, depois de um longo silêncio. Ele riu.
- Com todo mundo!
- Então, quando é que você resolve praticá-la?
- Cada vez que eu ajo.
Achei necessário recapitular, nesse ponto, e perguntei-lhe se a loucura controlada significava que os atos dele nunca eram sinceros, e apenas os atos de um ator.
- Meus atos são sinceros - disse ele - mas são apenas os atos de um ator.
- Então, tudo o que você faz deve ser loucura controlada! - falei, realmente surpreendido.
- Sim, tudo.
- Mas isso não pode ser verdade - protestei - não acredito que todos seus atos sejam só loucura controlada.
- Por que não? - respondeu ele, com um ar misterioso.
- Isso significaria que nada lhe importa e você não liga realmente para nada ou ninguém. Veja o meu caso, por exemplo. Quer dizer que não se importa se eu me tornar um homem de conhecimento, se eu viver ou morrer, ou fizer qualquer coisa?
- É verdade! Não me importo. Você é como Lúcio, ou qualquer outra pessoa em minha vida, minha loucura controlada.”
Uma Estranha Realidade, pág. 77

“- Estou com a impressão de que não estamos falando sobre a mesma coisa. Eu não devia ter usado o meu caso como exemplo. O que eu queria dizer era que devia haver alguma coisa no mundo com a qual você se importe e que não seja loucura controlada. Não creio que seja possível a gente continuar a viver se nada realmente nos importa.
- Isso se aplica a você - respondeu. - As coisas importam a você. Perguntou-me acerca de minha loucura controlada e eu lhe disse que tudo o que faço com relação a mim e meus semelhante é loucura, pois nada importa.
- O que eu digo, Dom Juan, é que, se nada lhe importa, como é que você pode continuar a viver?
Riu depois de um momento, em que parecia estar resolvendo se devia ou não responder-me; levantou-se e foi para os fundos da casa. Acompanhei-o.
- Espere, espere, Dom Juan - falei. - Quero mesmo saber; você tem de me explicar o que quer dizer.
- Talvez não seja possível explicar - disse ele. - Certas coisas em sua vida lhe importam porque são importantes; seus atos certamente são importantes para você, mas, para mim, não há mais nenhuma coisa importante, nem os meus atos nem os de meus semelhantes. Mas continuo a viver porque tenho minha vontade. Porque temperei minha vontade em toda minha vida, até ela se tornar limpa e sadia, e agora não mais me importa o fato de nada importar. Minha vontade controla a loucura de minha vida.
Agachou-se e passou os dedos por umas ervas que tinha posto a secar ao Sol num pedaço de pano.
Eu estava confuso. Jamais poderia ter antecipado o rumo que minha pergunta tomaria. Depois de algum tempo, pensei num bom argumento. Disse-lhe que, em minha opinião, alguns dos atos de meus semelhantes tinham a maior importância. Observei que a guerra nuclear era positivamente o exemplo mais dramático de um desses atos. Disse que, para mim, a destruição da vida na face da terra era um ato de uma enormidade arrasante.
- Você crê nisso porque está pensando. Está pensando na vida - disse Dom Juan, com um brilho nos olhos. - Não está vendo.
- Eu sentiria outra coisa se estivesse vendo? - perguntei.
- Quando o homem aprender a ver, ele se encontra sozinho no mundo, apenas com a loucura - disse Dom Juan, misteriosamente. Parou um momento e olhou para mim como se quisesse avaliar o efeito de suas palavras. - Seus atos, bem como os atos de seus semelhantes em geral, parecem-lhe importantes porque você aprendeu a pensar que são importantes.
Ele usou a palavra "aprendeu" com uma entonação tão especial que me levou a perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Parou de mexer nas plantas e olhou para mim.
- Aprendemos a pensar sobre tudo - disse ele - e depois exercitamos nossos olhos para olharem como pensamos a respeito das coisas que olhamos. Olhamos para nós mesmos já pensando que somos importantes. E, por isso, temos de sentir-nos importantes!
Mas quando o homem aprende a ver, entende que não pode mais pensar a respeito das coisas que ele olha, e se não pode mais pensar sobre as coisas que olha, tudo fica sem importância.”
Uma Estranha Realidade, pág. 78

“- Aquilo que você me disse hoje à tarde sobre a loucura controlada me perturbou muito. Não consigo compreender o que você queria dizer.
- Claro que não consegue compreender - falou. - Você está tentando pensar a respeito, e o que eu disse não se coaduna com seus pensamentos.
- Estou tentando pensar a respeito, porque esse é o único meio pelo qual eu, pessoalmente, consigo entender alguma coisa. Por exemplo, Dom Juan, quer dizer que uma vez que o homem aprenda a ver, tudo no mundo passa a ser sem valor?
- Eu não disse sem valor. Falei sem importância. Tudo é igual, e dessa forma sem importância. Por exemplo, não há meio de eu dizer que meus atos sejam mais importantes do que os seus, ou que uma coisa seja mais essencial do que outra; e, portanto, todas as coisas são iguais, e sendo iguais são sem importância.
 Perguntei-lhe se suas declarações eram uma afirmação de que o que ele chamara de "ver" era realmente um "meio melhor" do que apenas "olhar para as coisas". Ele disse que os olhos do homem podiam desempenhar ambas as funções, mas que nenhuma das duas era melhor do que a outra; no entanto, treinar os olhos apenas para olhar, para ele, era um desperdício desnecessário.
- Por exemplo, precisamos olhar com nossos olhos para rir - disse ele - porque só quando olhamos para as coisas é que pegamos o lado engraçado do mundo. Por outro lado, quando os nossos olhos vêem, tudo é tão igual que nada é engraçado.
- Quer dizer, Dom Juan, que o homem que vê nunca pode rir?
Ficou calado por algum tempo.
- Talvez haja homens de conhecimento que nunca riem falou. - Mas não conheço nenhum. Aqueles que eu conheço vêem e olham, de modo que riem.
- Um homem de conhecimento também pode chorar?
- Suponho que sim. Nossos olhos olham, de modo que podemos rir, ou chorar ou regozijar-nos, ou ficar tristes, ou felizes. Pessoalmente não gosto de ficar triste, de modo que sempre que presencio alguma coisa que normalmente me entristeceria, limito-me a mudar meus olhos e vejo a coisa, em vez de simplesmente olhar para ela. Mas quando encontro alguma coisa engraçada, eu olho e rio.”
Uma Estranha Realidade, pág. 80

“- Há muitos homens de conhecimento que fazem isso - falou. - Um dia eles podem simplesmente desaparecer. As pessoas podem pensar que eles caíram numa emboscada e foram mortos por causa de seus atos. Preferem morrer porque não se importam. Por outro lado, prefiro viver e rir, não porque importe, mas porque essa escolha é de minha natureza. O motivo por que digo que prefiro, é que eu vejo, mas não é que prefira viver; minha vontade me faz continuar a viver a despeito de tudo o que eu possa ver. Você não me está entendendo agora por causa de seu hábito de pensar enquanto pensa.
Essa declaração me intrigou muito. Pedi que ele explicasse o que queria dizer. Repetiu a mesma frase várias vezes, como que se dando tempo para arrumá-la em termos diferentes, e depois expôs seu argumento, afirmando que, por "pensar", ele queria dizer a ideia constante que temos de tudo no mundo. Disse que "ver" eliminava esse hábito e até eu aprender a "ver" eu não podia realmente compreender o que ele queria dizer.
- Mas se nada tem importância, Dom Juan, por que importa que eu aprenda a ver?
- Já lhe disse uma vez que nosso destino como homem é aprender, para melhor ou pior - afirmou. - Aprendi a ver e lhe digo que nada realmente importa. Agora é sua vez. Talvez algum dia você aprenda a ver e então saberá se as coisas importam ou não. Para mim nada importa, mas talvez para você tudo importará. Você já devia saber que um homem de conhecimento vive pelos atos, não por pensar nos atos, e não por pensar no que vai pensar depois que acabar de agir. Um homem de conhecimento escolhe um caminho de coração e o segue; e depois olha e se regozija e ri; e então ele vê e sabe. Sabe que sua vida terminará muito depressa; sabe que ele, como todos os outros, não vai a parte alguma; sabe, por que vê, que nada é mais importante do que qualquer outra coisa. Em outras palavras, um homem de conhecimento não tem honra, nem dignidade, nem família, nem nome, nem prática, mas apenas a vida a ser vivida, e, nessas circunstâncias, sua única ligação com seus semelhantes é sua loucura controlada. Assim, o homem de conhecimento se esforça, transpira e bufa; e, se se olhar para ele, parece um homem comum, só que tem que a loucura de sua vida está controlada. Como nada é mais importante do que outra coisa qualquer, um homem de conhecimento escolhe qualquer ato e age como se lhe importasse. Sua loucura controlada o leva a dizer que o que ele faz importa e o faz agir como se importasse, e no entanto ele sabe que não é assim; de modo que, quando pratica seus atos, ele se retira em paz, e quer seus atos sejam bons ou maus, deem certo ou não, isso não o afeta de todo.
"Um homem de conhecimento pode preferir, por outro lado, permanecer totalmente impassível e nunca agir, e comportar-se como se ser impassível realmente lhe importasse; ele também será sincero agindo assim, pois isso também seria sua loucura controlada”.
Uma Estranha Realidade, pág. 82

“- Você pensa em seus atos - falou. - E, portanto, tem de acreditar que seus atos são tão importantes quanto você pensa que são, quando, na realidade, nada do que se faz é importante. Nada! Mas então, se nada importa realmente, conforme você me perguntou, como posso continuar a viver? Seria mais simples morrer; é isso que você diz e acredita, pois está pensando na vida, assim como agora está pensando em como seria ver. Queria que eu o descrevesse para você para poder começar a pensar a respeito, assim como faz com tudo o mais. No caso de ver, contudo, pensar não é a questão, em absoluto, de modo que não lhe posso dizer como é ver. Agora, quer que eu descreva os motivos de minha loucura controlada, e só lhe posso dizer que a loucura controlada é muito parecida com ver: é uma coisa sobre a qual não se pode pensar.
Ele bocejou. Deitou-se de costas e esticou os braços e as pernas. Os ossos dele estalaram.
- Esteve fora muito tempo - disse ele. - Você pensa demais.
Levantou-se e foi para o chaparral espesso ao lado da casa. Alimentei o fogo, para conservar a panela fervendo. Já ia acender um lampião de querosene, mas a penumbra era muito calmante. O fogo do fogão, que dava luz suficiente para eu escrever, também criava uma luminosidade vermelha em volta de mim. Larguei minhas notas no chão e deitei-me. Estava cansado. De toda essa conversa com Dom Juan, a única coisa pungente em meu espírito era que ele não ligava para mim; aquilo me perturbou muito. Durante vários anos, eu depositara confiança completa nele. Se não tivesse essa confiança, eu teria ficado paralisado de medo com a ideia de aprender o conhecimento dele; a premissa em que eu baseara minha confiança era a ideia de que ele me apreciava pessoalmente; na verdade, eu sempre o temera, mas controlava meu medo porque confiava nele. Quando tirou aquela base, fiquei sem nada para me apoiar e senti-me desamparado.”
Uma Estranha Realidade, pág. 83

“Falei a Dom Juan que meu conflito era oriundo das dúvidas suscitadas pelas palavras dele a respeito da loucura controlada.
- Se nada importa realmente - disse eu - ao se tornar um homem de conhecimento, a pessoa se encontrará forçosamente tão vazia quanto meu amigo, e numa situação nada melhor.
- Isso não é verdade - replicou Dom Juan, num tom cortante. - Seu amigo está solitário porque há de morrer sem ver. Em sua vida, apenas envelheceu e agora tem de ter mais pena de si ainda do que antes. Sente que jogou fora 40 anos porque andou atrás de vitórias e só encontrou derrotas. Nunca há de saber que ser vitorioso e ser derrotado são a mesma coisa.
"Então, agora tem medo de mim porque eu lhe disse que você é igual a tudo o mais. Está sendo infantil. Nosso destino como homens é aprender e a gente procura o conhecimento como vai para a guerra; já lhe disse uma centena de vezes. Vai-se ao conhecimento ou à guerra com medo, com respeito, sabendo que se vai à guerra, e com uma confiança absoluta em si mesmo. Deposite sua confiança em si, não em mim”.
"E então você teme o vazio da vida de seu amigo. Mas não existe vazio na vida de um homem de conhecimento, posso garantir-lhe. Tudo está cheio até à borda”.
Dom Juan levantou-se e esticou os braços, como se estivesse tocando em coisas no ar.
"Tudo está cheio até à borda - repetiu ele - e tudo é igual.
Não sou como seu amigo que apenas envelheceu. Quando lhe digo  que nada importa, não o digo do jeito que ele o faz. Para ele, sua luta não valeu a pena porque ele foi vencido; para mim não há vitória, nem derrota, nem vazio. Tudo está cheio até à borda; tudo é igual, e minha luta valeu a pena”.
"A fim de se tornar um homem de conhecimento, a pessoa tem de ser um guerreiro, não uma criança choramingas. E preciso lutar sem desistir, sem reclamar, sem hesitar, até ver, só para compreender então que nada importa.”
Uma Estranha Realidade, pág. 85

“- Você se preocupa demais em gostar das pessoas ou em pensar se gostam de você - falou. - Um homem de conhecimento gosta e pronto. Gosta daquilo ou da pessoa que quer, mas utiliza sua loucura controlada para não se preocupar com isso. O oposto do que você está fazendo agora. Gostar das pessoas ou ser apreciado por elas não é tudo o que se pode fazer, como homem.
. Ficou olhando fixamente para mim, com a cabeça inclinada para um lado.
- Pense nisso - disse ele.
- Há mais uma coisa que desejo perguntar, Dom Juan. Você falou que temos de olhar com nossos olhos para rir, mas acredito que rimos porque pensamos. Veja um cego, ele também ri.
- Não - respondeu. - Os cegos não riem. Seus corpos estremecem um pouco com o riso. Nunca viram a parte engraçada do mundo, e têm de imaginá-la. O riso deles não é uma gargalhada.
Não conversamos mais. Eu tinha uma sensação de bem-estar, de felicidade. Comemos em silêncio; depois, Dom Juan começou a rir. Eu estava usando um galho seco para pôr os legumes na boca.”
Uma Estranha Realidade, pág. 86

“- Como é que um homem de conhecimento pratica a loucura controlada, quando se trata da morte de uma pessoa que ele ama?
Dom Juan foi colhido de surpresa por minha pergunta e olhou para mim de modo estranho.
- Veja seu neto, Lucio, por exemplo - disse eu. – Seus atos seriam loucura controlada, no momento da morte dele?
- Veja meu filho Eulálio, é um exemplo melhor - respondeu Dom Juan, calmamente. - Foi esmagado pelas pedras quando trabalhava na construção da Estrada de Rodagem Pan-Americana. Meus atos para com ele no momento de sua morte foram loucura controlada. Quando cheguei à área das explosões, ele estava quase morto, mas o corpo dele era tão forte que continuava a se mexer e dar pontapés. Fiquei diante dele e disse aos rapazes da turma da estrada para não mexerem mais nele; obedeceram-me e ficaram ali em volta de meu filho, olhando para o corpo estraçalhado. Também fiquei ali, mas não olhei. Desviei os olhos para poder ver sua vida pessoal se desintegrando, expandindo-se incontrolavelmente além de seus limites, como uma neblina de cristais, pois é assim que a vida e a morte se misturam e expandem. Foi o que fiz no momento da morte de meu filho. E só isso que se poderia fazer, e isso é loucura controlada. Se eu tivesse olhado para ele, teria visto que ele ficava imóvel e teria sentido um grito dentro de mim, pois nunca mais havia eu de ver sua bela figura andando pela terra. Em vez disso, eu vi a morte dele, e não houve tristeza, nem sentimento algum. Sua morte foi igual a tudo o mais.
Dom Juan foi calado por algum tempo. Parecia triste, mas depois sorriu e bateu na minha cabeça.
- Por isso você pode dizer que, quando se trata da morte de uma pessoa que eu amo, minha loucura controlada consiste em desviar o olhar.
 Pensei nas pessoas que eu mesmo amo e uma onda de autocomiseração terrivelmente opressiva me envolveu.
- Sorte a sua Dom Juan - falei. - Pode desviar o olhar, mas eu só posso olhar.
Ele achou graça naquilo e riu.
- Sorte, uma bosta! É trabalho duro.”
Uma Estranha Realidade, pág. 87

“- Se entendi corretamente, Dom Juan, os únicos atos na vida de um homem de conhecimento que não são loucura controlada são aqueles que ele pratica com seu aliado ou com Mescalito. Certo?
- Certo - respondeu, rindo. - Meu aliado e Mescalito não estão num plano de igualdade conosco, os seres humanos. Minha loucura controlada só se aplica a mim e aos atos que pratico quando em companhia de meus semelhantes.
- No entanto, é uma possibilidade lógica - falei - pensar que um homem de conhecimento também considera seus atos com seu aliado ou com Mescalito como loucura controlada, não é verdade?
Olhou-me por um momento.
- Você está pensando outra vez - disse ele. - Um homem de conhecimento não pensa e, portanto, não pode encontrar essa possibilidade. Veja meu caso, por exemplo. Digo que minha loucura controlada aplica-se aos atos que pratiquei em companhia de meus semelhantes; digo isso porque eu posso ver meus semelhantes. No entanto, não posso ver através de meu aliado e isso torna a coisa incompreensível para mim; dessa forma, como poderia eu controlar minha loucura se não vejo através dele? Com meu aliado ou com Mescalito sou apenas um homem que sabe ver e que fica confuso com o que vê; um homem que sabe que nunca há de compreender tudo o que o cerca.
"Veja seu caso, por exemplo. A mim não importa que você se torne um homem de conhecimento ou não; no entanto, isso importa a Mescalito. Obviamente, importa a ele, senão não faria tanta coisa para mostrar seu interesse por você. Observo o interesse dele e ajo nesse sentido, no entanto seus motivos me são incompreensíveis."
Uma Estranha Realidade, pág. 88

“- Seja bem-vindo à minha humilde cabana - disse ele, em tom de desculpas, em espanhol.
As palavras dele eram uma expressão cortês que eu já ouvira em várias regiões rurais do México. No entanto, ao pronunciá-las, ele sorriu alegremente, por nenhum motivo aparente, e eu sabia que ele estava pondo em prática a sua loucura controlada. Não se im¬portava a mínima que sua casa fosse uma cabana. Gostei muito de Dom Genaro.”
Uma Estranha Realidade, pág. 90

“Um assunto secundário que surgiu no curso de nossa interação com os guerreiros de Dom Juan foi o da loucura controlada. Dom Juan me deu uma explicação sucinta uma vez quando discutia as duas categorias nas quais todas as mulheres guerreiras eram necessariamente divididas, as sonhadoras e as espreitadoras. Disse que todos os membros do seu grupo sonhavam e espreitavam como ações habituais de suas vidas diárias, mas que as mulheres que formavam o planeta das sonhadoras e o planeta das espreitadoras eram as grandes autoridades nas suas respectivas atividades.
As espreitadoras eram as que recebiam o impacto do mundo diário; as gerentes de negócios, as que lidavam com as pessoas. Tudo que se relacionava ao mundo de assuntos comuns passava por elas. As espreitadoras eram praticantes da loucura controlada, assim como as sonhadoras eram praticantes do sonho. Em outras palavras, a loucura controlada é a base da espreita, e os sonhos são a base do sonhar. Dom Juan disse que, de um modo geral, a maior realização de um guerreiro na segunda atenção era sonhar, e na primeira atenção, espreitar.
Eu tinha compreendido mal o que os guerreiros de Dom Juan tinham feito comigo em nossos primeiros encontros. Tomei as atitudes deles como atos de trapaça - e essa ainda seria minha impressão hoje se não fosse a ideia da loucura controlada. Dom Juan falou que as suas atitudes comigo tinham sido lições de mestre em espreita. Disse-me que a arte da espreita era o que seu benfeitor tinha lhe ensinado antes de qualquer outra coisa. A fim de sobreviver entre os guerreiros do seu benfeitor ele tivera de aprender aquela arte rapidamente. No meu caso, disse, já que eu não tive de me bater por mim mesmo com os seus guerreiros, tive de aprender a sonhar primeiro. Quando chegava o momento adequado, Florinda saía para me guiar nas complexidades de espreitar. Ninguém mais podia falar deliberadamente comigo sobre isso; podiam apenas me dar demonstrações diretas, como fizeram em nossos primeiros encontros.
Dom Juan explicou longamente que Florinda era uma das melhores praticantes da espreita por ter sido treinada em toda a sua complexidade pelo seu benfeitor e suas quatro guerreiras espreitadoras. Florinda foi a primeira guerreira a chegar ao mundo de Dom Juan, e por isso ela era minha guia pessoal- não só na arte da espreita, mas também no mistério da terceira atenção, se eu algum dia chegasse lá. Dom Juan não fez declarações sobre isso. Disse que eu teria de esperar até estar pronto, primeiro para aprender a espreitar e depois para entrar na terceira atenção.
Falou que seu benfeitor tinha concedido tempo e cuidado especiais para ele e seus guerreiros em relação a tudo que pertencia ao aperfeiçoamento da arte de espreitar. Usava técnicas complexas para criar um contexto apropriado para uma contrapartida entre os ditames do regulamento e o comportamento dos guerreiros no seu mundo diário, quando eles interagiam com as pessoas. Acreditava ser essa a forma de convencê-los de que, na ausência da auto-importância, o único modo de um guerreiro lidar com o meio social era em termos de loucura controlada.
Ao longo do desenvolvimento de suas técnicas, o benfeitor de Dom Juan lançava as ações das pessoas e as ações dos guerreiros contra as exigências do regulamento, e então se retirava e deixava o drama natural se desenrolar por si próprio. A loucura das pessoas tomava a frente por algum tempo e arrastava os guerreiros consigo, como parece ser o curso natural das coisas, e só se recompunha no final, com os desígnios mais abrangentes do regulamento.
Dom Juan nos disse que a princípio ele se ressentira do controle do seu benfeitor sobre os participantes. Chegou a dizer isso na cara dele, mas ele não se perturbou. Argumentou que o controle era meramente uma ilusão criada pela Águia. Ele era apenas um guerreiro impecável, e suas ações eram uma humilde tentativa de refletir a Águia.
Dom Juan disse que a força com a qual o seu benfeitor desempenhava seus desígnios originava-se de seu conhecimento de que a Águia é real e final, e que o que as pessoas fazem é de extrema loucura. Os dois juntos deram origem à loucura controlada, que o benfeitor de Dom Juan descrevia como a única ponte entre a loucura das pessoas e a finalidade dos ditames da Águia.”
O Presente da Águia, pág. 169

“Florinda foi a primeira guerreira. Foi seguida de Zoila, Delia e depois Hermelinda. Dom Juan disse que seu benfeitor tinha insistido sem cessar para que eles lidassem com o mundo exclusivamente em termos de loucura controlada. O resultado final foi um grupo estupendo de praticantes, que pensavam e executavam os esquemas mais complexos.
Quando todos tinham adquirido um grau de eficiência na arte de espreita, seu benfeitor achou que era hora de encontrar a mulher nagual para eles. Fiel a seu método de ajudar a todos a ajudarem a si próprios, esperou para trazê-la ao mundo deles quando todos fossem peritos na espreita e quando Dom Juan aprendesse a ver. Embora Dom Juan se queixasse enormemente do tempo desperdiçado na espera, reconheceu que o esforço reunido deles em garanti-la criara um laço mais forte entre todos, revitalizando o compromisso da busca de liberdade.”
O Presente da Águia, pág. 170

“Ela declarou que essas eram as preliminares essenciais da espreita
que todos os membros do seu grupo tinham passado como introdução a exercícios mais apurados da arte. Sem fazer os exercícios preliminares para recuperar os filamentos deixados no mundo, e particularmente para desprezar os que os outros deixaram neles, não há possibilidade de manipular a loucura controlada, pois esses filamentos estranhos são a base da capacidade ilimitada de auto-importância de uma pessoa. Para exercitar a loucura controlada, já que ela não visa a enganar ou punir as pessoas ou se sentir superior a elas, tem-se de ser capaz de rir de si próprio. Florinda disse que um dos resultados de uma recapitulação detalhada é a graça de se ver face a face com a repetição monótona da auto-estima de alguém, que está no cerne de toda a interação humana.
Ela enfatizou que o regulamento definia a espreita e o sonho como artes, portanto, a serem representadas. Disse que a natureza produtora de vida da respiração é também o que dá sua capacidade de limpeza. É essa capacidade que faz da recapitulação uma questão prática.”
O Presente da Águia, pág. 228

“Florinda se impressionava muito com o último princípio. Para ela ele resumia tudo o que ela queria dizer a mim nas suas instruções de última hora.
- Meu benfeitor era o chefe - disse Florinda. - Assim mesmo, olhando para ele ninguém acreditaria. Sempre usava uma de suas guerreiras como fachada, misturando-se livremente entre os doentes, fingindo ser um deles, ou fazendo-se passar por um velho idiota varrendo as folhas secas com uma vassoura improvisada.
Florinda explicou que para aplicar o sétimo princípio da arte de espreitar, tem-se de aplicar os outros seis. Assim, seu benfeitor ficava sempre por trás dos bastidores. Graças a isso ele era capaz de evitar ou aparar conflitos. Se houvesse discórdia, nunca era com ele e sim com a guerreira que estivesse servindo de fachada.
- Espero que você tenha percebido a essa altura - continuou ela - que só um mestre em espreita pode ser um mestre em loucura controlada. A loucura controlada não significa o estudo das pessoas. Significa, como meu benfeitor explicou, que os guerreiros aplicam os sete princípios básicos da arte de espreitar a tudo o que fazem, desde os atos mais simples até situações sérias de vida e de morte. A aplicação desses princípios redunda em três resultados. O primeiro é que os espreitadores aprendem a nunca se levarem a sério; aprendem a rir de si próprios. Se não se importam de parecer bobos, podem enganar a qualquer um. O segundo é que aprendem a ter uma paciência sem fim. Nunca estão com pressa, nunca se desesperam. E o terceiro é que aprendem a desenvolver uma capacidade infinita de improvisação.”
O Presente da Águia, pág. 231

“Disse que, para os feiticeiros, a espreita era o alicerce sobre o qual tudo o mais que faziam era construído.
- Alguns feiticeiros têm objeção ao termo espreita - continuou -, mas o nome surgiu porque implica comportamento sub-reptício.
"É chamado também a arte da furtividade, mas esse termo é igualmente desafortunado. Nós mesmos, por causa do nosso temperamento não-militante, o chamamos arte da loucura controlada. Você pode chamá-lo como quiser. Entretanto, iremos continuar com o termo espreita uma vez que é tão fácil dizer espreitador e, como meu benfeitor costumava dizer, tão estranho dizer fazedor de loucura controlada.
Eles riram como crianças à menção de seu benfeitor.”
O Poder do Silêncio, pág. 93

“- Na arte de espreitar - continuou Don Juan - há uma técnica que os feiticeiros usam muito: loucura controlada. Segundo eles, a loucura controlada é a única maneira que têm de lidar consigo mesmos, em seu estado de consciência e percepção expandidas, e com todos e tudo no mundo dos afazeres diários.
Don Juan explicou a loucura controlada como a arte do engano controlado ou a arte de fingir estar profundamente imerso na ação - fingindo tão bem que ninguém pudesse distingui-lo da coisa real. A loucura controlada não é um engano direto, mas um modo sofisticado, artístico, de estar separado de tudo permanecendo ao mesmo tempo uma parte de tudo. 
- A loucura controlada é uma arte - continuou Don Juan. - Uma arte que causa muitas preocupações, e muito difícil para se aprender. Muitos feiticeiros não suportam isso, não porque haja alguma coisa inerentemente errada com a arte, mas porque é preciso muita energia para exercê-la.
Don Juan admitiu que a praticava conscienciosamente, embora não gostasse particularmente de fazê-lo, talvez porque seu benfeitor fosse tão adepto a ela. Ou talvez fosse porque sua personalidade - que ele disse ser basicamente tortuosa e mesquinha - simplesmente não tinha agilidade necessária para praticar a loucura controlada.
Olhei para ele com surpresa. Parou de falar e fixou-me com seus olhos maliciosos.
- Na época em que chegamos à feitiçaria, nossa personalidade já está formada - disse, e encolheu os ombros em sinal de resignação - e tudo que podemos fazer é praticar a loucura controlada e rir de nós mesmos.
Senti uma onda de empatia e assegurei-lhe que para mim ele não era de modo algum mesquinho ou tortuoso.
- Mas esta é minha personalidade básica - insistiu. E eu retruquei que não era.
- Os espreitadores que praticam a loucura controlada acreditam que, em questão de personalidade, a raça humana inteira entra em três categorias - disse ele, e sorriu da maneira que sempre fazia quando estava me preparando algo.”
O Poder do Silêncio, pág. 233

“Don Juan perguntou a Tuliúno sobre a aparência de Túlio. Ele respondeu que o nagual Elias sustentava que a aparência era a essência da loucura controlada, e os espreitadores criavam aparência intentando-a, antes que a produzindo com a ajuda de disfarces. Os disfarces criavam aparências artificiais e pareciam falsos aos olhos. Intentar aparências era exclusivamente um exercício para espreitadores.
Tulítre falou em seguida. Disse que as aparências eram solicitadas do espírito. Elas eram pedidas e forçosamente chamadas; nunca eram inventadas de modo racional. A aparência de Túlio precisara ser chamada do espírito. E para facilitar isso, o nagual Elias colocou todos os quatro juntos num pequeno quarto isolado, e ali o espírito falou-lhes. O espírito disse-lhes que primeiro tinham de intentar sua homogeneidade. Após quatro semanas de isolamento total, eles conseguiram a homogeneidade.
O nagual Elias disse que o intento os havia fundido um ao outro e que haviam adquirido a certeza de que sua individualidade passaria despercebida. Agora tinham de chamar a aparência que seria percebida pelo observador. E ocuparam-se, chamando o intento para a aparência dos Túlios que Don Juan vira. Tiveram de trabalhar com muito empenho para aperfeiçoá-la. Focalizaram-se, sob a direção de seu professor, em todos os detalhes que iriam torná-la perfeita.”
O Poder do Silêncio, pág. 247

“Um guerreiro não tem honra, nem dignidade, nem família, nem nome, nem país; ele tem apenas a vida para ser vivida e, nessas circunstâncias, sua única ligação com seus semelhantes é sua loucura controlada.”
A Roda do Tempo, pág. 55

“Como nada é mais importante do que qualquer outra coisa, um guerreiro escolhe qualquer ato e age como se lhe importasse. Sua loucura controlada o faz dizer que o que ele faz importa e o faz agir como se importasse, e contudo ele sabe que não é assim; de modo que, quando completa seus atos, ele se retira em paz e quer seus atos tenham sido bons ou maus, dado certo ou não, isso absolutamente não o preocupa mais.”
A Roda do Tempo, pág. 56

“Um guerreiro pode escolher permanecer totalmente impassível e nunca agir, e comportar-se como se ser impassível realmente lhe importasse; ele também estará certo agindo assim porque isso também seria a sua loucura controlada.”
A Roda do Tempo, pág. 57