domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Kabbalah e o Tarot

As 10 emanações luminosas

Cartas de paus - Tarô de Marselha
Para os menos exigentes, o título poderia ser "A Cabala e o Tarô", como aliás se escreve em Português. São duas tradições convergentes que começaram a ser casadas entre si por um grande estudioso, Eliphas Levy (Alphonse Louis Constant) como veremos adiante. É bom lembrar que o Tarô é composto de duas vertentes, Arcanos Maiores e Menores, e que a palavra Arcano significa segredo, mistério, oculto.
Segundo o mais completo e sério livro conhecido sobre Tarô, o “Meditações Sobre os 22  Arcanos Maiores do Tarô”,de autor voluntariamente anônimo, os Arcanos Maiores são 22 cartas, representações simbólicas de um conhecimento secreto sobre o Ser e o Universo.  Como tal, fala de arquétipos e princípios  místicos, gnósticos e mágicos. Já os Arcanos Menores, 56 cartas na forma primitiva do baralho de jogar, como é conhecido atualmente, fala de situações do cotidiano e portanto presta-se mais a atender à busca de respostas não conceituais, filosóficas e metafísicas mas sim aquelas práticas do tipo  “E agora? Como é que eu faço?”
Vamos lá:

“Atualmente, existem vários métodos para a leitura de Tarô. Muitos métodos modernos foram desenvolvidos e estão em uso revelando os segredos dos arcanos menores ou auxiliares. Estes variados métodos surgiram de diversas fontes, uma delas é a Kabbalah. Este artigo propõe discutir alguns aspectos básicos da origem e o modo de usar os arcanos menores através de princípios kabalísticos. Por serem princípios profundos é certo que, neste trabalho, o assunto não será tratado de forma completa. Se o leitor julga que entende de Kabbalah é possível que se surpreenda com o trabalho, mas se não entende, é um ótimo passo para começar. Mas o que é Kabbalah?

Kabbalah (que significa literalmente “receber” em hebraico) é uma filosofia de parte do Judaísmo Místico. Entretanto, para os kabalistas, a Kabbalah vem antes do Judaísmo e, na verdade, é a origem de todos os sistemas religiosos incluindo Judaísmo. Hoje em dia, é definida como uma tecnologia para alma que dá suporte aos sistemas religiosos, tradições e filosofias de vida. Dessa forma, a mesma não é caracterizada como religião, mas como suporte às religiões. Até pouco tempo atrás, muitos dos trabalhos escritos relacionavam este “receber” a transmissão oral de conhecimentos entre mestre e discípulo na tradição dos judeus kabalistas, pois por vários milênios a Kabbalah permaneceu restrita à somente homens de certa idade (normalmente acima dos 40). Na verdade, este “receber” é relativo à nossa natureza de receber em relação ao Criador e a forma como o mesmo criou o universo. O que é tema para outro artigo. Para entender a Kabbalah, é necessário beber da fonte, ou seja, buscar entender a linha de raciocínio de linhagens kabalistas e praticar.  Por quê?
Eliphas Levi (1810-75)

Segundo Nei Naiff (pesquisador brasileiro de História do Tarô) em seu “Curso Completo de Tarô” de 2001, Eliphas Levi (o maior ocultista do século XIX) foi o primeiro kabalista a associar Tarô com Kabbalah. Em seguida, vários autores e praticantes usaram métodos e princípios kabalísticos para desvendar o Tarô e diversos conceitos atuais tem sua origem em trabalhos de kabalistas europeus que eram também filósofos ocultistas. A questão é que o pensamento ocultista do século XIX tem influências fortes de outras culturas, como: helenismo, cristianismo, hermetismo e as descobertas deste mesmo século, por exemplo.
Sem dúvida, essa influência foi necessária, pois neste período muito do conhecimento profundo da Kabbalah era restrito a judeus kabalistas e não era de conhecimento geral. Seu jargão sempre foi particular e complexo. Em resumo, outros conhecimentos respondiam a questões que o entendimento kabalístico geral não respondia. A base do conhecimento kabalístico dos judeus místicos e dos filósofos ocultistas é bem diferente em cerne, o que não os faz menos kabalistas, pelo contrário, seus trabalhos são fantásticos. Hoje temos amplo acesso a esse conhecimento. Embora seja em partes ensinado nas ordens discretas como a Maçonaria, pode ser melhor entendido e praticado em escolas de linhagens kabalistas. 
Os arcanos menores ou auxiliares são divididos em quatro séries (naipes) de quatorze cartas. Dez representam números inteiros (1/Ás ao 10, como no baralho comum) e quatro representam estágios específicos da vida: adulto, adulta, jovem e criança ou médico, médica, médico residente e estudante, são alguns exemplos. Estes são chamados de “A Corte”.
A Corte pode ser usada para definir características de envolvidos no assunto da leitura: colegas de trabalho, filhos e filhas, esposo e esposa, chefes, autoridades
espirituais, autoridades temporais, funcionários e funcionárias, entre outros. Igualmente é possível descobrir o papel e comportamento do envolvido em relação ao assunto, como se vê nos estudos dos naipes.
Para os kabalistas europeus estes naipes seguem o padrão do mais poderoso nome de Deus, o Tetragrama (Tetragrammaton: YHVH –> Iud, Hey, Vav e Hey) e é um ponto de dúvidas interessantes.
Tetragrammaton - lê-se a partir da esquerda
Antes de observar os arcanos menores é importante entender o que é, de fato, o Tetragrama. Para os kabalistas, as letras hebraicas são representações de energias subatômicas que criaram o universo. São como sementes de enormes árvores, algo tão pequeno que tem potencial para gerar algo tão grande. Esta ideia é corroborada pelos mais importantes livros kabalísticos o Sefêr Yetzirá e o Zohar. As letras servem como pontos de conexão entre o finito (nossa realidade) e o infinito (o criador e sua realidade), já que para se conectar a essas energias é necessário ter algum canal (as mesmas) que permitisse compreensão (o finito compreender o infinito).
Essas energias atuam eternamente no universo e passam por vários filtros e processos que dão origem a diversidade de coisas que existem e conhecemos. A criação descrita na bíblia ocorre todos os dias. Dessa forma, o Tetragrama é considerado uma combinação de energias de altíssimo nível que descrevem a nossa realidade em nível subatômico e a modifica através de alguns processos. Este nome é usado de diversas formas, porém além do Tarô é tema para outro artigo.
Basicamente, o Tetragrama exprime:

Y (Yud): As grandes ideias, o potencial da semente, a energia que a faz germinar. Ainda sem manifestação. Uma força de compartilhar.

H (Hey): Normalmente, é associada à contraposição da ideia, a resistência. No entanto, é necessário ampliar a consciência e perceber em outra perspectiva. É o aviso, a preparação e amadurecimento da ideia, não uma resistência em si, é um receptor. Uma capacidade de receber. Um encaixe.

V (Vav): É a manifestação da ideia em potencial. O palpável da ideia se manifestando por encontro da força de compartilhar com a capacidade de receber. Pode ser o processo ou a manifestação direta.

H (Hey): Trata-se da colheita dos frutos, a capacidade de uso, o destino final do que foi concluído.

Entre os kabalistas a associação com os naipes variam, mas é o comum encontrar: Paus (Yud), Copas (primeiro Hey), Espadas (Vav) e Ouros (segundo Hey). Por que duas letras Hey? Em linhas gerais, as letras hebraicas são  vibrações  que representam as múltiplas energias da criação e a primeira difere da segunda sutilmente em profundidade (energias diferentes). As letras hebraicas possuem múltiplas facetas e diversos livros que a descrevem. Também é tema para outro artigo. 
Neste caso, as cartas do naipe de Paus podem representar as possibilidades, a ideia em nível de semente. O que se busca, o desejo em si, a forma de compartilhar, a intenção do desejo, a conexão com o todo. Já as cartas de Copas a recepção dessa intenção ou desejo, a interação dessa ideia com a capacidade de se manifestar e todo contexto em volta. Nessa perspectiva, as cartas de Espadas demonstram a manifestação dessas ideias, o labor e o processo para a manifestação das mesmas, a luta para concretizar o desejo, a execução de um plano, por exemplo. Enfim, as cartas de Ouros representam os frutos colhidos após a conclusão da ideia. Como aproveitar a colheita? Como dar direção ou continuidade ao que foi concluído? Qual a forma correta de compartilhar? São alguns exemplos.
Finalmente, sobre as cartas numeradas. Os dígitos para os kabalistas são fundamentais, não existe Kabbalah sem os números. Entretanto, nesse caso em específico os kabalistas europeus associaram as cartas dos arcanos menores ao diagrama da Árvore da Vida ou as Dez Emanações Luminosas (do hebraico: Etz Chaim).  Outro ponto de dúvidas interessantes.
Em termos gerais, a Árvore da Vida dos kabalistas é um diagrama de múltiplas interpretações e paradigmas que descreve todas as energias, as relações entre as mesmas. Fala de nossa realidade e de outras realidades. Basicamente, para os kabalistas, o Criador é uma infinita força de compartilhar plenitude e nós infinita força de receber. O que é compartilhado entre essas força é chamado de Luz no jargão kabalístico (porque seus conceitos se assemelham aos conceitos da luz física), Luz Espiritual. As emanações luminosas (cada círculo no diagrama) são filtros que modificam a luz e acabam afetando a percepção dela por nós. Nós somos o último círculo em baixo (Malchut, Reino). Na realidade, a Árvore da Vida dos kabalistas é algo realmente muito complexo.
Existem muitos artigos sobre As Dez Emanações Luminosas. Obviamente, esse diagrama é a ponta do iceberg. Este é outro conhecimento que dentro da filosofia oculta teve muita influência de outras culturas perdendo um pouco de seus conceitos originais. O diagrama em si pode se tornar apenas um conjunto de conceitos pouco práticos em algumas perspectivas. Ao fundo desse diagrama existem ao menos 125 Partzufim (formas espirituais) profundas que requerem imenso estudo e prática que duram vidas. O proposito da Kabbalah é nos conectar com a realidade da Árvore da Vida. Os dez dígitos são esses dez filtros/véus de luz representados pelos círculos do diagrama. No Tarô, esses círculos correspondem às quatro séries (tetragrama) de dez cartas (emanações) dos arcanos menores.

Então, para usar este diagrama no caso do Tarô:

1 (Emanação da Coroa - Kéter): Para os kabalistas a resposta vem antes da pergunta (na realidade além dos nossos sentidos convencionais). Essa emanação é um filtro com o desejo divino de compartilhar. O poder equilibrador maior. Pode ser interpretada como: desejo divino ou universal, o desejo de nossa alma, a resposta principal, o êxito total, mesmo quando não estamos conscientes do todo.

2 (Emanação da Sabedoria - Chochmá): É a emanação de luz almejada pelos kabalistas em todo o processo. Segundo algumas linhagens, é o máximo que podemos alcançar de luz divina, mas nem todas concordam sobre. Pode ser interpretada, como: a necessidade de prudência, ampliação de consciência, descoberta de novas possibilidades, flexibilidade nos conceitos, busca por mudanças e novas opções, busca por aquilo que está além do nosso alcance e foco nas atividades difíceis, por exemplo.

3 (Emanação do Entendimento – Biná): Esta emanação de luz é a que, em parte (somente parte desse filtro conduz esse trabalho), faz a conexão entre o desejo de compartilhar de Deus com nosso desejo de Receber no nível mais alto. Este nível é alcançado quando nos corrigimos. É a consciência profunda. Pode ser interpretada, como: a resolução de um problema, o profundo entendimento sobre uma solução, a invenção de algo importante, conexão profunda com a espiritualidade ou conexão profunda com o Criador, por exemplo.

4 (Emanação de Misericórdia – Chéssed): A ideia de amor incondicional permeia todas as sabedorias espirituais. Dizem os kabalistas que Deus primeiro criou nosso universo com a energia de Julgamento, mas sentindo que as coisas não iam bem adicionou a energia da Misericórdia que é a única luz capaz de comportar a luz da Sabedoria (Chochmá). Pode ser interpretada, como: amor incondicional, amor profundo, compreensão, desejo de melhorar, capacidade de ajudar restringindo o desejo de receber somente para si mesmo, foco no outro e melhora intensa. São alguns exemplos.

5 (Emanação de Julgamento – Gevurá): Esta luz é uma das energias mais comuns em nossa vida. A energia e rigor do Julgamento são essenciais para nossa realidade, mas quando nos focamos demais na mesma desiquilibramos nossa vida e a dos demais atraindo reações rápidas e brutais para o nosso dia-a-dia. Pode ser interpretada, como: necessidade de movimento, rigor, necessidade de controle, decisões importantes, rigidez de raciocínio, inflexibilidade e impulso para realizações, por exemplo.
6 (Emanação de Beleza – Tiféret): A emanação de luz da beleza no diagrama está na coluna central indicando a beleza do equilíbrio. A beleza, alegria, frequência na percepção das boas coisas, ampliação de consciência nos permitem remover cascas (proteções que atrapalham a percepção da Luz Espiritual). Pode ser interpretada, como: a beleza, a consciência ampliando, a verdade aparecendo, a capacidade de remover o stress e a capacidade de não se prender a problemas, evitar fofocas e falar mal das pessoas etc.

7 (Emanação de Vitória – Nêtzach): Esta emanação luminosa é referente à capacidade de perseverar diante dos obstáculos, força para vencer, coragem para mudar, estímulo para transformar suas próprias negatividades em Luz Espiritual. Pode ser interpretada, como: a luta, perseverança exigida para alcançar os objetivos, a rigidez necessária para alguns casos, vitórias que vem de lutas difíceis.

8 (Emanação de Esplendor/Glória – Hôd): Esta luz está associada à capacidade do ser humano de perceber o todo (o que está além dos seus sentidos convencionais ou a percepção de tempo, espaço e movimento) e a capacidade de espiritualizar-se. Pode ser interpretada, como: o êxito na situação, percepções inovadoras, perfeição e harmonia em certa situação, caminho correto e Luz Espiritual. São alguns exemplos. 

9 (Emanação de Fundação – Yessód): Essa emanação luminosa é a base de conexão entre os seres humanos e a Luz Espiritual é o primeiro passo fora da realidade convencional. Pode ser interpretada, como: a necessidade de compartilhar ou manifestar-se, integrar-se socialmente, auxiliar as pessoas, rever conceitos, espiritualizar-se e desenvolver a consciência de unidade, por exemplo.  

10 (Emanação do Reino – Malchut): Essa emanação representa a Luz que chega a nossa realidade. Pode ser interpretada, como a ordem na nossa realidade que reflete realidades superiores, a pergunta, a percepção atual da situação, como a situação surgiu e foco da situação etc. 

Obviamente, todas as interpretações nos exemplos são exemplos para fixar o conteúdo do artigo, existem inúmeras outras possibilidades. É extremamente importante considerar as cartas relacionadas em jogo e suas combinações para uma interpretação próxima das necessidades do consulente. Embora, as interpretações estejam separadas (Corte, Naipes e Números) fica para o leitor explorar mais cada ideia, combinar, transformar as abstrações do mundo das emanações para informações práticas do mundo da ação. Funciona perfeitamente com adivinhação, embora esta interpretação seja indicada para exercícios filosóficos e estudo pessoal.
Normalmente, os autores recentes procuram separar a Kabbalah dos estudos do Tarô por questões simbólicas. Inicialmente, é o ideal. Entretanto, a Kabbalah está relacionada ao Tarô    independentemente dos seus símbolos porque sua conexão é com toda a criação em si. As influências da Kabbalah na História do Tarô não param por aqui.  Em próximos artigos serão explicados alguns segredos sobre a conexão dos arcanos maiores e a Kabbalah." 

O artigo foi transcrito, e pode ser consultado, no site www.clubedotaro.com.br, do grande amigo Constantino. Para saber mais sobre Tarô, Kabbalah, Budismo, Maçonaria e Espiritualidade acesse também o blog do autor, Pedro Henrique,  em www.pedrohenriquepost.wordpress.com





Nenhum comentário:

Postar um comentário